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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Prodígios associados à morte de Calígula

Calígula, imperador romano (⁵)
Calígula, imperador romano, foi assassinado em 24 de janeiro de 41 d.C. Os romanos da época afirmavam, conforme relatou Suetônio (¹), que vários prodígios (²) serviram de aviso desse acontecimento, dentre os quais:

  • Calígula havia mandado desmontar e levar a Roma a estátua de Zeus (³) que estava em Olímpia, e, quando os trabalhadores, em andaimes, realizavam a tarefa, a própria estátua deu uma gargalhada, os andaimes caíram e os trabalhadores fugiram de medo;
  • Ainda em Olímpia, apareceu, logo em seguida, um homem chamado Cássio, pretendendo sacrificar um touro a Zeus - como se sabe, foi outro, de mesmo nome, Cássio Quereia, quem liderou o grupo que apunhalou Calígula;
  • Um raio atingiu o Capitólio de Cápua nos idos de março, data que recordava a morte de Júlio César em 44 a.C.;
  • Sila, astrólogo a quem Calígula consultava, avisou-o de que morreria em breve;
  • Na véspera de ser assassinado, Calígula teria sonhado que estava no céu e que lá se encontrava com Júpiter (⁴), o qual, ao vê-lo, lhe dava um chute com o dedão do pé direito, arremessando-o de volta à terra. 
Com prodígios ou sem eles, Calígula era, àquela altura, odiado por quase todos em Roma (e fora dela). Não era preciso grande capacidade de adivinhação para saber que, a qualquer momento, sendo as coisas em Roma como eram, alguém acabaria com ele. E foi o que aconteceu. Calígula tinha, então, vinte e nove anos, e seu tempo como imperador não chegou a quatro anos, mas foi o bastante para que ninguém se esquecesse dele. Não eram boas, todavia, as recordações. 

(1) De vita Caesarum, Livro IV. 
(2) Um prodígio era um evento considerado sobrenatural ou profético de que algo importante deveria ocorrer. 
(3) Júpiter, para os romanos).
(4) Júlio César também teria sonhado que se encontrara com Júpiter, e que este lhe estendia a mão direita - bem diferente do sonho de Calígula, portanto. 
(5) Cf. HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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quinta-feira, 11 de maio de 2023

O envelhecimento da Terra e o declínio da agricultura romana

Columella, autor romano do Século I, registrou no Livro Segundo de sua Res rustica uma ideia que, segundo ele, foi defendida por vários escritores ilustres da Antiguidade: a Terra estaria envelhecendo e se tornando improdutiva. 
Acompanhem, leitores, o argumento que, no mínimo, é curioso: comparava-se a Terra, em sua fertilidade, a uma mulher (é a mitologia recorrente da "mãe terra"); ora, assim como as mulheres, quando envelhecem, perdem a capacidade de procriar, a Terra, que ia ficando velha, estaria, pouco a pouco, se tornando estéril, disso resultando a crescente dificuldade em fazê-la produzir como se supunha que ocorrera no passado. 
Embora concordasse com o fato de que as mulheres, ainda que vivessem muito, tinham, pela idade, um limite à capacidade reprodutiva, Columella notou que coisa semelhante não acontecia com as áreas agricultáveis que, quando deixadas por certo tempo sem cultivo, voltavam, posteriormente, a recompensar os esforços de quem plantava. Esse princípio foi aplicado mais tarde, na Idade Média, e contribuiu, como se sabe, para evitar o esgotamento do solo em parte da Europa, à medida que se efetuava um rodízio nas lavouras (chamado de rotação de culturas), evitando a repetição em anos sucessivos de um mesmo cultivo, enquanto, periodicamente, áreas eram deixadas em pousio. 
Agricultores da Antiguidade e Idade Média não podiam contar com as vantagens (e desvantagens) que a moderna indústria química oferece à agricultura. Conheciam, porém, técnicas de fertilização que hoje chamaríamos de orgânicas. Mas, à parte de tudo que já foi dito, é preciso considerar que um outro fator emperrava a agricultura entre os romanos, exatamente pela época em que Columella escreveu: quase todo o trabalho nas lavouras era feito por escravos, que dificilmente mostrariam algum interesse em melhorar as práticas agrícolas - que lucro teriam com isso? 
Daí decorre a inevitável conclusão de que Roma, com a ampliação da mão de obra escrava, que aparentemente deveria favorecer o crescimento na produção, enfrentou situação oposta, tornando-se mais e mais dependente das importações de trigo e outros produtos para alimentar sua população, entre a qual havia um número crescente de trabalhadores livres desocupados. A existência do Império poderia ter sido abreviada, não fora, por exemplo, a produção de trigo do Egito, que atravessava o Mediterrâneo para alimentar as multidões de romanos famintos.


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quinta-feira, 21 de julho de 2022

As conquistas militares, o desenvolvimento do comércio e a vaidade das damas romanas

As conquistas militares de Roma abriram as portas para o comércio em larga escala. A produção dos mais variados lugares afluía à capital do Império. Embarcações que cruzavam o Mediterrâneo se encarregavam de trazer enorme variedade de mercadorias, sem desconsiderar o transporte terrestre, também muito praticado. Mesmo regiões que estavam fora do alcance das armas de Roma acabavam, de algum modo, se relacionando com o Império através do comércio. Floro (¹), um contemporâneo do imperador Adriano, escreveu, no livro IV de Epitome rerum Romanarum, que indianos, em uma viagem até Roma, teriam levado quatro anos. Sua chegada provocou certo alvoroço, pelo interesse no que traziam: pérolas e elefantes (²).
Dama romana não identificada (³)
Em Roma, os tecidos finos, especialmente as sedas do Oriente, eram muito apreciados. Mulheres romanas amavam tecidos coloridos, porque era desse modo que seus trajes se diferenciavam daqueles usados pelos homens. É evidente, também, que tecidos de qualidade eram um fator que dispensava as palavras para esclarecer quem eram as grandes damas da elite econômica. O mundo não mudou tanto assim desde então. Além disso
, mulheres romanas de alta posição social usavam muitas joias, se comparadas à média das mulheres ocidentais na atualidade, mesmo se levarmos em conta apenas o padrão para ocasiões especiais.
De onde vinha tanta riqueza? As conquistas militares explicam parte desse fenômeno, porque foram decisivas para abrir, até pela força, em certos casos, rotas comerciais que possibilitavam o afluxo de artigos de luxo para a grande capital da época. Acrescente-se que era a capacidade militar de Roma que assegurava, em última análise, a paz que permitia a prática do comércio, e ter-se-á um quadro, simplificado, é fato, mas suficiente para o entendimento da relação existente entre as grandes conquistas militares, o desenvolvimento e manutenção de rotas de comércio e a vaidade das damas romanas (⁴). São capazes, leitores, de estabelecer alguma analogia com a atualidade? 

(1) Aneu Floro viveu entre os Séculos I e II.
(2) Cf. FLORO, Aneu. Epitome rerum Romanarum, Livro IV.
(3) Cf. HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 237. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(3) Principalmente nos Séculos I e II, sem exclusão de outras épocas. 


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quinta-feira, 19 de maio de 2022

Costumes dos romanos quanto ao banho

Pela época do Império, os romanos, que foram um povo rústico nos primeiros tempos, haviam adquirido alguns hábitos sofisticados. Entre eles estava o costume de um banho, diariamente, em locais públicos construídos com esse propósito, embora pessoas de alta posição também tivessem recintos para banho em casa.
Sucede, porém, que banhar-se veio a ser, em Roma, muito mais que um hábito de higiene. Era evento social. Os banhos públicos tinham áreas destinadas a homens e a mulheres em separado, com água em várias temperaturas, além de escravos encarregados de massagear e perfumar os frequentadores com óleos e outros cosméticos. A hora do banho era considerada por muitos romanos como especialmente favorável para uma boa conversa com amigos - havia até políticos que preferiam debater assuntos de Estado enquanto mergulhados em água agradavelmente tépida. 
Quando romanos saíam do banho, tinham, geralmente, oportunidade para algumas atividades atléticas, em áreas anexas para isso projetadas. Para os que preferiam exercitar o cérebro, em algumas termas até mesmo uma biblioteca estava disponível. 
Vê-se, pois, que o banho ganhara contornos de ritual. A que horas acontecia? Ao que parece, a maioria dos romanos preferia banhar-se no meio da tarde, antes, portanto, da refeição que acontecia perto do anoitecer e que, em Roma, costumava ser a mais importante do dia. Outros, em menor número, talvez preferissem um bom mergulho em horários de pouco movimento. 
Espalhando seu estilo de vida por regiões conquistadas, os romanos levaram a elas, também, o hábito do banho. Foi o que aconteceu, por exemplo, em Corinto, que, depois de conquistada pelos romanos, tornou-se uma colônia:  "Os coríntios", escreveu Pausânias (¹) em sua Descrição da Grécia, "têm banhos em vários pontos da cidade, e alguns são mantidos às expensas públicas" (²). Coisa semelhante aconteceu em muitas outras localidades onde os costumes romanos se impuseram.

(1) c. 115 - 180 d.C.
(2) PAUSÂNIAS, Descrição da Grécia, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

As galinhas e os loureiros da dinastia júlio-claudiana

É coisa da Roma Antiga e dos romanos, com suas crenças em prodígios e presságios. Augusto, o primeiro imperador, tinha uma propriedade agrícola de que muito gostava, e foi lá que tudo aconteceu. Lívia, que se casara com Augusto, observava uma águia voejando logo acima, quando a poderosa ave deixou cair uma galinha branca, que talvez pretendesse usar no almoço e que, por infelicidade, veio abaixo. Até aqui, nada surpreendente. Agora vem o melhor: a dita galinha não só estava viva, como ainda trazia no bico um verde ramo de loureiro (*). Esqueçam a inverossimilhança, leitores. 
Posteriormente, a galinácea sobrevivente pôs ovos e teve uma multidão de descendentes. Quanto ao ramo de loureiro, Lívia decidiu plantá-lo, e veio a ser uma árvore robusta, de onde os Césares retiravam os ramos que deviam compor as coroas de louros que ostentavam nos triunfos. Cada imperador da dinastia júlio-claudiana, ao ascender ao poder, plantava lá mais um loureiro e - prodígio imperial não se discute - logo se verificou que, pela época da morte de cada um, a respectiva árvore secava. 
Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio... Era o último ano da turbulenta vida de Nero, mas ele ainda não sabia disso. No entanto, lá na fazenda, subitamente, todos os loureiros secaram e todas as galinhas morreram. Quem quiser um relato formal desses notáveis acontecimentos deve ir ao Livro VII de De vita Caesarum, de Suetônio. Para os crédulos em presságios, algo notável (e terrível) estava para ocorrer. Era o fim de uma dinastia.
Há quem suponha que Suetônio, ao incluir essa história em sua obra, estava caçoando das crenças vigentes em Roma. Acho mais provável que, imerso na cultura de seus dias, julgasse perfeitamente razoável a crença tão arraigada em Roma de que certos eventos prediziam o futuro, embora, algumas vezes, só posteriormente é que as pessoas se dessem conta disso, numa espécie de profecia invertida. Era o modo romano de ver e explicar o mundo, tentando encontrar alguma lógica em meio a um cenário que, de outro modo, pareceria caótico.

(*) Laurus nobilis.


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quinta-feira, 29 de julho de 2021

Augusto e os espetáculos públicos em Roma

Em Roma, os espetáculos públicos eram assunto de Estado: esperava-se que impedissem revoltas populares contra a elite político-econômica e contra os governantes, dando ocupação às multidões de homens livres que viviam na ociosidade, já que muito do trabalho era feito por escravos.
Havia espetáculos para quase todos os gostos. Gente pacífica podia se entusiasmar com corridas de bigas, os mais sanguinários dificilmente iriam se queixar das lutas de gladiadores. Houve até quem, para entretenimento, ordenasse a realização de uma batalha naval simulada. Pode-se imaginar o quanto isso tudo afetava o erário. No Império Romano, a paz interna, tanto quanto a externa, era altamente dispendiosa.
Augusto, considerado o primeiro imperador, teve cuidado em fazer realizar espetáculos notáveis, como nenhum outro fizera antes dele. Gostava das lutas, especialmente do pugilato, mas, de acordo com Suetônio (*), sempre que era possível fazer a exibição de um animal incomum, fosse pela ferocidade ou pelas dimensões, não esperava sequer as datas previamente assinaladas para grandes eventos.  Ciente de que o povo romano não apreciava o comportamento de Júlio César, seu antecessor, que chegara a ler e escrever cartas durante os jogos, tal era seu descaso pelo que acontecia, Augusto ia aos espetáculos acompanhado da família e, enquanto assistia, não se ocupava de qualquer outra tarefa. Para governar Roma, era preciso demonstrar interesse pelo que apaixonava os romanos.

(*) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum Livro II.


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quinta-feira, 29 de abril de 2021

Bibliotecas em Roma

A mais famosa das bibliotecas da Antiguidade foi, sem lugar para dúvida, a de Alexandria. Os primitivos romanos, no entanto, estavam longe de ter um amor muito grande por livros, e foi somente quando conquistou a Grécia que Roma veio a saber o que era, de verdade, uma biblioteca: o cônsul Lúcio Emílio Paulo, conhecido como "Macedônico", se apropriou dos livros pertencentes a Perseu, rei da Macedônia. Foi, ao que se sabe, a primeira vez que se viu em Roma algo dessa natureza. 
Júlio César, criador de uma
biblioteca pública em Roma (³)
Mais tarde, Júlio César tomou providências para que Roma tivesse uma biblioteca pública. De acordo com Suetônio (¹), Marco Varrão foi encarregado da aquisição dos livros que deveriam estar disponíveis aos cidadãos. Romanos abastados tinham suas próprias bibliotecas, reuniam amigos para sessões de leitura e aqueles que eram escritores faziam da audição de seus escritos um evento social de importância.
Outra figura política de Roma que deu importância aos livros, também de acordo com Suetônio (²), foi Tibério, o imperador, que, apaixonado que era por certos autores gregos, escreveu poemas que imitavam seu estilo, além de ter ordenado a colocação de retratos desses poetas nas bibliotecas públicas. Locais em que livros estavam disponíveis ao público para leitura e estudo foram, assim, crescendo em número, a ponto de se tornarem comuns até nas termas em que os romanos se banhavam. Depois do banho, das massagens, perfumes e conversa com amigos e conhecidos, vinha, ao menos para os mais cultos, alguma leitura interessante. Tempo, para isso, não era problema: romanos livres tinham-no de sobra.

(1) Cf. De vita Caesarum
(2) Ibid.
(3) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 157. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Augusto, imperador romano, tinha hábitos simples quanto ao vestuário

César Augusto é considerado o primeiro imperador romano. A despeito do alto cargo que ocupava, foi descrito como um homem de hábitos simples. Suetônio, um autor que viveu entre os Séculos I e II e teve acesso à documentação escrita do Império, assim se referiu aos costumes de Augusto em relação ao vestir-se: "Seu vestuário habitual era o de uso doméstico, feito pela irmã, mulher, filha ou netas; usava as togas nem demasiadamente presas, nem muito soltas, com uma faixa de púrpura de largura média, e, quanto ao sapato, usava um que o fizesse mais alto do que era." (¹)
A primeira consideração que extraímos, leitores, é que Augusto não devia ser um homem de estatura elevada. Além disso, mesmo sabendo que o modo de adquirir mercadorias era muito diferente na Antiguidade daquilo que costumamos fazer hoje, pode parecer estranho que a roupa do grande Augusto fosse feita pelas mulheres de sua família. Mas não se surpreendam: de acordo com uma antiga tradição, decorrente do rapto das sabinas, os romanos haviam prometido que o único trabalho que delas seria esperado era o de fiar e tecer. Portanto, ao usar as roupas feitas em casa, César Augusto estava, implicitamente, praticando um costume tradicional da Antiga Roma, que, sob o ponto de vista político, era muito importante evidenciar que respeitava.
Ainda por informação de Suetônio, sabemos que, por ter a saúde frágil, Augusto não suportava a exposição ao sol (²), razão pela qual preferia viajar à noite. Pelo mesmo motivo, quando queria dar um passeio ao ar livre, usava sempre um chapéu de abas largas. Mas, como governante romano que era, a preferência por roupas de uso doméstico eventualmente precisava ser posta de lado, se algum acontecimento o chamava, repentinamente, à vida pública. Por isso, no dizer de Suetônio, "considerando que podia haver imprevistos, tinha sempre prontos em casa uma roupa apropriada para ir à rua e um par de sapatos" (³). Na cidade que se considerava a capital do mundo as emergências não deviam ser poucas.

(1) SUETÔNIO. De vita Caesarum Livro II. Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Talvez desconhecesse os benefícios de uma exposição moderada à luz solar diariamente.
(3) SUETÔNIO, Op. cit., Livro II. 


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quinta-feira, 1 de abril de 2021

Crucificados

Crucifixão de Jesus, obra de
Albrecht Dürer, Século XVI (⁶)
A origem da pena de crucifixão tem sido atribuída aos persas, em decorrência de um relato de Heródoto no Livro VII de Histórias, no qual se diz que Dario, durante as guerras entre persas e gregos (¹), ordenou que um juiz corrupto fosse crucificado. Parece certo, também, que por ordem de outro rei persa, foi crucificado um faraó líbio que governou o Egito. Não está claro, porém, quando essa horrenda forma de execução foi primeiramente usada, e pode nem ter começado na Pérsia, porque, segundo uma inscrição cuneiforme assíria dos dias de Tiglate-Pileser II (²), esse feroz mandatário, no melhor estilo de sua dinastia, fez crucificar um rei que derrotara em combate. Para melhor efeito diante dos inimigos, providenciou que a sentença se cumprisse diante do portão da capital vencida. Tipicamente assírio, não é? Neste caso, a triste primazia do invento teria outros donos, que não os persas.
Foram os romanos, contudo, que, fazendo da crucifixão, ocasionalmente, uma forma de execução em massa, deram a ela o status de pena mais abominável, em razão de provocar morte lenta, acompanhada de sofrimento intenso e da execração pública. Foi o que sucedeu, por exemplo, no final da rebelião de escravos conhecida como Revolta de Espártaco (³), quando os capturados vivos foram crucificados coletivamente, formando as cruzes uma verdadeira floresta, entre as quais era impossível a alguém caminhar em linha reta. 
Crucifixões em massa também ocorreram, segundo Flávio Josefo, durante a campanha romana de Tito em 70 d.C., que culminou com a destruição de Jerusalém. Devido à completa falta de alimentos na cidade sitiada, muitos judeus tentavam conseguir comida do lado de fora e eram capturados por soldados romanos, chegando seu número a uns quinhentos por dia. Tito não via o que fazer com eles e, assim, decidiu que fossem crucificados. A situação teria chegado a tal ponto que já não havia cruzes disponíveis e nem lugar para afixá-las, tal era a quantidade de supliciados (⁴).
Crucifixão de Jesus, obra de Gustave Doré,
Século XIX (⁶)
Mais comum, no entanto, era a execução de uma só pessoa. Suetônio, em De vita Caesarum, refere a crucifixão, sob as ordens de Galba, de um tutor que assassinara o pupilo para se apropriar da herança. Sentença idêntica foi aplicada a um tesoureiro de Domiciano. O caso mais curioso, talvez, relatado ainda por Suetônio, relaciona-se a uma ocasião em que Júlio César conseguiu capturar piratas  que, anteriormente, haviam-no aprisionado no Mediterrâneo, exigindo um resgate para libertá-lo:
"Teve ocasião de vingar-se, ao capturar os piratas que o haviam aprisionado, mas como era naturalmente bondoso, cumpriu o que prometera, de fazê-los crucificar, mas antes deu ordem para que fossem degolados" (⁵). A bondade de César, neste caso, estaria em dar aos piratas uma morte rápida. Um crucificado jovem e de boa saúde em geral agonizava por vários dias. 

(1) Século V a.C.
(2) Cujo reinado ocorreu no Século X a.C.
(3) 73 - 71 a.C.
(4) Cf. JOSEFO, Flávio. As Guerras Judaicas, Livro V.
(5) SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro I. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(6) Duas concepções artísticas da crucifixão de Jesus: a primeira por Albrecht Dürer (Século XVI), a segunda em gravura de Gustave Doré (Século XIX). Ambas foram editadas para facilitar a visualização neste blog. Lembrem-se, leitores, de que artistas são influenciados pela época em que vivem e refletem essa influência em suas obras. 


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quinta-feira, 4 de março de 2021

Por que Augusto pensou em extinguir as distribuições de trigo em Roma

As distribuições gratuitas ou vendas a preço muito baixo de trigo eram, em Roma, uma prática a que governantes recorriam para evitar revoltas entre a população livre desocupada. Se quiserem, leitores, era parte da famosa política conhecida como "pão e circo", em que, ao lado do alimento, também eram oferecidos espetáculos públicos, quase sempre sangrentos, para que a fúria do populacho se voltasse contra animais e gladiadores, e não contra os que detinham o mando na poderosa Roma. 
Contudo, essas práticas consumiam preciosos recursos do Estado. O crescimento da população da Península Itálica tornou a produção de grãos insuficiente para atender a todos. Por consequência, veio a ser indispensável a importação de alimentos. Vinha muito trigo do Egito, por exemplo, mas isso tinha um preço, que não era apenas monetário. Havia também a dependência. E se as colheitas no Egito não fossem boas? E se navios que traziam cereais se perdessem no Mediterrâneo? E se... Era uma situação delicada, e a possibilidade de escassez não era mera fantasia. Acontecia mesmo.
De acordo com Suetônio (¹), em certa ocasião em que houve falta de alimentos em Roma, Augusto tomou medidas drásticas, que incluíram até uma ordem para que estrangeiros (com exceção dos professores e dos médicos), os escravos disponíveis para venda e aqueles que viviam em escolas de gladiadores saíssem da cidade. A ideia era ter menos bocas para alimentar. Onde foram viver e de quê? Suetônio não explicou.
Mais tarde, quando as colheitas voltaram à normalidade, Augusto, no dizer de Suetônio, "considerou suprimir definitivamente as distribuições de trigo para a plebe às expensas do Estado, porque a população, já esperando por elas, abandonava o cultivo do solo" (²). Ao refletir, todavia, no custo político desse plano, acabou por abandoná-lo.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Cristãos em Roma

É fim de tarde e, apesar do movimento ainda grande na rua, Gaius começa a guardar seus apetrechos de sapateiro para fechar a oficina. Ele é conhecido em toda a cidade por fazer excelentes calçados para damas. Tem consciência e um justo orgulho de suas habilidades. Para um artesão livre como ele, isto significa respeito e uma situação econômica que, se não o faz rico, ao menos permite uma vida sem grandes dificuldades. À medida que as horas de luz se desvanecem, também nas oficinas vizinhas os trabalhadores, quer livres, quer escravos, vão encerrando a jornada. Tochas são acesas, o movimento de pedestres diminui, enquanto cresce o de carroças e carregadores que fazem chegar à cidade as mercadorias que vêm de longe.
Gaius olha, afoitamente, para um e outro lado, com a estranha sensação de estar sendo observado. Parece que alguém o segue. Um legionário, o que quererá? A cidade e o Império passam por tempos difíceis, as denúncias falsas e as extorsões não são raras. Bobagem, só uma impressão...
Não é. Gaius apressa o passo, tentando não mostrar qualquer alteração na fisionomia. Inútil. A respiração vai se tornando ofegante, as mãos suam frio. Logo ali está uma taberna. Entra, pede um pouco do cozido que fumega, paga por ele, tenta comer. O legionário entra e, olhando discretamente na direção de Gaius, também pede o cozido e pão. Aproxima-se do sapateiro, mergulha um dos dedos no caldo e, sobre a madeira, com dois movimentos, faz um tosco desenho. Gaius observa, esboça um tênue sorriso, assente com a cabeça, respira aliviado. O jantar modesto torna-se saboroso, sapateiro e soldado comem sem proferir qualquer palavra. O legionário parte o pão em bocados que fazem a alegria de alguns cães que estão por ali e que, agradecidos, abanam a cauda. 
Os dois homens saem e, logo adiante, enveredam por uma rua menos movimentada. O soldado voltara à cidade há pouco, depois de um tempo de serviço na Ásia Menor. Fora lá que um dia, na rua, ouvira um orador itinerante. Ideias novas, sim, mas persuasivas. Antes do retorno, alguém lhe dissera para, na capital do Império, procurar Gaius, o sapateiro. Estivera a observá-lo, esperando o momento de, sem ofensa à discrição, falar com ele. 
Caminhando sempre, chegam a uma área da cidade em que se veem casas habitadas por famílias de algumas posses.
- É aqui...
À porta, um escravo reconhece Gaius, mas franze a testa ao ver o legionário que, de imediato, traça no ar o mesmo sinal que, há pouco, usara para ser reconhecido pelo sapateiro. Assim identificado, é admitido. Passam por um corredor e logo estão em um pátio, de onde se vê, sob o brilho do luar, um jardinzinho bem-cuidado. Ao fundo, luzes oscilantes de candeia denunciam o lugar de reunião, e é para lá que se dirigem, já ouvindo a voz de alguém que lê.
Entram. É Urbanus, dono da casa, o leitor. Rodeiam-no a família, alguns escravos, alguns amigos. Os recém-chegados se acomodam, a leitura recomeça. De vez em quando, breve pausa para alguma explicação. São irmãos de fé.
Um quarto de hora mais tarde, finda a leitura, com olhos semicerrados, sussurram um cântico:
"...sed semet ipsum exinanivit formam servi accipiens in similitudidem hominum factus et habitu inventus et homo
humiliavit semet ipsum factus oboediens usque ad mortem mortem autem crucis
propter quod et Deus illum exaltavit et donavit illi nomem super omne nomem
ut in nomine Iesu omne genu flectat caelestium et terrestrium et infernorum
et omnis lingua confiteatur quia Dominus Iesus Christus in gloria est Dei Patris" (*)
Seria imprudência cantar mais alto, as palavras poderiam cair nos ouvidos errados. Suas vozes se perdem na noite romana. 

(*) Ad Philippenses II, 7 - 11
Este poema do Primeiro Século foi composto originalmente em grego e provavelmente era cantado. Sendo esta postagem ambientada em Roma, decidi inclui-lo aqui em latim. Os leitores que assim o quiserem poderão vê-lo em português, na tradução mais a seu gosto, no capítulo II da Epístola de São Paulo aos Filipenses.


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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Por que Tibério usava uma coroa de louros

Louro (Laurus nobilis)
Louro (Laurus nobilis) é bom na cozinha, mas Tibério, o imperador romano, achava que era bom na cabeça. Na cozinha, é um tempero formidável, e Apício, o cozinheiro imperial, concordava. Para Tibério... Bem, vamos à história.
Tibério, imperador romano, usava sempre uma coroa de louros - foi o que disse Suetônio (*) no Livro III de De vita Caesarum. Não se imagine, porém, que esse adorno pouco convencional era decorrente de alguma vitória em competições esportivas. Nada disso. Tentem descobrir o motivo, leitores: quem de vocês adivinha?
Aqui vai a resposta. Tibério tremia, apavorado, ao ouvir trovões e, mais ainda, morria de medo de ser atingido por algum raio. Por isso, de acordo com Suetônio, em dias de tempestade, colocava na cabeça uma coroa de louros porque, adepto de um arsenal de superstições, achava que essas folhas iriam torná-lo imune aos raios - e lá ia ele, assim coroado, a governar Roma e o mundo.

(*) 69 - 141 d.C.


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quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Método romano da Antiguidade para prever o sexo de um bebê

Lívia estava grávida e queria saber se teria um menino ou uma menina. Foi ao galinheiro e tirou de lá um ovo que uma galinha estava chocando. Levou-o para casa com muito cuidado e, com a ajuda das escravas, estabeleceu um rodízio para mantê-lo devidamente aquecido entre as mãos, até que a casca se rompeu e - uau! - saiu dele um frangote com uma crista enorme.
Pode parecer um absurdo, mas foi Suetônio quem contou essa história em De vita Caesarum. Lívia, ou melhor, Lívia Drusa, foi a mãe de Tibério, o imperador, que, segundo o mesmo Suetônio, acreditou a vida toda nessa lorota, na suposição de ser um presságio que o destinava a grandes realizações.
Era preciso, de fato, muita credulidade, mas os romanos eram viciados em "presságios", eventos que supostamente prediziam o futuro (*). Estaria correta a "previsão"? Suponho que vocês, leitores, sabem muito bem que grande homem foi Tibério!

(*) Ao ponto, talvez, de forjarem alguns.



quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A revolta de um escravo nomenclator

No exercício do poder, César Augusto enfrentou várias revoltas e tentativas de assassinato. Episódios dessa natureza não eram novidade em Roma. Uma das rebeliões, conforme referiu Suetônio no Livro II de De vita Caesarum, partiu de Télefo, um escravo nomenclator, que, supondo estar predestinado ao poder absoluto, tencionou o assassinato do imperador e a supressão do Senado. 
Mas que coisa, afinal, fazia um nomenclator? O costume de ter alguém que lembrasse ou apontasse o nome de pessoas começou, provavelmente, entre políticos, mas passou, depois, a toda a alta sociedade romana. Nomenclator, portanto, era o escravo que devia lembrar ao respectivo senhor o nome das pessoas que encontrava ou que recebia em casa, para festas e banquetes. Era isso que fazia o nomenclator Télefo, que, de acordo com Suetônio, era escravo de uma mulher. Abomino a escravidão, mas não discuto a utilidade de um nomenclator.
Mais uma pergunta: Como é que um cativo, desempenhando tão esdrúxula função, podia entalar na cabeça que estava predestinado ao poder absoluto? Deixando de lado a possibilidade de que algo não andasse bem com o cérebro desse indivíduo, devo fazer notar a meus leitores que, na mitologia grega, Télefo era um dos descendentes de Hércules. Como ter certeza de que tão ilustre homônimo não inspirasse delírios de grandeza ao escravo?
Há algo mais a considerar. Ao desempenhar suas tarefas diárias, um nomenclator estabelecia contato com personagens das altas rodas sociais e políticas. Indiretamente, acabava tendo certo poder, porque, se devia recordar a seu senhor ou senhora o nome de determinadas figuras, havia, também, muita gente que queria ser lembrada. Permanecendo longo tempo ao lado do proprietário, esse escravo ouvia conversas, percebia as sutilezas das relações sociais e do jogo político. Télefo, o nomenclator que tramou a morte de Augusto, ousou sair das pequenas indiscrições da vida quotidiana para ambicionar o impossível.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Félix: liberto, governador da Judeia, cruel, corrupto

Em Roma, ex-escravos eram chamados "libertos", ainda que o mesmo nome fosse dado, eventualmente, a filhos de ex-escravos. Libertos podiam se tornar muito ricos, e alguns até atingiram postos importantes no governo. Foi o caso de Félix, um liberto do imperador Cláudio.
Assim, somos conduzidos a um aspecto significativo da escravidão em Roma, onde cativos não eram, necessariamente, pessoas destituídas de instrução, entregues sempre a trabalhos brutais. Sim, isso também acontecia, mas havia exceções e elas não eram raras. Ao contrário: gregos derrotados em combate se tornaram, mesmo escravizados, mestres dos meninos romanos, fazendo com que a língua e cultura gregas viessem a ser atributos muito valorizados entre a elite senatorial. Calcule-se, portanto, a influência que exerceram. Muitos deles foram, depois de algum tempo, libertados, mas, em Roma, um liberto tinha ainda certas obrigações para com seu antigo proprietário.
Isto posto, voltemos a falar de Félix, o liberto de Cláudio. No dizer de Suetônio (¹), o imperador tinha tanta afeição a ele, que lhe concedeu autoridade sobre unidades militares e, como se fora pouco, fez dele o governador da Judeia. Tácito, por sua vez, chegou a dizer que Félix, nesse posto, "entendia poder fazer, impunemente, qualquer malefício" (²). Mas por que alguém iria querer deixar Roma para assumir o mando em uma província distante?
Pode-se falar em pilhagem, extorsão, malversação de fundos - para as províncias exploradas não havia muita diferença prática - o fato é que a possibilidade de enriquecimento tornava atraente o cargo de governador, a despeito do desconforto causado pelo deslocamento e pela necessidade de sufocar revoltas entre a população pouco ou nada satisfeita com o domínio de Roma. Félix, o liberto de Cláudio, foi apenas mais um dentre os muitos corruptos que exerceram algum cargo no governo de províncias do Império.

(1) De vita Caesarum, Livro V.
(2) Annales, Livro XII.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Quando a moda de fazer a barba chegou a Roma

Antigo romano com barba (³)
Romanos que viveram durante os dias da realeza e nos primeiros tempos da República não tinham o costume de aparar a barba. Melhor dizendo, a profissão de barbeiro, entre eles, resultaria em absoluta penúria. A moda, porém, só é moda porque é volúvel. Se, em tempos antigos, ostentar barba era motivo de orgulho, coisa de dignos patres familias, o correr dos séculos trouxe novidades. Ainda assim, para um romano, aparar a barba era, literalmente, colocar a cabeça em risco.
Foi por volta de 300 a.C. que o costume de aparar a barba chegou a Roma, ganhando, aos poucos, status de ritual, ao menos para cada adolescente que, quando autorizado pelo pai a fazer a barba pela primeira vez, além de consagrar os fios em um templo ou no altar doméstico, era, desde então, reconhecido como um adulto. No entanto, a transição nos hábitos, até que o barbear se tornasse obrigatório, não foi caminho livre de contratempos. Júlio César, por exemplo, teria sido alvo de deboche de seus contemporâneos pelo exagero no cuidado com a barba (¹). Augusto, porém, não dava grande importância ao assunto, porque, enquanto barbeiros e cabeleireiros se ocupavam dele, chegava a ler ou escrever, distraidamente (²). E mais: consternado pela derrota de Públio Quintílio Varo e suas legiões na batalha de Teutoburgo (⁴), por meses deixou de fazer a barba e até de cortar o cabelo.  
Contudo, alguns dos sucessores de Augusto foram adeptos fanáticos do barbear diário: Oto, por exemplo, não apenas se fazia cuidar por um barbeiro diariamente, como teria, ainda, o costume, desde a adolescência, de salpicar o rosto com farelo de pão (⁵), para que a barba jamais fosse notada. Não, leitores, não sei se o truque funcionava.
Ora, não se imagine que fazer a barba em Roma tinha as mesmas facilidades de hoje em dia. Primeiro, não era comum a aplicação de emolientes, o rosto era apenas massageado com água, vindo a seguir a navalha, que, pelas condições tecnológicas da época, não era instrumento dos mais confiáveis. Asim, o barbear completo levava tempo, e sempre havia o risco de algum ferimento. Para a elite romana, porém, e mesmo para outras camadas da sociedade, a demanda por tempo não era um grande problema, de modo que os cuidados com a aparência viraram obsessão. Zombando dos exageros, Sêneca (⁶), o filósofo estoico, escreveu:
"Você acha que são desocupados os que gastam muito tempo sob os cuidados de um barbeiro que corta o cabelo nascido na noite anterior, que cuida do penteado, ou que faz com que as madeixas despenteadas sejam novamente arrumadas, ou que arruma o cabelo de um e outro lado, formando um topete?
Imperador Adriano (⁸)
Irritam-se, com valentia, por qualquer erro do barbeiro, enchendo-se de raiva se cortou algo a mais de seus cabelos, se um fio ficou fora de lugar ou se algum está fora dos cachos. Você pensa que estes estão mais preocupados com o bem-estar da República que com a compostura do cabelo? Não estarão mais ansiosos em arrumar a cabeça, valorizando o belo mais que o honesto, em lugar de buscar a prosperidade do Império? É justo que sejam tidos como desocupados, se estão atarefados entre o espelho e o pente?" (⁷)
Recordo aos leitores que espelhos, nesse tempo, não eram lá muito eficientes - não como hoje, pelo menos. 
Tanto exagero, afinal, cansou o Império. Ao que parece, foi Adriano (⁹) o primeiro entre os imperadores a romper com o incômodo do barbear diário. Suas estátuas, bem como as de seus sucessores, atestam devidamente a mudança. E, se mudavam os costumes do imperador, por que o restante do Império não lhe seguiria o exemplo?

(1) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro I. 
(2) Ibid., Livro II.
(3) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 128. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) 9 d.C.
(5) SUETÔNIO. Op. cit., Livro VII.
(6) c. 1 d.C. - 65 d.C.
(7) SÊNECA. De brevitate vitae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(8) HEKLER, Anton. Op. cit., p. 248. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(9) Da dinastia nerva-antonina, foi imperador entre 117 e 138 d.C.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

Domiciano, "nosso senhor e deus"

Ao ditar um documento oficial, o imperador Domiciano começou: "Nosso senhor e deus assim ordena..." Falava de si mesmo, é claro. Que audácia! E, de acordo com Suetônio (¹), desde então ficou entendido que competia a todos chamá-lo por esse modo, quer de viva voz, quer por escrito. 
Domiciano era filho de Vespasiano e irmão de Tito, imperadores precedentes. Esteve à frente do Império entre os anos 81 e 96 d.C., época em que tratou de centralizar o poder, afastando o Senado, tanto quanto possível, da esfera decisória. Ao menos nas aparências, foi um adepto decidido das antigas tradições romanas, inclusive no que tange à religião - fazendo-se incluir no conjunto de divindades que deveriam ser adoradas.
Augusto, imperador entre 27 a.C. e 14 d.C., não só recusou ser chamado "senhor", como proibiu que o mesmo tratamento fosse dado a seus familiares (²). Entende-se que o Império, em seu tempo, era algo novo, e dificilmente Augusto se sentiria seguro e confortável para receber um título que remetia ao panteão de deidades. Os romanos tinham ódio à realeza, suprimida entre eles para dar lugar à República, e não era conveniente oferecer a mais tênue impressão de que pretendesse ser rei. 
Não obstante, depois da morte, Augusto passou a ser honrado como "divo", e, portanto, contado entre os deuses. O mesmo sucedeu com outros imperadores. A Tibério, seu sucessor, ofereceu-se a condição de deus em vida, pretendendo-se, para isso, o estabelecimento de templos e sacerdócio específico; contudo, o imperador recusou tal honra, e, ainda conforme Suetônio (³), somente permitiu que lhe dedicassem estátuas que não fossem colocadas em recintos consagrados a práticas religiosas. Aliás, foi além, recusando mesmo ser chamado "Imperator" e "Dominus".
Imperador Domiciano (⁵)
Mas veio Calígula, e, com ele, a deificação do imperador vivo ganhou força. Fez substituir a cabeça de deuses pela sua em esculturas gregas (⁴), e, colocado entre Castor e Pólux, admitiu ser cultuado. O caminho estava limpo para que, alguns imperadores mais tarde, Roma aceitasse sem muito questionamento que Domiciano exigisse o título de "senhor e deus". Para os romanos que, por esse tempo, viam na religião apenas uma prática tradicional e/ou um dever patriótico, a mania do imperador metido a deus talvez não soasse coisa muito ofensiva. Para as minorias adeptas de outros conceitos religiosos, a situação era difícil e até perigosa. A recusa em reconhecer a divindade do imperador ou em oferecer sacrifícios aos deuses por sua prosperidade e longevidade podia resultar no confisco dos bens (⁶) e na sentença de morte.

(1) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro VIII. 
(2) Ibid., Livro II.
(3) Ibid., Livro III. 
(4) Ibid., Livro IV.
(5) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. 
Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 220. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(6) Uma prática nada incomum em Roma, sempre que imperadores perdulários procuravam um pretexto para refazer as finanças debilitadas. Afirma-se que Calígula, por exemplo, não precisou de mais de um ano para gastar toda a fortuna acumulada por Tibério, seu antecessor.


quinta-feira, 2 de abril de 2020

Teria a educação romana contribuído para a decadência do Império?

Em termos sociais, a educação romana era brutalmente desigual. Isso quer dizer que, para meninos provenientes das camadas inferiores da sociedade, a escola era uma espécie de antro de tortura, em que, à custa de castigos severos, aprendia-se a ler, escrever e fazer algumas contas, em um grau de competência que poderia ser classificado como sofrível. Para a elite, no entanto, a situação era outra. Não que os castigos físicos desaparecessem, mas o espectro de conhecimentos que se devia introduzir na cabeça dos meninos era mais amplo, incluindo gramática e retórica. Além do latim, era preciso aprender o grego, e muito bem, porque vários autores vistos como modelos e, por isso, devidamente estudados, haviam escrito nessa língua. Gostando ou não, os estudantes eram treinados para o debate e para a defesa de ideias e opiniões. 
Diante disso, surge uma questão intrigante: seria a educação tradicional romana mais uma dentre as muitas causas para o declínio e queda do Império?
Vejamos duas possibilidades de interpretação, não mutuamente excludentes:
Primeira proposição
O ensino ministrado à elite, com foco em habilidades para a carreira de leis e da política (o sucesso na primeira geralmente levava à segunda), não estimulava vocações científicas, e, até onde se sabe, foram poucos os romanos que poderiam ser equiparados aos gregos e egípcios, por exemplo, em se tratando de conhecimentos técnicos, sendo a arquitetura um dos campos que merece elogios como exceção honrosa. Lembrem-se, leitores, de que Roma teve seu primeiro relógio de sol quando, durante as Guerras Púnicas, conquistou Catânia e, de lá, trouxe o curioso "monumento" que servia para marcar as horas. Por essa linha de raciocínio, a falta de uma prática constante de investigação verdadeiramente científica, em larga escala, "engessou" o Império, impedindo, inclusive, que a agricultura se desenvolvesse com a adoção de novas técnicas, que poderiam elevar a produtividade do solo. 
Segunda proposição
A agricultura romana empacou, mas não só por falta de ciência; a massa de escravos fazia todo o trabalho, de modo que quase ninguém, entre os homens livres, se ocupava em buscar inovações técnicas/tecnológicas que melhorassem a produtividade; por seu turno, escravos dificilmente iriam se empenhar por novas invenções e, quanto a outras atividades econômicas, além da agricultura, a situação não era diferente.
Qual das proposições leva vantagem? Deixo aos leitores essa reflexão.


quinta-feira, 19 de março de 2020

Horário das refeições no Império Romano e no Brasil Colonial

Hábitos dos romanos ricos quanto ao horário das refeições


Menções feitas por vários autores da época sugerem que os antigos romanos, ao menos nos dias do Império, tinham por costume fazer uma refeição muito leve pela manhã, composta, como regra, por frutas, pão, talvez queijo, e nada mais que isso. Por que tanta frugalidade? Vocês já vão descobrir, leitores.
Estamos falando, é certo, dos romanos livres e de boa situação econômica. Pão e frutas eram o hábito de muitos por volta do meio-dia ou mesmo mais tarde, e não gastavam muito tempo nisso - é que lá pela hora nona (¹) vinha a refeição de verdade, o banquete do dia, que, como já se pode imaginar, invadia as horas da noite. Entre romanos abastados, dar banquetes, aos quais parentes e amigos eram convidados, era uma forma civilizada de convivência. 
Os comensais eram servidos enquanto se mantinham deitados em leitos parecidos com divãs. Apoiavam-se em um dos cotovelos, ficando os alimentos em mesas dotadas de três pés, os triclínios. Havia gente em Roma que travava verdadeiras disputas quanto à sofisticação dos banquetes oferecidos, contratando cozinheiros que, no comando de numerosos escravos, faziam comparecer às mesas alimentos preparados com os mais exóticos ingredientes. Gente comedida se contentava, porém, com culinária mais sóbria. Para que tudo corresse a contento, era comum ter sempre alguém para ler durante as refeições, e mesmo músicos e dançarinos para entretenimento do anfitrião e de seus convidados. 
A situação da gente pobre era bem diferente, valendo o mesmo no caso dos escravos. Portanto, deve-se entender que os excessos cometidos em banquetes oferecidos por Calígula e outros imperadores eram exceção, e não regra, ainda que suas práticas chegassem, às vezes, a pôr em perigo a saúde financeira do Império. De acordo com Suetônio (²), em apenas um ano, Calígula esgotou o tesouro acumulado por Tibério, seu antecessor, e, vendo que o dinheiro escasseava, não teve dúvida em fazer lançar novos impostos. 

Horário das refeições no Brasil Colonial


Agora, vejamos o que acontecia no Brasil Colonial, em se tratando do horário usual para refeições. Graças a Joaquim Manuel de Macedo (³), que explicou a questão muito bem em Memórias da Rua do Ouvidor, é fácil saber que gente desse tempo já distante tinha hábitos diferentes daqueles que predominam no Brasil de hoje:
"No século décimo sexto e ainda até quase o fim do décimo oitavo, os antigos colonos portugueses não tinham no Brasil café para tomá-lo com a aurora, mas almoçavam com o sol às seis ou sete horas da manhã, e jantavam com ele em pino ao meio-dia, salvo o direito de merendar (hoje se diz fazer lunch) às dez horas da manhã."
Macedo, consciente ou não de que seria útil aos leitores do futuro, ainda explicou como andavam os horários de refeições em seu próprio tempo, aquele a que nos referimos como sendo o "do Império". Professor de História que foi, ainda que médico por formação, tratou de mostrar a razão para tanta mudança nos costumes:
"Atualmente a sociedade civilizada almoça à hora em que os velhos portugueses jantavam, e janta de luzes à mesa à hora em que se levantavam da ceia aqueles nossos avós.
História de progresso e de civilização, que levam e estendem o sol de seus dias até depois da meia-noite com a iluminação a gás, e, ainda preguiçosos, saúdam o rompimento de suas auroras às nove horas da manhã, quando abrem as cortinas de seus macios leitos, e tomam, ainda bocejantes, o seu café madrugador."
O conjunto de transformações, não só nos horários de refeições, mas no estilo de vida como um todo, foi atribuído por Macedo à introdução de iluminação artificial eficiente - a gás, em seus dias - que possibilitava à gente que não tinha de madrugar para o trabalho, ficar acordada, a tagarelar, até muito tarde. Tarde, sim, mas para os padrões antigos, não para os notívagos do tempo do Império. Que diria se visse como vivemos no Século XXI? 
A ceia praticamente desapareceu dos hábitos brasileiros, exceto em ocasiões especiais ou por investidas fortuitas e quase sigilosas à geladeira, quando a noite se adianta. Refeições, como regra, ficaram mais rápidas, e, para a maioria das pessoas, ocorrem três vezes ao dia: antes do trabalho, no intervalo do trabalho e ao final do dia de trabalho. Percebem qual é aqui a palavra-chave, a moldar os hábitos? A disciplina imposta ao trabalho a partir da Revolução Industrial modificou radicalmente as práticas relacionadas ao horário das refeições no Ocidente. Acreditem, leitores: nem mesmo o Brasil escapou a esse processo. 

(1) Cerca de 15 horas, de acordo com a época do ano.
(2) De vita Caesarum, Livro IV.
(3) 1820 - 1882.


Veja também:

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O ódio dos romanos à monarquia

Os romanos odiavam a monarquia. É um tanto difícil separar os fatos das lendas quando se trata do período da história romana conhecido como realeza (que vai da fundação lendária de Roma em 753 a.C., fazendo de Rômulo o primeiro rei, até a expulsão de Tarquínio, o Soberbo, último dos famosos "sete reis de Roma"), mas parece evidente que o ódio à realeza ter-se-ia originado com os desmandos do último rei. Cícero, político e escritor romano do Século I a.C., perguntou: "Tu não vês que a maldade e a soberba de Tarquínio fizeram com que o título de rei fosse odiado pelo povo?" (¹) Também disse, apontando aquela que, para ele, era a deficiência fundamental de uma monarquia: "Dentre tudo o que falta ao povo cujo governante é um rei, a primeira delas é a liberdade, a qual não consiste em ter um senhor justo, mas em não ter qualquer senhor." (²)
Ora, meus leitores, esse ódio dos romanos à realeza estava muito longe de ser apenas uma questão de palavras. Os desdobramentos práticos são de arrepiar os cabelos. Vejamos:
  • De acordo com Cícero (³), Espúrio Cássio, um político importante da República, foi acusado de buscar o favor do povo com vistas a fazer-se rei e, por isso, foi condenado à morte, com voto popular e aprovação de seu próprio pai, que se declarara convencido da culpa do filho (⁴);
  • O cônsul Lúcio Júnio Bruto, um dos líderes do movimento que afastou Tarquínio do poder em 509 a.C., fez executar seus dois filhos, porque os rapazes eram partidários do monarca, fato que levou Aneu Floro a escrever: "O pai mostrou publicamente que adotava o povo romano em lugar dos filhos"; (⁵)
  • Durante uma grande escassez de alimentos no Século V a.C., Espúrio Mélio, conforme relato de Tito Lívio (⁶), comprou trigo na Etrúria para distribuição gratuita entre a plebe, levantando suspeitas de que se quisesse fazer aclamar rei, mas por ordem do ditador escolhido para aquela ocasião extrema, foi executado, e sua casa, a título de exemplo, foi completamente arrasada;
  • Nas intrigas que se acumularam após o assassinato de Júlio César, Otávio, que pretendia suprimir a concorrência de Marco Antônio, não vacilou em acusá-lo de ter pretensões monárquicas, até porque não lhe faltava, para isso, argumento convincente, já que, segundo Aneu Floro, quando estava em companhia de Cleópatra, o triúnviro adotava a indumentária típica de um rei: "Levava cetro de ouro na mão, espada ao lado, vestia púrpura adornada com pedras preciosas e usava um diadema [...]" (⁷).
Suponho, a esta altura, que alguns de meus leitores já tenham franzido a testa, com um muito razoável questionamento: Se tal era o ódio à monarquia, como explicar que Roma tenha se tornado um império? Não foram monarcas os imperadores de Roma?
É necessário dizer, portanto, que muitos romanos dos dias do Império ficariam surpresos se soubessem que, séculos depois, seu governo seria rotulado de monárquico, segundo nosso ponto de vista, mas não de acordo com o deles. Para os romanos, aquele a quem chamamos imperador era apenas príncipe, ou seja, nada mais que o principal cidadão da República romana, a despeito do componente dinástico eventualmente introduzido. A conservação do senado e de outros cargos e instituições típicas da República foi fundamental para manter as aparências - ou a cegueira conveniente, se preferirem.

(1) CÍCERO, Marco Túlio. De re publica, Livro I.
(2) Ibid., Livro II.
(3) Ibid.
(4) Foi jogado da Rocha Tarpeia em 485 a.C.
(5) FLORO, Aneu. Epitome rerum Romanarum.
(6) LÍVIO, Tito. Ab urbe condita libri.
(7) FLORO, Aneu. Op. cit. As citações das obras de Cícero e Aneu Floro foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.