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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Quem era a loba que alimentou Rômulo e Remo

Uma das razões, ainda que não a única, que faz com que a fundação de Roma por Rômulo e Remo seja considerada uma lenda, é a afirmação de que os gêmeos, abandonados junto ao Tibre, teriam sido amamentados por uma loba. Quem é que acreditaria numa coisa dessas?
Contudo, leitores, se admitirmos um pequeno ajuste, talvez essa história não seja de todo inverossímil. O melhor é que podemos fazer isso, não por mero exercício de imaginação, mas com base em informações que vêm da Antiguidade. Portanto, vamos ao caso.
Aneu Floro, historiador que viveu nos dias do Império Romano, repetiu sem novidade a fábula de Rômulo e Remo, dizendo que "[...] uma loba, fugindo a seu instinto lupino, ao ouvir o choro dos meninos, amamentou-os, como se fosse mãe deles" (¹). Já Tito Lívio (²), em Ab urbe condita libri, contou que era voz corrente em Roma que "o cesto em que os meninos estavam, por estar baixa a corrente, ficou retido em terra seca, e uma loba, vindo dos montes que há ao redor, ouviu o choro deles" (³). Com ternura, cuidou dos gêmeos, atraindo a atenção de Fáustulo, um pastor que os levou para casa e deles se encarregou até que crescessem.
Para Plutarco (⁴), porém, havia outra interpretação possível, humana e perfeitamente lógica, mas nada zoológica. "Talvez [...] o duplo significado da palavra [loba]", disse ele, "seja a explicação para esta fábula, porque os latinos dizem lobas para os animais, mas chamam também lobas às prostitutas" (⁵). Com o passar do tempo, "loba", como eufemismo, caíra talvez em desuso, e a história de Rômulo e Remo teria ganho contornos de lenda, na suposição de que uma autêntica Canis lupus alimentara os meninos. Ainda que não explique outras incongruências da fábula, a versão sugerida por Plutarco parece interessante.

(1) FLORO, Aneu. Epitome rerum Romanarum. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) 59 a.C. - 17 d.C.
(3) LÍVIO, Tito. Ab urbe condita libri. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Nascido em Queroneia em c. 45 d.C.
(5) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Um prodígio vegetal que abalou Roma

De acordo com Tito Lívio (¹), historiador romano da Antiguidade, os pontífices tinham, em Roma, as atribuições de zelar pela conservação dos templos e pela realização de sacrifícios aos deuses, aplacar a alma dos defuntos (para que não andassem perturbando os vivos) e fazer expiação quando ocorressem prodígios (²). Deve-se presumir, por conseguinte, que estiveram muito ocupados em 59 d.C., diante de um suposto prodígio que parecia sinalizar, literalmente, um abalo das raízes de Roma. Tácito registrou no Livro XIII dos Annales:
"Neste ano a árvore Ruminal, que existia no lugar dos comícios e que há oitocentos e quarenta anos protegera a infância de Rômulo e Remo, depois que seus ramos secaram, começou também a secar no tronco, fato que se considerou prodígio desfavorável, até que reviveu com novos brotos." (³)
Vamos falar sério, leitores: é improvável que a árvore em questão fosse a mesma dos dias de Rômulo e Remo, isto é, admitindo-se que esses ilustres senhores tenham, de fato, existido, e não sejam apenas figuras lendárias. Uma árvore após outra talvez tenha ocupado o lugar da mitológica árvore sagrada, mas, quando se quer acreditar ou, quando em benefício da estabilidade do poder, é conveniente acreditar, afirma-se, e pronto: assim é que ficou sendo a árvore da infância de Rômulo e Remo. Supersticiosíssimos, os romanos devem ter imaginado que Roma estava por um fio (ou por uma folha, um galho, um tronco, uma raiz). Brotando a árvore, Roma estava salva.

(1) 59 a.C. - 17 d.C.
(2) Cf. Ab urbe condita libri.
(3) c. 47 d.C. 120 d.C.


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terça-feira, 25 de junho de 2019

Os patrícios, os plebeus, os tribunos da plebe e o jogo político em Roma

Plebeus achavam que patrícios eram seus opressores. Sob muitos aspectos, era verdade. Por isso, resolveram mostrar toda a insatisfação abandonando suas ocupações habituais, em um episódio que ficou conhecido como a retirada da plebe para o Monte Sagrado (¹). Foi como se dissessem: Já que nos oprimem, tentem viver sem nós!...
Era o ano de 493 a.C. (²), e essa espécie de greve à moda antiga forçou o patriciado romano a negociar. Afinal, os descontentes voltaram, obtendo, entre outras concessões, que fosse criado o cargo de tribuno da plebe, um magistrado virtualmente intocável, dotado de enormes poderes, cuja função seria defender os interesses dos plebeus.
Não tardou, porém, para que uma consequência dolorosa da interrupção do trabalho durante a retirada da plebe se fizesse notar. Como os campos haviam deixado de ser cultivados, ocorreu em Roma uma terrível escassez de alimentos, fazendo com que o pouco que havia se vendesse a preços exorbitantes. Tito Lívio descreveu a situação dizendo que a fome era tanta "como acontece em uma terra sitiada pelo inimigo" (³). O Senado, então, decidiu pela compra de cereais da Etrúria e da Sicília, para que fossem vendidos em Roma a preço razoável. 
Contudo, se a escassez de alimentos foi, na Antiguidade, um problema recorrente para os romanos, não faltou, diante das massas famintas, quem exibisse um problema recorrente na humanidade, o oportunismo de conveniência no jogo político, sugerindo que, diante da fome que afetava a plebe, talvez fosse boa hora para que o Senado aproveitasse a situação e somente vendesse o trigo se o direito tribunício fosse cancelado. A ideia, porém, não vingou, e as turras entre patrícios e plebeus duraram ainda muito tempo.

(1) Ou Monte Sagrado.
(2) Ou 494 a.C., dependendo de como é interpretada a equivalência em relação ao calendário que vigorava em Roma nesse tempo.
(3) Ab urbe condita libri.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O ódio dos romanos à monarquia

Os romanos odiavam a monarquia. É um tanto difícil separar os fatos das lendas quando se trata do período da história romana conhecido como realeza (que vai da fundação lendária de Roma em 753 a.C., fazendo de Rômulo o primeiro rei, até a expulsão de Tarquínio, o Soberbo, último dos famosos "sete reis de Roma"), mas parece evidente que o ódio à realeza ter-se-ia originado com os desmandos do último rei. Cícero, político e escritor romano do Século I a.C., perguntou: "Tu não vês que a maldade e a soberba de Tarquínio fizeram com que o título de rei fosse odiado pelo povo?" (¹) Também disse, apontando aquela que, para ele, era a deficiência fundamental de uma monarquia: "Dentre tudo o que falta ao povo cujo governante é um rei, a primeira delas é a liberdade, a qual não consiste em ter um senhor justo, mas em não ter qualquer senhor." (²)
Ora, meus leitores, esse ódio dos romanos à realeza estava muito longe de ser apenas uma questão de palavras. Os desdobramentos práticos são de arrepiar os cabelos. Vejamos:
  • De acordo com Cícero (³), Espúrio Cássio, um político importante da República, foi acusado de buscar o favor do povo com vistas a fazer-se rei e, por isso, foi condenado à morte, com voto popular e aprovação de seu próprio pai, que se declarara convencido da culpa do filho (⁴);
  • O cônsul Lúcio Júnio Bruto, um dos líderes do movimento que afastou Tarquínio do poder em 509 a.C., fez executar seus dois filhos, porque os rapazes eram partidários do monarca, fato que levou Aneu Floro a escrever: "O pai mostrou publicamente que adotava o povo romano em lugar dos filhos"; (⁵)
  • Durante uma grande escassez de alimentos no Século V a.C., Espúrio Mélio, conforme relato de Tito Lívio (⁶), comprou trigo na Etrúria para distribuição gratuita entre a plebe, levantando suspeitas de que se quisesse fazer aclamar rei, mas por ordem do ditador escolhido para aquela ocasião extrema, foi executado, e sua casa, a título de exemplo, foi completamente arrasada;
  • Nas intrigas que se acumularam após o assassinato de Júlio César, Otávio, que pretendia suprimir a concorrência de Marco Antônio, não vacilou em acusá-lo de ter pretensões monárquicas, até porque não lhe faltava, para isso, argumento convincente, já que, segundo Aneu Floro, quando estava em companhia de Cleópatra, o triúnviro adotava a indumentária típica de um rei: "Levava cetro de ouro na mão, espada ao lado, vestia púrpura adornada com pedras preciosas e usava um diadema [...]" (⁷).
Suponho, a esta altura, que alguns de meus leitores já tenham franzido a testa, com um muito razoável questionamento: Se tal era o ódio à monarquia, como explicar que Roma tenha se tornado um império? Não foram monarcas os imperadores de Roma?
É necessário dizer, portanto, que muitos romanos dos dias do Império ficariam surpresos se soubessem que, séculos depois, seu governo seria rotulado de monárquico, segundo nosso ponto de vista, mas não de acordo com o deles. Para os romanos, aquele a quem chamamos imperador era apenas príncipe, ou seja, nada mais que o principal cidadão da República romana, a despeito do componente dinástico eventualmente introduzido. A conservação do senado e de outros cargos e instituições típicas da República foi fundamental para manter as aparências - ou a cegueira conveniente, se preferirem.

(1) CÍCERO, Marco Túlio. De re publica, Livro I.
(2) Ibid., Livro II.
(3) Ibid.
(4) Foi jogado da Rocha Tarpeia em 485 a.C.
(5) FLORO, Aneu. Epitome rerum Romanarum.
(6) LÍVIO, Tito. Ab urbe condita libri.
(7) FLORO, Aneu. Op. citAs citações das obras de Cícero e Aneu Floro foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Por que Aníbal não atacou Roma?

Aníbal atravessando os Alpes, de acordo com
um cartunista do Século XIX (⁴)
A travessia dos Alpes (¹) em 218 a.C. por um exército de homens, cavalos e nada menos que trinta e oito elefantes, sob a liderança de Aníbal Barca, pode ser classificada como uma das maiores loucuras de todos os tempos. Mas aconteceu. E então, superadas dificuldades terríveis, a Península Itálica e o domínio de Roma pareciam estar à inteira disposição do general cartaginês e de suas tropas. Tito Lívio (²), historiador romano, escreveu: "Depois de incrível esforço e trabalho, chegou Aníbal à Itália, cinco meses após deixar Cartagena, tendo gasto quinze dias na travessia dos Alpes." (³)
Era a Segunda Guerra Púnica. Vencendo sucessivas batalhas, as forças de Cartago chegaram muito perto de Roma. A conquista da cidade se mostrava iminente. Aníbal, todavia, nunca desfechou o ataque decisivo. Por quê? 
É possível que o notável comandante cartaginês tivesse conhecimento de fatos que tenham permanecido incógnitos para os autores da época, a cujos registros temos de nos reportar. Não teria ele confiança suficiente em suas tropas? Teria sido vítima do medo do próprio sucesso? Ou, talvez, a conselho de algum oráculo, tenha protelado o ataque para uma data supostamente mais favorável, deixando passar sua única oportunidade real de conquistar Roma?
Tudo o que se pode afirmar, no estágio atual dos conhecimentos, é: não se sabe ao certo. 
Políbio de Megalópolis (⁵), cuja História cobre muitos acontecimentos relacionados às Guerras Púnicas, observou: "Qualquer um louvará a maestria de Aníbal na arte da guerra, podendo dizer, sem receio de erro, que se houvesse começado suas ações em outros lugares e finalmente concluísse atacando Roma, teria sido vitorioso; porém, como começou por onde deveria terminar, Roma foi berço e túmulo de seus projetos." (⁶) De acordo com Tito Lívio, Maharbal, um dos homens de maior confiança no estado-maior de Aníbal, teria dito: "Os deuses não dão tudo ao mesmo homem. Sabes vencer, Aníbal, mas não és capaz de fazer uso da vitória." (⁷).

(1) A controvérsia quanto à rota adotada tem alimentado polêmicas e preenchido muito papel, tanto manuscrito quanto impresso, mas, a despeito disso, parece estar longe de terminar.
(2) 59 a.C. - 17 d.C.
(3) TITO LÍVIO. Ab urbe condita libri.
(4) BECKETT, Gilbert Abbott à et LEECH, John. The Comic History of Rome. London: Bradbury, Evans and Co., 1851, p. 173. (A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog).
(5) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(6) POLÍBIO. História.
(7) TITO LÍVIO. Op. citOs trechos citados das obras de Tito Lívio e Políbio de Megalópolis foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

O sumiço (definitivo) de Rômulo

Rômulo, segundo a tradição que se reputa lendária, teria, ao lado de seu irmão Remo, fundado em 753 a.C. a cidade de Roma. Já expliquei aqui no blog que, no estágio atual dos conhecimentos, entende-se que Roma, enquanto uma aldeia de pastores, existia muito antes disso (por volta do ano 1000 a.C.). Mas, se alguém de vocês, leitores, imagina que seja possível resolver o impasse na eventualidade de que alguma escavação arqueológica descubra o túmulo de Rômulo, será melhor esquecer a ideia: digo isso porque tal monumento (¹) jamais existiu, de acordo com registros feitos tanto por Tito Lívio (²) como por Aneu Floro (³). Passemos, portanto, às fontes.
Tito Lívio conta que Rômulo simplesmente desapareceu durante uma tempestade monstruosa e seu corpo jamais foi encontrado; a partir disso, "começaram a saudá-lo como um deus, nascido de um deus (Marte), rei e pai da cidade romana". (⁴) Quanto a Floro, vai além, explicando que "a tempestade repentina e o eclipse solar (⁵) constituíram uma espécie de  consagração" (⁶), para que Rômulo viesse a ser considerado uma divindade menor. 
Sucede, leitores, que nem Tito Lívio e nem Floro, que referiram a existência de Rômulo como uma personalidade real, parecem ter acreditado muito neste epílogo algo romântico, uma vez que ambos sugerem a hipótese de que os senadores de Roma teriam feito o suposto filho de Marte em pedaços, de modo que o sumiço durante a tempestade e posterior divinização seriam apenas a versão propalada para encobrir um crime horrendo. Floro teve ainda o cuidado de citar o motivo para o assassinato: Rômulo seria um sujeito de temperamento muito difícil, a quem os senadores já não suportavam mais. Afinal, tudo combina muito bem com a fama dos romanos de tão remotos dias.

(1) No sentido latino do termo.
(2) 59 a.C. - 17 d.C.
(3) Contemporâneo do imperador Adriano.
(4) Ab urbe condita libri.
(5) Ocorrido pouco depois do "sumiço".
(6) Epitome Rerum Romanarum; os trechos citados de Tito Lívio e Floro foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Como o luxo chegou aos romanos

Historiadores da Antiguidade foram enfáticos em afirmar que os habitantes de Roma, nos primórdios da cidade, prezavam, como virtudes impagáveis, a sobriedade, a frugalidade e o hábito de economizar. 
Que dizer? Eles não podiam, mesmo, ser muito diferentes disso. A primitiva aldeia de pastores e agricultores era pobre demais para cultivar gente dada ao luxo.
Porém, com o passar do tempo, vieram as conquistas militares e, com elas, duas coisas aconteceram:
a) Os romanos passaram a copiar alguns costumes estrangeiros que pareciam úteis, ainda que viessem de inimigos que haviam derrotado;
b) O enriquecimento proporcionado pelas conquistas militares abriu caminho para que hábitos de luxo se infiltrassem na sociedade romana.
Tito Lívio, em Ab urbe condita libri, assinala a entrada do luxo na época em que os romanos, sob o comando de Lúcio Cornélio Cipião (¹), também conhecido como "Asiático", derrotaram as forças comandadas por Antíoco III na Batalha de Magnésia (190 a.C.):
"Quando L. Cornélio Cipião voltou a Roma, celebrou-se um notável triunfo e concedeu-se-lhe o apelido de Asiático: seu exército é que começou a introduzir o luxo estrangeiro em Roma." (²)
Ora, meus leitores, o que estava em jogo na Batalha de Magnésia, vencida pelos romanos, era o domínio sobre a Grécia. Podem, portanto, imaginar o botim de guerra em tal ocasião!
Desde o tempo da guerra contra Siracusa (³) os romanos vinham admirando a arte grega. Marco Cláudio Marcelo, o cônsul que comandou a vitória, depois de saquear a cidade derrotada, levou a Roma uma quantidade enorme de obras de arte, que foram consagradas aos deuses, em seus respectivos templos. Segundo Tito Lívio, foi assim que "as obras de arte gregas começaram a ser admiradas em Roma" (⁴).
Mas, acreditem, não foram apenas as grandes obras de arte produzidas por gênios da cultura grega que ganharam a afeição dos romanos. Coisas aparentemente corriqueiras do dia a dia também conquistaram o coração dos outrora sisudos moradores da Península Itálica, cujo principal alimento era uma espécie de mingau de aveia. Conquistaram o coração, sim, mas inclua-se nisso também o estômago: a comida da Grécia, em particular a arte da panificação, enfeitiçou Roma, a tal ponto que se afirma que, nos dias do imperador Augusto, chegou a haver na cidade nada menos que trezentas e vinte e nove padarias públicas. 
O jeito romano de fazer as coisas, porém, veio a manifestar-se nesta questão.  Para exercer controle e evitar que cada um fizesse o pão como bem entendesse, havia um funcionário público cujo trabalho era fiscalizar continuamente se todos os estabelecimentos de panificação cumpriam seus deveres conforme estipulado, em quantidade e qualidade, quer fazendo o alimento que se vendia para distribuição aos escravos, quer fabricando finíssimos pães, com ingredientes sofisticados, que só frequentavam a mesa dos ricos.

(1) Irmão de Públio Cornélio Cipião, apelidado "O Africano".
(2) Tito Lívio, Ab urbe condita libri
(3) 212 a.C.
(4) Tito Lívio, Op. cit.
As citações de Ab urbe condita libri que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Embarcações que navegavam nas águas do Mediterrâneo na Antiguidade

Birremes, trirremes, quadrirremes, quinquerremes...


Embarcação grega da Antiguidade (¹)

"Não deves jamais colocar todos os teus bens nos navios..."
                                              Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias

As embarcações que cruzavam o Mediterrâneo e adjacências na Antiguidade eram dotadas de velas, mas não era só o vento que as impulsionava - havia também a força dos músculos de muitos remadores - primeiro gente livre e, mais tarde, escravos.
Quando uma embarcação tinha duas filas de remos (os remadores eram dispostos em dois "andares"), recebia o nome de birreme; se tivesse três filas de remadores, era trirreme, se fossem quatro as fileiras, era quadrirreme e, se tivesse cinco, seria então quinquerreme. Estas duas últimas só eram usadas em batalhas navais, e não eram muito numerosas porque suas proporções tornavam as manobras mais difíceis. Ainda assim, eram úteis para impressionar adversários.
Se pensarmos no Mediterrâneo como um gigantesco lago de água salgada, cercado por diferentes povos que falavam uma variedade de línguas e que desenvolveram diversas e notáveis culturas, será fácil entender que o desenvolvimento da navegação e, por conseguinte, das embarcações, não foi obra de um único povo. Um invento aparecia em um lugar, logo era adotado em outro, recebia aperfeiçoamentos que, por sua vez, eram copiados pela vizinhança. Qual era o melhor formato para um navio mercante? E para um navio de guerra? Quantos deviam ser os remos, e de que comprimento? E se dois remadores manipulassem um único remo? Velas quadradas ou redondas? Vê-se que o mundo mediterrânico vivia em efervescência, e a arte náutica se beneficiava disso. Fenícios, cartagineses, gregos, romanos e outros povos da Península Itálica, todos deram sua contribuição, ainda que nem sempre voluntária, conforme veremos.
Atenienses, na batalha naval de Salamina (²), impuseram notável derrota aos persas, provando a eficiência das trirremes gregas contra as desajeitadas, ainda que numerosas, embarcações adversárias. Isso aconteceu depois que Temístocles, segundo conta Heródoto, conseguiu que seus concidadãos acreditassem que uma estranha profecia vinda de Delfos, segundo a qual os gregos venceriam se, para sua defesa, fizessem uma muralha de madeira, era referência ao uso de uma frota que barrasse a passagem dos comandados de Xerxes, rei dos persas.
Mas como é que Atenas tinha prontas tantas trirremes com que enfrentar a poderosa frota persa? Heródoto, em suas Histórias, explica:
"O tesouro de Atenas tinha grande quantidade de dinheiro para uso público, como resultado de terem explorado as minas de Láurion, e os atenienses julgavam que deviam reparti-lo entre si; porém Temístocles convenceu-os a [...] construir duzentos navios de guerra para lutar contra Egina. Embora as embarcações não tenham sido usadas para seu primeiro objetivo, foram a salvação dos gregos, ao fazer de Atenas uma grande força naval."
Ainda segundo Heródoto, não satisfeitos com a frota que já tinham, os cidadãos atenienses fizeram mais navios, converteram embarcações mercantes em vasos de guerra e convocaram a participação de outros gregos que quisessem juntar-se a eles na luta contra Xerxes, convencidos que estavam de que, assim fazendo, obedeciam à determinação de Apolo. Venceram!

Combate naval retratado em um vaso grego da Antiguidade (³)

Tito Lívio registrou, em Ab urbe condita libri, que, durante a Primeira Guerra Púnica (⁴), os romanos perceberam que era grande desvantagem não dispor de uma esquadra que fizesse frente aos hábeis marujos cartagineses. Foi então que caiu em poder dos romanos uma embarcação do tipo quinquerreme. Seguimos com Tito Lívio:
"Sobre aquele modelo os cônsules determinaram a construção de uma frota, na qual tanto empenho foi posto que, passados sessenta dias desde que se preparara a madeira, já havia de prontidão uma armada de cento e sessenta velas."
Exagero? Talvez, mas salta os olhos o fato de que a gente de Roma, ainda neófita em questões navais, tivesse a capacidade de, rapidamente, copiar uma nau inimiga. Esse pragmatismo, é bom lembrar, caracterizou a Roma Antiga. Se alguma coisa era útil, devia ser admitida, independente de sua origem.
Ocorre que os romanos, percebendo que era agora possível chegar perto das embarcações adversárias, tiveram a ideia de inventar um maquinismo que permitisse prender os navios inimigos aos seus. Estendia-se logo uma ponte, de tal modo que soldados de Roma, passando por ela, podiam travar combate corpo a corpo com os homens de Cartago. Nesse tipo de luta os romanos levavam, quase sempre, enorme vantagem.
Para concluir, será interessante considerar se os navios que os povos mediterrânicos usavam tão bem em águas "domésticas" seriam igualmente eficazes em outros mares. Poderiam navios como esses fazer longas viagens? Heródoto, por exemplo, falou de uma viagem que marinheiros fenícios teriam empreendido a serviço de um faraó, na qual, tendo partido do Mar Vermelho, retornaram ao Egito pelo Mediterrâneo, depois de costear a África. Não há provas definitivas de que essa viagem tenha mesmo acontecido, mas sabe-se que não era impossível.
Por outro lado, o tipo de embarcações que os romanos usavam com eficiência no Mediterrâneo mostrou-se inadequado quando, comandados por Germânico, tiveram de enfrentar as águas revoltas do Mar do Norte, em meio a uma tempestade. Muitos soldados romanos morreram, enquanto sobreviventes foram arremessados a terras distantes, algumas delas ainda desconhecidas para os habitantes da Península Itálica.
Políbio (⁵), em sua História, explicou: 
"Faz-se muito pouco uso do mar das Colunas de Hércules, porque são muito poucos os que comerciam com povos que vivem nos extremos da África e da Europa, e também porque o mar exterior é desconhecido para nós." (⁶) 
Parece que, ao menos em seus dias, viagens além do Mediterrâneo não eram usuais.

(1) BUSCHOR, Ernst. Griechische Vasenmalerei. Mûnchen: R. Piper & Co., 1913, p. 142.
(2) Em 480 a.C., durante as chamadas Guerras Médicas.
(3) KNOWLTON, Daniel C. Illustrated Topics for Ancient History. Philadelphia: McKinley Publishing Company, 1913.
(4) As Guerras Púnicas foram guerras entre Roma e Cartago, travadas, com intervalos, entre 264 a.C. e 146 a.C.. Recebem esse nome porque os romanos chamavam punos aos cartagineses. 
(5) Políbio de Megalópolis (c. 203 - 120 a.C.) foi um grego que passou a maior parte da vida entre romanos; escreveu, entre outros assuntos, sobre as Guerras Púnicas.
(6) As citações de Hesíodo, Heródoto, Tito Lívio e Políbio que aparecem nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 30 de maio de 2016

O rapto das sabinas

Comecemos, meus leitores, por dizer que o rapto das sabinas não foi só das sabinas. Mas disso trataremos mais adiante.
Rômulo, como se sabe, foi, ao lado de Remo, seu irmão, o herói lendário da fundação de Roma. A nova cidade tinha, no entanto, um gravíssimo problema: sua população era constituída exclusivamente por indivíduos do sexo masculino...
Pois bem, de acordo com Tito Lívio (¹), em Ab urbe condita libri, "por falta de mulheres, a grandeza da cidade [Roma, que Rômulo fundara], não duraria mais que a vida de um homem, pois não havia esperança de descendência." (²)
Alguém perguntará: E por que os romanos não se casavam? Aí exatamente é que residia o problema. Eles até queriam, mas os povos vizinhos não consentiam que suas filhas contraíssem casamento com romanos, porque a fama dos homens de Roma era ruim. Não, não era ruim, era péssima.
Foi então que Rômulo teve uma ideia que soou brilhante aos ouvidos romanos. Foram organizados jogos em honra do deus Netuno, e, para maior brilho da festa, os povos que viviam nos arredores de Roma foram também convidados. Segundo Tito Lívio, o convite não só foi aceito, como toda a gente da redondeza compareceu. Uma verdadeira multidão, portanto, e, no meio dela, muitas jovens solteiras - sabinas, entre elas, mas não só - o que deu aos romanos a ocasião para a perfídia, já que as senhoritas foram raptadas, a fim de dar descendentes aos arruaceiros de Roma.
Conta Tito Lívio:
"Com medo diante do espetáculo [do rapto], os pais das raptadas fugiram tristemente, lamentando a violação das leis da hospitalidade."
Naturalmente todos os ofendidos juraram vingança. Cada povo tratou de fazer guerra aos raptores, mas, um a um, todos os vizinhos foram derrotados. Finalmente vieram os sabinos, que, em um primeiro combate saíram vencedores. Em desespero de causa, Rômulo prometeu construir um templo em honra de Júpiter e, maravilha das maravilhas, nessa hora as mulheres sabinas que haviam sido raptadas apareceram, algumas já carregando bebês, e a guerra acabou, de modo que, ainda de acordo com Tito Lívio, os romanos e os sabinos vieram a ser um só povo. Tempos depois, Rômulo tratou de dividir "o povo em trinta cúrias, dando a cada uma o nome de uma mulher sabina".
Ora, ora, meus leitores, essa história tem uma coleção de incongruências. Vejamos:
  • Se os romanos eram gente tão ruim, por que os povos vizinhos aceitaram vir aos jogos organizados por Rômulo?
  • Os povos convidados não eram, em conjunto, muito mais numerosos que os romanos? Por que, então, não partiram para o ataque ali mesmo, a fim de libertar as mulheres raptadas e/ou vingar a afronta?
  • Supondo que fosse mesmo impossível uma luta imediata, por que cada povo foi, isoladamente, fazer guerra contra os romanos, quando seria mais provável a vitória se todos fossem juntos à desforra?
O fato é que a história do rapto das sabinas (e das moças dos outros povos) só foi escrita longo tempo depois da época em que se supunha ter acontecido, e, assim, é considerada por muitos como um episódio lendário, que explicaria, alegoricamente, como Roma foi, aos poucos, dominando os povos vizinhos. No entanto, levando em conta que na Antiguidade o rapto de mulheres não era nada incomum, não seria nenhum absurdo supor que algo possa ter acontecido, encarregando-se o passar do tempo de agregar adornos e detalhes romanescos que não estavam presentes na aventura original. A pose histórica ficou, é claro, aos cuidados da pena de Tito Lívio.

(1) Historiador romano que viveu entre a segunda metade do Século I a.C. e a primeira do Século I d.C.
(2) Todas as citações de Ab Urbe condita libri que ocorrem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Duas tempestades de granizo e uma batalha entre Roma e Cartago que nunca aconteceu

Quem conhece apenas superficialmente a história da antiga Roma será tentado a pensar que ela, por muitos séculos, permaneceu inexpugnável, soberana absoluta do mundo mediterrânico, até que, finalmente, veio a cair em mãos dos bárbaros. Mas não foi assim. Não foram poucas as ocasiões em que Roma foi severamente ameaçada, e que até precisou negociar uma rendição com os inimigos. 
Pois bem, se ouve uma ocasião em que Roma poderia ter caído e, como potência, teria até desaparecido, foi durante as Guerras Púnicas (¹), quando Aníbal (²) e suas tropas chegaram a estar a poucos quilômetros dos muros da cidade, não muito depois de terem os romanos conquistado Siracusa, aliada de Cartago (em 211 a.C.). Sendo este o cenário do confronto, a interferência de um elemento imprevisível trouxe mudança completa ao que parecia ser o rumo normal dos acontecimentos.
O relato de Tito Lívio é impressionante, permitindo a quem o lê visualizar mentalmente o que sucedeu, estando os dois exércitos frente a frente, em formação de batalha, cabendo "Roma como prêmio ao vitorioso":
"Caiu sobre ambos os exércitos uma pesada chuva de granizo, a tal ponto que os soldados, mal podendo segurar as armas,  foram forçados a retornar aos respectivos acampamentos, antes por receio da chuva que do inimigo. No dia seguinte ocorreu idêntica tempestade, separando os exércitos que, no mesmo lugar, estavam já prontos para o combate. Assim que todos retornaram aos acampamentos, o céu tornou-se miraculosamente sereno e tranquilo." (³)
Sabem os leitores que os povos da Antiguidade eram bastante supersticiosos, e,  nesse aspecto, nem romanos e nem cartagineses eram muito diferentes. Aníbal, que já desistira uma vez de atacar Roma diretamente, quando poderia ter obtido sucesso, de novo protelou o enfrentamento, dizendo que, para apoderar-se de Roma, era talvez mais importante a boa sorte que uma grande capacidade bélica. É possível que ele entendesse "sorte" como uma atitude favorável dos deuses, que as tempestades de granizo pareciam negar. De qualquer modo, a oportunidade perdida não retornaria às suas mãos. Depois de confrontos encarniçados, Aníbal foi derrotado, já em território africano, na Batalha de Zama (⁴). Posteriormente, na chamada Terceira Guerra Púnica (⁵), Cartago foi completamente arrasada, fazendo os romanos tudo o que podiam até mesmo para apagar a memória de sua existência. Coube então a Roma, como vencedora, a soberania em todo o Mediterrâneo Ocidental.

(1) Contra Cartago, uma colônia fenícia no norte da África, que, tendo alcançado grande desenvolvimento, veio a ser uma potência econômica e militar.
(2) General cartaginês. 
(3) Ab urbe condita libri, VI. O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) 202 a.C.
(5) 149 - 146 a.C.


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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

O triunfo romano, desfile dos generais vencedores e seus exércitos

Na Roma Antiga o triunfo era a máxima homenagem concedida a um general vitorioso e suas tropas, que desfilavam com todos os objetos valiosos capturados ao inimigo derrotado. Não raro prisioneiros de guerra eram também arrastados diante dos vencedores, com a intenção de mostrar a força dos conquistadores, prevenindo rebeliões entre os povos dominados.
Tito Lívio (¹) assim descreveu o triunfo celebrado em honra de Lúcio Quíncio Cincinato, no ano 457 a.C.: "Os capitães do inimigo derrotado eram arrastados diante de sua carruagem; precediam-no as insígnias militares, vindo depois todo o exército carregando o botim de guerra." (²)
Representação de um triunfo romano (⁵)
Sem poupar palavras, o mesmo Tito Lívio narrou também a grandiosidade do triunfo celebrado em honra do cônsul Lúcio Emílio Paulo (³), que derrotou a Macedônia em 168 a.C., cujo rei era, então Perseu. O triunfo durou três dias, e foi assim descrito:
"Foi aquele triunfo, fosse pela grandeza do monarca vencido, pela beleza das estátuas ou pela quantidade de dinheiro conquistado, maior que nenhum outro, ultrapassando em magnificência todos os triunfos anteriormente realizados. No primeiro dia foram trazidas as estátuas conquistadas, carregadas em duzentas e cinquenta carruagens. O dia seguinte foi gasto em apresentar carruagens carregadas do que havia de mais belo e deslumbrante entre as armas macedônicas [...]. Em seguida, três mil homens transportavam setecentos e cinquenta vasos, repletos de prata amoedada [...]. Finalmente, no terceiro dia, o cortejo foi aberto pelos trombeteiros, seguidos por cento e vinte bois com chifres dourados e enfeitados com guirlandas. Vinha então o carro de Perseu, com suas armas e sua coroa, tendo atrás a multidão de prisioneiros, e em seguida os filhos do rei, acompanhados de seus professores. Depois dos filhos, vinha o próprio Perseu e sua mulher, atordoados por tanta desventura. Vinham depois quatrocentas coroas de ouro, mandadas como presente a Lúcio Emílio Paulo por quase todas as cidades da Grécia e da Ásia, como cumprimentos pela vitória. Por último, com grande majestade, tanto por seu aspecto digno como por ser idoso, vinha o próprio cônsul Lúcio Emílio sobre um carro triunfal. Seguiam-no homens ilustres, a cavalaria e as coortes pedestres, em sua respectiva ordem."(⁴)
Face a um revés em combate, a maioria dos inimigos de Roma recorria o suicídio, que na época era considerado uma saída honrosa. Se capturados vivos, os principais chefes políticos e militares vencidos eram, depois de devidamente acorrentados, submetidos à terrível humilhação de serem arrastados no cortejo do triunfo. Aliás, isso era apenas parte do processo de tortura, já que, ao cabo do trajeto, não era nada incomum que os inimigos fossem alvo das formas mais cruéis de execução. 
É desnecessário dizer que, como espetáculo público, os triunfos eram apreciadíssimos em Roma. Além disso, é possível afirmar que, sob o aspecto político, tinham um propósito duplamente terapêutico:
a) Internamente, levantavam o ânimo da população e funcionavam como instrumento para assegurar o apoio dos governados, tanto entre as camadas populares como entre o patriciado;
b) No plano externo, ajudavam a impor o medo entre os povos vizinhos, fossem eles aliados de Roma ou derrotados propensos a um levante.

(1) 59 a.C. - 17 d.C..
(2) Ab urbe condita libri. O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Por haver derrotado a Macedônia, o cônsul Lúcio Emílio Paulo recebeu o apelido de "Macedônico".
(4) Pensem os leitores em que é que acabou o poderoso império do qual Filipe e seu filho Alexandre, o Grande, haviam sido expoentes.
(5) ROSSI, Filippo de. Ritratto di Roma Antica. Roma: Francesco Moneta, 1645, p. 192. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Combate singular

Uma batalha, na Antiguidade, podia resultar em horrorosa carnificina. Políbio de Megalópolis, descrevendo a luta entre cartagineses e romanos em Zama (¹), observou que "o campo entre os exércitos ficou coberto de sangue, mortos e feridos, trazendo a Cipião (²) um grande problema, uma vez que os cadáveres, os feridos que se revolviam no próprio sangue e a confusão de armamentos dispersos tornavam a passagem quase intransponível às tropas que, em formação, aguardavam sua vez de entrar em combate." (³)
Muito bem, leitores, recuperem o fôlego, e vamos adiante. Às vezes acontecia que, em lugar de dois exércitos se enfrentarem com muitas perdas, cada um elegia seu campeão e estes dois heróis lutavam até que um vencesse, sendo o resultado válido (esperava-se) como se toda a tropa entrasse em ação. A essa luta entre dois soldados que representavam seus respectivos exércitos dá-se o nome de combate singular.
Além da possibilidade de evitar uma matança generalizada, havia outras razões que podiam levar à opção pelo combate singular. Na Antiguidade era comum que os exércitos inimigos acampassem um à vista do outro, mantendo, porém,  uma certa distância, e assim permanecessem durante algum tempo, aguardando a hora oportuna para o ataque. Todavia, uma longa espera, podia ser de todo inconveniente, pois:
  • Era, quase sempre, enervante para os soldados;
  • Aumentava a demanda por suprimentos (alimentos e água, principalmente), para os homens e para os animais;
  • Ampliava a possibilidade de que, durante a espera, sucedesse algum imprevisto, talvez uma doença entre os soldados ou uma súbita mudança nas condições climáticas, como uma chuva forte ou uma nevasca, acarretando uma alteração completa no cenário da guerra;
  • Dava tempo ao inimigo para solicitar e receber reforços.
Tudo isso, em conjunto, podia incitar à ideia de um combate singular, quando o enfrentamento tradicional não parecia muito sábio. Acrescentemos, ainda, um certo gosto por feitos heroicos - chamem de provocação, se quiserem - e teremos a explicação para que dois valentões se engalfinhassem à vista da soldadesca que, neste caso, devia ter uma atuação parecida à das modernas hordas de torcedores nos estádios de futebol.
Vejamos agora um exemplo bastante esclarecedor. Foi no ano 394 da fundação de Roma, ou 359 a.C., quando romanos e gauleses se enfrentavam. Um gaulês muito alto e forte apareceu e, nas palavras de Tito Lívio (⁴), propôs:
"Que venha o homem mais forte que há em Roma para que lute comigo, e aquele de nós que vencer, seja a sua gente a melhor na guerra."
Se o desafio parecer razoável, será útil recordar que os gauleses tinham por costume zombar dos romanos, a quem consideravam baixinhos (⁵). O que ocorreu em seguida foi assim descrito por Tito Lívio:
"Houve um longo silêncio entre a juventude romana, envergonhada de fugir ao combate, e, ao mesmo tempo, com receio da exposição a tamanho perigo." (⁶)
Afinal, Tito Mânlio, depois conhecido como Torquato, compareceu diante de seu comandante e, obtida a permissão, aceitou o desafio do fortão gaulês. Tomaram-se disposições para que a luta ocorresse com toda a lisura, o que incluía, por suposto, a escolha de um lugar que não favorecesse a nenhum dos dois. A um sinal, o combate começou e, se devemos crer no que disse Tito Lívio, não durou muito, já que o jovem Tito Mânlio, depois de dois golpes certeiros, jogou o gaulês ao chão - morto.
Nessas circunstâncias, o resultado do combate singular podia simplesmente ser acatado conforme o acordo, mas não era incomum que o exército ao qual pertencia o vencedor, tomado de brio, atacasse os oponentes na intenção de pô-los em fuga. No caso específico de que tratamos, a informação de Tito Lívio (⁷) é de que foram os gauleses que deram no pé: "Os gauleses, na noite seguinte, estando com muito medo, abandonaram os acampamentos e se foram." 
Pensem, leitores, como seria interessante se os gauleses tivessem registrado, também, a sua versão dos fatos, de modo que fosse possível confrontar os pontos de vista! 

(1) Em 202 a.C.; último combate da Segunda Guerra Púnica.
(2) Comandante romano.
(3) Políbio de Megalóplis, História.
(4) Ab urbe condita libri.
(5) Pelo menos foi isso que afirmou, em tempos posteriores, ninguém menos que Júlio César (em De Bello Gallico), que, ressalte-se, de tanto lutar contra eles, conhecia os gauleses muito bem.
(6) Ab urbe condita libri.
(7) Os trechos de Políbio (História) e de de Tito Lívio (Ab urbe condita libri) citados nesta postagem são tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O primeiro censo realizado em Roma

Sabemos, por informação de Tácito, no Livro XI dos Annales, que no ano 801 da fundação de Roma (ou 48 d.C.), foi realizado um censo, que apontou a existência de seis milhões e novecentos e quarenta e quatro mil cidadãos no Império. 
Ora, a realização de censos era uma prática muito antiga entre os romanos, e, de acordo com Tito Lívio (Ab urbe condita libri), o primeiro deles ocorreu durante o governo de Sérvio Túlio, sexto rei de Roma. Naquele primeiro censo (¹) foram contados cerca de oitenta mil cidadãos romanos militarmente válidos (²). 
É interessante notar que, para os romanos, a contagem dos cidadãos ia muito além de um levantamento de informações que pudessem favorecer projetos militares ou tributários dos governantes. Sabemos que havia, também, um elemento religioso envolvido, na intenção de assegurar o favor dos deuses, tanto para os homens destinados à defesa da cidade como para os que iam à guerra contra inimigos externos. Esse aspecto fica evidente na maneira como foi organizada a cerimônia que assinalou a conclusão do primeiro censo: todos os cidadãos foram reunidos no Campo de Marte, onde teve lugar um ritual de purificação chamado Lustro, no qual foram sacrificados, ao que tudo indica em honra do deus da guerra, um porco, uma ovelha e um touro.

(1) Século VI a.C.
(2) A cidadania estava, então,  vinculada à prestação do serviço militar.


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