quinta-feira, 19 de agosto de 2021

De que se ocupavam as sabinas raptadas para o casamento com romanos

O rapto das sabinas é episódio (talvez) lendário ou (talvez) semilendário, contado para explicar de onde teriam vindo as mulheres que se casaram com os primeiros romanos, aqueles que foram contemporâneos de Rômulo e Remo, heróis (talvez) lendários, ligados às origens e fundação de Roma.
Com tanta lenda, é útil considerar este assunto? Sim, se levarmos em conta o que pode ser extraído dele, não pelo que se dizia, mas pelo que não era dito. 
Plutarco (¹), grego de nascimento, é famoso pelas biografias comparadas que escreveu, as Vitae parallelae. Ao tratar de Rômulo, abordou a questão do rapto das sabinas, referindo que, para que se fizessem as pazes entre os raptores e as famílias das mulheres raptadas (que seriam mais de oitocentas), foi firmado um acordo que determinava o modo como cada uma delas seria tratada, não só pelo respectivo marido, como pelos romanos em geral, quando estivessem em lugares públicos. Vejam, leitores, é interessante: "Deviam ser tratadas com respeito quando andavam pelas ruas, concedendo-se a elas a preferência no caminho; nenhuma palavra obscena devia ser dita em sua presença e nenhum homem devia mostrar a elas descoberta alguma parte do corpo, exceto aquelas que podem ser expostas com decência [...]" (²). Os filhos das sabinas com romanos seriam, pelo acordo, distinguidos, na infância, com adornos especiais, que atestariam diante de todos sua posição de destaque na sociedade.
Outro aspecto, contudo, chama a atenção na lista de direitos das sabinas, um que justifica a análise do caso, porque revela algo importante em relação às ocupações das mulheres romanas na Antiguidade: é que, conforme Plutarco, havia para elas uma só obrigação, que era trabalhar com a lã. Isso devia incluir tarefas como fiar e tecer. Era relevante, pois consta que os primitivos romanos eram pastores de ovelhas e criadores de gado. Era também relevante porque os primitivos romanos, constituindo um povo rústico, não eram dados a muito luxo no viver quotidiano e, portanto, era necessário ter em casa quem soubesse fazer roupas, não só para os dias cálidos do verão, mas também para as épocas invernais. Então, meus leitores, lenda ou realidade, a história das sabinas nos conta um pouco do que devia ser a vida e ocupação das mulheres nos primórdios de Roma, quando os escravos não eram ainda numerosos. O fato de que se supunha que os pais sabinos haviam imposto aos maridos romanos que não explorassem a força de trabalho das mulheres que haviam raptado mostra, por oposição, que, como regra, provavelmente competia a elas uma profusão de tarefas, incluindo cozinhar, cuidar dos filhos pequenos, consertar roupas e até ajudar na agricultura. Não devia ser pouco, como, afinal, não era, em muitos outros povos. 

(1) Nascido em Queroneia, viveu entre c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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4 comentários:

  1. Muito interessante como se pode abstrair sobre uma sociedade mesmo de uma aparente lenda.

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    1. Olá, Wendell, é melhor considerar "lenda" até que se prove o contrário. Quem sabe se algum dia não teremos evidências de que o rapto aconteceu mesmo, ainda que não do modo como os autores da Antiguidade disseram? Nisso está a magia de trabalhar com a História, sempre investigando, construindo novos cenários e conceitos, e até desconstruindo, se necessário, por uma questão de honestidade intelectual.

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  2. Não era pouco, não senhora. Mas, à luz dos tempo, era uma posição digna, própria de mulher casadoira, o que, em tempos primevos, estava acima de qualquer escrava. Ou seja: estava em posição de mulher merecedora de casar com os melhores da espécie.

    Um bom domingo, Marta :)

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    1. Já está pronto um post sobre a condição das mulheres romanas dentro do casamento, apenas não decidi em que data será publicado. Aparecerá no blog um dia desses.

      Obrigada por ler e comentar. Tenha uma ótima semana!

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