sexta-feira, 30 de maio de 2014

A Rotina dos Escravos em uma Fazenda Produtora de Café

Ao tempo em que, no Brasil, havia trabalho escravo, a manutenção da rotina diária era muito importante nas propriedades agrícolas, como forma de evitar rebeliões entre os trabalhadores submetidos a tão duras condições de vida. "Nada de novidades", parecia ser a regra fundamental.
O escravo recém-chegado era logo inteirado das obrigações que, quotidianamente, deveria executar, sempre sob os olhares atentos (e muitas vezes cruéis) dos feitores.
Isso não significa que todas as fazendas obedecessem à mesma rotina, mas havia uma certa semelhança, resguardadas diferenças decorrentes do tamanho da propriedade agrícola e do tipo de cultivo predominante.
Em visita ao Brasil (chegou em setembro de 1842), o Príncipe Adalberto da Prússia teve ocasião de ir até uma fazenda de café, não muito longe do Rio de Janeiro, a Capital do Brasil na época. Ali, fez um registro cuidadoso quanto à rotina dos escravos, observando horários que eram cumpridos, bem como a alimentação que recebiam:
"O trabalho na fazenda começa às quatro e meia da madrugada, depois de todos os escravos terem tomado café com açúcar. Às dez horas almoçam, constando o almoço de farinha de mandioca, arroz cozido ou milho. Às duas horas jantam e comem carne-seca (cuja maior parte vem de Buenos Aires) com arroz e farinha, se bem que na região costumam receber só carne e gordura de porco como alimentação animal comum, porquanto o transporte da carne-seca do Rio até aqui é muito caro." (*)
Faço uma breve pausa para recordar a meus leitores o problema que, naqueles tempos, suscitavam os altos impostos com que era taxado o charque do Rio Grande do Sul que - tremendo absurdo - chegava a tornar mais vantajosa a importação de carne-seca da Argentina, como bem refere o autor de Brasil: Amazônia - Xingu. Mas é hora de prosseguir, já que, às duas da tarde, a jornada de um escravo estava longe de acabar. Continua o Príncipe Adalberto:
"Depois toca a trabalhar novamente até às sete horas da noite. Das sete às nove ceiam novamente arroz ou farinha de mandioca ou de milho, e de nove horas em diante é tempo de dormir; contudo em vez disto vêm as conversas em comum, quase sempre até depois da meia-noite." (**)

Colheita do Café (***)
O trabalho escorchante e a péssima alimentação resultavam em uma expectativa de vida quase sempre muito baixa para os escravos obrigados a ocupar-se das tarefas de cultivo. Agregue-se a isso o tempo insuficiente de repouso e ter-se-á uma visão aterradora do que era ser escravo, a despeito do lampejo de sociabilidade insinuado pelas conversas que seguiam noite adentro. Alguns anos mais tarde, com a proibição do tráfico de africanos no Brasil, os senhores teriam de preocupar-se um pouco mais com a sobrevivência de seus escravos. O preço das "peças" sofreria considerável elevação, dependendo apenas do mercado interno.
Melhorou assim a vida dos escravos? Pouco ou quase nada. Escravos eram sempre escravos, e na privação da liberdade pessoal estava centralizada a desgraça desses trabalhadores. O mais era apenas consequência.

(*) ADALBERTO, Príncipe da Prússia Brasil: Amazônia - Xingu
Brasília: Senado Federal, 2002, p. 130
(**) Ib.
(***) SELLIN, Alfred Wilhelm Das Kaiserreich Brasilien
Leipzig: Frentag, 1885, p. 177

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Como as Índias Faziam Cerâmica

De acordo com Hans Staden (*), alemão que esteve no Brasil no Século XVI, a técnica empregada por mulheres indígenas para a confecção das vasilhas de barro de que precisavam era a seguinte: primeiro o barro era bem amassado e, em seguida, moldado segundo a forma desejada e o uso a que se destinava; postas a secar, essas peças eram depois pintadas, isso segundo a tradição da tribo.
Devem perguntar, no entanto, os leitores que sabem algo da fabricação de vasos de argila: como eram queimadas as vasilhas? Sim, porque é a queima que dá a elas a durabilidade necessária!
Correto, em seguida vinha a queima. As peças, uma vez secas, eram colocadas sobre pedras, tendo-se o cuidado de, ao redor delas, fazer um monte de cascas de árvores. Punha-se então fogo nas cascas, deixando que se convertessem em brasas, para concluir a queima desejada.
Desse modo, terminava o engenhoso processo, que, com limitados recursos, permitia que se fizessem objetos de barro cuja finalidade, entre outras, podia ser para cozinhar, guardar ou ainda transportar alimentos.
É bom notar, porém, que esse processo se empregava, no Século XVI, entre indígenas do litoral dos atuais Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, a diversidade de povos indígenas da América era, na época, considerável e, por consequência, era muito grande também a variação de técnicas empregadas por eles nas diversas tarefas diárias.

Cerâmica indígena, de acordo com Debret (**)

(*) STADEN, Hans Zwei Reisen nach Brasilien
Marburg: 1557
(**) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1
Paris: Firmin Didot Frères, 1834 
O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Os Engenhos de Açúcar Foram Responsáveis Por Grandes Desmatamentos

Um engenho, para funcionar, precisava ter excelente maquinário, muitos escravos e grande quantidade de cana-de-açúcar para moer, certo?
Sim, mas era preciso muito mais. É o que diz André João Antonil (ou Giovanni Antonio Andreoni), o grande autor do Período Colonial, em se tratando da economia açucareira. Uma das maiores necessidades de um verdadeiro engenho era dispor de quantidades enormes de lenha para queimar:
"Querem as fornalhas, que por sete e oito meses ardem de dia e de noite, muita lenha, e para isso há mister dois barcos velejados, para se buscar nos portos, indo um atrás do outro sem parar, e muito dinheiro para a comprar; ou grandes matos, com muitos carros e muitas juntas de bois para se trazer." (*)
O que nos explica o excelente Antonil é que, antes de mais nada, um engenho não podia funcionar se não houvesse lenha suficiente para manter as fornalhas trabalhando. Assim sendo, um senhor de engenho tinha duas opções, devendo eleger aquela que, para si, fosse mais conveniente:
a) Não havendo matas por perto, era preciso comprar lenha que vinha de longe, sendo necessário ter dois barcos que a trouxessem dos portos. O detalhe interessante é que Antonil assevera que o revezamento desses barcos precisava ser contínuo, para garantir o suprimento indispensável. Havia ainda o inconveniente de que lenha custava caro e o senhor teria que gastar bastante com ela.
b) Uma outra possibilidade, acessível quando havia matas por perto, era ter os próprios escravos trabalhando no corte das árvores. Essa, no entanto, não seria a única despesa, já que a madeira cortada deveria ser transportada até o engenho, o que requeria carros e bois para a tarefa.
Em síntese, com matas por perto, a lenha viria em carros de bois; com matas distantes, a lenha viria em barcos. Teria de vir, de qualquer maneira, para manter o incessante labor das fornalhas. Os engenhos eram, de uma ou de outra forma, responsáveis por grandes desmatamentos.


(*) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio) Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas
Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 2


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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um Copinho de Vinho de Portugal

O Padre Fernão Cardim, em carta ao Provincial dos jesuítas, escreveu, a respeito do Colégio da Bahia:
"O Colégio tem três mil cruzados de renda, e algumas terras adonde fazem os mantimentos; residem nele de ordinário sessenta; sustentam-se bem dos mantimentos, carnes e pescados da terra." (*)
Quem quer que leia essa carta, relatando a situação dos jesuítas no Brasil na década de oitenta do Século XVI, terá a ideia de que, pelo menos na Bahia, nada faltava para conforto dos religiosos, mesmo porque em outros trechos da mesma correspondência, dava o padre mais detalhes sobre os numerosos alimentos então disponíveis.
Curiosamente, no entanto, acrescentaria, depois:
"Nunca falta um copinho de vinho de Portugal, sem o qual se não sustenta bem a natureza, por a terra ser desleixada e os mantimentos, fracos [sic!!!]." (*)
Velhos hábitos, velhos hábitos...

(*) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica
Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 13
(**) Idem.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Sobre a Comida que Era Servida nas Hospedarias ao Final da Estrada de Ferro D. Pedro II


Estação da Estrada de Ferro D. Pedro II (**)

Suponha, leitor, que estejamos no Século XIX; suponha, ainda, que tenha nos passado pela ideia percorrer a Estrada de Ferro D. Pedro II. Ao fim dos (poucos) quilômetros que compõem o trajeto, estão os viajantes famintos. Eis a ocasião de um grande problema.
No Século XIX as hospedarias ou estalagens - chame como quiser - eram os locais em que se podia fazer uma refeição. Como não havia controle de preços e muito menos de qualidade, a higiene quase sempre passava longe das mesas e a conta, ao final, era absurda. Quanto à comida...
Só se achava o mais trivial, e isso com boa sorte. Há um depoimento da época, escrito por Augusto-Emílio Zaluar, que nos informa adequadamente:
"Um almoço de estalagem compõe-se ordinariamente do seguinte: arroz, feijão, carne de porco, farinha e vinho; e, quando o viajante se trata, acrescenta-se a esta lista uma galinha ensopada e um prato de ovos estrelados. O jantar e a ceia são moldados pelo mesmo teor." (*)
Quem viaja atualmente pelo Brasil sabe que pode, na maioria dos aeroportos, achar refeições pelo menos razoáveis. Os preços, no entanto, não sei se por paixão pela História, têm o hábito de recordar os costumes dos Século XIX. Eis aí um tipo de "patrimônio histórico" que eu não acharia nada mau que viesse abaixo!

(*) ZALUAR, Augusto-Emílio Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861
Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 3
(**) Estação da Estrada de Ferro D. Pedro II, de acordo com Sebastien Auguste Sisson. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional. A imagem foi editada para melhorar a nitidez e facilitar a visualização.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

As Comunidades Nômades e o Pastoreio

O nomadismo, nos tempos antigos, não era, para os que se dedicavam ao pastoreio, uma opção. Era, antes, uma necessidade. Quando ovelhas e/ou cabras consumiam todas as pastagens de um lugar, era preciso, a bem da conservação dos rebanhos, procurar outro espaço para viver.
Além disso, dependendo das condições climáticas, podia ser necessário mover os rebanhos de acordo com as estações do ano. As montanhas podiam ter bons locais de pastagem desde fins da primavera, por todo o verão e até começar o outono; porém, em se aproximando o inverno, era preciso conduzir os animais para as planícies, cujas temperaturas, em geral mais amenas, bem como os ventos menos intensos, faziam as nevascas mais toleráveis, em termos de sobrevivência, tanto para os pastores como para seus rebanhos. É importante lembrar que, em algumas regiões do mundo, essa prática de migração sazonal de pastores e rebanhos ainda persiste, e é denominada transumância.
Quer-se dizer, então, que povos dedicados ao pastoreio tinham, obrigatoriamente, que ser nômades?
Certamente não. A sedentarização era possível em áreas de pastagens mais férteis, com variações climáticas menos intensas ao longo do ano, nas quais a ocorrência de chuvas regulares possibilitava mais célere recuperação da cobertura vegetal, de modo que, nessas condições, bastava fazer, com os rebanhos, um rodízio nas proximidades de uma dada povoação, combinando o pastoreio com a agricultura, da qual, inclusive, podia vir um suprimento de forragem para o gado nos meses mais frios.
No entanto, em áreas menos férteis, a atividade pastoril precisava ser nômade. Esgotada uma pastagem, era indispensável desmontar as tendas e partir. Lá iam homens e rebanhos em busca de um novo local para viver, que tivesse grama verde e água - local que acabaria também abandonado quando, de novo, os pastos fossem totalmente consumidos.
E o que é que acontecia se diferentes grupos de pastores nômades se encontrassem e resolvessem disputar uma mesma área? Os senhores leitores têm bastante experiência quanto ao que é a natureza humana. Não é difícil imaginar. Negociações pacíficas seriam improváveis. O que variava, naqueles tempos, em relação aos nossos dias, era apenas a capacidade destrutiva, com as armas mais que rudimentares então disponíveis. O resto é muito parecido ao que vemos até hoje, embora as brigas da atualidade não sejam, usualmente, por bons pastos. A disputa pela água, no entanto, anda a frequentar a ordem do dia.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Tucanos


Gosto dos tucanos. Têm um jeito alegre e xereta. Pelo menos é o que parece. Não sei se eles realmente são assim, ou se somos nós, humanos, que queremos ver nossas características nos outros seres vivos. Os nativos da América, bem como os europeus que, no Século XVI, colonizaram o Brasil, também achavam os tucanos muito interessantes, mas por outros motivos. Escreveu Gabriel Soares:
"Tucanos são (...) aves do tamanho de um corvo; têm as pernas curtas e pretas, a pena das costas azulada, a das asas e do rabo anilada, o peito cheio de frouxel muito miúdo de finíssimo amarelo..." (*)
Descrição rebuscada, essa, que, no entanto, não contempla o fato de serem muitas as espécies de tucanos. Retomando o "frouxel muito miúdo de finíssimo amarelo", Gabriel Soares acrescentou: "...o qual os índios esfolam para forro de carapuças." (**)
Dizia mais:
Tucano, de acordo com ilustração do
Século XVII (****)
"Têm a cabeça pequena, o bico branco e amarelo, muito grosso, e alguns são tão compridos como um palmo (...). Criam estes pássaros em árvores altas, e tomam-nos novos para se criarem em casa; os bravos matam os índios à flecha, para lhes esfolarem o peito, cuja carne é muito dura e magra." (***)
A circunstância de saber como era a carne de um tucano faz supor que Gabriel Soares a havia experimentado, embora possa ter escrito apenas por ouvir falar. Não chega isso a ser surpresa, já que em tempos coloniais, e mesmo adiante, papagaios eram apreciados para uso culinário. Por que não tentariam o mesmo com tucanos?


(*) SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 226
(**) Idem
(***) Id.
(****) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg Historia naturalis Brasiliae
Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648


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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Remédios Estranhíssimos de Antigamente - Parte 5: O "Sacatrapo"

Senhores leitores, termino hoje esta pequena série de postagens sobre os remédios malucos de antigamente com uma referência ao famoso e terrível "sacatrapo" (só um instante, já saberão o que era).
Parece que a imaginação da gente do passado não conhecia limites quando se tratava de inventar tratamentos que podiam ser piores que a própria doença.
Não, não estou exagerando. Foi Hércules Florence, que andou pelo interior do Brasil como desenhista da Expedição Langsdorff na terceira década do século XIX, quem escreveu:
"Nesses dois lugares (*) existe uma moléstia mais perigosa ainda e que é consequência da outra (**). Chamam-na corrupção.
Quem for atacado fica, pelo que contam, com o ânus dilatado do tamanho de um punho fechado, e cai em sonolência e insensibilidade. O remédio heróico é então o sacatrapo, clister de vinagre, pimenta, pólvora e tabaco. Por meio de um pau, cuja ponta leva um chumaço embebido de cada vez, introduz-se no ânus essa terrível mistura.
Sem tão furibunda medicamentação a morte, dizem, é infalível. (...)" (***)
Seria necessário dizer alguma coisa mais?


(*) Diamantino e Vila Bela, Província de Mato Grosso.
(**) Refere-se às sezões, que são febres intermitentes.
(***) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 204


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segunda-feira, 12 de maio de 2014

Remédios Estranhíssimos de Antigamente - Parte 4: Tratamentos Para Feridas Resultantes de Flechadas

Quem vivia no Brasil dos tempos coloniais sabia muito bem o que era estar às turras com os nativos da América. Conflitos entre colonizadores e índios eram, então, fatos corriqueiros, de modo que levar flechadas não vinha a ser, em absoluto, uma raridade.
Esses ferimentos bélicos não eram coisa com que se brincasse. Indígenas bem treinados e habilidosos eram capazes de lançar flechas de uma distância razoável com grande precisão e força, de modo que o estrago não era pequeno. Protegiam-se os colonizadores usando um gibão acolchoado de algodão ou mesmo escudos feitos de couro de anta, mas era inevitável que, vez ou outra, alguém sofresse um dano mais sério que, devido à falta naqueles tempos de medicamentos realmente eficazes, acabava sendo fatal.
Ora, senhores leitores, os companheiros dos que se feriam em combate faziam todo o possível para curá-los. O problema é que esse "todo o possível" era, quase sempre, tão desastroso quanto a flechada. Ou seja, sarar ou morrer não dependia muito do tratamento recebido ou, o que era pior, a aplicação de certos "tratamentos" podia contribuir, no melhor dos casos, para apressar a morte.
Veremos dois casos de feridos por flecha: no primeiro, o homem teve a sorte de sobreviver, mas já no segundo, acabou morrendo, fato que, conforme se verá, não pode nem ser considerado surpreendente.
Quem relata o primeiro acontecimento é Pedro Taques de Almeida Paes Leme, na sua Nobiliarchia Paulistana, referindo-se a alguém que retornava a São Paulo depois de andanças pelo sertão:
"...ao entrar pela ponte, lhe dispararam uma flecha, que atravessando-lhe o papo, que tinha no pescoço, caiu da ponte abaixo (...). Neste lance chegaram os outros irmãos, e se puseram em retirada os índios inimigos. Continuaram o destino da marcha para São Paulo, curando-se ao enfermo com mechas de fumo e mel de abelhas..."
Sem mais delongas, vamos ao segundo caso, o do famoso "Pai Pirá", um paulista que se tornou cacique de índios (!), fato relatado por Ayres de Casal:
"No meio do século passado vivia entre o Paranaíba e Rio Grande uma horda de bororos, cujo cacique era então um paulista chamado Antônio Pires de Campos, moço de muita esperteza, habilidade e gênio para fazer deste povo quanto dele se pretendesse por sua intermediação. Este homem, a quem seus crimes fizeram procurar tal sociedade, morreu entre os anos de cinquenta e sessenta de uma flechada num braço em um encontro com os caiapós. Seus camaradas lha medicaram por muitos dias com toucinho assado quente, até o porem numa povoação de cristãos em Minas Gerais, para ver se o curavam. Choraram-no por espaço de um mês como a pai comum." (*)
A ciência desses tempos estava ainda longe dos métodos que hoje garantem resultados mais precisos e, assim, aplicavam-se tratamentos que pareciam dar algum resultado, tudo empiricamente: se alguém usava algum "remédio" e o paciente sobrevivia, havia grande probabilidade de que, boca a boca, o tal tratamento fosse propagado, sem que se considerasse, nesse quadro, o acaso da sobrevivência como um fator. Pode ser de arrepiar os cabelos que alguém achasse que toucinho quente curaria uma flechada, mas aqueles eram dias em que as mais elementares noções de assepsia eram ainda desconhecidas. E, se lavar as mãos era coisa pouco frequente, como não esperar que mesmo feridas simples não resultassem em infecções mais sérias?

(*) CASAL, Manuel Ayres de Corografia Brasílica, vol. 1
Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 351


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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Remédios Estranhíssimos de Antigamente - Parte 3: Cachaça Para Tratar Picadas Venenosas

Antes do soro antiofídico (1903), a picada de uma cobra venenosa equivalia, quase sempre, a uma sentença de morte, às vezes muito rápida, às vezes algo mais demorada, frequentemente dolorosa. Vale lembrar, também, que, desde os primeiros tempos da colonização, os europeus que chegavam ao Brasil ficavam aterrorizados diante do número e das dimensões das serpentes venenosas que encontravam, de modo que não tardou a aparecer um certo "conhecimento" popular para tratamento no caso de alguém ser picado, fato que, diga-se de passagem, não era nada incomum. O problema é que os tais "medicamentos" quase sempre não davam muito resultado.
Um relato do Conde de Azambuja, monçoeiro do Século XVIII, provê a explicação de como eram tratadas as picadas de cobra:
"No Pardo (*) ocorria extraordinário número de ofídios causadores de frequentíssimos acidentes combatidos pela ingestão de altas doses de cachaça salgada." (**)
Espantoso? Há mais.
Não eram apenas picadas de cobra que eram "tratadas" à base de cachaça. As de abelhas recebiam terapia semelhante, se devemos crer em um trechinho proveniente da Literatura, em obra de José de Alencar:
"João Fogaça passou tranquilamente em face deles; apertou a mão a Estácio e beijou-a ao Rev. Padre Inácio. Instruído do que acontecera, o capitão de mato deu logo suas providências para o curativo do pobre sacerdote, cujo corpo apresentava já com a inflamação um aspecto disforme; as fricções de fumo e aguardente aliviaram o enfermo que afinal consentiu repousar algumas horas, depois de obtida a promessa formal de perdão para os selvagens." (***)
Use a interjeição que quiser, leitor. Ao menos, no caso de picada de cobra, a cachaça devia servir,  parece, para tornar o infeliz moribundo um tanto alheio à realidade da morte iminente.

(*) Rio Pardo.
(**) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3
São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 86
(***) José de Alencar, As Minas de Prata


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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Remédios Estranhíssimos de Antigamente - Parte 2: Prescrições de um Cozinheiro

Lucas Rigaud não foi um cozinheiro qualquer. Em fins do Século XVIII, ele já havia preparado comida para uma porção de cabeças coroadas da Europa, e isso não era pouco, sob qualquer circunstância. Publicou um livro - Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha (*) - que, para os padrões da época, fez enorme sucesso, alcançando sucessivas edições, em tempos nos quais muita gente, principalmente quem trabalhava na cozinha, não era dada a leituras, se é que sabia ler. Uma carreira notável, portanto, a desse chef.
Seu livro, porém, não continha apenas instruções para o preparo de comida agradável ao paladar de seus contemporâneos. Havia indicações para o preparo de "alimentos" que se propunham a contribuir para a manutenção e/ou recuperação da saúde, o que não é nenhuma novidade. Nos tempos antigos já eram feitas considerações nesse sentido. O curioso, mesmo, era a formulação dessas prescrições.
Na postagem anterior já foi mencionada, da obra de Rigaud, a "Geleia de Raspas de Veado"; para divertimento de meus leitores, teremos hoje "um caldo para inflamações do peito", um "caldo de víboras para purificar o sangue" e, por último (para premiar os que conseguirem chegar até lá), um "caldo de rãs e de caracóis para tosses secas". Desnecessário recomendar, creio, que ninguém experimente, ao menos como medicação.

CALDO PARA INFLAMAÇÕES DO PEITO

"Ponha-se a ferver em uma canada de água um frango recheado com as quatro sementes frias pisadas, e depois de escumado, e o caldo reduzido a duas terças partes, passe-se por um guardanapo, esprema-se, e usem dele todos os dias, e pelo tempo que lhe parecer." (**)

CALDO DE VÍBORAS PARA PURIFICAR O SANGUE

"Tomem de chicória, pimpinela, cerefólio e alface uma mão cheia de cada coisa, lavem-se e cortem-se miúdas, ajuntem-lhe um frango e uma víbora esfolada viva, a que deitarão fora a cabeça, o rabo e as entranhas, reservando os fígados e o coração; ponha-se tudo a ferver em uma canada de água, e depois de ter fervido e a água estar reduzida à metade, coe-se por um guardanapo, divida-se em duas partes e tomem uma todos os dias em jejum. Deste caldo se poderá usar quinze ou vinte dias, purgando-se primeiro e no fim deste tempo." (***)

CALDO DE RÃS E DE CARACÓIS PARA TOSSES SECAS

"Lavem-se e ponham-se a ferver por um instante, uma dúzia de caracóis e duas dúzias de coxas de rãs; em tendo fervido, deitem-se em água fria, e depois pisem-se em um gral de pedra, e pisadas, ponham-se a ferver em uma canada de água com duas cabeças somente de alhos porós, cortados muito miúdos, ou quando não, dois ou três nabos cortados da mesma forma, e uma mão cheia de cevada pilada; em tendo fervido e estando o caldo reduzido, coe-se por um pano, mas não se esprema; deitem-lhe, antes de o tomarem, sete ou oito grãos de açafrão em pó, e tome-se pela manhã em jejum, e três horas depois de cear; o que se poderá continuar pelo decurso de um mês, ou seis semanas, purgando-se neste meio tempo, se for necessário." (****)
Depois disso, só resta dizer: Bom apetite, senhores...

 
(*) Para as citações desta postagem foi utilizada a seguinte edição portuguesa:
RIGAUD, Lucas Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha
Lisboa: Typografia Lacerdina, 1826
(**) p. 208.
(***) p. 210.
(****) p. 209.


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segunda-feira, 5 de maio de 2014

Remédios Estranhíssimos de Antigamente - Parte 1: Geleia de Raspas de Veado

Começo hoje uma pequena série - pequena, é verdade, mas de arrepiar os cabelos. Trataremos, senhores leitores, de alguns "remédios" que eram ministrados a quem adoecia, em tempos nos quais a ciência não tinha exatamente os mesmos padrões de hoje, remédios esses que, logo se verá, eram muito eficazes. Eficazes para acelerar a morte dos doentes.
Não por acaso, qualquer pequena enfermidade já era motivo para mandar chamar um padre, cuja função era preparar o doente para o que se dizia "uma boa morte", em paz com Deus e com os homens. Depois, naturalmente, se o paciente tivesse recursos para tanto, vinha o "médico", que muitas vezes jamais tinha feito um curso de Medicina ou qualquer coisa que com isso se parecesse. O "doutor" (!!!!!) era, pelas alturas dos Séculos XVI, XVII, XVIII, XIX, muitas vezes o barbeiro que mais próximo residia, cuja função era aplicar sangrias. Acreditem ou não, leitores, achava-se que febre ocorria por excesso de saúde e, portanto, era necessário remover uma parte da vitalidade (o sangue, entendia-se), para resolver o problema. Muitas vezes, a febre baixava mesmo. De uma vez por todas.
Diante de tamanho absurdo, não chega, portanto, a ser um espanto que as pessoas pusessem em uso receitas caseiras, que, pelo menos, se não curavam, nem sempre matavam. Eram apenas inócuas. Com o tempo, empiricamente, foi-se observando que algumas coisas pareciam funcionar melhor que outras. Um caminho lento, é verdade, e também pontilhado de desastres, que abriu espaço para o surgimento da ciência como hoje a entendemos, com meios teóricos e práticos para investigar com maior rigor, o que não significa que o método da tentativa e erro tenha desaparecido. Muito ao contrário, como se sabe.
Finalmente, para estrear dignamente a série, vai aqui uma receita proposta pelo chef Lucas Rigaud (Século XVIII) em Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha (*); creio ser desnecessário lembrar que ninguém deve tentar a dita receita para propósitos medicinais...

GELEIA DE RASPAS DE VEADO

"Lavadas as raspas de veado, ponham-se a ferver cinco ou seis horas; em estando cozidas e o caldo reduzido a uma consistência bastante forte, deite-se tudo em um pano e esprema-se; depois tempere-se com açúcar, sumo de limão, canela e um pouco de vinho branco, parecendo-lhe; leve-se outra vez ao lume com claras de ovos batidas, e em levantando fervura, passe-se duas ou três vezes por um guardanapo, e em estando clara e pegada, sirva-se como as mais. Esta geleia é admirável para quem deita sangue pela boca, para os que têm vômitos e diarreias." (**)

(*) Seguiu-se a seguinte edição:
RIGAUD, Lucas Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha
Lisboa: Typografia Lacerdina, 1826
(**) p. 382.


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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Antropófagos

Em um assunto, pelo menos, os autores do Século XVI que escreveram sobre o Brasil eram unânimes: o de que os povos indígenas que habitavam as proximidades do litoral eram, em sua maioria, consumidores de carne humana. Hans Staden, por exemplo, anotou, no subtítulo de seu livro Zwei Reisen nach Brasilien (*), que fazia a "descrição de uma terra de selvagens, comedores de carne humana". Outros autores seguiam aproximadamente o mesmo caminho, apontando o costume que tinham muitos grupos nativos de, ritualmente, abater e devorar os inimigos que haviam derrotado em uma guerra.

Indígenas abatendo prisioneiro (***)
Pois bem, senhores leitores, vou apresentar-lhes, hoje, aquela que tenho como a mais saborosa (Ai! nada de trocadilhos...) das histórias que já li, envolvendo a questão da antropofagia. Vem ela relatada pelo Padre Simão de Vasconcelos, em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, que foi escrita no Século XVII e, portanto, já um pouco distante, no tempo, do acontecimento narrado. Porém, esse autor afirmava ter-se servido de anotações manuscritas deixadas pelo Padre José de Anchieta, esse sim personagem de destaque do décimo sexto século.
Sem mais delongas, vamos à história.
Um padre jesuíta, em sua missão de catequese, chegou a uma aldeia indígena, onde encontrou uma vovó muitíssimo idosa, que reputou, pela fragilidade, estar já à beira da morte. Ora, eram os padres muito cautelosos em ministrar o batismo, mas em tais situações, in extremis, costumavam fazê-lo, tendo em vista o que entendiam ser para a salvação da alma de um catecúmeno, e desde que pudessem prepará-lo devidamente quanto às "coisas da fé". Portanto, pôs-se o padre a doutrinar a dita senhora, segundo julgava que fosse capaz de compreender, e ela parecia em tudo atender e concordar plenamente.
Animou-se com isso o missionário e, supondo que melhor faria sua tarefa se pudesse dar, ao lado do espiritual, algum conforto material à velhinha, perguntou-lhe se não desejava tomar algum alimento, para que pudesse estar um pouco mais forte.
Segue agora a narrativa de Simão de Vasconcelos:
"- Minha avó (assim chamam às que são muito velhas) se eu vos dera agora um pequeno açúcar, ou outro bocado de conforto de lá das nossas partes do mar, não o comeríeis?
Respondeu a velha, catequizada já:
- Meu neto, nenhuma coisa da vida desejo, tudo já me aborrece, só uma coisa me pudera abrir agora o fastio: se eu tivera uma mãozinha de um rapaz tapuia de pouca idade, tenrinha, e lhe chupara aqueles ossinhos, então me parece tomara algum alento; porém eu (coitada de mim), não tenho quem me vá flechar a um destes." (**)
Como veem os meus leitores, o problema não era exatamente falta de apetite!...

(*) STADEN, Hans Zwei Reisen nach Brasilien
Marburg: 1557
(**) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol 1 2ª ed.
Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 33
(***) DENIS, Ferdinand Brésil
Paris: Firmin Didot Frères, 1837
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