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quinta-feira, 6 de julho de 2023

Pequeno monçoeiro

Um pedaço de madeira, uma faca velha meio cega. O menininho luta para entalhar a forma de um barco, como aqueles que, de vez em quando, vê partir pelo Tietê, no rumo do sertão. 
Ainda é muito cedo e a neblina cobre o rio. Deixando de lado a ferramenta improvisada, corre até o barranco, e olha, e olha... 
Quem sabe? Parece ver movimento ao longe. Seriam os batelões que, há dois anos, haviam partido, levando-lhe o pai, entre tantos outros aventureiros?
A névoa não se dissipa, só um ligeiro ruído na água reacende a esperança. Por pouco tempo. Manejando o varejão, um desconhecido se aproxima, em pé sobre a canoa, e passa adiante, acenando aos olhinhos que o espreitam.
Com persistência grande para pequena idade, volta ao trabalho. Quer fazer o seu barquinho, colocá-lo na água e pensar no dia em que também partirá. Na imaginação de menino, talvez seja isso o significado de ser homem. Abrirá caminho nas florestas, achará ouro, será rico e respeitado. De que mais não será capaz?
Esse sonhar acordado logo acaba, já a mãe é quem grita:
- Anda, menino, vem me ajudar a tirar a palha do milho!...
Pés descalços, corre à casinha em que sós, moram agora a mãe e ele. Manejar o pilão requer uma força que seus braços ainda não têm. Mas, em um acesso de valentia, quer ser grande, quer proteger a mãe, e se esforça para fazer do milho a farinha de que tanto precisam para viver.


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terça-feira, 17 de novembro de 2020

Esperando a volta do bandeirante

Ela viera do Reino ainda menina e com quinze anos incompletos o pai a casara com um português da terra, duas vezes viúvo e dono de uma casa na vila, com a correspondente criação de porcos e galinhas, e de umas roças de milho e feijão nas redondezas. Passava por rico e, poucos meses depois do casamento, sem muitas explicações, se juntara a uma tropa que, no rumo do sertão, fora procurar ouro e descer índios para a lavoura. Sendo já passados mais de quatro anos, nunca mais se ouvira falar no bando de aventureiros. Por onde andarão? Estarão ainda vivos? Ninguém sabe dizer.
Ela espera e espera... O assoalho de madeira range sob seus pés, enquanto vai à janela pela vez infinita. Fragmentos do existir chegam através da gelosia - o patear dos animais de carga pela ruazinha tortuosa, os resmungos dos tropeiros, uma cabra fugitiva denunciada pelo guizo que leva ao pescoço, os brados de uma vendedora de pães e doces - a vida e a visão se perdem na distância.
- Mamã!...
Os pensamentos se interrompem.
- Mamã, olha!...
É o seu menino quem balbucia, à porta. Dois companheiros cor de bronze, olhos faiscantes e cabelos negros, sorriem, enquanto um deles segura algo entre os dedos. Abaixa-se e deixa voejar um filhote de sanhaço.
- Ah, é tão novinho, onde o pegaram?
O mais velho, com seus sete anos, explica:
- Embaixo da pitangueira, caiu do ninho...
Mais um instante e lá se vão, a correr para o pátio. Ouve-se, entre risos, a algaravia que amalgama o português ao tupi e que, inutilmente, ela tenta compreender. 
Volta, então, à cadeira e retoma o bordado. Ajusta o tecido no bastidor, tem já a linha na agulha e trabalha. Entre um ponto e outro, estranhas inquietações que tornam imperceptível o correr das horas.
Na igrejinha da vila o sino toca para o Angelus. Ela se une às escravas para rezar. Pedem pelos que estão, pelos que foram. Voltarão?
Anoitece, a oração termina. Velas de sebo rústico quebram a escuridão, enquanto lá fora começa a cair uma chuvinha gelada. À espera do bandeirante, ela vai mais uma vez à janela. A vila é só silêncio e trevas.
Partindo da cozinha, o aroma da ceia se espalha pela casa.


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terça-feira, 7 de julho de 2020

Um réptil no jantar de alguns bandeirantes paulistas

Nem as cobras escapavam de virar refeição, quando faltava aos bandeirantes comida melhor


Em suas empreitadas de apresamento de indígenas, bandeirantes paulistas levavam uma provisão de farinha de mandioca e de milho, feijão e alguns outros alimentos que se conservassem bem por algum tempo. Além disso, como não eram nem veganos e nem vegetarianos, comiam quanta caça lhes caísse nas unhas. Frutas silvestres, palmito e, em circunstâncias de extrema penúria, até raízes, eram mastigados para acalmar o estômago.
Aqueles dentre os sertanistas que tomavam o rumo das missões jesuíticas de Guairá, pretendendo capturar índios já catequizados e instruídos em um ofício, podiam contar, para alimentação, com fartura de pinhões, que encontravam pelo caminho. Disse Simão de Vasconcelos, jesuíta e escritor do Século XVII, em Vida do Padre João de Almeida, ao tratar das sementes da Araucaria angustifolia:
"[...] É comum mantimento dos bárbaros (¹) e de exércitos inteiros de índios e brancos, que hoje talam aquelas campanhas cada dia, a fazer guerra ao gentio, que habita junto ao Paraguai, terra dos castelhanos, e detendo-se os tais exércitos anos inteiros por estes sertões, bastam só os pinhões para sustento deles. É mantimento doce mais que castanha de Europa, e come-se da mesma maneira que esta, ou cru, ou assado ou cozido. [...]." (²)
Cabe explicar que "exércitos", neste caso, era o modo de Simão de Vasconcelos indicar bandos de homens armados que iam ao sertão, alguns por ordem de administradores coloniais, partindo do "lado espanhol", supostamente para "pacificar" indígenas, mas a maioria formada por gente que saía de São Paulo, e, em um e outro caso, para efeitos práticos, o objetivo era o mesmo: escravizar quantos ameríndios fossem capazes de capturar.
Tentem agora, leitores, usar a imaginação para pintar, mentalmente, a cena: bandeirantes e indígenas que os acompanham, já cansados de um longo dia de caminhada, procuram um lugar conveniente para passar a noite. Aí, depois de armadas as redes, fazem fogo e põem a cozinhar o feijão, que servirá, com a farinha, para a refeição da noite e para o dia seguinte. Alguns, tentando algo mais para o jantar, vão à caça. Coloquem na cena, agora, estas palavras, ainda de Simão de Vasconcelos, em referência às cobras que havia nos sertões:
"[...] se criam cobras tão monstruosas em grandeza, que se conta por certo que da carne de uma só delas, comeu um exército inteiro, e não parece grande o espanto aos que sabem a disforme grandeza daquelas [...] a que chamam jiboias vulgarmente." (³)
Bem, se fosse, não uma jiboia, mas uma sucuri... Ou se o tal exército não fosse muito numeroso... Simão de Vasconcelos talvez quisesse provocar espanto em seus leitores que viviam no Velho Mundo. Uma coisa é certa, porém: não parecia absurdo que sertanistas andassem pelo mato a devorar cobras, se não houvesse nada mais interessante para o jantar.


Jiboia vista em um córrego no interior do Estado de São Paulo

(1) Por "bárbaros", Simão de Vasconcelos fazia referência aos indígenas da região.
(2) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, p. 54.
(3) Ibid., p. 55.


quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Conquistas dos bandeirantes paulistas

Bandeirantes paulistas eram corajosos, ousados, chegavam às bordas da temeridade. Em sua obsessão exploratória, suportavam cansaço, fome, falta de vestuário adequado. Como resultado de suas aventuras, encontraram jazidas minerais valiosas, embora quase ninguém deles chegasse, de fato, a enriquecer com isso. Seu avanço, sertão adentro, reduziu a pó a já fragílima linha de Tordesilhas, e deu ao Brasil uma configuração territorial próxima da que tem hoje. 
Essa gente atrevida, porém, estava longe de formar um panteão de anjos. Se é verdade que entre eles houve notáveis descobridores de ouro, também é sabido que, ainda antes de perscrutar o interior em busca de riquezas minerais, andaram por lá aprisionando indígenas para escravização. Eram peritos nessa "arte", a do "descimento do gentio", como então se dizia, em relação à captura de nativos que vinham suar nas roças dos próprios paulistas, ou, às vezes, eram encaminhados para venda em outros locais, como o Rio de Janeiro, por exemplo.
Abordando a relevância das investidas bandeirantes, Frei Gaspar da Madre de Deus, autor setecentista, escreveu, em suas Memórias Para a História da Capitania de São Vicente:
"Pelo sertão atravessou a animosidade dos paulistas com indizíveis trabalhos os fundos de todas as capitanias brasileiras, em cujos domínios, depois de afugentarem inumeráveis gentios, descobriram as Minas Gerais, as de Goiás, as do Cuiabá e as de Mato Grosso; e como tudo quanto descobriram os valorosos naturais das vilas sujeitas à de São Vicente (¹) se reputava parte desta Capitania, chegou ela a apossar-se de quase todos os fundos dos outros donatários. Eis aqui a razão por que a Capitania de São Vicente noutro tempo possuiu tudo quanto agora abrangem os governos gerais de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Rio de Janeiro, e também os subalternos de Santa Catarina e Rio Grande de S. Pedro." (²)
Esse documento é importante porque permite avaliar como alguém do Século XVIII, um clérigo, interpretava a ação dos sertanistas. Nascido no Brasil, na Capitania de São Vicente, frei Gaspar da Madre de Deus não via qualquer problema em relação à conduta dos bandeirantes para com a população indígena - aliás, poucos admitiam, na época, que podia haver algo errado em "afugentar" nativos, assumindo que indígenas eram um obstáculo ao projeto de colonização. Pretexto para tanto, não faltava: sempre havia o argumento de que era para maior glória da Coroa portuguesa. Mais que isso, na eventualidade de que fossem capturados e escravizados, indígenas seriam, segundo se afirmava, "conduzidos ao grêmio da Igreja". Parecia, afinal, uma causa justa, meritória, até. A passagem do tempo revelou o outro lado da questão. 

(1) Frei Gaspar da Madre de Deus nasceu em São Vicente no ano de 1715.
(2) MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias Para a História da Capitania de São Vicente, Hoje Chamada de São Paulo, do Estado do Brasil. Lisboa: Typografia da Academia, 1797, p. 3.


quinta-feira, 25 de abril de 2019

Assim agiam os bandeirantes

À testa de uma bandeira, Fernão Dias fez enforcar um filho acusado de conspirar contra sua liderança


A tropa, que saíra tão animada, sertão afora, andava já descontente com o chefe. Experiente e poderoso - até havia recebido cartas do rei -, ele não tivera dificuldade em reunir um bando considerável para procurar ouro e pedras preciosas. Mas o tempo passava e a esperança de riqueza para todos ia minguando. Famintos, às vezes beirando a inanição, e com as roupas já pouco melhores que trapos, os homens lutavam contra o desespero. E nada de o teimoso líder resolver-se a voltar para casa. Adiante, adiante, sempre adiante. Para onde, afinal?
Em silêncio, olhares insatisfeitos achavam cúmplices. A conspiração tomava forma.
Não é por acaso que se diz que paredes têm ouvidos e mato tem olhos. Ora, mato é que não faltava naquelas paragens. Do fundo de sua obsessão por esmeraldas, o chefe farejou a revolta em andamento, e uma investigação mostrou quem estava à testa dos rebeldes. Um enforcamento silenciou aquele que ousara contestar o obstinado comandante. Era ninguém menos que um filho que havia gerado fora dos limites do casamento (¹).
Não, leitores, isto não é uma página de ficção histórica. Está na Nobiliarchia Paulistana, escrita no Século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme, ao tratar da bandeira de Fernão Dias Paes (²), famoso pela procura de esmeraldas:
"Enquanto [...] penetravam os sertões [...] se introduziu uma diabólica sugestão contra a vida do governador Fernão Dias [...]. Foi autor deste sacrílego e bárbaro atentado o mameluco José Paes, filho bastardo dos delírios da mocidade [sic!] do governador Fernão Dias, que por muitas vezes pôs em desconfianças de que o seu amor excedia para com este bastardo aos grandes merecimentos de seu legítimo filho e primogênito Garcia Rodrigues Paes, que com os brios do sangue que lhe animava as veias sabia constante sofrer as calamidades e misérias do sertão para acompanhar nele [...] a seu pai. [...]"
Tenham paciência com a linguagem do Século XVIII, leitores, e passemos adiante. Depois de explicar que uma delação levara Fernão Dias ao conhecimento da conspirata, prossegue Pedro Taques:
"[Fernão Dias] prontamente se armou, e sem mais companhia veio examinar as vozes dos agressores, que ainda existiam no seu ajuntamento; retirou-se para logo, e com as cautelas e silêncio que pedia o caso, passou o restante da noite. Amanheceu o dia, e comunicando a gravidade da matéria a seu filho legítimo e mais oficiais parentes e amigos, procedeu na prisão dos culpados, que fazendo-os separar uns dos outros, se averiguou a verdade da capital culpa, que toda recaiu no filho mameluco; porém como o caso pedia um exemplar castigo para evitar outra futura ruína, negou-se ao amor e piedade de pai, e todo cheio de reta justiça, fez levantar o réu ao alto, e depois de confessado (³) e desenganado de que não escapava, o fez enforcar à vista de todo o arraial, com horror e temor dos mais companheiros."
Duas pequenas observações, e com elas vamos concluir:
  • Pedro Taques parece falar do "mameluco José Paes" em um tom pouco favorável (⁴), o que não deixa de ser curioso, já que a maior parte da população de São Paulo nesse tempo era mestiça - havia na terra poucas mulheres de origem portuguesa e, sendo assim, era com índias cristãs que muitos colonizadores se casavam (⁵);
  • Mesmo que o cabeça da rebelião fosse Garcia Rodrigues Paes, o primogênito legítimo de Fernão Dias, e não o filho mameluco, é provável que, sem qualquer demonstração de misericórdia, também fosse enforcado. Era assim que agiam os bandeirantes, era assim que se fazia justiça nas bandeiras que iam ao sertão.

(1) Filho natural era chamado aquele que nascera fora dos limites do casamento devidamente reconhecido pela Igreja. Na época, a distinção entre "filhos legítimos" (provenientes de um casamento formal) e "filhos naturais" era frequente em documentos, devido a uma série de implicações legais.
(2) 1608 - 1681.
(3) Admitindo que os fatos tenham sido exatamente como descritos por Pedro Taques, fica evidente que a bandeira de Fernão Dias contava com pelo menos um capelão.
(4) Quem lê a Nobiliarchia logo vê que Pedro Taques tinha a intenção de enfatizar a nobreza e "limpeza de sangue" da gente de São Paulo, com suas implicações civis e eclesiásticas, ainda que para isso fosse preciso fechar os olhos para o processo de mestiçagem em curso.
(5) A influência ameríndia era tão acentuada que, por séculos, a língua indígena é que foi falada em São Paulo no âmbito doméstico.


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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Como sertanistas de São Paulo descobriam o rumo de alguém no sertão

Era 1736. Paulistas já haviam encontrado ouro "nos Goyazes" (¹) e no "sertão do Cuiabá". Portanto, estavam ocupados povoar em a região, ao mesmo tempo em que reviravam a terra à cata do tão cobiçado metal. Quase não havia córrego que não fosse explorado, ainda que ouro, em profusão, nem sempre viesse. Nesse tempo, colonizadores de origem portuguesa andavam às turras com os vizinhos "castelhanos". Afinal, mesmo que ninguém soubesse exatamente por onde passava a "linha" - uma referência aos limites estipulados no Tratado de Tordesilhas - havia certa desconfiança de que os súditos de Portugal já vinham, há muito tempo, entrando em terras que, ao menos pelo acordo de 1494, deviam ser de Espanha. Deviam, mas...
Sendo essas as circunstâncias, Manoel Dias da Silva, à frente de um grupo armado, foi ao chamado "Sertão da Vacaria". Não achou os castelhanos, que, de acordo com a Nobiliarchia Paulistana, já haviam se recolhido às povoações em que residiam. Achou, porém, um monumento por eles deixado, atestando a posse da área para o monarca espanhol. Conta Pedro Taques de Almeida Paes Leme (²), autor da Nobiliarchia, que o dito marco era "um padrão de pedra lavrada, em forma de cruz, posta ao alto, a que servia de base outra pedra em figura triangular, de seis palmos de alto, com proporcionada grossura à altura do padrão; nele estavam abertas as letras do idioma castelhano, que diziam: "Viva el-rei de Castela, senhor dos domínios destas campanhas"". 
Se podemos crer no que escreveu Pedro Taques, Manoel Dias e sua gente trataram de pôr abaixo o monumento, substituindo-o por outro. Na impossibilidade de erguer um marco de pedra, foi usada a melhor madeira disponível: "Do madeiro mais grosso e menos corruptível mandou lavrar em quatro faces uma cruz (³), em que lhe gravou as letras no idioma português, que diziam: "Viva o muito alto e muito poderoso rei de Portugal D. João V, senhor dos domínios deste sertão da Vacaria"."
É difícil saber se as coisas aconteceram assim, como é também duvidoso se alguma vez el-rei tomou conhecimento de tão notável dedicação da parte de seus súditos. Contudo, foi no fim do reinado de D. João V que se costurou o Tratado de Madri (⁴), com a intenção de colocar termo às divergências em relação às fronteiras entre terras de Portugal e Espanha na América do Sul. 
Mais interessante, talvez, seja o registro do método usado por paulistas quando, em perseguição a quem quer que fosse, precisavam descobrir por onde andava o seu "alvo". Disso somos informados também por Pedro Taques, justamente ao narrar as aventuras de Manoel Dias. Lembrem-se, leitores, de que paulistas desse tempo não eram notáveis por conhecimentos acadêmicos de geografia; mapas, à exceção de garatujas feitas por sertanistas, eram quase inexistentes e, como é óbvio, não era possível consultar um GPS: "[...] até pela figura dos ranchos e cinzas do fogão conheciam os sertanistas, pouco mais ou menos, o tempo que tinha passado depois que naquele sítio estivera alguma tropa [...]."
Em suma, essa gente tinha o faro do sertão. Com quem tal habilidade fora aprendida? Com indígenas, certamente. Aliás, muitos paulistas desse tempo eram mamelucos. O lado trágico da questão é que esse mesmo conhecimento foi empregado, muitas vezes, com o objetivo de caçar e aprisionar ameríndios para escravização.

(1) Era essa a grafia na época.
(2) 1714 - 1777.
(3) Observe-se o uso que era feito do símbolo da cruz, tanto por colonizadores espanhóis como por portugueses.
(4) 1750.



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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Sementes e ovelhas para recomeçar as reduções indígenas arrasadas por bandeirantes paulistas

Acossados por hordas de bandeirantes paulistas (¹), missionários jesuítas e indígenas que viviam nas reduções do Guayrá fugiram para uma região mais ao sul, onde, supunham (²), estariam em segurança. Lá teriam, porém, que enfrentar dois inimigos poderosos: a fome e o frio. 
Como prover alimento suficiente para todos, em uma terra ainda não cultivada? Desnecessário é dizer que os primeiros tempos foram terríveis. Para comprar sementes que pudessem plantar, os padres abriram mão de tudo o que era possível vender: "Vendemos nossos livros, sotainas e mantos, ornamentos cálices e adornos de igrejas, enviando-os a Asunción, em troca de sementes para que semeassem", escreveu o jesuíta Antonio Ruiz de Montoya (³). 
Foi preciso vigilância severa para que as sementes não fossem devoradas, tal era a situação de miséria entre os indígenas. Com o correr dos meses, as primeiras colheitas trouxeram o alívio tão esperado. "Chegou a primavera", contou Montoya, "depois de rigorosa estiagem, começou-se a trabalhar varonilmente, cada um fez duas ou três roças, e a terra começou a oferecer seus frutos [...]. Compramos alguns porcos, patos, galinhas e pombas, [...] de que se encheu [...] aquela terra com uma singular abundância [...]." (⁴)
Ao sul, as temperaturas durante o inverno eram, em média, significativamente inferiores às que predominavam nos lugares originais das reduções. Havia urgência, pois, em prover agasalho para indígenas e missionários, sabendo que ali as colheitas de algodão não se provariam animadoras e que, além disso, trajes de algodão, apenas, não seriam suficientes. Assim, os inacianos trataram de arranjar ovelhas, na intenção de obter lã: "Já que o algodão não produz muito bem pelo rigor da geada, que o mata às vezes, me aventurei a comprar mil e oitocentas ovelhas, para que com a lã e o algodão fizessem roupas, ainda que não se obtiveram todas [as ovelhas], porque uns índios bárbaros, tirando a vida ao padre Pedro de Espinosa, roubaram também parte das ovelhas." (⁵) 
Portanto, a despeito das dificuldades e do receio sempre presente de novos ataques bandeirantes, com medidas de estímulo à agricultura e à criação de animais as reduções foram se reorganizando durante a quarta década do Século XVII. Não podemos negar, leitores: os jesuítas eram perseverantes.   

(1) Bandeirantes começaram a atacar as reduções do Guayrá em 1628. Portanto, os acontecimentos de que tratamos aqui são posteriores a essa data. O padre Antonio Ruiz de Montoya foi à Espanha em 1638 para dar queixa dos bandeirantes vindos de São Paulo que atacavam as reduções, problema tanto mais grave quanto autoridades coloniais no Paraguai, que, por suposto, deveriam favorecer a catequese de indígenas, pouco ou nada realizavam para barrar os escravizadores de ameríndios, levando os missionários à convicção de que, por interesses escusos, faziam causa comum com os paulistas.
(2) Não passou de suposição, como os anos à frente vieram demonstrar.
(3) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639.
(4) Ibid.
(5) Ibid. Os trechos citados de Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Bandeiras de apresamento

Bandeiras de apresamento eram grupos de pessoas armadas (geralmente paulistas), que iam ao interior da América do Sul capturar indígenas para escravização. A princípio os ataques eram dirigidos contra aldeias cujos habitantes, sem consciência do perigo que corriam, ainda viviam segundo o estilo de vida tradicional entre populações ameríndias. Mais tarde, porém, bandos armados passaram a atacar também as missões, nas quais indígenas catequizados viviam em companhia de missionários, quase todos jesuítas. 
Haveria razões para essa mudança de estratégia?
Sim. Aqui estão, leitores, algumas delas:
  • As missões, reunindo catecúmenos provenientes de vários lugares, tinham, como regra, uma população consideravelmente maior que as aldeias indígenas comuns;
  • Tendo abandonado seu modo de vida tradicional, os indígenas das missões não costumavam andar armados (¹);
  • Indígenas das missões aprendiam, com os padres, técnicas agrícolas, além de vários ofícios (pedreiro, carpinteiro, alfaiate, etc.), e eram, portanto, considerados mais valiosos, quando escravizados.
O ataque maciço às missões do Guayrá começou em 1628, segundo depoimento do padre Antonio Ruiz de Montoya, célebre na defesa dos indígenas, tendo ido mesmo à Espanha protestar contra a injustiça que lhes era feita. Em suas palavras, foi assim que tudo aconteceu:
"Entrou esta gente [...] por nossas reduções, cativando, matando e despojando altares. Nós, três padres, fomos às suas cabanas e alojamentos, onde tinham já muita gente cativa, e lhes pedimos que nos dessem os que haviam aprisionado e que estavam, muitos deles, acorrentados. Gritaram como loucos frenéticos, dizendo: Prendam-nos, prendam-nos, que esses são traidores!, e juntamente dispararam alguns tiros de arcabuz, com que feriram oito ou nove índios que nos acompanhavam. Um deles caiu morto ali mesmo, de um tiro que lhe deram na coxa, e o padre Cristóbal de Mendoza saiu ferido de uma flechada. Prenderam o padre José Domenech, dizendo-nos [...] que não éramos sacerdotes, mas demônios, hereges, inimigos de Deus, e que pregávamos mentiras aos índios. Um deles apontou uma escopeta em direção ao meu peito, e eu abri a roupa para que, sem nenhuma resistência, o tiro entrasse." (²)
Não seria ainda dessa vez, no entanto, que um jesuíta iria tombar pela mão de um bandeirante. 
Montoya tem contra si o fato de que, ao passar metade de seu livro Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus contando suas aventuras e façanhas como missionário, narrou muita coisa que qualquer pessoa séria, com muito boa vontade, pode apenas reconhecer como vinda de um espírito crédulo, quando não ingênuo. Por outro lado, mesmo assumindo que houvesse algum exagero da parte do religioso, é inegável que integrantes de bandeiras de apresamento, depois das estripulias entre indígenas que viviam livres nas florestas, julgaram mais fácil e mais conveniente atacar as reduções - se não fosse assim, como explicar a existência de numerosa escravatura de origem indígena, que paulistas orgulhosos - como o genealogista Pedro Taques, por exemplo, autor da Nobiliarchia Paulistana - faziam questão de referir? Amador Bueno (o "Aclamado") tinha centenas de índios escravizados, convertidos à força:
"Teve grande tratamento e opulência por dominar debaixo de sua administração muitos centos de índios, que de gentio bárbaro do sertão se tinham convertido à nossa santa fé [sic], pela indústria, valor e força das armas, com que os conquistou Amador Bueno em seus reinos e alojamentos." (³)
Pedro Taques mencionou, ainda, que Manuel Preto chegou a ter novecentos e noventa e nove (!!!) índios escravizados; esse número, ainda que exagerado em mais de um sentido, não devia ser incomum, já que, também na Nobiliarchia Paulistana, o mesmo autor, falando de paulistas do Século XVII (⁴), afirmou que "muitos havia que possuíam debaixo de sua administração quinhentos, seiscentos e setecentos índios, que se ocupavam no trabalho da agricultura em copiosas searas de trigo, plantas de milho, feijão, legumes e nos algodoais".
Para além de tudo isso, vale ressaltar que em São Paulo ninguém escondia o fato de que paulistas invadiam missões para aprisionar índios, fazendo não poucos estragos em tais ocasiões. Pedro Taques registrou, entre vários outros, o caso do bandeirante Manuel Bicudo de Campos, que teria atacado missões não menos que vinte e quatro vezes, sem poupar nem mesmo os jesuítas. Certo dia, notando que os indígenas estavam prontos a lutar pela liberdade, sem mais delongas cortou o fio da existência ao missionário que os liderava: "[...] Fez pé atrás e tomando a sua arma de fogo fez tiro ao tal mestre de campo jesuíta (⁵), que ainda estava montado; e quando o corpo caiu do cavalo em terra, já a alma o tinha deixado." (⁶) 
Foi assim, uns através da catequese, outros à procura de ouro ou de gente para escravizar, que se explorou o território ainda desconhecido da América do Sul. Conforme reconheceu Pedro Taques, "sem o interesse do serviço dos índios não teriam feito os paulistas tão dilatadas e pasmosas jornadas pelo sertão, que ocasionaram os descobrimentos que hoje estão povoados" (⁷).

(1) Autoridades coloniais, quando precisavam de homens para lutar, podiam requisitar indígenas das missões; estes combatiam, porém, usando apenas as armas habituais entre ameríndios, e não com armas de fogo. Havia, inclusive, uma proibição quanto ao fornecimento de armas de fogo para indígenas, contra a qual lutavam os missionários, tendo em vista a necessidade de defesa contra os bandeirantes de São Paulo.
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. Madrid: Imprenta del Reyno, 1639. O texto citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarchia Paulistana.
(4) Contemporâneos, por conseguinte, do padre Antonio Ruiz de Montoya.
(5) A fala de Pedro Taques sugere que ele próprio não tinha grande estima pelos jesuítas.
(6) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Op. cit.
(7) Ibid.


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terça-feira, 13 de junho de 2017

A descoberta de jazidas auríferas não enriqueceu os bandeirantes paulistas

Casa do ciclo bandeirante em Santana de Parnaíba (SP), localidade em que nasceu
Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera

Pode parecer absurdo, mas é fato: bandeirantes paulistas, como regra geral, não enriqueceram com a descoberta de jazidas auríferas, e tampouco deixaram herança considerável para seus descendentes. Escrevendo em fins do Século XVIII (portanto, mais ou menos cem anos após os primeiros achados significativos), o astrônomo Francisco José de Lacerda e Almeida observou que os bandeirantes, “entranhando-se por aqueles imensos sertões sem outra bagagem mais que a pólvora e a bala, sem outro rumo mais que o do acaso, [descobriram] neles todas as minas de ouro e pedrarias que possuímos, e que tanto têm enriquecido aos seus posteriores, ficando eles e seus descendentes pobres". (¹)
Os paulistas descobridores de minas não recebiam qualquer ajuda da Coroa para seus empreendimentos; ao contrário, muitos deles consumiam o patrimônio em tentativas de atender às solicitações reais, cuja Real Fazenda se achava sempre em má situação. Pedro Taques de Almeida Paes Leme, em sua Nobiliarchia Paulistana, assinalou que "Fernão Dias Paes não teve um só real de ajuda de custo, como do mesmo modo não tiveram os mais paulistas descobridores das Minas Gerais, do Cuiabá e dos Goiases [...]." Esse fato, aliado às magras recompensas que recebiam pelos serviços prestados (²), explica, em parte, a razão pela qual os descobridores de ouro e pedras preciosas não se tornaram economicamente poderosos. Alguns chegaram a ter prejuízo considerável.
É possível, leitores, que o maior ícone bandeirante na procura do ouro seja Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, descobridor das minas de Goiás na primeira metade do Século XVIII. Pois bem, o brigadeiro Cunha Matos, que esteve em Goiás pouco depois da Independência (³), teve ocasião de encontrar descendentes do famoso explorador - um rapaz de quatorze anos e duas moças, uma com dezenove e outra com vinte e cinco anos - vivendo, os três, em uma modesta casinha nas proximidades do rio Corumbá. Sobre as moças, observou:
"Apareceram-me pobre mas decentemente vestidas, e ainda que mui acanhadas, inculcam nobreza de alma, sobretudo na resignação com que suportam a quase indigência em que se acham. Assim vivem os descendentes do ramo principal dos Anhangueras! [...] Assim vivem, faltas de todas as comodidades, as bisnetas do célebre Bartolomeu Bueno, conquistador e povoador de Goiás, que regurgitando em ouro, morreu em miséria, e cuja consorte foi obrigada a vender todas as suas joias e escravos para pagar vinte mil cruzados, que se lhe adiantaram pelo Cofre da Fazenda Real! Sic transit gloria mundi!" (⁴)
E quanto ao menino:
"O irmão é um galante moço sem educação: na sua quase miséria comporta-se como um plebeu honesto, sem, todavia, se esquecer de que é fidalgo, e príncipe dos fidalgos de Goiás." (⁵)
A riqueza do ouro fora passageira, tanto para indivíduos como para as localidades nascidas com a mineração. Aos leitores que se condoeram diante da pobreza da família Bueno, informo que, para remediar a situação, o presidente da Província de Goiás tornou-os administradores da passagem do rio Corumbá; por iniciativa do Brigadeiro Cunha Matos, o jovem Bueno foi admitido como tenente de Caçadores, posto que lhe assegurou um soldo.

(1) ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Demarcação dos Domínios da América Portuguesa. São Paulo: Typographia de Costa Silveira, 1841, p. 87.
(2) Quando chegava a haver alguma recompensa.
(3) Cerca de um século após os descobrimentos do Anhanguera.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás, Tomo I. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 114.
(5) Ibid., p. 115.


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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nem ouro e nem prata: a expedição de Dom Rodrigo de Castel Blanco

Como podia ser que houvesse ouro e prata em terras de Espanha na América, enquanto que no Brasil quase nada se encontrava? A questão intrigava a Coroa portuguesa. Mandou-se, então ao Brasil, no ano de 1673, um indivíduo supostamente capaz de realizar os tão esperados descobrimentos: era ele Dom Rodrigo de Castel Blanco (¹), espanhol de nascimento. Vinha com o pomposo título de "Governador e Administrador-Geral das Minas" (que ninguém sabia, ainda, onde é que estavam). Por tão notável cargo, além da ótima remuneração, seria acompanhado por um ajudante, Jorge Soares de Macedo.
De acordo com o que registrou Pedro Taques de Almeida Paes Leme na Nobiliarchia Paulistana, as buscas começaram pela Bahia. Castel Blanco e Soares de Macedo andaram por vários lugares entre 1674 e 1678. Resultado? Nadinha, só despesas ao erário público.
Mas era preciso continuar. Passaram pelo Rio de Janeiro no segundo semestre de 1678, em companhia de funcionários administrativos e soldados. Nada, de novo. Foram a Santos, ainda em 1678, porque a ideia era seguir para o sul, na suposição de que lá seriam achadas minas de prata. Em abril de 1680 voltava D. Rodrigo de Castel Blanco a Santos, depois de haver estado em Paranaguá. Outra vez, sem resultados favoráveis. As parcas jazidas da localidade já eram conhecidas dos paulistas. Restava tentar a busca na região denominada Sabarabuçu.
Em São Paulo, os rústicos bandeirantes, acostumados às manhas do sertão, sugeriram que, antes da partida da expedição, fossem mandados homens que estabelecessem roças, evitando que a falta de alimentos constituísse empecilho às descobertas. Diz a Nobiliarchia:
"[...] Matias Cardoso de Almeida, Jerônimo de Camargo, Antônio de Siqueira de Mendonça, Pedro da Rocha Pimentel e outros paulistas mais, todos foram de voto que se devia mandar plantar os sítios que nomeados e assinalados fossem, para quando chegasse a tropa terem mantimentos prontos para o necessário sustento no sertão [...]."
Aceito o conselho, e ciente de que seu famoso ajudante Jorge Soares de Macedo fora aprisionado em Buenos Aires, Rodrigo de Castel Blanco decidiu levar consigo um dos paulistas que fosse experiente em tratar com os indígenas, sendo escolhido Matias Cardoso de Almeida.
No entanto, a expedição não saía. Sendo já março de 1681, o "especialista" em minas João Alves Coutinho, que viera com Castel Blanco, tudo fazia para retardar a partida, alegando velhice (teria sessenta e oito anos) e doença. Foi chamado a dar explicações à Câmara de São Paulo, diante da qual, segundo a Nobiliarchia, "disse que já não tinha dentes, e se achava muito impossibilitado para andar pelo sertão, porém que assim mesmo se sacrificaria a ir". 
Talvez restasse dúvida quanto à seriedade do que dizia Coutinho, porquanto, nessa mesma ocasião, Matias Cardoso de Almeida fez registrar nas Atas da Câmara "que se obrigava a conduzir o mineiro João Alves Coutinho em rede, nos ombros de sessenta índios seus administrados que para isso oferecia, e de lhe assistir com todo o necessário sustento no sertão [...]."
Diante de tamanha comodidade, a expedição deixou São Paulo, rumo a Sabarabuçu, em maio de 1681. Iam nela os sessenta índios prometidos para carregar João Alves Coutinho, outros sessenta que levavam os pertences de Dom Rodrigo de Castel Blanco e ainda outros cento e vinte indígenas, mandados ao sertão "para o trabalho das minas". Iam, também, alguns paulistas experimentados como bandeirantes. 
Porém, havia mais.
Entre os suprimentos para toda essa gente, iam, segundo a Nobiliarchia, "de farinha de trigo três mil alqueires; de carne de porco, três mil arrobas; de feijão, cem alqueires; de pano de algodão, oito mil varas; fio de algodão torcido de três, trinta e oito arrobas; de fio de algodão singelo, duas arrobas." 
Quem carregava tudo isso? Duzentos índios. Não havia caminhos que possibilitassem o uso de animais de carga.
Tentem imaginar, leitores, essa multidão, movendo-se lentamente pelas matas, à medida que os que iam à frente, com facões e outras ferramentas, abriam passagem...
Chegaram, por fim, ao Arraial do Sumidouro, por onde andava a gente de Garcia Rodrigues Paes (²). Se pudermos crer no que diz a Nobiliarchia, Castel Blanco não mostrava o mínimo empenho para novas descobertas, fato que levou Matias Cardoso de Almeida a informar, em correspondência enviada ao Reino, que nada se esperasse de tal explorador. Veio ordem para que o Governador e Administrador-Geral das Minas retornasse de imediato a Portugal. Mas, à chegada do documento, Castel Blanco já não podia ser contado entre os viventes. Pedro Taques, por suposto tomando o partido do bandeirante Manuel de Borba Gato, contou:
"Com alguma liberdade lhe estranhou o dito Borba o amortecimento em que se conservava desde que chegara àquele sertão, aplicando-se só a mandar fazer caçadas de aves e animais terrestres para o regalo e grandeza da sua mesa, e travando-se de razões menos comedidas, o sobredito Borba se precipitou tão arrebatado de furor, que dando em D. Rodrigo um violento empurrão o deitou ao fundo de uma alta cata, na qual caiu morto."
Não é tudo, leitores. Talvez porque quisesse valorizar paulistas como os verdadeiros descobridores de minas, Pedro Taques faria ainda um rude balanço das pesquisas de Castel Blanco, entendendo que "o efeito dessas grandes esperanças só ficou infalível no consumo das grossas despesas da Real Fazenda, porque o tal D. Rodrigo foi um patarata que só entreteve o tempo aproveitando-se das honras que desfrutou e dos dinheiros que com liberalidade consumiu". Inequívoco contraste, portanto, em relação a Matias Cardoso de Almeida, o paulista que, nomeado tenente-general para a última parte da expedição (³), não recebeu qualquer subvenção oficial por seus serviços.

(1) É usual a grafia "Castelblanco", mas adotei a de "Castel Blanco" por ser a que aparece na Nobiliarchia Paulistana.
(2) Filho do chamado "caçador de esmeraldas", Fernão Dias Paes.
(3) De São Paulo ao Arraial do Sumidouro.


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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A lenda da Serra dos Martírios

É difícil determinar com exatidão quando nasceu a lenda relativa à "Serra dos Martírios", mas há quem defenda a ideia de que Bartolomeu Bueno da Silva, o famoso bandeirante conhecido como Anhanguera, afirmava tê-la avistado quando, ainda na infância, fizera parte de uma bandeira comandada por seu pai. Durante uma tempestade horrenda, os homens, apavorados, teriam encontrado abrigo em um lugar de onde se descortinava uma serra, no topo da qual, resplandecendo ao fulgor dos relâmpagos, podiam ser vistos, moldados no mais fino ouro, os instrumentos da crucifixão de Jesus: a coroa de espinhos, os pregos e, naturalmente, a própria cruz. Portanto, sob a perspectiva dessa lenda, as expedições que levaram Bartolomeu Bueno, já homem feito, a descobrir o ouro de Goiás, seriam apenas o resultado de sua obsessão por rever os Martírios e a serra riquíssima em metais preciosos que julgava estar em sua base. 
Ora, meus leitores, podemos já fazer algumas considerações. Primeiro, não é inconcebível que a gente religiosa (à própria moda, é certo) dos Séculos XVII e XVIII desse asas à imaginação, interpretando à luz de suas fantasias qualquer simulacro que avistasse à distância, mesmo que embaçado por uma chuva intensa. Quem conhece o relevo do Centro-Oeste brasileiro sabe muito bem da existência de formações que, à semelhança das figuras que supomos ver nas nuvens, podem ser comparadas àquilo que se quiser. Aqueles eram tempos de misticismo, e mesmo indivíduos com um currículo de maldades notável, como tinham quase todos os bandeirantes, achavam-se algo predestinados à descoberta de riquezas incalculáveis para si mesmos e para as cabeças coroadas do Reino. Fama, glória, honra, ouro, ouro, ouro... 
Demais disto, é inegável que na lenda dos Martírios há uns resquícios das lendas medievais relacionadas à procura do Santo Graal. Velhas tradições amalgamavam-se ao desejo irreprimível de encontrar metais preciosos.
O que teria feito Bartolomeu Bueno, ou qualquer outro bandeirante, com coroa de espinhos, pregos e cruz em ouro maciço se os houvessem encontrado? Bem, jamais saberemos a resposta, porque, como é óbvio, a lendária Serra dos Martírios nunca foi localizada. Curioso é que, mesmo no Século XIX, ainda houvesse gente à sua procura. Hércules Florence, desenhista francês que participou da Expedição Langsdorff (¹), escreveu em seus registros de viagem:
"Uns seis anos atrás subira um padre chamado Lopes esse rio (²) à procura de uma pretensa serra denominada Os Martírios, vista, por antigos sertanistas que a proclamavam a mais rica em ouro de todo o Brasil. Ora, se serra existe, de longe há de ser avistada e nessa ninguém pôs os olhos: o padre Lopes, intrépido explorador, debalde a procurou. [...] Depois de sofrer fome, perder gente em combate, de febres e por deserção de vários [...], teve que retrogradar." (³)
Com o tempo, até os mais crédulos entenderam que a existência da Serra dos Martírios não passava de uma lenda, que nem poderia ser rotulada de piedosa. Sim, na aparência tinha uns traços de religiosidade, mas quem arriscava a própria carcaça indo à sua procura, tinha, quase sempre, interesses bem pouco devotos.

(1) A viagem completa da Expedição ocorreu entre 1825 e 1829.
(2) Rio dos Peixes.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 221.


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sexta-feira, 22 de julho de 2016

Como os monçoeiros do Século XVIII caçavam veados

As monções cuiabanas eram expedições fluviais, principalmente do Século XIX, que iam ao interior do Brasil à procura de ouro. Quando saíam de Araraitaguaba (Porto Feliz - SP) e iniciavam o percurso do rio Tietê, levavam consigo uma boa quantidade de suprimentos. Mas a viagem era longa e trabalhosa, e não poucas vezes acontecia que uma canoa virava, e lá se ia, literalmente por água abaixo, a comida que deveria servir para muitos dias. Diante disso, era importante encontrar alternativas para alimentação, através da caça e da pesca. 
Francisco José de Lacerda e Almeida, astrônomo de Sua Majestade (¹), fez a rota de retorno das monções entre 1788 e 1789. Nessa viagem, teve ocasião de encontrar expedicionários que subiam, observando, a respeito deles:
"[...] Aqueles que sobem por estas águas, como vêm como mais vagar, não só porque são muitas as canoas que se ajuntam para reciprocamente se ajudarem, como porque também gastam muito tempo nas cachoeiras, têm muito tempo para fazerem numerosas e continuadas caçadas, com tanta abundância como facilidade, tanto de perdizes como de veados." (²)
Cervo-do-pantanal
Para o estômago dos monçoeiros, era a hora da desforra - não escasseiam os relatos de monções cujos expedicionários chegaram quase a morrer de fome. Curiosa, porém, é a observação de Lacerda e Almeida sobre o modo usado pelos astutos sertanistas quando queriam caçar veados:
"Encaminham-se os caçadores para as manadas de veados contra o vento, levando na cabeça algum barrete ou pano vermelho; algumas vezes param e levantam um braço, e outras agacham-se; os veados, que não estão acostumados a ver estes fantasmas, chegam-se a eles para os reconhecer, e ficam sendo vítimas de sua curiosidade." (³)
Deixem a sensibilidade de lado, leitores, e enfrentem os fatos: no Século XVIII havia pouquíssima gente neste mundo disposta ao vegetarianismo para salvar os animais, os monçoeiros esfomeados tinham, como máxima preocupação, encontrar comida e não havia quase ninguém que se mostrasse alarmado com a sobrevivência da fauna nativa. Se os exploradores do sertão não vacilavam em comer lagartos e macacos, não seriam as perdizes e os veados que seriam poupados. O que chama a atenção, assumindo a veracidade do relato de Lacerda e Almeida, é a inocência dos rebanhos de ungulados (as "manadas de veados"). Alguém acha que hoje seria assim?

(1) Foi um dos membros da comissão encarregada de demarcar os limites entre as terras sob domínio português e espanhol na América (1780 e 1781).
(2) ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Demarcação dos Domínios da América Portuguesa. São Paulo: Typographia de Costa Silveira, 1841, p. 76.
(3) Ibid., pp. 76 e 77.


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Restrições à liberdade das mulheres no Brasil Colonial

Em muitas famílias de certa importância, residentes na Capitania de São Vicente, as mulheres viviam reclusas. Para elas, até mesmo dentro de casa havia restrições, quando visitas estavam presentes. Duas breves referências na biografia do padre Belchior de Pontes, escrita no Século XVIII pelo também padre Manoel da Fonseca serão, creio, mais do que suficientes para comprovar esse fato. Na primeira, explica-se que, indo o padre Pontes doutrinar escravos (índios "administrados") que viviam nas terras de Amador Bueno (¹), a mulher do fazendeiro assistia à doutrina "da parte de dentro da casa" (²); o mesmo fazia outra paulista, Águeda Pedrosa: "...na verdade Águeda Pedrosa já estava no lugar costumado, e com o mesmo cuidado e recato com que sempre acudia a ouvi-lo, se tinha ocultado." (³)

Mulheres usando mantilha (⁴)
Atribui-se a reclusão de mulheres aos chamados "costumes mouriscos" que vigoravam entre as muitas famílias de origem espanhola que viviam em São Paulo - as gelosias em construções coloniais ainda existentes seriam uma prova disso, assim como o hábito, que então era generalizado, de que "mulheres honestas" apenas aparecessem em público quando cobertas por mantilhas ou biocos, confeccionados, de preferência, em tecidos pesados, sem nenhuma transparência e de cor preta. A explicação, no entanto, não soa muito convincente porque também entre famílias de proprietários de engenhos no Nordeste as mulheres viviam trancafiadas, até mais do que em São Paulo, e lá  não se poderia argumentar com o pretexto de que as famílias senhoriais eram, em grande parte, originárias da Espanha. Dizia Antonil, no começo do Século XVIII, ao tratar da recepção aos hóspedes nos engenhos:
"Ter casa separada para os hóspedes é grande acerto, porque melhor se recebem e com menor estorvo da família, e sem prejuízo do recolhimento que hão de guardar as mulheres, e as filhas, e as moças de serviço interior, ocupadas no aparelho do jantar e da ceia." (⁵)
Havia até quem aconselhasse que, para as casadas, era preferível evitar mesmo a proximidade com religiosos e parentes do sexo masculino:
"Fujam de todo o trato e conversações de homens, e de lhes aparecer, ainda que sejam parentes [...].
Fujam, quanto puderem, de ter trato ou familiaridade com pessoas eclesiásticas, porque suposto sejam comparadas com os anjos, tem sucedido muitas vezes pelo caminho da virtude entrarem na estrada da maldade. [...] Vejam que o demônio é como o ladrão: este furta nas estradas, aquele na ocasião." (⁶)
Ora, apesar de tantas restrições à liberdade das mulheres, há documentos relativos ao Período Colonial que comprovam a existência de senhoras que mandavam e desmandavam em suas propriedades, tomavam decisões pelos filhos, faziam testamento e, ainda que usando a famosa mantilha ou bioco, não hesitavam em aparecer em público sempre que necessário, fosse para ir à igreja, ou fosse porque tinham negócios a tratar junto à administração da localidade em que residiam. 
Que mulheres eram essas? Não trato aqui das condenadas a degredo que, contra a vontade, vinham ao Brasil, nem daquelas que, com família ou sem ela, viviam entre a população de baixo estrato social nas povoações ou em áreas rurais.  Falo, sim, das paulistas casadas com os bandeirantes, homens que tinham ido ao sertão para capturar índios ou procurar ouro, e ninguém sabia por onde andavam, e se é que andavam. Na ausência dos maridos, elas acabavam tendo que assumir o comando do trabalho nas fazendas e a administração dos negócios familiares, a não ser que tivessem parentes adultos do sexo masculino que resolvessem incumbir-se desses encargos. Elas iam às igrejas rezar pelos maridos ausentes, e isso mesmo faziam em casa, todos os dias, diante dos oratórios que certamente não faltavam. Não são poucos os supostos milagres, atribuídos a religiosos com fama de santidade, que teriam, a pedido de alguma mulher, previsto a volta deste ou daquele sertanista do qual há muito não havia notícia. Por tudo isso, ou apesar disso, para que os leitores reflitam, proponho a seguinte questão: Não seriam as andanças dos bandeirantes pelo interior do Brasil uma verdadeira libertação para suas mulheres? 

(1) Sim, é o da "Aclamação".
(2) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 111. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.
(3) Ibid., p. 163.
(4) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 31.
(6) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 327.


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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Faltou vinho para celebrar missa

Ao que parece, os primeiros anos de colonização na Capitania de São Vicente foram marcados por alguma esperança, até entusiasmo, mesmo. O donatário, Martim Afonso de Sousa, havia, por ordem do rei, seguido para as Índias, mas seu representante cuidava dos interesses dos colonos. Logo, porém, a enorme distância de Portugal viria a trazer problemas sérios. A economia estaria restrita à subsistência dos moradores, já que a exportação era difícil - apenas um navio, por ano, fazia a rota de São Vicente para o Reino, conforme mencionaram vários autores, dentre os quais José de Anchieta, em carta datada de 1555: "...é necessário que tenhamos paciência, pois de ano em ano apenas parte um navio." (¹)
A dificuldade de comunicação, sendo já grande com esse único navio fazendo anualmente a rota, iria ficar ainda maior. Em 1559, ainda segundo o mesmo Anchieta, nem uma única embarcação foi ao Reino, conforme carta escrita ao Geral dos Jesuítas em 1º de junho de 1560: "...nunca achamos ocasião de poder escrever, visto neste último tempo não partir daqui navio algum, porque mais é para se compadecer de nós outros, que para se irar, que tanto tempo carecemos das cartas de nossos irmãos..." (²)
Para os jesuítas, além da dificuldade em manter correspondência com membros da Ordem, a falta de uma embarcação que fosse ao Reino e de lá viesse carregada de mercadorias trazia um problema adicional: chegou a faltar vinho para a celebração da missa, conforme assegurou Anchieta na mesma carta: "...vimos a tanta falta, que até para dizer missa nos faltou vinho por alguns dias." (³)
Em sua condição de missionários, os padres jesuítas estavam já bem acostumados à sobrevivência apenas com os recursos disponíveis na Colônia, e de pouca coisa do Reino é que deviam sentir falta; um pouco de imaginação, porém, irá conduzir-nos às privações pelas quais passavam os colonos em geral. Roupas, ferramentas, sementes, alguns alimentos que não se encontravam disponíveis na América - a lista de coisas que podem ter faltado devia ser extensa.
Tudo isso, junto à natureza difícil de dominar, contribuiu para fazer dos colonos de São Vicente os mais audazes e independentes de quantos vieram à América do Sul. Não por acaso é que dentre eles saíam bandos de rudes aventureiros - mais tarde chamados nobremente "bandeirantes" - que enfrentavam o interior ainda desconhecido do Brasil em busca de índios, aos quais escravizavam, e de qualquer coisa que pudesse melhorar as condições de existência. Ouro, por exemplo.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 85.
(2) Ibid., p. 144.
(3) Ibid.


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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Terríveis paulistas (como quase todos os demais colonizadores)


Acampamento de bandeirantes (¹)

Entre autores dos séculos XVII e XVIII não são raras referências nada elogiosas à conduta dos paulistas; já no Século XIX, o Padre Ayres de Casal observou:
"Os paulistas de hoje passam por uma boa gente; mas seus avoengos não o foram certamente." (²)
Perguntará alguém dentre os leitores: Até que ponto essa observação era procedente? Para dar resposta à questão, vejamos, primeiro uma pequena lista, na qual todos os itens são provenientes da Nobiliarchia Paulistana, obra de genealogias escrita no Século XVIII, com evidente finalidade de exaltar os feitos dos paulistas:

1. Era comum que os patriarcas de Piratininga e adjacências tivessem muitos índios escravizados, centenas deles, a despeito dos protestos dos jesuítas envolvidos na catequese da população ameríndia; quando um sujeito tinha muitos desses índios escravizados, afirmava-se que era um "potentado em arcos"... O mais curioso é que os pobres escravizados eram, eufemística e legalmente, chamados "administrados", nunca "escravos", como de fato acontecia. Pior ainda, dizia-se que os índios eram "extraídos do sertão para o grêmio da Igreja".

2. Na busca por indígenas para a escravização, paulistas logo descobriram que era "bom negócio" atacar as missões e/ou reduções, já que nelas, aos cuidados dos padres, os índios viviam desarmados e, além disso, aprendiam ofícios mecânicos, fato que contribuía para torná-los mais valiosos para a venda.

3. Dinheiro amoedado era raro na Capitania de São Vicente, por sua distância da Europa e pequeno comércio direto com a Metrópole lusitana, de modo que o fenômeno da falsificação de moedas não era, em absoluto, desconhecido, a despeito das severíssimas leis previstas nas Ordenações do Reino para esse crime. Em carta à Câmara Municipal de São Paulo, datada de 1709, dizia El-Rei:
"E porque o mesmo Pedro Taques me representou a grande perturbação que causou nesse povo as moedas falsas que se acharam nessa capitania, vos ordeno que neste particular procedais com aquela diligência e cuidado que pede matéria tão importante." (³)

4. Não era incomum em São Paulo que houvesse homem obrigado a casar-se, usando a linguagem da época, "à força das armas" - os senhores leitores devem imaginar a causa. Outro eufemismo corrente era "casou por força de consciência".

5. Levantes e rebeliões também não eram incomuns. Enquadra-se aqui, por exemplo, a chamada "Aclamação de Amador Bueno", ocasião em que parentes desse rico fazendeiro pretenderam fazê-lo, nem mais e nem menos, que o rei de São Paulo! A coisa só não prosseguiu porque Amador Bueno teve juízo suficiente para rejeitar o posto que lhe queriam conferir.

6. A querela entre as famílias Pires e Camargo provocou arruaças e assassinatos por anos a fio nas ruas de São Paulo.

7. Os testamentos de paulistas estavam repletos de referências a filhos "bastardos mamelucos" e/ou "filhos naturais" (essa expressão é ótima - como seriam filhos artificiais?!!!), ou seja, nascidos fora do casamento reconhecido pela Igreja.

8. O rapto de mulheres também não era desconhecido na povoação; a poligamia seguia pelo mesmo caminho.

9. Há relatos de envenenamentos, bem como de apropriação indébita de herança que pertencia a parente(s).

10. Finalmente (como a lista já está muito longa), vale recordar que, tão afeiçoados eram os paulistas em escravizar índios que, a despeito de se considerarem bons católicos, não tiveram escrúpulos em promover a expulsão dos jesuítas em 1640, de tal forma que aos padres somente foi permitido o retorno após longa negociação.

Que dizer de tudo isso?
Antes de mais nada, é bom lembrar que feitos igualmente meritórios podem ser encontrados em quase todas as povoações de alguma importância existentes no Brasil daqueles dias. No caso dos paulistas, o isolamento em que viviam talvez explique, ao menos em parte, muitas das infrações. Ilhados no interior da Colônia, estavam livres para aprontar, como bem entendessem, com quase nenhuma restrição. O governo estabelecido por Portugal estava longe e, nessas condições, obedecer era mais uma opção do que uma obrigação.
Ora, vez por outra, o próprio governo precisava deles e, assim tinha que negociar. Amostra disso foi o que ocorreu quando se necessitou, desesperadamente, de gente disposta a lutar contra os holandeses no Nordeste. Solução? Proclamou-se anistia completa aos paulistas que houvessem cometido quaisquer atrocidades em suas andanças pelo sertão no apresamento de índios, desde que se alistassem para combater "o holandês". Preocupada em desmantelar Palmares, a administração lusa não hesitou em contratar os serviços de experientes bandeirantes que seguiam Domingos Jorge Velho. Estando "tão exausta" a Real Fazenda, foi aos sertanistas de São Paulo que recorreu o monarca português, incitando-os à procura de ouro, enquanto acenava com honrarias, em caso de sucesso.
Sedentos de glória e riqueza, paulistas arriscaram os bens e a vida à cata de metal precioso. Uns poucos lucraram bastante com a aventura. A maioria, anonimamente, saiu-se muito mal. Enquanto isso, graças aos avanços desses tipos descalços, famintos e maltrapilhos pelo interior da América do Sul, a Linha de Tordesilhas ia para o espaço e o mapa do Brasil tomava contornos algo parecidos aos que tem atualmente.
Não vale a pena generalizar. Devia haver gente excelente em São Paulo, mesmo nos difíceis dias da povoação de Piratininga. A maioria, no entanto, como ocorria com os mais colonos Brasil afora, era mesmo do arco da velha.

(1) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 222.
(3) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarchia Paulistana.


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