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terça-feira, 5 de maio de 2020

O que os ferreiros de São Paulo fabricavam no Século XVI

- Mestre Antônio! Ó de casa!...
A fumaça que vem da fornalha enche todo o ambiente, já de si escuro. Só se vê o vermelho do carvão em brasa e, em um dos cantos da oficina, um aprendiz, que, com o martelo, tortura os ouvidos de quem chega, com o som de uma ferradura que ajusta na bigorna. Verdadeiro mistério é que o teto de sapé não se incendeie.
- Ô mestre Antônio! 
Um homem vem, lentamente, ver quem chama.
- Ô Lourenço, bons dias!...
- Bons dias. Vim buscar a encomenda...
- Já está quase tudo pronto, homem. Então partem amanhã?
- Amanhã, depois da missa. Não quer ir?
- Não. Tenho aprendizes, e, desta vez, fico. No ano que vem, talvez vá, também. Venha conferir: estão aqui as tesouras, as facas. Olhe as enxadas, o machado...
Loureço dá um risinho maroto.
- Nem precisava tanto capricho, mestre Antônio!
É que as encomendas eram para "resgates", as trocas com indígenas que a gente de São Paulo fazia em suas idas ao sertão. 
- O facão que me pediu, dos bons, fica pronto daqui a pouco. Estava polindo a lâmina. Vai sair uma beleza!...
- Então, passo depois. E quanto àquelas correntes?
- Guardei lá dentro. São garantidas. As "peças" (¹) não lhe escapam. 
Nova risada.
- Terá sua parte, mestre Antônio...

Deixemos mestre Antônio entretido no trabalho, com seus aprendizes e fregueses. Ferreiros que viviam e trabalhavam na Europa no Século XVI tinham como principais encomendas a fabricação de armas, ferramentas e objetos de uso doméstico. Já aqueles estabelecidos na vila de São Paulo, na mesma época, precisavam atender às demandas do quotidiano colonial, com suas inevitáveis especificidades. 
Como sabemos disso?
Um tabelamento de preços, imposto no ano de 1587, é documento valioso para mostrar o que é que mantinha os ferreiros da vila ocupados. A ordem partiu da Câmara de São Paulo e foi lida publicamente no dia 24 de agosto, "ao pé da cruz que está junto ao adro da dita vila", conforme era costume. Impossível não pensar em tudo o que tal cruz não teria ouvido nesses tempos, se ouvir pudesse, é claro.
A lista é extensa; vamos ao que é indispensável, em transcrição na ortografia atual e com a pontuação necessária à compreensão:
"Das foices roçadeiras de roçar (²), dando seu dono o ferro, setenta réis de feitio, e se o ferreiro der o carvão lhe pagará o dono da foice, e das foices [...] de resgate, sessenta réis; [...] de uma foice nova calçada que vender o ferreiro, duzentos réis; das enxadas para casa, setenta réis de feitio; das enxadas para resgate cinquenta réis de feitio; [...] de um machado novo, sendo ferro e aço de quem manda fazer para trabalho de casa, cem réis; [...] do feitio de um machado novo para resgate, sendo o ferro do dono, oitenta réis; [...] do feitio de uns engonços (³), dando quem os manda fazer o ferro, dez réis; de uma perna para mesa ou cadeira, sendo o ferro de quem o manda fazer, de feitio cinco réis; pregos de foices de trabalho, dois réis, e dando seu dono o ferro, um real; tachinhas para caixas de marmelada, dando seu dono o ferro, duas por real, e sendo do ferreiro, três por dois réis; [...] do feitio de um espeto de três palmos, sendo o ferro de quem o manda fazer, com argola, trinta réis; [...] anzóis pargueiros a três réis [...]; do feitio de um cadeado, sendo o ferro de quem o manda fazer, com uma chave, seis vinténs, e sendo do ferreiro, duzentos réis; de uma chave macho, cinquenta réis, e de feitio de uma fêmea, quatro vinténs; de um ferrolho com sua fechadura e chave, sendo o ferro de quem o manda fazer, para porta de casa, [...] trezentos réis, e sendo do ferreiro, trezentos e cinquenta réis [...]; uma tesoura de resgate, cinquenta réis, e se for o ferro de quem a mandar fazer, trinta réis; [...] de uns estribos de ferro do ferreiro, três cruzados."
Para quem se aventurasse a desobedecer, a mesma ata ainda estipulava uma "pena de quinhentos réis, a metade para o acusador e a metade para o concelho (⁴)."
O que podemos concluir dessa lista que quase acaba com o fôlego de quem lê?
Vejamos cinco aspectos:
  • Devia haver um número muito maior de objetos que ferreiros podiam fornecer, constando na tabela de preços apenas os mais comuns;
  •  Fica evidente a diferença entre ferramentas para uso próprio e "para resgate", pela variação nos preços entre elas. Lembrando que "resgates" eram as trocas ou escambo que se fazia com indígenas, nota-se que era explícita a ideia de que, para esse efeito, as ferramentas não precisavam ser lá muito boas;
  • As tachinhas para as caixas de marmelada eram importantes: a produção de marmeladas da vila de São Paulo tinha fama que alcançava outras capitanias, e, malgrado o pequeno valor cobrado pelos preguinhos, quem as exportava para outras capitanias precisava de um bom número deles;
  • Embora o tabelamento fosse feito em moeda da época, não se deve esquecer que, no Século XVI, e mesmo mais tarde, quase não havia dinheiro amoedado circulando em São Paulo (⁵), e, portanto, os valores deviam funcionar apenas como referência, sendo os pagamentos feitos, de hábito, em espécie;
  • Finalmente, havia um óbvio incentivo à delação, visto que aquele que denunciasse um infrator receberia metade do valor da multa imposta. Essa prática talvez desobrigasse a Câmara de exercer fiscalização por si mesma, porque não faltaria quem desse com a língua nos dentes, se algum ferreiro tentasse burlar o tabelamento (⁶).

(1) No Brasil Colonial, escravos eram muitas vezes chamados "peças". Neste caso, é uma referência a indígenas que sertanistas de São Paulo capturavam e forçavam ao trabalho.
(2) De que mais seriam?
(3) Dobradiças.
(4) Concelho, aqui, é mesmo com "c", por se referir à administração municipal da época.
(5) O mesmo acontecia em outros pontos de colonização no Brasil.
(6) Sim, isso acontecia, mesmo sob a ameaça de multa.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Telhas para cobrir as casas da vila de São Paulo no Século XVI

As primeiras casas construídas por colonizadores no Brasil eram cobertas com folhas de palmeira e outros materiais semelhantes. Apesar da facilidade e rapidez na construção, a cobertura desse tipo apresentava desvantagens: durava pouco, não era muito resistente às intempéries, era residência favorita de várias espécies de insetos e, em extremo importante, era facilmente consumida em caso de incêndio.
Cobrir casas com telhas exigia, contudo, que houvesse na localidade um oleiro experiente, e, como se sabe, artesãos escasseavam nas povoações coloniais durante o Século XVI. Foi somente em 1575 que a Vila de São Paulo, fundada em 1554, principiou a ter casas cobertas com telhas, conforme se vê em uma ata da respectiva Câmara, que diz:
"Aos seis dias do mês de março de mil e quinhentos e setenta e cinco anos, nesta Vila de São Paulo do Campo, apareceu Cristóvão Glz [?] ora morador nesta vila à presença de todos [e] disse que ele se queria vir a morar nesta vila e se queria obrigar a fazer telha para se cobrirem as moradas desta vila, por ser coisa para enobrecimento dela e ser muito necessário, contanto que se obrigassem a lhe tomar toda a [telha] que ele fizer [...], a dita telha era necessária por razão desta vila estar coberta de palha e correr risco por razão do fogo [...]." (*)
A coisa, era, de fato, indispensável, razão pela qual o oleiro e os "homens bons" da povoação entraram em acordo para que fosse cedido um terreno onde estabelecer o forno necessário à queima das telhas. Segue a ata:
"[...] se concertaram com o dito Cristóvão Glz da maneira seguinte: que ele fará toda a telha que for necessária para a vila se cobrir e dará aos moradores ao preço de quatro cruzados o milheiro, pagos no dinheiro da terra, que serão mantimentos e carnes e [cera] e couros e gado, bois e vacas e porcos, porquanto nesta vila não há outra fazenda e cada um dará aquilo que concertar ao tempo que lhe vender a dita telha, e ele a fará de bom tamanho e boa forma, que fique de dois palmos e meio depois de cozida, e de como assim se obrigou a tomar as ditas pagas nas coisas sobreditas e dar a dita telha aos moradores, a cada um por aquilo que tiver, quer bois, quer vacas, quer porcos, quer cera, quer couros, quer o que cada um tiver de seu [...]."
Já referi neste blog a escassez de meio circulante no Brasil Colonial. A ata que analisamos é prova inequívoca de que a pequena São Paulo do Século XVI não sofria pela falta de víveres, mas penava com a quase inexistência de dinheiro amoedado. Diante disso, se o oleiro Cristóvão queria ali trabalhar, seria sob a condição de receber pagamento em espécie, a que o documento se refere como o "dinheiro da terra". A rusticidade da vida colonial se entrevê sem rebuços nessa expressão.

(*) O texto da ata citada foi transcrito na ortografia atual e a pontuação foi adicionada; do contrário, a leitura seria extremamente difícil.


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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O que acontecia aos cães incômodos existentes na vila de São Paulo no Século XVI

Incidentes relacionados a maus-tratos contra animais têm alcançado forte repercussão nas últimas semanas. Afinal, sem falar a nossa língua, os bichos sofrem e, se ninguém falar por eles, malvados acabarão impunes. Embora haja leis relacionadas à proteção dos animais, um código específico seria muito útil. É hora de pensar no assunto. Além disso, não posso deixar de dizer que, em muitos casos, quem é rude no trato com um animalzinho também será capaz de maltratar qualquer pessoa em situação de fragilidade - crianças e idosos, por exemplo - se houver ocasião para isso. Mas, como este é um blog centrado em História, vamos ao passado, ao Século XVI, à pequena vila de São Paulo do Campo de Piratininga (¹), para que os leitores tenham uma ideia do tratamento que era, então, dispensado aos animais.
Aconteceu em 19 de julho de 1578. Vereadores, juiz, procurador - os "homens bons" da vila - se reuniram para deliberar quanto aos animais que andavam soltos dentro da povoação e adjacências, causando incômodo aos moradores e danos à lavoura e criação de gado. Não era, como percebem os leitores, nenhuma situação anômala para a época e lugar. Curiosa, mesmo, foi a decisão da Câmara, em cuja ata se registrou:
"[...] todo cão que se achar só no campo ou em pasto de gado andar e pegar ou matar bezerro, o dito dono do cão pela primeira [vez] pagará o dano que o dito cão fizer e será obrigado a ter o dito cão preso ou o botará fora da vila [sic!] e termo e não o fazendo, pela segunda [vez] pagará a perda em dobro e o dono do gado lhe poderá mandar matar o dito cão livremente [sic!!] e pagará o dono do cão cinco tostões para as  obras deste conselho [...]." (²)
Portanto, meus estimados leitores, dizendo sinteticamente, resolveu-se que:
a) O dono do cão incômodo estaria obrigado a pagar o dano feito ao rebanho alheio e, em caso de reincidência, além da indenização em dobro, seria multado;
b) A pessoa prejudicada ficaria livre para matar o cão reincidente.
Como já disse, corria o Século XVI. A decisão da Câmara, contudo, não se limitou a cães arruaceiros. Havia mais:
"[...] quem tiver porco ou porca que coma pintos ou galinhas [...] que ponha cobro nele ou nela, que não pondo cobro lha matarão livremente [sic!!!] e o farão saber a seu dono para que o aproveite [...]."
Neste caso, aquele morador cujo patrimônio avícola fora danificado tinha permissão para abater o suíno, mas não podia ficar com ele: precisava dar aviso ao proprietário que, se quisesse, podia ir buscar o animal falecido para seu próprio uso.
Deixando de lado o aspecto engraçado disso tudo, e já concluindo, quero sugerir aos leitores que, a partir do que foi dito, façam um exercício de imaginação e tentem visualizar o que era a vida em uma povoação no primeiro século da colonização. Tenham a certeza de que, ressalvadas as especificidades, o quotidiano de São Paulo se repetia em outras vilas que, a pouco e pouco, proliferavam no Brasil, primeiro junto ao mar e, mais tarde, também no interior, no rumo das expedições de apresamento de indígenas, da procura por metais preciosos, da expansão da agricultura e também da pecuária de corte.

(1) Origem da cidade de São Paulo - SP.
(2) Como é costume neste blog (com a finalidade de não enlouquecer os leitores), a ata citada foi transcrita em ortografia atual, com acréscimo da pontuação necessária.


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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Nada de chiqueiros perto do muro!

Quem vivia em São Paulo no Século XVI criava porcos junto ao muro da vila


A pequena São Paulo de Piratininga foi, nos tempos coloniais, famosa por seus "grandes capados", como disseram autores da época. Agora, digam-me, leitores: Onde vocês acham que os moradores de São Paulo criavam porcos? Ah, dirão, em chiqueiros, naturalmente!... Sim, em chiqueiros, mas a questão é: Onde ficavam os ditos chiqueiros?
Uma ata da Câmara de São Paulo, tendo a data de 4 de fevereiro de 1575, nos informa que, só para variar, a povoação estava às voltas com a ameaça de um ataque. Portanto, foram deliberadas providências para a defesa da vila, que incluíam consertar o muro (mais uma vez) e mudar os chiqueiros de endereço. 
Vamos ao documento:
"Requereu o [...] procurador que João Anes, Domingos Roiz e Manoel [Félix?] tinham nos muros desta vila aberto buracos e portas nos ditos muros, que eram grande prejuízo e podiam cair os ditos muros, que suas mercês lhes mandassem notificar com séria pena que os tapassem dentro de certo tempo, ao que os senhores oficiais responderam e mandaram a mim, escrivão, que notificasse aos sobreditos que dentro [...] de um mês eles tapassem as ditas taipas de taipas de pilão, com pena de quinhentos réis [...]."
Informo, de passagem, que as vírgulas foram acrescentadas por mim, para tornar o [dito] documento minimamente compreensível (¹). Prossigamos, pois, com a [dita] ata de 4 de fevereiro de 1575:
"Requereu mais o dito procurador do conselho aos ditos senhores oficiais que nesta vila havia pessoas que tinham chiqueiros de porcos e casas para eles arrimados aos muros desta vila, que eram grande prejuízo, porque sucedendo alguma guerra, pelos ditos chiqueiros podiam subir os contrários. [...] lhes requeria da parte de el-Rei (²) lhes mandasse notificar ou apregoar que os tirassem donde estavam e os fizessem apartados dos ditos muros três braças, ao que os ditos oficiais responderam e mandaram que fosse apregoado que qualquer pessoa que tivesse chiqueiros nesse lugar os tirasse dali dentro de dois meses do dia do pregão para diante, com pena de duzentos réis para o conselho e mandaram que se fizesse dito termo." 
Cabe aqui, creio, a explicação de que braça é uma medida antiga equivalente a 2,2 metros. Portanto, as três braças dariam 6,6 metros - era essa a distância que deveria ser guardada entre os chiqueiros e o muro de taipa que protegia a vila. 
A ata não diz se os porcos residiam dentro ou fora dos muros, mas é razoável supor que fosse do lado de fora, e não apenas por razões aromáticas. É que os chiqueiros e abrigos cobertos para os animais somente facilitariam aos "contrários" o acesso ao muro se estivessem localizados externamente. Admitindo que fosse esse o caso, as portas (ou buracos) abertos no muro tinham a provável finalidade de facilitar as idas e vindas de quem cuidava dos animais. Portanto, os dois requerimentos apresentados pelo procurador talvez se resumissem em uma coisa só.
E quem eram, afinal, os "contrários", cujo ataque se esperava, justificando a imposição de multas para obrigar à conservação do muro? Eram indígenas, com toda certeza. Alvo contínuo das provocações dos moradores de São Paulo, faziam-se temidos pela possibilidade de uma desforra. Se assim acontecesse, era melhor, no raciocínio dos oficiais da Câmara, que o muro estivesse em boas condições, livre de buracos, de chiqueiros e de porcos.

(1) Tentem ler o texto suprimindo as vírgulas...
(2) Seria interessante saber se sua majestade alguma vez teve ciência dos problemas relacionados à manutenção do muro e aos chiqueiros da Vila de São Paulo.


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Uma ata exageradamente honesta, ou como o porteiro foi pago na Vila de São Paulo em 1572

Atas e outros textos oficiais devem ser redigidos dentro de regras estritas, sisudas, exatas e impessoais, certo? Pois vocês, leitores, terão, já e já, a prova de que toda regra tem exceção.
Comecemos lembrando que pagamentos em espécie não eram nada incomuns no Brasil Colonial. Isso se explica pela falta de dinheiro amoedado em circulação. A escassez era grave, obrigando colonizadores a uma erupção de criatividade para contornar o problema. Açúcar e até novelos de algodão assumiam a função de numerário. A vida colonial era precária, já se vê. E, sendo assim no rico Nordeste açucareiro, como não seria na minúscula Vila de São Paulo de Piratininga, em suas primeiras décadas de existência? Vejam só esta ata da Câmara de São Paulo, que vem do ano de 1572:
"Aos trinta dias do mês de abril, era de mil e quinhentos e setenta e dois anos da sobredita era nesta vila de São Paulo [...] se ajuntaram os oficiais (¹) para fazer câmara e acordarem coisas necessárias para prol da vila [...], e mandaram que uma pouca de palha que aí estava do conselho, que fosse avaliada por dois homens bons (²) e seu preço no que avaliassem ao porteiro (³) a troco de seu serviço, a qual palha foi avaliada em cem réis, de que o dito porteiro foi contente [...]. Eu, Pero Dias, escrivão da Câmara que isto escrevi, posto que diga que um tostão (⁴) não foi senão meu, porque não valia mais a dita palha [...]."
Se dependesse da minha vontade, o dito escrivão jamais teria servido no sobredito ofício porque para isso, é fácil notar, não tinha competência. Mas quantos a teriam naquela vilazinha escondida para além da Serra do Mar? Para não cansar os leitores é que transcrevi a dita ata [chega!] em ortografia contemporânea, tanto quanto foi isso possível. Mas vamos ao que interessa:
  • A pobreza da vila está devidamente caracterizada pelo fato de não haver dinheiro para pagar o porteiro, que foi remunerado com "uma pouca de palha";
  • O porteiro também não devia ser das criaturas mais abonadas, uma vez que aceitou o [ínfimo] pagamento;
  • Para que a coisa saísse a contento, a palha, que não valia mais de oitenta réis, foi avaliada em cem (⁵). Pior, ainda, é que esse arranjo acabou incluído na ata, que os senhores vereadores assinaram (⁶), aparentemente sem contestação. Cúmulo do absurdo: o escrivão, abusado, ousou registrar a própria opinião sobre o arranjo exótico que se acabara de fazer.
Agora, a reunião da Câmara termina e o porteiro, "contente" com o pagamento, se vai com a palha. Quase quatrocentos e cinquenta anos depois, nós, leitores do Século XXI, é que ficamos surpresos com a franqueza inusitada da [dita] ata, pensando no que mais podia suceder em um lugar em que documentos oficiais eram assim redigidos.

(1) Um dos vereadores em 1572 era Afonso Sardinha, já citado neste blog.
(2) Assim eram chamados os indivíduos de importância em uma localidade, geralmente com maior poder econômico, que serviam, mediante rodízio, nos cargos públicos, e cujo parecer se supunha confiável.
(3) O porteiro dessa ocasião atendia pelo nome de João Galego.
(4) O tostão dos tempos coloniais equivalia a oitenta réis.
(5) Corrupção!
(6) Talvez seja o caso de perguntar se leram a ata e/ou se eram todos capazes de ler...


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terça-feira, 26 de junho de 2018

O que havia de elogiável em São Paulo no Século XVI

"Esta terra parece um novo Portugal" (¹), escreveu o jesuíta Fernão Cardim. A que terra se referia? A São Paulo de Piratininga e seus arredores, na Capitania de São Vicente. Era o Século XVI.
Cardim acompanhava o visitador Cristóvão de Gouvêa em viagem (²) de supervisão pelos colégios e missões que a Companhia de Jesus havia estabelecido no Brasil. Causara espanto o luxo que ostentavam os moradores da Bahia e Pernambuco, que, através do vestuário dispendioso, comprovavam a prosperidade dos empreendimentos açucareiros coloniais. Porém, chegando a São Paulo, Cardim se põe a gabar, não os veludos, plumas e sedas, mas a fertilidade da terra, que devolvia em farta produção todo o trabalho realizado por colonizadores e indígenas. Foi tão pródigo em elogios, que vale a pena dividir seu relatório em itens:

A Vila tinha boa localização
"A vila está situada em bom sítio, ao longo de um rio caudal [...]." (³)
Os moradores da Vila tinham muito respeito pelos padres
"Não têm cura nem outros sacerdotes senão os da Companhia, aos quais têm grande amor e respeito [...]." (⁴) Quanto a isto, ou Cardim era de uma inocência admirável, ou os moradores de São Paulo tinham, nesse tempo, incrível talento cênico - talvez acontecesse um pouco das duas coisas. Quem é que não sabe que os colonizadores viviam às turras com os "padres da Companhia", sempre que estes tentavam obstar a escravização de indígenas? Os primeiros missionários enfrentaram João Ramalho e sua numerosíssima prole; no Século XVII, o "amor e respeito" foi tanto, que chegaram a expulsar os jesuítas da Vila, somente readmitidos quando prometeram solenemente que não haveria intromissão nos assuntos "seculares".
Os moradores da Vila eram generosos no sustento dos padres
"Os moradores sustentam seis ou sete dos nossos, com suas esmolas com grande abundância [...]." (⁵)
Havia boas pastagens onde se criava gado bovino
"É terra de grandes campos e muito semelhante ao sítio d'Évora, na boa graça, e campinas, que trazem cheias de vacas, que é formosura ver." (⁶)
Vinhas eram amplamente cultivadas
"Têm muitas vinhas e fazem vinho [...]: nunca vi em Portugal tantas uvas juntas, como vi nestas vinhas [...]." (⁷)
A produção de figos e marmelos era notável
"[A terra] tem grandes figueiras de toda sorte de figos [...], muitos marmeleiros que dão quatro camadas, uma após outra, e há homem que colhe doze mil marmelos, de que fazem muitas marmeladas [...]." (⁸) Sob esse aspecto não há discussões, a produção de marmelada de São Paulo em fins do Século XVI era suficiente não só para a demanda local, como também para comércio em outras capitanias.
Havia cultivo de rosas-de-alexandria
"[A terra] tem muitas rosas-de-alexandria, e porque não tem das outras rosas, das de-alexandria fazem açúcar rosado para mezinha (⁹), e das mesmas cozidas [...] fazem açúcar rosado para comer, e fica sofrível. [...]." (¹º)
Os pinhões eram de boa qualidade
"Há muitos pinheiros, as pinhas são maiores, nem tão bicudas como as de Portugal, e os pinhões são também maiores, mas muito mais leves e sadios [...]." (¹¹)
Era boa a produção de trigo e cevada
"Dá-se trigo e cevada nos campos: um homem semeou uma quarta de cevada e colheu sessenta alqueires; é terra fertilíssima, muito abastada [...]." (¹²)
Vejam, leitores, que Cardim fazia elogios, elogios e mais elogios. Uma coisa, porém, não foi capaz de gabar: o vestuário dos paulistas. Logo no início da descrição da Vila, comentara, reparando que todo o trajar era rústico e antiquado: "Vestem-se de burel e pelotes pardos e azuis, de pertinas compridas, como antigamente se vestiam." (¹³). Pode-se com justiça supor que o jesuíta, estranhando a moda, tenha perguntado aos moradores a que se devia tanto amor ao passado. Da explicação recebida, obteve a conclusão que aparece depois de toda a loquacidade quanto às virtudes do lugar: "Tem [esta terra] grande falta de vestido, porque não vão os navios a S. Vicente, senão tarde e poucos". (¹⁴)
Em São Paulo quase não circulava dinheiro amoedado. Mas, ainda que houvesse dinheiro, não havia roupas finas à venda, por ser reduzido o comércio de artigos vindos do Reino. Tecidos, portanto, só os da terra, de algodão; talvez alguma lã. E foi isso que Cardim viu.

(1) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 106.
(2) A viagem durou de 1583 a 1590. A Narrativa Epistolar foi dirigida ao provincial jesuíta em Portugal.
(3) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Op. cit., p. 104.
(4) Ibid., p. 104.
(5) Ibid.
(6) Ibid.
(7) Ibid., pp. 104 e 105.
(8) Ibid., p. 105.
(9) Ou seja, para uso supostamente medicinal.
(10) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Op. cit., p. 105.
(11) Ibid., p. 105.
(12) Ibid.
(13) Ibid., p. 104.
(14) Ibid., p. 105.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

A inspeção das marmeladas

O que seria motivo de preocupação entre os administradores da vila de São Paulo de Piratininga, lá pela última década do Século XVI? As atas da Câmara de São Paulo mostram, entre os assuntos recorrentes, a necessidade de zelar por cercas e muros (como prevenção contra ataques de indígenas) e o cuidado com a conservação dos caminhos que levavam à vila - em um documento datado de 1584, cuja autoria é atribuída a Anchieta, o "Caminho do Mar", que ligava o planalto à vila litorânea de Santos, é descrito como um "dos mais trabalhosos caminhos que [...] há em muita parte do mundo" (¹). Além disso, eram frequentes os problemas com a prática de preços exorbitantes no incipiente comércio local; reclamações quanto a pesos e medidas desonestos não eram nenhuma raridade. 
Então...
Então, na ata da Câmara de São Paulo, relativa ao dia 22 de fevereiro de 1597, encontra-se o delicioso registro de uma ordem para que todos os que faziam marmeladas comprovassem a qualidade do produto, "para se saberem os que as fazem boas ou más". No melhor estilo da época, e já prevendo desobediência, a ordem vinha acompanhada da seguinte observação: "[...] com pena de perderem as marmeladas para o conselho, cativos e acusador, e mil réis de pena [...]."
O zeloso escrivão (naquele ano era Belchior da Costa) tratou de assinalar, também, no final dos apontamentos relativos àquele dia: "Foi apregoada a postura [...] das caixas de marmelada". Ou seja, as autoridades devem ter feito "passar bando", conforme o uso costumeiro. Fico imaginando o teor da proclamação que poderia ser lida pelas ruas, acompanhada por toque de caixa...
Marmelo (⁶)
Não pensem, leitores, que as marmeladas eram questão de pouca importância! Para a insolente vilazinha que era São Paulo, estabelecida serra acima (quando quase todas as vilas eram fundadas no litoral), cuja população obedecia às ordens vindas do Reino apenas quando queria (porque não havia quem a obrigasse a outra coisa), que aprisionava índios para escravização e desafiava os missionários jesuítas, fazendo pouco-caso de referências sutis ou explícitas à Inquisição - sim, para os moradores de São Paulo, as marmeladas eram importantes economicamente. Dez anos antes da ordem da Câmara para inspeção dos tais doces, Gabriel Soares, senhor de engenho na Bahia, observou, em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, como parte de uma lista do que se produzia em São Paulo: "os marmelos (²) são tantos que os fazem de conservas, e tanta marmelada que a levam a vender por as outras capitanias" (³). 
Quando não havia refrigeração, alimentos que resistiam por longo tempo, como peixe seco, biscoitos, feijão, farinha de mandioca e marmeladas (geralmente embaladas em caixas de madeira), eram bastante valorizados como suprimento para quem viajava, fosse por mar ou por terra (⁴). A produção de marmeladas de São Paulo era suficiente para ser exportada para outras capitanias, daí a relevância da ordem dada pelos vereadores (⁵), juízes e procurador naquele distante fevereiro de 1597. Não era implicância ou rabugice de quem mandava. Sabendo o quanto as fraudes eram pretexto de rusgas na jovem povoação, havia sabedoria em zelar pela reputação das marmeladas, ainda que hoje isto pareça até ridículo.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 320.
(2) O marmeleiro não é nativo do Brasil; entende-se, portanto, que, ainda no Século XVI, seu cultivo já estava perfeitamente adaptado às condições do Planalto Paulista. Mais tarde, doces feitos com outras frutas, pelo mesmo processo da marmelada, receberiam, genericamente, também esse nome.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 99.
(4) A monção do governador Rodrigo César de Meneses, que foi a Cuiabá em 1726, levava, entre diversos outros itens, nada menos que 144 caixas de marmelada.
(5) Nesse tempo, eram só dois: Antônio de Proença e Balthazar de Godoy.
(6) STURM, Jacob. Deutschlands Flora in Abbildungen nach der Natur. Nürnberg: 1796. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Tempestade em Piratininga

Para os jesuítas que iniciaram a catequese no Brasil em meados do Século XVI quase tudo o que encontravam era novidade, desde o modo de vida da população indígena que pretendiam doutrinar às características naturais da América do Sul, com suas matas de árvores gigantescas cobrindo serras que pareciam intransponíveis. Sabemos, por exemplo, que as tempestades, no mar ou em terra, deixavam os missionários apavorados. 
Um relato de maio de 1560, incluído em uma carta escrita por José de Anchieta ao padre-geral (¹) dos jesuítas, conta de uma tormenta que abalou Piratininga, ou seja, São Paulo, causando estragos notáveis:
"Não há muitos dias, estando nós em Piratininga, começou, depois do pôr do sol, o ar a turvar-se de repente, a enublar-se o céu, a amiudarem-se os relâmpagos e trovões, levantando-se então vento sul a envolver pouco a pouco a terra, até que [...] caiu com tanta violência que parecia ameaçar-nos o Senhor com a destruição: abalou as casas, arrebatou os telhados e derribou as matas; a árvores de colossal altura arrancou pelas raízes, partiu pelo meio outras menores, despedaçou outras, de tal maneira que ficaram obstruídas as estradas, e nenhuma passagem havia pelos bosques; era para admirar quantos estragos de árvores e casas produziu no espaço de meia hora (pois não durou mais do que isso), e, na verdade, se o Senhor não tivesse abreviado aquele tempo, nada poderia resistir a tamanha violência e tudo cairia por terra." (²)
Ora, temos aqui um Anchieta verdadeiramente loquaz na descrição da tempestade, tão diferente do escritor comedido que usava ser, até por escassez de papel... É que a tormenta deve ter causado nele uma terrível impressão. Talvez hoje alguém dissesse que correspondeu à chegada de uma frente fria, mas, independente da causa, será útil recordar que, na pequenina São Paulo daqueles dias, as construções ocupadas pelos jesuítas e outros colonizadores eram deveras precárias, daí porque o estrago deve ter resultado ainda maior. Outro ponto a observar é que, como religioso, Anchieta, ao que parece, fez em sua carta uma discreta referência a uma passagem do Evangelho Segundo S. Mateus, relacionada ao que se costuma chamar de "fim do mundo": "et nisi breviati fuissent dies illis non fieret salva omnis caro sed propter electos breviabuntur dies illi..." (³) A chuva e a ventania devem ter sido brutais!...
Todavia, o mais interessante do registro de Anchieta, como ele próprio reconheceu, ainda estava à frente:
"O que, porém, no meio de tudo isso, se tornou mais digno de admiração, é que os índios, que nessa ocasião se compraziam em bebidas e cantares (como costumam), não se aterraram com tanta confusão de coisas, nem deixaram de dançar e beber, como se tudo estivesse em completa tranquilidade." (⁴)
Podemos supor que os indígenas, plenamente habituados às súbitas mudanças de humor das condições climáticas, julgaram melhor continuar a festança, até porque de nada valeria a muita preocupação. Nem todo o terror que viessem a expressar seria de alguma utilidade para amainar a fúria das intempéries.

(1) Na ocasião, o padre Diego Laynez.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 104 e 105.
(3) Mt 24, 22: "Se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém se salvaria, mas foram abreviados por causa dos eleitos."
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J.  Op. cit., p. 105.


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A celebração do Natal por missionários jesuítas e indígenas catequizados em São Paulo de Piratininga

Os jesuítas, a despeito de métodos inovadores que eventualmente empregavam na catequese, procuravam conformar os catecúmenos às práticas da Igreja quanto ao calendário litúrgico e à administração dos sacramentos. É o que se nota em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga por José de Anchieta, em fins de dezembro de 1556, na qual descrevia práticas associadas à celebração do Natal:
"Antes do dia do Nascimento do Senhor procuramos que [os indígenas] se confessassem, o qual fizeram muitas mulheres e alguns homens, os quais diligentemente examinamos nas coisas da fé, e o que principalmente pretendemos é que saibam o que toca aos artigos da fé, scilicet ao conhecimento da Santíssima Trindade e aos mistérios da vida de Cristo que a Igreja celebra, e que saibam, quando lhes for perguntado, dar conta destas coisas [...]." (¹)
Anchieta diria ainda:
"Neste mesmo tempo do Nascimento do Senhor se confessaram e comungaram muitas mulheres mestiças com muita devoção, o qual em outros tempos muitas vezes fazem." (²)
O que se pode observar é que a catequese não ficava restrita aos indígenas, mas tinha também como objetivo, tanto quanto fosse possível, alcançar o restante da população da aldeia de Piratininga, como se vê pela referência a "mulheres mestiças", ainda que nem sempre os colonizadores estivessem dispostos a dar atenção aos padres da Companhia (³). Em todo caso, era mais frequente que, dentre a população livre, as mulheres se mostrassem mais devotas, embora os homens, até por obrigação social, não deixassem de comparecer aos ofícios religiosos em ocasiões de maior importância. Também quanto à menção de Anchieta relativamente às "mulheres mestiças", será útil recordar que eram poucas, ou melhor, pouquíssimas as mulheres que, nesse tempo, vinham do Reino para viver no Brasil, de modo que não era incomum que colonos portugueses em Piratininga se casassem com índias, nem sempre sob as leis da Igreja. Desses casamentos nasciam os chamados mamelucos, que, nos primeiros séculos de São Paulo, viriam a ser a maioria da população.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 93.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 94.
(3) Não eram incomuns os atritos entre padres e colonizadores, tendo por principal razão as objeções que os jesuítas faziam à escravização de indígenas.


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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Como viviam os moradores da Capitania de São Vicente

Durante muito tempo os jesuítas que andaram pela Capitania de São Vicente nos Séculos XVI e XVII não fizeram qualquer economia de palavras para descrever o quão depravados eram, segundo seu ponto de vista, os colonizadores que lá encontraram.
No Século XVII, o Padre Simão de Vasconcelos escreveu:
"Os costumes dos portugueses moradores, que então se achavam nestas vilas, vinham a ser quase como os dos índios; porque sendo cristãos, viviam a modo de gentios. Na sensualidade era grande sua devassidão, amancebando-se ordinariamente de portas adentro com as mesmas índias, ou fossem casados ou solteiros. Não se estranhava transgressão dos preceitos da Igreja, nem havia falar em jejum, nem em abstinência de carne, e muito pouco nos sacramentos necessários para a salvação: homens havia que desde que entraram na terra, se não tinham confessado, nem comungado. Vivia-se de rapto de índios, era tido o ofício de assalteá-los por valentia, e por ele eram os homens estimados; e sobretudo sem prelado, sem pregador, sem quem zelasse da parte de Deus tantos males." (¹)
Os leitores que sobreviveram até aqui devem agora ser informados de que tudo isso vinha a ser uma espécie de introdução para proclamar que os maus hábitos relatados começaram a mudar quando o jesuíta Leonardo Nunes lá chegou. Os fatos, devidamente estudados e compreendidos, mostram, porém, que nem a descrição de Vasconcelos é assim tão exagerada, nem Leonardo Nunes e nem qualquer jesuíta seu contemporâneo foi capaz de produzir sensível mudança nos libérrimos colonos de São Vicente.
A propósito, se queremos ser justos, devemos admitir que não era dos moradores a culpa pela ausência de sacerdotes que ministrassem os sacramentos. Os donatários das Capitanias tinham alguma dificuldade em recrutar clérigos que quisessem vir ao Brasil e, quando o conseguiam, não era, por certo, dentre os mais virtuosos. Além disso, toda a gente vinda do Reino, onde vivera sob a mais severa repressão do Estado e da Igreja, devia achar grande encanto em tanta liberdade... Quase isoladas na parte sul da Colônia, as povoações da Capitania de São Vicente passavam muito tempo sem ver sequer sombra das autoridades coloniais.
Também é fato que, quando os jesuítas tentaram impor as rédeas da Igreja aos colonos, encontraram oposição severa. Consta que Anchieta e seus irmãos de Ordem teriam ameaçado a gente de João Ramalho com as garras da Inquisição. Tudo inútil - o colono valentão, por sua vez, bem como sua enorme família, teriam respondido que, caso algum inquisidor ousasse chegar àquelas terras, era com nada menos que flechadas que seria posto em fuga. E ninguém duvide de que falavam sério. Mesmo.
Portanto, a presença de padres nem de longe garantiu o geral estabelecimento de bons hábitos, ao menos sob a ótica dos jesuítas. É verdade que a catequese acabou levando muitas mulheres indígenas ou mamelucas à prática frequente dos chamados deveres religiosos e, mesmo os homens, em grande parte de origem portuguesa ou espanhola, passaram a ostentar uma fachada de religiosidade. A Igreja acabava por representar, com seu calendário litúrgico e suas festas, um importante fator de convivência social. As expedições de apresamento de índios, no entanto, continuaram na moda por muito tempo e, quando os jesuítas resolveram assumir uma forte oposição a essa prática, foram expulsos de São Paulo. Somente depois de muita negociação é que foram readmitidos, sob a condição de deixarem de dar palpites em questões que excedessem os limites de suas práticas religiosas. (²)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 41.
(2) Não sem alguma razão, os colonos entendiam que os jesuítas criticavam o que eles próprios faziam: sob o pretexto da catequese, levavam índios para aldeamentos nos quais eram forçados a trabalhar segundo os interesses dos padres.


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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Terríveis paulistas (como quase todos os demais colonizadores)


Acampamento de bandeirantes (¹)

Entre autores dos séculos XVII e XVIII não são raras referências nada elogiosas à conduta dos paulistas; já no Século XIX, o Padre Ayres de Casal observou:
"Os paulistas de hoje passam por uma boa gente; mas seus avoengos não o foram certamente." (²)
Perguntará alguém dentre os leitores: Até que ponto essa observação era procedente? Para dar resposta à questão, vejamos, primeiro uma pequena lista, na qual todos os itens são provenientes da Nobiliarchia Paulistana, obra de genealogias escrita no Século XVIII, com evidente finalidade de exaltar os feitos dos paulistas:

1. Era comum que os patriarcas de Piratininga e adjacências tivessem muitos índios escravizados, centenas deles, a despeito dos protestos dos jesuítas envolvidos na catequese da população ameríndia; quando um sujeito tinha muitos desses índios escravizados, afirmava-se que era um "potentado em arcos"... O mais curioso é que os pobres escravizados eram, eufemística e legalmente, chamados "administrados", nunca "escravos", como de fato acontecia. Pior ainda, dizia-se que os índios eram "extraídos do sertão para o grêmio da Igreja".

2. Na busca por indígenas para a escravização, paulistas logo descobriram que era "bom negócio" atacar as missões e/ou reduções, já que nelas, aos cuidados dos padres, os índios viviam desarmados e, além disso, aprendiam ofícios mecânicos, fato que contribuía para torná-los mais valiosos para a venda.

3. Dinheiro amoedado era raro na Capitania de São Vicente, por sua distância da Europa e pequeno comércio direto com a Metrópole lusitana, de modo que o fenômeno da falsificação de moedas não era, em absoluto, desconhecido, a despeito das severíssimas leis previstas nas Ordenações do Reino para esse crime. Em carta à Câmara Municipal de São Paulo, datada de 1709, dizia El-Rei:
"E porque o mesmo Pedro Taques me representou a grande perturbação que causou nesse povo as moedas falsas que se acharam nessa capitania, vos ordeno que neste particular procedais com aquela diligência e cuidado que pede matéria tão importante." (³)

4. Não era incomum em São Paulo que houvesse homem obrigado a casar-se, usando a linguagem da época, "à força das armas" - os senhores leitores devem imaginar a causa. Outro eufemismo corrente era "casou por força de consciência".

5. Levantes e rebeliões também não eram incomuns. Enquadra-se aqui, por exemplo, a chamada "Aclamação de Amador Bueno", ocasião em que parentes desse rico fazendeiro pretenderam fazê-lo, nem mais e nem menos, que o rei de São Paulo! A coisa só não prosseguiu porque Amador Bueno teve juízo suficiente para rejeitar o posto que lhe queriam conferir.

6. A querela entre as famílias Pires e Camargo provocou arruaças e assassinatos por anos a fio nas ruas de São Paulo.

7. Os testamentos de paulistas estavam repletos de referências a filhos "bastardos mamelucos" e/ou "filhos naturais" (essa expressão é ótima - como seriam filhos artificiais?!!!), ou seja, nascidos fora do casamento reconhecido pela Igreja.

8. O rapto de mulheres também não era desconhecido na povoação; a poligamia seguia pelo mesmo caminho.

9. Há relatos de envenenamentos, bem como de apropriação indébita de herança que pertencia a parente(s).

10. Finalmente (como a lista já está muito longa), vale recordar que, tão afeiçoados eram os paulistas em escravizar índios que, a despeito de se considerarem bons católicos, não tiveram escrúpulos em promover a expulsão dos jesuítas em 1640, de tal forma que aos padres somente foi permitido o retorno após longa negociação.

Que dizer de tudo isso?
Antes de mais nada, é bom lembrar que feitos igualmente meritórios podem ser encontrados em quase todas as povoações de alguma importância existentes no Brasil daqueles dias. No caso dos paulistas, o isolamento em que viviam talvez explique, ao menos em parte, muitas das infrações. Ilhados no interior da Colônia, estavam livres para aprontar, como bem entendessem, com quase nenhuma restrição. O governo estabelecido por Portugal estava longe e, nessas condições, obedecer era mais uma opção do que uma obrigação.
Ora, vez por outra, o próprio governo precisava deles e, assim tinha que negociar. Amostra disso foi o que ocorreu quando se necessitou, desesperadamente, de gente disposta a lutar contra os holandeses no Nordeste. Solução? Proclamou-se anistia completa aos paulistas que houvessem cometido quaisquer atrocidades em suas andanças pelo sertão no apresamento de índios, desde que se alistassem para combater "o holandês". Preocupada em desmantelar Palmares, a administração lusa não hesitou em contratar os serviços de experientes bandeirantes que seguiam Domingos Jorge Velho. Estando "tão exausta" a Real Fazenda, foi aos sertanistas de São Paulo que recorreu o monarca português, incitando-os à procura de ouro, enquanto acenava com honrarias, em caso de sucesso.
Sedentos de glória e riqueza, paulistas arriscaram os bens e a vida à cata de metal precioso. Uns poucos lucraram bastante com a aventura. A maioria, anonimamente, saiu-se muito mal. Enquanto isso, graças aos avanços desses tipos descalços, famintos e maltrapilhos pelo interior da América do Sul, a Linha de Tordesilhas ia para o espaço e o mapa do Brasil tomava contornos algo parecidos aos que tem atualmente.
Não vale a pena generalizar. Devia haver gente excelente em São Paulo, mesmo nos difíceis dias da povoação de Piratininga. A maioria, no entanto, como ocorria com os mais colonos Brasil afora, era mesmo do arco da velha.

(1) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 222.
(3) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Nobiliarchia Paulistana.


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