terça-feira, 27 de junho de 2017

O Mito do Caipira Preguiçoso e Improdutivo

A grande luta social do Século XIX foi a da abolição da escravatura. A favor da abolição militaram alguns dos cérebros mais brilhantes de que o País dispunha; contra ela estavam, como é óbvio, muitos proprietários de escravos, bem como aqueles que tinham empreendimentos que lucravam com a escravidão. Destes, vinha a pergunta: Se não tivermos escravos, quem é que vai trabalhar?
Quase ninguém considerava que os ex-escravos poderiam ser contratados como trabalhadores livres. Até parece que, na cabeça de muita gente, a abolição seria uma espécie de evento mágico, por meio do qual os escravos simplesmente desapareceriam. A lei que aboliu a escravidão sequer fazia menção a eles (¹).
Era desejada e estimulada a vinda de imigrantes europeus (²), cujas características eram apresentadas como diametralmente opostas às dos trabalhadores livres nacionais, os chamados "caipiras", citados, algumas vezes, como verdadeiros acervos ambulantes de todos os defeitos. Existe deles uma descrição que, para os propósitos de nosso estudo, é um verdadeiro primor, e, apesar de um pouco longa, merece ser lida com atenção. Foi escrita por Augusto Emílio Zaluar e publicada no ano de 1862, quando o assunto da abolição ia esquentando e já se falava em intensificar o apoio à imigração europeia:
"À exceção das pessoas mais ilustradas, dos fazendeiros e comerciantes, o resto da população (³) é naturalmente indolente, preguiçosa e alheia a todos os regalos da civilização (...)
Como a terra é aqui abundante e toca a todos, esses homens [chamados] caipiras cultivam a ferro e fogo o torrão que possuem, e plantam-lhe milho, feijão e arroz. Colhido o seu produto, que sem muito trabalho podem haver, levam-no ao mercado, onde o vendem para comprar a roupa que lhes é necessária durante o ano, e regressam a casa, entregando-se outra vez aos seus hábitos de ociosidade, confiados na fertilidade do solo, que lhes fornece abóboras, aipim, batatas e outros gêneros, bem como das matas, que lhes oferecem palmitos, aves e outras muitas qualidades de caça, assim como nos rios, que os alimentam com muitos, variados e gostosos peixes." (⁴)
Leitores, sei que vocês são perspicazes, e, a esta altura, já devem ter esboçado um sorriso. Preguiçosos, os caipiras? Desde quando o solo produz milho, feijão, arroz, abóboras, aipim e batatas espontaneamente, sem qualquer esforço e intervenção de seres humanos? Alguém já ouviu falar de caça e peixes que, por conta própria, aparecem abatidos à porta de quem quer que seja?
Mas o trecho em questão é ainda contraditório. Afinal, se os caipiras eram tão preguiçosos como se afirmava, como é que cultivavam "a ferro e fogo o torrão" em que viviam? Notem, meus leitores, que, ao mesmo tempo em que se lhes imputava ociosidade, eram criticados pelo apego ao cultivo da terra!...
Com isso, já chegamos à questão central da má vontade que imperava (⁵) para com os trabalhadores livres nacionais no Século XIX: eles contrariavam os desejos dos latifundiários, à medida que, tendo um pequeno pedaço de terra que cultivavam para viver, não estavam dispostos a se sujeitar ao trabalho assalariado, em qualquer condição que fosse, nas terras de grandes fazendeiros, quase sempre interessados em explorar a mão de obra, quer de escravos, quer de trabalhadores livres (⁶). À acusação recorrente de que usavam métodos primitivos na prática da agricultura, bem poderiam os caipiras levantar a seguinte questão: Não faziam o mesmo os grandes fazendeiros (⁷), em cujas terras o implemento agrícola mais moderno era a enxada?

(1) Um dos problemas relacionados à Lei Áurea é que nela não se estabeleceu nenhuma provisão para que os ex-escravos tivessem condições dignas de existência.
(2) Havia razões políticas para isso, dentro e fora do Brasil.
(3) Zaluar estava se referindo a uma povoação do Vale do Paraíba, que é hoje uma cidade muito importante no Estado de São Paulo.
(4) ZALUAR, Augusto-Emílio Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861
Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, pp. 165 e166
(5) Isso não é um trocadilho.
(6) Este fato explica dois outros, também do Século XIX: a intenção de restringir o acesso à terra (através da Lei de Terras de 1850) e as revoltas de imigrantes europeus, que acusavam os latifundiários de tratá-los do mesmo modo que faziam com os escravos.
(7) É certo que uma minoria de proprietários rurais adotava práticas modernizadoras na lavoura, mas isto era exceção, e não regra.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Os Reis Assírios Eram Grandes Caçadores

Neste relevo, assírios são vistos caçando um leão (¹)

Todo mundo sabe que os assírios eram apaixonados pela guerra. Com o passar do tempo, adquiriram uma fama nada simpática, em razão de incontáveis atrocidades cometidas contra inimigos derrotados. Porém, em tempos de paz, eram dados à prática de um esporte muito comum na Antiguidade: a caça. Os baixos-relevos que recobriam seus palácios vieram a ser registros preciosos, com excepcional realismo, dessas atividades de lazer a que os monarcas consagravam parte de seu tempo. Esses mandatários eram, também, adeptos da pesca no mar, de acordo com registros da época. Vejam, leitores, que nem era preciso que os escribas e artistas se desdobrassem em bajulações profissionais para garantir uma imagem favorável aos soberanos, já que os próprios monarcas se encarregavam de tentar proezas que destacassem seu papel de líderes corajosos (²).
Não se deve pensar que a caça fosse, para os reis assírios e outros membros da corte, apenas um passatempo adequado para espantar o tédio entre uma guerra e outra. Como exercício físico, era útil para quem queria manter a forma - os campos de batalha da Antiguidade requeriam muito da força e resistência dos soldados, e mesmo os reis precisavam, frequentemente, entrar em ação, se queriam conservar o respeito de seu próprio povo. Além disso, esse esporte sanguinário ajudava a eliminar qualquer vestígio de sensibilidade diante da dor e sofrimento alheios. Logo, era muito importante para um povo famoso por mutilar e empalar os inimigos derrotados.

Relevo retratando um leão ao sair da jaula (³)
Havia dias, por certo, em que mesmo o rei não estava disposto a peregrinar atrás de feras. Ainda assim, não existia motivo para deixar de fazer correr o sangue de leões e outros animais. Tanto entre os assírios como entre os babilônios era usual manter um estoque de animais selvagens à disposição dos sanguinários monarcas. Sempre que desejado, alguns desses infelizes seres vivos eram soltos e, sem muito trabalho, o rei ensanguentava sua lança e/ou algumas flechas. Os seres vivos viravam seres mortos, enquanto o apetite bélico era aguçado em planos para novas guerras, conquistas e crueldades.

Rei assírio matando um leão (⁴).

(1) LAYARD, Austen Henry A Popular Account of Discoveries at Nineveh
London: John Murray, 1851, p. 288
(2) Têm imitadores até hoje...
(3) LAYARD, Austen Henry Nineveh and Babylon
London: John Murray, 1882, XXIV
(4) Ib., XXVI
Todas as imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Senhores de Engenho Eram Explorados Por Comerciantes de Açúcar

Entre os motivos tradicionalmente apontados para o declínio em importância da produção açucareira colonial encontra-se a descoberta de jazidas auríferas, as "Gerais". Por causa da corrida às minas, o preço dos escravos passou por considerável elevação, a tal ponto que muitos senhores de engenho, pensando apenas no ganho imediato, vendiam seus cativos para negociantes que pretendiam fornecer mão de obra para as áreas em que se procurava ouro (¹). Além disso, como havia elevada demanda por alimentos para abastecer as regiões mineradoras, muitos senhores de engenho deixaram de cultivar cana, total ou parcialmente, usando as terras no plantio de gêneros que pudessem ser vendidos aos "mineiros" a peso de ouro (literalmente), já que os suprimentos precisavam ser transportados de lugares distantes e quase nada se cultivava junto às povoações que, do dia para a noite, surgiam em lugares de ricas jazidas. Pouca gente era sensata o suficiente para plantar alguma coisa quando o ouro era arrancado da terra com aparente facilidade (²).
Isso, porém, não era tudo. Epidemias (varíola e febre amarela, principalmente) dizimavam a população colonial, tanto de livres como de escravos. Por consequência, havia redução na mão de obra disponível para a lavoura e para o trabalho nos engenhos. O impacto era severo sobre a produção açucareira. 
Percebendo a fragilidade da situação dos proprietários de engenho, desesperados que estavam para vender o açúcar que conseguiam produzir (³), mercadores e mestres de navios entravam em acordo, de modo a forçar uma redução nos preços usuais - é o que se depreende de uma carta escrita pelo padre Antônio Viera ao Conde de Castelo Melhor:
"Fecharam-se este ano os mercadores em não querer comprar, e os mestres de navios em não querer carregar, para levarem de graça o que se não pode cultivar sem tão custosos instrumentos, como os das fábricas dos engenhos; e havendo leis e forcas para os outros ladrões e homicidas, só para estes que roubam e matam um Estado tão benemérito não há castigo." (⁴)
A carta, escrita na Bahia, onde Vieira passou seus últimos anos, tinha a data de 8 de julho de 1692. Embora a produção de açúcar estivesse longe de desaparecer, havia chegado o tempo de uma completa alteração no foco da economia colonial, que acabaria, inclusive, por resultar na mudança da capital brasileira para o Rio de Janeiro. O Reino queria ouro e, finalmente, as terras portuguesas na América começavam a enviar o tão sonhado metal.

(1) Nem mesmo proibições seguidas de ameaças severas obstavam essa prática.
(2) As técnicas de extração aurífera empregadas no Brasil Colonial eram bastante primitivas. Muita terra rica em ouro se perdia, e apenas jazidas mais ou menos superficiais podiam ser exploradas.
(3) Os proprietários de engenhos, apontados como topo da pirâmide social nos tempos coloniais, estavam às vezes tão endividados que temiam perder tudo o que tinham, em particular após alguns anos de safras ruins, acompanhadas por perda de escravos em razão de alguma doença.
(4) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2
Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 442

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Missões Jesuíticas na América do Sul

O que eram as missões estabelecidas por jesuítas no Continente Americano? O padre Antonio Ruiz de Montoya, que trabalhou no Paraguai durante o Século XVII, explicou que, notando os missionários que os indígenas viviam dispersos em pequenas aldeias, trataram de conduzi-los "a povoações grandes e à vida política e humana e a beneficiar algodão para se vestirem, porque comumente viviam desnudos, ainda sem cobrir o que a natureza ocultou" (¹).
As missões organizadas no Brasil, geralmente não muito distantes do litoral, tinham uma estrutura bastante simples, de acordo com o que as circunstâncias permitiam. Sabemos, por relato do padre Simão de Vasconcelos, que havia dois tipos básicos de missões:
"Duas sortes há de missões: umas se fazem correndo as aldeias dos índios já batizados ou catecúmenos, reduzidos a elas e doutrinados aí pelos padres. Outras se fazem caminhando ao interior das brenhas cento, duzentas e mais léguas, trazendo delas bandos de bárbaros, para torná-los exércitos de Cristo." (²)
Na percepção dos missionários, a proximidade dos colonizadores era, porém, um problema muito sério. Motivo? O mau exemplo que davam aos catecúmenos, que logo aprendiam, por observação, que entre os cristãos professos podia haver uma enorme diferença entre dizer e fazer. Foi exatamente por isso que, no interior do Continente, em áreas que hoje pertencem, por exemplo, ao oeste dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e em outros países, como o Paraguai e a Argentina, os jesuítas resolveram fundar missões a uma razoável distância das vilas coloniais. Aí desenvolveram uma estrutura complexa de povoamento e catequese, que, no entender de alguns, tendia a ser, em algum momento no futuro, um verdadeiro império jesuíta na América (³).
Nesse cenário, cada missão era uma cidade em miniatura, muito limpa e organizada, sob o comando de jesuítas, mantendo, ao menos na aparência, algo da antiga ordem social indígena, na medida em que um cacique era também reconhecido como autoridade civil. Segundo explicação de Ayres de Casal, "cada uma das reduções, por outro nome missões, era uma considerável ou grande vila, e todas por um mesmo risco com ruas direitas e encruzadas em ângulos retos; as casas geralmente térreas, cobertas de telha, branqueadas, e com varandas pelos lados para preservarem do calor e da chuva, de sorte que vendo-se [sic] uma, se forma ideia verdadeira das outras. Em cada uma só havia a Igreja Matriz, todas geralmente de pedra, magníficas, elegantes, de naves, e ricamente ornadas, algumas inteiramente douradas. Um vigário e um cura, ambos jesuítas, eram os únicos eclesiásticos, e suficientes para exercer todas as funções paroquiais, sendo ainda os inspetores em toda a economia civil, debaixo de cuja direção havia corregedores eleitos anualmente, um cacique vitalício e outros oficiais, cada um com sua inspeção e alçada". (⁴) 
É óbvio que, aceitando viver nas missões, os indígenas tinham de pôr de lado a maior parte de suas antigas tradições. Passavam a usar um vestuário padronizado, tinham hora definida para todas as atividades e qualquer prática poligâmica era completamente banida. As crianças frequentavam a escola, havia aulas de música, pintura e escultura, os adultos aprendiam ofícios mecânicos e técnicas de agricultura, todos deviam comparecer à "doutrina" (catequese) e os faltosos eram punidos. A imposição desse estilo de vida aos indígenas tem recebido críticas, uma vez que, sob a estrita tutela dos padres, os indígenas perdiam a autonomia e já não podiam tomar as próprias decisões, até mesmo quanto a questões corriqueiras do quotidiano. Por outro lado, é inegável que os missionários tinham por seus catecúmenos um afeto imenso. Estavam dispostos a morrer por eles, se necessário. Quando paulistas apareceram em sua área (⁵), devastando missões para escravizar indígenas, houve padres que se dispuseram a acompanhar os infelizes prisioneiros até São Paulo, a fim de protestar junto às autoridades sobre a injustiça que se cometia. Desnecessário é dizer que não foram atendidos.

(1) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus
Madrid: Imprenta del Reyno, 1639
O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta
Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 162
(3) Quando os jesuítas foram expulsos em 1768, uma das acusações frequentes que lhes faziam era de que estariam arquitetando um plano vastíssimo de estabelecimento de uma espécie de "império teocrático" no coração do Continente Americano. Tal acusação jamais foi efetivamente comprovada.
(4) AYRES DE CASAL, Manuel Corografia Brasílica,  vol. 1
Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, pp. 159 e 160
(5) Essa primeira aparição de uma bandeira de apresamento em território das missões do Guayrá aconteceu em 1628.

terça-feira, 13 de junho de 2017

A Descoberta de Jazidas Auríferas Não Enriqueceu os Bandeirantes Paulistas

Casa do ciclo bandeirante em Santana de Parnaíba (SP), localidade em que nasceu
Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera

Pode parecer absurdo, mas é fato: bandeirantes paulistas, como regra geral, não enriqueceram com a descoberta de jazidas auríferas, e tampouco deixaram herança considerável para seus descendentes. Escrevendo em fins do Século XVIII (portanto, mais ou menos cem anos após os primeiros achados significativos), o astrônomo Francisco José de Lacerda e Almeida observou que os bandeirantes, “entranhando-se por aqueles imensos sertões sem outra bagagem mais que a pólvora e a bala, sem outro rumo mais que o do acaso, [descobriram] neles todas as minas de ouro e pedrarias que possuímos, e que tanto têm enriquecido aos seus posteriores, ficando eles e seus descendentes pobres". (¹)
Os paulistas descobridores de minas não recebiam qualquer ajuda da Coroa para seus empreendimentos; ao contrário, muitos deles consumiam o patrimônio em tentativas de atender às solicitações reais, cuja Real Fazenda se achava sempre em má situação. Pedro Taques de Almeida Paes Leme, em sua Nobiliarchia Paulistana, assinalou que "Fernão Dias Paes não teve um só real de ajuda de custo, como do mesmo modo não tiveram os mais paulistas descobridores das Minas Gerais, do Cuiabá e dos Goiases (...)." Esse fato, aliado às magras recompensas que recebiam pelos serviços prestados (²), explica, em parte, a razão pela qual os descobridores de ouro e pedras preciosas não se tornaram economicamente poderosos. Alguns chegaram a ter prejuízo considerável.
É possível, leitores, que o maior ícone bandeirante na procura do ouro seja Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, descobridor das minas de Goiás na primeira metade do Século XVIII. Pois bem, o brigadeiro Cunha Matos, que esteve em Goiás pouco depois da Independência (³), teve ocasião de encontrar descendentes do famoso explorador - um rapaz de quatorze anos e duas moças, uma com dezenove e outra com vinte e cinco anos - vivendo, os três, em uma modesta casinha nas proximidades do rio Corumbá. Sobre as moças, observou:
"Apareceram-me pobre mas decentemente vestidas, e ainda que mui acanhadas, inculcam nobreza de alma, sobretudo na resignação com que suportam a quase indigência em que se acham. Assim vivem os descendentes do ramo principal dos Anhangueras! (...) Assim vivem, faltas de todas as comodidades, as bisnetas do célebre Bartolomeu Bueno, conquistador e povoador de Goiás, que regurgitando em ouro, morreu em miséria, e cuja consorte foi obrigada a vender todas as suas joias e escravos para pagar vinte mil cruzados, que se lhe adiantaram pelo Cofre da Fazenda Real! Sic transit gloria mundi!" (⁴)
E quanto ao menino:
"O irmão é um galante moço sem educação: na sua quase miséria comporta-se como um plebeu honesto, sem, todavia, se esquecer de que é fidalgo, e príncipe dos fidalgos de Goiás." (⁵)
A riqueza do ouro fora passageira, tanto para indivíduos como para as localidades nascidas com a mineração. Aos leitores que se condoeram diante da pobreza da família Bueno, informo que, para remediar a situação, o presidente da Província de Goiás tornou-os administradores da passagem do rio Corumbá; por iniciativa do Brigadeiro Cunha Matos, o jovem Bueno foi admitido como tenente de Caçadores, posto que lhe assegurou um soldo.

(1) ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e Demarcação dos Domínios da América Portuguesa
São Paulo: Typographia de Costa Silveira, 1841, p. 87
(2) Quando chegava a haver alguma recompensa.
(3) Cerca de um século após os descobrimentos do Anhanguera.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás, Tomo I
Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 114
(5) Ib., p. 115

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A Navegação em Águas do Império Romano no Século I

A fonte de informação - Plínio, o Velho - é confiável. Afinal, além de ser um dos grandes nomes da ciência na Antiguidade, ele chegou a ocupar um cargo importante no comando da marinha de Roma, de modo que não vem a ser nenhuma surpresa que, no Livro II de sua Naturalis Historia, tenha dedicado atenção às questões náuticas. Assim é que somos informados de alguns aspectos interessantes que regiam a navegação no Século I d.C., particularmente para as embarcações que percorriam águas do Mediterrâneo e adjacências.
Muitos navios comuns no mundo romano desse tempo eram mistos, ou seja, eram impelidos pela força do vento (tinham velas) e de músculos humanos, tanto de escravos como de condenados por algum crime. Empunhando longos remos, esses homens eram obrigados, em diversas manobras, a mover embarcações, quer mercantes, quer de guerra. 
O vento, todavia, era preponderante. De acordo com Plínio, a temporada anual de navegação começava na data a que hoje chamamos 8 de fevereiro. Era a ocasião em que os ventos furiosos de inverno serenavam e o mar parecia mais calmo. Comércio e viagens eram possíveis e, nessas condições, com menor perigo. Assim seguia o ano, até que a chegada de uma nova estação fria obrigava quem tinha juízo a permanecer em terra. Lemos em Naturalis Historia:
Calendário romano para os meses de novembro e dezembro (³)
"Cerca de quarenta e quatro dias depois do equinócio de outono o ocaso das Plêiades assinala o começo do inverno, que usualmente sucede nos idos de novembro (¹), quando sopra o vento hibernal chamado Aquilão." (²) 
Entretanto, ainda de acordo com Plínio, havia, no inverno, uns poucos dias de navegação favorável, "seis dias antes e seis dias depois do dia mais curto do ano", ou seja, do solstício de inverno. Para viagens breves, eram uma possibilidade, e também um risco. O mar podia sofrer mudanças bruscas, a viagem talvez não ocorresse tão depressa quanto se supunha possível. Era realmente perigoso. Somente piratas - sempre eles! - e que se arriscavam em meio às ondas de inverno, esperando pilhagem maior, desde que sobrevivessem.
Marinheiros desse tempo eram homens supersticiosos. Em qualquer estação do ano, o mar tinha (e tem) seus perigos, daí porque, dentre todas as divindades do panteão romano, Castor e Pólux, os deuses-estrelas da Constelação de Gêmeos, eram, segundo informação de Plínio, invocados como protetores dos marinheiros: "O povo faz preces a eles, como deuses que socorrem no mar." (²)
É certo que Plínio, com justificado ceticismo, não parecia demonstrar muita fé na intervenção de tão ilustres personagens. Não censurava, porém, a devoção popular. Que mal haveria nessa crença ingênua (talvez pensasse), se ela ajudava a marinhagem a levar de vencida o receio que a fúria das ondas encorajava?

Pequena embarcação romana (⁴)
(1) Nota-se que o começo das estações estava, na mentalidade romana, associado às condições climáticas, não sendo visto como um evento astronômico com data fixa, não importando o frio ou calor em dias predeterminados.
(2) Os trechos citados de Naturalis Historia são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(3) MALLET, Allain Manesson Beschreibung des gantzen Welt-Kreises
Frankfurt am Main:  J. A. Jung, 1719, p. 59
(4) HOLMES, George C. V. Ancient and Modern Ships Parte I
London: Eyre and Spottiswoode, 1910, 49

terça-feira, 6 de junho de 2017

Uma Comparação Entre Europeus e Indígenas, de Acordo com Jean de Léry

"Nasceram mais livres que nós, senhores absolutos das terras em que Deus os pôs..."
Padre Antônio Vieira, em carta de 5 de agosto de 1684

Quando fazemos alguma viagem, procuramos ter, com antecedência, o máximo de informações sobre o local de destino. Consultamos sites, olhamos fotos e vídeos, recorremos a mapas, se necessário. E, é bom que se diga, tudo isso hoje é muito fácil, em quase qualquer lugar do mundo. Mas nem sempre foi assim.
No Século XVI, quando um europeu resolvia correr o risco de uma viagem marítima para fora de seu Continente, dificilmente sabia o que é que haveria de encontrar. Os mapas eram imprecisos e mesmo navegadores experientes tinham problemas em determinar com exatidão o lugar em que se encontravam. Tudo o que havia ao redor era a água do mar e, muito longe, o céu estrelado. Ah, naturalmente quando as estrelas, incluindo o sol, eram visíveis. Caso contrário, os problemas eram muito maiores.
Jean de Léry era ainda bastante jovem quando atravessou o Atlântico e, mergulhado em ideais religiosos, veio viver por quase um ano na França Antártica, uma colônia que calvinistas franceses tentaram em vão estabelecer na América do Sul, em área do atual Estado do Rio de Janeiro. Como os franceses tinham um bom relacionamento com os índios tupinambás, Léry pôde observar tranquilamente como é que esses nativos viviam. E as comparações vieram, inevitáveis. Foram, mais tarde, expostas em um livro, Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil
Notou, logo de início, que os indígenas não eram nem mais altos e nem mais pesados que os europeus; não obstante, eram muito mais fortes. Por quê? Léry responsabilizou o clima do Brasil, que não tinha extremos de frio e calor, e o ar que, segundo ele, era puríssimo (¹). A diferença era tanta que um europeu jamais seria capaz de usar um arco indígena, e isso valia até mesmo para os ingleses, que eram considerados os melhores arqueiros da época - percebam, leitores, que era um francês quem estava dizendo... Europeus somente estavam em condições de usar arcos indígenas feitos para meninos de uns dez anos de idade, não mais. Espantosa, também, era a velocidade com que um tupinambá atirava. No tempo necessário para que um inglês disparasse meia dúzia de flechas, um índio faria o dobro. 
Mas não era só. Andando por aldeias indígenas, Jean de Léry percebeu que o modo como as mães cuidavam de seus bebês era, por assim dizer, o oposto do que de se praticava na Europa. Crianças europeias viviam, no verão e no inverno, enfaixadas e cobertas por montes de agasalhos, e, mesmo admitindo as especificidades relativas ao clima frio, não podia o francês deixar de admirar que os bebês indígenas vivessem livres. Embora não usassem fraldas, nunca estavam sujos. Sim, aprendiam a gostar de banhos desde pequenos.
Prevendo que seus leitores não tardariam a argumentar que, mesmo levando vantagem nesses aspectos, os indígenas viviam em plena selvageria, Léry, longe de fugir da questão, tratou de expor o assunto. Não havia como negar que as guerras entre nativos eram sangrentas, que a antropofagia não era nenhuma raridade, que as inimizades entre tribos eram quase perpétuas. Um horror! Que diria Léry?
O jovem artesão francês, depois de deixar o Brasil em 1558, retornou à Europa, participou de guerras por causa de questões religiosas e, mais tarde, indo a Genebra, estudou teologia e veio a ser um pastor protestante. Só aí é que escreveu seu livro, e tinha, então, uma resposta na ponta da língua para as invectivas quanto à selvageria dos indígenas. Não estariam os europeus de seu tempo em pé de igualdade nesse assunto? Não eram os pobres, mesmo quando padeciam de fome, explorados pelos ricos? Não havia tantos que, mesmo orgulhosos de se chamarem cristãos, se engalfinhavam em guerras monstruosas, tendo a defesa da religião por pretexto? Que dizer do Massacre de São Bartolomeu? 
O recado de Léry era simples: Se alguém queria ver selvageria, não era preciso sair da Europa. E concluía dizendo que, não fora o que chamava de "traição de Villegaignon", o Brasil teria sido seu lar para sempre.

Indígenas treinando para o combate (²)

(1) Bons tempos, aqueles...
(2) ___________ Bilder - Atlas Siebenter Band
Leipzig: F. A. Brockhaus

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Os Corvos de Odin e as Araras dos Araés

Odin, o deus nórdico, queria estar sempre atualizado. Para isso contava com a ajuda de dois corvos, que, sentados, um em seu ombro direito e outro em seu ombro esquerdo, traziam continuamente um relatório do que viam enquanto voejavam mundo afora (¹).
Se saísse da mitologia nórdica e viesse para a América do Sul, é possível que, em lugar dos dois corvos, Odin arranjasse dois papagaios. Seriam, com toda probabilidade, mais falantes, e talvez até tivessem mais para contar...
Dois papagaios - ou seriam duas araras?
Ao que parece, havia uma crença entre indígenas do Brasil Central, de que a aproximação dos que não eram indígenas era notificada por araras, de acordo com o que escreveu José Vieira Couto de Magalhães:
"Diversos bandos de araras passaram por cima de nossas cabeças; referiram-me que os índios dos Araés têm uma crença por virtude da qual pensam que, quando suas aldeias têm de ser visitadas pela nossa gente, as araras os advertem disso, esvoaçando e gritando por cima de suas moradas." (²)
Araras ou corvos novidadeiros faziam sentido na imaginação de quem vivia em tempos nos quais as comunicações eram lentas. Por isso, não deixa de ser intrigante que ainda exista quem venha dizer: Um passarinho me contou que...

(1) A conclusão óbvia é que, para a mentalidade nórdica, Odin, o maior dos deuses, não era, por si mesmo, onisciente.
(2) MAGALHÃES, José Vieira Couto de Viagem ao Rio Araguaia
Goiás: Tipografia Provincial, 1864, p. 153

terça-feira, 30 de maio de 2017

Incêndios Durante a Estiagem

Incêndio no cerrado

Vejam, leitores, estes versos de A Confederação dos Tamoios:

"Era o tempo em que o sol abrasa tudo,
Em que as secas florestas se incendeiam,
E se extinguem as águas das torrentes."

De saída, cabe um reparo: a obra citada de Gonçalves de Magalhães (da chamada Primeira Geração Romântica) supõe descrever a natureza do Brasil no território em que viviam os tamoios. Pois digo que a descrição está errada. Os tamoios viviam principalmente em terras dos atuais Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, áreas cuja vegetação nativa é a Mata Atlântica. Não tem cabimento, portanto, a descrição contida nos versos. Ela se aplicaria, com toda correção, ao que sucede no cerrado durante a estiagem. Na Mata Atlântica, mesmo na estação em que as chuvas são menos frequentes, a vegetação jamais perde o verde, embora a ocorrência de incêndios seja sempre uma possibilidade. Sabe-se, porém, que os tamoios, assim como outros povos indígenas, costumavam atear fogo, intencionalmente, a qualquer área na qual pretendessem fazer algum tipo de cultivo, um costume explicável por não disporem de ferramentas adequadas à derrubada de árvores.
Bombeiros apagando incêndio em uma área
de cerrado em Brasília (ao fundo, a Esplanada
dos Ministérios)
Já no caso do cerrado, incêndios ocasionais são até benéficos e garantem a sobrevivência do bioma - há sementes que só germinam depois do fogo. Basta um raio, e as chamas proliferam. A questão é que, com a presença crescente de bípedes humanoides sem nenhum respeito pelo ambiente, o inferno, que era eventual, tornou-se corriqueiro. Gente descuidada e descumpridora das leis atira pontas de cigarro à beira das estradas (¹), e, não mais que alguns minutos mais tarde, o incêndio se alastra, por estar a vegetação brutalmente ressequida em razão da estiagem prolongada. Com o crescimento dos núcleos urbanos, o problema é gravíssimo, já que as chamas, por vezes, chegam muito perto das cidades. Exageradamente perto.
No Século XIX, quando a Expedição Langsdorff percorria parte do Brasil Central, Hércules Florence notou que as queimadas em áreas de cerrado eram usadas deliberadamente, na suposição de que facilitariam a prática da agricultura e/ou favoreceriam o desenvolvimento das pastagens. O desenhista francês conjecturou, com acerto, que cedo ou tarde a natureza acabaria por cobrar o preço dos repetidos incêndios:
"De pronto não nos era fácil adivinhar a razão por que todos os troncos e ramos das tortuosas árvores desses cerrados negrejavam como azeviche e o capim resplendia de verde tão uniforme. É que o fogo por ali passara e que tudo ressurgia simultaneamente; devendo esse hábito do caipira, que sem trabalho quer todos os anos renovar as pastagens para seu gado, produzir a esterilidade dessas belas regiões, caso não repare cultura mais inteligente tantos e tão seguidos estragos." (²)
É fácil constatar que, na primeira metade do Século XIX, os danos ambientais provocados pelas queimadas recorrentes não eram ainda compreendidos, em particular entre a população que vivia, no interior do Brasil, à margem de qualquer progresso científico. Muito estranho, porém, é que em nosso tempo, quando somos quase soterrados por informação (em quantidade e qualidade), ainda haja quem pense ser aceitável atear fogo à vegetação, da maneira mais inconsequente, seja lá pelo motivo que for.

O cerrado renasce após um incêndio - fotografia infravermelha
(1) Pior que isso: o incêndio é, às vezes, deliberado.
(2) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 160

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Leis Sobre Escravidão no Código de Hamurabi

Ser escravo nunca foi fácil, mesmo quando movimentos abolicionistas passaram a questionar a legitimidade da apropriação do trabalho de um ser humano por outro, lutando para, em definitivo, extirpar tamanha injustiça. Imaginem, então, leitores, qual seria a condição dos cativos quando a escravidão era vista como a coisa mais "natural" deste mundo!...
Voltemos no tempo. No Século XVIII a.C. um rei da Babilônia, chamado Hamurabi, colocou em vigor um Código que, entre muitos outros assuntos, tratava de disciplinar (¹)  a escravidão. Como em quase tudo o mais que existia no Código, as penalidades que envolviam cativos eram terríveis. O exemplo seguinte comprovará o quanto isso é verdade:
"Se um escravo disser a seu senhor: Você não é meu senhor! Se ele for culpado, seu senhor lhe cortará uma orelha."
Que tal, leitores? Sem mais delongas, tratemos de considerar quatro aspectos das leis de Hamurabi relacionadas à escravidão.

I. Punição para quem acolhia um escravo fugitivo

"Se alguém receber em sua casa um escravo fugitivo, quer seja propriedade da corte real ou de um homem livre, e não o apresentar para restituição quando for feito o aviso de fuga, o dono da casa será condenado à morte."
Notem, leitores, que havia pelo menos duas questões envolvidas. A primeira delas é que alguém podia ficar com um escravo fugitivo em casa para mantê-lo na condição de cativo, e isso caracterizaria furto de algo que era propriedade de outra pessoa; a outra questão possível é que era crime facilitar a fuga de escravos, porque atentava contra a ordem social vigente. Será útil acrescentar que, caso alguém capturasse um escravo fugitivo, ao devolvê-lo devia ser recompensado com certa quantidade de prata - nesse tempo ainda não havia dinheiro amoedado.

II. Punição para quem feria um escravo

No Código de Hamurabi imperava a chamada "lei de talião", ou seja, o ofensor devia, tanto quanto possível, ser punido exatamente com a mesma ofensa que praticara. Tal princípio, porém, não era válido quando envolvia um escravo, que, como mercadoria, era avaliado apenas por seu preço. Esse ponto pode ser satisfatoriamente entendido se considerarmos o que acontecia quando dois homens livres brigavam e, com um golpe, um deles feria o outro no olho, deixando-o cego. Neste caso, o agressor era condenado a também perder a visão (o método usual para isso era arrancar um olho), valendo a mesma regra em caso de outras lesões. Todavia, se a pessoa agredida era um escravo, a lei prescrevia coisa diferente:
"Se um homem livre golpear um escravo, de modo que fique cego, ou quebrar um osso de um escravo, deverá pagar [ao senhor] a metade do valor do escravo."
A interpretação óbvia é que a lesão diminuía a capacidade de trabalho do escravo e, portanto, era o senhor que deveria ser indenizado.

III. O que acontecia aos filhos de um homem livre com uma mulher escrava

A esta altura, os leitores talvez imaginem que, no Código de Hamurabi, todas as leis eram brutais. Mas não era assim, se a comparação acontecer em relação a outros códigos da Idade Antiga. Sim, havia traços de humanidade... Era o que ocorria quando um homem de condição livre tinha filhos com uma escrava que lhe pertencia. Eles somente teriam direito aos bens deixados pelo pai se, ainda em vida do senhor, fossem reconhecidos como seus filhos; porém, ainda que isso não acontecesse, por ocasião da morte do pai, tanto a escrava como os filhos seriam, de imediato, postos em liberdade (²).

IV. Situação de pessoas nascidas livres que eram temporariamente vendidas como escravas em consequência de dívidas

O Código de Hamurabi estipulava:
"Se um homem não conseguir pagar suas dívidas e precisar vender-se a si mesmo, ou sua mulher, filho ou filha para trabalhos forçados, então trabalharão durante três anos na casa daquele para quem forem vendidos, e no quarto ano serão postos em liberdade."
Embora essa lei pareça abominável em nosso tempo, era bastante suave, se comparada ao que estipulavam outros códigos da Antiguidade. Levava em conta que as pessoas escravizadas por dívidas haviam nascido livres e, portanto, não admitia que servissem perpetuamente. 

(1) Se é que cabe aqui tal palavra.
(2) Comparem, leitores, com o que ocorria, no Brasil, em relação aos filhos de um senhor com sua escrava.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Caça aos Ratos

Ratos são nojentos e propagam doenças. É verdade que, como todos os seres vivos, têm seu lugar no ambiente, mas vivem extrapolando os limites razoáveis, com um crescimento populacional indescritível. Bem, se não fossem assim, não seriam ratos.
Quem vinha viver no Brasil Colonial, fosse por vontade própria ou não (¹), logo percebia que ratos eram mesmo um problema. Nos canaviais, por exemplo, deram muita dor de cabeça, e não só nos primeiros tempos do cultivo de cana-de-açúcar (²). Disso sabemos pelo que escreveu frei José Mariano da Conceição Veloso, em O Fazendeiro do Brasil:
"Requerem as canas serem mondadas cuidadosamente, tanto que vier crescendo a erva bravia. Fica-se livre deste trabalho quando elas, pelo seu crescimento, podem sufocar a erva que lhes nascer junto. Deve-se afastar toda a espécie de gado dos canaviais, e perseguir os ratos, que são mui gulosos delas." (³)
Holandeses que tentaram ocupar a Ilha de Fernando de Noronha no Século XVII tiveram que desistir do projeto. Adivinham o motivo, leitores? Sim, ratos, de acordo com o que informou J. Nieuhof (⁴), que esteve no "Brasil holandês" entre 1640 e 1649. E há também o famoso caso do primeiro casal de gatos que foi vendido em Cuiabá no ano de 1725 por nada menos que uma libra de ouro. Os bichanos ainda não existiam por lá quando uma praga de ratos nas plantações de milho e feijão levou a fome a essa rica área de mineração. Entende-se, portanto, a brutal inflação felina.
Que fazer quando os ratos eram uma calamidade? 
Pelo que lemos em alguns autores dos tempos coloniais, não era incomum o recurso às práticas indígenas para dar jeito nas infestações de murídeos. Gabriel Soares referiu, no Século XVI, que havia índios que usavam venenosos baiacus assados para exterminar ratos, mas não explicou como, exatamente, isso acontecia:
"Baiacu é um peixe que quer dizer sapo (...); com os quais peixes assados os índios matam os ratos (...)." (⁵)
Outro que relatou, com certo humor, um método indígena de combate aos ratos, foi o capuchinho francês Yves d'Évreux, que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614:
"Há outra caçada de um verme [sic], tão divertida e agradável (...), é a dos ratos domésticos e selvagens.
[Os indígenas] não comem os domésticos, ao menos que eu saiba, porém caçam-nos cruelmente, porque se entra um rato em qualquer casa, reúnem-se todos os habitantes, uns com arcos e outros com flechas e paus, e com auxílio também de alguns cães (⁶) não escapa o pobre rato." (⁷)
D'Évreux teve o cuidado de especificar, ainda, o que se fazia com o rato morto:
"Depois de morto é espetado na ponta de uma vara fincada no meio da aldeia, para servir de alvo ao exercício das flechas dos meninos." (⁸) 

Rato, de acordo com uma publicação do Século XVI (⁹)
Mudanças políticas não acabam com ratos (óbvio, ou nem tanto). Após a independência continuava a haver ratos em quantidade no Brasil, e nem mesmo a capital do Império escapava ao domínio dessas repugnantes criaturinhas. Schlichthorst, um militar alemão contratado para o Segundo Batalhão de Granadeiros, relatou que frequentava, às vezes, algum modesto restaurante francês (sempre que seu magro salário, que vivia atrasado, permitia), indo, depois, para o lugar em que morava, onde roedores insistiam em fazer residência:
"Ali [num restaurante francês], tomo um copo de ponche, ouço muita asneira enfadonha e vou, afinal, para minha casa dormir esplendidamente, se os mosquitos e ratos deixarem, pois eles coabitam em toda choupana e em todo palácio da muito heroica cidade dos muito leais cariocas." (¹⁰)

(1) Havia, como se sabe, "colonizadores" forçados, ou seja, aqueles que, tendo cometido algum crime em Portugal, eram condenados a degredo no Brasil. Alguns ficaram tão felizes com a vida na América que nunca mais voltaram ao Reino.
(2) Uma planta que não era nativa do Brasil e que os ratos apreciaram muito.
(3) VELOSO, Frei José Mariano da Conceição O Fazendeiro do Brasil  Tomo I, Parte II
Lisboa: Oficina de Simão Tadeu Ferreira, 1799, p. 89
(4) A primeira edição dos escritos de Nieuhof foi publicada na Holanda em 1682.
(5) SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, pp. 291 e 292
(6) Tanto poder de fogo para um animal tão pequeno?!
(7) D'ÉVREUX, Yves Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614
Maranhão: Typ. do Frias, 1874, pp. 153 e 154
(8) Ib., p. 154
(9) GESNER, Conrad Icones Animalium Quadrupedum Viviparorum et Oviparorum
Zürich: Christof Froshover, 1560, p. 114
(10) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1824 - 1826)
Brasília: Senado Federal: 2000, p. 88

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Inimigos Derrotados Pelos Romanos Preferiam a Morte ao Aprisionamento

Os romanos amavam os triunfos, grandes desfiles militares em que eram homenageados os comandantes vitoriosos e seus soldados. Os inimigos vencidos não tinham, de modo algum, o mesmo apreço por essas ostensivas demonstrações de força. Nada de bom esperava os derrotados: presos por correntes, eram obrigados a acompanhar o carro triunfal. Às vezes eram brutalmente arrastados.
Diante dessa perspectiva terrível, não eram poucos os que, na iminência da derrota, preferiam o suicídio. Uns poucos exemplos, mencionados por Aneu Floro (*) em Epitome rerum Romanarum serão útil esclarecimento:
  • No último cerco a Cartago, ao final das Guerras Púnicas (**), foram os próprios moradores que atearam fogo à sua capital, de modo que os romanos nada tivessem para levar ao triunfo - muitos cartagineses se lançaram às chamas, que, segundo Floro, arderam incessantemente por dezessete dias.
  • Palavras de Floro, relativamente à guerra na Espanha: "Não restou, da Numância, um único para ser acorrentado, não sobrou botim de guerra e as próprias armas foram queimadas. O triunfo só se fez de nome." (***)
  • Quando Roma fez guerra contra a ilha de Creta, a pretexto de que seus habitantes teriam favorecido Mitridates, rei do Ponto e inimigo de Roma (****), muitos cretenses ingeriram veneno, já que não queriam cair nas mãos dos romanos.
  • Um caso menos numeroso e mais famoso: Marco Antônio e Cleópatra cometeram suicídio para evitar que, aprisionados, fossem submetidos à terrível humilhação que os aguardava no triunfo de Otávio, o mesmo que mais tarde seria chamado César Augusto (*****).
Apenas para que os leitores tenham uma ideia do que acontecia a quem era capturado vivo, basta citar o caso de um bárbaro, também mencionado por Floro:
"Teutobocus não encontrou um cavalo para fugir e, aprisionado, foi arrastado no triunfo, proporcionando um espetáculo notável, porque sua altura ultrapassava a de todos os troféus de guerra." (***)
Ao final do triunfo, como é do conhecimento dos leitores, os derrotados eram executados ou escravizados. Há, no entanto, registro de alguns casos especiais em que vencidos foram libertados.

(*) Aneu Floro viveu entre os Séculos I e II d.C. e foi contemporâneo do imperador Adriano.
(**) 264 - 146 a.C.
(***) Os trechos citados de Epitome rerum Romanarum são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(****) O próprio Aneu Floro dizia que a acusação era inverídica.
(*****) Aquele que é reconhecido como o primeiro imperador de Roma.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Brinquedos que já Fizeram a Alegria da Criançada

Vejam isto, leitores, e digam se concordam ou não com José de Alencar:
"Nunca reparaste numa coisa. O menino a quem se dá um brinquedo, começa por mordê-lo e espedaçá-lo; se o brinquedo resiste, joga-o fora; se quebra-se, então o amima e afaga." (*)
Bem, dirão alguns de vocês, isso era no Século XIX!... Sim, de acordo, mas quem é que nunca viu um pequeno triste por um brinquedo quebrado, ao qual, até então, não dera grande importância?
Mas falemos de brinquedos - não dos que se vendem, agora, em qualquer loja especializada, mas daqueles que eram comercializados há mais ou menos um século. Vem, a seguir, uma pequena coleção deles, em imagens que, algum dia, foram publicadas em revistas, com a intenção de atrair as boas graças dos pais. Eles, como sempre, é que pagavam a conta.

1. Tricicleta com cavalinho e carrinho sport (**)



2. Triciclo (***)


3. Trenzinho a corda (****)


4. Bonecas de porcelana (*****)


5. Carrinho de corridas para crianças (******)


Não podemos deixar de notar que todos esses brinquedos, agora centenários, mas que já foram novidade, têm legítimos sucessores. Há alguns brinquedos, no entanto, que, mesmo sendo muito simples, têm atravessado os séculos. Séculos? Melhor dizer milênios. Aqui e ali, ainda podemos ver crianças brincando com bonecas de pano, com piões, com bolinhas de gude. Isso me dá a ideia de lançar um desafio aos leitores: qual seria o segredo da longevidade desses brinquedinhos que se recusam a desaparecer?


(*) A Expiação (comédia)
(**) O ECHO, Ano VIII, nº 75 - São Paulo, maio de 1908.
(***) A CHRONICA, Ano I, nº 2, p. 39 - São Paulo, fevereiro de 1908.
(****) PARA TODOS, Ano XII, nº 615 - Rio de Janeiro, 27 de setembro de 1930.
(*****) O ECHO, Ano XV, nº 2 - São Paulo, Agosto de 1916.
(******) O ECHO, Ano XV, nº 4 - São Paulo, outubro de 1916.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Escrever na Areia

Escrever, hoje, é algo comum e mesmo indispensável, ao menos no mundo ocidental. Na Antiguidade, porém, a escrita não era para todos. Egípcios e mesopotâmios tinham especialistas em escrita - os escribas -, donde se vê que, nesse tempo, a capacidade de escrever era, por si mesma, uma profissão. No caso da Grécia e de Roma Antigas, o desenvolvimento cultural conduziu à ideia de que o estudo, a começar pela escrita, era importante para a formação da elite política. A capacidade de escrever, tanto quanto a de falar em público, passou a ser vista como algo essencial ao exercício da cidadania. 
Os papiros e pergaminhos, suportes frequentes para escrita daquilo que se pretendia durável, eram caros, de modo que nem todo mundo tinha acesso a eles. Nas escolas do mundo romano era usual que as crianças escrevessem com pequenos bastões sobre tabuinhas cobertas de cera, que tinham a vantagem da reutilização. Entre os antigos gregos não era nenhuma raridade que pequenas anotações fossem feitas em pedaços de cerâmica.
E quanto àqueles rabiscos comuns do dia a dia, aqueles que ninguém acreditava merecessem a honra de ficar para a posteridade? 
Temos uma pista do que acontecia através de um episódio referido por Aurelius Augustinus (ou Santo Agostinho, se preferirem) em suas Confissões. Afirmava ele ter-se dedicado, quando jovem, ao estudo das Categorias de Aristóteles, obtendo delas uma compreensão excelente. O mesmo não acontecia com seus companheiros que, a despeito de muito esforço, não conseguiam meter na cabeça o pensamento do filósofo estagirita. Augustinus, disposto a ajudar os amigos, tecia comentários, dava explicações e (eis aqui o que mais nos interessa), fazia esboços na areia. Essa era uma prática comum entre povos antigos (*), embora hoje esteja restrita, em quase exclusividade, ao universo das brincadeiras infantis.
Mais de mil anos depois de Santo Agostinho, outro escritor traçaria palavras na areia, e olhem leitores, que também era em latim. O jovem missionário José de Anchieta, detido entre os tamoios, ocupou-se, no Século XVI, em escrever versos de seu poema dedicado à Virgem. Como naquele momento não dispunha de papel e queria memorizar o que ia compondo, traçava as palavras ao longo da praia de Iperoig (**). No tempo de Agostinho ou no de Anchieta, escrever na areia tinha um grave defeito: a transitoriedade. 

(*) Já imaginaram, leitores, quanta coisa interessante deve ter-se perdido por causa desse costume?
(**) Muito provavelmente localizada no litoral norte do atual Estado de São Paulo.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O Que se Devia Fazer Quando Não Havia Açúcar (e, Por Consequência, Faltava Dinheiro)

Conselho do Padre Antônio Vieira Para um Momento de Crise Econômica


A população da Cidade da Bahia (Salvador) era famosa, nos tempos coloniais, por amar a ostentação, tanto no vestuário quanto no luxo das casas. Isso era possível porque a produção e a exportação de açúcar eram bastante lucrativas, ainda que quem mais ganhasse com a indústria açucareira não estivesse em solo brasileiro.
Entretanto, na penúltima década do Século XVII, uma epidemia (*) que levou muita gente à morte (e, portanto, também muitos escravos), fez declinar temporariamente o cultivo da cana. Não havendo cana para moer, os engenhos não podiam produzir açúcar e, não havendo açúcar para exportar, nada de dinheiro - nem para as necessidades básicas, menos ainda para o supérfluo. Os sobreviventes estavam mesmo em má situação (**).
Que fazer?
O padre Vieira, que era tão hábil no emprego da pena de escrever quanto no uso da língua em seus afamados sermões, propôs uma solução, conforme se vê em uma carta datada de 13 de julho de 1689:
"Este ano deixarão de moer muitos engenhos, e no seguinte haverá muito poucos deles que se possam fornecer. Aconselham os mais prudentes que se vista algodão, se coma mandioca, e que na grande falta que há de armas (***), se torne aos arcos e flechas, com que brevemente tornaremos ao primitivo estado dos índios, e os portugueses seremos brasis (****)." (*****)
Que dizem os leitores: serviria a mesma ideia para outros momentos de crise econômica? 
Não deixemos de notar, porém, que as palavras do padre Vieira revelam uma espantosa dependência, por parte da população de origem europeia, de mercadorias que vinham do Reino, e que integravam, ainda, os hábitos quotidianos nas povoações coloniais.

(*) Descrições da época levam à conclusão de que se tratava de uma variedade de febre amarela, não originária do Brasil, já que os primeiros que manifestaram os sintomas da doença foram marinheiros que acabavam de chegar da costa da África.
(**) Principiava, também, a descoberta de ouro nas Gerais, um fato que contribuiria para agravar a escassez de mão de obra e o desinteresse pela produção açucareira.
(***) A preocupação com a falta de armas decorria dos frequentes ataques de corsários em vários pontos do litoral brasileiro.
(****) Era comum, na época, que os indígenas fossem chamados "brasis".
(*****) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2
Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 382

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Os Doze Trabalhos de Hércules - Um Herói Descontrolado e Sua Coroa de Salsa

Há salsa (*) na sua horta, leitor? Pois fique então sabendo que o grande Hércules (**) - é coisa da mitologia grega - usou, em certa ocasião, uma coroa de salsa. Em memória desse acontecimento obviamente lendário, os atletas que venciam nos jogos de Nemeia, bem como nos Jogos Ístmicos, recebiam, como prêmio, não uma coroa de louros, e sim uma de salsa. Isso é que é glória fugaz!...
E, por falar em Hércules, que tal relembrar o que a mitologia dos antigos gregos dizia sobre os doze trabalhos executados por esse herói descontrolado, que num acesso de fúria matou a mulher e os filhos? Sim, porque foi depois disso que, disposto a cumprir uma espécie de severa penitência, Hércules teve de realizar os tais trabalhos, tão célebres que, de boca em boca, já ninguém sabia ao certo quais eram, e até poderiam ser quatorze ou quinze. Arbitrariamente, vai aqui uma lista de doze dos mais recorrentes nos relatos antigos.

1. Primeiro trabalho (***) - Hércules mata o leão de Nemeia, famoso por atacar animais de pastoreio. Como a pele do leão era imune às setas de Hércules, só restou ao herói agarrar tão notável fera e matá-la com as próprias mãos. A propósito, Hércules era frequentemente representado com uma pele de animal sobre os ombros: a pele do leão de Nemeia.

2. Segundo trabalho - Hércules mata a hidra de Lerna. Mas que bicho era esse? Uma serpente de sete cabeças. Se uma cabeça era cortada, nasciam logo outras sete... Cortar cabeças da hidra resultaria, sem demora, em um curioso problema matemático. Portanto, Hércules resolveu a questão colocando fogo no lugar em que vivia a hidra. Morto o animal, teve a ideia de usar o sangue venenoso que dele escorria para preparar flechas com pontas que causavam feridas incuráveis.

3. Terceiro trabalho - Hércules captura, vivinho da silva, o javali de Erimanto, um animal tão perigoso quanto célebre pelos estragos que fazia. O caso é que Hércules precisou capturar o javali à unha, depois de uma correria insana.

4. Quarto trabalho - Do brutal para o meigo: Hércules captura, também viva, a corça de Cerineia, que tinha chifres de ouro e patinhas de bronze. Haja esforço! Hércules teve de andar à sua procura durante nada menos que um ano.

5. Quinto trabalho - Hércules mata os pássaros do lago Estínfalo. Não eram pássaros quaisquer: tinham dimensões gigantescas e seus bicos eram de ferro. Os cruéis voláteis matavam quem quer que ousasse se aproximar. Hércules, porém, fazendo uso de algumas das setas envenenadas com o sangue da hidra de Lerna, pôs fim à ameaça.

6. Sexto trabalho - Hércules captura e doma um touro feroz que aterrorizava a ilha de Creta (isso lembra outra história, não é?).

7. Sétimo trabalho - Hércules colhe maçãs de ouro no jardim das Hespérides (****). Que haveria de incomum nisso, a não ser o fato de que as maçãs eram de ouro? É que o tal jardim era guardado por uma criatura antipática, ou seja, um dragão de cem cabeças. Hércules, porém, não precisou matar o dragão, já que a ingrata tarefa coube ao gigante Atlas, a quem competia, com as costas e braços, sustentar o céu, para que não despencasse. Enquanto Atlas matava o dragão, Hércules ficou encarregado de segurar o céu. Depois, só fez o trabalho leve de entrar no jardim e colher as maçãs.

8. Oitavo trabalho - Hércules limpa os estábulos do rei Áugias. Parece fácil? Os estábulos não eram limpos há trinta anos, de modo que seu cheiro horrendo andava a tornar a vida insuportável em toda a Grécia. "Marmelada", dirão: Hércules, após desviar o curso de um rio, fazendo com que as águas, qual inundação, lavassem os estábulos, concluiu a tarefa em um só dia.

9. Nono trabalho - Hércules, depois de dominar as éguas de Diomedes, rei da Trácia, joga o próprio monarca para ser devorado por elas. É que as éguas, ao contrário dos animais de sua espécie, eram carnívoras e, habitualmente, alimentadas com a carne de quaisquer estrangeiros que chegavam ao reino de Diomedes. Problema resolvido!

10. Décimo trabalho - Depois de derrotar as famosas amazonas, Hércules rouba o cinto mágico de Hipólita, a rainha guerreira.

11. Undécimo trabalho - Hércules mata Gerion, singular figura dotada de três corpos, seis braços e, ainda por cima, seis asas. O assassinato tinha por objetivo capturar os bois que eram propriedade de Gerion. Detalhe: os bovinos eram guardados dia e noite por um cão feroz (que tinha duas cabeças), e por um dragão (de sete cabeças). Hércules deu jeito nos dois, é claro. Esse trabalho bem poderia ser classificado como morticínio em série, já que morreram Gerion, o cão e o dragão.

Hércules enfrentando Gerion, de acordo com uma ânfora grega (*****)
12. Duodécimo trabalho - Hércules vai ao mundo dos mortos para buscar Cérbero, o cão terrível que guardava a entrada dos domínios de Hades (******). Interessante é que, ciente de que Hércules apenas executava aquilo que o deus Destino previra para sua vida, Hades consentiu na captura de Cérbero, desde que seu animal de estimação não fosse morto e que o herói não usasse armas. Será preciso dizer que Hércules concluiu com sucesso mais essa façanha? Cérbero, depois de ser apresentado triunfalmente ao rei Euristeu (*******), foi devolvido a seu legítimo proprietário.

Não se enganem, leitores. O significado dos mitos ligados a Hércules (assim como acontece com todos os demais), vai muito além daquilo que está à superfície. Basta pensar um pouco.

(*) Petroselinum crispum. Para evitar que os leitores de língua espanhola tenham problemas em entender o texto, quero lembrar que "salsa", em português, é o mesmo que "perejil" em espanhol.
(**) Ou Héracles.
(***) Na Antiguidade, enquanto as lendas eram relatadas oralmente, parece que não havia uma ordem fixa para os trabalhos. Por isso, diferentes autores referem os trabalhos em ordens distintas. Aqui são apresentados segundo uma das sequências mais comuns. Os trabalhos, sempre doze, também variavam de um relato para outro.
(****) Filhas de Atlante - a mitologia vai longe...
(*****) BUSCHOR, Ernst Griechische Vasenmalerei
Mûnchen: R. Piper & Co., 1913, p. 111
(******) Divindade que, segundo a mitologia grega, dominava o submundo ou mundo dos mortos.
(*******) Segundo a mitologia, Euristeu era um pérfido meio-irmão de Hércules, encarregado de verificar o cumprimento das tarefas propostas ao herói.