quinta-feira, 19 de outubro de 2017

É Possível Guardar um Segredo?

A Fabulosa História das Orelhas de Midas


Midas, de infeliz memória, reinou na Frígia por volta do Século VIII a.C. - sim, estamos falando do desastrado rei que, segundo a lenda, adquiriu a duvidosa virtude de transformar em ouro tudo o que tocava. Entre o homem de verdade e o ser lendário vai, no entanto, uma grande diferença. É que, estranhamente, sabemos muito mais sobre o Midas mitológico do que sobre o sujeito "de carne e osso". Pesquisas arqueológicas comprovaram a existência desse rei - deixo a cargo de vocês, leitores, a diversão de tentar separar o mito da realidade. 
Os concursos de música eram comuns entre os antigos gregos, e os vencedores tinham elevada reputação, tanto quanto os que venciam em competições atléticas. Ora, em uma dessas ocasiões, Midas teria sido convidado a arbitrar um certame que tinha, entre os participantes, ninguém menos que Apolo. No julgar do rei, porém, a coroa coube a um humano, e não ao deus. Caso encerrado? Não!
Apolo, aparentando a virtude necessária a um bom competidor, não demonstrou, no momento, nenhuma insatisfação. A vingança, porém, veio com a máxima crueldade. Decorrido algum tempo, o funcionário encarregado de cortar os cabelos do rei começou a notar uma estranha transformação nas orelhas de seu amo, que não apenas estavam ganhando um tamanho descomunal, como também iam, aos poucos, adquirindo a semelhança de orelhas de burro. 
Que fazer? O real cabeleireiro não teve alternativa senão comunicar ao rei o que sucedia (como se fora possível que o próprio Midas não houvesse notado). A solução encontrada foi providenciar peruca e um tipo de chapéu para o rei, com a óbvia finalidade de ocultar algo que os súditos jamais deveriam ver. Isto feito, o cabeleireiro foi silenciado sob a ameaça do mais severo castigo.
Guardar segredos, como todo mundo sabe, não é tarefa fácil. O caso das orelhas do rei fazia cócegas no cérebro e na língua do cabeleireiro, quase levando esse distinto funcionário ao desespero. Então, um dia, já não suportando reter para si tão terrível segredo, procurou, em um bosque, um lugar que supunha completamente desabitado, e lá, cavando um buraco no chão, gritou, dentro dele: Midas tem orelhas de buuuuuuuuuuuuuuuurro!
Ufa, que alívio! Não parecia de modo algum uma inconfidência e, afinal, ninguém ouvira... Feliz da vida, o cabeleireiro voltou a seus afazeres. 
O tempo passou. Veio o inverno e, com ele, a neve. Veio a primavera e, com ela, a vegetação renasceu e brotaram as flores. O céu azul, as nuvens leves, o canto dos pássaros, tudo convidava a um passeio no bosque. Lá se foi nosso amigo cabeleireiro a desfrutar as horas de uma manhã junto à natureza. A brisa primaveril agitava docemente a vegetação - e eis aí o problema. Ao passar pelo lugar em que cavara o buraco no ano anterior, notou, aflito, que arbustos haviam crescido ao redor e, no compasso do vento, repetiam com meiguice: De buuurro, orelhas de buuuurro, Midas tem orelhas de buuuuuuuuuuuuuuuuuuuurro! Desnecessário é dizer que, em muito pouco tempo, todo o reino estava a par do lastimável segredo.
Não espero que vocês, leitores, suponham essa lenda uma realidade. Seria completa tolice. Mas os antigos gregos deixaram, nela, um ensinamento valioso: se tiverem um segredo e não quiserem de modo algum que venha a público, será melhor não contar a ninguém. Quando mais de uma pessoa sabe, já deixou de ser segredo. Esse foi o grande problema de Midas. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Quem Nunca Deveria Pôr os Pés no Brasil

Aventureiros sempre existiram, mas há que se reconhecer o fato de que era difícil arranjar bons colonizadores que viessem ao Brasil. Não estamos falando das hordas de condenados a degredo que, malgrado os protestos de administradores e missionários jesuítas, eram periodicamente despejados nas povoações litorâneas que começavam a nascer, já que esse tipo de gente não vinha porque queria, ainda que não poucos, depois de cumprida a pena, decidissem que era melhor ficar. A dificuldade estava em trazer trabalhadores qualificados, artesãos de vários ofícios ou que soubessem cultivar a terra. O medo do desconhecido e os boatos fantasmagóricos espalhados na Europa eram determinantes para intimidar eventuais interessados em tentar a vida no Continente há pouco "descoberto".
Propaganda de massa, no sentido que hoje conhecemos, não existia, mas alguns autores escreveram obras cujo propósito era convencer portugueses quanto à excelência da vida no Brasil. Pero de Magalhães Gândavo, por exemplo, afirmou, logo no início de seu Tratado da Terra do Brasil (¹):
"(...) Achei que não se podia de um fraco homem esperar maior serviço (ainda que tal não pareça) que lançar mão desta informação da terra do Brasil (coisa que até agora não empreendeu pessoa alguma) (²) para que nestes reinos se divulgue sua fertilidade e provoque as muitas pessoas pobres que se vão viver a esta província, que nisso consiste a felicidade e aumento dela." (³)
Ora, leitores, o livro de Gândavo só foi publicado muito tempo depois de sua morte. Ainda assim, dificilmente seria útil para convencer alguém a vir ao Brasil, porque o autor não economizou palavras em descrever ataques indígenas e cenas de antropofagia, sem falar nos animais, grandes e pequenos, mas quase sempre perigosos, que viviam à espreita dos incautos...
Quem resolvia correr o risco precisava de conselhos - é o que devia pensar o autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, um livro que fez muito sucesso no Século XVIII, recomendando a necessidade de adaptação ao modo de vida no Brasil: "É mais razão acomodar-se ao uso da terra, que pretender e querer trazer aos mais o costume de sua pátria." (⁴) Não parece sensato?
No começo do Século XVII franceses tentaram estabelecer uma colônia no Maranhão e, para a catequese dos indígenas, trouxeram alguns religiosos capuchinhos. Um deles, o padre Yves d'Évreux, escreveu um livrinho precioso, com uma chuva de informações (nem todas confiáveis, é verdade), que não aparecem nas obras de autores portugueses. Também ele procurou mostrar aos jovens de seu país que era interessante vir ao Brasil, principalmente para aqueles que, de nobres, não tinham muito mais que o título. Insistia que, com produtos da terra, não faltava alimento. Doenças? Sim, havia, como em qualquer outro lugar: 
"Se algumas pessoas se dão mal, não é novidade, pois em toda parte está a morte: assim são as moléstias.
Destes males não estão isentos reis e príncipes em países os mais agradáveis e salubres que se possa imaginar." (⁵)
Apesar disso, o bom padre d'Évreux reconhecia que havia um tipo de gente que jamais deveria pôr os pés no Brasil:
"Enganar-se-ia, porém, quem pensasse que as árvores produzissem patinhos assados, as corças, quartos de carneiro recentemente tirados do espeto, e o ar andorinhas bem cozidas, de forma que não havia mais trabalho do que abrir a boca e comer. Com tal fantasia não lhe aconselho que lá vá, porque arrepender-se-ia [sic]." (⁶)
Vejam, leitores, que d'Évreux tinha senso de humor. Cumpre apenas assinalar que, para os franceses, essa questão de vir ou não ao Brasil teve vida curta. Os portugueses logo retomaram o controle do Maranhão e o sonho de uma colônia francesa no Brasil se desmanchou.

(1) Escrito por volta de 1570.
(2) Não é verdade que ninguém ainda havia escrito sobre o Brasil. Anchieta, entre outros, já o fizera, ainda que seu objetivo não fosse o mesmo de Gândavo.
(3) GÂNDAVO, Pero de Magalhães Tratado da Terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil
Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, pp. 27 e 28
(4) PEREIRA, Nuno Marques Compêndio Narrativo do Peregrino da América
Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 6
(5) D'ÉVREUX, Yves Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614
Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 185
(6) Ibid., p. 185

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Uso de Selos ou Sinetes Por Assírios, Babilônios e Outros Povos

Impressão de um selo assírio (⁴)
Entre os habitantes da Mesopotâmia (¹) na Antiguidade era corrente o uso de selos, também chamados sinetes, como forma de identificação pessoal. No Código de Hamurabi, por exemplo, que data do Século XVIII a.C., exigia-se que um documento escrito, para ser válido, fosse acompanhado do selo daquele que o outorgava. 
Impressão de um
cilindro assírio (⁵)
Os selos ou sinetes eram, quase sempre, pequenos cilindros (²) em que eram gravados desenhos que representavam deuses (³), figuras mitológicas, animais ou ainda algum texto; ao ser usado, o cilindro era rolado sobre uma placa de argila ainda mole, deixando a marca característica de seu proprietário. Para efeitos práticos, essa marca equivalia ao uso que fazemos de uma assinatura. Portanto, é fácil presumir a importância social dos artesãos que entalhavam sinetes, assim como a vigilância que se exercia sobre seu trabalho, a fim de assegurar que nenhum selo tivesse um "irmão gêmeo" para propósitos escusos.
Impressão dos sinetes dos reis do Egito (à esquerda) e
da Assíria (à direita) (⁶)
Uma vez que os selos eram amplamente utilizados por quase todos, dos reis aos humildes súditos, fica fácil entender a variedade de materiais adotados para sua confecção. Metais resistentes e baratos eram comumente empregados, mas também havia selos de marfim e de pedras e metais preciosos. Esses objetos, alguns rústicos, feitos sem grande perícia e cuidado, e outros até muito delicados, comprovando a maestria do artesão, são estudados, hoje, porque oferecem uma gama nada desprezível de informações sobre a cultura, a vida social e mesmo sobre as capacidades técnicas em uma época na qual a escrita não era ainda universalizada e, portanto, a cada indivíduo, mesmo não sendo um escriba, era facultado, através do uso de um selo ou sinete, autenticar documentos que fossem a expressão fiel de sua vontade quando adquiria uma propriedade, fazia doação de algum bem ou executava qualquer outra transação comercial. E, se era assim para o povo comum, tanto mais acontecia quando se tratava de um selo real, destinado a validar documentos que manifestavam a vontade de monarcas que se julgavam representantes dos deuses!
Impressão de um cilindro babilônico (⁸)
Selos ou sinetes foram usados também por outros povos, além dos mesopotâmios, e por muitos séculos (⁷), sempre com efeitos equivalentes aos de uma assinatura. Em lugar da impressão sobre uma placa de argila úmida, podia-se colocar um pouco de cera quente sobre a superfície desejada e então se aplicava o sinete, que deixava sua marca peculiar.
Para evitar que o proprietário de um selo ou sinete perdesse tão precioso objeto, vindo daí, talvez, consequências bastante desagradáveis, os sinetes passaram a ser feitos em forma de anel ("anel de sinete"), assegurando que, literalmente, estivessem sempre à mão. Entendia-se que um sinete, por sua natureza, devia ser manipulado apenas pelo proprietário, e entregá-lo aos cuidados de outra pessoa era prova de irrestrita confiança.

(1) Sumérios, assírios, babilônios, etc.
(2) Também havia selos em outros formatos, parecidos com pequenos carimbos, por exemplo.
(3) Muito comum, no caso do proprietário do selo ser alguém que se considerava sob a proteção de uma determinada divindade.
(4) LAYARD, Austen Henry A Second Series of the Monuments of Nineveh
London: John Murray, 1853
(5) Ibid.
(6) LAYARD, Austen Henry Discoveries on the Ruins of Nineveh and Babylon
London: John Murray, 1853, p. 156
(7) Sob circunstâncias especiais, ainda são usados.
(8) PERROT, Georges e CHIPIEZ, Charles A History of Art in Chaldea & Assyria vol. II
London: Chapman and Hall, 1884, p. 264
Todas as imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Devotos da Pá Virada

A Religiosidade Estranha de Muitos Colonizadores do Brasil


Colonizadores do Brasil eram gente devota - ao menos na aparência, e segundo seus próprios critérios. Tinham uma religiosidade curiosa, toda própria, de provocar calafrios nos teólogos europeus que eram seus contemporâneos. Mas, em território colonial, o controle da Igreja estava, frequentemente, muito distante, de modo que cada um vivia como julgava conveniente. Sim, houve visitações do Santo Ofício, mas elas somente alcançaram povoações maiores, e em poucas ocasiões. Bem sabem os leitores que, contra João Ramalho e sua mais que numerosa descendência, de nada valiam as ameaças de recurso à Inquisição que lhes faziam os missionários jesuítas. Quem iria, falando sério, imaginar que inquisidores empreenderiam, no Século XVI, qualquer tentativa de vencer o literalmente escabroso Caminho do Mar para fazer uma aparição em São Paulo?
Catequizando indígenas, os jesuítas mantinham um olho nos turbulentos colonos. Este caso, que é um exemplo acabado do tipo de religiosidade que predominava em terras portuguesas na América, vem de um documento atribuído a José de Anchieta, e faz referência a um sujeito rico, que vivia em Santos:
"Por morte deixou parte de sua fazenda para nossa igreja, que ali então se edificava; parte à Misericórdia e a outra parte aos pobres. Houve, nesse homem, enquanto se não deu a Deus, soltura no vício da luxúria; mas por respeito de Nossa Senhora nunca quis pecar com mulher que tivesse o nome de Maria." (¹)
Casos mais cabeludos seriam vistos entre os paulistas que, indo ao sertão para aprisionar indígenas que pretendiam escravizar, ainda assim se imaginavam sob a proteção de Deus. Eram essas figuras que ocasionavam no jesuíta Antonio Ruiz de Montoya a maior revolta, porque, antes da partida rumo ao sertão, faziam devotamente todo um cerimonial religioso, como se estivessem envolvidos no mais sagrado dos empreendimentos:
"Quando saem a cativar homens livres, assim declarados pelos pontífices (com excomunhão prevista aos que lhes tiram a liberdade), a matar muitos deles, a capturar suas filhas e mulheres para seus torpes usos, a desterrar o Evangelho e o Santíssimo Sacramento de seus templos, se confessam e comungam como se fossem em romaria a Compostela." (²)
Acham que era só, leitores? Certamente não: quando atacavam as missões, matando, pilhando e escravizando, os integrantes das bandeiras de apresamento cuidavam em ter, consigo, ao menos um rosário, levando Montoya, em seu relato, a uma interessante conclusão:
"Determinaram-se os inimigos a queimar a igreja: confesso que os ouvi dizer que são cristãos, e mesmo nesta ocasião traziam rosários muito visíveis. Têm, sem dúvida, a fé de Deus, mas as obras são do diabo." (³)

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 470
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus
Madrid: Imprenta del Reyno, 1639
(3) Ibid.
Os trechos citados da obra de Montoya foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Como os Comandantes Romanos Marcavam o Tempo

Vivemos amarrados à marcação do tempo - cada vez mais precisa e, em certo sentido, escravizante. Mas nem sempre foi assim. Milésimos de segundo? Há alguns séculos isso não faria o menor sentido. Que dizer, então, de relógios que tinham um único ponteiro, o das horas? Voltando no passado, chegaremos aos dias em que os relógios já não tinham ponteiros: conforme a cultura, podiam ser de areia, de água, de sol... E não exatamente portáteis.
Assim é que, na Antiga Roma, uma das funções de um comandante militar de respeito era saber determinar as horas com exatidão, para que os movimentos das forças sob sua autoridade fossem corretos. Os métodos aplicáveis, de acordo com Políbio de Megalópolis (¹), um grego que viveu entre os romanos, eram estes:
"É possível saber as horas do dia através da sombra (²), do movimento do sol ou pelos marcos existentes nos caminhos (³). Quanto às horas da noite, não há a mesma simplicidade, embora ainda assim seja possível, quando se examina o céu para saber a localização e movimento das constelações do Zodíaco." (⁴)
Os céus da Antiguidade deviam ser esplendorosos - nada de poluição de qualquer tipo para impedir a observação das estrelas, e, se bem que, vez ou outra, uma tempestade de areia (em algumas regiões) e/ou a nuvem resultante de alguma erupção vulcânica pudessem empanar o brilho dos corpos celestes, em uma noite clara haveria muito mais estrelas visíveis do que hoje, quando as luzes urbanas fazem concorrência desleal. Em tempos de paz, era possível admirar o céu com um olhar sonhador. Na guerra, perscrutar o movimento das estrelas talvez ajudasse a vencer o inimigo.

(1) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(2) Como acontece em um típico relógio de sol.
(3) Presumindo-se o tempo geralmente gasto para que uma determinada distância fosse percorrida.
(4) O trecho citado da História de Políbio de Megalópolis foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Como Indígenas Tentavam Evitar a Aproximação de Onças



Há alguns anos, uma pessoa idosa contou-me que, quando criança, ouvia o miado de onças, à noite, ao ir para casa em companhia do pai, em uma fazenda nos arredores de Campinas - SP. Isso aconteceu, se a informação for verdadeira, lá pelos anos vinte ou começo dos trinta do século passado. De qualquer modo, não deve ser coisa impossível. Afinal, nos últimos meses têm-se multiplicado as notícias da aparição de onças em áreas habitadas, perto, mesmo, de grandes centros urbanos. Alega-se que isso anda a ocorrer como consequência da destruição do habitat tanto da onça-pintada (Panthera onca) como da onça-parda (Puma concolor). Com dificuldade para encontrar alimento, alguns espécimes se aventuram junto às cidades.
As onças já foram responsáveis por amedrontar viajantes que ousavam pôr o pé no interior ainda pouco explorado do Brasil. Eram consideradas mais perigosas à noite, em razão de, por seus hábitos de caça, preferirem as horas escuras para um ataque às presas potenciais. Na década de 60 do Século XIX, quando viajar pela Província de Goiás significava, muitas vezes, ter de acampar à noite, Couto de Magalhães assim descreveu a aproximação de onças:
"À noite as onças, das quais tínhamos visto alguns estragos durante o dia, vieram urrar em torno de nosso acampamento, e uma delas tão perto que se distinguia o chiar de uma espécie de pigarro, cuja presença se nota quando urram a pequena distância; além, porém, da desagradável impressão que nos produziram, nenhum outro dano sofremos, à exceção do esparrame de nossos animais." (¹)
Emocionante, não é, leitores?!!!
É certo que o grupo liderado por Couto de Magalhães dispunha de boas armas de fogo, para o caso de alguma emergência. Indígenas dos tempos coloniais não tinham o mesmo recurso e, de acordo com Yves d'Évreux (²), acendiam fogueiras porque acreditavam que, assim, poderiam manter os poderosos felinos à distância:
"Têm [as onças] muito medo de fogo, a ponto de não se aproximarem dele, e por isso evitam-nas os índios acendendo fogueiras em suas casas, sempre abertas, quer de dia, quer de noite." (³)
Não me perguntem, leitores, até que ponto as fogueiras seriam eficazes - nunca fiz a experiência. É certo, porém, que indígenas tinham grande habilidade em lidar com o ambiente no qual viviam. Suas fogueiras eram úteis para aquecer moradias em lugares e estações frias, mantinham alguma iluminação durante a noite e serviam para afastar os incômodos mosquitos. Talvez ajudassem a manter, também, algum respeito por parte das onças.

(1) MAGALHÃES, José Vieira Couto de Viagem ao Rio Araguaia
Goiás: Tipografia Provincial, 1864, pp. 212 e 213
(2) Missionário capuchinho francês que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614.
(3) D'ÉVREUX, Yves Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614
Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 174

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Os Supersticiosos Romanos e a Crença em Presságios

Os antigos romanos (como muitos outros povos, e não só do passado) tinham a mania de querer adivinhar o que é que o futuro lhes reservava. Para isso, contavam com áugures, arúspices e outras figuras sacerdotais que, pela observação das vísceras de animais sacrificados, do voo dos pássaros e de outras coisas mais, tinham a pretensão de fazer saber aos crédulos cidadãos da poderosa Roma quais eventos estavam à sua frente.
Pois bem, leitores, há um episódio engraçado, e é até difícil acreditar em sua autenticidade, mas que, verdade ou não, dá uma boa medida do que eram as crendices romanas em presságios. Lá vai, então.
Houve um comandante romano que, antes de ir a um combate, resolveu consultar os frangos sagrados (sim, havia mesmo frangos sagrados em Roma, e eram sustentados pelo Estado). Sucede que, diante do alimento que lhes foi oferecido, as aves não mostraram o menor apetite (pior para elas, como se verá). Ora, esse fato era considerado um presságio horrorosamente desagradável. Que fazer?
A saída encontrada pelo pragmático comandante foi bem pouco ortodoxa, em se tratando de respeito às tradições (coisa muito valorizada em Roma): mandou que as aves fossem lançadas ao mar, já que, se não tinham fome, talvez quisessem água...

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Produtos Agrícolas Cultivados Por Escravos Para Consumo Próprio e Para Venda

Muitos proprietários de escravos tinham por costume ceder a seus cativos um pequeno lote, no qual podiam cultivar aquilo que quisessem. Essa prática era conveniente para os senhores, pois:
  • Suplementava a alimentação dos escravos sem que o proprietário tivesse qualquer despesa com isso;
  • Mantinha os escravos ocupados nas poucas horas vagas, nos domingos e nos feriados, evitando que se encontrassem para planejamento de alguma rebelião ou fuga;
  • Se os escravos eventualmente obtinham uma produção significativa, vendiam-na por preço módico para o próprio senhor.
Os cultivos usualmente praticados obedeciam às características regionais relacionadas a condições de clima e solo, mas alguns itens eram recorrentes, como milho, mandioca, abóbora, feijão e hortaliças. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o segundo Barão de Paty do Alferes, recomendou, em sua Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro (¹):
"O fazendeiro deve, o mais próximo que for possível da sede da fazenda, reservar uma porção de terra onde os escravos façam as suas roças, plantação de café, milho, feijões, bananas, batatas, carás, aipim, canas, etc. Não se deve, porém, consentir que a sua colheita seja vendida a outrem, e sim a seu senhor, que deve fielmente pagar-lhes por um preço razoável: isto para evitar extravios e frequências das tabernas." (²)
A despeito desse conselho dado aos senhores, havia escravos que vendiam seu pequeno excedente quando, onde e para quem queriam. O caso é que alguns senhores mantinham grande vigilância quanto a este assunto, enquanto outros não se importavam com a questão. Cabe também assinalar, em rápida explicação, que muitos fazendeiros votavam ódio mortal às tabernas existentes na beira das estradas que passavam perto de suas propriedades agrícolas porque, além de convidarem à embriaguez dos escravos, incapacitando-os temporariamente para o trabalho, era também nelas que, não raro, as fugas e rebeliões eram combinadas.
Resta considerar o que é que os escravos faziam com o dinheiro que recebiam pela venda de sua pequena produção agrícola. Responde Lacerda Werneck:
"Este dinheiro serve para os escravos haverem o tabaco e o fumo, de que são grandes consumidores, comprarem a comida de regalo, roupa fina, a de sua mulher se são casados, e de seus filhos." (³)
Escravo pronto para ir ao trabalho (⁴)
Fica a pergunta: Não seria demais esperar que escravos, submetidos a condições de vida aviltantes, se comportassem como operosos trabalhadores livres, poupando a pequena renda que obtinham e gastando apenas em artigos realmente úteis, para si mesmos e para suas famílias? Aliás, em relação à maior parte do tempo no qual prevaleceu o trabalho compulsório no Brasil, falar em famílias de escravos é um grande problema - não porque elas não existissem, mas porque o sistema em nada favorecia a estabilidade e a formação de vínculos duradouros entre cativos.
Uma questão sempre debatida vincula-se aos escravos que, economizando por muitos anos, acabavam por ter recursos suficientes para comprar a própria liberdade. Ora, isso não era impossível, e, às vezes, acontecia. Não era, porém, fato corriqueiro, uma vez que não era fácil, apenas plantando e vendendo modestos excedentes por baixo preço, chegar a ter tanto quanto o valor de mercado de um escravo. Se excetuarmos a fase final da escravidão (após 1870), quando estava claro que a abolição seria apenas uma questão de tempo, o trabalho mais favorável às manumissões não estava na agricultura, e sim na mineração, porque era aí que um escravo, tendo a sorte de achar grande quantidade de ouro ou diamantes valiosos, acabava sendo premiado com a liberdade. Há registro de cativos nessas condições que, uma vez libertos, acabaram, eles próprios, também mineradores e senhores de escravos.

(1) A Memória do Barão de Paty do Alferes teve a primeira publicação no ano de 1847.
(2) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 40
(3) Ibid.
(4) RIBEYROLLES, Charles Brazil Pittoresco
Paris: Lemercier, 1861
O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Quando a Corte Viajava

Lembram-se de que nos contos de fadas os reis saíam a passear, de vez em quando, por seus domínios? Pois isso também acontecia na vida real. Os motivos variavam, desde uma simples excursão de lazer a uma fuga disfarçada, em situação de guerra. Foi assim, durante séculos, em quase todas as monarquias.
As leis portuguesas tinham instruções relevantes quando o assunto era alguma viagem do rei e seu séquito de nobres e funcionários. Lemos no Livro I das Ordenações do Reino (¹) que competia ao almotacé-mor providenciar que os caminhos por onde passaria o cortejo real estivessem em bom estado:
"Ao almotacé-mor pertence mandar limpar e refazer os caminhos, calçadas e pontes nos lugares onde estivermos (...)." (²)
Vejam, leitores, que a necessidade de fazer arranjos nas áreas em que o rei poria as vistas sinaliza que, muito provavelmente, as coisas não andavam, de ordinário, em perfeita ordem. Vale a mesma ponderação quanto ao regulamento sobre a limpeza dos lugares públicos, outra atribuição do almotacé-mor:
"Mandará apregoar, tanto que a algum lugar cheguemos (³), que tenham os vizinhos as praças e ruas limpas, e que ninguém lance sujidade alguma nos ditos lugares, sob a pena que lhe bem parecer, não passando de quinhentos réis, e mais serem obrigados a pagar o que custar limpar a dita sujidade." (⁴)
Cumpre reconhecer que, tendo em conta as condições de higiene vigentes nas vilas e cidades em séculos passados, a instrução não era descabida. Havia, porém, muito mais a ser feito, antes que os reais pés de sua real majestade chegassem a algum lugar. Afinal, a Corte não fazia fotossíntese, sendo, portanto, necessário prover, com antecedência, os alimentos que garantiriam a sobrevivência de tão indispensáveis figuras. Mais trabalho para o almotacé-mor:
"O almotacé-mor saberá de nós os lugares por onde e para onde havemos de ir, para mandar recado a cada um deles, que façam prestes mantimentos em tal maneira, que quando chegarmos, haja em abastança o que for necessário." (⁵)
Finalmente, em recordação de que nesses tempos o peso do transporte recaía (literalmente) sobre cavalos, mulas e outros seres de quatro patas, era preciso que houvesse, de prontidão, palha suficiente para os animais:
"Em cada lugar onde formos, [o almotacé-mor] haverá logo do escrivão da Câmara (...), e saberá parte de todos os palheiros, e por seus alvarás mandará dar palha aos da nossa Corte (...)." (⁶)
Abusos, porém, eram formalmente proibidos:
"No dar da palha haverá respeito à estada, que aí houvermos de estar, segundo a que na Comarca houver, dando a cada besta para vinte dias uma rede, e pagar-se-á ao dono da palha o que pelo almotacé-mor for taxado. E o azemel que tomar a palha sem alvará, ou sem a pagar, seja preso, e da cadeia pague quinhentos réis, a metade para quem o acusar, e a outra para o dono da palha." (⁷)
Ninguém faz leis para proibir o que jamais acontece, não é? Imaginem, então, quando a Corte atravessou o Atlântico para sua mais longa viagem...

Embarque de D. João para o Brasil, na visão de Giuseppe Gianni (⁸)
(1) Compilação de leis que regiam Portugal e seus domínios, publicada no começo do Século XVII. A maioria dessas leis vigorava há muito tempo. Neste blog é seguida a edição de 1824 da Universidade de Coimbra.
(2) Ordenações do Reino, Livro I, Título XVIII, § 13.
(3) Percebam a insistência no uso do famoso "plural majestático".
(4) Ordenações, Livro I, Título XVIII, § 12.
(5) Ibid., § 3
(6) Ibid., § 4
(7) Ibid.
(8) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Bandeiras de Apresamento

Bandeiras de apresamento eram grupos de pessoas armadas (geralmente paulistas), que iam ao interior da América do Sul capturar indígenas para escravização. A princípio os ataques eram dirigidos contra aldeias cujos habitantes, sem consciência do perigo que corriam, ainda viviam segundo o estilo de vida tradicional entre populações ameríndias. Mais tarde, porém, bandos armados passaram a atacar também as missões, nas quais indígenas catequizados viviam em companhia de missionários, quase todos jesuítas
Haveria razões para essa mudança de estratégia?
Sim. Aqui estão, leitores, algumas delas:
  • As missões, reunindo catecúmenos provenientes de vários lugares, tinham, como regra, uma população consideravelmente maior que as aldeias indígenas comuns;
  • Tendo abandonado seu modo de vida tradicional, os indígenas das missões não costumavam andar armados (¹);
  • Indígenas das missões aprendiam, com os padres, técnicas agrícolas, além de vários ofícios (pedreiro, carpinteiro, alfaiate, etc.), e eram, portanto, considerados mais valiosos, quando escravizados.
O ataque maciço às missões do Guayrá começou em 1628, segundo depoimento do padre Antonio Ruiz de Montoya, célebre na defesa dos indígenas, tendo ido mesmo à Espanha protestar contra a injustiça que lhes era feita. Em suas palavras, foi assim que tudo aconteceu:
"Entrou esta gente (...) por nossas reduções, cativando, matando e despojando altares. Nós, três padres, fomos às suas cabanas e alojamentos, onde tinham já muita gente cativa, e lhes pedimos que nos dessem os que haviam aprisionado e que estavam, muitos deles, acorrentados. Gritaram como loucos frenéticos, dizendo: Prendam-nos, prendam-nos, que esses são traidores!, e juntamente dispararam alguns tiros de arcabuz, com que feriram oito ou nove índios que nos acompanhavam. Um deles caiu morto ali mesmo, de um tiro que lhe deram na coxa, e o padre Cristóbal de Mendoza saiu ferido de uma flechada. Prenderam o padre José Domenech, dizendo-nos (...) que não éramos sacerdotes, mas demônios, hereges, inimigos de Deus, e que pregávamos mentiras aos índios. Um deles apontou uma escopeta em direção ao meu peito, e eu abri a roupa para que, sem nenhuma resistência, o tiro entrasse." (²)
Não seria ainda dessa vez, no entanto, que um jesuíta iria tombar pela mão de um bandeirante. 
Montoya tem contra si o fato de que, ao passar metade de seu livro Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus contando suas aventuras e façanhas como missionário, narrou muita coisa que qualquer pessoa séria, com muito boa vontade, pode apenas reconhecer como vinda de um espírito crédulo, quando não ingênuo. Por outro lado, mesmo assumindo que houvesse algum exagero da parte do religioso, é inegável que integrantes de bandeiras de apresamento, depois das estripulias entre indígenas que viviam livres nas florestas, julgaram mais fácil e mais conveniente atacar as reduções - se não fosse assim, como explicar a existência de numerosa escravatura de origem indígena, que paulistas orgulhosos - como o genealogista Pedro Taques, por exemplo, autor da Nobiliarchia Paulistana - faziam questão de referir? Amador Bueno (o "Aclamado") tinha centenas de índios escravizados, convertidos à força:
"Teve grande tratamento e opulência por dominar debaixo de sua administração muitos centos de índios, que de gentio bárbaro do sertão se tinham convertido à nossa santa fé [sic], pela indústria, valor e força das armas, com que os conquistou Amador Bueno em seus reinos e alojamentos." (³)
Pedro Taques mencionou, ainda, que Manuel Preto chegou a ter novecentos e noventa e nove (!!!) índios escravizados; esse número, ainda que exagerado em mais de um sentido, não devia ser incomum, já que, também na Nobiliarchia Paulistana, o mesmo autor, falando de paulistas do Século XVII (⁴), afirmou que "muitos havia que possuíam debaixo de sua administração quinhentos, seiscentos e setecentos índios, que se ocupavam no trabalho da agricultura em copiosas searas de trigo, plantas de milho, feijão, legumes e nos algodoais".
Para além de tudo isso, vale ressaltar que em São Paulo ninguém escondia o fato de que paulistas invadiam missões para aprisionar índios, fazendo não poucos estragos em tais ocasiões. Pedro Taques registrou, entre vários outros, o caso do bandeirante Manuel Bicudo de Campos, que teria atacado missões não menos que vinte e quatro vezes, sem poupar nem mesmo os jesuítas. Certo dia, notando que os indígenas estavam prontos a lutar pela liberdade, sem mais delongas cortou o fio da existência ao missionário que os liderava: "(...) Fez pé atrás e tomando a sua arma de fogo fez tiro ao tal mestre de campo jesuíta (⁵), que ainda estava montado; e quando o corpo caiu do cavalo em terra, já a alma o tinha deixado." (⁶) 
Foi assim, uns através da catequese, outros à procura de ouro ou de gente para escravizar, que se explorou o território ainda desconhecido da América do Sul. Conforme reconheceu Pedro Taques, "sem o interesse do serviço dos índios não teriam feito os paulistas tão dilatadas e pasmosas jornadas pelo sertão, que ocasionaram os descobrimentos que hoje estão povoados" (⁷).

(1) Autoridades coloniais, quando precisavam de homens para lutar, podiam requisitar indígenas das missões; estes combatiam, porém, usando apenas as armas habituais entre ameríndios, e não com armas de fogo. Havia, inclusive, uma proibição quanto ao fornecimento de armas de fogo para indígenas, contra a qual lutavam os missionários, tendo em vista a necessidade de defesa contra os bandeirantes de São Paulo.
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus
Madrid: Imprenta del Reyno, 1639
O texto citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes Nobiliarchia Paulistana
(4) Contemporâneos, por conseguinte, do padre Antonio Ruiz de Montoya.
(5) A fala de Pedro Taques sugere que ele próprio não tinha grande estima pelos jesuítas.
(6) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes Op. cit.
(7) Ibid.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Caldo de Carne Para Emergências

Lamento por decepcionar algum leitor neófito neste blog, mas não haverá aqui nenhuma receita culinária que seja útil para o Século XXI. O caso é outro, e deixo a explicação por conta de Lucas Rigaud, um cozinheiro famoso que esteve a serviço dos reis de Portugal. Encontramos em seu livro, publicado em 1780, cujo título é Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha (¹), a seguinte prescrição:
"Caldo em pastilhas, ou de conserva, para se transportar, ou por mar, ou por terra a países desertos em jornadas dilatadas; para comandantes de exércitos, governadores de praças sitiadas, cidades aflitas de peste e outros acidentes que podem sobrevir, e em que por nenhum dinheiro se pode encontrar nem galinha, nem carne." (²)
Portanto, meus leitores, nosso interesse, aqui, será apenas histórico, visto que não viajaremos por mar ou terra nos Séculos XVIII ou XIX, não comandaremos exércitos e não governaremos alguma cidade cercada por inimigos, tampouco estaremos em "cidades aflitas de peste" (assim esperamos) (³). Mas a receita, em si, é curiosa, porque nos dá uma boa ideia dos ingredientes manipulados por um chef da importância de Lucas Rigaud. Vejamos, então:
"Tome-se uma perna redonda de vaca, duas pernas de vitela (...), oito ditas de carneiro, quatro perus velhos, doze galinhas, seis galos e capões, duas dúzias de perdizes, quatro ou cinco arráteis de presunto limpo de ossos e gordura; todas estas aves limpas, vazadas e chamuscadas se deitem de molho, assim como também a carne das pernas de vaca e de vitela feita em postas grandes, sem gordura e sem ossos, e depois de tudo muito bem lavado e escaldado, deite-se em uma panela grande (⁴) ou caldeira cheia de água, e ponha-se ao lume a ferver um pouco (...)." (⁵)
Coragem, leitores! Vamos adiante. A seguir, recomendava-se que tudo fosse temperado com sal, pimenta, cravo-da-índia e gengibre, ficando a ferver por cerca de duas horas. Depois, era preciso adicionar, entre outros ingredientes, cenouras, alho-poró, cebolas, aipo e nabos, e estando tudo cozido, vinha o que poderíamos chamar de dupla filtragem e clarificação. Ia tudo novamente ao fogo para reduzir. Continuava Rigaud:
"Estando grosso (...), deite-se em cima de torteiras ou frigideiras de barro, mas que não fique de mais da grossura de um dedo, e deixe-se esfriar; depois de frio, corte-se em bocados iguais, e cada um do peso de uma onça (⁶), e ponham em tabuleiros ou em peneiras com folhas de papel por baixo, e metam-se a secar em uma estufa ou exponham-se por alguns dias ao vento norte; estando bem enxutos, embrulhem cada bocado em seu papel, e guardem-se em frascos de boca larga muito bem tapados." (⁷)
Vemos, portanto, quão trabalhoso era preparar esse "caldo de carne para emergências" em tempos anteriores à industrialização. Não imagino que alguém queira testar o processo, mas, para concluir, será interessante saber o que deveria ser feito por quem pretendesse utilizar o "produto":
"Quando suceder quererem fazer um caldo, desfaçam ou derretam em um quartilho de água fervendo uma onça ou onça e meia, se for necessário, desta composição, e segundo a pessoa que o quiser tomar o queira mais ou menos forte." (⁸)
Lembrem-se, meus leitores: Lucas Rigaud somente adicionou essa receita a seu livro porque devia ter a certeza de que poderia ser proveitosa; ele mesmo deve tê-la praticado uma e outra vez. Tudo isso pode soar como mera curiosidade, mas fornece, afinal, um parâmetro do que eram os procedimentos de cozinha em tempos agora distantes.

(1) Essa obra, publicada inicialmente em 1780, teve várias edições, de onde se pode medir o apreço com que foi acolhida.
(2) RIGAUD, Lucas Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha 5ª ed.
Lisboa: Typografia Lacerdina, 1826, p. 204
(3) A blogueira é vegetariana; portanto, também não tem qualquer interesse em caldo de galinha ou carne para alimentação.
(4) Sábia recomendação!
(5) RIGAUD, Lucas, Op. cit., p. 204
(6) Pouco mais ou menos de 30 g, dependendo do sistema empregado. 
(7) RIGAUD, Lucas, Op. cit., p. 205
(8) Ibid.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Fila Indiana

Não se surpreendam, leitores: quando iam à guerra, indígenas andavam mesmo em fila indiana. 
Gabriel Soares, que foi senhor de engenho na Bahia e um ousado explorador do território do Brasil no Século XVI, assim explicou o modo como guerreiros nativos se punham em marcha para lutar contra uma aldeia inimiga:
"Antes que se abalem, faz o principal capitão a dianteira, que eles têm por grande honra, o qual vai mostrando o caminho e lugar onde hão de dormir cada noite. E a ordenança com que se põem a caminho é um diante do outro, porque não sabem andar de outra maneira (...)." (¹)
Seguiam, portanto, sempre em fila indiana. Já perto do local do combate, aguardavam, escondidos na floresta, até que a ocasião fosse considerada favorável, o que geralmente ocorria de madrugada. Em meio às trevas e com enorme alarido, iam ao ataque, fazendo da surpresa um uso nada desprezível. 

Índios puris caminhando em fila indiana (²)

(1) SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 330
(2) D'ORBIGNY, Alcide Voyage Pittoresque dans les Deux Amériques
Paris: Furne et Cie., 1841
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Solução de Conflitos Familiares (de Acordo Com o Código de Hamurabi)

Tenho um palpite de que Maquiavel ficaria feliz se pudesse conhecer Hamurabi - sim, leitores, eu sei que, separados por milênios, esse encontro jamais seria possível - mas a questão é que ambos adotaram em suas obras (¹) o mesmo princípio de tratar a sociedade tal qual ela era, com seus costumes, tradições, defeitos, etc., realisticamente, sem envolvimento em utopias improváveis. O pensamento de Maquiavel é amplamente conhecido; o de Hamurabi ficará mais claro com dois exemplos práticos. Vejamos, então!
A utopia familiar dita: os pais devem ter idêntico amor por todos os seus filhos. Retruca a realidade: Isso dificilmente acontece. Lá vem Hamurabi, e diz:
"Se um homem dá um presente a seu filho preferido, seja um campo, um horto ou uma casa, e confirma e doação por escrito e com seu selo, se o pai morrer, os filhos dividirão entre si a herança: aquele filho conservará o presente que recebeu e o restante dos bens será divido igualmente entre todos os irmãos."
Tinha força de lei: o queridinho do papai conservava o presente recebido e, além disso, era incluído na partilha geral. Observem, leitores, que o legislador não gastou tempo em repreender a ausência de equidade do pai (²), nem tentou introduzir alguma reforma social revolucionária na estrutura familiar; em lugar disso, limitou-se a determinar o que devia ser feito diante de um potencial conflito entre irmãos.
Mais um exemplo, desta vez relacionado aos desentendimentos de um casal:
"Se uma mulher contender com seu marido e disser: "Você não pode mais viver comigo", deverá apresentar seus motivos diante do conselho [do lugar em que vive]; se ela não for culpada e não houver cometido nenhum erro (³), mas o marido é que é negligente para com ela, então a mulher será considerada inocente, poderá receber de volta o seu dote e retornar à casa de seu pai. Mas, se ela não for inocente, se houver deixado seu marido [por outro homem] e arruinado sua casa, sendo descuidada com seu marido, ela deve ser jogada no rio."
Chocante? Talvez, mas vejam que em nenhum momento a legislação inclui algum discurso moral quanto à fidelidade no casamento. Hamurabi sabia, afinal, que casais podiam se desentender e que adultérios aconteciam. Seu Código apenas definia o que fazer quando os problemas conjugais chegavam a transtornar a paz da comunidade. Quanto à punição para a má esposa, está perfeitamente de acordo com o sistema penal do Código. Em outros casos, as prescrições incluíam cortar uma orelha, arrancar um olho e até queimar vivo um criminoso. 

(1) O Príncipe (no caso de Maquiavel) e o Código de Hamurabi, uma compilação de leis datada de 1750 a.C., aproximadamente.
(2) Esse fato parece sugerir que o fenômeno era comum na Mesopotâmia. Ninguém iria perder tempo em legislar sobre alguma coisa que jamais acontecia.
(3) O erro em questão seria, provavelmente, um adultério.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Uma Figueira Com a Assinatura de Dom Pedro

Velhas árvores, cuja existência supera a de algumas gerações de humanos, costumam guardar registros interessantes. Não digo isso por causa dos anéis que, não contentes em revelar a idade da árvore a que pertencem, ainda acrescentam muitas outras informações, como é o caso das condições climáticas ao longo de sua existência. É que muita gente gosta de deixar marcas em troncos de árvores - quem é que nunca viu algo assim? Basta uma faca, canivete ou outro objeto cortante, e o pobre vegetal ganha uma cicatriz que já não pode ser apagada. Imaginem, então, leitores, se o rabisco for feito por alguma celebridade. Sorte ou azar, a árvore logo fica famosa. 
Pois foi exatamente sobre uma árvore dessas que escreveu Augusto-Emílio Zaluar em suas memórias de viagem pelo Vale do Paraíba no Século XIX. Tratava-se de uma respeitável figueira, testemunha silenciosa das idas e vindas de tropeiros e suas mulas, além de muitos outros viajantes, alguns deles, anônimos, e outros, conhecidos até demais:
"Este gigante de vegetação, que nasceu de uma estaca de tropeiros, é duplamente digno de veneração. A ramagem que lhe sombreia o tronco colossal pode abrigar uma porção de cavaleiros. A base do tronco tem umas poucas de braças. É um templo de verdura levantado às portas da cidade, apontando em sua imponente majestade um fato importante nas tradições nacionais." (¹)
Zaluar parece fazer suspense... E continua:
"Vê-se aí entalhada a firma de S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro I pelo seu próprio punho.
Quando o fundador do Império foi ao Ipiranga proclamar a independência do Brasil (²), passou aqui na tarde de 11 de julho de 1822 (...), e foi por essa ocasião que entalhou a sua inicial no tronco da figueira. A árvore hoje tem crescido a ponto de que as letras P. I., que então ficavam na altura do braço de um cavaleiro, agora têm a elevação de mais de três homens." (³)
Não tenho nenhuma intenção, leitores,  de desfazer a alegria das tradições locais, mas, se era nessa altura que se encontrava o rabisco supostamente entalhado por D. Pedro, será forçoso admitir que, para gravá-lo, o jovem príncipe precisaria ter escalado a árvore, como o fariam os meninos travessos.
Por quê? Ora, leitores, porque, explicando de um modo bem simples, nas árvores o crescimento acontece na ponta do caule (gema apical) ou de seus vários ramos (dependendo da espécie); tudo o mais permanece exatamente à mesma altura. Então, se D. Pedro houvesse entalhado seu nome, digamos, em um ponto do caule da figueira que estivesse a dois metros do chão, durante toda a vida da árvore a marca estaria exatamente à dita altura, jamais alcançando "a elevação de mais de três homens", como afirmou Zaluar. 
Além disso, o autor em questão, parecendo um tanto crédulo, não deve ter atentado para outro fato: em julho de 1822 D. Pedro nunca teria assinado P. I., quer o "I" significasse "primeiro", quer "imperador", porque nessa ocasião ele não era nem uma coisa e nem outra. Era, sim, príncipe regente do Brasil e herdeiro do trono português. Não era pouca coisa, mas a independência, que faria de D. Pedro o primeiro imperador do Brasil, constituía-se, na época da suposta assinatura, em um evento ainda no futuro.

(1) ZALUAR, Augusto-Emílio Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861
Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, pp. 120 e 121
(2) O episódio que se considera como proclamação da Independência ocorreu quando D. Pedro vinha de Santos para São Paulo, no final da tarde de 7 de setembro de 1822; portanto, o caminho óbvio foi outro. Zaluar talvez quisesse dizer que D. Pedro passara pela famosa árvore quando vinha do Rio de Janeiro.
(3) ZALUAR, Augusto-Emílio Op. cit., p. 121

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O Sistema de Correios dos Antigos Persas

Sendo donos de um império enorme, os persas (¹) precisavam ter um sistema de correios muito eficiente - se não fosse assim, como garantir que decretos e notícias chegassem com a velocidade conveniente a cada povoação, de modo que ninguém pudesse alegar desconhecimento? Quem poderia assegurar boa administração ou zelar pela segurança das fronteiras, se os governantes civis e comandantes militares não estivessem devidamente informados do que se passava, quer perto, quer longe?
Por outro lado, ter correios eficientes pode muito bem ter ajudado nas conquistas que permitiram a formação de tão vasto império. Vejam, leitores, que, em ambos os sentidos, os bons serviços de correios foram muito úteis aos persas.
De acordo com Heródoto, nada havia, na terra, que fosse "tão ágil e veloz" quanto o sistema de correios que os persas haviam inventado, no qual sempre havia cavalos e homens de prontidão para que nenhum atraso ocorresse. Nem circunstâncias climáticas adversas, ou mesmo as horas da noite, impediam que os correios circulassem: "O primeiro do correios passa ao segundo os comunicados que recebeu, e este ao terceiro, seguindo assim de um a outro, como acontece nas corridas de tochas por ocasião dos festejos de Hefaístos." (²)
Portanto, leitores, o sistema persa pressupunha um contínuo revezamento de homens e cavalos, que faziam, em turnos, um percurso determinado, à máxima velocidade de que eram capazes. Além disso, era preciso ter gente e cavalos descansados e prontos para a ação, assim que novas ordens chegassem.
Por esse sistema, as informações estavam longe de dar volta ao mundo à velocidade da luz; não obstante, os antigos persas, ressalvadas as limitações de sua época, demonstraram que, quanto aos correios, eram um verdadeiro modelo de competência.

(1) Levando em consideração tudo o que se sabe sobre o modo como os antigos persas eram governados, não é possível afirmar que o povo persa tenha sido grandemente beneficiado pelas conquistas empreendidas por seus monarcas.
(2) Heródoto Histórias, Livro VIII; o trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Casacas Sob o Sol da Capital do Império

"Será útil que a civilização acabe com esse uso de andar de jaqueta diante dos contemporâneos e aparecer de casaca à posteridade."
Machado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, 12 de junho de 1864


Qualquer um que leia obras escritas por romancistas brasileiros do Século XIX pode, sem muito esforço, descobrir que na capital do Império, gente "de respeito", como se dizia, andava vestida de modo muito impróprio - impróprio para o clima do Rio de Janeiro, mas apropriado, sim, segundo as regras de etiqueta da época. Corram os olhos, leitores, sobre os exemplos seguintes, e já verão o que era a moda masculina sob o sol carioca:

"Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho."
Joaquim Manuel de Macedo, A Moreninha

"Alice (...) trocou algumas palavras em segredo com o pai, e tirando-lhe do bolso da casaca uma caixinha oval de tartaruga aproximou-se de Mário, que estava de pé apoiado no recosto da cadeira de D. Francisca."
José de Alencar, O Tronco do Ipê

"Tenho grandes salas, ricos tapetes, cadeiras de estofo, soberbos jantares, mas preciso de gente de casaca, para encher estas salas, pisar esses tapetes, sentar-se nessas cadeiras e comer estes jantares."
José de Alencar, Sonhos d'Ouro

"Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo."
Machado de Assis, O Alienista

"Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus resíduos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da mesa, em vésperas de café. De quando em quando dava um olhar à casaca do criado."
Machado de Assis, Quincas Borba

Então, o que acham? O problema é que usar casaca não era simplesmente uma opção. Daniel P. Kidder, missionário metodista que esteve no Brasil entre 1837 e 1840, descreveu muito bem as exigências quanto ao vestuário de quem pretendia pôr os pés em lugares de maior cerimônia:
"Presume-se que todo indivíduo de respeito se vista bem e com propriedade. Daí o fato de se não poder entrar nas repartições públicas, no Museu ou na Biblioteca Nacional, sem ser "de casaca". O paletó-saco constitui a birra principal das regras de etiqueta, no Brasil, e, conquanto se adapte melhor ao clima que qualquer outra roupa e seja geralmente usado em casa, é rigorosamente condenado o seu uso na rua. Assim é que as pessoas respeitáveis devem usar um capote quando saem, ou, se preferirem, um casaco relativamente pesado." (¹)
Lembrando aos leitores da geração Y que não havia ventiladores elétricos e muito menos ar-condicionado no Século XIX, consideremos, agora, o que escreveu o pintor François Biard, ao tratar da mania dos trajes cerimoniosos. Notem, por favor, que Biard, de nacionalidade francesa, esteve no Rio uns vinte anos após Daniel Kidder, e foi muito menos benevolente em suas observações:
"No Brasil todo mundo se veste de preto, não somente para ir às festas, mas, também, durante o dia, muito embora o sol derreta a todos de suor." (²)
Acrescentou, ainda:
"(...) Percorri a cidade [do Rio de Janeiro] (...). Enverguei, para esse passeio, as roupas leves compradas na Belle Jardinière, mas me senti acanhado ao reparar que todos me olhavam com espanto semelhante ao que manifestávamos (³) antigamente diante de um árabe com seu albornoz ou um grego com sua saia pregueada. Por toda parte o preto predominava. Os caixeiros das lojas, manejando as vassouras, já vestiam, às sete da manhã, elegantes redingotes de casimira. O branco, neste país, onde o preto deveria ser castigo para os galés, era desconhecido." (⁴)
Biard estava errado. Havia, sim, quem usasse branco - os escravos! Vejam, portanto, leitores, que além de imitar o que era moda na Europa, era para se diferenciar dos cativos que a gente de condição livre se submetia à tortura das casacas, mesmo quando o clima e a saúde recomendavam coisa bem diferente.

Convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro, Século XIX;
em primeiro plano, dois cavalheiros usando casaca e cartola (⁵).






(1) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil
Brasília: Senado Federal, 2001, pp. 142 e 143
(2) BIARD, Auguste François Dois Anos no Brasil
Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 12
(3) Biard se refere aos franceses.
(4) BIARD, Auguste François Op. cit., p. 32
(5) ____________ O Brasil Pitoresco e Monumental
Rio de Janeiro: E. Rensburg, 1856
O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Revolução Russa de 1917

Uma revolução que aconteceu "no lugar errado"

Segundo o entendimento daqueles que em meados do Século XIX defendiam o chamado "socialismo científico", o mundo industrialmente desenvolvido caminhava para uma grande revolução. Nas palavras de Marx e Engels em Manifest der Kommunistischen Partei (¹), "a história de todas as sociedades até agora existentes tem sido a história das lutas de classe. (...) Homens livres e escravos, patrícios e plebeus, senhores e servos, mestres de ofício e empregados, em uma palavra, opressor e oprimido, em constante oposição, têm travado um confronto ininterrupto, seja ele oculto, seja ele aberto, que vez após vez termina, ou com uma completa reconstituição revolucionária da sociedade, ou com a ruína de ambas as classes contendoras". 
Mais adiante, depois de expor uma interpretação da queda do feudalismo por obra da burguesia, o mesmo documento passava a tratar do modo pelo qual o proletariado suplantaria o capitalismo, impondo uma nova ordem social, política e econômica:
"As mesmas armas com as quais a burguesia derrubou o feudalismo voltam-se agora contra ela.
Entretanto, não somente a burguesia forjou as armas que lhe darão a morte, ela chamou à existência os homens que manejarão essas armas - a moderna classe trabalhadora, os proletários."
Uma leitura atenta dos escritos de Marx e Engels leva à conclusão de que, para esses pensadores:
  • a) A revolução socialista era inevitável (²); 
  • b) A revolução somente poderia ocorrer em lugares nos quais as forças produtivas do capitalismo chegassem ao seu máximo desenvolvimento. Aí, no apogeu da luta de classes entre burguesia e proletariado, a revolução socialista encontraria terreno altamente favorável. 
Ora, meus leitores, se havia um país que estava muitíssimo longe dos píncaros do capitalismo, esse país era a Rússia de 1917. Portanto, em obediência à lógica do pensamento de Marx e Engels, a Rússia era um lugar onde a revolução não poderia acontecer. Mas aconteceu.
Por quê? O que veremos a seguir são algumas dentre as razões que podem explicar a ocorrência de uma revolução socialista "no lugar errado":
  • Pobreza extrema do campesinato e dos trabalhadores urbanos, estes últimos não muito numerosos, ainda que, até certo ponto, politizados;
  • A participação russa na Primeira Guerra Mundial, que contribuiu para enfraquecer ainda mais a economia, uma vez que os escassos recursos disponíveis eram direcionados para propósitos militares;
  • Fragilidade da monarquia sob Nicolau II e do governo supostamente democrático implantado após a queda do regime czarista em fevereiro/março de 1917 (³) (Kerenski devia ter negociado imediatamente um acordo com a Alemanha para sair da guerra, mas decidiu permanecer no conflito, gerando enorme insatisfação contra o governo);
  • Deserções em massa no front, não havendo, contra elas, ameaças que valessem;
  • Ocorrência de um inverno precoce e ainda mais rigoroso que o habitual entre 1916 e 1917(⁴);
  • Falta de suprimentos básicos nas cidades, como lenha e carvão (para aquecimento) e cereais para alimentação;
  • Os bolcheviques parecem ter feito a promessa "certa", que a população queria ouvir: paz, terra, pão e libertação das etnias dominadas pelo Império Russo;
  • Vácuo de poder com a "saída" (⁵) de Kerenski.
Ao perceber o momento favorável em outubro/novembro de 1917, Vladimir Ilyich Ulyanov, a quem todos chamamos Lenin, ofereceu, com os bolcheviques, uma alternativa de liderança que parecia apresentar novas propostas e confiabilidade. Desse modo, a Rússia saiu da guerra (⁶), mas os anos seguintes não foram nada fáceis, diante da necessidade de reconstrução após a sangrenta guerra civil ocorrida para sustentar o domínio socialista. Isolado internacionalmente, o novo regime, que parecera tão promissor, tendeu cada vez mais à radicalização, principalmente após a morte de Lenin e ascensão de Stalin como mandatário virtualmente absoluto.

Como a notícia da Revolução Russa chegou ao Brasil

Na edição de sexta-feira, 9 de novembro de 1917, o jornal Correio Paulistano noticiava:
"Deu-se em Petrograd, quase no meio da indiferença geral, um pequeno golpe de Estado [sic!], que transferiu o poder das mãos do sr. Kerensky para as do "Soviet" militar [sic], encarnação da política maximalista (⁷). Os telegramas da Havas, duma sobriedade onde se reconhece a ação da censura (⁸), não dão pormenores do acontecimento; constatam laconicamente o fato sem aludir aos meios empregados pelos revolucionários para se tornarem senhores da capital da Rússia e do governo. O "Soviet", logo que se instalou no palácio imperial, decidiu expor ao público o seu programa de realização imediata. Esse programa consiste exclusivamente [sic] em concluir a paz separada com o inimigo, no mais curto prazo, sem dependência de cláusulas restritivas. Donde se conclui que o golpe de Estado de Petrograd, antes de ser uma revolução nacional, foi uma revolução alemã [sic!!!], fato que não pode surpreender ninguém, atendendo às estreitas ligações que sempre existiram entre os agentes germânicos e os maximalistas. É possível, provável até, que os revolucionários de maio, os que obedecem ao sr. Kerensky, não reconheçam o novo estado de coisas nem sancionem a política internacional que o "Soviet" militar se propõe seguir, com absoluto desprezo dos compromissos tomados com os países aliados."
Entendam, leitores, que na data em que a notícia foi publicada, a situação era ainda bastante confusa, até mesmo para os próprios russos. Além disso, para chegar ao Brasil, essas informações precisaram quase dar a volta ao mundo, passando pelo crivo da censura de guerra (como o jornal assinalou), a fim de evitar que a certeza quanto à posição da Rússia em abandonar o conflito mundial afetasse o moral das tropas da Entente no front. De qualquer modo, é fácil perceber que as palavras do Correio Paulistano, revelando algum desconhecimento sobre a situação política na Rússia para além da tomada do poder pelos bolcheviques, demonstram, também, pouca ou nenhuma simpatia pelo movimento revolucionário, na suposição de que, afinal, tudo não passaria de uma arruaça a ser, em breve, sufocada.
O jornal, porém, estava errado. Lenin e os bolcheviques, contra as expectativas internacionais, conseguiriam suplantar a "resistência branca" (⁹), fundando um novo regime que controlaria o poder, não por uns poucos anos, mas por longas décadas.

(1) Conhecido, em português, como Manifesto Comunista. As citações que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História &; Outras Histórias.
(2) Atendendo a uma espécie de "lei" que supostamente regeria os acontecimentos da sociedade.
(3) Somente em 1918 é que a Rússia passou a adotar o Calendário Gregoriano; por essa razão é que se diz que a "revolução branca" ou "democrática" aconteceu em fevereiro ou março de 1917, dependendo do calendário a ser considerado, valendo o mesmo para a revolução socialista (outubro ou novembro de 1917).
(4) Com estações agrícolas curtas, era preciso produzir muito para assegurar suprimentos para os meses (muito) frios; as obras dos romancistas russos do Século XIX estão repletas do pessimismo resultante, ao menos em parte, da parceria entre conjuntura político-econômica e longuíssimos invernos.
(5) Fuga, na verdade. Impossível não questionar o raciocínio político de Kerenski - o que esse indivíduo tinha na cabeça (além do chapéu, é claro)?
(6) Lenin já negociara com a Alemanha o fim da participação russa na guerra, mesmo antes que a Revolução Bolchevique fosse uma realidade.
(7) Referência aos bolcheviques.
(8) Não se esqueçam, leitores, de que a Primeira Guerra Mundial estava em andamento, e a divulgação de notícias era, mais do que nunca, uma questão de Estado.
(9) Em referência ao fardamento usado pelas forças militares adeptas do regime czarista.