quinta-feira, 27 de abril de 2017

O Papel das Invenções e Descobertas na Revolução Industrial

Ao longo do Século XVIII e primeira metade do Século XIX ocorreram notáveis invenções e descobertas, que favoreceram o desenvolvimento da industrialização e da urbanização. Vejam, leitores, apenas alguns exemplos, que podem ser citados dentre muitos outros:


É preciso lembrar, todavia, que as inovações tecnológicas e descobertas científicas não foram, por si mesmas, a Revolução Industrial, embora tenham ajudado a construir o cenário em que ela aconteceu. Além disso, ao longo do tempo, foram decisivas em oferecer dinamismo ao processo. Primariamente, a grande mudança que merece, de fato, o nome de "revolução", consistiu em reunir muitos tecelões que trabalhassem em um só lugar, na condição de assalariados, não como artesãos autônomos. Os teares ainda eram os mesmos, mas já não pertenciam aos trabalhadores. As inovações graduais, com o emprego de maquinário a vapor e de novas máquinas de fiar com uma capacidade enorme de produção, resultaram em quantidade crescente de tecidos, para atender à demanda interna da Inglaterra, e também para exportação. Os proprietários das fábricas, que investiam em instalações, maquinário e pagavam os salários dos operários, lucravam cada vez mais. Já a situação da massa de trabalhadores não era muito boa.
Havia, por certo, artesãos teimosos que tentavam resistir, mantendo sua produção artesanal em casa ou em oficinas próprias, quando as fábricas já eram uma realidade. Acabariam economicamente esmagados, é claro - como concorrer com a produção industrial, superior em quantidade e qualidade, e com preços muito mais interessantes para quem comprava?
As tecelagens foram o começo, mas a Revolução Industrial abarcou, aos poucos, outros setores de produção. Passou da Inglaterra à Europa Continental. Atravessou o Atlântico e chegou à América do Norte. A concorrência sempre crescente estimulava a inovação, tanto para conquistar como para evitar a perda de mercados. E continua a ser assim até hoje. 
Para concluir, façamos um pequeno experimento mental, que nos ajudará a entender o impacto das invenções e descobertas a partir do Século XVIII. Imaginem, leitores, que fosse possível a um homem, que houvesse morrido por volta do ano 1100 em algum lugarejo da Europa Ocidental, ressuscitar no ano 1300. Salvo umas poucas diferenças, o sujeito não veria grande mudança em relação ao mundo que conhecera. Agora, pensem na mesma situação, para alguém que morresse em 1700 e ressuscitasse dois séculos mais tarde, ou seja, por volta de 1900 - seria enorme a probabilidade de que tão (des)afortunada criatura julgasse estar em outro planeta, concordam? 

(*) A máquina a vapor não tem um “pai” só; a ideia, em si, nasceu na Antiguidade.
(**) Vários outros trabalhos nesse sentido aconteceram antes que o método de Jenner se mostrasse eficaz.
(***) Essas pesquisas, fundamentais para o desenvolvimento no campo tecnológico, ocorreram entre os Séculos XVIII e XIX.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O Interesse Pelo Piano e Por Outros Instrumentos Musicais no Brasil do Século XIX e Início do Século XX

Venda de instrumentos musicais em
São Paulo, 1867 (******)
Ter um piano, no Século XIX, era, para famílias que se prezavam, um sinal de distinção social, ao menos na capital do Império. Não é por acaso, leitores, que muitas cenas de romances escritos nessa época ocorrem junto a um piano. Querem ver?

"Guida sentou-se ao piano e começou a preludiar. Não tardou que o Guimarães se aproximasse, atraído pelo imã, e bordasse sobre o tema da música uma dessas falas que parecem um crochê de palavras de diversas cores." (José de Alencar, Sonhos d'Ouro)

"A única consolação que tive foi vê-la correr para o piano, e ouvi-la cantar as seguintes e outras quadrinhas musicadas no gosto nacional:
Menina solteira 
Que almeja casar,
Não caia em amar
A homem algum;
Nem seja notável
Por sua esquivança,
Não tire a esperança
De amante nenhum.  (Joaquim Manuel de Macedo, A Moreninha)

"Eugênia não compreendeu o que os dois haviam dito. Voltou os olhos para o piano, com uma expressão de saudade. Com a mão esquerda, assim mesmo de pé, extraiu vagamente três ou quatro notas das teclas suas amigas." (Machado de Assis, Helena)

Anúncio de loja de pianos em São Paulo, 1903 (*******)
Creio que já temos citações suficientes para demonstrar a relação entre literatura e pianos nos tempos do Império. Porém, antes da implantação dos "caminhos de ferro" (*), episódios românticos junto a um teclado eram facilmente imagináveis apenas no Rio de Janeiro e adjacências, ou em alguma cidade nos arredores dos portos. As ferrovias foram responsáveis pela interiorização do piano - gliss. (**), gostei da expressão. Não quero dizer que fosse impossível o transporte de um piano em carro de bois até uma povoação interiorana. Impossível, não. Mas que era incômodo, lá isso era.
Harmônicas, 1916
(********)
A marcha do café rumo ao chamado Oeste Paulista (***) foi também a marcha da expansão dos trilhos ferroviários e, por que não? Também a marcha do piano (****) rumo aos núcleos urbanos que prosperavam, graças à riqueza gerada pela cafeicultura. Logo o comércio de pianos seria um importante negócio, afinadores teriam trabalho garantido, assim como professores, cujos alunos (e, em especial, alunas), queriam brilhar em exibições nos saraus e outros encontros da elite cafeeira. Ninguém tocava outros instrumentos? Claro que sim. Pois se havia até bandas e orquestras compostas por escravos!
A ampliação da cafeicultura, com sua inevitável demanda por mão de obra, favoreceu a ocorrência de outro fenômeno, o da imigração europeia. Muita gente vinha para trabalhar, trazendo na bagagem uma rica tradição musical. Em momentos de lazer, de festas cívicas ou de devoção, as habilidades no canto ou na execução de algum instrumento eram postas em uso. Vejam, portanto, que notável amálgama estava em processo na música brasileira.
Outro anúncio de loja de pianos em São Paulo,
1907 (*********)
É verdade que a popularização de fonógrafos e gramofones nas primeiras décadas do Século XX representou algum perigo para as apresentações musicais ao vivo, fossem elas públicas ou domésticas. Houve quem julgasse preferível ouvir, vezes seguidas, alguma gravação feita por profissionais, tanto da música erudita como da popular, ao invés de tolerar as execuções nem sempre brilhantes dos músicos amadores das redondezas. A mania, porém, foi passageira. Cantar e tocar, afinal, pode ser experiência muito mais prazerosa que simplesmente ouvir gravações (*****). Pergunto apenas se nós que estamos no Século XXI, presenciando um declínio espantoso no número de aprendizes de piano no Brasil, ainda veremos renascer o amor por esse instrumento. Seria pedir demais?

(*) As primeiras ferrovias implantadas no Século XIX eram chamadas "caminhos de ferro".
(**) Para quem toca piano, não preciso explicar o que isso significa. Para os demais, recomendo encontrar um professor e começar as aulas agora mesmo...
(***) O "Oeste paulista" da cafeicultura não corresponde ao Oeste geográfico da Província e, depois, Estado de São Paulo.
(****) Uma tabela de 1866, estabelecida pelo Governo Provincial, determinava a cobrança de 112 mil réis "por tonelada métrica" para o transporte de pianos nas ferrovias paulistas.  
(*****) Em minha opinião, há lugar e hora para tocar e cantar, assim como para ouvir. Não há necessidade de eliminar alguma dessas coisas.
(******) CORREIO PAULISTANO, 5 de fevereiro de 1867.
(*******) VIDA PAULISTA, Ano I, nº 4, 3 – 4 de outubro de 1903.
(********) O ECHO, Ano XV, nº 4, outubro de 1916.
(*********) A VIDA MODERNA, Ano II, nº 29 – 30, 25 de dezembro de 1907.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nos Banquetes da Antiguidade

Curiosidades Sobre as Preferências de  Comida e Bebida Entre Povos Antigos


Você beberia neste "cálice" grego? (*)
1. Templos do mundo greco-romano eram locais de banquetes frequentes em honra dos deuses. Comida e bebida eram acompanhadas por música e dança, mas, como é óbvio, as estátuas de divindades, ainda que assistindo às festanças, não provavam coisa alguma. Não se pode dizer o mesmo quanto aos sacerdotes e devotos.

2. Em Roma estava disponível grande variedade de vinhos, de diversas procedências. Havia locais que vendiam vinho barato, de qualidade inferior, para a população pobre. Romanos de alta posição social eram consumidores de vinho superior, armazenado em ânforas, nas quais a data de produção e o tipo eram rigorosamente especificados.

3. Hesíodo, o poeta grego da Antiguidade, recomendou, em Os Trabalhos e os Dias: "Misture uma parte de vinho para três de água". Essa prática era comum, ao menos entre gregos e romanos, e o que variava era apenas a proporção dos dois líquidos. Em jantares importantes, escravos passavam junto às mesas com água quente e gelada, para atender às preferências dos convivas.

4. Os antigos egípcios atribuíam a invenção da cerveja ao deus Osíris. É quase desnecessário lembrar que cada povo que conhecia essa bebida também tinha um deus para responsabilizar por sua invenção. Portanto, leitores, todos já sabem, agora, por que é que, nos arredores do Nilo, havia tantas áreas nas quais a cevada era um cultivo importante.

5. Vida dura, a dos soldados romanos: entre eles, uma bebida muito usada nos acampamentos militares tinha o nome de oxycratum, e não era mais que uma reles mistura de água e vinagre.

6. De acordo com informação de Júlio César em De Bello Gallico, os antigos bretões se abstinham de comer gansos, lebres e galinhas.

7. Distribuições de trigo e outros cereais eram frequentes em Roma, como parte da chamada "política de pão e circo". Todavia, o imperador Valentiniano, que governou entre 364 e 375 d.C., foi além: mandou distribuir carne de porco entre a plebe.

8. É tradição que a carne de ganso era o alimento favorito de muitos faraós, e, no Egito, até mesmo gente que não pertencia à nobreza ou à elite sacerdotal costumava incluir essa ave na dieta, sempre que havia recursos para tanto.

9. Pavões faziam muito sucesso em Roma, mas não exclusivamente pela beleza de suas penas: quase não havia banquete em que não fosse servida carne de pavão. Ainda mais: ovos de pavão recheados eram tidos na conta de finíssima iguaria, somente encontrada nos festins dos mais ricos.

10. Afirma-se que o imperador Heliogábalo, que governou Roma entre 218 e 222 d.C., era grande apreciador de um prato preparado com cérebros de avestruz. Pode até ser exagero, mas era corrente na Antiguidade que, a cada festim imperial em que era oferecido o tal acepipe, umas seiscentas aves perdiam a cabeça, literalmente.

Cozinha romana em Pompeia (ou o que restou dela) (**)
11. Os grandes cozinheiros de Roma eram especialistas em preparar novidades para deslumbrar os convidados de um banquete. Uma das surpresas acontecia quando os escravos encarregados cortavam um animal assado e, em seu interior, havia outro, e outro, e mais outro, cada um de uma espécie diferente.

12. Não só de carne exoticamente preparada se fazia um banquete em Roma - frutas raras também eram valorizadas. Damascos frescos, por exemplo, chegaram a ser vendidos por um denário a unidade, ou seja, pelo valor que era pago por um dia de trabalho (***). Mais tarde, quando o cultivo de damasco se difundiu na Península Itálica e a produção, por consequência, aumentou, os preços caíram, já que, perdendo a característica de novidade, não havia grande demanda por seu uso nos jantares das famílias abastadas.

(*) JAENNICKE, Friedrich Geschichte der Keramik
Leipzig: J. J. Weber, 1900, p. 121
(**) ENGELMANN, Richard Pompeii
London: H. Grevel & Co., 1904, p. 82
(***) Em se tratando de trabalhadores braçais.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Anhumas

Uma Ave, Muitas Superstições


Anhuma (Anhima cornuta)
As anhumas (Anhima cornuta) impressionaram os colonizadores. Tudo culpa do espinho córneo que têm na cabeça, que, para os supersticiosos de antigamente, lembrava um chifre e, por isso mesmo, sugeria vínculos sinistros. Bobagem, é claro, mas isso é o que pensamos nós, que vivemos no Século XXI. 
Diz-se que, no passado, o rio Tietê era chamado Iguatemi, cujo significado seria "o rio das aves anhumas". Ora, leitores, isso foi há séculos. Embora eu não diga que seja impossível achar anhumas nas proximidades do Tietê, devo atestar que jamais vi qualquer delas por lá. Alguém dos leitores já viu?
O Padre Anchieta fez referência às anhumas, em carta escrita em São Vicente no ano de 1560. Descrevendo uma delas, observou: "(...) Quando grita parece o zurrar de um asno. (...) Quando acossada pelos cães, não foge, ainda que a grandeza do corpo não a embarace de voar; antes os afugenta, ferindo-os gravemente (...)." (*) Quanta coragem!
Já no Século XIX, Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, registrou em seu diário de viagem, no dia 1º de agosto de 1826:
"De manhã matou-se junto a uma lagoa uma anhuma (**), pássaro raro e notável (...) pela excrescência córnea fina, e de três e meia polegadas de comprido, que lhe nasce na cabeça. Tem também no encontro das asas dois esporões que, como armas defensivas, podem causar ferimentos graves. A plumagem é branca e preta, sarapintada na cabeça. preta e parda ao redor dos olhos, escura no resto do corpo, com exceção da barriga, que é branca. O íris é alaranjado. (...)." (***)
Com essas características, não causa surpresa que as anhumas, entre o povo pouco instruído, fossem alvo de um sem-número de superstições. Foi o que constatou José Vieira Couto de Magalhães, ao percorrer, em 1863, parte da Província de Goiás. O caso é que, tendo abatido uma dessas aves, notou que a tripulação do barco com o qual percorria o rio Araguaia entrou em viva discussão. Motivo? Cada um queria um pedaço da anhuma, e não era para comer, já que os ossos eram o principal assunto da disputa:
"(...) Este requeria uma espécie de unicórnio que elas [as anhumas] trazem sobre a cabeça; aquele queria um esporão; um outro o osso da coxa esquerda, e, como eram muitos, cada um alegava seu direto, sem que nenhum tivesse razão." (****)
Disposto a averiguar a causa da porfia, Couto de Magalhães descobriu que a mais crassa superstição motivara o interesse por esquartejar a ave: 
"(...) Segundo eles, eram preservativos contra maus ares, maus olhos, mordedura de animais venenosos, e outras que tais coisas.
Um dos companheiros de viagem contou-me então que em Goiás, e sobretudo no norte da Província (*****) esta crença é geralmente espalhada. Extraem ossos do animal, fazem-lhes furos, e atam-nos ao pescoço das crianças, como um talismã que lhes preserva de quase todos os males." (******)
Hoje achamos graça nessas crendices, e tendemos a interpretá-las como uma espécie de folclore. Mas, há menos de duzentos anos, havia, como se vê, quem de fato acreditasse nelas. No interior do Brasil a instrução pública era quase inexistente, valendo o mesmo quanto aos cuidados médicos, de modo que a população, carente de esclarecimento e desconhecendo tanto práticas de higiene quanto as verdadeiras causas de doenças, buscava, em um conjunto de superstições, a proteção para o mundo que a amedrontava e não conseguia explicar.

(*) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 125
(**) Era comum que animais fossem mortos e empalhados, porque só assim é que poderiam ser expostos em museus pelo mundo afora.
(***) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 43
(****) MAGALHÃES, José Vieira Couto de Viagem ao Rio Araguaia
Goiás: Tipografia Provincial, 1864, p. 169
(*****) Atualmente, Estado de Tocantins.
(******) MAGALHÃES, José Vieira Couto de Op. cit., p. 169

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Lei de Talião

Lei de talião é o nome dado à punição de um crime de modo análogo à sua prática. Isso quer dizer que, se alguém intencionalmente provoca um ferimento em outra pessoa, deve, tanto quanto possível, receber um ferimento parecido; se comete um assassinato, deve ser condenado à morte, e assim por diante.
Muitos códigos da Antiguidade adotavam esse princípio. Era o caso da chamada Lei de Moisés: "vida em lugar de vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé..." (*) Alguns dos melhores exemplos, todavia, podem ser extraídos do Código de Hamurabi, proposto na Mesopotâmia no Século XVIII a.C., no qual encontramos alguns casos sumamente edificantes: se alguém acusasse outra pessoa de um crime passível de pena de morte, não sendo verdadeira a acusação, o acusador é que seria executado (**); a mulher que matasse ou contratasse alguém para matar o marido, a fim de ficar com outro homem, e/ou contratasse alguém para matar a mulher de outro homem (pela mesma razão), deveria ser empalada, assim como o homem com quem pretendia ficar. Para quem acha que é pouco, há mais:
"Se um homem ferir a outro, de modo que fique cego, então o ofensor deverá ter um olho arrancado."
"Se um homem quebrar um osso de outro, deverá ter um osso quebrado."
"Se um homem arrancar um dente de outro homem, de idêntica condição social (***), deverá ter um dente arrancado."
Além disso, havia, na época, a ideia (que hoje parece muito estranha, ao menos no mundo ocidental), de que o indivíduo somente fazia sentido no contexto do grupo familiar ou tribal a que pertencia (****). Um desdobramento horrendo dessa forma de pensar a sociedade é que um inocente podia acabar pagando pelo erro de outro membro de sua família. Isso era especialmente verídico em se tratando de filhos. O seguinte caso, também do Código de Hamurabi, é bastante elucidativo:
"Se um construtor edificar uma casa para alguém, mas não a fizer de forma apropriada e, em consequência, a casa cair, matando o proprietário, o construtor será morto. Se morrer o filho do proprietário, o filho do construtor será executado."
Que crime haveria cometido o filho do construtor? Nenhum, é claro, mas pagava pelo crime do pai, para que o princípio que regia a maior parte do Código não fosse quebrado. 
Lembremo-nos, no entanto, leitores, de que nem tudo no Código de Hamurabi era retribuído na medida da ofensa - havia penas muito piores...

(*) Exodus XXI, 23 - 25: "sin autem mors eius fuerit subsecuta reddet animam pro anima / oculum pro oculo dentem pro dente manum pro manu pedem pro pede / adustionem pro adustione vulnus pro vulnere livorem pro livore".
(**) A intenção, neste caso, é que era punida.
(***) No Código de Hamurabi a atribuição da pena dependia da condição social do ofensor e do ofendido.
(****) Mesmo na supostamente civilizadíssima Roma os filhos inocentes de um criminoso podiam ser executados - basta lembrar o que aconteceu à família de Sejano, que chegara a ser um dos homens mais poderosos no tempo do imperador Tibério.

terça-feira, 11 de abril de 2017

O Colégio de São Paulo e o Início da Catequese de Indígenas no Brasil

De acordo com José de Anchieta, o primeiro colégio dos jesuítas em São Paulo, aquele de 1554, era muito pequeno:
"Assim, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia, que se chama Piratininga, chegamos a 25 de janeiro do ano do Senhor de 1554, e celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa." (*)
Este relato aparece em uma carta escrita na própria Casa de São Paulo, provavelmente no final de setembro de 1554. Nesse mesmo documento, Anchieta forneceu outras informações sobre o lugar em que viviam:
"De janeiro até o presente tempo permanecemos, algumas vezes mais de vinte, em uma pobre casinha feita de barro e paus, coberta de palhas, tendo quatorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha, a despensa; todavia, não invejamos as espaçosas habitações de que gozam em outras partes os nossos irmãos, pois N. S. Jesus Cristo se colocou em mais estreito lugar, e dignou-se nascer em pobre manjedoura, entre dois brutos animais, e morrer em altíssima cruz por nós." (**)
Por que a primitiva construção ocupada por jesuítas em São Paulo era tão pequena? Southey, em sua História do Brasil, argumentou, com acerto, que não era por falta de espaço para construir, mas errou ao supor que os missionários viviam assim como forma de proteção contra o frio. Ora, leitores, o Colégio de São Paulo foi fundado em janeiro de 1554 - portanto, em pleno verão - não havendo o menor sentido em acreditar que a mísera construção em que foi celebrada a primeira missa era para garantir que nenhum jesuíta ou indígena morresse congelado. Basta continuar a leitura da carta de Anchieta para compreender o que acontecia:
"Os índios por si mesmos edificaram para nosso uso esta casa; mandamos agora fazer outra algum tanto maior, cujos arquitetos seremos nós, com o suor do nosso rosto e o auxílio dos índios." (***)
Então, tudo se explica: o local da primeira missa, oficiada pelo padre Manuel de Paiva, foi erguido às pressas, para dar início ao trabalho de catequese na aldeiazinha de Piratininga; assim que as circunstâncias permitiram, fez-se nova construção. 
A partir de um documento datado de 1584, cuja redação também é atribuída a Anchieta, entende-se que, a princípio, a ideia era estabelecer um colégio para catecúmenos em São Vicente. Todavia, Manuel da Nóbrega julgou apropriado mudar a localização porque em Piratininga havia maior fartura de alimentos. 
Assim nasceram a cidade e o colégio de São Paulo, um por causa do outro. Como casa de jesuítas, não foi a primeira fundada em terras portuguesas na América, já que, nesse aspecto, a Cidade da Bahia (Salvador), como sede do Governo-Geral, teve a prioridade; mas, conforme o citado documento de 1584, foi em São Paulo de Piratininga que "se começou de propósito a conversão do Brasil, sendo esta a primeira igreja que se fez entre o gentio (****)." (*****) 

(*) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 38
(**) Ib., p. 43
(***) Ib.
(****) O termo "gentio" era usado como sinônimo de indígena não catequizado.
(*****) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Op. cit., p. 321

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Deuses Gregos e Romanos

Entre as obras de arte da Antiguidade que sobreviveram até nossos dias, as esculturas de deuses gregos impressionam. Alguém poderá dizer: Sim, têm formas perfeitas, mas são deuses!...
É verdade, leitores, são deuses, mas não se esqueçam de que, para que escultores pudessem trabalhar, era preciso que existissem humanos, muito reais, que posassem como modelos.
Ocorre que, se na forma física as divindades gregas eram espetaculares, o mesmo não pode ser dito quanto ao caráter. A mitologia foi pródiga em relatar as ações nada meritórias que eram prática corrente entre os habitantes do Olimpo - afinal, uma comunidade bem pouco virtuosa.
Embora, ao longo dos séculos, a lista de deuses principais tenha variado um pouco (isso acontece até entre deuses), um padrão frequente era este, que pode ser visto na tabela abaixo, com seus correspondentes venerados em Roma (*):


Além das figuras mais importantes, havia ainda uma infinidade de deuses menores, além de semideuses, metade humanos, metade divinos. Já se nota que a fidelidade conjugal não era moda no Olimpo.

(*) Há quem discorde da correspondência entre deuses da Grécia e de Roma, mas, como regra geral, ela ainda é aceita. Quando Roma estava apenas começando, já havia colônias gregas expressivas na Península Itálica.

terça-feira, 4 de abril de 2017

O Cuidado dos Indígenas com as Espadas que Recebiam dos Franceses

Espadas não se encontravam entre as armas típicas dos povos indígenas do Brasil, visto que, desconhecendo a forja de metais, simplesmente não podiam fabricá-las. Além disso, desde que puseram os pés em terras da América, proibiu-se aos portugueses que trouxessem armas para os indígenas, conforme podemos ver por esta ordem existente no Livro da Viagem da Nau Bretoa, que veio ao Brasil em 1511:
"Notificareis isso mesmo a toda a dita companhia que não resgate, nem venda e nem troque com a gente da dita terra nenhumas armas de nenhuma sorte que seja, punhais, nem outras nenhumas coisas que são defesas (*) pelo santo padre e por el-rei nosso senhor, e poderão levar facas e tesouras como sempre levaram."
O escambo por meio de ferramentas era permitido, ao contrário do que ocorria com armas, e isso por uma razão bastante simples: evitar que indígenas tivessem meios de enfrentar, com igualdade, os colonizadores, na hipótese de ocorrer algum confronto (**).
Entretanto, franceses que alcançaram o Brasil em tentativas de estabelecer uma colônia no Hemisfério Sul não tinham o mesmo receio. Sabemos, por relato de Jean de Léry, que os que vieram para a França Antártica (***) traziam até mesmo armas de fogo baratas para trocar por artigos indígenas (alimentos, principalmente). Tiveram, assim, a oportunidade de observar, não sem alguma surpresa, que os tupinambás eram hábeis em aprender o uso dessas armas, ainda que, vez ou outra, algum acidente acabasse por acontecer.
A França Antártica teve vida curta. Já no Século XVII, franceses fizeram nova tentativa, buscando estabelecer uma fortaleza no Maranhão, à qual deram o nome de forte de São Luís. Para doutrinar indígenas, vieram alguns capuchinhos, cujo líder, padre Yves d'Évreux, escreveu um livro no qual tratou de relatar suas aventuras nos dois anos que permaneceu no Brasil (1613 - 1614). 
Julgando, ao que parece, que os indígenas podiam ser úteis em reforçar a defesa do forte contra um ataque de portugueses que, cedo ou tarde, acabaria por acontecer, franceses forneciam espadas, principalmente aos chefes, e tratavam de ensinar como deviam ser usadas. Observou o padre d'Évreux:
"Causa gosto ver o zelo e o cuidado com que trazem as espadas que lhes dão os franceses, sempre a seu lado, sem nunca tirá-las senão quando se deitam, e quando trabalham em suas roças, penduram-nas junto a si em algum ramo de árvore, fazendo-me lembrar da história de Neemias (****), na reparação dos muros de Jerusalém, quando os seus habitantes traziam numa das mãos as armas e na outra os instrumentos de trabalho." (*****)
O desvelo dos indígenas ia além, no modo como as armas eram mantidas em perfeitas condições de uso:
"Gostam muito de trazer as espadas tão limpas como cristal, e para isso as esfregam com areia fina e azeite de mamona, amolam-nas repetidas vezes para estarem sempre cortantes, aguçam as pontas, quando estão gastas pela ferrugem muito comum na zona tórrida." (******)
À semelhança do que ocorreu com a França Antártica, a colônia francesa no Maranhão redundou em fracasso, e, portanto, os portugueses retomaram o controle da área. Não fora pelos escritos do padre Ives d'Évreux, talvez nunca viéssemos a saber do amor que os indígenas do norte do Brasil manifestavam por suas espadas.

(*) Isto é, proibidas.
(**) Como se sabe, combates entre indígenas e colonizadores não demoraram a ocorrer.
(***) Em terras do atual Estado do Rio de Janeiro.
(****) O texto a que Yves d'Évreux faz referência é este:
"aedificantium in muro et portantium onera et inponentium 
uma manu sua faciebat opus 
et altera tenebat gladium / 
aedificantium enim unusquisque gladio erat accinctus renes 
et aedificabant et clangebant bucina iuxta me" (II Esdrae 4, 17 - 18)
(*****) D'ÉVREUX, Yves Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614
Maranhão: Typ. do Frias, 1874, pp. 37 e 38
(******) Ib., p. 38

quinta-feira, 30 de março de 2017

Espécimes Animais que Você Jamais Encontrará em um Zoológico

Seria difícil exagerar o progresso na impressão de livros ao longo do Século XVI, tanto em quantidade como em qualidade. Embora ainda não fossem baratos, os livros impressos eram muito mais acessíveis que os belos exemplares medievais copiados à mão e repletos de iluminuras. Mais gente lia, mais autores escreviam e publicavam. O desenvolvimento da qualidade gráfica possibilitou o aparecimento de livros como ICONES ANIMALIVM QVADRVPEDVM VIVIPARORVM ET OVIPARORVM e ICONES ANIMALIVM AQVATILIUM IN MARI & DVLCIBVS AQVIS de Conrad Gesner, publicados em Zürich em meados do Século XVI, com centenas de ilustrações: nesse tempo, cada uma delas precisava ser preparada manualmente por um artista, para, depois, ser inserida na composição da respectiva página. 
Os livros em questão mostravam animais chamados "domésticos", que todo mundo conhecia, tais como bois, vacas, patos, galinhas, cabras, etc., e também centenas de peixes, além de animais considerados selvagens, como rinocerontes, elefantes e girafas, sobre os quais reinava grande curiosidade, já que pouca gente na Europa tivera ocasião de vê-los, durante alguma viagem. 
Além de toda essa bicharada, as obras incluíam, aqui e ali, alguns seres realmente exóticos (se é que podemos falar assim), cujas aparições havia quem relatasse como autênticas. Leitores, é até difícil explicar! Será melhor se passarmos imediatamente às imagens (*), que falarão por si mesmas.

1. Nem mesmo o autor se atreveu a dar nome; o monstro teria sido capturado em Salzburg no ano de 1531.


2. Alguém sabe o que é isso? A cauda lembra o cangambá ou a jaratataca, mas leva os filhotes consigo, como os gambás. As semelhanças param aí. Gesner dizia que era um animal do Continente Americano. Leitores, se algum dia virem um desses, venham contar aqui no blog, sim?


3. A aparição deste animal teria sido registrada na Itália. Como está incluído no livro dos animais aquáticos, supõe-se que fosse um deles. Seria isso a representação infeliz de um otarídeo - leão-marinho ou lobo-marinho, talvez?


4. Dois semelhantes: o primeiro teria sido avistado em Roma em novembro de 1523; já o segundo ("demônio-marinho"), com direito a aparições na Bélgica (Antuérpia), Noruega e Alemanha, vinha acompanhado de referências a autores da Antiguidade que atestavam sua existência.



5. Hidras são cnidários de água doce, e não há nada de monstruoso nisso. Mas a hidra de Conrad Gesner era muito parecida com o venenosíssimo animal da mitologia grega - o texto alemão falava em "serpente aquática com sete cabeças" - e são sete mesmo, todas bastante humanoides...


Quem de vocês terá visto estes bichos em algum zoológico ou aquário? Será que alguém teve a ideia de capturar e dissecar qualquer deles? Os livros de Gesner traziam também o unicórnio, o peixe-monge e o peixe-bispo, personagens que já andaram frequentando este blog.
Hora de falar sério, leitores. O que estas criaturas estranhas nos mostram é que:
  • Havia, no Século XVI, muita curiosidade por saber o que existia em outras terras (lembrem-se de que os livros de Conrad Gesner foram publicados algum tempo depois do apogeu do Renascimento e das Grandes Navegações, e logo contavam com várias edições);
  • Não podemos descartar o fato de que autores e editores incluíssem coisas absurdas intencionalmente em suas obras, como uma espécie de isca para fisgar leitores crédulos e/ou curiosos;
  • A sede de conhecimento vinha, muitas vezes, acompanhada da falta de informações confiáveis, e até especialistas geniais, como era o caso de Gesner, ainda eram crédulos para supor a existência real dessas simpáticas criaturas - criadas pela imaginação, naturalmente.

No Brasil, um pouco mais tarde...

O jesuíta Simão de Vasconcelos escreveu, no Século XVII, em suas Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil:
"Monstros marinhos têm saído à costa, de cuja espécie, nem antes, nem depois sabemos que houvesse notícia em outra alguma parte do mundo. (...) Dos peixes-homens e peixes-mulheres vi grandes lapas junto ao mar, cheias de ossadas dos mortos; e vi suas caveiras, que não tinham mais diferença de homem ou mulher, que um buraco no toutiço, por onde dizem que respiram." (**)
Vejam só, leitores: não é que, afinal, apareceu uma testemunha ocular?!!!

(*) Para esta postagem seguiu-se a segunda edição das obras citadas, publicadas em Zürich por Christof Froshover em 1560; as imagens foram editadas digitalmente para facilitar a visualização neste blog.
(**) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil
Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 279 e 280

terça-feira, 28 de março de 2017

Escravos Africanos em Lugar de Indígenas

A escravidão, no Brasil, foi de indígenas e de africanos. Desumana, em um e outro caso, como só ela pode ser. Os indígenas tinham nos missionários jesuítas valentes defensores, que se opunham à sua escravização. Os cativos de origem africana, não. Por quê?
O padre Antônio Vieira (*), em uma de suas cartas, escreveu que calvinistas e luteranos eram menos hereges que paulistas, porque "enforcam a quem furta e fazem pagar a quem deve, e a seita pauliniana [sic] tudo isto está devorando sempre sem escrúpulo." (**)
Só é possível compreender perfeitamente o que Vieira queria dizer se duas coisas forem consideradas em relação aos jesuítas que empreendiam a catequese no Brasil: o desgosto em relação à chamada "heresia protestante" e o ódio aos paulistas que escravizavam indígenas. 
Não se deve pensar, entretanto, que a escravização da população nativa era fenômeno restrito a São Paulo. Em um documento atribuído a outro jesuíta, o padre José de Anchieta (***), pode-se ler esta observação, relacionada à Bahia e adjacências:
"(...) Já sabem [os indígenas] por todo o sertão, que somente gente que está nas igrejas, onde os padres residem, tem liberdade, que toda a mais é cativa (...)." (****)
Isso acontecia porque os missionários eram audazes em fazer frente aos colonizadores, quando o assunto era a escravização de indígenas ou qualquer outra ação que comprometesse sua catequese; em alguns casos, houve até rebeliões de colonos contra a presença da Companhia de Jesus, ao ponto de serem expulsos os padres, como aconteceu em São Paulo no ano de 1640.
Entretanto, observando o outro lado dessa história, veremos que a posição dos jesuítas em relação aos escravizados africanos e/ou de origem africana era muito diferente. Os próprios missionários tinham escravos a seu serviço, e não viam nada de errado em tal prática. Em uma carta enviada ao rei D. João III em 1551, o padre Manuel da Nóbrega (*****) foi explícito em pedir escravos para o Colégio da Bahia:
"(...) Mande dar alguns escravos de Guiné à Casa [Colégio da Bahia], para fazerem mantimentos, porque a terra é tão fértil, que facilmente se manterão e vestirão muitos meninos, se tiverem alguns escravos que façam roças de mantimentos e algodoais (...)." (******)
Outro exemplo pode ser encontrado na sugestão feita pelo padre Antônio Vieira, tendo em vista a queixa persistente dos moradores do Maranhão, de que a catequese de indígenas resultava em falta de mão de obra para as lavouras:
"(...) Não podem haver ao presente outros meios mais certos e efetivos, que os de meter no dito Estado [do Maranhão] escravos de Angola (...).
(...)
Comprem e remetam ao Maranhão duzentos escravos, que devem ser homens e mulheres em ordem à propagação [sic] (...)." (*******)
Como explicar a diferença no trato dos jesuítas com indígenas e africanos? Nos dois casos, a resposta está na catequese. Os missionários da Companhia de Jesus queriam os indígenas "livres", para que, reunidos em aldeias sob a vigilância dos padres, fossem submetidos a doutrinação. Entretanto, apoiavam a escravização de africanos porque entendiam que, vindo ao Brasil, estariam ao alcance da catequese. Por isso, houve até quem julgasse que, em última análise,  a escravidão era um benefício que se fazia aos africanos...
Uma ideia de como era feita a doutrinação de escravizados, fossem eles indígenas ou africanos, pode ser obtida por esta descrição, proveniente de outro relato de Anchieta: 
"O método que se adota nestas missões é ensinar e explicar a doutrina cristã aos índios e africanos reunidos em um lugar, batizar, ouvir-lhes as confissões, separá-los das concubinas e sujeitá-los às leis do matrimônio, o que nesta Província é trabalho quotidiano, necessário e utilíssimo à salvação das almas." (********)
A que conclusão chegamos, leitores? No que se refere à escravidão de africanos, por séculos houve bem pouca gente que atinasse com sua imoralidade, mesmo dentro de contextos estritamente religiosos. Nos chamados países protestantes, o movimento abolicionista precisou lutar contra quem, com base na Bíblia, defendia a manutenção da ordem escravista. Interessante é que a mesma fonte era citada por quem queria acabar de vez com a escravidão. Não foi diferente onde o catolicismo predominou (*********), o que vale, certamente, também para o Brasil. 

(*) 1608 - 1697.
(**) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2
Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 474
(***) 1534 - 1597.
(****) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S. J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 378
(*****) 1517 - 1570.
(******) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed.
Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, pp. 307 e 308
(*******) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Op. cit.
Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, pp. 176 e 177
(********) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S. J. Op. cit.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 399
(*********) Para quem tiver interesse no assunto, poderá ser útil correr os olhos por uma obrinha de muita importância, escrita por José Bonifácio de Andrada e Silva, e que tem por título A Abolição.

quinta-feira, 23 de março de 2017

As Virtudes dos Sete Reis de Roma

Como encontrar virtudes em quem não parece ostentar nenhuma delas? Pois foi exatamente isso que fez Aneu Floro, historiador contemporâneo do imperador Adriano (*). 
Todo mundo sabe que os primeiros romanos estavam longe de ser gente muito recomendável; eram desordeiros que contribuíam para transtornar a vida de seus vizinhos na Península Itálica. Pouco se conhece quanto ao seu modo de vida, e, como afirma um antigo provérbio, "quando a História guarda silêncio, as fábulas começam a falar". Neste caso, as fábulas não só falam, mas tagarelam com notável loquacidade.
Existe certo consenso de que a povoação que deu origem a Roma deve ter começado como uma humilde aldeia de pastores, às margens do Tibre, em algum momento entre o ano 1000 e o ano 800 a.C.; a fundação "oficial" da cidade, porém, reconhecida pelos antigos romanos, teria acontecido em 753 a.C., por obra dos gêmeos Rômulo e Remo, aqueles que, jogados no rio quando bebês, não afundaram e foram alimentados por uma loba... Aí está, portanto, uma fábula falante. Rômulo teria sido o primeiro rei e, depois dele, vieram outros seis. Alguns fatos associados aos reis de tempos remotos são bastante duvidosos, mais parecendo lendas (**), já que quase nada existe sobre eles que mereça o nome de sólida documentação (todos os autores que fazem referência a seus respectivos governos viveram muito tempo depois). 
De qualquer maneira, os sete reis foram Rômulo (***), Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e, finalmente, Tarquínio, o Soberbo. E é aí que entra Aneu Floro (****), autor de Epitome rerum Romanarum, atribuindo uma grande virtude a cada um dos monarcas que teriam ajudado a lançar os fundamentos do que viria a ser o Império Romano:
  • Rômulo - Tinha espírito empreendedor, fundou a cidade;
  • Numa Pompílio - Muito religioso, conseguiu "domar" os ferozes romanos, ao instituir entre eles o respeito aos deuses;
  • Túlio Hostílio - Era um mestre na arte da guerra, disciplinou os romanos para o combate, estabelecendo as bases do exército;
  • Anco Márcio - Dedicou-se às construções necessárias à cidade;
  • Tarquínio Prisco - Criou símbolos, divisas e outros adereços (anéis, togas, etc.) para estabelecer a dignidade dos cargos públicos e do povo romano;
  • Sérvio Túlio - Fez realizar o primeiro censo e organizou estritamente a administração da cidade;
  • Tarquínio o Soberbo - Se devemos crer em autores como Tito Lívio e Floro, este rei foi um imprestável, que distribuiu ofensas abomináveis entre ricos e pobres, famosos e desconhecidos. Onde estaria a virtude? Floro saiu-se com essa: "(...) O povo, ofendido por suas injúrias, moveu-se pelo desejo de liberdade." Ou seja: a opressão foi útil porque fez brotar um sentimento contrário ao governo exercido por um rei. 
Tarquínio foi deposto e exilado, Roma tornou-se uma República.

(*) Adriano governou entre 117 e 138; portanto, no Século II.
(**) Entende-se que os reis existiram, mas os atos de governo atribuídos a eles carecem ainda de certezas, embora pesquisas históricas e arqueológicas nesse sentido continuem a acontecer.
(***) Há quem afirme que, durante algum tempo, Rômulo teve um companheiro no comando de Roma (não era seu irmão Remo, que foi assassinado). Neste caso, seriam oito e não sete os reis de Roma.
(****) Nessas questões relativas aos tempos remotos de Roma, Floro se reporta aos escritos de Tito Lívio.

terça-feira, 21 de março de 2017

Sinais de Fumaça

Os antigos romanos tinham um sistema de comunicação por meio de sinais de fumaça, que estava em uso para propósitos militares. De acordo com o que Políbio de Megalópolis registrou em sua História, o método, com o passar do tempo, foi aperfeiçoado, tornando-se mais complexo, sim, mas permitindo, com boa execução, transmitir mensagens de fumaça que exprimiam as letras do alfabeto. Empregava-se, naturalmente, o mínimo de letras ou palavras para comunicar uma ideia, lembrando um pouco o que, muito mais tarde, aconteceria com os telegramas. Entretanto, era preciso, a bem da eficiência, que os soldados a quem se encarregava a transmissão de mensagens fossem devidamente treinados. 
Um buriti (no centro da imagem)
A complexidade podia até não ser a mesma, mas os indígenas do Brasil também empregavam sinais de fumaça, sempre que desejavam mandar recados à distância. Aqueles que viviam no Brasil Central faziam uso deste método, descrito por José Vieira Couto de Magalhães:
"Vão subindo por um buriti (*) e amarrando em torno dele, com um palmo de espaço, faixas de capim verde; descem depois, e ateiam-lhe fogo: a última das faixas o comunica às outras, de modo que a gigantesca palmeira serve de farol, não só por ficar toda em brasas, como também pela coluna elevada de fumaça, que se eleva ao céu em forma de espiral." (**)
É possível que alguns dos leitores queiram saber qual era o objetivo desse sinal. De acordo com Couto de Magalhães, era ao cair da tarde que xavantes, carajás e outros povos faziam uso dele, com a finalidade de informar um ponto de encontro para grupos dispersos de caçadores, embora também pudesse ser usado, ocasionalmente, ao meio-dia, sempre que o líder tribal notasse algum perigo. Não era a sinalização militar dos romanos, é verdade, mas funcionava.

(*) Palmeira típica do Brasil Central, mas que pode, também, ser encontrada em outras áreas.
(**) MAGALHÃES, José Vieira Couto de Viagem ao Rio Araguaia
Goiás: Tipografia Provincial, 1864, p. 64

quinta-feira, 16 de março de 2017

Como os Antigos Romanos Interpretavam a Aparição de Cometas

Os que acreditavam em presságios
usavam a forma dos cometas como indício
para suas "previsões" (**)
Povos da Antiguidade - quase todos - tendiam a ver nos fenômenos celestes algum tipo de recado dos deuses. É fácil, hoje, lançar um olhar para seus registros e dizer que não passam de tolices; foram, no entanto, a origem, ainda que remota, de muita coisa a que chamamos ciência em nossos dias. É claro que foi preciso um longo tempo para separar fatos de crendices sem nenhuma base além da imaginação humana, em especial se considerarmos que quase tudo se fazia empiricamente, sem um método de investigação que pudesse assegurar a integridade dos resultados.
Romanos eram apaixonados por cometas, aos quais atribuíam virtudes premonitórias, às vezes como presságio favorável, mas, também, como aviso de tragédia. Plínio, o Velho, no Livro II de sua História Natural, relatou aparições notáveis de cometas "durante a guerra civil no consulado de Otávio, novamente durante a guerra entre Pompeu e César, ou em nosso tempo (*) por ocasião do envenenamento que assegurou a sucessão do Império de Cláudio César para Domício Nero e, posteriormente, já durante o principado de Nero [um cometa] apareceu quase continuamente com um brilho pavoroso."
Ora, em se tratando de Nero, nem era preciso um evento celeste! Ainda de acordo com Plínio, era em Roma que estava o único templo no mundo consagrado ao culto de um cometa. Não é surpreendente, portanto, que os hábeis políticos romanos tratassem de tirar o melhor partido da crença popular na influência desses belos viajantes do espaço. Augusto (***), a quem hoje reconhecemos como o primeiro imperador, afirmou, segundo relato de Plínio:
"Nos dias de meus jogos (****) viu-se, ao norte, um cometa, que apareceu por sete dias. Era observável em toda parte, cerca de uma hora antes do pôr do sol, como uma brilhante estrela. Acreditou-se que essa estrela fosse a alma de César, recebida entre os numes imortais, e, por essa razão, uma estrela foi acrescentada ao busto de César que logo depois foi dedicado no fórum."
Entende-se, neste caso, que Augusto interpretou a aparição do cometa como um presságio favorável. Favorável até demais, já que, por informação de Plínio, sabemos que o futuro primeiro imperador dizia em público que o cometa seria a alma de César que brilhava entre os deuses, mas que, em particular, estava alegre com a suposição de que o objeto celeste, tendo aparecido durante os jogos que ele próprio convocara, vinha assegurar sucesso a seus projetos de poder. Se esta informação for correta, deve-se concluir que o imperador também acreditava piamente em presságios.
E Plínio (*****), cujos escritos nos ajudam a bisbilhotar o que se passava na Antiga Roma? Acreditava, ele também, que os cometas traziam recados e avisos dos deuses? Para nossa sorte, nem precisamos fazer inferências, já que a História Natural traz a resposta dada por ele mesmo:
"Meu ponto de vista é de que esses eventos [aparição de cometas, meteoros, etc.] sucedem em datas fixas, sob o comando das forças naturais, como todos os outros fenômenos, ao contrário do que pensa o vulgo, sob uma variedade de razões imaginadas." (******) 
Excelente consideração para um estudioso da natureza que viveu no primeiro século da Era Cristã. Morreu em 79 d.C., sufocado por uma nuvem de gases provenientes da erupção do Vesúvio que destruiu Pompeia e Herculano. Nem é preciso dizer que tentava observar o fenômeno...

(*) No tempo dele!
(**) MALLET, Allain Manesson Description de L'Univers
Paris: Denys Thierry, 1683
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(***) Otávio, ou Gaio Júlio César Otaviano, também chamado Augusto, o primeiro imperador em Roma.
(****) Depois do assassinato de Júlio César.
(*****) Plínio, o Velho, foi uma das mentes mais brilhantes de seu tempo, capaz de reunir e catalogar uma quantidade absurda de informações, ainda que muitas delas, aos nossos olhos, não passem de lorotas cabeludas. Mas isso nós sabemos depois de milênios de estudo e pesquisa. 
(******) Os trechos citados de Naturalis Historia que aparecem nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

terça-feira, 14 de março de 2017

Veículos Que Você Não Encontrará Nas Ruas (Mas Que Já Estiveram Nelas)

Em algum desfile ou encontro de proprietários de veículos antigos pode ser; em situações normais, nenhum de vocês, leitores, encontrará veículos como estes nas ruas. Mas eles já estiveram nelas e, lembrem-se, foram considerados como a última palavra em modernidade. Sábias lições podem ser deduzidas!
Comecemos com os de duas rodas do Século XIX. Primeiro, uma bicicleta para um ciclista (*):


Então, este exótico modelo para dois ciclistas (**):


Deixando de lado questões relacionadas ao conforto de quem usava uma bicicleta com rodas tão desiguais, observemos, por um instante, os trajes dos homens que aparecem nas ilustrações, em nada semelhantes aos uniformes dos atletas do Século XXI. Resta saber quem acharia os trajes alheios mais estranhos: se nós, observando os dos antigos, ou se os antigos, se pudessem ver os nossos.
Agora, veículos de quatro rodas. Como ainda acontece, a propaganda nas primeiras décadas do Século XX procurava associar luxo, prestígio, conforto e tecnologia à posse de um automóvel de "último tipo", respectivamente 1912 (***) e 1914 (****):




Finalmente, uma verdadeira relíquia, de que poucos leitores devem ter conhecimento: um bonde-ambulância. É isso mesmo! A notícia da inauguração desse veículo foi publicada na edição de 29 de janeiro de 1922 da revista carioca O Malho (*****), trazendo esta legenda: "O bonde-ambulância, destinado aos serviços da Assistência Pública Municipal, há dias inaugurado." 

Bonde-ambulância no Rio de Janeiro em 1922 (*****)

(*) SPENCER, C. The Modern Bicycle
London: Frederick Warne and Co., 1876, p. 29
(**) Ib., p. 27
(***) ILLUSTRAÇÃO PAULISTA, Ano II, nº 57
São Paulo, 17 de fevereiro de 1912
(****) A VIDA MODERNA, Ano IX, nº 221
São Paulo, 14 de maio de 1914
(*****) O MALHO, Ano XXI, nº 1037
Rio de Janeiro, 29 de julho de 1922. O original pertence à BNDigital.
Todas as imagens desta postagem foram editadas para facilitar a visualização neste blog.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Instrumentos Musicais da Antiguidade

Povos da Antiguidade construíram e usaram uma ampla variedade de instrumentos musicais. Seria quase impossível listar todos os recursos de que os antigos dispunham para fazer música, de modo que somente trataremos aqui dos instrumentos conhecidos entre os povos da região do Mediterrâneo e adjacências, bem como da Mesopotâmia e de alguns de seus vizinhos.

Músicos assírios, com seus instrumentos, celebrando uma conquista militar (*)
Na construção de instrumentos eram usados diversos materiais: madeira, ossos (de animais, mas, às vezes, até de humanos), chifres de animais, peles (para instrumentos de percussão), fibras vegetais e crinas de animais para cordas. O uso de metais também acontecia, sendo, porém, mais raro, já que demandava um conhecimento técnico, a metalurgia, que não estava disponível entre todos os povos.
Músico grego com
instrumento de cordas (***)
Em se tratando de instrumentos de cordas, as harpas e suas variantes eram bastante empregadas. Embora pudessem ser encontradas em diversos tamanhos, nunca eram muito grandes, pois, do contrário, não seriam facilmente transportadas (**). O princípio básico para confecção de uma harpa era a fixação de cordas de diferentes comprimentos em algum tipo de arco, geralmente de madeira. Supõe-se que, no começo, as cordas fossem tocadas apenas com os dedos do músico. Mais tarde os plectros foram introduzidos.
Representação egípcia
de uma raposa tocando
flauta dupla (*****)
Instrumentos de sopro eram, até onde se sabe, feitos inicialmente com tubos ocos, aos quais, mais tarde, foram acrescentados orifícios, para dar origem às flautas primitivas. Havia também as flautas duplas, conhecidas entre egípcios, gregos, assírios e romanos (****), e as flautas de pan, em que tubos de diferentes tamanhos eram associados em um único instrumento. Trombetas feitas com chifres ou com metais tinham uso militar e religioso. 
Para a percussão, supõe-se que mãos e pés tenham sido originalmente empregados, e que o desenvolvimento de uma vasta gama de tambores (excelentes para a prática coletiva da música), tenha acontecido com o desejo de ampliar a intensidade do som que se obtinha. Pratos ou címbalos e triângulos também tinham uso frequente.
Observem, leitores, que vários dos instrumentos aqui citados, depois de séculos de desenvolvimento das técnicas de construção, continuam ainda em uso. Não é interessante? Entretanto, há relativamente poucos exemplares de instrumentos da Antiguidade que chegaram até nossos dias. Isso acontece porque os materiais de que eram confeccionados nem sempre eram duráveis o bastante para uma sobrevivência de milênios.
Músicos nômades podiam tocar à noite, ao redor de fogueiras, quando descansavam, depois de caminhadas exaustivas acompanhando rebanhos; entre os sedentarizados, a música era ingrediente que não podia faltar nas festas em honra dos deuses ou nas comemorações das grandes conquistas militares. Em todos os casos, havia música para celebrar a vida, assim como para lamentar a morte. Temos um vínculo, pois, com os povos da Antiguidade: ainda que os instrumentos tenham evoluído, inclusive com o advento da música eletrônica, e que nossas canções sejam outras, não há dúvida que, aqui e ali, os temas ainda se repetem.

(*) LAYARD, Austen Henry Discoveries on the Ruins of Nineveh and Babylon
London: John Murray, 1853, p. 455
(**) Esse era um requisito importante entre nômades e seminômades.
(***) ADAMS, W. H. Davenport Temples, Tombs and Monuments
London: T. Nelson and Sons, 1871, p. 56
(****) Evidência do compartilhamento de bens culturais e troca de informações nas áreas em que viviam esses povos.
(*****) WRIGHT, Thomas A History of Caricature & Grotesque in Literature and Art
London: Virtue Brothers & Co., c. 1864, p. 7