quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Desmatamento Provocado Pela Agricultura no Período Colonial

Li, há pouco, uma notícia dando conta da preocupação de governantes brasileiros em fazer que os proprietários rurais assumam a responsabilidade pela recuperação de áreas que foram desflorestadas. Ora, leitor, se isso ocorrer - se - iremos ver este país na contramão de tudo o que já ocorreu no passado em termos de preservação de matas e florestas. Coisa óbvia, a colonização do Brasil se fez com base no desmatamento mais escandalosamente despreocupado. Isso não significa que não tenha existido ou não haja agora muita gente consciente, manejando os recursos naturais com responsabilidade, tratando de conciliar o máximo de produtividade na agricultura e na pecuária com a preservação de florestas que, de outro modo, estariam irremediavelmente perdidas. Mas isso, pelo menos até aqui, manifesta-se como exceção, e não regra.
Vejamos. Os engenhos de cana-de-açúcar do período colonial eram consumidores vorazes de quanta madeira se podia encontrar em suas proximidades. É de Antonil o seguinte informe:
"O alimento do fogo é a lenha, e só o Brasil com a imensidade dos matos que tem podia fartar, como fartou por tantos anos e fartará nos tempos vindouros, a tantas fornalhas, quantas são as que se contam nos engenhos da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, que comumente moem de dia e de noite, seis, sete, oito e nove meses do ano. E para que se veja quão abundantes são estes matos, só os de Jaguaripe bastam para dar lenha a quantos engenhos há  à beira-mar no Recôncavo da Bahia, e de fato quase todos desta parte só se provêm. Começa o cortar da lenha em Jaguaripe nos princípios de julho, porque na Bahia os engenhos começam a moer em agosto." (*)
Não, não, padre Antonil, esses matos não eram eternos, quanto suas dimensões fariam supor. Escrevendo pouco mais de cem anos depois, outro sacerdote, Ayres de Casal, observou:
"As canas-de-açúcar, a mandioca, a planta do tabaco, os algodoeiros, são os principais ramos da agricultura, que tem feito diminuir tão consideravelmente as melhores matas." (**)
E, em outro trecho da mesma obra, informa Ayres de Casal:
"É pena ver derrubar uma árvore magnífica (...) só para se utilizar de algumas dúzias de frutos!" (**)
Penso que isto basta para dar uma ideia de quão criteriosa foi no passado a utilização dos recursos florestais. Não posso prever o futuro, mas posso advertir quanto às consequências do prosseguimento dessas práticas seculares. Neste caso, como em muitos outros, manter a tradição não será nenhuma virtude.

(*) ANTONIL, A. J., Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas, 1711

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