domingo, 12 de junho de 2011

Nozinhos de Santo Antônio

Li há poucos dias um trechinho bem interessante de Machado de Assis, que me deu o que pensar. Compartilho-o com você, leitor:
Indague quem quiser o motivo histórico deste foguetear os três santos, uso que herdamos dos nossos maiores; a realidade é que, não obstante o ceticismo do tempo, muita e muita dezena de anos há de correr, primeiro que o povo perca os seus antigos amores. Nestas noites abençoadas é que as crendices sãs abrem todas as velas. As consultas, as sortes, os ovos guardados em água, e outras sublimes ridicularias, ria-se delas quem quiser; eu vejo-as com respeito, com simpatia, e se alguma coisa me molestam é por eu não as saber já praticar. Os anos que passam tiram à fé o que há nela pueril, para só lhe deixar o que há sério; e triste daquele a quem nem isso fica: esse perde o melhor das recordações. (*)
Veja, Machado (em 1878, que fique bem entendido) diz que muito tempo haveria de passar até que o povo perdesse o encanto pelas superstições relacionadas aos festejos juninos. Minha pergunta é: isso já aconteceu?
Não tenho como discutir o que seguramente persiste em ambientes rurais. No entanto, nos conglomerados urbanos, já é outra coisa. Há festas juninas por toda parte, incluindo escolas e clubes, mas são movidas por propósitos que vão desde a simples necessidade de convívio social até o imperativo do levantamento de fundos para alguma causa filantrópica. Não se incluem, portanto, no panorama da preservação pura e simples de tradições populares, que é o objeto de nossa investigação. Quero lembrar, por outro lado, que não estão em discussão aqui as crenças e práticas estritamente religiosas de quem quer se seja, mesmo porque não fazem parte do campo de atuação deste blog.
Mastro de Santo Antônio, encontrado ao lado
da capelinha a que a postagem se refere
Ora, em busca de algum vestígio das ditas tradições a que poderíamos chamar "folclóricas", lembrei-me de que, há muitos anos, em um colégio da cidade em que morava, havia um grupo de alunas que, para levantar recursos para a festa de formatura, vendia "nozinhos de Santo Antônio". Eram pedaços de fita pelos quais pagava-se uma pequenina quantia, nos quais devia o(a) comprador(a) dar um nó enquanto pronunciava o nome da "pessoa amada", que, supunha-se, estaria devidamente amarrada também. Após esse procedimento, as fitas eram devolvidas às vendedoras, que assumiam o solene compromisso de, no dia de Santo Antônio (13 de junho), levá-las à capela correspondente, para assegurar que o santo obrasse em favor dos donos ou donas das fitas. O mais engraçado é que, em consequência desse cínico ritual, havia infelizes que eram amarrados por duas, três ou mais pessoas, resultando daí um verdadeiro nó que Santo Antônio dificilmente poderia desatar!
Pode parecer um arroubo de ceticismo, mas quis voltar à tal capelinha de Santo Antônio, não para desatar alguém - jamais me dei ao trabalho de brincar com essa tolice, por mais que colegas insistissem - mas para verificar se Machado tinha ou não razão. Achei a igreja fechada, o que é significativo, pois em outros tempos, nos dias que antecediam 13 de junho, havia muita gente por lá o tempo todo, tanto que as emissárias dos nozinhos tinham uma certa dificuldade em depositá-los aos pés da imagem do santo que se acreditava casamenteiro. E, embora uma faixa na entrada avisasse que haveria quermesse em honra de Santo Antônio, o cenário, para dizer a verdade, não era de entusiasmar. A conclusão óbvia é que, ao menos ali, é bem possível que uma ou outra pessoa ainda se atenha às velhas tradições, mas, como regra geral, elas desapareceram. Não tenho motivo para crer que a situação seja muito diferente em outros centros urbanos.
Então, leitor, se era esse tipo de prática que Machado de Assis tinha em mente, acho que é até de se comemorar que tenha declinado. Talvez estejamos precisando muito nesse país de uma boa dose de fria racionalidade em lugar de crendices, por mais românticas que pareçam. Entretanto, é bom dizer que isso não precisa atingir os doces das festas de junho, particularmente o de batata-doce, meu favorito. Eis aí uma tradição digna de longevidade!


(*) Notas Semanais, 16 de junho de 1878


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