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terça-feira, 6 de setembro de 2022

Independência do Brasil

"Contudo, sempre lhes direi, aqui, que ninguém nos ouve: o conselho de ministros no paço, as palavras de José Bonifácio ao Bregaro; a volta de D. Pedro depois de declarar a Independência; a gente que correu a São Cristóvão; a imperatriz, que, não tendo mais fitas verdes para fazer laços, fê-los com as do próprio travesseiro; D. Pedro, um rapaz de 24 anos, impetuoso e ardente; José Bonifácio, grave e forte, e, quando preciso, alegre; a gente que encheu à noite o teatro; as senhoras de laço verde ao peito; toda essa nossa aurora dá-me uma certa sensação profunda e saudosa, que não encontro... onde? no nariz do leitor, por exemplo."
Machado de Assis, Balas de Estalo, 10 de janeiro de 1884

É 1822. O príncipe regente D. Pedro sai do Rio de Janeiro em viagem a São Paulo, porque os ânimos politicamente exaltados requerem atenção - é verdade, São Paulo nunca fora, e não é, nesse tempo, uma Província muito pacífica. Percorre o Vale do Paraíba, mas são tantas as lendas que cercam esse trajeto que, por si mesmas, já evocam suspeitas. Chega a São Paulo, de onde, em seguida, vai a Santos. Cumpridos ali alguns compromissos, retorna a São Paulo e, já perto da cidade, é alcançado, no final da tarde do dia 7 de setembro, por um correio enviado às pressas do Rio de Janeiro. Lê afoitamente as cartas e, num arroubo de fúria, declara, teatralmente, bem a seu gosto e ao de sua época, que o Brasil, dali por diante, está separado de Portugal. É este evento, ocorrido há duzentos anos, que se comemora, embora nem mesmo saibamos se tudo aconteceu exatamente assim.
José Bonifácio de Andrada e Silva (¹)
Não, não sabemos, mas a viagem a São Paulo é real e a entrega da correspondência ao príncipe (cartas das Cortes de Lisboa, da princesa Leopoldina e de José Bonifácio de Andrada e Silva) igualmente aconteceu. Mas era preciso um evento icônico para assinalar a Independência. Se o chamado "grito do Ipiranga" não ocorresse, não há dúvida de que outro incidente seria escolhido, porque a humanidade parece carecer desesperadamente de acontecimentos gloriosos, aos quais se apega, sejam autênticos ou não, e os brasileiros, nesse sentido, não são nenhuma exceção. A Independência, de verdade, foi um longo e difícil processo. E, se querem saber minha opinião, há, nela, muito ainda por fazer.
D. Pedro, depois, seguiu com a comitiva a São Paulo, onde já era esperado e foi festivamente recebido, não por causa da declaração de Independência, da qual poucos talvez soubessem, mas porque já havia uma recepção dignamente preparada, dentro dos recursos de que a cidade dispunha. Relatos da época sugerem que a noite foi agradável, mas sem nenhuma animosidade contra Portugal.
É razoável supor que Pedro Américo, ao pintar o mais famoso quadro do episódio às margens do Ipiranga, não tivesse a intenção de um retrato fiel, e nem isso era possível, tantos anos após o incidente (²). Estava apresentando uma concepção artística do acontecimento, e não há nisso nenhuma fraude deliberada: uma visita a qualquer museu sério, mundo afora, convencerá quem duvida de que as paredes estão repletas de supostas reconstituições históricas sem qualquer compromisso com a realidade. De "históricas" muitas obras só têm mesmo os valores da época em que foram produzidas, não do tempo a que pretendem remeter. Servem, muitas vezes, mais como um estímulo a certa espécie de patriotismo, orgulho nacionalista e culto a alguma personalidade, do que, propriamente, como versões historiográficas fidedignas, compostas em pinceladas a óleo (ou outra tinta qualquer) sobre tela.

O beija-mão em São Paulo no dia 8 de setembro de 1822


D. Pedro, príncipe regente e primeiro
imperador do Brasil (⁵) 
Em 8 de setembro, ainda em São Paulo, mas já refeito da árdua cavalgada do dia anterior - para vir de Santos foi preciso transpor a Serra do Mar - Dom Pedro teve de aturar uma cerimônia entediante e pouco higiênica, embora muito valorizada na época: o beija-mão. Registrou-se na Ata da Câmara de São Paulo:
"Vereança e ajuntamento que fez a Câmara para ir ao beija-mão de S. A. R. (³) 
Aos oito dias de setembro de 1822 nesta cidade de São Paulo e casas da Câmara, paços do Concelho (⁴) dela, [...] foram vindos o juiz de fora pela lei presidente o capitão Bento José Leite Penteado e atuais vereadores e atual procurador [...] para efeito de sessão, e depois de estarem juntos deliberaram que se devia ir ao beija-mão, e findo o qual recolheram-se a estas mesmas casas desta Câmara (⁶)."
Nenhuma palavra sequer sobre separação de Portugal! O termo "independência" somente apareceria em ata vinte dias mais tarde, ou seja, em 28 de setembro de 1822, em cujo registro se lê: "[...] por todos foi unanimemente acordado que concordavam com a [...] Câmara da Corte e Cidade do Rio de Janeiro em que S. A. R. entrasse desde já no exercício ilimitado de todas as atribuições do Poder Executivo pela constituição que lhe devem competir na qualidade de chefe do mesmo Poder, visto ser este o único meio seguro e adequado para poder salvar este Reino [sic] das indiscretas tentativas dos seus inimigos [sic!], e conservar ilesa a sua dignidade e independência já proclamada pelo mesmo Augusto Senhor." 
Ainda no ano de 1822, D. Pedro seria aclamado imperador constitucional em 12 de outubro, dia de seu aniversário.

(1) Cf. SOUSA, Alberto. Os Andradas Vol. 2. São Paulo: Tipographia Piratininga, 1922, p. 3. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) "Independência ou Morte" é obra de 1888. Do final do Império, portanto.
(3) Sua Alteza Real.
(4) Concelho: unidade municipal portuguesa.
(5) Cf. ARMITAGE, John. História do Brasil. Rio de Janeiro: J. Villeneuve e Comp., 1837. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(6) Os trechos da Ata da Câmara de São Paulo aqui citados foram transcritos na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.


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terça-feira, 20 de abril de 2021

Quando as carroças povoavam as ruas

Carroças já foram parte corriqueira da paisagem urbana e rural. Hoje são poucas e, em muitos lugares, sua circulação está proibida, ainda que haja proprietários algo resistentes.
O uso de carroças pressupõe que se empreguem animais de carga, e ninguém precisa conhecer muito sobre o passado da humanidade para saber que ditos animais nem sempre foram tratados com a consideração que mereciam, pela importância do trabalho que, de boa ou má vontade, eram levados a fazer. Em Esaú e Jacó, de Machado de Assis, há este incidente:
"Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da Travessa de S. Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro dava muita pancada no burro da carroça. [...] Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis minutos durou esta situação; finalmente o burro preferiu a marcha à pancada, tirou a carroça do lugar e foi andando."
Literatura, sim, mas por que é que numa situação dessas ninguém levanta a voz contra tanta injustiça? O carroceiro de Machado de Assis não se saiu mal, mas outro, de carne e osso, porque da vida real, pagou caro as agressões contra os animais. Vejam, leitores, esta nota que apareceu no Diário de Santos, edição de 27 de agosto de 1907:
"Por desumano, foi preso no mercado, quando espancava barbaramente os animais de uma carroça, o respectivo condutor.
Caro há de pagar seu ato, pois, além de preso, terá de correr com a multa, para que aprenda a tratar melhor os animais." (¹)
Engana-se, porém, aquele que pensar que quando as carroças e congêneres eram maioria nas ruas, o trânsito era livre de perigos. Outra nota, no mesmo jornal e página da anterior, dizia:
"Na esquina da rua Amador Bueno e Dois de Dezembro, deu-se ontem um desastre do qual foi vítima Salvador Benegaço, que ficou com a perna direita partida, por lhe ter passado por cima uma carroça.
Salvador foi transportado, no carro de assistência, para a polícia, onde lhe foi fornecida guia para ser internado na Santa Casa.
O desastre deu-se às 3 horas da tarde e parece ter sido casual." (²)
Conclusão óbvia, meus leitores: não foi preciso esperar por um trânsito caótico de veículos automotores para ver acidentes nas ruas. Carroças e carruagens eram, para este propósito, mais que suficientes. Não foi em um acidente dessa natureza que morreu Pierre Curie, o cientista francês laureado com o Nobel de Física?

(1) DIÁRIO DE SANTOS, Ano XXXV, nº 269, 27 de agosto de 1907, p. 5.
(2) Ibid.


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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O que eles disseram sobre a História

Hoje, leitores, faremos uma rápida excursão pelo que alguns autores (historiadores ou não), disseram sobre a História. Faremos, também, breves reflexões sobre suas ideias. Espero que gostem e que compartilhem suas impressões.

1. Alexandre Herculano, no Século XIX, disse, na voz de uma de suas personagens: "Boa coisa é a história [...] quando nos recordamos do nosso passado, e não achamos lá para colher um único espinho de remorso!" (¹)
A recordação de que Herculano viveu no Século XIX não é mera informação. O tempo em que alguém vive é fator importante na visão que tem da História. Falava ele, é claro, da história no plano pessoal, mas pergunto: a diferença em relação à história nacional e/ou mundial será apenas uma questão de grau ou de abrangência?

2. Vamos agora a Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas:
"Vê o Cavour; foi a ideia fixa da unidade italiana que o matou. Verdade é que Bismarck não morreu; mas cumpre advertir que a natureza é uma grande caprichosa e a história uma eterna loureira. Por exemplo, Suetônio deu-nos um Cláudio, que era um simplório - ou "uma abóbora" como lhe chamou Sêneca - e um Tito, que mereceu ser as delícias de Roma. Veio modernamente um professor e achou meio de demonstrar que dos dois Césares, o delicioso, o verdadeiro delicioso, foi o 'abóbora' de Sêneca. E tu, madama Lucrécia, flor dos Bórgias, se um poeta te pintou como a Messalina católica, apareceu um Gregorovius incrédulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a lírio, também não ficaste pântano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o sábio.
Viva pois a história, a volúvel história que dá para tudo [...]."
Ora, "a volúvel história"... É fato que, de vez em quando, aparece alguém com uma visão completamente diferente de algum acontecimento, época ou personagem. Chama-se, a isso, revisionismo (está na moda). Deixando de lado a questão da serventia política das revisões da História, é preciso reconhecer que autores antigos, nos quais se baseia muito do que sabemos, escreviam, como é óbvio, segundo pontos de vista pessoais, e as pesquisas podem, eventualmente, demonstrar que nem tudo foi exatamente como disseram. Portanto, é prudente reconhecer que estudos podem revelar facetas insuspeitas do passado, que contribuem para enriquecer nosso conhecimento - até que mais se descubra. Isso não dispensa, contudo, o mais saudável ceticismo em relação às propostas revisionistas. Discernimento, conhecimento e bom senso são valiosos também neste caso.

3. Na Antiguidade, Políbio de Megalópolis escreveu: "Tanto quanto um animal sem olhos não tem serventia, a História sem verdade não passa de uma narrativa improdutiva." Quanto ao trabalho do historiador, disse: "Um historiador tem por obrigação relatar à posteridade tanto o que pode desonrar e trazer descrédito quanto o que pode enaltecer alguém." E mais: "Um historiador não deixa de ser mentiroso quando omite aquilo que de fato aconteceu." (²)
Deduz-se que, para Políbio, qualquer manipulação da História, independentemente do motivo, era má em si mesma. Olhando para a montanha de obras historiográficas que a humanidade tem produzido, talvez se possa concluir que suas ideias não tiveram tantos adeptos quanto seria desejável. Mas é possível a um historiador ser absolutamente imparcial? Será que o próprio Políbio, grego que era, mas apaixonado por Roma e suas realizações militares, chegou a ser tão isento quanto imaginava? Lembremo-nos, também, de que as palavras podem, com o correr do tempo, assumir significados que jamais foram intenção de seus autores.

4. Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, autor setecentista que discorreu sobre as origens e desenvolvimento da catequese e dos conventos franciscanos no Brasil, afirmou:  "É a verdade alma da História, e é a clareza a vida desta alma, e é certo que virá a ser alma sem vida, História, ainda que com verdade, sem clareza." (³) 
Já dissecaram a citação, leitores? A princípio, pode parecer que, em essência, Jaboatão disse algo semelhante ao que escreveu Políbio, mas a ênfase é outra: não basta verdade, é preciso haver clareza. Como vocês sabem, isto requer o talento na escrita, a facilidade na expressão, habilidades que podem e devem ser aprendidas e cultivadas, não apenas por historiadores, é certo, mas por quem quer que se dirija ao público.

5. Vou terminar com uma citação do Visconde de Porto Seguro, Francisco A. de Varnhagen: 
"O historiador que esquadrinha os fatos e que, depois de os combinar e meditar sobre eles, os ajuíza com boa crítica e narra sem temor nem prevenção, não faz mais do que revelar ao vulgo verdades que ele naturalmente acabaria por avaliar do mesmo modo, sem os esforços do historiador, dentro de um ou dois séculos." (⁴) 
Nascem daí algumas questões:
  • Não ficariam os acontecimentos esquecidos, em um ou dois séculos, sem o trabalho do historiador?
  • O vulgo terá interesse pela História?
  • Não irá o futuro demonstrar, ao menos em alguns casos, que as coisas se passaram de modo muito diferente do avaliado por um historiador que vivenciou os acontecimentos?

A visão que um historiador tem da História determina, em grau muito elevado, as características de sua obra. Reflitam, leitores, e deem suas opiniões. Qualquer dia volto a este assunto.

(1) HERCULANO, Alexandre. Lendas e Narrativas vol. 1. Lisboa: Bertrand e Filhos, 1851, p. 46.
(2) POLÌBIO, HistóriaOs trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil Primeira Parte, Volume II. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1858, p. 18.
(4) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, pp. 1116 e 1117.


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma nova capital

Brasília, Esplanada dos Ministérios, como é vista desde o lago Paranoá

A primeira capital do Brasil, a "Cidade da Bahia" (Salvador), foi estabelecida sob o comando de Tomé de Sousa, que fora designado para o cargo de governador-geral. Na escolha da localização da cidade, além de questões práticas como existência de um bom suprimento de água e condições favoráveis à defesa, pesaram outras duas questões importantes: estar perto da região produtora de açúcar e facilitar ao máximo as comunicações com Portugal. Era 1549, e, para que desse lucro, a produção açucareira do Nordeste brasileiro precisava ser levada à Europa. Portanto, considerava-se que estar localizada junto ao mar não era, para a capital, nenhum defeito, sendo, ao contrário, até uma vantagem.
Mais tarde, já no Século XVIII, a descoberta de jazidas auríferas e de pedras preciosas nas Gerais, em Goiás e nas "minas do Cuiabá" deslocou o eixo econômico do Brasil em direção ao Sul. Uma vez que era do porto do Rio de Janeiro que as riquezas minerais eram embarcadas para o Reino, para lá foi movida a capital, e, mesmo depois da Independência, assim permaneceu ao longo das décadas do Império, apesar de, ocasionalmente, vir à baila a necessidade de transferir a sede de governo para algum ponto no interior (¹). 
Após a proclamação da República houve quem sugerisse a mudança da capital para Petrópolis, mas a proposta logo foi afastada, porque, se oferecia umas poucas vantagens, tinha a inconveniência de preservar muitos dos problemas existentes no Rio. Assim, a Constituição de 1891, a primeira republicana, trazia em suas Disposições Preliminares, Título I, Art. 3º:
"Fica pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal."
E na Seção I, Capítulo IV, Artigo 34:
"Compete privativamente ao Congresso Nacional:
[...]
13. Mudar a capital da União."
Cerca de dois anos mais tarde, escrevendo na Gazeta de Notícias, Machado de Assis ponderou:
Catedral de Brasília em fotografia infravermelha
"A capital da República, uma vez estabelecida, receberá um nome deveras, em vez deste que ora temos, mero qualificativo. Não sei se viverei até a inauguração. A vida é tão curta, a morte tão incerta, que a inauguração pode fazer-se sem mim, e tão certo é o esquecimento, que nem darão pela minha falta. Mas, se viver, lá irei passar algumas férias, como os de lá virão aqui passar outras. Os cariocas ficarão sempre com a baía, a esquadra, os arsenais, os teatros, os bailes, a Rua do Ouvidor, os jornais, os bancos, a Praça do Comércio, as corridas de cavalos, tanto nos circos como nos balcões de algumas casas cá embaixo, os monumentos, a companhia lírica, os velhos templos, os rabequistas, os pianistas..." (²)
Na suposição da mudança como algo estritamente necessário, a ideia era inaugurar a nova cidade dentro dos festejos relativos ao centenário da Independência, a ser comemorado em 1922, um plano que nunca se concretizou. Como os leitores bem sabem, a construção de Brasília data da segunda metade da década de 50 do Século XX, tendo a inauguração formalmente ocorrido em 21 de abril de 1960. Machado de Assis, que não era nenhum Matusalém, faleceu em 1908, e, portanto, não viveu o suficiente para ver a nova capital. Para vê-la, precisaria ter alcançado a idade de cento e vinte anos. 

Brasília, Eixo Monumental, em fotografia infravermelha

(1) Um dos problemas apontados em relação ao Rio de Janeiro era a vulnerabilidade diante de eventual ameaça externa, por ser o litoral enorme e escassamente defendido. Com a instabilidade dos primeiros anos da República foram evidenciados também os problemas internos, com frequentes ameaças de revoltas que deixavam a população em polvorosa - basta lembrar a Revolta da Chibata (1910), quando marinheiros tomaram o controle de navios de guerra e ameaçaram bombardear a capital se suas reivindicações não fossem atendidas. Ameaça cumprida, aliás, ainda que levemente. 
(2) GAZETA DE NOTÍCIAS, 22 de janeiro de 1893.


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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Epitáfios

Já pensou em escrever seu próprio epitáfio (¹), leitor? Não, não pare de ler. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis, escrevendo pelo autor-defunto ou defunto-autor, observou, a propósito de um funeral:
"Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitáfios. E, aliás, gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou."
Se você, como Brás Cubas, também gosta de epitáfios, provavelmente irá notar, na eventualidade de um passeio por algum cemitério antigo, que algumas lápides têm expressões um tanto curiosas. E, por suposto, será difícil encontrar alguma que detrate a imagem daquele ou daquela que ali foi sepultado(a). Poucas serão comparáveis, porém, ao teor desta lápide (²), que consta ter existido no Século XIX, em um cemitério no norte da Inglaterra:


Observe que, depois dos elogios de praxe, quem passa e lê é informado de que a viúva continua a administrar o estabelecimento comercial da família. No auge do requinte, há uma recomendação para que o endereço não seja esquecido. Quem já viu alguma coisa parecida? Seria mesmo de arrancar um sorriso a Max Weber!... (³)

(1) Não, senhores, que ninguém venha com aqueles versos de Bocage, que este aqui é um blog muito sério. 
(2) SAMPSON, Henry.  A History of Advertising. London: Chatto and Windus, 1874, p. 531.
(3) Para quem não se lembra, Max Weber é o autor de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.


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quarta-feira, 25 de maio de 2016

O trabalho das lavadeiras na capital do Império do Brasil

Mulher lavando roupa, de acordo com James Wells Champney, 1860 (¹)

"Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante aí, mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio; depois continuamos."

Machado de Assis, Dom Casmurro

Esqueça as eficientes lavadoras eletrônicas - você está agora no Século XIX, leitor, e a roupa suja não será, de jeito nenhum, lavada em casa, ao menos se você for um sujeito de certa importância.
Lavar, passar e engomar a roupa era trabalho para escravas, mas que podia também ser feito por mulheres pobres e de condição livre, em troca de um modesto pagamento. 
Na imagine, porém, como regra, a existência de uma lavanderia doméstica. A roupa era lavada, quase sempre, em pequenos riachos, nas imediações das casas ou nos arredores da cidade. Lavadeiras iam juntas a determinados lugares para lavar a roupa e colocá-la para secar ou alvejar, aplicando técnicas da época.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis apresenta, logo nas primeiras páginas, o tio João, personagem de vida e linguagem nada imaculadas, que apreciava dar dois dedos de prosa com as escravas encarregadas de lavar a roupa. É o próprio Brás Cubas, o autor-defunto ou defunto-autor, quem conta:
"Em casa, quando lá ia passar alguns dias, não poucas vezes me aconteceu achá-lo [o tio João], no fundo da chácara, no lavadouro, a palestrar com as escravas que batiam roupa; aí é que era um desfiar de anedotas, de ditos, de perguntas, e um estalar de risadas, que ninguém podia ouvir, porque o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga no ventre, a arregaçar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do tanque, outras fora, inclinadas sobre as peças de roupa, a batê-las, a ensaboá-las, a torcê-las, iam ouvindo e redarguindo as pilhérias do tio João, e a comentá-las de quando em quando com esta palavra:
- Cruz, diabo!... Este sinhô João é o diabo!"
Para os naturais da terra tudo isso poderia soar como a coisa mais normal deste mundo. Estrangeiros é que olhavam com curiosidade, talvez mesmo com espanto, para o modo como a elite do Império garantia o uso de roupas limpas. Daniel P. Kidder, pastor e missionário metodista que viveu alguns anos no Brasil durante o Período Regencial, fez observações interessantes sobre o modo como trabalhavam as lavadeiras que teve a oportunidade de ver em ação, durante um passeio a cavalo que fez ao Corcovado:
"Límpido arroio saltita no fundo de um precipício cavado nas fraldas do Corcovado. Passeando-se pelas margens podem-se contemplar inúmeras lavadeiras dentro d'água batendo roupa sobre as pedras que se sobrelevam à corrente. Muitas delas saem da cidade pela manhã, com enorme trouxa sobre a cabeça, e voltam à tarde com toda ela já lavada e enxuta. Em diversos lugares veem-se pequenos fogões improvisados onde preparam as refeições, e grupos de crianças brincando pelo chão, algumas das quais já grandinhas, correm atrás das mães. As menores, porém, vão penduradas às costas das escravas sobrecarregadas com a mala de roupas." (²)

Lavadeiras do Rio de Janeiro (³)
Já veem os leitores que, como disse ao princípio, ao menos nos dias do Império, roupa suja não era mesmo lavada em casa. Gracejos à parte, o fim da escravidão forçou uma mudança de mentalidade. Embora muita gente ainda contratasse os serviços de uma lavadeira, gradualmente ganhou espaço a ideia de que, afinal, seria muito mais higiênico se as roupas fossem lavadas e passadas dentro de casa, de preferência por alguém da própria família (⁴), com essa ou aquela marca de sabão, cuja propaganda aparecia nos jornais e nas revistas da época - uma prova de que é possível achar argumentos para quase tudo, principalmente quando interesses (comerciais ou não) estão em jogo.
Não nos esqueçamos também de que, para lavar a roupa em casa, era preciso existir um suprimento regular de água, muito diferente do velho sistema em que escravos traziam-na dos chafarizes ou aguadeiros andavam a vendê-la pelas ruas. A gradual implantação de redes de abastecimento, primeiro nas grandes cidades e, mais tarde, nas menores, forneceu a base para que os velhos costumes quanto à lavagem da roupa sofressem uma reviravolta, ainda que, em não poucos lugares, poços de uso doméstico tenham sido, também, por bastante tempo, uma solução a ser levada em conta.

Propaganda de sabão na revista A Lua, 1910 (⁵)

(1) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, pp. 111 e 112.
(3) ________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Para que isso fosse possível, o modo como as residências eram construídas precisou sofrer alterações significativas.
(5) A LUA, Ano I, nº 10, Março de 1910.


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quarta-feira, 16 de março de 2016

Escravizados, mesmo após a Abolição

Assinada a Lei Áurea, no domingo, 13 de maio de 1888, a notícia correu com rapidez, primeiro na capital do Império, onde houve grandes festejos populares, e, depois, através de telégrafo, correio, jornais, dos trens que seguiam pelas ferrovias, alcançou pontos mais distantes - alguns no mesmo dia, outros, nos dias seguintes. 
A edição de 15 de maio de 1888 do jornal Correio Paulistano, após a publicação oficial da Lei, comentava: 
"Anteontem foi sancionada a lei que decreta a extinção da escravidão no Brasil.
O projeto, consignado na Fala do Trono, passou em ambas as casas do Parlamento, em menos de uma semana, no meio de ovações e debaixo de uma chuva de flores.
Acaba o País de presenciar a maior revolução social e econômica de que dão notícia os anais da História Pátria.
E essa revolução, ao invés do que se deu na antiguidade e nos tempos modernos, consumou-se sem derramar uma gota de sangue, sem arrancar uma lágrima de dor! (¹)
As lágrimas que correram foram lágrimas de bênçãos e redenção, a orvalharem a mão augusta que acaba de abrir de par em par as portas da posteridade, ao lavrar o decreto que declara que no Brasil só há homens livres e iguais."
Não estranhem os leitores o estilo empolado que era corrente no jornalismo da época, ainda que algo possa ser creditado ao entusiasmo do momento. O que por agora nos interessa é o fato de que a notícia da abolição correu o Brasil, e qualquer pequena localidade que quisesse estar à altura da ocasião organizava seus próprios festejos, com direito a discursos, bailes e outras manifestações. Curiosamente, em meio ao regozijo nacional, os recém-libertados acabaram, em alguns casos, quase esquecidos, de modo análogo ao que ocorrera na lei emancipadora, na qual sequer foram mencionados.
No entanto, anos após a abolição formal da escravidão no Brasil, ainda havia gente escravizada. Pode soar incrível, mas foi exatamente o que aconteceu. De vez em quando a imprensa noticiava que, aqui ou ali, uma pessoa fora encontrada vivendo como se a abolição nunca houvesse acontecido. Dois trechos da obra jornalística de Machado de Assis servirão de exemplo, ambos publicados na Gazeta de Notícias, que circulava no Rio de Janeiro. Vamos ao primeiro deles, datado de 15 de maio de 1892:
Escrava, desenho
de Thomas Ender (²)
"A festa de Treze de Maio comemorava uma página da história, uma grande, nobre e pacífica revolução, com este pico de ser descoberta uma preta Ana ainda escrava, em uma casa de São Paulo. Após quatro anos de liberdade, é de se lhe tirar o chapéu. Epimênides também dormiu por longuíssimos anos, e quando acordou já corria outra moeda; mas dormia sem pancadas. A preta Ana dormiu na escravidão, não sabendo até ontem que estava livre; mas como o sono da escravidão só se prolonga com a dormideira do chicote, a preta Ana para não acordar e saber casualmente que a liberdade começara, bebia de quando em quando a miraculosa poção. O caso produziu imenso abalo; o telégrafo transmitiu a notícia e todos os nomes."
O segundo caso foi publicado menos de um ano mais tarde, em 1º de janeiro de 1893:
"Há o fato de um preto de Uberaba, que, fugindo agora da casa do antigo senhor, veio a saber que estava livre desde 1888, pela lei da abolição. Faz lembrar o velho adágio inglês: "Esta cabana é pobre, está toda esburacada; aqui entra o vento, entra a chuva, entra a neve, mas não entra o rei". O rei não entrou na casa do ex-senhor de Uberaba, nem o presidente da República. O que completa a cena, é que uns oito homens armados foram buscar o João (chama-se João) à casa do engenheiro Tavares, onde achara abrigo. Que ele fosse agarrado, arrastado e espancado pelas ruas, não acredito; são floreios telegráficos."
Como explicar tal absurdo? 
É preciso admitir que, para as condições de comunicação existentes no Brasil da época, é perfeitamente possível que a notícia da abolição, malgrado toda a notoriedade, tenha demorado a alcançar pontos mais remotos do território (o que, por suposto, não incluiria nem São Paulo e nem Uberaba - MG). O mais provável é que um ou outro proprietário tenha, deliberadamente, agido de má-fé, mantendo o trabalhador na escravidão pela astúcia, escondendo a informação, sem excluir o uso da coerção física, método que, aliás, fora empregado com eficácia durante séculos. De que outro modo, afinal, a escravidão se sustentaria?

(1) O jornalista provavelmente tinha a intenção de  alfinetar a maneira pela qual se fizera a abolição nos Estados Unidos, desconsiderando o fato de que, a despeito de não ter demandado uma guerra civil, a luta contra o escravismo exigira, sim, sacrifício, dor e lágrimas também no Brasil, tanto dos envolvidos no movimento abolicionista como dos próprios escravos.
(2) Desenho de Thomas Ender, Século XIX. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A substituição dos escravos domésticos por criadagem livre

Escravo doméstico fazendo compras para a
família de seu proprietário (¹)
Durante muito tempo, ter um bom número de escravos dentro de casa, para a realização das tarefas quotidianas, foi visto como sinal de riqueza - uma vasta escravatura doméstica era coisa que gente de alta posição social gostava de ostentar. O tempo, porém, trouxe mudanças importantes, de modo que aquilo que era visto como um luxo passou a ser motivo de constrangimento. Em poucas palavras, a escravidão começou a ser considerada como aquilo que realmente era, uma vergonha nacional, que precisava desaparecer e, quanto mais cedo, melhor. 
Nesse cenário, era óbvio que famílias abastadas continuariam a ter servidores, não mais escravos, é verdade, mas criados de condição livre, que recebiam salários pelo trabalho que realizavam.
Os leitores que tiverem alguma familiaridade com a Literatura hão de recordar que em Quincas Borba (²) Machado de Assis situa muito bem o momento em que a gente urbana começava a ter orgulho por manter criadagem livre. Rubião, um sujeito afeiçoado aos hábitos simples de Minas Gerais, vem viver na capital do Império, após receber uma inesperada fortuna, condicionada à obrigação de zelar por Quincas Borba (o cão). Por conselho de novos amigos, aceita criados europeus, ainda que a contragosto:
"O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem resistência que Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus crioulos de Minas, e não queria línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter criados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pajem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da Província, nem o pôde deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros serviços."
Ora, como sabem os leitores, o tal criado espanhol era aquele mesmo que, às escondidas, agarrava Quincas Borba pelas orelhas (o cão, naturalmente), a quem chamava "perro del infierno!"...
Mas trataremos agora do interesse que se ocultava atrás da ideia da substituição dos escravos domésticos por criadagem livre. Em um número publicado em 1853, o periódico O Agricultor Brasileiro argumentava, defendendo a vinda de colonos livres para trabalhar nas cidades:
"O número de escravos existentes presentemente no Rio de Janeiro é calculado aproximadamente em cem mil; e sendo certo que nas cidades onde não há escravos um criado faz tanto serviço como entre nós fazem dois ou três escravos, acreditamos que quarenta mil colonos serão suficientes para ocorrer a todas as necessidades de serviços urbanos." (³)
Para forçar a substituição, o jornal propunha taxar a propriedade de escravos urbanos com impostos elevados; deixava claro que a ideia não era indicada para a lavoura, onde se entendia que os escravos eram ainda indispensáveis. Sugeria, então, que os escravos urbanos deveriam ser direcionados à agricultura, sem levar em conta que era pouco provável sua adaptação às duríssimas condições de vida impostas aos cativos nas fazendas.
Será útil também salientar que essa curiosa proposta nasceu após a Lei Eusébio de Queirós, que bania em definitivo o tráfico de africanos para o Brasil; assim, a ideia de levar os escravos urbanos para as áreas de cultivo não deixava de ser uma tentativa de burlar, ou, pelo menos, de fugir às consequências da Lei de 1850.
Aventava-se, além disso, que a taxação da propriedade de escravatura doméstica urbana, virtualmente obrigando à venda para a lavoura, faria cair um pouco o preço dos escravos, o que acabaria por favorecer fazendeiros que se candidatassem a comprá-los.
É fácil perceber que, ao menos temporariamente, estavam tentando "dar um jeitinho" para prolongar a vida da maldita escravidão. Se os escravos urbanos iriam ou não gostar da ideia era coisa que não passava pela cabeça de (quase) ninguém. Eles eram escravos, não eram? Então, na lógica da época, deviam fazer aquilo que seus respectivos proprietários mandassem. A consideração por questões humanitárias chegava a ser avaliada, às vezes, como ocupação para cérebros ociosos.

(1) Desenho aquarelado de Joaquim Lopes de Barros (1840 - 1841). O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Antes de ser publicado na forma de livro, Quincas Borba foi apresentado ao público como folhetim, nos anos finais da escravidão no Brasil.
(3) O AGRICULTOR BRASILEIRO nº 2. Rio de Janeiro: Typographia de Nicolau Lobo Vianna Junior, 1853, p. 6.


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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Trezentas bestas muares puxavam os ônibus na capital do Império

Ônibus, no Século XIX - todo mundo sabe - rodavam apenas com tração animal. Veículos automotores ainda estavam no futuro. De acordo com o Almanaque Laemmert de 1852, a Companhia dos Ônibus que atuava na área de transporte público coletivo no Rio de Janeiro começou a operar em 1º de julho de 1838. No Império do Brasil, era ainda o Período Regencial, uma época de muita agitação política. A mesma edição do Almanaque trazia outras informações sobre a Companhia dos Ônibus:
"Fabrica todo o seu trem em oficinas próprias montadas dentro do estabelecimento.
Emprega nas linhas atuais 10 carros de diversas lotações, e tem em reserva outros tantos.
Tem cerca de 300 bestas muares para o serviço." (*)
Esses ônibus circularam por algum tempo na capital do Império, mas gradualmente foram saindo de cena. Machado de Assis, escrevendo na edição comemorativa dos dezoito anos da Gazeta de Notícias (6 de agosto de 1893), observou que, pela época em que se havia começado a publicação do jornal, havia ainda diligências e ônibus puxados por muares percorrendo as ruas do Rio:
"Tínhamos diligências e ônibus; mas eram poucos, com poucos lugares, creio que oito ou dez, e poucas viagens. Um dos lugares era eliminado para o público. Ia nele o recebedor, homem encarregado de receber o preço das passagens e abrir a portinhola para dar entrada ou saída aos passageiros. Um cordel, vindo pelo tejadilho, punha em comunicação o cocheiro e o recebedor; este puxava, aquele parava ou andava."
É também dos escritos de Machado que podemos inferir alguma coisa a respeito da condição social dos condutores de ônibus. No conto "A Segunda Vida", encontramos este trechinho:
"A única liberdade que me deram foi a escolha do veículo; podia nascer príncipe ou condutor de ônibus. Que fazer?"
Mas é na boca de uma de suas principais personagens, o Bentinho de Dom Casmurro, que melhor percebemos que era bem longe do topo da sociedade que podiam ser localizados os trabalhadores encarregados de dirigir os muares que faziam andar os ônibus:
"[...] Mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda; estou pronto a ser o que for do seu agrado, até cocheiro de ônibus. Padre, não; não posso ser padre. A carreira é bonita, mas não é para mim."
Até cocheiro de ônibus!... Por certo não ocorria ao rapazinho uma profissão menos interessante. 
A introdução dos bondes acabou por suprimir o uso dos ônibus com tração animal. Machado escreveria na edição de 11 de outubro de 1896 da Gazeta de Notícias"Ônibus e diligências foram aposentados nas cocheiras e vendidos para o fogo."

(*) LAEMMERT, Eduardo. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e Província do Rio de Janeiro Para o Ano Bissexto de 1852. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1852, p. 291.


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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

De que brincavam as crianças que viviam no Império do Brasil

"Misturava tudo; o espírito ia de um para outro lado como bola de borracha entre mãos de crianças."
Machado de Assis, Quincas Borba

Brinquedos e brincadeiras infantis fazem parte das mais variadas culturas. Mesmo quando os pequenos são submetidos precocemente ao trabalho, sempre é possível notar a intensa criatividade para o que é lúdico, tão própria da infância, seja na invenção de jogos, seja na imitação da vida adulta, com ou sem o uso de brinquedos. É recreação, mas é também aprendizado, através do qual os elementos da cultura, incluindo os estereótipos, são assimilados, repetidos e, bons ou maus, perpetuados.
De um livro com propósitos educativos, Entretenimentos Sobre os Deveres de Civilidade, usado em aulas de leitura na segunda metade do Século XIX, depreendemos quais eram alguns dos brinquedos comuns aos meninos brasileiros da época:
"Se te agrada mais, vai jogar a peteca ou a bola de borracha, ou soltar aos ares o papagaio.
Podes fazer tudo isso, dou-te licença, visto teres cumprido bem teus deveres." (¹)
A peteca talvez ande em desuso, mas a bola e o papagaio (²) são familiares a qualquer guri. O mesmo livro ainda trazia:
"Não negues a teus camaradas o que lhes podes ceder, nem escondas da sua vista o boneco, o soldadinho de chumbo ou outro qualquer brinquedo." (³)
Aqui, meus leitores, temos que reconhecer que soldadinhos de chumbo são, agora, apenas objetos para colecionadores. Os brinquedos de hoje são quase todos de plástico, e os meninos preferem os superpoderes dos super-heróis à fadiga de comandar exércitos. Mas vamos adiante, pois da Literatura podemos, também, extrair informação relevante quanto aos hábitos infantis do Século XIX. Foi Machado de Assis quem escreveu, nas Memórias Póstumas de Brás Cubas:
"Só, só, nhonhô, só, só, dizia-me a mucama. E eu, atraído pelo chocalho de lata, que minha mãe agitava diante de mim, lá ia para a frente, cai aqui, cai acolá; e andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando."
Ora, alguém perguntará, e por onde andam os brinquedos das meninas? Já vão aqui, mas não quaisquer brinquedos, e sim os de uma pequena filha de um fazendeiro escravocrata do Vale do Paraíba, conforme descritos por José de Alencar em O Tronco do Ipê:
"D. Elisa e o Dr. Oscar eram um lindo casal de bonecos, vindos diretamente de Paris por encomenda do barão. Alice os tinha recebido havia alguns meses; foi o presente do pai no dia de seus anos. D. Elisa era um anjo de bonita e o Dr. Oscar um serafim, na opinião de Eufrosina; Felícia porém comparava-o a um cabeleiro francês, para ela o tipo da suprema elegância parisiense.
- A noiva está pronta! disse Adélia mirando a boneca enfeitada.
- O noivo também! acudiu a Felícia."
Para contentar quem acha que esta postagem tomou rumos demasiadamente aristocráticos, termino com uma brincadeira dos meninos que perambulavam pelas ruas de Campinas (SP), observando os tropeiros que iam e vinham com suas mulas. Não era questão de apenas assistir ao trabalho dos mais velhos. É que uma travessura estava sempre nos planos. Foi Daniel P. Kidder, pastor metodista americano, quem observou e teve o cuidado de escrever, ainda na primeira metade do Século XIX:
"Aí [em Campinas] viam-se diariamente animais carregando e descarregando. À medida que esvaziavam os jacás onde transportavam os sacos de sal, eram postos de lado como imprestáveis. Sobre eles caíam então os garotos em animada disputa a fim de empilhá-los, e, à noite, ver qual deles fazia a fogueira mais alta." (⁴)
Crianças, crianças...

Escrava vendedora de bonecas (⁵)

(1) NEVES, Guilhermina de Azambuja. Entretenimentos Sobre os Deveres de Civilidade 2ª ed. Rio de Janeiro: 1875, p. 88. O exemplar consultado pertence ao acervo da BNDigital.
(2) Ou pipa, ou pandorga, ou arraia, ou capucheta, de acordo com o falar regional.
(3) NEVES, Guilhermina de Azambuja. Op. cit., p. 92.
(4) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 223.
(5) BARROS, Joaquim Lopes de. Costumes do Brasil (1840 - 1841). O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada e restaurada digitalmente para facilitar a visualização neste blog.


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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Iluminação noturna: das lâmpadas a óleo à luz elétrica

Iluminação pública com azeite de peixe, de acordo com José dos Reis Carvalho (¹)

"Já viram lâmpada sem óleo conservar a sua luz?" (²), perguntou Joaquim Manuel de Macedo. Sim, no passado o óleo, independente de que tipo fosse, era a chave para manter as lâmpadas acesas quando chegava a noite, trazendo consigo a escuridão. E tudo foi muito escuro por milênios, a não ser pelas velas ou lâmpadas a óleo ou azeite. Quem saía às ruas nas horas da noite precisava levar consigo algum tipo de lanterna ou lampião, e mesmo assim era difícil enxergar além da distância suficiente para alguns passos. Compreende-se, pois, porque é que a maioria das pessoas evitava sair quando escurecia. Era mesmo muito arriscado.
Séculos não muito distantes de nós trouxeram consigo a iluminação de rua, que faz recordar aquele trechinho de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas:
"Eu deixei-me estar com os olhos no lampião da esquina, - um antigo lampião de azeite, - triste, obscuro e recurvado, como um ponto de interrogação."
Com os lampiões de rua vieram também os acendedores de lampiões, que deviam fazer seu trabalho todo final de tarde. No Brasil, os lampiões da iluminação pública foram, por muito tempo, abastecidos principalmente com óleo de baleia (³).
Posteriormente as cidades passaram a ter um sistema mais moderno de iluminação, no qual os lampiões funcionavam a gás. Nessa época, mesmo sendo escassa a iluminação, uma cidade, à noite, parecia muito brilhante, quando contrastada à escuridão que imperava ao seu redor. Ora, se não temos hoje ideia do que significava isso, já que vivemos em um mundo no qual a regra é o excesso de luzes e não a falta delas, temos, ao menos, um relato interessante do pintor francês François A. Biard, que esteve no Rio de Janeiro em 1858:
"Numa curva do caminho descortinei um espetáculo soberbo: lá em baixo todas as ruas iluminadas, toda a cidade verdadeiramente feérica. Os lampiões a gás espalhados pelas montanhas, como as de Santa Teresa, do Castelo e Glória, destacavam-se no céu, misturavam-se com as estrelas, no meio das quais o Cruzeiro do Sul brilhava como uma cruz de fogo." (⁴)
O aparecimento da luz elétrica tornou mais confortável a circulação pelas ruas das cidades em horário noturno, ainda que não tenha, necessariamente, significado maior segurança (não por culpa da luz, porém). A beleza das luzes urbanas quase apagou, no entanto, um espetáculo ainda mais belo - o do céu noturno, cada vez mais difícil de ser observado, a não ser muito longe das áreas densamente povoadas.

(1) Obra de José dos Reis Carvalho, 1851. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 381.
(3) Lampiões a querosene também foram usados.
(4) BIARD, François A. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 39.


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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Colares de ferro e máscaras de lata para castigar escravos

Um escravo fugitivo era, quando capturado, geralmente conduzido a uma casa de correção, até que seu senhor - em pessoa ou através de um procurador - apresentasse a documentação comprobatória do direito de propriedade. Voltava, então, ao lugar de trabalho, e, como sinal de ser "fujão", como se se dizia, passava a ostentar em público um horrível colar de ferro. O missionário e pastor metodista Daniel Kidder (¹) observou, no Rio de Janeiro, alguns escravos que usavam a tal "condecoração", e anotou em suas memórias:
"Alguns desses infelizes - como outros que se encontravam diariamente nas ruas - usavam enorme colarinho de ferro com uma extremidade que se projetava para cima, do lado da cabeça. Esse cruel distintivo geralmente indicava um escravo egresso que havia sido recapturado." (²)
Outro sinal público para infamar um escravo era o uso de uma máscara de lata, que era atada ao escravo cada vez que saía à rua. Era colocada para evitar que o cativo (ou cativa) ingerisse bebidas alcoólicas. Em um artigo de jornal, relembrando tempos de sua infância, Machado de Assis escreveu:
"Alegres eram umas máscaras de lata que vi em pequeno na cara de escravos dados à cachaça; alegres ou grotescas, não sei bem, porque lá vão muitos anos, e eu era tão criança, que não distinguia bem." (³)
Alegres ou grotescas? Deixo a critério dos leitores a decisão. É fato, porém, que tanto os colares de ferro quanto as máscaras serviam para estigmatizar escravos que, de algum modo, tentavam fugir àquilo que se esperava deles: trabalho e subordinação irrestrita à vontade de seus senhores.

Escravos portando colar de ferro e máscara de lata (⁴)

(1) Nascido nos Estados Unidos, residiu em território brasileiro entre 1837 e 1840.
(2) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 91.
(3) GAZETA DE NOTÍCIAS, "A Semana", 26 de junho de 1892.
(4) ______ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Cigarras do Brasil

Quem dentre os leitores gosta de ouvir o canto (¹) das cigarras? Há bastante tempo alguém me falou de uma senhora que  tinha ódio a elas, pois julgava que o tal canto repetia-lhe o nome continuamente... É fato que cada um ouve, por assim dizer, aquilo que quer, nos sons da natureza, e, nesse caso não era diferente.
Acho que também Machado de Assis não era um apaixonado pelo canto desses insetos. Vai aqui um trecho de uma coluna que escreveu para a Gazeta de Notícias, publicada em 7 de janeiro de 1894:
"Entra o galo e faz com a cigarra um concerto de vozes, que me acorda inteiramente. [...]
Pássaros, galo, cigarra, entoam a sinfonia matutina, até que salto da cama e abro a janela.
[...]
Ir-me-á cantar, todo o verão, esta cigarra estrídula? Canta, e que eu te ouça, amiga minha; é sinal de que não haverei entrado no obituário do mesmo verão, que já sobe a cinquenta pessoas diárias. Disseram-mo; eu não me dou ao trabalho de contar os mortos."
Entre as cigarras a espécie mais comum na faixa leste do Brasil é a Carineta fasciculata, mas não pensem que elas são exclusivas do Brasil. Há, no mundo, mais de mil e quinhentas espécies conhecidas e, na década de quarenta do Século XIX, uma delas deve ter atormentado os ouvidos  do príncipe Adalberto da Prússia, que, em suas andanças pelo Rio de Janeiro, registrou: "...já estava escuro, e as cigarras já começavam a cantar quando chegamos à chácara das Mangueiras. O som que estas cantoras brasileiras emitem fere os ouvidos; só posso compará-lo, é claro que em miniatura, ao desagradável apito de uma locomotiva." (²) 
Vejam, então, os senhores leitores que, havendo cigarras pelo mundo afora, as do Brasil cantavam demais, ao menos para os ouvidos sensíveis do príncipe prussiano.
Já ouvi comentários e li algumas observações de que as cigarras de São Paulo cantam de modo diferente do que pode ser encontrado em todas as outras regiões do Brasil. Ora, não sei se é verdade, mas observei que, quando começa o berreiro, parece haver uma vibração algo particular. Serão de alguma espécie diferente? Não sei, não sou especialista em cantorias de cigarras. Apenas tenho delas as melhores recordações de uma travessura dos tempos de universidade que, por suposto, não seria apropriado contar aqui.

Zi - Zi - Zi - Zi - Zi - Ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiih
(é uma cigarra paulista)

(1) Apenas os machos emitem o ruído característico das cigarras que, aliás, não provém da boca.
(2) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 32.


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