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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Saúvas

O combate às formigas-cortadeiras no Século XIX e primeiras décadas do Século XX 


"A dentada da saúva, que anda solta no campo, dói como uma brasa; quando são muitas e com fome, queimam como a fogueira", escreveu José de Alencar (¹) em Ubirajara. Saúvas têm dentes? Tecnicamente, não, mas agem como se cada espécime fosse dotado de uma centena deles. Nas duas postagens anteriores tratei de formigueiros descomunais em São Paulo, isso lá pela segunda década do Século XIX, formigueiros que proliferavam nas ruas e nos quintais (²). Que fique claro: formigas não eram um problema apenas em São Paulo - eram um problema do Brasil, especialmente para a lavoura, e continuaram a desafiar a perseverança dos agricultores décadas além.
Para concluir esse assunto, ao menos por enquanto, faremos, hoje, uma visita a trechos da obra de Lima Barreto (³), crítico impiedoso das calamidades e (des)governos - da Bruzundanga, naturalmente. É por ela que começamos:
"Basta dizer, para se avaliar a triste situação interna da extravagante nação de que lhes dou notícias, que, nos arredores da capital, se morria à mingua, à fome, as terras estavam abandonadas e invadidas pelas depredadoras saúvas, a população roceira não tinha direitos nem justiça e vivia à mercê de cúpidos e ferozes senhores de latifúndios, cuja sabedoria agronômica era igual à dos seus capatazes ou feitores." (⁴)
Em Marginália, o mesmo autor afirmou, ao referir-se à Ilha do Governador de tempos passados:
"Vivendo, por assim dizer, isolada do Rio de Janeiro, quase sem comunicações diárias com o centro urbano, abandonada pelos seus grandes proprietários, devido à decadência de suas culturas perseguidas atrozmente pela saúva, estava toda ela entregue a moradores pobres, apanhadores de suas frutas [...], lenhadores e carvoeiros, pescadores e alguns roceiros portugueses, que tenazmente se batiam contra a implacável formiga, fazendo roças de aipins, de batatas-doces, de quiabos, de abóboras, de melancias e até de melões."
Como os lavradores obtinham tanta variedade, a despeito das infernais saúvas? Lima Barreto não explicou, ainda que se encarregasse de maldizer as himenópteras também em O Triste Fim de Policarpo Quaresma, prova de que não dedicava a elas nenhuma simpatia: 
"Toda a manhã, ele ia lá e já via o milharal crescido com o seu pendão branco e as suas espigas de coma cor-de-vinho, oscilando ao vento; naquela, ele não viu nada mais. Até os tenros colmos tinham sido cortados e levados para longe. "A modo que é obra de gente", disse Felizardo; entretanto, tinham sido as saúvas, os terríveis himenópteros, piratas ínfimos que lhe caíam em cima do trabalho [...] Era preciso combatê-los. Quaresma pôs-se logo em campo, descobriu as aberturas principais do formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal. Passaram-se dias, os inimigos pareciam derrotados, mas certa noite, indo ao pomar para melhor apreciar a noite estrelada, Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se alguém esmagasse as folhas mortas das árvores... Um estalido... E era perto... [...] Quase todas as laranjeiras estavam negras de imensas saúvas. Havia delas às centenas, pelos troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas transitadas e vigiadas a população de uma grande cidade: umas subiam, outras desciam, nada de atropelos, de confusão, de desordem. [...]"
Anúncio publicado no jornal Correio Paulistano em 1918 (⁵)

O Echo, revista paulistana, em edição de 1916 contendo quase uma página dedicada ao assunto do combate às formigas-cortadeiras, trouxe as seguintes observações: "[...] é preciso logo advertir que em qualquer dos casos pouco monta a iniciativa particular - é indispensável a ação combinada do governo estadual, dos municípios e dos fazendeiros. Que aproveita, com efeito, um agricultor limpar os seus terrenos de bichos tão daninhos, se das fazendas vizinhas lhe vêm, de noite, destruir as plantações, e, na quadra dos enxames [...], um sem-número de içás lá vão estabelecer novas colônias?" (⁶)
Na falta da dita ação conjunta, ou na insuficiência dela, empresas da época ofereciam seus serviços a quem desejasse ao menos algum controle sobre as saúvas na agricultura, conforme vocês, leitores, poderão conferir nos dois anúncios aqui incluídos, de 1918 e 1919 - mais de um século, portanto, após a Câmara de São Paulo deliberar sobre formigueiros na cidade, de acordo com o que foi dito nas duas postagens anteriores.

Anúncio publicado na revista A Cigarra em 1919 (⁷)

(1) José Martiniano de Alencar, 1829 - 1877.
(2) Nas deliberações da Câmara de São Paulo, citadas nas duas postagens anteriores, não houve menção à espécie de formigas que infestava ruas e quintais. Este texto trata especificamente das saúvas, uma das espécies cortadeiras, particularmente daninhas à lavoura.
(3) Afonso Henriques de Lima Barreto, 1881 - 1922.
(4) Os Bruzundangas, 1922.
(5) CORREIO PAULISTANO, nº 19873, 1º de novembro de 1918, p. 6.
(6) O ECHO, Ano XV, nº 5, novembro de 1916.
(7) A CIGARRA, Ano VI, nº 125, 1º de dezembro de 1919.


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terça-feira, 18 de maio de 2021

Papéis de todo tipo, livros, penas e tinteiros em uma loja do Século XIX

Em algumas atividades o uso de papel anda muito reduzido, em relação ao que era, digamos, há vinte ou trinta anos. Pequenos blocos para anotações contam com poucos adeptos, porque os smartphones, com seus quase infinitos recursos, têm agora a primazia. Nos escritórios, a digitalização poupa muitas árvores. Jornais de papel, todos sabem, vão, aos poucos, desaparecendo, ainda que tenham alguns fiéis partidários. Na era das notícias instantâneas, não foi o jornalismo que desapareceu, a mudança foi na mídia, e as redes sociais fazem comunicação imediata de quase tudo o que acontece no mundo. É por isso que um anúncio como este, publicado no Correio Paulistano (*) em 1867, interessa aos apaixonados pela História, tanto quanto chama a atenção dos saudosistas:


Se conseguirem, leitores, tentem visualizar como seria uma livraria e papelaria de meados do Século XIX, na qual se vendessem os artigos citados no anúncio: livros diversos, papéis de todo tipo para estudantes, profissionais, artistas, apaixonados que escreviam cartas e mais cartas; estariam à venda, também, penas de aço, bronze e de ave - sim, havia quem ainda as preferisse a todas as outras -
tinteiros simples, para colegiais, e luxuosos, daqueles que completavam a decoração de um escritório, fazendo boa figura em um dos ângulos de uma escrivaninha repleta de livros... 
Hoje, uma lojinha dessas seria lugar frequentado por quem faz da escrita à mão um hobby. No Século XIX, devia ter um público consumidor razoável, se considerarmos que, para os padrões da época, São Paulo, que ainda não era uma cidade muito grande, tinha uma população estudantil bastante numerosa.

(*) CORREIO PAULISTANO, Ano XIV, nº 3208, 5 de fevereiro de 1867, p. 3.


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quinta-feira, 13 de maio de 2021

Como a notícia da abolição definitiva do trabalho escravo chegou a São Paulo

A cidade de São Paulo aboliu a escravidão dentro de seus limites em 25 de fevereiro de 1888. Antes ou pouco depois, muitas outras localidades fizeram o mesmo. Era preciso, no entanto, uma lei que suprimisse de vez o trabalho escravo em todo o país, e ela veio, todos sabem, em 13 de maio de 1888. O que talvez se tenha esquecido é que o abolicionismo assumira um caráter de movimento nacional e, ressalvadas as condições da época, pode ter sido um dos maiores, se é que não o mais intenso movimento que o Brasil já experimentou.
Naquele dia, um domingo, era grande a agitação popular em São Paulo, enquanto se aguardavam notícias do Rio de Janeiro, capital do Império. Na edição de dois dias mais tarde, o Correio Paulistano noticiou:
"Anteontem, na capital, com indescritível entusiasmo foi recebida a notícia da sanção da lei da abolição dos escravos.
Diversos grupos e pessoas estacionavam dentro e em frente das redações dos jornais, esperando ansiosamente, desde 11 horas da manhã, a grande notícia.
Às 2 horas e meia foi que se espalhou por telegrama recebido a notícia de que estava para todo o sempre extinta a escravidão no Brasil.
O entusiasmo tocou então ao auge do delírio e inúmeros foguetes subiram aos ares durante o espaço de uma hora.
Por todas as ruas centrais da cidade, desde essa hora, condensava-se cada vez mais a população de S. Paulo.
Notava-se naquela multidão desusada e estranha alegria. [...]" (*)
Horas mais tarde, após anoitecer, as comemorações prosseguiram, com discursos, festas e outras manifestações. O mesmo sucedeu nos dias seguintes. Estava por começar, todavia, a tarefa que ainda hoje não se concluiu, de desfazer, até onde possível, os problemas ocasionados por séculos de escravidão.

(*) CORREIO PAULISTANO, Ano XXXIV, nº 9511, 15 de maio de 1888.


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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Praga de gafanhotos em São Paulo no ano de 1918

Ano de 1918: enquanto a pandemia de influenza, conhecida como gripe espanhola,  fazia vítimas e espalhava o medo entre a população, os agricultores em várias regiões rurais do Estado de São Paulo lutavam contra uma praga de gafanhotos que causava dano considerável às plantações. Vê-se nisso uma estranha e mesmo desconcertante coincidência. Embora a região da América do Sul atingida por nuvens de gafanhotos em 2020 não seja o Estado de São Paulo, a pandemia de Covid-19 deixa marcas em quase todo lugar. Com maior ou menor grau de ceticismo, somos tentados a perguntar: Por quê? 
Na edição de 1º de novembro de 1918 do jornal Correio Paulistano, quase toda dedicada aos acontecimentos relacionados à gripe espanhola em São Paulo, apareceu esta nota, na página 4:
"É enorme a invasão de gafanhotos ora verificada no Estado, tendo sido assoladas pelo mal todas as zonas, com maior ou menor intensidade, excetuando-se a servida pela Estrada de Ferro Central do Brasil e litoral.
A Diretoria de Agricultura tem empenhado os seus esforços no sentido de debelar o mal. Para esse fim distribuiu pelas zonas limítrofes do Paraná todo o material de que dispunha, destacando, antes mesmo do começo da invasão, inspetores para ministrar instruções [...]. 
Continuando a invasão a progredir com rapidez vertiginosa, a Secretaria da Agricultura aumentou o pessoal encarregado de dar instruções para o combate ao flagelo. Neste mister, embora difícil, continuam a ser individualmente atendidos os 30.000 lavradores do Estado de São Paulo, distribuindo-se instruções impressas às municipalidades, a fim de fazer chegar a cada fazenda o conhecimento do modo de agir contra tão devastador inimigo." (*)
Infelizmente o jornal não informava que procedimentos estavam sendo adotados no combate à praga, mas sabe-se que era usual que trabalhadores e residentes nas propriedades rurais se reunissem e, portando objetos de metal e madeira, fizessem tanto barulho quanto possível, para afugentar os insetos. Essa prática não tinha, por suposto, a capacidade de eliminar os gafanhotos, apenas sugeria a eles que mudassem de endereço e fossem causar danos em outro lugar. 

(*) CORREIO PAULISTANO, nº 19.873, 1º de novembro de 1918, p. 4.


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Revolução Russa de 1917

Uma revolução que aconteceu "no lugar errado"

Segundo o entendimento daqueles que em meados do Século XIX defendiam o chamado "socialismo científico", o mundo industrialmente desenvolvido caminhava para uma grande revolução. Nas palavras de Marx e Engels em Manifest der Kommunistischen Partei (¹), "a história de todas as sociedades até agora existentes tem sido a história das lutas de classes. [...] Homens livres e escravos, patrícios e plebeus, senhores e servos, mestres de ofício e empregados, em uma palavra, opressor e oprimido, em constante oposição, têm travado um confronto ininterrupto, seja ele oculto, seja ele aberto, que vez após vez termina, ou com uma completa reconstituição revolucionária da sociedade, ou com a ruína de ambas as classes contendoras". 
Mais adiante, depois de expor uma interpretação da queda do feudalismo por obra da burguesia, o mesmo documento passava a tratar do modo pelo qual o proletariado suplantaria o capitalismo, impondo uma nova ordem social, política e econômica:
"As mesmas armas com as quais a burguesia derrubou o feudalismo voltam-se agora contra ela.
Entretanto, não somente a burguesia forjou as armas que lhe darão a morte, ela chamou à existência os homens que manejarão essas armas - a moderna classe trabalhadora, os proletários."
Uma leitura atenta dos escritos de Marx e Engels leva à conclusão de que, para esses pensadores:
  • a) A revolução socialista era inevitável (²); 
  • b) A revolução somente poderia ocorrer em lugares nos quais as forças produtivas do capitalismo chegassem ao seu máximo desenvolvimento. Aí, no apogeu da luta de classes entre burguesia e proletariado, a revolução socialista encontraria terreno altamente favorável. 
Ora, meus leitores, se havia um país que estava muitíssimo longe dos píncaros do capitalismo, esse país era a Rússia de 1917. Portanto, em obediência à lógica do pensamento de Marx e Engels, a Rússia era um lugar onde a revolução não poderia acontecer. Mas aconteceu.
Por quê? O que veremos a seguir são algumas dentre as razões que podem explicar a ocorrência de uma revolução socialista "no lugar errado":
  • Pobreza extrema do campesinato e dos trabalhadores urbanos, estes últimos não muito numerosos, ainda que, até certo ponto, politizados;
  • A participação russa na Primeira Guerra Mundial, que contribuiu para enfraquecer ainda mais a economia, uma vez que os escassos recursos disponíveis eram direcionados para propósitos militares;
  • Fragilidade da monarquia sob Nicolau II e do governo supostamente democrático implantado após a queda do regime czarista em fevereiro/março de 1917 (³) (Kerenski devia ter negociado imediatamente um acordo com a Alemanha para sair da guerra, mas decidiu permanecer no conflito, gerando enorme insatisfação contra o governo);
  • Deserções em massa no front, não havendo, contra elas, ameaças que valessem;
  • Ocorrência de um inverno precoce e ainda mais rigoroso que o habitual entre 1916 e 1917(⁴);
  • Falta de suprimentos básicos nas cidades, como lenha e carvão (para aquecimento) e cereais para alimentação;
  • Os bolcheviques parecem ter feito a promessa "certa", que a população queria ouvir: paz, terra, pão e libertação das etnias dominadas pelo Império Russo;
  • Vácuo de poder com a "saída" (⁵) de Kerenski.
Ao perceber o momento favorável em outubro/novembro de 1917, Vladimir Ilyich Ulyanov, a quem todos chamamos Lenin, ofereceu, com os bolcheviques, uma alternativa de liderança que parecia apresentar novas propostas e confiabilidade. Desse modo, a Rússia saiu da guerra (⁶), mas os anos seguintes não foram nada fáceis, diante da necessidade de reconstrução após a sangrenta guerra civil ocorrida para sustentar o domínio socialista. Isolado internacionalmente, o novo regime, que parecera tão promissor, tendeu cada vez mais à radicalização, principalmente após a morte de Lenin e ascensão de Stalin como mandatário virtualmente absoluto.

Como a notícia da Revolução Russa chegou ao Brasil

Na edição de sexta-feira, 9 de novembro de 1917, o jornal Correio Paulistano noticiava:
"Deu-se em Petrograd, quase no meio da indiferença geral, um pequeno golpe de Estado [sic!], que transferiu o poder das mãos do sr. Kerensky para as do "Soviet" militar [sic], encarnação da política maximalista (⁷). Os telegramas da Havas, duma sobriedade onde se reconhece a ação da censura (⁸), não dão pormenores do acontecimento; constatam laconicamente o fato sem aludir aos meios empregados pelos revolucionários para se tornarem senhores da capital da Rússia e do governo. O "Soviet", logo que se instalou no palácio imperial, decidiu expor ao público o seu programa de realização imediata. Esse programa consiste exclusivamente [sic] em concluir a paz separada com o inimigo, no mais curto prazo, sem dependência de cláusulas restritivas. Donde se conclui que o golpe de Estado de Petrograd, antes de ser uma revolução nacional, foi uma revolução alemã [sic!!!], fato que não pode surpreender ninguém, atendendo às estreitas ligações que sempre existiram entre os agentes germânicos e os maximalistas. É possível, provável até, que os revolucionários de maio, os que obedecem ao sr. Kerensky, não reconheçam o novo estado de coisas nem sancionem a política internacional que o "Soviet" militar se propõe seguir, com absoluto desprezo dos compromissos tomados com os países aliados."
Entendam, leitores, que na data em que a notícia foi publicada, a situação era ainda bastante confusa, até mesmo para os próprios russos. Além disso, para chegar ao Brasil, essas informações precisaram quase dar a volta ao mundo, passando pelo crivo da censura de guerra (como o jornal assinalou), a fim de evitar que a certeza quanto à posição da Rússia em abandonar o conflito mundial afetasse o moral das tropas da Entente no front. De qualquer modo, é fácil perceber que as palavras do Correio Paulistano, revelando algum desconhecimento sobre a situação política na Rússia para além da tomada do poder pelos bolcheviques, demonstram, também, pouca ou nenhuma simpatia pelo movimento revolucionário, na suposição de que, afinal, tudo não passaria de uma arruaça a ser, em breve, sufocada.
O jornal, porém, estava errado. Lenin e os bolcheviques, contra as expectativas internacionais, conseguiriam suplantar a "resistência branca" (⁹), fundando um novo regime que controlaria o poder, não por uns poucos anos, mas por longas décadas.

(1) Conhecido, em português, como Manifesto Comunista. As citações que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Atendendo a uma espécie de "lei" que supostamente regeria os acontecimentos da sociedade.
(3) Somente em 1918 é que a Rússia passou a adotar o Calendário Gregoriano; por essa razão é que se diz que a "revolução branca" ou "democrática" aconteceu em fevereiro ou março de 1917, dependendo do calendário a ser considerado, valendo o mesmo para a revolução socialista (outubro ou novembro de 1917).
(4) Com estações agrícolas curtas, era preciso produzir muito para assegurar suprimentos para os meses (muito) frios; as obras dos romancistas russos do Século XIX estão repletas do pessimismo resultante, ao menos em parte, da parceria entre conjuntura político-econômica e longuíssimos invernos.
(5) Fuga, na verdade. Impossível não questionar o raciocínio político de Kerenski - o que esse indivíduo tinha na cabeça (além do chapéu, é claro)?
(6) Lenin já negociara com a Alemanha o fim da participação russa na guerra, mesmo antes que a Revolução Bolchevique fosse uma realidade.
(7) Referência aos bolcheviques.
(8) Não se esqueçam, leitores, de que a Primeira Guerra Mundial estava em andamento, e a divulgação de notícias era, mais do que nunca, uma questão de Estado.
(9) Em referência ao fardamento usado pelas forças militares adeptas do regime czarista.


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quarta-feira, 16 de março de 2016

Escravizados, mesmo após a Abolição

Assinada a Lei Áurea, no domingo, 13 de maio de 1888, a notícia correu com rapidez, primeiro na capital do Império, onde houve grandes festejos populares, e, depois, através de telégrafo, correio, jornais, dos trens que seguiam pelas ferrovias, alcançou pontos mais distantes - alguns no mesmo dia, outros, nos dias seguintes. 
A edição de 15 de maio de 1888 do jornal Correio Paulistano, após a publicação oficial da Lei, comentava: 
"Anteontem foi sancionada a lei que decreta a extinção da escravidão no Brasil.
O projeto, consignado na Fala do Trono, passou em ambas as casas do Parlamento, em menos de uma semana, no meio de ovações e debaixo de uma chuva de flores.
Acaba o País de presenciar a maior revolução social e econômica de que dão notícia os anais da História Pátria.
E essa revolução, ao invés do que se deu na antiguidade e nos tempos modernos, consumou-se sem derramar uma gota de sangue, sem arrancar uma lágrima de dor! (¹)
As lágrimas que correram foram lágrimas de bênçãos e redenção, a orvalharem a mão augusta que acaba de abrir de par em par as portas da posteridade, ao lavrar o decreto que declara que no Brasil só há homens livres e iguais."
Não estranhem os leitores o estilo empolado que era corrente no jornalismo da época, ainda que algo possa ser creditado ao entusiasmo do momento. O que por agora nos interessa é o fato de que a notícia da abolição correu o Brasil, e qualquer pequena localidade que quisesse estar à altura da ocasião organizava seus próprios festejos, com direito a discursos, bailes e outras manifestações. Curiosamente, em meio ao regozijo nacional, os recém-libertados acabaram, em alguns casos, quase esquecidos, de modo análogo ao que ocorrera na lei emancipadora, na qual sequer foram mencionados.
No entanto, anos após a abolição formal da escravidão no Brasil, ainda havia gente escravizada. Pode soar incrível, mas foi exatamente o que aconteceu. De vez em quando a imprensa noticiava que, aqui ou ali, uma pessoa fora encontrada vivendo como se a abolição nunca houvesse acontecido. Dois trechos da obra jornalística de Machado de Assis servirão de exemplo, ambos publicados na Gazeta de Notícias, que circulava no Rio de Janeiro. Vamos ao primeiro deles, datado de 15 de maio de 1892:
Escrava, desenho
de Thomas Ender (²)
"A festa de Treze de Maio comemorava uma página da história, uma grande, nobre e pacífica revolução, com este pico de ser descoberta uma preta Ana ainda escrava, em uma casa de São Paulo. Após quatro anos de liberdade, é de se lhe tirar o chapéu. Epimênides também dormiu por longuíssimos anos, e quando acordou já corria outra moeda; mas dormia sem pancadas. A preta Ana dormiu na escravidão, não sabendo até ontem que estava livre; mas como o sono da escravidão só se prolonga com a dormideira do chicote, a preta Ana para não acordar e saber casualmente que a liberdade começara, bebia de quando em quando a miraculosa poção. O caso produziu imenso abalo; o telégrafo transmitiu a notícia e todos os nomes."
O segundo caso foi publicado menos de um ano mais tarde, em 1º de janeiro de 1893:
"Há o fato de um preto de Uberaba, que, fugindo agora da casa do antigo senhor, veio a saber que estava livre desde 1888, pela lei da abolição. Faz lembrar o velho adágio inglês: "Esta cabana é pobre, está toda esburacada; aqui entra o vento, entra a chuva, entra a neve, mas não entra o rei". O rei não entrou na casa do ex-senhor de Uberaba, nem o presidente da República. O que completa a cena, é que uns oito homens armados foram buscar o João (chama-se João) à casa do engenheiro Tavares, onde achara abrigo. Que ele fosse agarrado, arrastado e espancado pelas ruas, não acredito; são floreios telegráficos."
Como explicar tal absurdo? 
É preciso admitir que, para as condições de comunicação existentes no Brasil da época, é perfeitamente possível que a notícia da abolição, malgrado toda a notoriedade, tenha demorado a alcançar pontos mais remotos do território (o que, por suposto, não incluiria nem São Paulo e nem Uberaba - MG). O mais provável é que um ou outro proprietário tenha, deliberadamente, agido de má-fé, mantendo o trabalhador na escravidão pela astúcia, escondendo a informação, sem excluir o uso da coerção física, método que, aliás, fora empregado com eficácia durante séculos. De que outro modo, afinal, a escravidão se sustentaria?

(1) O jornalista provavelmente tinha a intenção de  alfinetar a maneira pela qual se fizera a abolição nos Estados Unidos, desconsiderando o fato de que, a despeito de não ter demandado uma guerra civil, a luta contra o escravismo exigira, sim, sacrifício, dor e lágrimas também no Brasil, tanto dos envolvidos no movimento abolicionista como dos próprios escravos.
(2) Desenho de Thomas Ender, Século XIX. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Horário de partida dos trens... Em 1867

A postagem de hoje é um complemento à da última terça-feira, dia 9 de outubro, em que tratou-se das mercadorias que eram transportadas nas ferrovias paulistas no século XIX - através da tabela de tarifas que então se cobravam na Estrada de Ferro Santos-Jundiaí é possível, como se mostrou, obter uma visualização (mental) do que ocorria diariamente  nas estações ferroviárias da época. O que temos, a seguir, é a tabela divulgada em 4 de fevereiro de 1867 e publicada no dia seguinte  no jornal Correio Paulistano, na qual eram estipulados os horários (horas e minutos!) de partida dos trens da Santos-Jundiaí em suas diversas estações ferroviárias. Como se vê pelo anúncio, estes horários referiam-se exclusivamente aos trens de passageiros, e não aos que eram dedicados  ao transporte de cargas.
Tentem imaginar, leitores, o som da Maria-Fumaça...
Uma viagem, em qualquer dos sentidos, tinha a duração de 5 horas e 45 minutos. Pela manhã, saía a composição de Jundiaí às 6 horas e 15 minutos, chegando a Santos às 12 horas; no sentido inverso, saía de Santos à 1 hora (ou 13 horas, como queiram), chegando a Jundiaí no início da noite, ou seja, às 6 horas e 45 minutos (ou 18 horas e 45 minutos).
Agora, imaginem isso, em uma tarde morna e preguiçosa, com o cheiro do carvão a queimar-se na locomotiva a vapor! Só mais tarde é que o carvão (importado da Inglaterra) seria substituído por madeira. Tem mais. Lembram-se das modas de vestuário do século XIX? Senhores usando cartolas e casacas de casimira importada, senhoras com longos vestidos e chapéus rebuscados? Pensemos agora em toda essa gente dentro de carros apertadinhos, dotados de janelas minúsculas, nada favoráveis à ventilação, e vai-se embora qualquer visão romântica das viagens pelas ferrovias daqueles tempos. Ou não?



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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Quem se importa com animais e escravos que fugiram?

Eu poderia ter levantado os dados em muitos outros jornais da época, mas escolhi este pela facilidade do acesso ao acervo digitalizado do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Trata-se da edição de terça-feira, 5 de fevereiro de 1867 do Correio Paulistano. Como na maioria dos jornais, há uma seção, nesse caso na página 4, dedicada a anúncios, e dois deles chamam a atenção - estão bem próximos, quase ao lado um do outro.
Vejamos o primeiro. Trata-se de um animal de carga que fugiu e que o dono deseja recuperar, oferecendo uma recompensa. Transcrevo o texto, na ortografia atual:
"BESTA FUGIDA
50$ DE GRATIFICAÇÃO
Fugiu de um pasto da freguesia do Brás uma besta grande e nova, ferrada dos quatro pés, de cor vermelha, tem sinais de pisadura sobre o lombo, e as orelhas muito grandes que costuma derrubar, dá pelo nome de Boneca, e é muito mansa.
Quem achar e levar à rua nova de S. José n. 1 será gratificado com a quantia acima."
Está aí uma leitura altamente edificante para quem acha que "as coisas são como sempre foram". Ajuda a refletir sobre o modo de vida em São Paulo no século XIX. Mas não é essa a razão pela qual transcrevo o texto. Vamos ao segundo anúncio que, como já disse, aparece na mesmíssima página de jornal, quase ao lado do primeiro:
"ESCRAVO FUGIDO
Gratifica-se generosamente a pessoa que apreender o escravo mulato de nome Belisário, pernambucano ou baiano, idade 20 anos, principiando a buçar, e poucos fios de barba, tem um sinal branco no tornozelo do pé esquerdo.
Este escravo fugiu de Itu a José Galvão de França Pacheco Junior no dia 25 de janeiro próximo passado, e foi encontrado no dia 29 na Varginha em direção para São Paulo, trazendo camisa de chita e calça de casimira, e cobertor francês branco. Poderá ser entregue em Itu ao dito José Galvão ou em São Paulo aos senhores Redondo e Coelho na Rua do Comércio n. 42, que se satisfará a gratificação."
Imagino que você, leitor, esteja estarrecido diante das semelhanças entre os dois anúncios, como nome do fujão, referências à idade, sinais particulares e o oferecimento de uma recompensa. No caso do escravo, era importante classificá-lo como baiano ou pernambucano, pois o tráfico de africanos, proibido "de mentirinha" em 1831, fora efetivamente banido em 1850. Fica evidente que, para muitos dos contemporâneos, animais de carga e humanos escravizados eram mais ou menos a mesma coisa, ou seja, máquinas de trabalhar, que constituíam propriedade de alguém e cuja fuga, portanto, representava prejuízo. Daí estipular-se uma recompensa, a fim de favorecer a captura e a devolução.
É fato notório que este não foi um caso isolado. Quem se der ao trabalho de pesquisar em outros jornais encontrará uma chuva torrencial de anúncios semelhantes, ensejando a óbvia constatação de que a prática de assemelhar escravos a bestas de carga de modo algum ofendia a opinião pública. Para dizer bem claramente, as pessoas estavam acostumadas a isso. Chegamos, portanto, à reflexão final: hoje, o tratamento desumano dispensado aos escravos nos parece uma aberração, mas não estaremos nós, em nossos dias, tolerando absurdos  tão grandes quanto e  aos quais nos acostumamos ao ponto de termos perdido a capacidade de reconhecê-los?


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