quarta-feira, 16 de março de 2016

Escravizados, Mesmo Após a Abolição

Assinada a Lei Áurea, no domingo, 13 de maio de 1888, a notícia correu com rapidez, primeiro na capital do Império, onde houve grandes festejos populares, e, depois, através de telégrafo, correio, jornais, dos trens que seguiam pelas ferrovias, alcançou pontos mais distantes - alguns no mesmo dia, outros, nos dias seguintes. 
A edição de 15 de maio de 1888 do jornal Correio Paulistano, após a publicação oficial da Lei, comentava: 
"Anteontem foi sancionada a lei que decreta a extinção da escravidão no Brasil.
O projeto, consignado na Fala do Trono, passou em ambas as casas do Parlamento, em menos de uma semana, no meio de ovações e debaixo de uma chuva de flores.
Acaba o País de presenciar a maior revolução social e econômica de que dão notícia os anais da História Pátria.
E essa revolução, ao invés do que se deu na antiguidade e nos tempos modernos, consumou-se sem derramar uma gota de sangue, sem arrancar uma lágrima de dor! (*)
As lágrimas que correram foram lágrimas de bênçãos e redenção, a orvalharem a mão augusta que acaba de abrir de par em par as portas da posteridade, ao lavrar o decreto que declara que no Brasil só há homens livres e iguais."
Não estranhem os leitores o estilo empolado que era corrente no jornalismo da época, ainda que algo possa ser creditado ao entusiasmo do momento. O que por agora nos interessa é o fato de que a notícia da abolição correu o Brasil, e qualquer pequena localidade que quisesse estar à altura da ocasião organizava seus próprios festejos, com direito a discursos, bailes e outras manifestações. Curiosamente, em meio ao regozijo nacional, os recém-libertados acabaram, em alguns casos, quase esquecidos, de modo análogo ao que ocorrera na lei emancipadora, na qual sequer foram mencionados.
No entanto, anos após a abolição formal da escravidão no Brasil, ainda havia gente escravizada. Pode soar incrível, mas foi exatamente o que aconteceu. De vez em quando a imprensa noticiava que, aqui ou ali, uma pessoa fora encontrada vivendo como se a abolição nunca houvesse acontecido. Dois trechos da obra jornalística de Machado de Assis servirão de exemplo, ambos publicados na Gazeta de Notícias, que circulava no Rio de Janeiro. Vamos ao primeiro deles, datado de 15 de maio de 1892:
Escrava, desenho de Thomas Ender (**)
"A festa de Treze de Maio comemorava uma página da história, uma grande, nobre e pacífica revolução, com este pico de ser descoberta uma preta Ana ainda escrava, em uma casa de São Paulo. Após quatro anos de liberdade, é de se lhe tirar o chapéu. Epimênides também dormiu por longuíssimos anos, e quando acordou já corria outra moeda; mas dormia sem pancadas. A preta Ana dormiu na escravidão, não sabendo até ontem que estava livre; mas como o sono da escravidão só se prolonga com a dormideira do chicote, a preta Ana para não acordar e saber casualmente que a liberdade começara, bebia de quando em quando a miraculosa poção. O caso produziu imenso abalo; o telégrafo transmitiu a notícia e todos os nomes."
O segundo caso foi publicado menos de um ano mais tarde, em 1º de janeiro de 1893:
"Há o fato de um preto de Uberaba, que, fugindo agora da casa do antigo senhor, veio a saber que estava livre desde 1888, pela lei da abolição. Faz lembrar o velho adágio inglês: "Esta cabana é pobre, está toda esburacada; aqui entra o vento, entra a chuva, entra a neve, mas não entra o rei". O rei não entrou na casa do ex-senhor de Uberaba, nem o presidente da República. O que completa a cena, é que uns oito homens armados foram buscar o João (chama-se João) à casa do engenheiro Tavares, onde achara abrigo. Que ele fosse agarrado, arrastado e espancado pelas ruas, não acredito; são floreios telegráficos."
Como explicar tal absurdo? 
É preciso admitir que, para as condições de comunicação existentes no Brasil da época, é perfeitamente possível que a notícia da abolição, malgrado toda a notoriedade, tenha demorado a alcançar pontos mais remotos do território (o que, por suposto, não incluiria nem São Paulo e nem Uberaba - MG). O mais provável é que um ou outro proprietário tenha, deliberadamente, agido de má-fé, mantendo o trabalhador na escravidão pela astúcia, escondendo a informação, sem excluir o uso da coerção física, método que, aliás, fora empregado com eficácia durante séculos. De que outro modo, afinal, a escravidão se sustentaria?

(*) O jornalista provavelmente tinha a intenção de  alfinetar a maneira pela qual se fizera a abolição nos Estados Unidos, desconsiderando o fato de que, a despeito de não ter demandado uma guerra civil, a luta contra o escravismo exigira, sim, sacrifício, dor e lágrimas também no Brasil, tanto dos envolvidos no movimento abolicionista como dos próprios escravos.
(**) Desenho de Thomas Ender, Século XIX. 
O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada e restaurada digitalmente para facilitar a visualização neste blog.

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