segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Os "Aguadeiros", Vendedores de Água


Vendedor de água (⁴)
"Aguadeiros" eram chamados os vendedores de água que, antigamente, percorriam as ruas das cidades brasileiras. Nem sempre eram escravos. Havia alguns, em menor número, que eram de condição livre. No entanto, quer livres, quer cativos, eram muito necessários em tempos nos quais o suprimento de água potável, para uso doméstico, podia ser um grande problema.
Os escravos vendedores de água tinham um modo peculiar de anunciar a mercadoria, conforme conta Joaquim Manuel de Macedo, ao explicar que, durante o vice-reinado de Dom Luís de Vasconcelos (¹), chuvas muito fortes deixaram a cidade do Rio de Janeiro com grande falta de água, fazendo com que os preços praticados pelos aguadeiros subissem vertiginosamente:
"Alguns meses apenas tinham passado depois da chegada de Luís de Vasconcelos ao Rio de Janeiro, quando, em consequência de chuvas aturadas e violentas, romperam-se os aquedutos das fontes públicas, deixando os habitantes da cidade em luta com a carestia d'água, que somente de longe se podia trazer.
Então o pretinho que passava pela rua gritando - Ii! - fazia pagar por um preço relativamente fabuloso o pote d'água que levava à cabeça, e isso era um tormento para os pobres e um motivo de lamentações para os ricos." (²)
Curiosa, mesmo, é a origem atribuída ao grito que os aguadeiros usavam para deixar claro a meio mundo que iam já pela rua com a água tão necessária. É ainda Macedo quem se dispõe a elucidar a questão:
"Se não compreendeis bem a significação deste grito dos vendedores d'água, que ainda se ouvia no Rio de Janeiro em uma época muito recente, eu vo-lo explico. Logo depois da fundação da cidade de S. Sebastião, eram os índios ou gentios que vendiam água aos colonos e a anunciavam na sua língua, bradando: - Ig! Ig! - palavra que foi corrompida mais tarde pelos africanos escravos." (³)
Origem difícil de comprovar, convenhamos. Mas a explicação é engenhosa, e Joaquim Manuel de Macedo não é o único autor a fazer-lhe a defesa.

Escravos carregadores de água (⁵)
Cabe notar que nem todo mundo comprava água dos aguadeiros. Havia, por suposto, quem dispunha de sua própria fonte ou poço, ou ainda quem tinha um ou mais escravos encarregados da tarefa de buscar água nos chafarizes ou em outros pontos de abastecimento.
Levaria ainda um bom número de anos para que as grandes cidades brasileiras deixassem de ter problemas para assegurar, aos moradores, qualidade satisfatória no abastecimento de água. Já quanto às pequenas povoações no interior, em particular nas localidades em que longas estiagens não são incomuns, não é possível afirmar que, mesmo hoje, o problema tenha sido de todo resolvido. Um absurdo, afinal, que já na segunda década do Século XXI, ainda precisemos expressar insatisfação com a estrutura de saneamento básico de parte do Brasil.

(1) Governou o Brasil entre 1778 a 1790.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro
Brasília: Senado Federal, 2005, p. 82
(3) Ibid., pp. 82 e 83
(4) _____________ Brasilian Souvenir
Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845
O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) Ibid.
O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog .

2 comentários:

  1. A lei da oferta e da procura em todo o seu esplendor. Porque ninguém vive sem água, embora não lhe demos valor, desperdiçando tantas vezes!
    As imagens estão fantásticas.
    Beijinhos
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    P.S. Muitos génios literários tinham ódios de estimação. Porque não faz um post sobre isso. Aposto que ia descobrir factos deliciosos!

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    Respostas
    1. Do jeito que anda a falta de chuvas no Sudeste do Brasil, não duvido que acabe aparecendo quem vá vender água pelas ruas. Já há supermercados que não têm mais estoques de água mineral engarrafada.
      Quanto aos ódios de estimação, pode ser que, pelo menos atualmente, sejam também uma questão de mercado. Talvez ajudem a alavancar as vendas de livros, filmes, etc...................

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