terça-feira, 30 de outubro de 2012

O Uso da Língua Indígena em São Paulo no Período Colonial

Parece discutível o número de indígenas escravizados durante os dois primeiros séculos da colonização, mas, se devemos acreditar em depoimentos da época, havia quem tivesse quinhentos, seiscentos, até perto de mil índios "administrados". Seria, nesse caso, um número muito maior do que o de escravos africanos que havia em engenhos no Nordeste: os maiores tinham entre cento e cinquenta e duzentos escravos, mais ou menos.
Sem tentar números definitivos, pode-se considerar, no entanto, que a presença indígena entre os colonizadores, particularmente na Capitania de São Vicente, foi marcante. Os colonos, percebendo o quanto eram vantajosos, adotaram muitos dos hábitos e costumes dos nativos. A convivência, marcada muitas vezes por confrontos e opressão, em alguns casos estreitou-se. Em meio às intermináveis listagens de filhos de paulistas, Pedro Taques de Almeida Paes Leme citou, não poucas vezes, "bastardos mamelucos", filhos de colonos com índias. Meninos brancos aprendiam, desde pequenos, a falar a língua dos indígenas. Em muitas casas, português, mesmo, só se falava com os estranhos. Em família, a "língua geral", tupi-guarani, chegava a predominar. Foi assim até bem adiantado o século XVIII. Sobre isso, contou Hércules Florence:
"Em São Paulo, há sessenta anos, as senhoras conversavam nessa língua, que era a da amizade e da intimidade doméstica. Ouvi-a ainda da boca de alguns velhos." (*)
Disso restaram topônimos e outras expressões incorporadas ao português do Brasil. A prova de quanto o falar indígena havia invadido a intimidade das famílias paulistas vem do fato de que muita gente, inclusive grandes sertanistas, tinha, além do nome de batismo, por suposto de origem lusa, também um apelido, em língua indígena, pelo qual se deixava chamar na vida quotidiana. Disso, vão, a seguir, alguns exemplos, todos da Nobiliarchia Paulistana, de Pedro Taques de Almeida Paes Leme (século XVIII).

a) Referindo-se a João do Prado: "Teve fora do matrimônio um filho mameluco, chamado Domingos do Prado, que na matriz de São Paulo casou em 1616 com Filipa Leme, filha bastarda do grande Pedro Vaz de Barros, chamado pelo idioma brasílico Pero Vaguaçu."

b) "Lucindo Cabral, o Tanguá de alcunha, foi para Buenos Ayres."

c) "O dito Domingos Vaz de Siqueira foi filho de Gaspar Vaz da Cunha, o Jaguareté de alcunha..."

d) "Segunda vez casou com Mécia Fernandes, vulgarmente chamada pelo idioma brasílico Meciuçu, que quer dizer Mécia grande, natural de São Paulo, filha de Antônio Fernandes e de sua mulher Antônia Rodrigues..."

e) "Francisco Dias de Siqueira, capitão-mor, chamado de alcunha Apuçá, que quer dizer surdo."
 
 
(*) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 224

domingo, 28 de outubro de 2012

Sobre o Relacionamento de Piratas, Corsários e Contrabandistas com os Indígenas da América

Enquanto portugueses e indígenas se enfrentavam, algumas décadas após o "descobrimento", em vários pontos do litoral brasileiro,  contrabandistas, piratas e corsários (*) de várias nacionalidades estabeleciam bom relacionamento com os nativos, de modo a conseguirem, mediante escambo, adquirir e embarcar mercadorias que, depois, eram vendidas na Europa. Impõe-se, portanto, a questão: por que franceses, ingleses, holandeses, conseguiam, quase sempre pacificamente, o que os portugueses tinham dificuldade em obter mesmo pela força?
Algumas razões destacam-se, e dentre elas: 

a) Muitos portugueses viam-se como conquistadores das terras da América e, portanto, como legítimos proprietários das riquezas que contivessem, de modo que se julgavam no direito de extrair do Brasil o que lhes interessava, mesmo que isso significasse danificar o território, coisa que provocava a ira dos ameríndios. Sobre isso, escreveu Frei Vicente do Salvador:
"... e deste mesmo modo se hão os povoadores, os quais por mais arraigados que na terra estejam, e mais ricos que sejam, tudo pretendem levar a Portugal (...); porque tudo querem para lá, e isto não têm só os que de lá vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra não como senhores, mas como usufrutuários, só para a desfrutarem, e a deixarem destruída." (**)

b) Os europeus não-portugueses vinham ao Brasil, quase sempre, apenas para fazer comércio e "fazer aguada" (refazer o suprimento de água de suas embarcações), não ficando muito tempo na terra e, raramente, tentando estabelecer colônias, o que fazia com que os povos indígenas não os vissem como uma ameaça quanto ao uso e ocupação do território;

c) Por não se estabelecerem como ocupantes do território, os não-portugueses também não tentavam escravizar os indígenas, o que chega a ser, nesse assunto, um ponto decisivo;

d) Como comerciantes habilidosos que eram, os contrabandistas, piratas e corsários tudo faziam para agradar aos chefes indígenas, evitando, simultaneamente, qualquer ato que pudesse descontentá-los;

e) Eram também perspicazes em compreender a lógica tribal, deixando claro que se consideravam inimigos dos portugueses e, por isso mesmo, amigos dos índios (Hans Staden, por exemplo, enfrentou sérias dificuldades decorrentes desse fato);

f) Finalmente, como o relacionamento dos não-portugueses com índios era esporádico, não eram vistos, de imediato, como uma ameaça aos valores e à cultura dos povos nativos da América, à medida que não tentavam impor uma nova estrutura social, novos usos e costumes ou proibir as práticas já há muito arraigadas. Fica aqui, pois, uma ressalva importantíssima: na maioria das ocasiões em que esses europeus não-portugueses tentaram fixar-se em terras do Brasil, os resultados foram muito semelhantes aos obtidos por colonizadores lusitanos, ou seja,  resistência indígena e confrontos sangrentos.

 
(*) Há quem não veja diferença alguma entre um pirata e um corsário; entretanto, aceita-se, tradicionalmente que um pirata era um ladrão do mar que agia por conta própria, enquanto que um corsário era também um ladrão do mar, mas a serviço de um determinado Estado, roubando os preciosos carregamentos que portugueses e espanhóis levavam da América, para entregarem aos soberanos que os haviam contratado.
(**) SALVADOR, Frei Vicente do História do Brasil, c. 1627.


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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Que Era "Bando", Antigamente

O que é bando? Dependendo do contexto, pode ser um grupo de aves em revoada, ou uma dúzia de guris descendo a rua após as aulas, além de muitas outras coisas... Quando jogadores de futebol atuavam mal, sem qualquer cooperação entre si, meu pai dizia que eram um bando em campo, não uma equipe. Os exemplos nos dicionários seguem mais ou menos a mesma linha.
Se mudássemos, no entanto, a pergunta, e em lugar de "o que é" viesse "o que era um bando?", o significado poderia, também, ser um outro: antigamente, quando não havia métodos mais eficazes para comunicar ao povo de uma cidade alguma nova lei ou decisão dos governantes, lançava-se um bando, ou seja, uma pequena procissão, quase sempre acompanhada de fanfarra, que percorria a localidade, fazendo paradas em vários lugares, aos quais a população acorria para ouvir ler as ordens ou leis que se divulgavam. É o que se vê neste trechinho da Nobiliarchia Paulistana, escrita no século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme: "...e como já tinha mandado lançar bando a som de caixas no Rio de Janeiro, prometendo o perdão em nome de Sua Majestade aos delinquentes..."
Já na primeira metade do século XIX, Debret (*) registrou o "Bando ou Proclamação Municipal" nesta imagem:

 

(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3
Paris: Firmin Didot Frères, 1839 
O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Uma Ornamentação Bem Brasileira em Altares dos Tempos Coloniais

É bastante conhecido o fato de que as cores das penas das aves do Brasil encantaram os portugueses desde a chegada da esquadra de Cabral a Porto Seguro. Na carta destinada ao monarca Dom Manuel, Pero Vaz de Caminha relatou que haviam feito a troca, com os indígenas que encontraram, de alguns guizos  por aves coloridas e objetos confeccionados com penas de aves, que seriam todos enviados ao Reino, como amostra das coisas da terra à qual haviam chegado. "Resgataram", diz ele, "por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse."
Nem todo mundo sabe, porém, que as belas penas de aves do Brasil iriam acabar por constituir-se em exótico adorno para altares de igrejas! Ao menos, é o que se depreende do que escreveu Nuno Marques Pereira, no seu célebre Compêndio Narrativo do Peregrino da América, obra extremamente popular no Brasil do Século XVIII. Ao narrar a viagem da Bahia em direção às Minas, o peregrino chega a uma pequena igreja campestre, na qual entra para ouvir missa, não sem antes entabular com o sacerdote mais um de seus extensos diálogos, aliás, uma característica da obra. É na sacristia que observa os adornos para os altares que ora nos interessam:
"Entrei na sacristia, onde achei o sacristão preparando os ornamentos e o mais necessário para se dizer missa. E reparando, vi o grande asseio e alinho com que estava a sacristia tão bem adornada, assim pela limpeza do lavatório, como pela perfeição de um armário, em que estavam cálices e pedras de ara, e mui perfeitos ramalhetes, uns de penas de várias cores e outros de papel, que todos serviam para se porem nos altares nos dias festivos." (*)
É difícil determinar, meus leitores, o quanto o uso de penas e outros artigos próprios do artesanato dos povos indígenas era frequente nos tempos coloniais. Mas, de qualquer modo, a simples menção de seu uso no Peregrino da América nos dá uma pista de que, se é verdade que os missionários cristãos procuraram catequizar os nativos, também é fato que os indígenas, a seu modo, também exerceram uma "catequese", à medida que belas expressões de sua arte acabaram indo decorar nada menos que os altares de uma igreja, quer isoladamente, quer em conjunto com expressões mais convencionais, próprias da religiosidade europeia.

 
(*) PEREIRA, Nuno Marques Compêndio Narrativo do Peregrino da América
Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, pp. 404 e 405.


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domingo, 21 de outubro de 2012

O Cultivo de Trigo no Sul do Brasil nas Primeiras Décadas do Século XIX - Parte 2

O curioso método usado para debulhar o trigo no sul do Brasil nas primeiras décadas do Século XIX recebeu de Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês uma descrição minuciosa:
"Para bater o trigo fazem-se dois currais, tendo um deles uma forma qualquer e o outro a forma circular, em comunicação com o primeiro. Arranca-se a erva deste último curral, varrendo-o com cuidado, e aí se espalham as espigas. Reúnem-se jumentos selvagens no primeiro curral. Daí fazem passá-los a outro curral circular e os fecham ali. Homens a cavalo acossam os jumentos com fortes chicotadas, e os forçam a correr à volta várias vezes, debulhando as espigas com as patas." (*)
Que lhe parece, leitor? Está a analisar a coisa pelo seu aspecto "ecológico" ou pela vertente dos maus-tratos para com os animais? Saint-Hilaire também não aprovou essa prática de bater o grão, mas por outras razões: "Este processo de bater o trigo é extremamente precário. Não somente as espigas deixam de esvaziar-se completamente, como, não havendo cuidado de explorar o curral, ainda muitos grãos se ocultam sob a terra e ficam perdidos." (**)
E, para assegurar que sua descrição correspondia à realidade dos fatos, anotou:
"Eu próprio vi os currais; e os outros pormenores que mencionei devo-os ao meu hospedeiro, Sr. José Feliciano Bezerra, cultivador de trigo." (***)
Voltou depois ao assunto, para acrescentar:
"Comecei a descrever o modo de bater o trigo; vou terminar o que tenho a dizer a respeito. Quando o grão sai das espigas, separa-se dele a palha com forquilhas de três dentes, muito próximos um do outro, acabando-se de limpá-lo pelo processo de arremessá-lo ao ar contra o vento com pás." (****)
Estando limpo o trigo, devia ser embalado e comercializado. Era então o trigo acondicionado em sacos de couro e despachado para o porto do Rio de Janeiro, de onde seguia para outras regiões do Brasil. Quem vendia o trigo devia, porém, ser cuidadoso, pois as consequências de uma eventual fraude no comércio não eram exatamente leves:
"O trigo é vendido em sacos de couro cru, com seis a doze alqueires (*****). O número de alqueires é indicado por sinais na borda do surrão; o negociante adquire o surrão após a declaração do lavrador; mas esse se obriga a colocar sua chancela no surrão e se responsabiliza pela quantidade declarada. Se há reclamações por parte do consumidor, é, então, condenado a pagar seis mil-réis de multa por surrão e um mês de cadeia." (******)
 
 
(*) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul
Brasília: Senado Federal, 2002, p. 158
(**) Idem.
(***) Ib.
(****) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul
Brasília: Senado Federal, 2002, p. 161
(*****) Alqueire era uma antiga medida portuguesa de capacidade, equivalente a 13,8 litros. Entretanto, no Brasil, há medidas usadas para grãos (trigo, milho, etc.), também conhecidas por alqueire, que variam de uma região para outra. Assim, como exemplo, o chamado alqueire paulista equivale a 40 litros; já em Minas Gerais, o alqueire mineiro corresponde ao dobro do de São Paulo.
(******) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul
Brasília: Senado Federal, 2002, p. 569


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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Cultivo de Trigo no Sul do Brasil nas Primeiras Décadas do Século XIX - Parte 1

No início do século XIX a triticultura era já muito importante no sul do Brasil. Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês que, na época, percorreu o atual Estado do Rio Grande do Sul e o Uruguai, deixou preciosas observações sobre os métodos que eram então utilizados tanto para plantar e colher como para debulhar o trigo.
Referindo-se ao plantio das lavouras de trigo em algumas áreas, notou que era possível obter duas safras por ano, com a condição de se alternarem milho e trigo:
"As terras produzem duas vezes por ano, quando se alternam o milho e o trigo. Planta-se o trigo de maio a agosto, e se recolhe principalmente em dezembro. Imediatamente após, queima-se a palha e planta-se o milho na mesma terra sem cultivá-la, fazendo-se apenas covas com a enxada para aí colocar a semente." (*) Note-se que a queima como parte das práticas agrícolas, verdadeira praga na agricultura brasileira (por mais vantagens que aparentemente tivesse), estava presente também neste caso.
A técnica de colheita recebeu também especial atenção do atento Saint-Hilaire: "Faz-se colheita do trigo", escreveu ele, "com grandes foices muito estreitas, do feitio de uma semielipse alongada e oblíqua. O ceifador põe dedeiras de palha na mão esquerda, e com essa mão prende um punhado de pés de colmos, abaixo das espigas, e corta a palha sob a mão. Deixa-se o restolho." (**)
Uma vez colhido, o trigo devia ser debulhado para, só então, ser comercializado. Isto será assunto da próxima postagem.

 
(*) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul
Brasília: Senado Federal, 2002, p. 567
(**) Idem, p. 158


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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Por Que se Deixou de Cultivar Trigo em São Paulo

No século XVII, para fazer frente à tentativa holandesa de ocupação do Nordeste brasileiro, solicitou o representante português Antônio Telles da Silva que a Câmara Municipal de São Paulo contribuísse com homens e suprimentos para a guerra; isso se fez, mediante o envio de soldados, índios das "administrações"(*) e provisões para sustento das tropas, conforme relata Pedro Taques de Almeida Paes Leme em sua Nobiliarchia Paulistana:
"Este grande socorro de duzentos paulistas soldados e dois mil índios flecheiros, não das aldeias do real padroado e sim da administração de paulistas particulares, que neste tempo abundavam, de sorte que muitos havia que possuíam debaixo de sua administração quinhentos, seiscentos e setecentos índios, que se ocupavam no trabalho da agricultura em copiosas searas de trigo, plantas de milho, feijão, legumes e nos algodoais, saiu debaixo do comando do capitão de infantaria e cabo-maior Antônio Pereira de Azevedo em julho de 1647."
Portanto, nesse tempo, o cultivo de trigo, além de outros gêneros, era ainda muito importante em São Paulo (**), como já se mostrou na postagem anterior. O que teria, porém, sucedido, para que a triticultura fosse quase completamente abandonada na Capitania?
Antes de mais nada, deve-se saber que os fazendeiros que cultivavam trigo viviam em confronto com os donos de moinhos, querendo esses últimos, para si, uma parte exagerada do trigo que se produzia. Embora a Câmara Municipal buscasse disciplinar a coisa, estipulando maquias que não deviam ultrapassar a oitava ou, quando muito, a sétima parte do trigo moído, a realidade é que muitas vezes os senhores moleiros se apropriavam de até 25% da produção, vindo a ser um severo desestímulo aos fazendeiros que, por outro lado, não tinham remédio senão submeter-se às exigências dos donos de moinhos.
Além disso, o trigo produzido não era todo consumido pelos moradores de São Paulo, sendo o excedente vendido a comerciantes de Santos que tornavam-se, assim, intermediários na distribuição do produto para outras regiões da Colônia. Pode-se, pois, facilmente imaginar o que sucedia: os comerciantes de Santos combinavam pagar pelo trigo um preço muito baixo, a fim de maximizar seus próprios lucros. O resultado disso foi que muitos fazendeiros entenderam ser um mal negócio plantar trigo, diante da exploração a que se julgavam submetidos.
Alega-se, também, que o desmatamento acelerado da Capitania provocou, já na época, importante mudança climática, de modo que a temperatura média anual veio a ter significativa elevação, tornando São Paulo menos favorável à triticultura. É difícil mensurar o significado econômico dessa suposta mudança climática, mas deve-se observar que já no início do século XIX vários autores referiam-se a ela. Não é, pois, coisa do século XXI...
O golpe de morte nas lavouras de trigo que ainda restavam viria, porém, com os descobrimentos auríferos nas Gerais. Na corrida pelo ouro, muita gente abandonou a então pequena São Paulo, para nunca mais voltar. Multidões fixaram-se nas áreas mineradoras. Abandonaram-se as roças, chegou a faltar comida, houve uma absurda elevação nos preços dos gêneros alimentícios. Homens válidos, livres ou escravos, eram empregados na busca febril pelo ouro. Quem é que ia ocupar-se de plantar trigo, com todos os seus inconvenientes, quando o ouro aflorava e quem tinha sorte podia enriquecer do dia para a noite?
Restaram, de um modo geral, apenas lavouras de subsistência, cultivando-se gêneros nativos da América, de mais fácil produção, em lugar do trigo, que demandava sérios cuidados e, no final das contas, dava um lucro muito limitado.

 (*) Sem meias-palavras, as "administrações" eram pouco melhores que campos de trabalhos forçados onde viviam índios "convertidos", voluntariamente ou não.
(**) Deve-se considerar que a produção era considerada grande para os padrões da época. Apenas para exemplificar, considerava-se, em São Paulo, que um sujeito que fosse dono de umas duzentas cabeças de gado era um pecuarista de muito sucesso.

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domingo, 14 de outubro de 2012

O Cultivo de Trigo em São Paulo nos Séculos XVI e XVII

Referindo-se à Capitania de São Vicente, Pero de Magalhães Gândavo escreveu, já na segunda metade do século XVI:
"Nesta capitania se deu já trigo, mas não o querem semear por haver na terra outros mantimentos de menos custo." (*)
Não se pode saber com exatidão a que área da Capitania de São Vicente Gândavo referiu-se. Se foi à região costeira, das povoações de Santos e São Vicente, ele estava certo. Mas se tratou da Capitania como um todo, estava errado, isso porque, até meados do século XVII, a triticultura teve muita importância nas fazendas estabelecidas ao redor da vila da São Paulo. Isto sabemos pelos registros feitos na Nobiliarchia Paulistana por Pedro Taques de Almeida Paes Leme, que reputava grande sinal de riqueza entre os antigos paulistas, além de dispor de numerosa escravatura de origem indígena, o empregar toda essa mão de obra no cultivo de terras que produziam, antes de mais nada, trigo, e também milho, feijão ou algodão. A seguir, veremos alguns exemplos bastante elucidativos.
Tratando de Salvador Pires, português da cidade do Porto, estabelecido em São Vicente no século XVI, e da sesmaria que recebeu e por que causa, observou que "...passara da vila de São Vicente para a de Santo André da Borda do Campo no ano de 1553, e lhe foi dada meia légua de terras na Tapera que tinha sido alojamento do índio Baibebá, partindo pelo campo de Piratininga direito à serra, por ser dito Pires lavrador potentado, que dava avultada soma de alqueires de trigo ao dízimo, além das colheitas de outros frutos todos os anos." Muito interessante, não?
Continuemos.
"Em São Paulo fez Antônio de Proença o seu estabelecimento em uma fazenda de terras de cultura e campos criadores, na ribeira de Ituporanga, onde teve abundantes criações de gados (...) e grandes searas de trigo, de cujos rendimentos fornecia o tratamento de sua casa. Assim se vê do testamento com que faleceu em São Paulo, feito do próprio punho a 9 de janeiro de 1605."
Há mais. Referindo-se a Amador Bueno, na primeira metade do século XVII, anotou: "Teve grande tratamento e opulência por dominar debaixo de sua administração muitos centos de índios, que de gentio bárbaro do sertão se tinham convertido à nossa santa fé, pela indústria, valor e força das armas, com que os conquistou Amador Bueno em seus reinos e alojamentos. Com o trabalho destes homens, ocupados em dilatadas culturas, tinha todos os anos abundantes colheitas de trigo, milho, feijão e algodão." Sim, esse Amador Bueno é o da "Aclamação". Também ele era um triticultor importante.




Poderíamos seguir enumerando outros grandes fazendeiros da época, porque Pedro Taques lista muitos deles, mas os já citados são suficientes para demonstrar que, no século XVII, o cultivo de trigo era, de fato, relevante em São Paulo. Menciona-se, abaixo, apenas mais um caso, que põe em destaque o entusiasmo de Pedro Taques com a produção das terras de Manoel Dias da Silva, português de Aveiro, que faleceu em São Paulo em 6 de março de 1677, sobre quem assinala:
"Teve em São Paulo grossa fazenda de culturas com excessivas colheitas de trigo e grande criação de ovelhas e gados vacuns."
Observemos que expressões como "avultada soma de alqueires de trigo ao dízimo", "grandes searas de trigo", "todos os anos abundantes colheitas de trigo" ou ainda "excessivas colheitas de trigo" não deixam dúvidas: a triticultura era mesmo muito importante em São Paulo no século XVII.

 
(*) GÂNDAVO, Pero de Magalhães Tratado da Terra do Brasil
Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 49


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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Horário de Partida dos Trens... Em 1867

A postagem de hoje é um complemento à da última terça-feira, dia 9 de outubro, em que tratou-se das mercadorias que eram transportadas nas ferrovias paulistas no século XIX - através da tabela de tarifas que então se cobravam na Estrada de Ferro Santos-Jundiaí é possível, como se mostrou, obter uma visualização (mental) do que ocorria diariamente  nas estações ferroviárias da época. O que temos, a seguir, é a tabela divulgada em 4 de fevereiro de 1867 e publicada no dia seguinte  no jornal Correio Paulistano, na qual eram estipulados os horários (horas e minutos!) de partida dos trens da Santos-Jundiaí em suas diversas estações ferroviárias. Como se vê pelo anúncio, estes horários referiam-se exclusivamente aos trens de passageiros, e não aos que eram dedicados  ao transporte de cargas.
Tentem imaginar, leitores, o som da Maria-Fumaça...
Uma viagem, em qualquer dos sentidos, tinha a duração de 5 horas e 45 minutos. Pela manhã, saía a composição de Jundiaí às 6 horas e 15 minutos, chegando a Santos às 12 horas; no sentido inverso, saía de Santos à 1 hora (ou 13 horas, como queiram), chegando a Jundiaí no início da noite, ou seja, às 6 horas e 45 minutos (ou 18 horas e 45 minutos).
Agora, imaginem isso, em uma tarde morna e preguiçosa, com o cheiro do carvão a queimar-se na locomotiva a vapor! Só mais tarde é que o carvão (importado da Inglaterra) seria substituído por madeira. Tem mais. Lembram-se das modas de vestuário do século XIX? Senhores usando cartolas e casacas de casimira importada, senhoras com longos vestidos e chapéus rebuscados? Pensemos agora em toda essa gente dentro de carros apertadinhos, dotados de janelas minúsculas, nada favoráveis à ventilação, e vai-se embora qualquer visão romântica das viagens pelas ferrovias daqueles tempos. Ou não?







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terça-feira, 9 de outubro de 2012

O que se Transportava nas Ferrovias Paulistas no Século XIX

Com um pouco de imaginação, leitores, pode-se visualizar o que era uma estação ferroviária nos princípios da implantação de ferrovias em São Paulo, lá pelos anos sessenta ou setenta do século XIX. A novidade das locomotivas a vapor atraía gente curiosa, mesmo quem, talvez, nunca viesse a fazer uma viagem de trem. É bom lembrar que, nesses tempos, grandes viagens eram para poucos, de modo que a maioria das pessoas passava a vida inteira em sua localidade de origem, e o que se sabia sobre outros lugares ou era por leituras ou, simplesmente, por ouvir contar.
Voltemos, porém, ao caso das estações ferroviárias: as maiores tinham, por suposto, armazéns onde eram depositadas as mercadorias que aguardavam transporte, separadamente do embarque de passageiros. Já as pequenas... As pequenas, em locais de embarque das safras de café e outros gêneros, eram voltadas principalmente ao transporte de mercadorias, de modo que eram construídas o mais próximo possível das grandes fazendas produtoras, para facilitar o embarque, evidentemente. Para os passageiros que se aventuravam a viagens de trem, o deslocamento ocorria a velocidades que, para a época, eram consideradas estonteantes - uns quarenta ou cinquenta quilômetros por hora, muito mais do que se podia fazer em lombo de muares ou em carros de bois.
Sucede que, embora o café predominasse (em direção ao porto de Santos), havia uma razoável variedade de mercadorias que se transportava nos dois sentidos (porto de Santos - Capital -Interior, ou Interior - Capital - porto de Santos). Podemos ter uma ideia disso se examinarmos as tabelas de preços fixadas para o transporte de carga, o que nos mostrará que, pelas circunstâncias, as estações ferroviárias podiam ser locais movimentados, barulhentos e com aromas bem característicos.
Vejamos, então:
Em 1866 o Governo da Província fixou as seguintes tarifas (*), que deveriam vigorar na Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, e que ora nos interessam mais pela descrição das mercadorias que propriamente pelos valores estipulados (a lista é longa, meus leitores, mas tenham a paciência de lê-la até o final, pois é a melhor maneira que se tem para visualizar, mentalmente, a realidade das ferrovias paulistas em seus primórdios); a mesma tabela serviu, depois, de modelo para outras ferrovias:

- Para "peixe fresco, ostras, caça, verduras e frutas (...) por tonelada métrica" seriam cobrados 205$200 (duzentos e cinco mil e duzentos réis);
- Para mercadorias de exportação, como "café, açúcar, algodão, fumo, couros secos e outros semelhantes, aguardente e outros espíritos, se forem fabricados no país, por tonelada métrica": 30$720;
- Para "legumes, farinha de mandioca ou de milho, arroz, feijão, milho e raízes alimentícias, couros salgados, cobre, chumbo, ferro e outros metais não trabalhados, ferragens em geral destinadas a construções, máquinas e utensílios para a agricultura, gêneros alimentícios de primeira necessidade importados, como sal, farinha de trigo e peixe salgado, e os produzidos no país, como queijos, toucinho, carne e outros, por tonelada métrica": 21$700 (**);
- Para "louças (...) e os vidros ordinários, querosene, aguarrás, e outros espíritos de importação, por tonelada métrica": 46$140;
- Para "objetos de grande volume e pouco peso, como mobílias, caixas com chapéus e outros semelhantes de importação e exportação, por tonelada métrica": 93$600;
- Para "pólvora em barris, por carro especial": 180$000;
- Para "pólvora em latas hermeticamente fechadas e outras substâncias inflamáveis ou explosivas, como fósforos, petróleo, vitríolo e fogos de artifício, por tonelada métrica": 130$800;
- Para "objetos frágeis e de grande responsabilidade, como pianos, espelhos, vidros e outros, por tonelada métrica": 112$000.

Agora, senhores leitores, a lista torna-se, digamos, mais movimentada:

- Para "bois, vacas, touros, cavalos, bestas e jumentos, por cabeça": 8$000;
- Para "bezerros, carneiros, cabritos, porcos, cães e outros quadrúpedes semelhantes": 1$800;
- Para "galos, frangos, galinhas, marrecos e outras aves do mesmo tamanho ou menores, por dúzia": 1$000;
- Para "perus, gansos, patos e outras aves do mesmo tamanho ou maiores, por cabeça": $280.

Entrava-se, a seguir, na lista dos materiais de construção e de uso rural, além daqueles que seriam empregados na construção de novas ferrovias. Um item, aqui, chama a atenção:

- Para "capim, estrumes e outras substâncias úteis à lavoura e de valor insignificante em relação ao volume, por carro": 22$000.

Finalmente:

- Para "caixão com defunto, transportado em compartimento isolado, nos trens de viajantes, cada um": 50$800.

Apenas como curiosidade, as tarifas para passageiros (vivos, nesse caso), eram as seguintes:

- Para a primeira classe: 12$000;
- Para a segunda classe: 10$000;
- Para a terceira classe: 5$000.

Então, todos prontos para a viagem?

 
(*) PINTO, Adolpho Augusto História da Viação Pública de São Paulo
São Paulo: Vanorden, 1903, pp. 155 - 157
(**) Observem aqui os leitores dois aspectos relevantes: primeiro, a preocupação em tornar acessíveis os custos do transporte de gêneros de exportação, bem como os de consumo interno de maior necessidade; segundo, a lista de importados de primeira necessidade revela algo sobre os hábitos alimentares da época (peixe salgado...), além de mostrar a dependência das importações de trigo, ainda hoje um problema no Brasil.

domingo, 7 de outubro de 2012

O Atleta ou o Pensador?

Quem é mais importante: o atleta ou o pensador? A oposição capacidade física versus capacidade mental sempre suscitou debates, e há, neste blog, algumas postagens que tratam do assunto. "Xenófanes, o Homem que Ousou Questionar os Jogos Olímpicos da Grécia Antiga" e "Os Esportes no Brasil do Século XIX e Início do Século XX - Parte 5" são exemplos, mas há outras mais.
Seja como for, a falta de equilíbrio às vezes parece ser o único fator presente em ambos os pontos de vista: ora são os "fortões", que vão salvar a pátria, ora existe quem veja no estereótipo do intelectual hiperfocado e doentio o exemplo para a juventude.
Tolice! Por que é que não se pode ser, ao mesmo tempo, saudável e instruído, dentro das possibilidades individuais, desfrutando melhor a vida e, por suposto, exercendo melhor a cidadania? Não é preciso ser pálido e anêmico para pensar ativamente, nem se deveria prescindir do desenvolvimento mental na formação dos atletas, que só teriam a ganhar com maior escolaridade. Mas a questão é velha e não vai, evidentemente, desaparecer só porque eu escrevi esta postagem.
Para concluir, lá vão dois cartoons que apareceram em outubro e novembro de 1922 em duas edições da revista paulistana A Cigarra.

Ruy Barbosa e o Futebol (*)



Deve-se explicar, a bem dos leitores mais jovens, que a personagem retratada como o magricela de cérebro gigantesco é Ruy Barbosa que, na época, era tido como um dos maiores intelectuais brasileiros. Morreu no ano seguinte.
Voltando aos nossos dias: Em tempos pós-Olimpíadas, diante de um desempenho algo abaixo do que se esperava por parte dos atletas, sempre aparece quem defenda a solução de todos os problemas do Brasil pela ênfase à prática desportiva nas escolas. Ora, esporte na escola pode, sim, fazer muito pela saúde das crianças e jovens; pode, ainda, revelar talentos atléticos que venham a ser verdadeiros campeões olímpicos. Mas não vai, de jeito nenhum, resolver todos os problemas do Brasil.

Ministério do Futebol (**)



Em tempos pré-Copa do Mundo, sempre aparece alguém que acha, seriamente, que, em virtude da enorme importância que tem para o Brasil, o futebol deveria ter um Ministério inteiramente a ele dedicado, o que torna o cartoon abaixo um bocado atual, a despeito de seus noventa aninhos: atual, sim, ainda que marotamente perverso, como o leitor poderá conferir por si mesmo.


(*) Revista A Cigarra, Ano X, nº 195, 1º de novembro de 1922.
(**) Revista A Cigarra, Ano X, nº 194, 15 de outubro de 1922.


Para ler mais sobre este assunto, acesse:

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De que se Alimentavam os Bandeirantes Quando Iam ao Sertão

"Antônio Raposo, por exemplo, tem um destaque admirável entre todos os conquistadores sul-americanos. O seu heroísmo é brutal, maciço, sem frinchas, sem dobras, sem disfarces. Avança ininteligentemente, mecanicamente, inflexivelmente, como uma força natural desencadeada. A diagonal de mil e quinhentas léguas que traçou de São Paulo até ao Pacífico, cortando toda a América do Sul, por cima de rios, de chapadões, de pantanais, de corixas estagnadas, de desertos, de cordilheiras, de páramos nevados e de litorais aspérrimos, entre o espanto e as ruínas de cem tribos suplantadas, é um lance apavorante, de epopeia. Mas sente-se bem naquela ousadia individual a concentração maravilhosa de todas as ousadias de uma época.
O bandeirante foi brutal, inexorável, mas lógico.
Foi o super-homem do deserto."                                                                                                                           Euclides da Cunha, À Margem da História
 

Há alguns erros que devem ser evitados, quando se trata dos bandeirantes. O primeiro deles é supor que, nos séculos XVII e XVIII, todo paulista era um bandeirante. Façamos uma comparação: atualmente, muitos meninos dizem que querem ser bombeiros, policiais, pilotos de avião, jogadores de futebol, mas mudam completamente de ideia quando adultos. Naqueles tempos, os bandeirantes, quando bem-sucedidos, enriqueciam, tornavam-se poderosos, respeitados, temidos. Podiam contar as proezas de sua vida aventurosa, que todos ouviam, boquiabertos. Andavam rodeados por índios escravizados, que lhes atendiam a todos os desejos. Mandavam, e eram obedecidos. Qual o garoto que não sonharia ser bandeirante, também?
Mas claro, na vida adulta tudo mudava. Nem sempre se podia deixar as ocupações, a família, e acompanhar uma bandeira, anos a fio, pelos sertões desconhecidos. Assim, ser bandeirante era um ideal. Não era para todo mundo.
Outro engano é imaginar que todo sertanista era rico e poderoso. Sim, os chefes geralmente eram, mas o grosso da tropa compunha-se de gente de situação econômica modesta, que buscava, arriscando a pele, uma oportunidade de "subir na vida". Havia também muitos índios escravizados, que, frequentemente, acompanhavam as bandeiras não porque quisessem, mas porque a isso eram obrigados.
Uma terceira ideia errônea é a de que as bandeiras eram exércitos particulares numerosíssimos. Havia bandeiras formadas por centenas de pessoas, sim, mas havia algumas com menos gente. Nesse caso, um chefe mais tarimbado, experiente nas coisas do sertão, disposto a um maior dispêndio de recursos com sua expedição, podia reunir uma quantidade mais expressiva de aventureiros que algum outro, menos famoso e respeitado. Vale acrescentar que os sertanistas experientes tinham, como resultado de seu "ofício", um maior número de índios cativos que podiam inscrever, compulsoriamente, em sua bandeira.
Ora, perguntará alguém, de que se alimentava toda essa gente, quando percorria o Brasil, até então, em grande parte, desconhecido?
A serem verídicos os relatos que chegaram até nossos dias, pode-se considerar um verdadeiro espanto a frugalidade dos sertanistas. Há, sobre isso, um trechinho bem interessante, escrito por Pedro Taques de Almeida Paes Leme no século XVIII, na Nobiliarchia Paulistana (ele próprio de uma família recheada de bandeirantes). Trata dos soldados paulistas, recrutados em 1762 entre os habituados a correr os sertões, para a guerra no sul do Brasil, pelo controle da Colônia do Sacramento, mas aponta para as práticas comuns nas bandeiras:
"...para se vencer o rompimento da dilatada meta trabalharam todos os soldados como robustos escravos, e se sustentaram de mel de abelhas e de raízes de paus de digestão (como sempre costumavam os antigos paulistas), a que chamam guaribá, por não terem levado o necessário sustento, e não lhes ser permitido matar caça para não serem sentidos pelo eco das armas".
Há também uma descrição algo mais detalhada, feita por Saint-Hilaire:
"A caça e a pesca forneciam alimentação abundante à tropa, e, ao sul da província, eram encontrados, como delicada iguaria, os frutos dos pinheiros-do-brasil (Araucaria brasiliensis); ao norte eram encontrados outros frutos e os brotos saborosos de algumas palmeiras, bem como raízes comestíveis e mel selvagem. Quando os corredores de desertos (sertanistas) calculavam só regressar depois de decorridos alguns anos, levavam grãos de cereais, de milho, principalmente, que semeavam, prosseguindo sua marcha, mas, voltando, passados alguns meses, para fazerem a colheita." (*)
Resta acrescentar que há relatos de que, em algumas situações, estando algumas bandeiras tão pressionadas pela falta de alimentos, chegou-se a cozer o couro de sapatos ou outras peças de vestuário. Vê-se, pois, que alistar-se como bandeirante não era, em absoluto, como reservar lugar para uma festa ou passeio na selva. Haja resistência!

 
(*) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 154 e 155


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terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Vestuário dos Bandeirantes

"O escudeiro envergava um desses corpos de algodão, muito usados naquele tempo no Brasil, de preferência às couraças de metal fabricadas no Reino; porque estas, além de mais pesadas e incômodas, tinham o inconveniente de repelir com força os arremessos das setas e dardos, que resvalando pelas faces polidas, iam ferir os próximos combatentes, enquanto que as outras embotavam o golpe."                                                                                                                 
José de Alencar, As Minas de Prata


Bandeirante, monumento em bronze no Memorial do Rio Tietê em Salto - SP. (***)

A visão idealizada dos bandeirantes apresenta-os bem compostos, geralmente usando chapéu, gibão e botas altas. São assim representados em muitos monumentos, e é provável que alguns deles, ao menos, assim saíssem de casa, no início de uma bandeira. Sim, alguns deles, os chefes, talvez. A maioria dos integrantes de uma bandeira não devia ter recursos para tanto.
Antes de mais nada, para quem pretendia percorrer a pé os sertões desconhecidos, não era possível ter bagagem considerável. Quem iria carregá-la? Mesmo que índios fossem incumbidos da tarefa, não se pode transportar o mundo às costas de seres humanos. Assim, levava-se, claro, alguma roupa, cobertores, a rede para dormir... e não muito mais que isso.
Referindo-se a Antônio de Almeida Falcão, Pedro Taques de Almeida Paes Leme anotou, na sua Nobiliarchia Paulistana:
"...e passando às minas de Cuiabá penetrou aqueles sertões em serviços da Real Coroa, com intento de novos descobrimentos de minas de ouro, à sua custa. Com esta disciplina se fez bastantemente experimentado na agreste vida que sofrem os sertanistas."
Vestuário e calçados eram, porém, rústicos, feitos de material disponível na própria colônia, como algodão, para os primeiros, couro de veado, para os últimos. Explica-se: a falta de meio circulante na Capitania de São Vicente quase impedia a compra de artigos mais sofisticados, vindos do Reino. Mesmo tidos como gente poderosa, os bandeirantes enfrentavam, pois, a floresta, com recursos bastante limitados. Calções de couro, pela sua resistência, eram comuns. Não raro, andavam descalços, como os índios, com quem aprendiam uma técnica que permitia, assim, caminhar mais rápido, deixando menos vestígios. O gibão acolchoado, no entanto, era uma peça importante: protegia contra as setas dos indígenas (*).
No século XIX, quando as bandeiras clássicas já eram coisa do passado, Saint-Hilaire, naturalista francês que andou pelo Brasil, escreveu, em referência aos sertanistas de São Paulo:
"Punham-se, então, em marcha, munidos de chumbo e de pólvora, uns levando um fuzil e outros um arco e flechas, todos armados de comprida faca, de que se serviam tanto para a defesa pessoal como para cortar os galhos das árvores e esfolar os animais selvagens. Iam descalços, com um cinturão de couro cru à volta dos rins e, na cabeça, um chapéu de palha de abas largas, sem outra vestimenta além de uma braga de tela grosseira de algodão e uma camisa curta, com as fraldas por fora das bragas; algumas vezes traziam uma couraça e coxotes de pele de veado (gibão e perneiras). Cada um levava um saco de couro a tiracolo, com suas provisões. Um chifre de boi servia de caneca e uma cuia ou cabaça partida ao meio servia de prato." (**)
Como se sabe, os testamentos deixados por alguns bandeirantes comprovam a veracidade dessas informações. Os que sobreviviam às aventuras sertanistas, retornavam geralmente em andrajos, muitas vezes com barbas enormes, a ponto de não serem reconhecidos pelos próprios parentes. Alguns, apesar do aspecto lamentável, tiveram a sorte de voltar cobertos de ouro. Outros, perdiam em seus empreendimentos quase tudo o que tinham. Houve até quem, ao chegar em casa muitos anos após a partida, descobrisse que fora dado como morto, em algum ponto longínquo do sertão. A suposta viúva já estava casada novamente, tendo até filhos com o segundo marido.

 
(*) De acordo com Varnhagen, a origem do gibão de algodão acolchoado seria antilhana. Veja, sobre isso:
VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 1, 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 213
(**) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 154
(***) As esculturas no Memorial do Rio Tietê, inclusive esta, são obra de Murilo Sá Toledo.


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