Mostrando postagens com marcador Saint-Hilaire. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Saint-Hilaire. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Ensino e catequese no Brasil após a expulsão dos jesuítas no Século XVIII

Os jesuítas vieram inicialmente ao Brasil com Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, em 1549. Desde então passaram a desenvolver a catequese de indígenas e a ensinar filhos de colonos em seus colégios. Sucede que a Companhia de Jesus tornou-se muitíssimo poderosa na América, a ponto de ser acusada de ter intenções de estabelecer, no sul do Continente, um verdadeiro império sob seu controle. No Século XVIII o ideário iluminista, influente até mesmo sobre alguns governantes na Europa (¹), fez com que as suspeitas contra os jesuítas chegassem ao auge, resultando na supressão da Ordem em 1773 (²). A expulsão de Portugal e seus domínios ocorreu antes, em 1759, até porque o Marquês de Pombal, ministro do rei D. José I, não tinha por eles nenhuma simpatia. 
O que aconteceu às missões no Brasil que os jesuítas foram obrigados a abandonar?
Saint-Hilaire, naturalista francês, percorrendo o Rio Grande do Sul um pouco antes da Independência, observou:
"Outrora ensinava-se a ler e a escrever em todas as aldeias, mas essas lições cessaram há muito tempo." (³) 
Referia-se, naturalmente, às aldeias de índios guaranis que haviam sido catequizadas por jesuítas. Deve-se notar que, expulsos os missionários da Companhia, competia ao governo português prover instrução básica à população. Como, porém, notou o próprio Saint-Hilaire, os salários oferecidos aos professores eram muito baixos, disso resultando um desinteresse pelo cargo e, por consequência, muitas povoações deixaram de ter escolas.
Não só o ensino foi abandonado em muitos lugares. A saída dos jesuítas também interrompeu a catequese, ainda que, em alguns casos, religiosos de outras Ordens tenham assumido as missões. Um resultado curioso desse abandono foi registrado no Diário da Expedição que em 1780 saiu para demarcação da América Portuguesa, com a constatação de que havia indígenas semicatequizados que, sem uma doutrinação completa, chegavam, quando interrogados, a expressar uma lista algo sincrética de crenças que, se eram em parte cristãs, eram, também parcialmente, bem pouco ortodoxas. Exemplo? Veja-se o que disse o chefe indígena de uma tribo da região amazônica, que já tinha "alguma luz da doutrina cristã":
"...indagado por alguns princípios da religião que seguiam nas suas terras, respondeu que os bons depois de mortos iam ter muitas mulheres, e os maus iam para uma cova muito funda em que havia muito fogo."

(1) Os chamados "déspotas esclarecidos".
(2) A bula papal, permitindo a restauração da Companhia de Jesus, data de 1814.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 341.


Veja também:

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mau comportamento na igreja (não só das crianças!)

Você, leitor ou leitora deste blog, é do tipo de pessoa que tem alergia ao mau comportamento de crianças, principalmente em lugares públicos - uma igreja, digamos?
Pois bem, na década de 70 do Século XIX uma professora de escola pública na então capital do Brasil, o Rio de Janeiro, publicou um pequeno livro que logo foi adotado como útil à prática da leitura em muitos estabelecimentos de ensino. O título do livro era Entretenimentos Sobre os Deveres de Civilidade (¹); Guilhermina de Azambuja Neves era o nome da autora.
Na página 11 do dito livrinho encontramos:
"Que feia coisa não é ver meninos a correr para um e outro lado no sagrado recinto, comendo gulodices, como se estivessem no passeio ou no teatro."
Cai por terra aquela ideia de que, antigamente, a criançada era rigidamente controlada pelos pais que, com um domínio absoluto, garantiam a disciplina de seus pequenos. Se todos fossem verdadeiros anjinhos, onde teria ido a Professora Guilhermina buscar a figura do pestinha que faz algazarra na igreja?
Continuemos. Para instruir seus hipotéticos educandos a autora prossegue com um "estudo de caso", no qual o menino Adolfo apronta das suas:
"Tem bem em vista estes meus conselhos e nunca imites o proceder do estouvado Adolfo, que se dobra hipocritamente como se estivesse rezando, mas em verdade não está.
Sua mãe já lhe tem feito muitas advertências, mas Adolfo não se corrige.
Sabes o que faz ele de cabeça baixa?
Leva a contar os ladrilhos da igreja, a fazer caretas e a espiar para um e outro lado para ver o que fazem os outros.
Ainda há poucos dias pendurou-se por tal modo na grade da comunhão que caiu desastradamente, fazendo um galo na testa e chamando a geral atenção das pessoas circunspectas que ali estavam em silêncio, ouvindo piedosamente o ofício divino.
Mas ainda bem que no dia seguinte o Senhor Vigário o repreendeu asperamente, ameaçando-o de o não admitir mais na igreja se não se corrigir." (²)
Podem sorrir, leitores. É coisa ingênua, mesmo, mas que no Século XIX era vista como muito apropriada à educação de meninos e meninas.
Missa na Igreja de N. Sra. da Candelária
em Pernambuco, de acordo com Rugendas (⁵)
Agora, é hora de falar sério. Pelo testemunho de ninguém menos que o naturalista Auguste de Saint-Hilaire, podemos deduzir que desordens na igreja não eram, no Brasil do passado, um privilégio de crianças. O autor francês, aliás muito devoto, notou com horror que, durante um serviço religioso no Rio Grande do Sul, as pessoas presentes não pareciam nada preocupadas em, pelo menos, alardear religiosidade:
"Durante todo esse tempo ficara exposto o Santíssimo Sacramento, mas a assistência nem por isso guardava respeito, portando-se quase como se estivesse num mercado." (³)
Observou, depois, algo parecido em São Paulo, desta vez na Semana Santa de 1822, durante a liturgia de quinta-feira:
"No ofício de quinta-feira santa, a maioria dos presentes recebeu a comunhão da mão do bispo. Olhavam todos à direita e à esquerda, conversavam antes deste solene momento e recomeçavam a conversar imediatamente depois." (⁴)
Sejamos justos: nada muito diferente do "estouvado Adolfo"...
Apenas algumas observações, a título de conclusão. Primeiro, é bom recordar que, ao contrário do que sucede hoje em dia, quando só vai a alguma igreja quem quer, no Século XIX o comparecimento às cerimônias religiosas era visto como um absoluto dever cívico e social; além disso, o Brasil - fosse sob governo joanino ou já Império - era um país oficialmente de religião católica, o que conferia ao comparecimento à igreja um aspecto muito diferente daquele que se tem hoje; por último, como esperar que a criançada desse um espetáculo de santidade se os bem crescidos estavam longe daquela conduta que, segundo os costumes do tempo, poderia ser chamada de "exemplar"?

(1) A edição consultada, cujo original pertence ao acervo da BNDigital, foi:
NEVES, Guilhermina de Azambuja. Entretenimentos Sobre os Deveres de Civilidade 2ª ed. Rio de Janeiro: 1875.
(2) Ibid., pp. 12 e 13.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 85.
(4) Idem.  Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 104.
(5) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


Veja também:

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

É proibido jogar bola

Viajando pelo Brasil por volta da época da Independência, Saint-Hilaire, naturalista francês, observou que meninos brasileiros pareciam tristes, pouco brincalhões e não eram frequentemente vistos, ao menos em público, envolvidos em brincadeiras próprias de sua idade, como soltar pipas ou jogar bola. Tendo estado também na então Província Cisplatina (¹), que D. João insistira em anexar ao Brasil, notou que os meninos uruguaios eram bem diferentes. Brincavam como seria esperado de crianças normais.
É difícil avaliar o quanto a observação de Saint-Hilaire corresponderia à verdade. Nem sempre aquilo que se percebe em público é o mesmo que sucede na vida privada. Mas pode haver um precedente legal para explicar por que motivo, no Brasil, não se brincava em público.
Diziam as Ordenações do Reino (²) no Livro Quinto, Título LXXXII, § 10:
"E qualquer pessoa que, ao Domingo ou dia de festa que a Igreja manda guardar, antes da missa do dia jogar a bola, pagará da cadeia quinhentos réis para quem o acusar. E na mesma pena incorrerá qualquer oficial mecânico ou homem de trabalho que na Corte ou na cidade de Lisboa jogar a bola pela semana, em qualquer dia que não seja de guarda." (³)
Não vou discutir agora a distinção feita na lei entre "qualquer pessoa" e "qualquer oficial mecânico". É coisa por demais evidente, no contexto da época, de modo que dispensa comentários.
Como se sabe, as leis que vieram a fazer parte das Ordenações eram, em sua maioria, bem anteriores à compilação. Assim, no Século XVI, Estácio de Sá proibiu o jogo de bola no Rio de Janeiro, além de jogos de cartas e dados.
Proibição feita, desobediência garantida. Conta Varnhagen (⁴) que Estácio de Sá não teve outro remédio senão conceder anistia aos infratores e, daí por diante, instituiu uma multa de cem mil réis (na época, era muito dinheiro), que deviam ser pagos à Confraria de São Sebastião. Consta que o regulamento foi respeitado.
De qualquer modo, a proibição feita por Estácio de Sá (assim como a das Ordenações) era voltada a homens adultos, mas pode ter significado uma restrição, ainda que velada, aos jogos de bola por meninos, ao menos da parte dos pais, que não deviam achar graça nenhuma em uma eventual multa. Não é sem causa, portanto, que em fins do Século XVI o Padre Fernão Cardim, referindo-se aos meninos índios, dizia que eram muito mais alegres em suas brincadeiras que os meninos portugueses que encontrou, ao percorrer o Brasil acompanhando o visitador jesuíta Cristóvão de Gouvêa. (⁵)

(1) A anexação formal ocorreu em 1821. Em 1828 a Cisplatina tornou-se independente.
(2) Compiladas e publicadas no início do Século XVII, mas em grande parte já existentes muito antes disso.
(3) De acordo com a edição de 1824 da Universidade de Coimbra.
Vale recordar que, em se tratando de escravos que fossem flagrados jogando bola, a legislação portuguesa era ainda mais severa. Dizia o Livro Quinto, Título LXXXII, § 11:
"E aos escravos que forem achados em qualquer parte de nossos Reinos, culpados em cada um dos casos acima ditos, ou jogando outro qualquer jogo na Corte ou na cidade de Lisboa, ser-lhe-ão dados vinte açoites ao pé do pelourinho, salvo se seu senhor quiser pagar por o seu escravo quinhentos réis para quem o prender, e que não o açoitem."
(4) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 1, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 305.
(5) Veja, sobre este tema, a obra de Fernão Cardim, relatando a visitação ocorrida entre 1583 e 1590: CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 41.


Veja também:

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Cerrado

A fase inicial da colonização do Brasil ocorreu, senão em exclusividade, ao menos predominantemente no litoral (¹). Aos poucos, porém, a exploração do interior foi acontecendo, até porque a busca por metais preciosos o exigia.
Assim, foi no interior do Brasil que os exploradores de origem europeia vieram a encontrar um tipo de vegetação em grande parte arbustiva, com árvores não muito altas e de troncos retorcidos. Já no Século XIX, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire descreveu-as como "...árvores esparsas, enfezadas, tortuosas, de cascas encortiçadas, com folhas duras e quebradiças." (²)
Tratava-se, como devem ter notado os leitores, do cerrado, uma forma de savana encontrada no Brasil (³). Podia ser visto, por exemplo, no território dos atuais Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais e de São Paulo, tendo o mesmo Saint-Hilaire referido, quanto a uma área nas proximidades de Sorocaba:
"...encontramos um campo, onde, em meio de ervas e de subarbustos, elevam-se, umas bem juntas das outras, árvores definhadas, de casca suberosa, com folhas duras e quebradiças..." (⁴) 


(1) A Capitania de São Vicente foi, nesse quadro, uma exceção.
(2) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 47.
(3) Outra forma de savana, também encontrada no Brasil, é a caatinga.
(4) SAINT-HILAIRE, A. Op, p. 201.


Veja também:

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Uso de mantilha no Vale do Paraíba na segunda metade do Século XIX

Nos tempos coloniais era costume, em muitos lugares do Brasil, que as mulheres consideradas "honestas" apenas saíssem em público se estivessem quase completamente cobertas por mantilhas ou biocos. A tradição, provavelmente vinda de Espanha e com origem mourisca, perdurou, e, já no começo do Século XIX, Saint-Hilaire, naturalista francês, observou com horror que, em vários lugares, era ainda assim que as mulheres se apresentavam, principalmente quando iam às igrejas.
Velhos costumes têm, no entanto, dificuldade em sair de cena.
No início da década de sessenta do Século XIX o tal costume ainda tinha lugar em áreas do Vale do Paraíba, que era, na época, região econômica importante por sua produção de café. Augusto-Emílio Zaluar observou-o em Lorena e Taubaté, na Província de São Paulo.
Sobre a conduta para com as visitas, notou em Lorena que "...as senhoras raramente aparecem na sala, onde os homens somente recebem as visitas e conversam para entreter o tempo. Esses costumes ir-se-ão perdendo pouco a pouco (¹), como já vão desaparecendo as mantilhas (²), que apenas figuram hoje para ocultar as rugas de alguma matrona sexagenária, ou são usadas pela gente das classes menos abastadas." (³)
Escreveu depois sobre Taubaté:
"Em Taubaté ainda se usa muito de mantilhas, não só na classe baixa como entre algumas senhoras mais distintas.
Este gênero de trajo e o aspecto sombrio da cidade concorrem para dar à povoação um certo cunho de vetustez, que faz lembrar algumas cidades espanholas e os costumes severos dos séculos anteriores." (⁴)
No caso de Taubaté, ao contrário do que observara em Lorena, o uso de mantilha não se restringia às idosas e às mulheres de baixo estrato social.
Não é preciso dizer que mantilhas e biocos perderam sua utilidade há muito tempo. Apenas fica a questão: As razões que impunham seu uso desapareceram ou ainda passeiam por aí, sob outros disfarces?

(1) Nisso, estava certíssimo.
(2) Desapareceram, mas muito tarde.
(3) ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, p. 109.
(4) Ibid., p. 158.


Veja também:

domingo, 26 de janeiro de 2014

Vida de tropeiro

Os tropeiros que viajavam pelo Brasil dirigindo os bandos de mulas que transportavam mercadorias, tanto as destinadas ao consumo interno como as que seguiam para exportação, precisavam, ao fim de cada jornada, encontrar um lugar onde pudessem preparar uma refeição e abrigar-se durante a noite. Esse lugar era o pouso de tropeiros.
Não poucas cidades brasileiras têm sua origem relacionada a esses modestos galpões (no melhor dos casos), que não consistiam, em absoluto, em um tipo de hotel: se eram bons, apresentavam-se mais ou menos limpos e cobertos de telhas. Os péssimos tinham coberturas menos confiáveis e eram imundos. Quase sempre pertenciam a algum fazendeiro do lugar, que, aliás, lucrava bastante com a famigerada venda que mantinha ao lado, na qual os produtos disponíveis, quase sempre de qualidade bastante discutível, eram oferecidos a preços escorchantes.
Mas não eram apenas os tropeiros e suas mulas que paravam nos ranchos. Esses abrigos eram, geralmente, a única opção para outros viajantes, fossem eles ricos ou pobres. Também não era incomum a presença de militares que escoltavam os Reais Quintos de Sua Majestade.
Assim, pode-se dizer que um rancho de tropeiros era um espaço algo "democrático" para a época: nele pousavam todos os viajantes que, ao entardecer, achavam-se em viagem por uma dada região e que não pudessem encontrar refúgio em casa de algum conhecido, de modo que sob um mesmo teto reuniam-se homens livres e escravos, gente de origem europeia, africanos ou seus descendentes e índios.
Ninguém, no entanto podia esperar muito conforto. O quase sempre rabugento Saint-Hilaire, naturalista francês que esteve no Brasil pela época da Independência, registrou, em certa ocasião, suas ideias sobre o "cuidado extremo" que o governo (sempre ele...) tinha com a conservação desses locais de pouso:
"Aquele a que chamam Rancho Grande não podia ter nome mais adequado porque incontestavelmente é o maior dos que vi desde que estou no Brasil. É coberto de telhas, bem conservado, alto acima do solo e cercado de balaustrada.
O dono é um homem imensamente rico, possuidor do mais importante cafezal da redondeza. Por um rancho sofrível que se encontra há, no mínimo, dez no mais deplorável estado. Os proprietários os alugam, com a venda contígua, por preços muito altos, e pouco se lhes dá que neles chova por todos os cantos. Tenho quase tanto medo da chuva quando estou num rancho do que quando fora. É verdadeiramente inconcebível que o governo não tome alguma providência a tal respeito e tampouco do que tanto interessa ao comércio, a ponto de nem proporcionar aos que transportam mercadorias pelas mais frequentadas estradas, lugares onde as possam abrigar à noite, sem temer que a chuva as avarie." (¹)
Note-se que, desde a época da mineração, os ranchos tinham-se feito necessários por toda a rota do chamado "Caminho das Minas", e nem por isso a condição deles era lá muito boa. Alguns, no entanto, podiam ser um pouco melhores. Antonil, por exemplo, referindo-se ao Caminho Novo das Minas, relatou haver um rancho importante nas proximidades do rio Paraibuna:
"Daqui se passa ao rio Paraibuna em duas jornadas, a primeira no mato e a segunda no porto, onde há roçaria e venda importante, e ranchos para os passageiros de uma e outra parte. É este rio pouco menos caudaloso que o Paraíba: passa-se em canoa." (²)
À noite, depois que se acomodava a bagagem, provia-se alimento para os animais e os homens e, então, não raro os tropeiros tinham lá seu momento de lazer. É o que se depreende deste relato de Hércules Florence, referindo-se às tropas que se reuniam em Cubatão:
"Acontece que quando muitas delas ali se reúnem, os camaradas se congregam todos para dançarem e cantarem a noite inteira o batuque. Gritam a valer e com as mãos batem cadencialmente nos bancos em que estão sentados. Assim se divertem." (³)

Rancho para pouso de tropeiros de acordo com gravura de M. Rugendas (⁴)

(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 122.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 165.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 3.
(4) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


Veja também:

domingo, 18 de agosto de 2013

Causas do atraso da agricultura brasileira no Século XIX - Parte 1

Investimentos? Só em escravos!


Era abril de 1822 quando Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês em viagem pelo Brasil, escreveu:
"Quanto mais me aproximo da Capitania do Rio de Janeiro mais consideráveis se tornam as plantações (¹). Várias existem também muito importantes, perto da Vila de Resende. Proprietários desta redondeza possuem 40, 60, 80 e até 100 mil pés de café. Pelo preço do gênero devem estes fazendeiros ganhar somas enormes. Perguntei ao francês, a que me referi ontem, em que empregavam o dinheiro. "O Sr. pode ver, respondeu-me, que não é construindo boas casas e mobiliando-as. Comem arroz e feijão. Vestuário também lhes custa pouco, nada gastam também com a educação dos filhos que se entorpecem na ignorância, são inteiramente alheios aos prazeres da convivência, mas é o café o que lhes traz dinheiro (²). Não se pode colher café senão com negros; é pois comprando negros que gastam todas as rendas e o aumento da fortuna se presta muito mais para lhes satisfazer a vaidade do que lhes aumentar o conforto."" (³)
Escravos trabalhando acorrentados, de acordo
com 
desenho aquarelado de Thomas Ender (⁶)
A mentalidade do fazendeiro típico era, deduz-se, a seguinte: "Se tenho mais escravos, planto mais café (ou algodão, ou cana, ou ainda qualquer outra coisa); plantando mais, posso colher mais, e meus ganhos serão maiores. Se ganhar mais... Se ganhar mais, compro mais escravos, porque assim posso plantar mais, colher mais..." Repetia-se o ciclo, indefinidamente, até que más colheitas pusessem tudo a perder, o que não era assim tão incomum.
Não, meus leitores, não passava pela cabeça, pelo menos da maioria desses escravocratas, que fosse necessário aplicar parte dos lucros em modernizar as práticas agrícolas. Bastava, supunha-se, aumentar o número de braços na lavoura - o que significava, na época, comprar mais escravos - e aumentar a área cultivada. O resto viria "naturalmente".
Mas não vinha. Escravos, como se sabe, eram seres humanos. Fugiam, morriam... O resultado disso é que os fazendeiros viam-se sempre envolvidos em comprar, geralmente a crédito, mais escravos, ao menos para repor os que haviam "perdido", pagando depois, quando vendessem a safra. Isso explicava, em parte, a lucratividade bem menor do que a que poderia, de fato, ser obtida.
O pior, no entanto, é que a visão curta desses fazendeiros continuou a vigorar pelos anos afora. A independência política não trouxe, para o Brasil, qualquer mudança significativa no plano econômico. E, tanto isso é verdade, que três décadas mais tarde, no primeiro número do jornal O Agricultor Brasileiro (⁴), datado de novembro de 1853, constava a seguinte afirmação:
"Presentemente o fim do agricultor é obter lucros das suas colheitas para comprar escravos que substituam os que lhe morrem todos os anos, para que com eles possa continuar a lavrar as suas terras [...]." (⁵)

(1) Antes de espalhar-se pelo chamado "Oeste Paulista" na segunda metade do Século XIX, o café foi bastante cultivado no Rio de Janeiro, particularmente no Vale do Paraíba, de onde passou a São Paulo, ainda no mesmo Vale do Paraíba.
(2) Cafeicultores da segunda metade do Século XIX adotariam um estilo de vida radicalmente diverso deste descrito por Saint-Hilaire em 1822.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 119 e 120.
(4) O Agricultor Brasileiro era um jornal voltado à discussão de questões relacionadas à lavoura, como pretexto para divulgar máquinas e equipamentos agrícolas vendidos pela Casa Nathaniel Sands & C., instalada no Rio de Janeiro à Rua da Alfândega, nº 20, que editava a publicação.
(5) O AGRICULTOR BRASILEIRO, Ano I, nº 1, p. 6.
(6) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


Veja também:

domingo, 14 de abril de 2013

Simonia

"Que haja certas mercancias
não de coisas temporais
mas de outras espirituais,
que se chamam simonias:
que haja quem todos os dias
com modo tão peregrino
seja ladrão ao divino
com tão falsa narratória!
Boa história."

Gregório de Matos, A Musa Praguejadora


Em uma definição bem simples, simonia é o comércio de bens espirituais. Tal assunto já motivou querelas terríveis, há alguns séculos, e ultimamente tem andado na moda, outra vez. Aos que são cristãos, parece um absurdo que alguém, com dinheiro, imagine poder comprar coisas como  um lugar no céu, um tempo menos longo no purgatório, ou mesmo o consolo de um sacramento na hora da morte. No entanto, para lástima da humanidade, tem havido muita gente supostamente querendo vender os "bens espirituais", como há, quase sempre, quem esteja disposto a efetuar tal compra.
Saint-Hilaire encontrou dois desses "comerciantes" quando andou, no século XIX, pelo Rio Grande do Sul e território do atual Uruguai, e não economizou palavras para recriminá-los.
Em um tempo no qual simplesmente não havia hotéis pelo Brasil, Saint-Hilaire dependia, ao longo de suas viagens com o fim de estudar principalmente a flora do Brasil, de encontrar hospedagem em casas de particulares. É aí que entra a história do Padre Alexandre, que peremptoriamente recusou abrigo ao viajante:
"Convém salientar que os dois únicos homens que me recusaram hospitalidade durante minhas longas viagens foram um materialista e um padre, mas com a diferença de que fui bem recebido pelo materialista, quando este soube quem eu era, enquanto o padre se manteve irredutível. A reprovação que acabo de fazer não deve causar surpresa; um mau sacerdote é o pior de todos os ímpios, pois faz do sacrilégio um hábito cotidiano. Seria talvez injusto julgar o Padre Alexandre por apenas um ato, mas eu já sabia, pelo alferes, que esse homem fazia o tráfico dos sacramentos e que, tendo a permissão de batizar em sua fazenda, não o fazia por menos de oito mil-réis; entretanto foi cura de São Borja por muito tempo [...]." (¹)
Com isso, lá se foi o muito religioso Saint-Hilaire, amargando seu desgosto com o padre, ainda mais uma légua adiante, até uma estância onde, dessa vez, foi muito bem recebido.
Ainda na mesma viagem, encontraria outro caso de simonia, dessa vez absolutamente explícito:
"A Capela de Santa Maria depende, como disse, da Paróquia de Cachoeira, cujo vigário recebe de cada fiel meia pataca em confissão pascal. Os habitantes de Santa Maria se cotizam, estabelecendo um donativo ao seu capelão. Este recebeu do cura para ouvir confissões e seus penitentes lhe pagam meia pataca que ele envia ao cura. Seria de toda justiça que, em relação ao dinheiro, o cura pagasse ao capelão, como se faz em Minas; mas para ele, essa parte da paróquia é uma espécie de sinecura que ele recebe sem encargos, e seu tratamento com o capelão se reduz a isto: "Eu lhe permito exercer as funções de cura no Distrito de Santa Maria e de receber salários de meus paroquianos, mas com a condição de reservar o produto da venda das confissões pascais." Acho que é impossível levar mais longe a simonia." (²)
 
**************************************************

Tenho já abordado neste blog, algumas vezes, o fato de que, pela extensão territorial do Brasil e pelas dificuldades de comunicações, era muito difícil assegurar o cumprimento das leis e a administração da justiça. Esses casos de simonia, relacionados mais à Igreja que à autoridade civil (embora, nesse tempo, não existisse no Brasil nada que se pudesse chamar de "Estado laico"), inscrevem-se no mesmo contexto. Era quase impraticável às autoridades eclesiásticas o exercício de uma fiscalização eficiente do que ocorria em paróquias muito distantes umas das outras, isso quando havia párocos para atender à população (embora todo mundo, para que houvesse assistência religiosa, pagasse os dízimos ao governo português), sendo perfeitamente possível que a alguns colonizadores transcorresse a vida toda sem que, nas localidades remotas em que se estabeleciam, vissem aparecer um único clérigo. Por outro lado, quase não têm conta os relatos de padres que gastavam seus dias caçando índios no sertão ou de monges que abandonavam suas Ordens para ir procurar ouro nas minas.
Tem-se, pois, que tais fatos são um bom termômetro do modo muitas vezes desordenado pelo qual se deu a colonização. Meus leitores sabem perfeitamente quais foram (e são...) as consequências disso.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 319 e 320.
(2) Ibid., p. 405.


Veja também:

domingo, 7 de abril de 2013

Superstições no Brasil - Parte 2

Cobra que mamava, cirurgião que benzia os doentes


Há coisas em que muita gente acredita - mesmo sabendo racionalmente que não passam de tolices - e que acabam passando de uma geração a outra (¹). São as chamadas superstições, a respeito das quais uma investigação do passado do Brasil pode revelar coisas interessantes e curiosas, quer através dos documentos históricos clássicos, quer através de passagens da literatura, sempre úteis neste caso.
Reuni aqui uma pequena coleção dessas crendices, para quem quiser ter uma ideia de quão longe podia ir a fantasia popular. Vejamos: 

1. Frei Vicente do Salvador, cujo manuscrito de sua História do Brasil data de c. de 1627, relatou vários absurdos a respeito das cobras que podiam ser encontradas na colônia portuguesa na América, dentre os quais o que segue adiante:
"Também me contou uma mulher de crédito na mesma Capitania de Pernambuco, que estando parida lhe viera algumas noites uma cobra mamar nos peitos, o que fazia com tanta brandura, que ela cuidava ser a criança, e depois que conheceu o engano o disse ao marido, o qual a espreitou na noite seguinte e a matou." (!!!)
Primeiro, chama a atenção que alguém instruído como era Frei Vicente do Salvador acreditasse em semelhante lorota; depois, não é difícil imaginar que, em tempos de poucas luzes intelectuais entre a gente comum, uma história dessas, repetida com muita convicção, acabasse passando ao acervo de lendas tidas e aceitas como estrita realidade, a despeito do absurdo que hoje só pode nos fazer rir. 

2. Dando um salto no tempo, vamos ao caso 2, desta vez relatado por Saint-Hilaire. Aqui o naturalista francês mostra-se indignado ao observar um cirurgião que, ao fazer seu trabalho médico, acrescentava a ele o hábito de benzer ferimentos:
"Entre eles um cirurgião que se apressou em me dar a conhecer os seus títulos tomando ares de importância que pareciam dizer "Senhores, respeitem-me". Cada qual se apressou em consultá-lo e entre outros um moço que o comandante de Rio Preto pediu-me que levasse a Barbacena e sofre de não sei que doença de pele. O honrado cirurgião disse-lhe que lhe ia dar um remédio. No dia seguinte estaria são. Misturou efetivamente pólvora ao sumo do algodão; com semelhante droga esfregou as partes enfermas a que benzeu depois mandando o paciente deitar-se, a assegurar-lhe o êxito de sua medicação.
Já tive diversos ensejos de falar, no meu diário, da confiança que os brasileiros dispensam aos amuletos e remédios de simpatia. Um dos meios de cura que empregam, também muito frequentemente, é o benzimento de seus males. O charlatão terapeuta deve ao mesmo tempo repetir uma fórmula devocional. Uma multidão de indivíduos encarrega-se assim de benzer as pessoas e isto na maior boa-fé; mas não posso conceber que um homem que se intitula cirurgião e por conseguinte deve ter sido diplomado, sancione com o exemplo as práticas supersticiosas." (²) 
Deixando de lado o remédio empregado (!!!!!!), como não sabemos quem era o cirurgião, até porque Saint-Hilaire não lhe menciona o nome, não temos ideia quanto a ser ele de fato diplomado ou não. O que Saint-Hilaire talvez não tenha considerado é que, no Brasil daqueles tempos (primeira metade do século XIX) havia pouquíssimos médicos com a devida formação e o povo, em geral, chamava "cirurgião", a qualquer indivíduo que se apresentasse dizendo ser capaz de aplicar medicamentos ou realizar procedimentos como tratar feridas, extrair dentes ou efetuar as famosas "sangrias" (que por si sós, já dariam uma postagem). Era, inclusive, nada incomum que barbeiros exercessem essas funções. Não é, pois, espantoso, que pessoas sem qualquer instrução formal em medicina fizessem seus "tratamentos", misturando crendices populares a supostos fármacos. A propósito, há sobre isso uma interessantíssima imagem de Debret (veja abaixo), na qual é retratada a loja de um barbeiro, cuja placa indica também serviços de "dentista" e "sangrador" (³).

Loja de barbeiro, segundo Debret (³), na qual também se ofereciam serviços
de "dentista" e "sangrador"

(1) Veja a postagem Superstições no Brasil - Parte 1: Casa mal-assombrada
(2) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 31 e 32.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


Veja também:

domingo, 27 de janeiro de 2013

Um jardim em São Paulo (quando quase ninguém queria ter um)

Digam lá, senhores leitores, quais são as flores que mais gostam de ter em seus jardins? Tenho preferência por amores-perfeitos, prímulas, íris germânica. Gosto muito, também da lavanda, sem, por suposto, deixar de lado as orquídeas. Meus pais, que tinham ótimos conhecimentos de jardinagem, apreciavam as roseiras, mas eu não tenho grande afeto por plantas que têm espinhos.
Pois houve um tempo, em São Paulo (se devemos acreditar em Pedro Taques de Almeida Paes Leme), em que apenas um único indivíduo dava-se ao trabalho de cultivar um jardim. Seus contemporâneos tinham outras preocupações, que, aliás, já foram alvo de postagens neste blog. Lemos na Nobiliarchia Paulistana, relativamente a João de Toledo Castelhanos, um paulista muito devoto, que sabemos ter sido batizado a 5 de maio de 1642:
"Vivia no retiro de uma quinta, vulgarmente chamada chácara, situada no alto plano que faz o rio Tamanduateí, unido já com a ribeira Anhangabaú (por detrás do mosteiro dos monges do patriarca São Bento em tiro de peça) da campina do sítio da capela de Nossa Senhora da Luz de Guaré. Nesta quinta se recreava com a cultura de várias flores de um jardim, que era o total emprego dos seus cuidados (único até aquele tempo, em que os moradores de São Paulo só tinham por interesse ou as minas de ouro ou as grandes searas de trigo, com a abundância da criação de porcos, de que faziam provimentos para as cidades do Rio de Janeiro e Bahia de Todos os Santos). Com essas flores fazia adornar os altares dos templos, principalmente de Nossa Senhora do Carmo, de cuja terceira ordem era irmão professo."
Sabendo a data do batismo desta singular personagem, podemos considerar que seu não menos singular jardim deve ter florescido no século XVII, talvez até princípios do XVIII. Era grande o contraste: um plantava um jardim para adornar altares, todos os demais buscavam ouro, cultivavam trigo e criavam porcos. Verdadeiramente excêntrico, o nosso homem...
No século XIX, ao passar pela segunda vez por São Paulo, Auguste de Saint-Hilaire pôde observar um panorama bem diferente, em se tratando de jardins. Anotou ele:
"Todas as plantas de ornamentação, que embelezavam nossos antigos jardins (¹), são cultivadas com sucesso nos arrabaldes da cidade. Pelos fins de novembro florescem os cravos, flores favoritas dos paulistas, os botões d'ouro, as papoulas, as ervilhas de cheiro, as escabiosas, as saudades, as cravinas, etc. Os morangos, de gosto tão agradável como os da França e da Alemanha, abundam em todos os jardins." (²)
Talvez o Sr. João de Toledo Castelhanos pudesse estar mais à vontade se houvesse nascido um século mais tarde. Ou talvez tivesse, em seus dias, uma secreta alegria em ser o único a ter um jardim. Não podemos ter certeza, é claro, mas também não podemos deixar de admirar esse verdadeiro patrono dos apreciadores da jardinagem em São Paulo.
 
(1) Na França, por suposto.
(2) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 199. 


Veja também:

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A produção de frutas de origem europeia e asiática no Rio Grande do Sul na primeira metade do Século XIX

Referindo-se ao Rio Grande do Sul, o Padre Ayres de Casal escreveu, em obra publicada em 1817:
"As árvores frutíferas da Europa meridional prosperam aqui melhor que as comuns dentre os trópicos; nenhumas são tão fecundas e tão prodigiosamente multiplicadas como os pessegueiros. A videira frutifica com abundância e perfeição, mas o vinho não merece ainda o nome de passageiro; também ainda não se fizeram as diligências para o melhorar." (¹)
Concordando com ele, seu contemporâneo, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, com a experiência de seus conhecimentos de Botânica, aliada ao fato de estar presente à região descrita, observou, em relação às adjacências de Porto Alegre:
"As amendoeiras, os pessegueiros, as ameixeiras, as macieiras, as pereiras e as cerejeiras desenvolvem-se muito bem nos arredores de Porto Alegre, produzindo bons frutos; mas só um número reduzido de pessoas se dedica a essas plantações e, em geral, as espécies trazidas para aqui são de qualidade inferior. Plantaram-se algumas oliveiras que produziram muito bons frutos, mas em pequena quantidade. A vinha medra muito bem; há quem fabrique vinho, mas de qualidade inferior e sem aceitação." (²)
Voltaria, mais tarde, a tratar do cultivo de oliveiras:
"As oliveiras dão muito bem nos arredores de Porto Alegre e, ali, pude comer deliciosas azeitonas; contudo, não passam de objeto de curiosidade; mas quando a população aumentar e o número de propriedades tornar-se maior, a cultura da oliveira poderá vir a ser para esta região uma nova fonte de renda." (³)
Ora, como todo mundo sabe, as oliveiras são, mesmo hoje, de pequeno cultivo no Brasil, embora experiências significativas estejam produzindo alguns bons resultados. Já é possível encontrar no mercado azeite de muito boa qualidade, de produção integralmente brasileira, embora esteja, pela escala diminuta em que se produz, ainda restrito ao âmbito de uma curiosidade - como as azeitonas que o naturalista francês provou. Já quanto aos vinhos, não se pode dizer o mesmo. O progresso tem sido notável.
Acertadamente observou Saint-Hilaire: "A falta de braços impede atualmente que os brasileiros aproveitem todos os recursos que o país oferece, mas será bom que os conheçam, para que possam aproveitá-los no momento oportuno." (⁴) Note-se que esse conselhinho nada desprezível se escreveu no início do terceiro decênio do século XIX.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 119.
(2)SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 58.
(3) Ibid., p. 77.
(4) Ibid.


Veja também:

domingo, 20 de janeiro de 2013

Pessegueiros, macieiras, laranjeiras...

Ao percorrer Minas Gerais e São Paulo entre 1821 e 1822, Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês, observou que eram cultivadas árvores frutíferas de origem europeia e/ou asiática, tendo o cuidado de anotar a época em que algumas delas floresciam e frutificavam. Eis o que ele escreveu, então, estando na chamada Serra da Juruoca (MG):
"O pessegueiro e a macieira dão bons frutos e em casa do vigário comi excelentes uvas." (¹)
Já na cidade de São Paulo, na qual esteve (pela segunda vez) pela época da Páscoa de 1822, observou: 
"Os pessegueiros florescem, informaram-me, pelo mês de agosto, perdendo, então, a folhagem, que é, em pouco tempo, substituída por novas folhas. As laranjeiras, os limoeiros, figueiras, romeiras, ameixeiras, damasqueiros, marmeleiros, nogueiras e castanheiros fornecem, anualmente, em fevereiro ou março, com maior ou menor abundância, seus frutos, uns bons, outros medíocres. Em fins de novembro de 1819, as macieiras e as amoreiras estavam ainda em plena floração. [...] Em São Paulo a videira só frutifica uma vez por ano, ficando despojada das folhas durante todo o tempo do frio. A floração começa, segundo me informaram, pelo fim do mês de outubro e os frutos amadurecem em janeiro ou fevereiro. De todas as árvores frutíferas o pessegueiro é a mais comum e a que melhores resultados dá, não somente nas vizinhanças de São Paulo, e também em todo o Brasil extratropical." (²)
Alguns desses cultivos são ainda hoje importantes, ao menos no Estado de São Paulo, para consumo dentro do próprio Brasil. Outros, quase desapareceram, a não ser em pomares de gente que aprecia ter sua própria produção doméstica de frutas.
Desde os tempos coloniais, é bom lembrar, manifestava-se já a tendência, que depois muito se acentuou, de concentrar a agricultura comercial em poucos produtos (chegou-se a uma quase monocultura), voltada para a exportação e não para o consumo interno.  Dois desses itens de exportação - café e cana-de-açúcar - não eram também nativos do Continente Americano.
De qualquer forma, parecia muito mais interessante conservar o foco em produtos tropicais, cujo cultivo não demandava excessivos cuidados, com lavouras mantidas à custa do trabalho escravo, do que investir em plantar alimentos para atender à população local, coisa que dava muito menos lucro. Sabe-se que, a despeito das enormes possibilidades oferecidas pelo vasto território do Brasil, em muitos lugares a alimentação de "gente comum" não ia muito além de milho, mandioca e feijão. Essa prática iria durar ainda muitas décadas, com consequências nada agradáveis.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 64.
(2) Ibid., pp. 199 e 200.


Veja também:

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Obras públicas que nunca eram concluídas - Parte 2

Preâmbulo (algo longo, mas necessário)


Há quem não tenha muito apreço pelas opiniões que viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil no século XIX expressavam a respeito do País. Compreendo, mas quero lembrar um fato indiscutível - esses viajantes deixaram relatos que são verdadeiras preciosidades, face à escassez de material escrito sobre algumas épocas e lugares.
Se quisermos ser muito, mas muito generosos mesmo, teremos de considerar que, por volta da época da Independência, os analfabetos no Brasil deviam ser uns 80% dos homens e a quase totalidade das mulheres. Portanto, pouquíssimos brasileiros podiam deixar relatos e anotações de sua vida quotidiana, dos acontecimentos que presenciavam, de suas opiniões políticas. Infelizmente, não temos no Brasil a quantidade de diários de "gente comum" de que dispõem os historiadores em outros lugares. Os documentos oficiais, por sua vez, eram lacônicos, obedecendo a fórmulas mais ou menos estabelecidas, e grafados, frequentemente, segundo uma ortografia inteiramente particular ao escrivão...
Diante disso, não há como negar a importância dos depoimentos de viajantes estrangeiros.
Eram eles às vezes preconceituosos?
Sim.
Nem sempre chegavam a compreender com exatidão o que observavam?
É verdade.
Filtravam o que viam pela lógica de seu país de origem?
Igualmente verdade.
Mas nada disso elimina o uso de seus escritos como fonte de informação. Até porque o estudo das razões pelas quais emitiam determinados pontos de vista é, já por si, muito interessante.

Observações de Saint-Hilaire sobre como se faziam as obras públicas no Brasil


Como já mencionei muitas vezes neste blog, Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês, percorreu boa parte do Brasil em época pouco anterior à Independência. Viajava a cavalo, a pé ou em carroça, conforme as circunstâncias permitiam. Não resulta, pois, nada estranho que desse informações sobre os caminhos que seguia. O trecho seguinte é relativo a uma estrada que fora começada, mas que ainda não se concluíra:
"Trabalhou-se ali, durante muito tempo; gastaram-se somas consideráveis; mas desde que se franqueou a passagem, não só não se concluíram as partes apenas esboçadas, como não foram conservados os trechos já concluídos. As águas já ali cavaram profundas covas e trarão a inutilização desta estrada se mais um ano decorrer sem conserva." (¹)
A seguir, passa a explicar as razões pelas quais tantos empreendimentos públicos ficavam por terminar:
"É mais ou menos assim tudo o que se empreende neste país. Os brasileiros aprendem com facilidade; sabem arquitetar planos, mas entregam-se, demais, ao devaneio, não medindo obstáculos nem calculando os empreendimentos de acordo com os seus recursos.
[...].
O espírito de inveja e intriga mais veemente do que em qualquer outro lugar, interpõe-se a tudo quanto se faz, tudo perturba, favorece o tratante, e desencoraja o homem honesto. Começa-se qualquer empreendimento útil, para logo ser interrompido e abandonado. Às vezes um serviço ordenado pelo governo e que se poderia acabar em pouco tempo, e com despesas mínimas, jamais termina, embora nele se trabalhe sempre." (²)
A tal estrada, que nunca era acabada, ficava na Região Sudeste. Coisa parecida observou no Sul do Brasil, mostrando que o problema era mesmo ligado à estrutura administrativa como um todo, e não restrita a um lugar específico. Referindo-se à restauração que se fazia necessária na igreja em São Miguel (RS), observou:
"João de Deus, um dos primeiros governadores portugueses desta província, pretendia fazer reparos neste edifício; juntou materiais, gastou muito dinheiro, mas com a mudança de governo, o sucessor não aprovou o seu projeto. As restaurações da igreja foram interrompidas, as despesas feitas tornaram-se inúteis. Tal é ainda o inconveniente do poder absoluto outorgado aos governadores de Província. Cada qual começa uma determinada obra e quase nenhum continua a de seu predecessor; o dinheiro das Províncias se dissipa, e estas se endividam para sempre." (³)
O mesmo Saint-Hilaire ainda diria, observando a pressa com que todo trabalho era feito:
"A julgar da sua lentidão e dos poucos meios empregados para economizar o tempo, dir-se-ia que os brasileiros se julgam eternos." (⁴)
Não, senhores leitores, não há nada assim hoje em dia. Isso era coisa do século XIX...

(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 19.
(2) Ibid.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 373.
(4) Ibid., p. 107.


Veja também:

domingo, 11 de novembro de 2012

Deslizes de alguns membros do clero colonial - Parte 4

Religiosos que não se dedicavam aos estudos e/ou eram descuidados no cumprimento de seus deveres


Pode acreditar, leitor: nos tempos coloniais, os sermões atraíam multidões às igrejas. Pregadores famosos, com bela voz e alta técnica de oratória, capazes, com suas descrições espetaculares, de levar a imaginação dos ouvintes dos terrores do inferno às delícias do Paraíso, fazendo-os experimentar emoções que iam do mais profundo pavor ao júbilo dos bem-aventurados, eram extremamente populares, verdadeiras estrelas da época e, por isso mesmo, imitados por jovens candidatos à carreira religiosa. Estes últimos, no entanto, não escapavam à mordacidade de Gregório de Matos:

"Que haja pregador noviço,
que estude alheios sermões,
só para juntar dobrões,
porque os ajunta por isso:
que cuide muito remisso,
que poderá bem pregar
sem teologia estudar,
ou sem saber a oratória!
Boa história."
  
Sejamos, porém, razoáveis: não era para qualquer capela ou igreja de paróquia o ter um Padre Antônio Viera, não é verdade?
O governo português cobrava da população o pagamento dos dízimos, subentendendo-se, daí, que estava responsável por garantir a assistência religiosa a quem vivia na Colônia. Sabe-se, porém, que, em geral, vivia o povo na mais crassa ignorância, e até para ministrar os sacramentos era difícil, às vezes, encontrar um padre. Por outro lado, muitos desses religiosos não eram exatamente modelos em zelar por seus deveres. Há, nesse sentido, um ótimo episódio, relatado por Saint-Hilaire, ocorrido no início da segunda década do século XIX, no interior de Minas Gerais, quando esse naturalista francês estava de viagem a São Paulo, tendo se hospedado em casa de um pároco:
"Quando fui dar bons dias ao cura, contou-me que me esperava para dizer a missa. Apressei-me em me vestir e tomei o chapéu, imaginando que iríamos à igreja paroquial. Mas o cura disse-me que não sairíamos de casa, e efetivamente ali rezou a missa. Eu e os seus negros fomos os únicos ouvintes. Na Igreja brasileira não há o que possa causar espanto: está fora de todas as regras!" (*)

(*) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 49.


Veja também:

domingo, 21 de outubro de 2012

O cultivo de trigo no Sul do Brasil nas primeiras décadas do Século XIX - Parte 2

O curioso método usado para debulhar o trigo no sul do Brasil nas primeiras décadas do Século XIX recebeu de Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês uma descrição minuciosa:
"Para bater o trigo fazem-se dois currais, tendo um deles uma forma qualquer e o outro a forma circular, em comunicação com o primeiro. Arranca-se a erva deste último curral, varrendo-o com cuidado, e aí se espalham as espigas. Reúnem-se jumentos selvagens no primeiro curral. Daí fazem passá-los a outro curral circular e os fecham ali. Homens a cavalo acossam os jumentos com fortes chicotadas, e os forçam a correr à volta várias vezes, debulhando as espigas com as patas." (¹)
Que lhe parece, leitor? Está a analisar a coisa pelo seu aspecto "ecológico" ou pela vertente dos maus-tratos para com os animais? Saint-Hilaire também não aprovou essa prática de bater o grão, mas por outras razões: "Este processo de bater o trigo é extremamente precário. Não somente as espigas deixam de esvaziar-se completamente, como, não havendo cuidado de explorar o curral, ainda muitos grãos se ocultam sob a terra e ficam perdidos." (²)
E, para assegurar que sua descrição correspondia à realidade dos fatos, anotou:
"Eu próprio vi os currais; e os outros pormenores que mencionei devo-os ao meu hospedeiro, Sr. José Feliciano Bezerra, cultivador de trigo." (³)
Voltou depois ao assunto, para acrescentar:
"Comecei a descrever o modo de bater o trigo; vou terminar o que tenho a dizer a respeito. Quando o grão sai das espigas, separa-se dele a palha com forquilhas de três dentes, muito próximos um do outro, acabando-se de limpá-lo pelo processo de arremessá-lo ao ar contra o vento com pás." (⁴)
Estando limpo o trigo, devia ser embalado e comercializado. Era então o trigo acondicionado em sacos de couro e despachado para o porto do Rio de Janeiro, de onde seguia para outras regiões do Brasil. Quem vendia o trigo devia, porém, ser cuidadoso, pois as consequências de uma eventual fraude no comércio não eram exatamente leves:
"O trigo é vendido em sacos de couro cru, com seis a doze alqueires (⁵). O número de alqueires é indicado por sinais na borda do surrão; o negociante adquire o surrão após a declaração do lavrador; mas esse se obriga a colocar sua chancela no surrão e se responsabiliza pela quantidade declarada. Se há reclamações por parte do consumidor, é, então, condenado a pagar seis mil-réis de multa por surrão e um mês de cadeia." (⁶)
 
(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 158.
(2) Ibid.
(3) Ibid.
(4) Ibid., p. 161.
(5) Alqueire era uma antiga medida portuguesa de capacidade, equivalente a 13,8 litros. Entretanto, no Brasil, há medidas usadas para grãos (trigo, milho, etc.), também conhecidas por alqueire, que variam de uma região para outra. Assim, como exemplo, o chamado alqueire paulista equivale a 40 litros; já em Minas Gerais, o alqueire mineiro corresponde ao dobro do de São Paulo.
(6) SAINT-HILAIRE, A. Op. cit. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 569.


Veja também:

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O cultivo de trigo no Sul do Brasil nas primeiras décadas do Século XIX - Parte 1

No início do século XIX a triticultura era já muito importante no sul do Brasil. Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês que, na época, percorreu o atual Estado do Rio Grande do Sul e o Uruguai, deixou preciosas observações sobre os métodos que eram então utilizados tanto para plantar e colher como para debulhar o trigo.
Referindo-se ao plantio das lavouras de trigo em algumas áreas, notou que era possível obter duas safras por ano, com a condição de se alternarem milho e trigo:
"As terras produzem duas vezes por ano, quando se alternam o milho e o trigo. Planta-se o trigo de maio a agosto, e se recolhe principalmente em dezembro. Imediatamente após, queima-se a palha e planta-se o milho na mesma terra sem cultivá-la, fazendo-se apenas covas com a enxada para aí colocar a semente." (¹) Note-se que a queima como parte das práticas agrícolas, verdadeira praga na agricultura brasileira (por mais vantagens que aparentemente tivesse), estava presente também neste caso.
A técnica de colheita recebeu também especial atenção do atento Saint-Hilaire: "Faz-se colheita do trigo", escreveu ele, "com grandes foices muito estreitas, do feitio de uma semielipse alongada e oblíqua. O ceifador põe dedeiras de palha na mão esquerda, e com essa mão prende um punhado de pés de colmos, abaixo das espigas, e corta a palha sob a mão. Deixa-se o restolho." (²)
Uma vez colhido, o trigo devia ser debulhado para, só então, ser comercializado. Isto será assunto da próxima postagem.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 567.
(2) Ibid., p. 158.


Veja também:

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O vestuário dos bandeirantes

"O escudeiro envergava um desses corpos de algodão, muito usados naquele tempo no Brasil, de preferência às couraças de metal fabricadas no Reino; porque estas, além de mais pesadas e incômodas, tinham o inconveniente de repelir com força os arremessos das setas e dardos, que resvalando pelas faces polidas, iam ferir os próximos combatentes, enquanto que as outras embotavam o golpe."  
 José de Alencar, As Minas de Prata

Bandeirante, monumento em bronze no Memorial do Rio Tietê em Salto - SP (¹)

A visão idealizada dos bandeirantes apresenta-os bem compostos, geralmente usando chapéu, gibão e botas altas. São assim representados em muitos monumentos, e é provável que alguns deles, ao menos, assim saíssem de casa, no início de uma bandeira. Sim, alguns deles, os chefes, talvez. A maioria dos integrantes de uma bandeira não devia ter recursos para tanto.
Antes de mais nada, para quem pretendia percorrer a pé os sertões desconhecidos, não era possível ter bagagem considerável. Quem iria carregá-la? Mesmo que índios fossem incumbidos da tarefa, não se pode transportar o mundo às costas de seres humanos. Assim, levava-se, claro, alguma roupa, cobertores, a rede para dormir... e não muito mais que isso.
Referindo-se a Antônio de Almeida Falcão, Pedro Taques de Almeida Paes Leme anotou, na sua Nobiliarchia Paulistana:
"...e passando às minas de Cuiabá penetrou aqueles sertões em serviços da Real Coroa, com intento de novos descobrimentos de minas de ouro, à sua custa. Com esta disciplina se fez bastantemente experimentado na agreste vida que sofrem os sertanistas."
Vestuário e calçados eram, porém, rústicos, feitos de material disponível na própria colônia, como algodão, para os primeiros, couro de veado, para os últimos. Explica-se: a falta de meio circulante na Capitania de São Vicente quase impedia a compra de artigos mais sofisticados, vindos do Reino. Mesmo tidos como gente poderosa, os bandeirantes enfrentavam, pois, a floresta, com recursos bastante limitados. Calções de couro, pela sua resistência, eram comuns. Não raro, andavam descalços, como os índios, com quem aprendiam uma técnica que permitia, assim, caminhar mais rápido, deixando menos vestígios. O gibão acolchoado, no entanto, era uma peça importante: protegia contra as setas dos indígenas (²).
No século XIX, quando as bandeiras clássicas já eram coisa do passado, Saint-Hilaire, naturalista francês que andou pelo Brasil, escreveu, em referência aos sertanistas de São Paulo:
"Punham-se, então, em marcha, munidos de chumbo e de pólvora, uns levando um fuzil e outros um arco e flechas, todos armados de comprida faca, de que se serviam tanto para a defesa pessoal como para cortar os galhos das árvores e esfolar os animais selvagens. Iam descalços, com um cinturão de couro cru à volta dos rins e, na cabeça, um chapéu de palha de abas largas, sem outra vestimenta além de uma braga de tela grosseira de algodão e uma camisa curta, com as fraldas por fora das bragas; algumas vezes traziam uma couraça e coxotes de pele de veado (gibão e perneiras). Cada um levava um saco de couro a tiracolo, com suas provisões. Um chifre de boi servia de caneca e uma cuia ou cabaça partida ao meio servia de prato." (³)
Como se sabe, os testamentos deixados por alguns bandeirantes comprovam a veracidade dessas informações. Os que sobreviviam às aventuras sertanistas, retornavam geralmente em andrajos, muitas vezes com barbas enormes, a ponto de não serem reconhecidos pelos próprios parentes. Alguns, apesar do aspecto lamentável, tiveram a sorte de voltar cobertos de ouro. Outros, perdiam em seus empreendimentos quase tudo o que tinham. Houve até quem, ao chegar em casa muitos anos após a partida, descobrisse que fora dado como morto, em algum ponto longínquo do sertão. A suposta viúva já estava casada novamente, tendo até filhos com o segundo marido.

(1) As esculturas no Memorial do Rio Tietê, inclusive esta, são obra de Murilo Sá Toledo.
(2) De acordo com Varnhagen, a origem do gibão de algodão acolchoado seria antilhana. Veja, sobre isso:
VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 1, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 213.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 154.


Veja também: