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quarta-feira, 2 de abril de 2025

O cultivo de café no Século XIX e o esgotamento do solo

Práticas equivocadas no cultivo do café levavam ao rápido esgotamento do solo e a mudanças das plantações para novas áreas.


Muitos fazendeiros de café do Século XIX, a despeito do lucro que obtinham com o cultivo, não tinham a menor ideia de que era preciso adotar técnicas de preservação do solo, bem como da necessidade do emprego regular de algum tipo de fertilizante. Nesse tempo a química aplicada à agricultura ainda engatinhava, e não seriam os fazendeiros brasileiros que teriam um amplo conhecimento desse assunto. Sob outros aspectos, o atraso era também quase geral, e muitos fazendeiros preferiam investir em mais escravos do que ousar adquirindo maquinário que pudesse substituir ferramentas tão modernas quanto as enxadas. Até arados eram pouco ou nada empregados em algumas áreas.
O segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, disse, ao dar orientações ao filho, um fazendeiro ainda jovem e um tanto inexperiente, que seria útil pensar no cultivo de chá, "vista a próxima ruína com que se acha ameaçada a cultura do café pela escassez de matas virgens [sic] e não dar ele senão em terras novas [...]" (¹). Portanto, os fazendeiros viviam em um ciclo mais ou menos contínuo que envolvia explorar uma área até esgotá-la e, então, ir em busca de outra, cujo cultivo inadequado também acabaria por arruinar. É de surpreender que afirmassem que somente "terras novas" eram boas para um cafezal?
A primeira edição da obra de Lacerda Werneck foi publicada em 1847. Décadas antes, mais exatamente em 1822, o cientista francês Auguste de Saint-Hilaire, ao passar por Areias - SP, observou que assim se fazia o estabelecimento de um cafezal:
"Tiram-se as mudas dos velhos cafezais. Começam elas a produzir aos três anos e estão em pleno vigor aos quatro. Quando o pé ainda é novo capina-se a terra duas ou três vezes, mas não se dá mais de uma carpa quando as árvores já estão vigorosas. [...] Não se podam as árvores, contentam-se os lavradores em descoroá-las para impedir que cresçam muito.
[...] Quando o arbusto principia a envelhecer, cortam-no e ele dá brotos que frutificam novamente." (²)
Seria razoável esperar que, com o correr dos anos, as técnicas de cultivo progredissem. Mas não foi o caso, se considerarmos o relato do casal Agassiz, que esteve no Brasil entre 1865 e 1866, no qual está presente nova menção ao abandono de uma área de cultivo, tão logo a produção começava a declinar:
"Planta-se primeiro um viveiro, onde a plantinha se desenvolve durante um ano. Passado esse lapso de tempo, arrancam-na com precaução e transportam-na para o lugar que vai definitivamente ocupar. Com três anos, o novo cafeeiro principia a dar frutos, mas a primeira colheita é mínima. Desde então, [...] continua a produzir, dando às vezes duas colheitas por ano, e mesmo mais, pelo prazo de trinta anos. Ao cabo deste período, o arbusto e o solo estão igualmente esgotados. É hábito então do fazendeiro abandonar completamente o velho cafezal, sem cuidar no entanto de restituir ao terreno seu valor e fertilidade. Derruba-se uma nova porção da floresta e refaz-se uma nova plantação. [...]" (³).
Árvores tombavam, florestas desapareciam, muitas vezes mediante queimadas (⁴), e novos cafezais eram plantados. Depois de alguns anos, a tragédia recomeçava, mas em outro lugar.

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À medida que leis que restringiam o trabalho escravo foram aprovadas, muitos fazendeiros perceberam que, de algum modo, suas fazendas deveriam ser cultivadas por mão de obra livre. Na foto abaixo (⁵), colonos estrangeiros são vistos colhendo café em uma propriedade agrícola no interior de São Paulo.


(1) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 74.
(2) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 117.
(3) AGASSIZ, Jean Louis R. e AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 129.
(4) Conhecidas como coivara.
(5) VALLENTIN, W. In Brasilien. Berlin: Hermann Paetel, 1909.

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sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Traje de mulheres abastadas nos bailes e teatros durante o Primeiro Reinado

Já não era o "tempo do rei". Formalmente independente, o Brasil tinha D. Pedro I como imperador, e ia, aos poucos, mudando os velhos e sisudos costumes dos dias coloniais por outros, que, na moda, sofriam forte influência francesa. É verdade que, nas ruas, ainda eram vistas, eventualmente, mulheres usando as famosas e pesadas mantilhas, cuja finalidade era ocultar todo o corpo, deixando apenas o rosto, ou parte dele, à mostra. Mas entre gente abastada, que frequentava festas luxuosas, bailes e teatros, o trajar feminino tinha outro aspecto. Observador, o mercenário alemão C. Schlichthorst, que esteve na capital do Império entre 1824 e 1826, escreveu:
"No teatro e nos bailes, [as mulheres] aparecem com vestidos [...] cobertos de inúmeras flores e laçarotes de fitas, saiotes de cetim, corpete igual, bordado a ouro ou prata, rico diadema, flores e plumas nos cabelos em agradável combinação. As meias e os sapatos são sempre de seda. Neste ponto, o luxo excede a qualquer expectativa." (¹) 
O traje das damas que frequentavam a corte imperial era semelhante, porém com mais luxo: 
"O traje de corte se assemelha a este (²), leve e transparente como o ar sob um céu abençoado. Um manto de veludo ricamente bordado em ouro e prata, um barrete com flutuantes penas de avestruz e um adorno de brilhante dão-lhe uma dignidade fantástica e imponente. [...]" (³) 
Quem vive no Século XXI pode achar tal moda muito estranha, mais condizente com uma fantasia de carnaval que com roupa de gente séria em ocasiões que requeriam traje de gala. Mudanças viriam, com certeza, e muito frequentemente, ao longo do Século XIX, quando as publicações francesas voltadas ao público feminino passassem a ser aguardadas com ansiedade. A "última moda em Paris" seria anunciada pelos lojistas que vendiam artigos de vestuário para mulheres que tinham recursos de sobra para tanto. 
Contudo, nos dias do Primeiro Reinado, a extravagância estava em pauta, embora, quanto às joias das madames da Corte, Schlichthorst tivesse uma ressalva a fazer: 
"[...] nem tudo que ao esplendor das velas lança raios multicores é diamante verdadeiro, porque em nenhuma parte do mundo nesse país dos diamantes se usam tantas pedras falsas" (⁴).
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Traje de uma família brasileira no governo joanino (⁵)




(1) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1824 - 1826), trad. Emmy Dodt e Gustavo Barroso. Brasília: Senado Federal: 2000, p. 92.
(2) Ou seja, o traje na corte era semelhante ao usado nos teatros.
(3) SCHLICHTHORST, C. Op. cit., p. 92.
(4) Ibid. 
(5) Cf. CHAMBERLAIN, Tenente. Vistas e Costumes da Cidade e Arredores do Rio de Janeiro em 1819 - 1820. Rio de Janeiro / São Paulo: Livraria Kosmos Editora, 1943, p. 38.  A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Venda de frutas na capital do Império

Escravo vendedor (²)
No final do Século XVII, se devemos crer nas palavras de Joaquim Manuel de Macedo, as frutas, verduras e flores eram escassas na cidade do Rio de Janeiro, que ainda não era capital, apenas uma cidade tentando resistir aos frequentes ataques e tentativas de invasão de piratas e corsários: 
"As verduras eram poucas e limitadíssimas em variedades. As frutas estavam no mesmo caso. Flores ninguém vendia nem comprava, davam-se como davam-se e trocavam-se as mudas e sementes das que já se cultivavam; quais eram, além das do país? Não estudei a questão floriantiquária, mas que havia cultivo de flores, juro-o, porque havia senhoras." (¹)
O correr dos anos, o crescimento e fortalecimento da cidade, a vinda temporária da Corte portuguesa ao Brasil, a Independência, trouxeram modificações significativas, tanto que Daniel P. Kidder, missionário metodista americano (³) que esteve no Rio de Janeiro durante o Período Regencial, pôde afirmar:
"[...] as frutas indígenas são muito variadas e saborosas. Além das laranjas, limas, cocos e abacaxis que são bastante conhecidos entre nós, há mangas, bananas, romãs, mamões, goiabas, jambos, araçás, mangabas e muitas outras espécies, cada uma das quais tem sabor e perfume peculiares.
Dispondo-se de tão grande variedade de frutas para atender os caprichos ou as necessidades da vida, por certo ninguém tem de que se queixar. Esses artigos são encontrados em profusão nos mercados e apregoados pelas ruas da cidade e dos subúrbios por escravos e negros libertos que os levam geralmente em balaios na cabeça. [...]" (⁴)
O olhar do estrangeiro que procurava pelas singularidades do país que visitava não deixou escapar o modo como os vendedores ambulantes de frutas atraíam seus fregueses:
"[...] Os vendedores ambulantes passam constantemente pelas ruas apregoando em altas vozes a natureza e a excelência de suas mercadorias ou emitindo algum som indeterminado, apenas para atrair a atenção do público. [...]" (⁵) 
As condições de transporte no Brasil daquela época eram precárias, e frutas, como todo mundo sabe, têm uma vida útil bem curta. Deviam portanto, ser de produção local ou, no máximo, de pouca distância da capital do Império, para que pudessem chegar aos compradores em estado satisfatório para consumo. 

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Vendedor de frutas no Rio de Janeiro, depois do fim da escravidão e da Proclamação da República (⁶) 




(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(2) Cf. BIARD, François. Deux Années au Brésil. Paris: Hachette, 1862, p. 110. Desenho de E. Riou, sobre esboços de F. Biard. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(3) Daniel P. Kidder esteve no Brasil entre 1837 e 1840.
(4) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil, trad. Moacir N. Vasconcelos. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 89.
(5) Ibid.
(6) Cf. VALLENTIN, W. In Brasilien. Berlin: Hermann Paetel, 1909. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Cultivo de algodão na Província de São Paulo durante e após a Guerra Civil Americana

Colheita do algodão com mão de obra escrava (¹)

A Guerra de Secessão (²) nos Estados Unidos teve algum impacto na economia brasileira. Estados sulistas dos Estados Unidos, agora em guerra, deixaram de fornecer algodão ao mercado internacional, principalmente à Inglaterra. Em consequência, os preços do produto se elevaram, tornando-se atraentes para fazendeiros do Brasil, onde clima e solo favoráveis ao cultivo de algodão não faltavam. 
Joaquim Floriano de Godoy, senador do Império, explicou:
"A guerra civil dos Estados Unidos suprimiu repentinamente o principal mercado produtor. Os preços elevaram-se a quase 300% e induziram os lavradores paulistas a entregarem-se a esta cultura." (³)
Não se imagine, porém, que esse breve período favorável tornou a agricultura algodoeira do Brasil internacionalmente competitiva. O fenômeno foi apenas circunstancial, já que, finda a guerra, a produção americana foi gradualmente retomada e, em consequência, as exportações brasileiras perderam espaço. Segundo Joaquim Floriano de Godoy, apenas perseveraram em cultivar algodão aqueles fazendeiros cujas terras não se mostravam propícias à agricultura cafeeira. Um detalhe interessante, porém, ainda de acordo com o mesmo autor, é que onde se plantava algodão, a mão de obra era, quase sempre, livre, e não cativa, como ocorria na maioria das fazendas de café:
"A maior parte do pessoal empregado nesta cultura [do algodão] é livre, porque ela exige muito menor soma de capitais e o resultado é liquidável no espaço de um ano." (⁴) 
Não obstante, o café continuou a preponderar, até que, já no Século XX, a crise de superprodução, aliada ao cenário econômico internacional absolutamente desfavorável, forçou uma mudança, com todas as consequências políticas e econômicas tão bem conhecidas.

(1) Cf. SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p186. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) 1861 - 1865.
(3) GODOY, Joaquim Floriano de. A Província de S. Paulo. Rio de Janeiro: Typ. do Diário do Rio de Janeiro, 1875, p. 127.
(4) Ibid. 


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sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Escravos transportavam mudanças no Rio de Janeiro

Escravo carregador (²)
Alguém decidia mudar de endereço, fosse residencial ou comercial. no Rio de Janeiro, durante o Século XIX. Iria procurar uma empresa especializada em mudanças?
Nada disso. Eram escravos, próprios ou contratados, que faziam o transporte de todas as tralhas que deviam mudar de lugar, evidência inequívoca do atraso técnico e dos costumes na capital do Império, e não só nela, mas em quase toda povoação no Brasil desse tempo. Um autor empenhado na luta abolicionista, Frederico Leopoldo César Burlamaqui, escreveu, em obra publicada no ano de 1837 (¹):
"[...] Causa riso ver nas ruas da capital, a mais polida cidade e a mais adiantada do Império, trinta ou quarenta escravos conduzindo em grande algazarra outros tantos fardos às cabeças, quando um só carro puxado por uma ou duas parelhas de bestas faria o mesmo serviço com dobrada celeridade e metade da despesa! Causa nojo ver uma enorme e informe zorra levar, em quatro ou cinco horas e a pouca distância, uma única pipa, que dez ou doze negros arrastam penosamente por cima de calçadas [...], destruindo de contínuo as ruas e ameaçando estropiar os viandantes, quando um carro convenientemente construído poderia levar seis ou oito destas pipas em alguns minutos e com dobrada celeridade a grandes distâncias! [...]" (³) 
Duas décadas mais tarde, o pintor francês Auguste François Biard (⁴) observou o mesmo procedimento para a realização de uma mudança no Rio de Janeiro: 
"[...] Logo que cheguei aqui (⁵) tive de interromper, um dia, o que estava fazendo, impelido pela curiosidade; ouvira uns sons estranhos de uma ponta à outra da rua; era apenas uma mudança. Cada negro conduzia um móvel, grande ou pequeno, leve ou pesado, conforme a sorte de cada um; e esses carregadores executavam sua tarefa obedecendo a um certo ritmo, entoando um canto, gutural por vezes, em que uma ou duas sílabas eram repetidas. Havia alguns que transportavam barris vazios três vezes maiores que as suas pessoas, e no fim de tudo vinha um piano de cauda carregado por seis homens, em duas filas. [...]" (⁶) 
Seria até pitoresco, não fosse o fato de que, afinal, era mais um aspecto da exploração da força de trabalho dos escravizados. Quem se preocuparia em encontrar algum modo mais razoável de se fazer uma mudança se havia escravos para isso? Somente a abolição definitiva do trabalho escravo poria fim a tamanho absurdo.

(1) Acredita-se que a Memória Analítica Acerca do Comércio de Escravos e Acerca dos Males da Escravidão Doméstica tenha sido escrita por volta de 1834. 
(2) Cf. BIARD, François. Deux Années au Brésil. Paris: Hachette, 1862, p. 94. Desenho de E. Riou, sobre esboços de F. Biard. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) BURLAMAQUI, Frederico Leopoldo César. Memória Analítica Acerca do Comércio de Escravos e Acerca dos Males da Escravidão Doméstica. Rio de Janeiro: Tipografia Comercial Fluminense, 1837, p. 120.
(4) Viajou pelo Brasil entre 1858 e 1859.
(5) No Rio de Janeiro.
(6) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 46.


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segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Desmatamento, há cento e vinte anos

Vivemos em dias difíceis, quanto às questões ambientais. Alguns problemas são claramente causados por ação humana - desmatamento, por exemplo - enquanto outros ainda requerem maiores estudos, mesmo que seja fácil admitir que a mão do homem, indiretamente, também esteja neles. Mas, como este é um blog voltado prioritariamente à História, vamos falar do desmatamento e suas consequências, não hoje, mas há cento e vinte anos.
Coelho Neto, em obra publicada em 1904, afirmou:
"Com a morte das árvores desaparecem as fontes; rios que rolavam águas abundantes derivam agora em filetes rasos e tão escassos que uma quente semana de verão é bastante para secá-los [...]. Estrangeiros que percorrem o interior voltam impressionados com a ausência de pássaros [...], tudo é silencioso, e viaja-se longamente, ao sol, sem um oásis, sem uma árvore, mas os tocos adustos, que apontam à flor da terra, atestam a existência anterior de florestas grandiosas - levou-as o machado, arrasou-as o fogo [...]. O ar vicia-se, o mesmo clima modifica-se, e isto é notado pelos velhos moradores desses lugares, dantes bem-regados e sadios, e hoje secos, ingratos e insalubres, onde o homem não vive, nem a sementeira vinga." (¹) 
É de provocar riso o modo como se fazia derrubada de árvores nesses dias já distantes:
"Um ferro de bom gume (²), o carro e quatro juntas de bois bastam ao que vai à floresta, e quem atravessa as estradas ouve monotonamente os golpes do machado, de repente um grito de aviso e logo o estrondo da queda da árvore talhada." (³)
Comparem, leitores, o som e a velocidade do desmatamento descrito por Coelho Neto àquilo que se faz com umas poucas motosserras. 
No começo do Século XX, as matas eram derrubadas para dar espaço a novas áreas de cultivo de café; também se desmatava para prover lenha para as locomotivas a vapor e para a colocação de dormentes nos trilhos das ferrovias que iam sendo implantadas. Ora, o problema do fornecimento de lenha para as ferrovias foi manejado mediante a introdução e cultivo de espécies vegetais de crescimento rápido, que não interferissem na preservação das matas nativas. Que dizer, porém, daquilo que estamos presenciando? Haverá tempo, ainda, para soluções inteligentes?


Desmatamento no Século XIX para o estabelecimento de uma roça (⁴)

(1) COELHO NETO, Henrique Maximiano. A Bico de Pena
(2) Machado.
(3) COELHO NETO, Henrique Maximiano. Op. cit.
(4) Cf. SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p. 167. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Como se vestiam os homens que iam à Corte durante o Governo Joanino

Para que alguém se apresentasse diante do príncipe regente, depois rei Dom João VI, era preciso que se vestisse decentemente, dentro dos padrões da moda da época. Mas como era isso?
Joaquim Manuel de Macedo, em Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro, explicou:
"Somente de calções e meias de seda ia-se naquele tempo ao paço, fazer a corte ao rei, e os magistrados usavam, por mais requinte de tafularia (¹), levar aberta a beca para mostrar os calções e as meias de seda." (²) 
O detalhe curioso é que esta moda um tanto ridícula - pelos padrões atuais, mas não daquela época - somente foi abandonada, ainda de acordo com Macedo, por volta do tempo em que ocorreu a antecipação da maioridade do segundo imperador do Brasil:
"[...] O triunfo das calças teve lugar apenas em 1840, com satisfação indizível de todas as pernas finas e de todas as pernas grossas demais.
Os calções e as calças podiam bem servir não só para representar duas épocas distintas, mas ainda dois princípios que se contrariam. Teríamos em tal caso os calções representando a aristocracia, e as calças a democracia." (³)
Calças como representantes da democracia? Ora, reconheçamos, que exagero! Mas houve quem, a despeito da nova moda, perseverasse na antiga:
"Se aceitarem a ideia, pode bem ficar determinado que o último e fiel representante da aristocracia no Brasil foi um antigo inspetor de quarteirão da freguesia de São José, homem constante, que até o último dia da sua vida, anos depois de 1840, usou de calções de ganga amarela." (⁴) 
O tal homem tinha o direito de usar a roupa que quisesse. Mas é de se admitir que, provavelmente, ao vê-lo, parecesse aos circunstantes que estavam fazendo uma viagem no tempo.

(1) Exagero no rigor ao vestir-se.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 44.
(3) Ibid.
(4) Ibid.


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quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Quem costurava as roupas de dona Leopoldina

Desembarque da princesa Leopoldina no Rio de Janeiro (¹)

Durante muito tempo, ou melhor, desde o início da colonização até que viesse ao Brasil a família real portuguesa, as roupas femininas foram, como regra, costuradas em casa da interessada em usá-las, pela própria dona ou por alguma escrava que, por ter o ofício de costureira, era considerada muito valiosa. Havia alfaiates que, além de trajes masculinos, também faziam roupas simples para mulheres, porém, como fornecedores desses artigos, eram exceção.
Mas veio 1808, veio a família real, vieram as mudanças daí decorrentes, vieram as costureiras francesas, as lojas de comerciantes franceses de artigos para vestuário feminino - tecidos, rendas, fitas, e uma infinidade de outras coisas, sempre anunciadas como última moda em Paris. Daí resultaram esquisitices que, adequadas ao inverno europeu, eram, no mínimo, ridículas sob o sol da capital do Império. "Calculem e façam ideia do que custa a moda e a elegância da cidade do Rio de Janeiro!...", exclamou Joaquim Manuel de Macedo, acrescentando: "[...] em cada corte de seda, em cada toalete, em cada xale, chapéu, gravatinha, etc., a compradora paga e deve pagar no seu tanto proporcional, além do valor e lucro do objeto que adquire, o aluguel da casa, e os honorários dos empregados de escritório, dos caixeiros, das modistas, das costureiras, dos serventes e dos criados, e antes de tudo isso os tributos da alfândega, que na verdade são de arrasar!..." (²)
Mas, falando das costureiras e modistas, cada uma era tanto mais famosa quanto fosse de maior prestígio a sua clientela. Qual não seria, então, a fama daquela que costurava para dona Leopoldina, a primeira imperatriz do Brasil? Voltemos a Macedo:
"Mlle. Josephine foi a modista da primeira imperatriz do Brasil, e, portanto, de todas as senhoras da corte, e, portanto, de quantas outras senhoras tinham pais e maridos dispostos a pagar frequentemente a habilidade e a fama da modista, cuja tesoura de imperial predileção cortava cara e desapiedadamente." (³)
Estejam certos, leitores, de que, se vivemos em outros tempos, não deixou de haver alguma correspondência, embora os hábitos e sonhos de consumo sejam outros. Não é verdade que quem presta serviço a alguma celebridade, seja lá para o que for, logo ganha fama e tem uma quantidade enorme de imitadores? Em sua essência, a humanidade continua exatamente a mesma.

(1) Cf. DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor.
(3) Ibid.


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sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Arraial ou povoado

O que era um arraial ou povoado nos Séculos XVIII e XIX? Hércules Florence (¹) fez esta descrição:
"Ver um povoado no Brasil, é vê-los quase todos. Uma praça oblonga com a igreja e a cadeia nos lados estreitos; uma ou duas ruas de cada lado traçadas a cordel; casas baixinhas, eis o que compõe um arraial." (²)
Florence estava certo e estava errado. Estava errado, porque a expedição da qual participou, não percorreu o Nordeste brasileiro e, portanto, sua definição não dá conta de todas as particularidades. Não viu, também, arraiais em Minas Gerais, onde o arruamento era completamente irregular, plantado no ritmo do estabelecimento de moradias para os que trabalhavam na mineração. Mesmo os que cresceram e se tornaram cidades de respeito - Ouro Preto é um ótimo exemplo - conservaram características herdadas desses dias em que a mineração começava e a coisa mais importante que um homem julgava fazer era procurar ouro e conseguir dele tanto quanto pudesse, sem se importar em demasia com outras questões que pudesse resolver mais tarde. 
Mas Hércules Florence também estava certo, se considerarmos os vilarejos por onde passou a Expedição Langsdorff, da qual participou. Nascidos como resultado da extração aurífera no centro-oeste brasileiro, nem todos prosperaram. Mais comum do que se imagina era que, tão logo o ouro superficial se esgotasse, os mineradores abandonavam o arraial e seguiam adiante, indo explorar outro local. Disso resultaram os vilarejos fantasmas, com casinholos vazios, quase sem habitantes, ou sem nenhum, mesmo. 

(1) Francês, Hércules Florence atuou como desenhista na Expedição Langsdorff (que saiu de Porto Feliz - SP em 22 de junho de 1826, e se estendeu até 1829). 
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829, trad. Visconde de Taunay. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 188.


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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Antônio Conselheiro, uma celebridade?

Em 22 de julho de 1894, mais de dois anos antes, portanto, do início da Guerra de Canudos, Machado de Assis escreveu em sua coluna A Semana, na Gazeta do Rio de Janeiro:
"Telegrama da Bahia refere que o Conselheiro está em Canudos com dois mil homens perfeitamente armados. Que Conselheiro? O Conselheiro. Não lhe ponhas nome algum, que é sair da poesia e do mistério. É o Conselheiro, um homem dizem que fanático, levando consigo a toda a parte aqueles dois mil legionários. Pelas últimas notícias tinha já mandado um contingente a Alagoinhas. Temem-se no Pombal e outros lugares os seus assaltos."
Parece que o mito se formava, já, muito antes que o conflito armado contra as tropas governamentais tivesse início. Estaria o Conselheiro se tornando uma celebridade? Sim, ao modo do Século XIX, talvez não no sentido popular que a palavra ganhou em nossos dias. Em 14 de fevereiro de 1897, quando as armas contra Canudos já não eram apenas as da palavra, e na capital do Brasil os ânimos se exaltavam em debates quanto a ser ou não o movimento de caráter monarquista, Machado de Assis, também na Gazeta de Notícias, voltou a falar do Conselheiro, a partir de um pequeno incidente que presenciara:
"Conheci ontem o que é celebridade. Estava comprando gazetas a um homem que as vende na calçada da Rua de São José, esquina do Largo da Carioca, quando vi chegar uma mulher simples e dizer ao vendedor com voz descansada:
- Me dá uma folha que traz o retrato desse homem que briga lá fora.
- Quem?
Me esqueceu o nome dele.
Leitor obtuso, se não percebeste que "esse homem que briga lá fora" é nada menos que o nosso Antônio Conselheiro, crê-me que és ainda mais obtuso do que pareces. A mulher provavelmente não sabe ler, ouviu falar da seita dos Canudos, com muito pormenor misterioso, muita auréola, muita lenda, disseram-lhe que algum jornal dera o retrato do Messias do sertão, e foi comprá-lo, ignorando que nas ruas só se vendem as folhas do dia. Não sabe o nome do Messias; é "esse homem que briga lá fora". A celebridade, caro e tapado leitor, é isso mesmo. O nome de Antônio Conselheiro acabará por entrar na memória desta mulher anônima, e não sairá mais. Ela levava uma pequena, naturalmente filha; um dia contará a história à filha, depois à neta, à porta da estalagem, ou no quarto em que residem.
Esta é a celebridade."
Pois bem, celebridade ou não, o Conselheiro não escapou à morte durante a luta travada para esmagar o movimento que suscitara com suas pregações feitas entre o povo castigado pela pobreza e pela seca no Nordeste brasileiro. Aparecera ainda quando o Brasil era Império, e, segundo descrição feita por Euclides da Cunha em Os Sertões, usava "camisolão azul, sem cintura, chapéu de abas largas, derrubadas, e as sandálias. Às costas um surrão de couro em que trazia papel, pena e tinta, a Missão abreviada e as Horas Marianas". Citada também em Os Sertões, a Folhinha Laemmert de 1877 dizia:  
"Apareceu no sertão do norte um indivíduo que se diz chamar Antônio Conselheiro (¹), e que exerce grande influência no espírito das classes populares, servindo-se de seu exterior misterioso e costumes ascéticos, com que impõe à ignorância e à simplicidade. Deixou crescer a barba e cabelos, veste uma túnica de algodão e alimenta-se tenuemente, sendo quase uma múmia. Acompanhado de duas professas, vive a rezar terços e ladainhas e a pregar e a dar conselhos às multidões que reúne, onde lhe permitem os párocos; e, movendo sentimentos religiosos, vai arrebanhando o povo e guiando-o a seu gosto, Revela ser homem inteligente, mas sem cultura." 
Euclides da Cunha provavelmente nunca viu o Conselheiro vivo, mas viu-o depois de morto. A última resistência do arraial de Canudos foi vencida em 5 de outubro de 1897, e, na manhã do dia seguinte, o cadáver do místico foi desenterrado, conforme se lê em Os Sertões:
"Antes, no amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro. 
Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Removida breve camada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol imundo, em que mãos piedosas haviam desparzido algumas flores murchas, e repousando sobre uma esteira velha, de tábua, o corpo do "famigerado e bárbaro" agitador. Estava hediondo. Envolto no velho hábito azul de brim americano, mãos cruzadas ao peito, rosto tumefato e esquálido, olhos fundos cheios de terra (²) - mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida.
[...]
Fotografaram-no depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando a sua identidade: importava que o país se convencesse bem de que estava, afinal, extinto aquele terribilíssimo antagonista."
Segundo Euclides da Cunha, tiveram a ideia, depois, de cortar a cabeça do Conselheiro, para exibi-la como prova da vitória. Mas já estava morto... Muitos prisioneiros não tiveram a mesma sorte. Foram degolados - vivos.

(1) Antônio Vicente Mendes Maciel.
(2) Como poderia ser diferente?


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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Carros de passageiros e vagões de carga em ferrovias paulistas no Século XIX

Locomotiva a vapor e carros ferroviários

"Sempre se viaja com mais facilidade e comodidade em um wagon de primeira do que no melhor carro de bois do tempo de Jacó."
Coelho Neto, A Bico de Pena

Voltem no tempo, leitores: vocês estão, agora, viajando em uma ferrovia paulista do Século XIX. Conseguem imaginar a potência da locomotiva e, como resultado, quão veloz é o deslocamento do trem? Não se esqueçam da fumaça, com o odor correspondente...
Mas o conforto, mesmo, ficava por conta dos bancos em que os passageiros eram acomodados. Para ajudar quem está, corajosamente, tentando formar uma imagem mental do que era uma viagem ferroviária naquela época, pode-se ler alguma coisa escrita em 1875 por J. Ewbank da Câmara. Comecemos pela célebre Companhia Paulista:
"Os carros de passageiros são ingleses da conhecida fábrica de J. Ashbury, de Manchester.
Os wagons de carga são abertos e fechados, da mesma fábrica inglesa, e de 7000 quilogramas de lotação." (¹)
Mais interessante, ainda, é o que foi dito quanto aos carros da Companhia Mogyana:
"Os carros salões de 1ª classe são elegantes, confortáveis, contém água e compartimento privado.
Além das molas comuns aos trucks, adotaram-se [...] espirais de ferro; os bancos de palhinha, por seu turno, descansam sobre pequenas espirais de ferro, que compensam os choques.
Na 2ª classe os bancos são dispostos longitudinalmente, e nos carros mistos, simples compartimento separa as duas classes." (²)
"Bancos de palhinha"... "Compensam os choques"... Querem ter uma experiência concreta de volta ao passado, leitores? Planejem um passeio de final de semana por uma das ferrovias turísticas, que têm locomotivas e carros perfeitamente restaurados. Depois disso, ficarão em extremo agradecidos por estarmos no Século XXI.

(1) CÂMARA, J. Ewbank da. Caminhos de Ferro de S. Paulo e a Fábrica de Ipanema em Agosto de 1875. Rio de Janeiro: G. Leuzinger & Filhos, 1875, p. 6.
(2) Ibid., p. 15.


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segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Como era feito o contrabando de ouro e diamantes

Extração de diamantes no Brasil (¹)

Muitos mineradores, e mesmo simples faiscadores de ouro do Século XVIII achavam que a cobrança dos "reais quintos" não passava de exploração. Afinal, eram eles que arrancavam o ouro da terra, à sua custa e à custa do suor de seus escravos, e ainda tinham que pagar um imposto extorsivo? A ideia de que o rei era "senhor natural" do território que governava e que, por sua muita bondade, fazia aos súditos a concessão para que explorassem o ouro não era nada popular no Brasil, e continuou a desfrutar de idêntica antipatia no Século XIX, mesmo com a distinta presença da Corte no Rio de Janeiro.
Em consequência, o contrabando de ouro e diamantes era enorme. A criatividade dos contrabandistas não conhecia limites. O barão de Eschwege (²) descreveu, em Pluto Brasiliensis, algumas das "técnicas" de contrabando, em particular quando era necessário passar por algum registro, que era um ponto de controle de carga e bagagem entre uma capitania e outra: 
"A fim de passar a salvo, usa de toda espécie de espertezas, já bastante conhecidas: caixas com fundo falso, sacos de couro cozidos nas almofadas das cangalhas, esconderijos de madeira nas canastras e fardos de algodão, apesar de estes poderem ser revistados por meio de uma agulha de ferro, que se atravessa em todas as direções. Um deles, quando conduzia uma boiada, teve a ideia de atar saquinhos com ouro na cauda de bois mansos.
Os diamantes eram também escondidos nas bengalas e nos cabos ocos dos chicotes, na coronha das espingardas ou das pistolas, no próprio cano das mesmas, ou no salto das botas." (³)
Eschwege escrevia sobre o que tinha visto, mas devia, também, ter ouvido muitas histórias. É impossível que houvesse presenciado tudo isso porque, afinal, viera ao Brasil a convite do governo joanino. Não era um funcionário público, mas não era, também, alguém em quem contrabandistas iriam facilmente confiar. Fica, porém, uma questão: se as artimanhas dos contrabandistas eram fartamente conhecidas, por que ainda eram usadas? Pode-se imaginar perfeitamente quanta corrupção acontecia nos registros, sem falar no aborrecimento dos funcionários que, dia a dia, precisavam fiscalizar cada caravana, cada tropa de mulas, cada grupo de viajantes que passava, monotonamente, no passo preguiçoso ou cansado de homens e animais. Como regra, não deviam achar razoável que as filas de verificação se tornassem demasiadamente longas. 

(1) SPIX, Johann B. von et MARTIUS, Carl F. P. von. Atlas zur Reise in Brasilien. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777 - 1855), especialista em minas, esteve no Brasil a convite do governo joanino, que pretendia reanimar a extração de minerais preciosos no país. 
(3) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis, trad. Domício de Figueiredo Murta. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 525.


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segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Varíola na Guerra de Canudos

Agosto de 1897. A guerra contra Antônio Conselheiro e seus seguidores, que ficaria conhecida como Guerra de Canudos, começara no ano anterior e, desde então, sucessivas derrotas das forças governamentais faziam crescer a fama dos sertanejos que lutavam pelo líder místico, acreditando que, afinal, o arraial era imbatível. 
Entre as forças do Exército, a situação chegava, às vezes, a ser desesperadora. Além de todas as misérias, decorrentes da falta de suprimentos e de fardamento adequado à luta na caatinga, a tropa tinha de enfrentar, ainda, uma epidemia de varíola, relatada por Euclides da Cunha em Os Sertões:
"Neste comenos dizimava-a a varíola. Destacavam-se das suas fileiras, diariamente, dois ou três enfermos, volvendo para o hospital, em Monte Santo. Outros, estropiados, naquela repentina transição das ruas calçadas da capital federal para aquelas ásperas veredas, distanciavam-se, perdidos à retaguarda, confundindo-se com os feridos, que vinham em direção oposta."
As baixas, portanto, eram provenientes dos ferimentos recebidos em combate, do despreparo da tropa para a luta na caatinga e da varíola, doença infecciosa para a qual se conhecia a vacinação no Brasil desde fins do Século XVIII. 
Como admitir tal coisa? Se todos os soldados houvessem recebido a vacina previamente à viagem ao sertão, a calamidade não teria se manifestado. Sabe-se, porém, que o descuido nessa questão, aliado à ignorância de parte considerável da população quanto à utilidade da vacina, não se esgotou na Guerra de Canudos. Um episódio ainda mais grotesco, a chamada Revolta da Vacina, de novembro de 1904, mostraria, fora de qualquer dúvida, o quanto era ainda preciso fazer no Brasil em se tratando de saúde pública. 


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quarta-feira, 31 de julho de 2024

Tesourinhas

Não se trata aqui, leitores, de instrumentos cortantes, e sim de uma avezinha muito simpática (Tyrannus savana), que o brigadeiro Cunha Matos avistou ao viajar pelo interior do Brasil pouco depois da Independência, na região do Rio Tesouras em Goiás: 
"[...] Ao lado esquerdo nasce um córrego, que encostado a um cordão de morros vai entrar no rio de Tesouras. Os caminhos desta marcha são extremamente pedregosos, e tudo deserto. [...]" (¹).
Foi então que passou a falar do pássaro que o encantou:
"[...] A geração humana parece estar morta por estes lugares, mas a ornitologia oferece uma raridade bem digna da meditação do naturalista. Neste deserto (²) há um pequenino pássaro preto [...], a cauda é forcada, e as penas compridas cruzam-se em forma de tesouras, e por este nome é conhecido. O passarinho quando bate as asas dá estalos com a cauda. [...] Esta pequena ave deu o nome ao rio e extinto arraial de Tesouras." (³) 
Felizmente a ave não é tão rara quanto Cunha Matos deve ter suposto. E, para leitores que não a conhecem, vão aqui duas fotos, que fiz há algum tempo.

Tesourinha

Tesourinha no ninho

(1) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 178.
(2) Cunha Matos falava em "deserto" com o sentido de lugar pouco habitado, não de uma região árida. 
(3) MATOS, Raimundo José da Cunha. Op. cit., p. 178.


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segunda-feira, 22 de julho de 2024

Como era a comitiva que conduzia diamantes do Distrito Diamantino ao Rio de Janeiro durante o governo joanino

Comboio de diamantes, de acordo com Rugendas (¹)

A segurança no transporte de ouro e diamantes que pertenciam à Coroa, desde as minas até o Rio de Janeiro, devia, necessariamente, ser reforçada. Mas o que significaria isso no tempo em que as estradas eram pouco melhores que trilhos, cercadas por vastidões de mato e árvores, onde era muito fácil que gente de más intenções se escondesse, sabendo que a força militar que fazia a escolta nem sempre era tão numerosa e equipada como  a situação requeria?
Há um relato interessante do barão de Eschwege que explica muito bem como era a comitiva que escoltava os diamantes tão desejados pela Coroa. 
"A produção anual é encerrada em uma bela caixa forrada de marroquim vermelho, preso por tachas amarelas. É nessa caixa que os diamantes são enviados para o Tesouro do Rio de Janeiro, acompanhados durante toda a viagem por um empregado escolhido pelo Intendente, que lhe dá por escolta forte destacamento do corpo de cavalaria e dos pedestres. 
A caixa dos diamantes vai dentro de uma canastra, que o comissário leva consigo. Alguns cavalarianos partem à frente, a uma certa distância, seguidos logo depois por alguns pedestres, que conduzem a mula, coberta de uma manta onde se veem as armas reais. Logo atrás seguem outros pedestres, precedendo imediatamente o comissário, que nunca perde de vista o cargueiro e é seguido por novos cavalarianos, que fecham a marcha." (²)
Eschwege deve ter examinado o assunto com os próprios olhos porque veio ao Brasil por solicitação do governo joanino (³), e permaneceu até o início de 1821, tempo suficiente, portanto, para verificar o que acontecia. Talvez tenha achado graça na pompa dessa tensa remessa anual, quando, mais importante que qualquer outra coisa, seria zelar pela segurança do que se transportava. O contrabando de diamantes, contudo, geralmente ocorria por outras rotas. Era do local de extração que as pedras extraviadas sumiam, para que Sua Majestade jamais pusesse nelas as suas reais mãos.

(1) Cf. RUGENDAS, Moritz. Voyage Pittoresque dans le Brésil. Paris: Engelmann, 1827. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis, trad. Domício de Figueiredo Murta. Brasília: Senado Federal, 2011, p. 497.
(3) Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777 - 1855) era especialista em minas. A ideia de D. João era que estudasse o que podia ser feito para reativar a produção aurífera no Brasil, que, nesse tempo, estava em notável declínio. 


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segunda-feira, 10 de junho de 2024

Batalha do Riachuelo

À data de 11 de junho de 1865 corresponde a batalha do Riachuelo, no contexto do conflito que, no Brasil, é chamado Guerra do Paraguai (¹). Essa batalha foi assim descrita pelo Barão de Tefé (²), que comandava a canhoneira Araguary:
"Uma pequena esquadra brasileira de nove navios de madeira - lançada a centenas de léguas da pátria para operar em um rio crivado de escolhos perigosos e dominado pelo inimigo - bateu-se de sol a sol, e derrotou por completo a esquadra inimiga, composta de quatorze unidades.
Ao escurecer, o combate cessou por falta de combatentes.
O Brasil perdera totalmente um navio e trezentos homens, mas o Paraguai ficara sem a sua esquadra e perdera dois mil homens." (³)
Mas essa foi apenas uma batalha. A guerra, propriamente, estava apenas começando. Nela, os soldados enfrentariam as dificuldades naturais do ambiente em que tinham de lutar, as doenças, a falta de suprimentos. Ao Brasil, foi ocasião para tomar conhecimento de si mesmo: muitos lugares por onde as tropas precisaram se deslocar eram quase desconhecidos, e não havia deles mapa algum. Em tais condições, estabelecer uma rota para entrega regular de suprimentos e armas era quase impossível. 
As perdas foram enormes, dos dois lados, mas, certamente, maiores do lado paraguaio, porque os países envolvidos eram desiguais em recursos. Para o Brasil, o fim da guerra trouxe novidades no panorama interno. Militares, até então pouco expressivos na vida política, ganharam espaço e passaram a ser vistos com mais respeito, como veteranos de guerra que eram. Muitos ex-escravos lutaram entre as forças brasileiras no conflito. Seu retorno do cenário de guerra para a vida civil acendeu com mais força o debate sobre o fim da escravidão, um tema que se arrastava há muito tempo e que, já tarde, precisava ser resolvido. Finalmente, os anos da guerra foram marcados por reflexões quanto à capacidade do Império em lidar com os problemas do Brasil. Quem mais, no Continente Americano, era monarquia? Não deveria o Brasil, também, ser uma República, como todos os seus vizinhos? 
As décadas seguintes veriam esses debates em crescimento. A escravidão chegou formalmente ao fim em 13 de maio de 1888; proclamou-se a República em 15 de novembro de 1889. 

(1) 1864 - 1870.
(2) Antônio Luís von Hoonholtz.
(3) HOONHOLTZ, Antônio Luís von. A Batalha Naval do Riachuelo. Rio de Janeiro: Garnier, 1865, p. 147.


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sexta-feira, 3 de maio de 2024

Fazendeiros que não moravam em fazendas

Período Regencial. Nada, ainda, de ferrovias - o transporte de mercadorias era feito por tropas de muares. Eram os pobres animais que tinham de conduzir, serra abaixo, até o porto de Santos, grande parte do que se produzia na Província de São Paulo e que se destinava à comercialização em outras Províncias ou no Exterior.
O fazendeiro, porém, rico senhor de terras, não morava em sua fazenda. Era, como se costuma dizer, absenteísta, para desgosto dos jovens estudantes que se assustam com o vocábulo. Não há motivo: designa, apenas, alguém que está ausente. Os fazendeiros, muitas, vezes, estavam mesmo, mas com um bom motivo. 
Embora o termo seja empregado frequentemente para fazendeiros do período áureo da exportação do café na segunda metade do Século XIX, não foi com eles que teve início o costume de residir na capital da Província, e não na fazenda. Nos dias do Período Regencial já era assim, conforme se pode ler nesta observação feita por Daniel P. Kidder (¹):
"Os subúrbios e os arredores de São Paulo são muito interessantes e neles encontram-se numerosas residências elegantes, cercadas de jardins. A cidade é o centro de convergência de toda a Província. Muitos dentre os fazendeiros mais abastados têm casas na cidade e só permanecem algum tempo na fazenda, pois, de São Paulo, podem melhor orientar a venda de suas safras, à medida que passam serra abaixo em demanda do mercado." (²) 
Portanto, o foco das atividades dos grandes fazendeiros estava na comercialização vantajosa, ficando para outros o cuidado com a produção. Era um modo de pensar a atividade agrícola, e tudo o que a ela se relacionava, muito diferente do que se verificara nos séculos precedentes. E, se já era assim nos dias da Regência, muito mais o seria quando a produção cafeeira de São Paulo crescesse e ganhasse o mundo, durante o Segundo Reinado. 

(1) Pastor e missionário metodista americano, Daniel P. Kidder esteve no Brasil entre 1837 e 1840. 
(2) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil, trad. Moacir N. Vasconcelos. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 198.


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quarta-feira, 1 de maio de 2024

Conservação do feijão e do milho em fazendas no Século XIX

Produzir alimentos é essencial; conservá-los, adequadamente, para que possam ser consumidos até que nova safra esteja disponível, é tão importante quanto a produção.
Em meados do Século XIX, era este o procedimento adotado em fazendas do Brasil, particularmente no Sudeste, para a conservação do feijão que fora colhido, segundo relato de Augustinho Rodrigues Cunha, em Arte da Cultura e Preparação do Café:
"[...] Em muitas fazendas costumam expor o feijão, principal alimento, ao sol todos os oito ou quinze dias, conforme o tempo tem sido mais ou menos úmido; em outras costumam misturar com cinza. [...]" (¹)
Mais ainda:
"Eu pude observar que o feijão guardado em sacos expostos à luz diáfana se conserva perfeitamente bem, e sabe-se que guardado em barricas se deteriora em muito pouco tempo, a ponto de não servir. [...]" (²)
Quanto ao milho, o mesmo autor observou:
"[...] O milho se conserva melhor quando é esbulhado e batido, do que guardado em espiga. [...]" (³)
Havia, pois, muito trabalho a fazer. Era preciso, também, todo o cuidado para que os grãos fossem estocados longe do alcance de ratos e outros animais que pudessem danificar a safra. 
No sudeste brasileiro, feijão e milho não eram importantes apenas para alimentação de famílias senhoriais ou para venda à população de áreas urbanas próximas. Eram, com alguns acréscimos, a alimentação habitual dos escravos. Milho, inclusive, era cultivado para alimentar os animais. A conservação de modo apropriado, sob contínua vigilância, era o preço que se pagava para que alimentos não viessem a faltar.

*****

Segundo uma técnica antiga muito empregada no Brasil, milho e feijão eram cultivados simultaneamente, em roças com carreiras alternadas. Isto se faz ainda hoje, em áreas de agricultura de subsistência. A foto abaixo mostra o cultivo simultâneo de milho e feijão em 1911 (⁴). 



(1) CUNHA, Augustinho Rodrigues. Arte da Cultura e Preparação do Café. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1844, p. 103.
(2) Ibid., p. 105.
(3) Ibid.
(4) OAKENFULL, J. C. Brazil in 1911. 3ª ed. London: Butler & Tanner, 1912. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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