sexta-feira, 18 de julho de 2014

Para Quem Quiser Tirar o Chapéu

Vez por outra, quando alguém faz algo notável, ouve-se a observação: "É de tirar o chapéu!..."
Mas que chapéu, se ninguém, ou quase ninguém mais usa chapéu, a não ser em raríssimas ocasiões, como cerimônias especiais ou em folias de carnaval? Acabou-se, já se vê, a história de tirar o chapéu, a título de cumprimento.
Era o ano de 1892, e Machado de Assis observou, em sua coluna "A Semana", no jornal carioca Gazeta de Notícias:
"...se a gente fosse a amar todas as pessoas a quem tem obrigação de tirar o chapéu, este mundo era vale de amores, em vez de ser um vale de lágrimas."
Podem rir, senhores leitores; agora, voltemos aos chapéus, que quase ninguém mais usa, ainda que, no passado, fossem coisa não apenas usual, mas indispensável. Portanto, os anúncios de chapéus de todos os tipos, destinados ao público masculino, eram frequentes nas revistas que então circulavam. Vão aqui dois exemplos, o primeiro deles publicado na revista paulistana A Vida Moderna (¹), no ano de 1907, e o segundo, que saiu na também paulistana A Cigarra (²), em agosto de 1915:



É certo que, sendo considerados indispensáveis no trajar masculino, os chapéus deviam receber alguns cuidados para sua perfeita conservação e limpeza, havendo, portanto, quem, para isso, oferecesse o produto ideal, ao menos segundo esta propaganda que apareceu na revista O Echo (³), no ano de 1916:


Ora, não eram apenas os homens que usavam chapéus quotidianamente. Meninos e senhoras respeitáveis também não saíam de casa sem eles, e os anúncios seguintes, impressos em A Cigarra (⁴), são uma lembrança dos costumes então vigentes:



Entretanto, em virtude das normas de etiqueta, aquela história de tirar o chapéu era, em geral, restrita a indivíduos do sexo masculino,  mesmo porque a mão de obra para remover, em público, verdadeiras edificações instaladas nas cabeças das senhoras seria excessiva...
Finalmente, para quem quiser ter uma ideia de quão indispensáveis eram os chapéus, vai aqui uma foto (⁵), datada de 1919, na qual se vê o público em uma partida de futebol. Como notarão os senhores leitores, estava toda a gente - eles e elas - com seus respectivos chapéus, completando a rebuscada indumentária, e isso em pleno verão paulistano. Tentem imaginar a mesma situação quase cem anos depois, em algum dos estádios durante a competição mundial de futebol recentemente encerrada. Sim, leitores, tirar o chapéu, só se for para esta postagem, não é mesmo? (⁶)



(1) Ano II, números 29 e 30, 25 de dezembro de 1907.
(2) Edição de 1º de agosto de 1915.
(3) Edição de julho de 1916.
(4) Respectivamente, Ano II, nº 32 de 8 de dezembro de 1915 e Ano I, nº 4 de 6 de maio de 1914.
(5) A Cigarra, Ano V, nº 106, 15 de fevereiro de 1919.
(6) Vê-se que, ao escrever esta postagem, a blogueira estava de bom humor.

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