sexta-feira, 18 de abril de 2014

Como Ciro, o Persa, Conquistou Babilônia

À primeira vista, pode parecer que os povos da Antiguidade valorizavam a força acima de qualquer outra coisa. Coragem na guerra e capacidade de lutar até morrer, se fosse necessário, eram alvo da admiração popular. No entanto, se devemos dar crédito a muitas narrativas que, desde tempos remotos chegaram até nossos dias, a esperteza e a inteligência eram, no mínimo, tão valorizadas quanto a força bruta.
Um acontecimento (e não de pequena importância) que ilustra muito bem essa questão é a forma pela qual os exércitos de medos e persas, comandados por Ciro, conquistaram a Babilônia.
Cabe aqui, antes de seguirmos em frente, dizer duas ou três palavrinhas sobre a famosa Babilônia. Ficava ela na Mesopotâmia, e como muitas outras cidades da região, passou por altos e baixos ao longo de sua história. A Babilônia de que estamos tratando, a que Ciro conquistou, era a sede de um poderoso império (classificado como "Segundo Império Babilônico"), que conseguiu firmar-se após o período de hegemonia da Assíria, cuja capital era Nínive.
Pois bem, pelos relatos do passado e pelas ruínas arqueológicas, Babilônia, atravessada pelo rio Eufrates, devia ser linda. Em termos de arte e arquitetura, era deslumbrante aos olhos de quem lá chegava. Foi também um importante centro de investigação científica, ao menos para os padrões daqueles dias - a tremenda bagunça entre astrologia e astronomia teve um ápice em Babilônia, e a confusão foi tanta, que até hoje há quem não consiga separar uma coisa da outra. A escrita que lá se empregava era a cuneiforme e o sistema de numeração era sexagesimal - você o usa cada vez que olha para o relógio.
A religião, como acontecia com quase todos os povos da Antiguidade, era politeísta e envolvia práticas que, mesmo para as ousadas mentalidades do Século XXI, seriam tidas como um escândalo.
Mas, acima de tudo isso, Babilônia era riquíssima. Os tesouros acumulados graças ao comércio e à tributação dos povos dominados tornaram-na um alvo bastante óbvio para a cobiça de muitos monarcas, de modo que Ciro, governante de persas e medos, pretendeu conquistá-la. Mas como?
Babilônia parecia inexpugnável. Suas altas muralhas afiguravam-se intransponíveis. Só a força bruta não seria, jamais, suficiente para derrotá-la. Num cenário assim, a inteligência teria que trabalhar muito.
Temos, de Heródoto de Halicarnasso, um relato detalhado de como tudo aconteceu.
Ciro (entenda-se aqui o próprio rei e seu estado-maior) constatou que, nas cercanias da cidade, havia um velho lago (já usado do passado) e que estava praticamente seco. Assim, colocou seus melhores soldados, que dividiu em dois grupos, perto de onde o Eufrates entrava em Babilônia e perto de onde saía. Depois, determinou que os sapadores construíssem um canal que, ligando o Eufrates ao lago, permitisse um desvio das águas, de modo que o nível do rio baixasse o suficiente para ser atravessado por forças pedestres.
Quando os soldados, aguardando em seus postos, viram que a água havia baixado, entraram no leito do rio e passaram para dentro da cidade. Ao que tudo indica, era noite quando essa manobra se verificou.
Porém...
Porém o curso do Eufrates, mesmo dentro de Babilônia, era muito bem protegido.
Altos muros margeavam o rio, e o acesso a ele se fazia por enormes portões que eram, habitualmente, fechados durante as horas da noite. Desse modo, aponta Heródoto, teria sido facílimo aos babilônios promover um verdadeiro massacre de persas, se tão somente tivessem, postados no alto dos muros, encontrado um aprazível entretenimento em assetear os invasores. Mas isso não aconteceu, e por um motivo que fez toda a diferença nessa história.
Naquela data estavam os babilônios, tanto os poderosos como a gente comum, comemorando uma de suas festas religiosas e, seja por descuido, seja por excesso de confiança, ninguém se lembrou de fechar os portões que davam acesso ao rio, mesmo sabendo que inimigos andavam por perto. Os persas, entrando sorrateiramente, já haviam tomado o controle da periferia da grande metrópole, enquanto os moradores da região central, bem como a elite dominante, envolvidos na festança, nem faziam ideia do que se passava. Era 539 a.C., chegava ao fim a hegemonia babilônica.


Veja também:

29 comentários:

  1. Excelente crónica, Marta. Vc tem o dom de contar complexas circunstâncias históricas de uma forma simples e divertida. Li ( há zilioes de anos) esta história na Bíblia e não me entusiasmou como a sua.
    Abraço
    Ruthia d' O Berço do Mundo

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    1. A Bíblia faz um vôo panorâmico, a arqueologia e a história são as ferramentas usadas por Deus para jogar luz sobre os relatos sagrados...

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    2. Olá, Eduardo Silva,
      é interessante observar como os vários documentos históricos (os relatos de Heródoto, textos bíblicos, etc.), quando estudados segundo técnicas apropriadas, permitem uma reconstrução dos eventos do passado, mediante a confrontação dos diversos pontos de vista de autores da Antiguidade, cujos relatos, complementares ou não, ajudam a montar o quebra-cabeça de fatos que estão muito distantes de nós sob o aspecto temporal.

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    3. Boa tarde a todos, muitos contam esta história assim como se conta as palavras de Dom Pedro I no Ipiranga, conhecido como "O Grito do Ipiranga". Foi assim ensinado nas escolas aos alunos. Mas quando se trata da Palavra do Deus Vivo que fez os céus e a terra, há necessidade de tratar o assunto com reverência. Há uma notória parceria entre os medos e persas ao analisarmos o interdito assinado por Dario com relação a proibição dos homens pelo prazo de trinta dias de fazer petição a homens ou a qualquer deus e não do rei. Quando Daniel foi flagrado pelos homens que buscavam acusa-lo, eles perguntaram ao rei se ele não havia assinado o interdito; o rei disse que sim e que era irrevogável segundo a lei dos medos e dos persas (Dn. 6:11,12). Então nesta passagem mostra uma certa concordância entre estes povos. Mas mesmo assim eu não posso afirmar que eram parceiros porque a Bíblia não expõe isso com clareza, da mesma forma que em nenhum momento se achará nela qualquer vestígio de que Ciro desviou o curso do rio para a sua tropa tomar Babilônia e nem que houve confronto entre eles neste quesito. O que podemos afirmar com clareza é que Deus deu a terra aos caldeus (Nabucodonosor, Evil-Merodaque e Belsazar) Jr.27, depois se apoderou do reino o rei Dario o medo e então Ciro o persa.
      Mas o mais importante disso tudo é que a Bíblia é a inerrante Palavra do Senhor. Ela é completa e achamos nela todas as respostas para as questões da vida."As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.
      Deuteronômio 29:29"

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    4. Olá Soldado Antigo,
      Acho que você não teve tempo ainda de ler tudo que já escrevi aqui neste post, em resposta a comentários de outros leitores.
      É importante notar que a conquista de Babilônia por Ciro, à frente de um exército medo-persa (que, além disso, tinha gente de outros povos), não pode ser comparada ao chamado "Grito do Ipiranga", porque da conquista de Babilônia temos razoável documentação escrita e arqueológica, enquanto que do "Grito" só temos depoimentos muito posteriores ao fato.
      Isto posto, é preciso salientar mais uma vez que este é um blog de História, e não de questões religiosas, pelas quais tenho enorme respeito (e peço o mesmo dos leitores), mas que não estão em pauta, porque é preciso delimitar conteúdo.
      É óbvio que, à luz da documentação que se tem, foi mesmo uma coligação medo-persa, à frente da qual estava Ciro, que conquistou Babilônia. Se algum dia for encontrada documentação que prove o contrário será uma surpresa, mas, por uma questão de honestidade científica, temos sempre de estar abertos à possibilidade de novas pesquisas, que podem, inclusive, mostrar que tudo aquilo que se pensou por séculos está errado. É da natureza do trabalho arqueológico e historiográfico :-)))
      A Bíblia pode ser usada - e é, frequentemente - como documento histórico. Aceitá-la pelo aspecto religioso é uma questão de fé, de escolha pessoal. Já como documento histórico, devemos, necessariamente, comparar seus relatos com outros documentos contemporâneos, à luz da mais sensata hermenêutica (não sei se há hermenêutica insensata, mas deve haver). Então, com base nisso, só posso reiterar tudo o que já escrevi em outros comentários. Dê uma olhada, sim?
      Devo dizer, no entanto, que estou achando ótimo todo o debate que anda ocorrendo a partir desta postagem. Como você deve saber, esse assunto da conquista de Babilônia já quase nem é mais estudado em escolas no Brasil, e o simples fato de ver que as pessoas estão lendo e comentando, já é um triunfo para alguém (eu!) que tem-se proposto a tornar o conhecimento histórico acessível ao maior número possível de leitores.
      Obrigada por sua visita ao blog; tenha a certeza de que seu comentário foi muito apreciado. Apareça outras vezes. Há outras postagens sobre a antiga Babilônia aqui mesmo neste blog. Talvez você queira ler...

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    5. Obrigada, Giancarlo. Se tiver ideias ou sugestões para o blog, fique à vontade para dizer, sim?

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    6. Soldado Antigo,
      Falando sobre a futura conquista de Ciro, Isaías foi inspirado a escrever: “Assim disse Jeová ao seu ungido, a Ciro, cuja direita tomei para sujeitar diante dele nações, . . . para abrir diante dele as portas duplas, de modo que nem mesmo os portões se fecharão.” Deus também predisse que o rio Eufrates ‘teria de secar-se’. — Isaías 45:1-3; Jeremias 50:38.
      ".. a Bíblia não expõe isso com clareza, da mesma forma que em nenhum momento se achará nela qualquer vestígio de que Ciro desviou o curso do rio para a sua tropa tomar Babilônia..."
      A PROFECIA DE JEREMIAS APONTA QUE AS ÁGUAS SERIAM SECADAS (método usado: desvio).

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    7. Olá, Edmundo Alves,
      Vi seu comentário direcionado a um leitor; quando escrevi este post não tinha a menor ideia de que ele acabaria provocando um debate religioso. Estou surpresa, porque, como é evidente, este é um blog de História! Vale, portanto, o que já escrevi sobre o assunto em outros comentários.
      Obrigada por visitar História & Outras Histórias e por deixar seu comentário. Apareça outras vezes, você será sempre bem-vindo.

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  2. Hahaha, há bastante tempo eu dava aula para algumas classes de preparação para vestibulares (os exames para ingresso em universidades no Brasil) e os alunos diziam que o problema é que não sabiam se eu estava falando sério ou se só estava contando historinhas, do tipo dos contos de fadas. Mas essa é História mesmo, pode acreditar :-)))))))))))))))))

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    1. Essa gente da Antiguidade tinha cada ideia...

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  4. Dizer que esta história está de acordo com a Bíblia, não dá. Me refiro aos comentários aqui. Segundo o relato do Profeta Daniel, quem conquistou Babilônia foram os medos, através do rei Dario que depois foi sucedido por Ciro, rei medo. As Escrituras relata que Belsazar era rei, quando apareceu uma mão escrevendo na parede. Daniel interpretou a escrita par o rei e naquela mesma noite Dario o rei medo matou Belsazar, sucessor de Nabuco. Ao que tudo indica, porém, é que Dário era rei da Média e a Média era subordinada a Pérsia, embora a o rei persa permitia ao rei da Média ter parte em parte de seu império.

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    1. Boa tarde, Li Onoveee, obrigada por sua visita ao blog.
      Como você deve ter notado, este é um blog de História; embora religiões façam parte da cultura dos mais diversos povos, não é objetivo da História demonstrar que essa ou aquela crença religiosa está certa ou errada. Isto posto, deixo claro que, neste blog, opiniões, religiosas ou não, serão sempre respeitadas, desde que haja reciprocidade, e é por isso que comentários tão diferentes são publicados, não significando, portanto, que a historiadora e blogueira esteja, necessariamente, de acordo com eles.
      Agora, historicamente falando, A Média foi um reino que, durante algum tempo, dominou a Pérsia (vários autores da Antiguidade mencionam isso). Entretanto, quando os persas já eram governados por Ciro, o Grande, a Pérsia conseguiu "inverter os papéis", ou seja, foi ela quem passou a dominar os medos.
      Quanto à conquista de Babilônia, existe pouca ou nenhuma dúvida entre historiadores de que foi Ciro o comandante, na sua condição de rei da Pérsia; entretanto, tinha generais às suas ordens, que também desempenharam função relevante - seria tolice imaginar que uma conquista de tais proporções fosse obra de apenas um homem, ainda que, segundo as práticas da Antiguidade, fosse comum retratar os reis como heróis capazes de tudo. É certo que ele tinha algum tipo de Estado-maior, como qualquer grande líder militar.
      O Império Persa tinha mais de uma capital e, após esta guerra, Ciro retornou a uma delas, deixando um rei subordinado cuidando da Babilônia. É possível que esse fosse aquele que é mencionado como Dario, o medo, no texto da Bíblia que você leu, mas, até o momento, não se conhecem outros documentos historicamente válidos que comprovem essa hipótese. Lembro, porém, que ele com certeza não é Dario Histapes, um soberano que comandou o Império Persa mais tarde. Pesquisas histórico-arqueológicas continuam, e, algum dia desses, uma nova descoberta poderá, quem sabe, vir a esclarecer este ponto.
      Parece, pelo seu comentário, que você tem algum interesse pela Bíblia; ela, assim como outros documentos da Antiguidade, pode ser útil quando se trata de estudar civilizações antigas. Neste caso, talvez você queira saber quem, de fato, governava a Babilônia, pela época em que foi conquistada por Ciro - estude a questão da sucessão de Nebuckadnezar (ou Nabucodonosor, como se diz, em uma transliteração um pouco estranha, em português). Além disso, existe, também da Antiguidade, uma biografia de Ciro, escrita pelo grego Xenofonte, chamada Ciropédia. Há tradução em português, mas lembro a você que o autor era um grande admirador de Ciro, além de ser também um sujeito meio crédulo, então será preciso ler criticamente, com senso para filtrar o que ele escreveu. Futuramente haverá postagens, aqui no blog, relacionadas a algumas obras de Xenofonte.
      Caso precise de alguma informação adicional, envie um e-mail para o endereço eletrônico que está na página "Contato" de História & Outras Histórias.

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    2. Oi Marta. Obrigado por sua atenção. Eu fiz meu comentário referindo aos comentários de pessoas aqui que acreditam na Bíblia e olhando seu texto, atribuem que a Bíblia fala o que tu escrevestes aqui, pois a Bíblia, que não tem compromisso com historicidade e nem Ciência, mas apenas Religioso, mostra que foi Dario, rei medo que apoderou-se de Babilônia. No entanto, ela não diz como ele fez isto e algumas pessoas enxergam em Dario a histórica façanha de Ciro. Foi isto que eu quis dizer quando fiz este comentário. Também sei que ATÉ AGORA não há na História da humanidade, baseada em documentos disponíveis e também baseado em arqueologia, meios de dizer que Babilônia foi capturada pelos medos, antes de passar a pertencer a Pérsia. Talvez um dia se encontre algo extrabíblico que mostre isto, mas por enquanto, pelo que sabemos... Nada, não é??? Foi apenas isto que busquei falar. Mais uma vez, obrigado por sua atenção e também pelas informações que me deste. Até mais.

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    3. Olá, Li Onoveee, que bom que você voltou ao blog!
      Bem, como já expliquei, o meu ponto de vista (assim como da maioria dos historiadores) é que, sendo a Média dominada pela Pérsia ao tempo da conquista de Babilônia, Ciro, rei dos persas, "mandava" nos dois reinos. Assim, conforme Heródoto e muitos outros cronistas da Antiguidade, foi Ciro, liderando o que se chama de Império Medo-Persa, quem conquistou Babilônia. A dúvida que pode surgir está relacionada à menção, na Bíblia, de alguém de nome Dario, medo, governando Babilônia em seguida; mas, segundo o costume da época, é possível que Ciro tenha deixado a tomada final da cidade a um lugar-tenente, que teria concluído a conquista de Babilônia, assumindo, ao menos temporariamente, o governo, para evitar alguma revolta na cidade. Como você sabe, o Império Medo-Persa tinha um território gigantesco, e era até necessário que reis menores (ou régulos) assumissem o controle das diversas áreas, dominando em nome do monarca principal que, no caso, era Ciro (hoje nós chamaríamos "governadores" a esses mandatários regionais). Há inúmeros casos na Antiguidade em que isso aconteceu, de modo que não seria nenhuma surpresa.
      Outra coisa frequente era que um determinado general conquistasse algum lugar e o crédito fosse atribuído ao monarca que reinava naquele momento (há muitos casos assim no Egito Antigo). Mas, como eu disse no comentário anterior, as pesquisas continuam e, um dia desses, pode ser que alguma nova descoberta amplie o conhecimento que temos quanto ao assunto.
      Depois que escrevi o outro comentário, fiquei pensando que outros leitores, quando se referem à Bíblia, podem não estar falando apenas naquilo que está no livro do profeta Daniel. Há também o que se encontra em um outro livro, chamado Esdras (que era um escriba da corte), e também no que está no livro do profeta Isaías, capítulo 45. Acho que é a esses textos que eles se referem, mas em conjunto, e não a algum deles isoladamente. Talvez você queira dar uma olhada, para ter uma visão mais abrangente da questão, se usar a Bíblia como documento histórico.
      O que se vê, afinal, é que esse é um assunto muito interessante, não acha? Tantos, por muitos séculos, têm pesquisado sobre isso, e ainda há tanto a investigar...

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    4. Olá, Marta. Obrigado por sua resposta. Legal que você busca interagir com seus leitores. Acho isso muito legal mesmo da sua parte. Quanto a Esdras, Neemias, Jeremias, Isaías e Daniel, personagens bíblicos a mencionar reis e reinados da região, conheço praticamente todos os relatos, inclusive, alguma coisa de um outro judeu, não mencionado na Bíblia, mas que é tido como um quase personagem bíblico: Yosefo Flavius. Ao estudar este tema NA BÍBLIA, fica compreendido e sem deixar margem para outra interpretação, o seguinte: Após o auge do reino de Salomão, se os reis israelitas sucessores do reinado desandasse a transgredir a religião, Babilônia, através de "Nabucodonosor" dominaria Israel, por 70 anos. Depois dela a potência imperial a ter conhecimento dos israelitas na terra, seria a Média e a Pérsia como uma só potência, embora o reinado fosse dividido na seguinte ordem: Medos dominando primeiro, mas depois tendo os persas se destacando notoriamente com o império, antes dos gregos o dominar.
      Logo a conclusão é que Bíblia e documentos histórico disponíveis até a data de hoje não estão em pleno acordo.
      Nestas discordâncias, há quem fica com a Bíblia e há quem fica com a História.
      Eu, particularmente já cheguei a pensar que os personagens da Bíblia relatam fatos, porém tardiamente, assim atribuindo certos assuntos anteriores a seus tempos, embora não fossem contemporâneos.

      Depois, me mostraram um Salmo onde o rei Davi teria dito que “feliz seria a pessoa que viesse atirar os filhos dos babilônios contra os rochedos”. Daí fiquei um pouco surpreso, pois não havia percebido nos Escritos bíblico que já na época de Davi, já havia esta rivalidade em Israel contra os babilônios.

      Posteriormente fiquei sabendo que há entre alguns grupos de arqueólogos a opinião que os israelitas contam história mesclada com a de algum outro povo anterior e não propriamente a deles e achei um pouco de coincidência com o que em parte, já havia pensado.

      Depois descobri que Yosefo Flavius atribuiu aos israelitas como sendo (um possível) descendentes dos HICSOS.

      Sei lá. Algo parece estar querendo apontar um caminho de raciocínio, mas...

      Bom mesmo é se algum dia a humanidade compreendendo melhor o espaço-tempo, conseguisse criar a MÁQUINA DO TEMPO que pudesse viajar nos tempos, mesmo que voltando ao passado visse apenas cada segundo das coisas ocorridas congeladas, mas, por enquanto, isto é impossível (risos). Então... Fiquemos com o que está oficializado como sendo A VERDADE. Como há muitas verdades, mas nenhuma certeza ABSOLUTA em 100%, então cada qual vive com a versão da verdade que escolheu e assim segue a humanidade.

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    5. Olá, Li Onoveeee, vou responder em mais de um comentário, porque o Google não aceita mais de 4096 caracteres em cada um :-))))

      Como já expliquei em outros comentários neste post, em meu trabalho como historiadora não posso e nem devo levar em conta questões de fé para a abordagem de um assunto, a não ser quando têm relevância história (independente de minhas convicções pessoais). É uma questão de profissionalismo.
      O que estou achando curioso é que neste post sobre a antiga Babilônia eu não fiz qualquer menção à Bíblia, a iniciativa para isso partiu inteiramente dos leitores. Mas vamos aos seus questionamentos.

      1. Para não haver equívocos, é preciso prestar atenção à cronologia: Flávio Josefo, historiador judeu, foi um contemporâneo da conquista de Jerusalém pelas forças romanas em 70 d.C. - não poderia, portanto, ser mencionado na Bíblia, já que seu tempo de vida é posterior à conclusão do que se chama de Antigo Testamento.

      2. O Salmo a que você se referiu (137 na maioria das Bíblias, ou 136, para as que seguem a numeração da Vulgata Latina) jamais poderia ter sido escrito por Davi, que viveu muito antes da conquista de Jerusalém pelos babilônios. Não me parece que exista algo de "profético" nele. Pelo contrário, é a linguagem autêntica de um exilado, lamentando a perda de sua pátria. Deve, portanto, ser datado do período do exílio babilônico, e seu autor é desconhecido. Observe que alguns salmos que trazem como título "de Davi" devem ser entendidos como pertencendo a uma "coleção" iniciada por Davi, não significando que o rei-poeta fosse autor de todos eles. Há também a questão de que os salmos foram reunidos em um livro após o exílio babilônico, quando um editor que nos é desconhecido atribuiu títulos, que não faziam parte, necessariamente, dos textos originais.

      (Continua no próximo comentário, veja abaixo)

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    6. (Continuação do comentário anterior)

      3. É fato que há divergências quanto à data em que os vários "livros" de que se compõe a Bíblia foram escritos. São muitos autores, de épocas diferentes, e eu precisaria escrever um comentário para cada um deles (seria uma loucura!). Alguns autores dão pistas do tempo em que escreveram, outros não. Portanto, é mediante a história comparada e a linguística que se procede a datação (veja que estou falando de História enquanto ciência, não de crenças religiosas).

      4. Muitos especialistas datavam certos livros como sendo de tempos mais recentes do que aqueles que descreveram, porque se supunha que não haveria uma capacidade geral de escrita em época tão antiga. Só que uma descoberta arqueológica recente (há um ano, mais ou menos), parece mostrar que, entre os hebreus, a capacidade de escrever para propósitos do dia a dia já era comum antes do exílio babilônico. Não é interessante?

      5. Você se referiu a Flávio Josefo - Já leu suas obras, especialmente "Antiguidades dos Judeus"? Se você ler, vai ver que quem disse a você que Josefo afirma que os hebreus eram descendentes dos hicsos cometeu um engano. O que acontece, sim, é que vários historiadores não todos) acham que os hebreus devem ter estado no Egito no tempo em que os hicsos dominavam a região do Nilo, porque eles, sendo também de origem semita, teriam recebido os hebreus de forma favorável. A expulsão dos invasores hicsos e retomada do poder por faraós egípcios teria resultado na escravização dos hebreus, depois libertados sob a liderança de Moisés. Mas, veja, são apenas conjecturas de alguns autores. Em qualquer caso, o máximo que se pode dizer é que, segundo essa hipótese, hicsos e hebreus teriam uma origem comum, nunca que hebreus seriam descendentes de hicsos (até porque foram povos contemporâneos). Percebe como a cronologia é importante?
      Quanto à máquina do tempo, hahaha, seria muito bom que houvesse uma, não é? Na falta dela, só resta pesquisar, estudar, trabalhar essas questões tão intrigantes. Como escrevi em resposta a outro leitor, um aspecto muito legal do debate que esta postagem levantou é que, num país como o Brasil, em que o estudo de História anda tão marginalizado, a ponto de que a antiga Babilônia não seja mais nem mencionada nas aulas, este blog está alcançando um de seus objetivos, que é justamente oferecer informação de qualidade para quem quer mais conhecimento. Obrigada por seus comentários. Há no blog outras postagens sobre a Babilônia, para o caso de você querer ler um pouco mais.

      (Acabou!)

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  5. Muito bom. Senti falta de fontes bibliográficas.

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    1. Olá, Henrique Sebastião, obrigada por sua visita ao blog.
      A respeito de fontes bibliográficas:
      Como você deve ter notado pela leitura do post, a principal referência são as "Histórias", de Heródoto. É fato que ele não é o único a tratar do assunto da conquista de Babilônia por Ciro, mas é, sem dúvida, o principal.
      Isto é um blog (não um livro ou tese), e por razões de praticidade e para tornar os posts mais leves, tenho por hábito mencionar apenas as fontes que são citadas textualmente (você poderá notar esse fato se consultar outras postagens, já que a maioria das citações vem em destaque). Foi uma decisão que tomei com base naquilo que considero ser o público-alvo, ou seja, a média de meus leitores. Embora procure sempre respeitar o que há de mais atualizado em termos de informação, não creio que um blog seja espaço para excessivo academicismo. Sem vulgarizar, é preciso escrever de modo a proporcionar conhecimento em linguagem simples e interessante, para alcançar a mais ampla gama de leitores. É essa a minha opção para "História & Outras Histórias".
      Por outro lado, como historiadora profissional, trabalho com uma grande variedade de fontes, além de escrever outros tipos de texto, para usos muito diferentes, e me reservo o direito de colocar em meus trabalhos minhas próprias reflexões, ideias e pesquisas sobre os assuntos de que trato, citando bibliografias mais ou menos extensas, conforme exigência de cada público. Afinal, levantar bibliografia também é parte de minha atividade profissional, coisa que faço quando pertinente. Como sou simpática com meus leitores, não é raro que estudantes de todos os níveis entrem em contato através de e-mail, solicitando bibliografia para suas atividades acadêmicas, e, na medida do possível, procuro ajudar a todos. :-)))
      Mas, se o que você deseja é uma sugestão de leitura para aprofundamento sobre a Antiga Babilônia, eu indicaria o já antigo (mas ainda indispensável) "Discoveries in the ruins of Nineveh and Babylon", de A. Henry Layard. Vale a pena gastar tempo com ele. E, claro, há outros posts sobre a Babilônia aqui mesmo no blog. :-)))
      Agradeço seu comentário. Apareça mais vezes por aqui!

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    1. Obrigada, Odair Filho. Apareça sempre aqui no blog! 🙂

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  7. Ola Marta Iansen, deixando de lado, historiadores e relatos com grandes textos, me surge uma pergunta, se você pode me responder, você tem fé?

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    1. Olá, Marcelo Campos,

      De fato sua pergunta é inusitada aqui neste blog! rsrsrssss...

      Já notou que todo mundo tem fé em alguma coisa? Há quem tenha fé em um conjunto de crenças religiosas, outros dizem que têm fé em si mesmos, há também quem afirme ter fé na ciência, e por aí vai. Então, não sei se consegui entender o que realmente você quis perguntar.

      Nós, historiadores, somos treinados para que, no exercício da profissão, exerçamos imparcialidade, senso crítico, capacidade de análise, etc., aliados à competência técnica na interpretação de documentos históricos. Assim deveria ser, idealmente, para efeitos de trabalho, com total isenção da interferência de ideologias religiosas ou políticas, entre outras. Sei que há quem discorde, achando que a militância (política, por exemplo), no trabalho historiográfico é válida, até mesmo de forma explícita. Respeito esse ponto de vista, ainda que discordando dele. Por outro lado, nosso trabalho deveria sempre promover a ética, a justiça social e a consciência crítica, que tanta falta fazem atualmente. É assim, claro, no aspecto profissional. Na vida pessoal e no exercício da cidadania, cada historiador tem o direito de adotar os princípios que considerar mais adequados.

      Entretanto, se a sua pergunta tinha por objetivo saber se, pessoalmente, sou adepta de alguma forma de ateísmo ou mesmo de agnosticismo, a resposta é não.

      Obrigada por visitar o blog História & Outras Histórias. Tenha um bom dia, e apareça outras vezes por aqui.

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  8. Ola Marta Iansen, sem querer interromper seu final de semana prolongado, já interrompendo, desculpe se não fui objetivo, Você acredita em Deus?

    É sempre bom o dialogo com pessoas com assuntos bem específicos, com grandes conhecimentos e objetos.

    Me faz lembrar a vida de Moises, um hebreu que foi criado com todos os requintes e conhecimentos que um príncipe egípcio merecia, mas no decorrer de sua vida, todo esse conhecimento foi usado para libertar seu povo de origem, formando exércitos a vontade de Deus. Continuando com a pergunta especificamente, você tem fé em Deus?

    Abraços, li todos os relatos do blog e nada se perde, vem para somar com o que já temos.

    Bom feriado

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    1. Boa noite, Marcelo Campos,

      Agora entendi: você quer saber se creio na existência de Deus, certo? Sim, eu creio; acho que o último parágrafo de meu comentário anterior
      já era, em parte, uma resposta à sua pergunta.

      Lembro-me de algumas ocasiões no passado em que pessoas me perguntaram se haveria alguma incompatibilidade entre a crença em Deus e as investigações históricas. Para mim, não há. Não penso na fé em Deus como algo que me leva à irracionalidade - é exatamente o contrário. Aquilo que hoje não compreendemos bem poderá ser melhor entendido amanhã, com mais estudo, investigações, pesquisas e debates. Uma parte (às vezes engraçada, às vezes dramática) das pesquisas em História é que algumas coisas que em certo momento eram defendidas como "verdades" absolutas, acabam demolidas à medida que as pesquisas avançam. Isto pode ser eletrizante, mas nos obriga a certa humildade, também rsrsrsss...

      Veja, por exemplo, o caso dos antigos assírios: já houve um tempo em que se achava que sua existência era apenas lendária. Escavações realizadas na Mesopotâmia durante o Século XIX mostraram que não somente os assírios tinham existido, como haviam constituído um dos maiores impérios da Antiguidade. Vale o mesmo em relação aos hititas. É claro que nem todas as grandes revelações vêm de escavações arqueológicas; às vezes um pequenino documento escrito, coberto de poeira e esquecido longamente em um arquivo pode trazer à luz informações espantosas.

      O caso de Moisés, citado por você, é um exemplo da necessidade de continuar as investigações, já que, para personagem tão importante, não há, no estágio atual dos conhecimentos, quase nada que se saiba sobre ele, além do que está na Bíblia. E, para efeitos de pesquisa histórica, seria muito interessante ter outras fontes. O que temos, hoje, são apenas referências indiretas ou deduções. Quem garante, porém, que amanhã ou depois novas descobertas não trarão à luz uma reviravolta também neste caso?

      Um abraço; tenha um ótimo final de semana.

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  9. Olá Marta, tudo bem?
    gostei muito do que postou a respeito da vitória do Rei Ciro contra o Império da Babilônia.
    Você teria algo semelhante ao Império Bizantino e/ou Império Otomano?

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    Respostas
    1. Olá, ELÉTRICA SOLA, obrigada pela visita ao blog!

      Não há, ainda, nenhum post sobre a conquista de Constantinopla (Império Bizantino ou Império Romano do Oriente) pelo Império Otomano em 1453, mas este é, sem dúvida, um assunto interessante, e vou colocá-lo no planejamento, para tratar dele no futuro.

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