domingo, 18 de outubro de 2026

Fome e doenças nas guerras da Antiguidade

Não era incomum que doenças e fome causassem maior número de mortes nas guerras da Antiguidade do que os próprios combates.
Por que isso acontecia?
Imagine-se que começava a circular a informação de que um exército invasor se aproximava. Lembrem-se, amigos leitores, de que as comunicações eram lentas, notícias viajavam a pé ou a cavalo, algumas vezes em embarcações que não primavam pela velocidade. Mas, afinal, a notícia, cansada, suada e empoeirada, chegava. As grandes cidades, capitais de reinos, por exemplo, eram muradas. Quanto mais alto e mais largo o muro, maiores as chances de defesa (¹). Ao circular a informação de que uma guerra se avizinhava, quem vivia nas povoações menores e sem muros tratava de fugir, tão depressa quanto possível, para dentro de uma fortificação, levando tudo o que era possível carregar. Isso significava roupas, alimentos, riquezas portáteis e até animais. 
Essa massa de fugitivos ia se juntar à população que já vivia dentro das muralhas, elevando, pois, a demanda por alimentos e água. Sim, se uma fortaleza tivesse bons celeiros devidamente abastecidos e uma fonte de água eficiente em volume e qualidade, era possível resistir por muito tempo a um cerco. Caso contrário, o desastre estaria próximo: sem água potável e sem comida, pessoas morreriam de fome e sede, os corpos insepultos estariam por toda parte e, facilmente, doenças iriam proliferar. Uma estratégia dolorosa, mas prudente, seria evitar a maior calamidade abrindo os portões aos inimigos e aceitando as condições de paz por ele impostas. Contudo, isso nem sempre acontecia, e as mortes por inanição competiam, em número, com as causadas por doenças de todo tipo.
Por que se faziam guerras de conquista na Antiguidade? As razões, entre outras, poderiam ser a apropriação de territórios férteis para agricultura e pastagem, a pilhagem de suprimentos, o roubo de tesouros, a imposição de pesados tributos ao derrotados e a escravização de inimigos vencidos. Reflexão inevitável: as guerras compensavam?
É preciso levar em conta que, diante da aproximação de um exército invasor, os governantes do território invadido eram, em geral, cuidadosos em dificultar ao máximo o avanço dos oponentes. Fora das muralhas cortavam-se as árvores frutíferas, se necessário plantações eram destruídas, poços e fontes de água eram inutilizados. Não há dúvida de que essas eram medidas desesperadas (²), mas eram vistas como imprescindíveis para dificultar a vida dos que pretendiam estabelecer o cerco contra uma fortaleza. 
Era empreendimento trabalhoso escalar a muralha para entrar em uma cidade, aplicando, muitas vezes, o uso de rampas de ataque e outras invenções que, para os padrões da época, eram mortíferas, embora também se tentasse abrir uma brecha no muro (eventualmente, com uso de máquinas, fossem elas rústicas ou elaboradas). Mas era assim que se faziam os ataques, quase sempre com pesadas baixas. Uma chuva de flechas, pedras e outros objetos caía sobre os soldados que ousavam se aproximar (³), e, a menos que uma trégua fosse acertada, não havia muito tempo para sepultar os que tombavam. Os acampamentos de invasores não eram lugares confortáveis, e estoques de alimentos neles existentes eram presa fácil para ratos e outros animais, que deixavam, atrás de si, um rastro de doenças devastadoras, também para os que promoviam o cerco. 
O desfecho de tal cenário variava: inimigos podiam simplesmente levantar o cerco e ir embora, se as dificuldades fossem grandes demais. Houve casos de cercos que duraram anos, mas afinal, esgotadas as forças dos que resistiam, os invasores foram vitoriosos. Nessas circunstâncias, os soldados entravam na fortaleza e espalhavam um cenário de horror, quase sempre incendiando tudo o que não era possível carregar, e se faziam senhores dos que eram derrotados, a quem restava apenas lidar com a tragédia da sobrevivência. Mas havia, eventualmente, a possibilidade de um acordo de paz, que jamais seria equitativo. Tempos depois, era provável que a guerra recomeçasse, se as condições estipuladas para o fim do conflito não fossem cumpridas. 
Há relatos de epidemias em guerras da Antiguidade que se tornaram famosos. Menciono, como exemplo, aquele que atingiu Atenas e região, durante a Guerra do Peloponeso. Apesar de descrita em detalhes por Tucídides, a verdadeira natureza da doença é, até hoje, alvo de debate. Mas sabemos, por Heródoto, de praga de ratos, com suas consequências, em acampamento dos assírios, e, em informação atribuída a Dion Cássio, há referência a uma epidemia durante as Guerras Púnicas, no contexto das idas e vindas ligadas ao cerco de Siracusa pelos romanos. Nada surpreendente, tendo em vista as condições em que cerco e combates ocorriam. Mas volto à questão a que já me referi: As guerras compensavam? Nenhum ser pensante terá dificuldade em responder, se levar em conta o bem geral da humanidade. Mas não era, e não é assim, que as coisas acontecem. Ontem, como hoje, guerras são norteadas por outra lógica. 

(1) Um tipo muito comum de muralha foi, em alguns lugares, aquele que era constituído por dois muros de pedra, com um intervalo de largura variável, que era preenchido com terra. 
(2) Supondo que o invasor fosse derrotado ou desistisse do ataque, essas práticas significavam um custo maior de reconstrução após a guerra.
(3) Mais tarde, na Idade Média, tornou-se uma prática comum lançar óleo fervente sobre os que atacavam junto à muralha de um castelo. 

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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Sobre a ditadura na Roma Antiga

Se podemos crer no que escreveu Dion Cássio (¹), a ditadura foi inventada em Roma (que pensar dessa ideia?...) em uma ocasião em que, na iminência de uma guerra contra os latinos, a multidão de plebeus, que era maioria no exército, demonstrava a máxima preguiça em pegar em armas, a menos que suas dívidas fossem devidamente perdoadas (²). A questão das dívidas foi, em tempos da República em Roma, um motor de conflitos entre patrícios e plebeus, ainda que não tenha sido o único. 
Como obrigar essa gente insatisfeita a lutar?
Ainda que odiassem a monarquia, os romanos decidiram criar um novo cargo, o de ditador, com poderes, até certo ponto, semelhantes aos dos monarcas na Antiguidade. A pessoa para isso escolhida tinha autoridade quase ilimitada e podia, inclusive, condenar à morte qualquer desobediente, fosse na cidade ou em campos de batalha. Suas decisões eram inapeláveis e nem mesmo os membros do Senado estavam isentos de prestar-lhe obediência. Restrições? Sim, havia: estava proibido de montar cavalo, a não ser que fosse para ir à guerra (cavalos eram armas poderosas naquele tempo) e somente lhe era permitido fazer gastos públicos que fossem votados e aprovados.
Com tanto poder, um homem talvez chegasse a se considerar rei. Para impedir tamanho pecado, o mandato de um ditador não deveria ir além de seis meses. Era, supunha-se, a garantia contra aventuras monárquicas. Houve, contudo, um sujeito que, em meio a tantas estripulias políticas e militares, ousou aceitar o título de "ditador vitalício". Sim, foi Júlio César, e vocês, leitores, apaixonados por História, sabem muito bem o que, afinal, aconteceu a ele. Nessa ocasião, porém, a República já desfalecia.

(1) Viveu entre o segundo e terceiro século d.C.
(2) História Romana, Livro IV.

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Multa para quem fugia da cadeia

Corria o ano de 1646, e a cadeia pública da vila de São Paulo, na Capitania de São Vicente, estava, literalmente, caindo aos pedaços. Na ata de vereação ocorrida em 31 de dezembro do mesmo ano, há esta menção honesta até demais: "pela cadeia estar como que está caindo". Nada lisonjeiro para um edifício público que deveria primar pela segurança. 
Ano após ano o mau estado da cadeia era assunto de debate na Câmara da vila. Mas a localidade, nesse tempo, era pobre, e quase não havia dinheiro amoedado em circulação (¹). Pouco mais de um mês antes, precisamente em 21 de novembro de 1646, o ouvidor-geral da Capitania de São Vicente, em correição efetuada como mandavam as leis da monarquia portuguesa, tivera uma ideia luminosa: multar quem fugisse da prisão. Sim, leitores, era exatamente o que rezava a Ata da Câmara:
"proveu mais o dito ouvidor-geral que toda a pessoa que fugir da cadeia será executada em quatro mil réis, sem mais citação nem apelação, aplicados para as obras da cadeia, e que nem por isso deixarão de se livrarem da culpa que cometem da fugida." (²)
Bem, quatro mil réis, em tempos em que quase não havia moeda oficial circulando, era um dinheirão. Mas, para cobrar a dita multa, seria necessário recapturar o fugitivo (³), reconduzi-lo à cadeia, na suposição de que não fugisse novamente. Isto, é claro, se tivesse com que pagar. Aí, sim, era mesmo outra história! 

Para reflexão e debate:


Leitores, estou introduzindo nesta postagem uma questão que gostaria de debater com vocês. A ideia é que escrevam o que pensam no espaço para comentários. Assim, podemos conversar um pouco. Que tal? A questão  é: O que poderia ter levado o ouvidor-geral a imaginar que uma multa para fugitivos seria eficaz em São Paulo?

(1) Nada muito diferente do que acontecia em quase todo o Brasil, pela mesma época.
(2) Ata transcrita na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(3) Lembrem-se, leitores, de que a vila de São Paulo ficava lá no alto do planalto paulista, longe das cidades "de verdade", não tinha nenhuma organização policial confiável e. portanto, não era difícil, nesse meio de mato, que um fugitivo pudesse muito bem se ocultar em alguma paragem a certa distância, até que as tempestades contra ele serenassem.

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quarta-feira, 25 de março de 2026

O trenzinho que transportava café

Olhando o embarque do café na pequena estação ferroviária da fazenda
Olhando o embarque do café na pequena estação ferroviária da fazenda (¹)

Carros de bois e carroções descem pela estradinha de chão batido. Sacas e mais sacas de café são descarregadas perto dos trilhos e, sem demora, carreiros tocam os animais no rumo contrário. Não há tempo para muita conversa, o trabalho não pode parar. 
Depois de uma safra muito boa - inverno ameno, nada de geada, chuvas na quantidade certa - o café havia recebido um beneficiamento rústico, a qualidade e tamanho dos grãos fora verificada e agora, depois de ensacado, é conduzido até a estação ferroviária pequenina que se construíra, há alguns anos, nos arredores da fazenda. Ali, cada saca de café é novamente pesada e conferida. Espera-se o trem, que, geralmente pontual, não deve tardar. 
Balança para pesagem do café (2)
Balança em que era conferido
o peso do café (²)
Ouve-se, ao longe, um apito, e outro. Os trabalhadores, cansados e suarentos, já sabem: lá vem a maria-fumaça. O café deve ser alocado nos vagões de carga. Vai para longe, e, depois de vencida a serra, ficará à espera em algum dos enormes depósitos junto ao porto, até que, em navios, atravesse o mar rumo a outras terras. 
Encarapitado na cerca da fazenda, um menino observa, à distância, toda a movimentação dos que trabalham. Que saberá, em seus oito ou nove anos, sobre cotação internacional do café, exportação ou concorrência estrangeira? Só tem olhos para a locomotiva que, tanto quanto os trabalhadores, parece ofegante. É o suor de tantas famílias de imigrantes, como a dele, que faz cada cafeeiro se tingir de frutinhos vermelhos que enriquecem o fazendeiro. Pezinhos descalços, tanto esse menino como seus irmãos, todos crianças, têm ajudado os pais e o avô na parte da lavoura que lhes cabe cultivar. A pouca idade nunca é motivo para descartá-los como mão de obra. Escola? Ah, sim, quem sabe no ano que vem...
Com o café nos vagões e mais lenha na locomotiva, o trem se espreguiça para partir. Um apito longo e lá se vai, lentamente, a princípio, e então ganha força. Apertando os olhos, o menino segue a maria-fumaça até que o trenzinho mergulha no horizonte de cafezais. Quando for grande, promete a si mesmo, vai ser maquinista. 

(1) Imagem gerada por inteligência artificial.
(2) Pertence ao acervo do Museu Ferroviário de Jaguariúna.


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Sobre a origem da propriedade privada entre os antigos romanos

Não são poucas as controvérsias sobre as origens da propriedade privada neste planetinha em que nós, humanos, vivemos, sem outro lugar para escolher. Quem teria sido o primeiro a colocar um arremedo de cerca ao redor de uma pastagem ou de um terreno fértil para cultivo e dizer: "Isto é meu"? Ou quem teria se apropriado de parte de um rebanho de cabras ou ovelhas e alegado ser o único dono dos animais? 
Não sabemos. É mais provável que o fenômeno tenha ocorrido em diferentes localidades (quase) simultaneamente. Mais intrigante é que essa ideia ganhasse terreno (desculpem o trocadilho), e que a maioria dos sem propriedade engolisse a exclusividade para os poucos que se arrogavam donos de alguma coisa. Não se pode descartar o uso de argumentos relacionados à força física, acrescida de paus, pedras e uma prole numerosa, capaz de defender a autodeclarada propriedade particular de um patriarca. Mais sutil, e não menos persuasivo, poderia ser o argumento de que o direito ao uso exclusivo da terra, por exemplo, seria derivado da vontade dos deuses, em especial quando vindo de alguém que ostentava status sacerdotal e, portanto, capaz de estabelecer comunicação com supostas divindades. 
Quando Roma já era República há séculos, Cícero (¹), político, jurista e orador famoso (²), argumentou que, segundo a natureza, não existia absolutamente nada no mundo que merecesse o conceito de propriedade privada. Contudo, haveria, ainda de acordo com Cícero, algumas razões para explicar o direito de alguns (minoria), em detrimento de outros (quase sempre a maioria): antiguidade da ocupação por um grupo ou família de um campo anteriormente desocupado, ou a ocupação de terras mediante conquista em campo de batalha, além de leis que legitimavam a propriedade privada, dentre outros fatores (³). Cícero não devia desconhecer que, no passado, o patriciado romano fora muito eficiente em ostentar sua pretensa origem vinculada aos semideuses fundadores de Roma para justificar a posse de terras, que, por esse motivo, era negada aos plebeus. Nada surpreendente, portanto, que, em se tratando de Roma, a reforma agrária estivesse, quase sempre, na pauta dos que, em um momento ou outro, por ambições políticas, pretenderam obter apoio popular para dominar a cidade e o mundo. 

(1) Marco Túlio Cícero, 106 a.C. - 43 a.C.
(2) Também devotado à filosofia, em particular aquela que provinha da Grécia. 
(3) Cf. De Officiis, Livro I. 

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O povo queria pão

Então, leitores, imaginaram que eu iria tratar daquela famosa anedota relacionada à Revolução Francesa, não é? 
Mas não, não mesmo. A coisa aconteceu na vila de São Paulo, nos já distantes dias coloniais. Com mais exatidão, em 1638, tempo em que expedições bandeirantes ganhavam força e as autoridades locais faziam vista grossa para quem ia ao sertão capturar indígenas para escravização, ainda que, hipocritamente, sempre se procurasse dar a impressão de que, nessa matéria, as determinações reais eram cumpridas à risca. 
Em vereação do dia 11 de setembro, seguindo o procedimento de rotina, os oficiais da Câmara de São Paulo ouviram o que o procurador tinha a dizer, e o escrivão registrou:
"[...] pelo procurador [...] foi requerido aos oficiais da Câmara que este povo carecia de pão, mantimento necessário, pelo que lhes requeria mandassem pelo alcaide notificar a quem tivesse trigo, desse pão a este povo, o que visto pelos oficiais da Câmara, disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila [...]." (*)
Alguns pontos devem ser esclarecidos. Vejamos:

1. Por que faltava trigo
 
Muitos fazendeiros tiveram, em São Paulo, o cultivo de trigo como parte de suas lavouras para suprir as necessidades da própria família, e, havendo excedente, para venda. Foi assim no Século XVI e em parte do Século XVII. Gradualmente, porém, a produção de trigo sofreu declínio, por razões que já detalhei em uma postagem publicada neste blog em 16 de outubro de 2012, cujo título é Por que se deixou de cultivar trigo em São Paulo. Resumindo a questão, era mais fácil obter boas safras de milho e mandioca, os proprietários de moinhos cobravam taxas altas demais para moer o trigo e os comerciantes de Santos, que distribuíam para outras capitanias o trigo paulista, pareciam estar sempre de acordo em praticar os preços mais baixos possíveis ao comprar o cereal, desestimulando, assim, a produção para venda. Há conjecturas, também, de que mudanças no clima podem ter tornado a triticultura menos vantajosa.

2. A falta de trigo talvez fosse expediente de comerciantes locais para elevar o preço

Acostumados ao excelente pão de trigo, os moradores de São Paulo foram dar queixa à Câmara quanto à falta do produto no comércio local. Não é improvável que alguns comerciantes dispusessem de trigo para vender, mas que o ocultassem para que, alegando sua falta, pudessem elevar os preços (hipótese perfeitamente compatível com o que se fazia em São Paulo, na época, em relação a outros produtos - carne bovina, por exemplo).

3. A ideia era forçar quem tinha trigo a vendê-lo

Quando o procurador requeria que "quem tivesse trigo, desse pão a este povo", não estava, evidentemente, sugerindo distribuição gratuita. Era apenas a linguagem corrente do tempo para significar que não se pusessem obstáculos à venda.

4. O problema seria sanado apenas se fosse conveniente a quem detinha o mando na vila

Finalmente, segundo a Ata, os oficiais da Câmara "disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila". De novo, formalidade na linguagem, segundo o costume. É concebível que, já não tivessem conhecimento do problema? As diligências seriam feitas se houvesse, de fato, interesse na questão. Caso contrário, eram incluídas na Ata, e nada mais poderia acontecer. Não se necessitam muitos esforços para conjecturar quanto aos interesses maléficos e pouco altruístas que estariam ocultos nesse sumiço do trigo e, por consequência, do pão, no comércio incipiente de São Paulo no Século XVII.

(*) O trecho citado da Ata da Câmara de São Paulo correspondente à vereação de 11 de setembro de 1638 foi aqui transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Senhores de engenho no inferno

A casa das fornalhas, instalação existente nos engenhos de açúcar do Brasil Colonial, foi frequentemente comparada ao inferno, conforme se pode ver pelos escritos de vários autores da época - Antonil, entre eles. Antes, porém, que Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas fosse publicado em 1711, outro autor colonial teve a ideia de comparar as fornalhas ao que, na imaginação popular, deveria ser o inferno:
"Debaixo da casa das caldeiras estão as fornalhas, que com os negros metedores de fogo parecem vivas pinturas do inferno [...]." (¹)
Quem escreveu tal coisa? Frei Antônio do Rosário, franciscano, nascido no Reino e falecido no Brasil no começo do Século XVIII, que publicou um pequeno livro em Lisboa com o título de Frutas do Brasil. Nada de descrições botânicas: a obra tinha caráter religioso, marcada por reflexões alegóricas muito ao gosto da época. 
Contudo, frei Antônio do Rosário não se limitou a uma comparação que, pela frequência com que era feita, devia ser voz corrente em seus dias. Ciente da vida miserável a que eram submetidos os escravizados no Brasil, não economizou palavras para advertir senhores de engenho do que os aguardava quando tivessem de prestar contas de seus atos no Juízo Final. O trecho é um tanto longo e talvez mais erudito do que a maioria dos leitores de hoje é capaz de apreciar, mas vale a menção. Portanto, vamos a ele:
"[...] O açude do engenho do Juízo universal será de fogo, para que se saiba que geralmente o rigor da divina justiça explicada pelo fogo será maior do que foi no princípio do mundo; mas particularmente será de fogo, e não de água, o açude do engenho do Juízo, para castigar os que moem com sangue nos seus engenhos; aos que moendo com a água, ou com as bestas, mais moem com o sangue dos escravos, que com a água dos açudes [...]." (²) 
Há mais:
"[...] Os engenhos em que trabalham os escravos famintos, despidos e faltos de todo o alimento d'alma e corpo, ainda que moam com água, moem com o sangue que desumanamente lhes tiram os senhores por tormentos, que mais parecem martírios de tiranos da fé, do que castigos de senhores católicos: mas lá está o Vale de Josafá (³), o Vale do corte, In valle concisionis, onde se há de armar o engenho do Juízo, e aí serão bem moídos e remoídos com fogo os senhores de engenho, que moem como tiranos, mais com sangue que com água [...]." (⁴) 
Reafirmo que o pequeno livro de Frei Antônio do Rosário foi publicado no começo do Século XVIII, quando senhores de engenho eram, ainda, vistos como figuras cuja autoridade e prestígio derivavam do poder econômico. Poucos teriam a audácia de enfrentá-los tão abertamente, e muitos, até mesmo entre o clero, eram os que fechavam os olhos para a brutal exploração da força de trabalho dos cativos. Sim, é verdade que frei Antônio do Rosário não travou combate contra a escravidão como sistema de trabalho, opondo-se somente à brutalidade a que eram submetidos os escravizados. Mesmo assim, sua denúncia vigorosa foi um ato de coragem.  

(1) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Frutas do Brasil. Lisboa: Oficina de Antonio Pedrozo Galram, 1702, p. 95.  
(2) Ibid., p. 89.
(3) Local mencionado na Bíblia no livro do profeta Joel, capítulo 3, versículos 12 e 14, e associado à ideia do juízo divino: "Consurgant, et ascendant gentes in vallem Josaphat, quia ibi sedebo ut judicem omnes gentes in circuito. [...] Populi, populi in valle concisionis, quia juxta este dies Domini in valle concisionis."
(4) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Op. cit., pp. 90 e 91.

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