terça-feira, 15 de agosto de 2017

O Sarampo Matou Muitos Indígenas nos Tempos Coloniais

É sabido que os colonizadores que vieram ao Brasil trouxeram, involuntariamente (¹), doenças que, não sendo sempre letais entre europeus, mostraram-se desastrosas para os indígenas, levando à morte um número incalculável deles. Umas dessas doenças foi o sarampo.
Em uma biografia de caráter encomiástico, o jesuíta Manuel da Fonseca, referindo-se ao tempo em que viveu o padre Belchior de Pontes (²), observou, ao relatar uma visita feita por esse religioso a certa família que tinha muitos escravos ameríndios:
"Foi tão rigoroso em um daqueles anos o sarampo (enfermidade a que os índios de ordinário resistem pouco), que depois de ter acabado a muitos daquela casa, continuava com tal fúria, que indo a ela o padre Pontes, achou oito enfermos." (³)
Na mesma obra, mas tratando de ocasião posterior, Manuel da Fonseca escreveu:
"Deu o sarampo em casa de Guilherme Vicente, vizinho de Itapycyryca (⁴), e com tal fúria, que escapou só ele e sua mulher, pelo terem já tido em outro tempo." (⁵)
Aliado à gripe, à varíola e a outras doenças mais, o sarampo explica a alta taxa de mortalidade entre indígenas nessa época, em particular no caso dos escravizados, que, devido a tal circunstância, estavam mais expostos ao contato com os colonizadores. Montoya (⁶) estimou que uma das bandeiras de apresamento que esteve nas missões do Guayrá e Tape teria levado uns sessenta mil índios - número altíssimo, que não encontra correspondente nos registros de escravizados em São Paulo. Mesmo considerando que os ameríndios aprisionados por paulistas eram também vendidos em outras praças (⁷), é forçoso admitir que as doenças tiveram papel preponderante em eliminar etnias nativas da América, ainda que não tenham sido, para isso, o único fator.

(1) Ao menos nesse tempo; nos séculos posteriores houve casos em que, intencionalmente, doenças foram introduzidas entre indígenas, com a finalidade de despovoar regiões pretendidas para expansão agrícola.
(2) 1644 - 1719.
(3) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil
Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, pp. 128 e 129
Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo
(4) O padre Manuel da Fonseca queria dizer "morador de Itapecerica".
(5) FONSECA, Manoel da, S.J. Op. cit., p. 178
(6) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus
Madrid: Imprenta del Reyno, 1639
(7) No Rio de Janeiro, por exemplo.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Travessuras dos Deuses Gregos

Deuses greco-romanos não eram incontestáveis nem na Antiguidade


Mesmo quando a antiga civilização grega estava em boa forma, já havia críticas às crenças religiosas populares. Platão, em sua República idealmente configurada, propunha que de modo nenhum a juventude devia ser induzida a crer em deuses como Zeus e Hera, que não podiam ser apresentados como paradigmas de autocontrole e moralidade. O raciocínio de Platão era simples: quem pretendia formar bons cidadãos não poderia ensinar a devoção a deuses que não passavam de maus exemplos. 
Estaria o filósofo exagerando? Vai aqui uma pequena coleção de travessuras, talvez pouco conhecidas, que mostram o que deuses gregos eram capazes de aprontar:
  • Um caso de teofagia: segundo a Teogonia de Hesíodo, Zeus Olímpico (ele mesmo!) devorou Métis, sua primeira esposa (¹), que era a personalidade mais sábia que havia, tanto entre os deuses como entre os humanos.
  • Mais Hesíodo: Zeus Olímpico era pai de uma infinidade de seres; entre eles estavam as nove musas, cuja mãe era Mnemósine. Oh! Acontece que Zeus era casado com Hera, e sua filharada tinha uma variedade de mães, e não apenas deusas: vez por outra Zeus se apaixonava por uma mortal... E então nascia um semideus.
  • Ainda segundo Hesíodo, Urano foi emasculado por seu filho Cronos (que depois seria pai de Zeus). Que estirpe!
  • Palas Atena (até ela), enciumada pelos belos trabalhos de agulha feitos por uma mortal de nome Aracne, tão bons que se equiparavam aos seus (se é que não levavam vantagem), teria presenteado a infeliz bordadeira humana com a capacidade de tecer e tecer, eternamente - transformada em uma aranha (²), é claro.
  • Vingança desproporcional: Acteon, um caçador, viu, um dia, por acaso, a deusa Diana (também caçadora), que saía do banho em um riacho. Irritadíssima, Diana transformou o indiscreto caçador em um cervo que (nem é preciso lembrar), foi logo perseguido e estraçalhado pelos cães de caça que acompanhavam a deusa.
  • Para escapar do assédio de Apolo, Dafne, uma ninfa que pastoreava ovelhas, viu-se transformada em um loureiro. 
  • Mais Apolo, e mais vingança desproporcional: Furioso com Marsias, um flautista que ousou desafiá-lo em um torneio de música, o deus que conduzia a carruagem do sol ordenou que seu oponente, amarrado a uma árvore, fosse esfolado vivo. Os berros de Marsias foram suficientes para comover as outras divindades, que resolveram transformar o infeliz torturado em um rio, com águas compostas de lágrimas e sangue.
Vaso grego com decoração retratando
o nascimento de Palas Atena (⁴)
Algumas dessas estripulias parecem, hoje, até poéticas, mas, na Antiguidade, nem sempre eram vistas com tanta benevolência. No final do Século II, em face da perseguição imposta aos cristãos pelo Império Romano, Tertuliano escreveu na Apologia endereçada ao Senado:
"Vossa justiça é uma ofensa aos céus, porque, ao condenar ladrões, assume que há deuses que deveriam ser enforcados." (³)
Indo mais longe na argumentação, chegou a sugerir que seria mais sensato ter homens virtuosos na conta de divindades, e não deuses cheios de defeitos de caráter, como eram aqueles do panteão greco-romano:
"Há, porventura, entre vossos deuses, algum que seja mais sábio que Sócrates, ou mais justo que Aristides, melhor soldado que Temístocles, melhor comandante que Alexandre, de mais sucesso que Polícrates ou mais eloquente que Demóstenes? Há entre os eleitos para deuses alguém mais sábio que Catão, mais justo e melhor general que Cipião, ou melhor comandante que Pompeu, ou mais feliz que Sila, ou melhor orador que Túlio? Se a divindade é questão de mérito, melhor seria ser atribuída a eles, do que a Júpiter ou Saturno." (³)
Portanto, leitores, tudo indica que, quanto ao conceito que faziam dos deuses venerados entre o povo, Tertuliano e Platão estavam de acordo, ainda que, quanto ao tempo, tenham vivido separados por vários séculos.

(1) As lendas da Antiguidade divergiam quanto ao modo como isso ocorreu, mas uma tradição corrente era de que Métis, transformada em água, fora engolida por Zeus.
(2) Havia outras explicações para a origem dos aracnídeos, mas esta é perfeitamente compatível com o caráter de Palas Atena, ciumenta e vingativa como poucos.
(3) As citações da Apologia de Tertuliano que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) BIRCH, Samuel History of Pottery vol. 1
London: John Murray, 1858

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Uma Cerimônia Feudal na Selva da América do Sul

A homenagem era uma cerimônia típica do feudalismo. Por meio dela é que formalmente eram reconhecidos os laços de suserania e vassalagem. Envolvia, de um lado, a obrigação de proteção (por parte do suserano) e, de outro, vários deveres, dentre os quais, o do serviço militar (por parte daquele que se reconhecia como vassalo). Não é difícil perceber que a homenagem fazia sentido dentro da sociedade medieval, em que as guerras eram frequentes e os exércitos, constituídos por gente da nobreza, não eram e nem podiam ser muito numerosos.
Agora, leitores, respirem fundo: é que iremos encontrar uma autêntica cerimônia de homenagem no ano de 1659, não na Europa, mas no Brasil. O autor da ideia foi ninguém menos que o padre Antônio Vieira - sim, o jesuíta famoso por seus sermões. Está na hora de uma explicação.
Antônio Vieira, que exercia funções diplomáticas para o monarca português, um dia entalou na cabeça que queria vir ao Brasil para trabalhar na catequese de indígenas. Veio, e logo percebeu que seu maior obstáculo eram os colonizadores, que tinham, sim, grande interesse nos índios, mas para escravizá-los. O jesuíta não perdeu tempo, e obteve do rei uma ordem pela qual, ao menos oficialmente, o trabalho compulsório de indígenas ficaria restrito àqueles capturados em "guerra justa". Os demais deviam ser catequizados pelos missionários, sob as ordens do próprio Vieira.
Sucede que, há tempos, portugueses e vários grupos indígenas conhecidos como nheengaíbas viviam às turras, fazendo estragos de parte a parte, sempre que era possível. Pôs-se o padre Vieira a negociar a paz, e, surpreendentemente, os indígenas confiaram nele e concordaram em depor as armas. 
Mas era preciso dar um aspecto oficial ao acordo. Vieira achava que os índios, atribuindo grande importância às cerimônias pomposas, seriam mais fiéis à palavra empenhada se um juramento fosse feito de forma solene. Que fazer? Organizou-se uma homenagem, com tanto luxo quanto as circunstâncias permitiam, na presença de chefes indígenas já catequizados, de portugueses e dos chefes dos nheengaíbas. O melhor é deixar que o próprio Antônio Vieira conte o que aconteceu, tendo por cenário uma pequena igreja construída pelos índios:
"Ao lado direito da igreja estavam os principais (¹) das nações cristãs com os melhores vestidos que tinham, mas sem mais armas que as suas espadas. Da outra parte estavam os principais gentios (²) despidos e empenados ao uso bárbaro, com seus arcos e flechas na mãos; e entre uns e outros os portugueses. Logo disse missa o padre Antônio Vieira, em um altar ricamente ornado (...), à qual (...) assistiam os gentios de joelhos (...)." (³)
Depois da missa, o mesmo Vieira perguntou aos nheengaíbas se era de sua vontade que viessem a ser vassalos do rei de Portugal. A pergunta foi respondida afirmativamente, e, ato contínuo, cada chefe, ajoelhado e pondo as mãos entre as do padre, proferiu o seguinte juramento:
"Eu Fulano, principal de tal nação, em meu nome e de todos os meus súditos e descendentes, prometo a Deus e a El-Rei de Portugal a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, e de ser (como já sou de hoje em diante) vassalo de Sua Majestade, e de ter perpétua paz com os portugueses, sendo amigo de todos os seus amigos e inimigo de todos os seus inimigos, e me obrigo de assim o guardar inteiramente para sempre." (⁴)
Feito o juramento, cada chefe beijava a mão ao padre e era por ele abençoado. Desnecessário é dizer que tudo se fazia com a assistência de intérpretes. Abraços e festas completaram o evento.
Convenhamos, leitores, que a cena descrita por Vieira é digna de um exercício de imaginação. Tentem, portanto, visualizar toda essa pantomima medieval em meio à selva amazônica. O rei, a quem se acrescentavam tantos vassalos, de tudo foi informado por carta datada de 11 de fevereiro de 1660.

(1) Caciques ou chefes indígenas.
(2) Chefes dos nheengaíbas.
(3) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2
Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 34 e 35
(4) Ib., p. 37

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Terremotos no Império Romano

Parte expressiva do território até onde se estendeu o Império Romano estava em áreas sujeitas a tremores de terra mais ou menos frequentes. Não é surpresa, portanto, que, nos registros feitos por autores da Antiguidade, os terremotos fossem seguidamente mencionados.
Tácito (¹), por exemplo, citou vários incidentes relativos a tremores: um que atingiu Pompeia alguns anos antes que a cidade fosse soterrada pelo Vesúvio (²), uma sucessão de tremores sentidos em Roma no ano 52 d.C., provocando o desabamento de casas (³), e um grande terremoto que, nos dias de Tibério, arruinou doze cidades da Ásia Menor (⁴), entre outros.  
Plínio, o Velho (⁵), em extensa dissertação no Livro II de sua Naturalis Historia, afirmou que "os babilônios achavam que terremotos e rachaduras, como tudo o mais, eram consequência da ação das estrelas." (⁶) Sensatamente cético, Plínio procurava causas naturais para os tremores de terra, ainda que nada soubesse sobre a existência de placas tectônicas. Já entendia, porém, que alguns terremotos são seguidos por tsunamis (⁷): "Tremores de terra são seguidos por inundações que vêm do mar" (⁸), escreveu.
Mais enfático que Tácito em relação ao mesmo incidente, Plínio entendia que o terremoto ocorrido nos dias de Tibério fora o maior de que, até então, se tivera notícia:
"O maior tremor de terra de que os mortais têm memória aconteceu durante o principado de Tibério César, quando doze cidades da Ásia vieram ao chão em uma noite (...)." (⁹)
É claro que, para os supersticiosos romanos, tremores de terra, assim como outros fenômenos naturais, eram vistos como prodígios, manifestações da ira dos deuses que deviam ser conjuradas com sacrifícios. Tertuliano (¹º) referiu, na Apologia, que tremores estavam entre os pretextos que conduziam à perseguição de cristãos no Império:
"Se o Tibre alcança os muros da cidade, ou se o Nilo não transborda o suficiente para as plantações, se o céu, sem nuvens, não traz chuva, se há tremor de terra ou se ocorre escassez de trigo, ou se grassa a peste, o povo não tarda a gritar para que joguem os cristãos ao leão."
Voltemos a Tácito. Quando um terremoto de maiores proporções ocorria dentro dos limites do Império Romano, era usual que recursos públicos fossem oferecidos - e aceitos - para reparar os danos materiais. Bem, assim era na maioria dos casos. Prodígio, mesmo (¹¹), a ponto de merecer registro no Livro XIV dos Annales, ocorreu no ano 814 da fundação de Roma (¹²): "Naquele ano, a ilustre cidade de Laodiceia, na Ásia, que havia sido arrasada por um terremoto, foi reconstruída com seus próprios recursos, sem receber qualquer auxílio de nossa parte [de Roma]." (¹³) Pelo visto, esse fato foi novidade até para Tácito, tão acostumado às manhas de seus contemporâneos.

(1) 47 - 120 d.C.
(2) TÁCITO, Annales, Livro XV.
(3) Ib., Livro XII.
(4) Ib., Livro II
(5) 23 - 79 d.C.
(6) PLÍNIO, Naturalis Historia, Livro II
(7) Ainda que a palavra "tsunami" lhe fosse, como é óbvio, desconhecida.
(8) PLÍNIO, Op. cit., Livro II
(9) Ib. 
(10) 160 - 220 d.C.
(11) Até para os critérios do Século XXI.
(12) 61 d.C.
(13) Todas as citações das obras de Plínio, Tácito e Tertuliano que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A Inspeção das Marmeladas

O que seria motivo de preocupação entre os administradores da vila de São Paulo de Piratininga, lá pela última década do Século XVI? As atas da Câmara de São Paulo mostram, entre os assuntos recorrentes, a necessidade de zelar por cercas e muros (como prevenção contra ataques de indígenas) e o cuidado com a conservação dos caminhos que levavam à vila - em um documento datado de 1584, cuja autoria é atribuída a Anchieta, o "Caminho do Mar", que ligava o planalto à vila litorânea de Santos, é descrito como um "dos mais trabalhosos caminhos que (...) há em muita parte do mundo" (¹). Além disso, eram frequentes os problemas com a prática de preços exorbitantes no incipiente comércio local; reclamações quanto a pesos e medidas desonestos não eram nenhuma raridade. 
Então...
Então, na ata da Câmara de São Paulo, relativa ao dia 22 de fevereiro de 1597, encontra-se o delicioso registro de uma ordem para que todos os que faziam marmeladas comprovassem a qualidade do produto, "para se saberem os que as fazem boas ou más". No melhor estilo da época, e já prevendo desobediência, a ordem vinha acompanhada da seguinte observação: "(...) com pena de perderem as marmeladas para o conselho, cativos e acusador, e mil réis de pena (...)."
O zeloso escrivão (naquele ano era Belchior da Costa) tratou de assinalar, também, no final dos apontamentos relativos àquele dia: "Foi apregoada a postura (...) das caixas de marmelada". Ou seja, as autoridades devem ter feito "passar bando", conforme o uso costumeiro. Fico imaginando o teor da proclamação que poderia ser lida pelas ruas, acompanhada por toque de caixa...
Marmelo (⁶)
Não pensem, leitores, que as marmeladas eram questão de pouca importância! Para a insolente vilazinha que era São Paulo, estabelecida serra acima (quando quase todas as vilas eram fundadas no litoral), cuja população obedecia às ordens vindas do Reino apenas quando queria (porque não havia quem a obrigasse a outra coisa), que aprisionava índios para escravização e desafiava os missionários jesuítas, fazendo pouco-caso de referências sutis ou explícitas à Inquisição - sim, para os moradores de São Paulo, as marmeladas eram importantes economicamente. Dez anos antes da ordem da Câmara para inspeção dos tais doces, Gabriel Soares, senhor de engenho na Bahia, observou, em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, como parte de uma lista do que se produzia em São Paulo: "os marmelos (²) são tantos que os fazem de conservas, e tanta marmelada que a levam a vender por as outras capitanias" (³). 
Quando não havia refrigeração, alimentos que resistiam por longo tempo, como peixe seco, biscoitos, feijão, farinha de mandioca e marmeladas (geralmente embaladas em caixas de madeira), eram bastante valorizados como suprimento para quem viajava, fosse por mar ou por terra (⁴). A produção de marmeladas de São Paulo era suficiente para ser exportada para outras capitanias, daí a relevância da ordem dada pelos vereadores (⁵), juízes e procurador naquele distante fevereiro de 1597. Não era implicância ou rabugice de quem mandava. Sabendo o quanto as fraudes eram pretexto de rusgas na jovem povoação, havia sabedoria em zelar pela reputação das marmeladas, ainda que hoje isto pareça até ridículo.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 320
(2) O marmeleiro não é nativo do Brasil; entende-se, portanto, que, ainda no Século XVI, seu cultivo já estava perfeitamente adaptado às condições do Planalto Paulista. Mais tarde, doces feitos com outras frutas, pelo mesmo processo da marmelada, receberiam, genericamente, também esse nome.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 99
(4) A monção do governador Rodrigo César de Meneses, que foi a Cuiabá em 1726, levava, entre diversos outros itens, nada menos que 144 caixas de marmelada.
(5) Nesse tempo, eram só dois: Antônio de Proença e Balthazar de Godoy.
(6) STURM, Jacob Deutschlands Flora in Abbildungen nach der Natur
Nürnberg: 1796
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

A Escrita Já Era Muito Importante no Tempo de Hamurabi

A escrita era muito importante na Mesopotâmia durante o Século XVIII a.C.; tal fato pode ser comprovado em vários trechos do Código de Hamurabi, que é dessa época. Vejamos, então, leitores, alguns exemplos:
  • Juízes deviam lavrar sentenças escritas - é o que se depreende da lei que ordenava o afastamento definitivo do juiz que pretendesse mudar uma decisão, por ter cometido um erro ou por qualquer outro motivo (¹);
  • Um homem que desse um presente valioso à mulher com quem era casado (uma área de cultivo ou outra propriedade qualquer), deveria entregar a ela um documento escrito, no qual houvesse o seu selo (²), de modo a assegurar que, morrendo ele antes da mulher, os filhos não pudessem reclamar essa propriedade como parte da herança;
  • Um procedimento semelhante era recomendado no caso de um pai que fizesse, em vida, doação de uma propriedade a um filho favorito, para assegurar que, após a morte do pai, esse filho ficasse com o presente recebido e, além disso, tivesse sua quota na herança, junto com os irmãos;
  • Um caso muito interessante ocorria quando um homem tinha uma esposa e, além dela, tinha filhos com uma escrava: a lei determinava que, morrendo o marido, a esposa teria em exclusividade seu dote e/ou bens que houvesse recebido como um presente do marido, devidamente registrados e selados em uma placa de argila, devendo esses bens, em caso de morte também da mulher, passar aos filhos que ela tivesse, e nunca aos filhos da escrava (³);
  • A sacerdotisa de um deus, não sendo casada, poderia receber de seu pai algum patrimônio como dote, desde que se desse a ela um documento escrito e selado, de modo que, morrendo o pai, mediante esse documento ela pudesse fazer de sua herança o que quisesse, sem interferência dos irmãos.
Tablete de argila com inscrição cuneiforme
A vida na antiga Mesopotâmia era complexa - depois do que acabamos de ver, quem ainda iria falar na "vida simples" dos tempos antigos? Cabe explicar que a redação dos documentos escritos ficava, como regra, a cargo de escribas profissionais, que compunham textos de acordo com fórmulas mais ou menos previsíveis (⁴).
Finalmente, a mais conclusiva das evidências quanto à relevância da escrita nesses tempos remotos pode ser esta: Se o próprio Código de Hamurabi não fosse registrado através da escrita, não teria chegado até nós, e não teríamos conhecimento dele, a não ser, talvez, através de eventuais referências indiretas.

(1) A mesma lei previa que, sendo uma pena de multa atribuída pelo juiz, em caso de erro o dito magistrado é que seria multado em nada menos que doze vezes o valor que determinara.
(2) Uma espécie de carimbo pessoal, facilmente utilizável em placas de argila nas quais se registrava a escrita.
(3) No entanto, os filhos da escrava jamais poderiam ser escravizados pelos meios-irmãos após a morte do pai.
(4) Já havia escolas nesse tempo, mas não se pode considerar que algum tipo de "alfabetização" fosse fenômeno generalizado.

terça-feira, 25 de julho de 2017

A Cobrança dos Dízimos Pela Administração Portuguesa no Brasil Colonial

Dízimos, leitores, eram cobrados da população colonial como se faria em relação a um imposto qualquer. Funcionava assim:
  • Era o Estado português que cobrava os dízimos, ficando encarregado, por isso, de prover tudo o que se relacionava ao sustento da Igreja e do clero;
  • Como regra geral, em lugar de fazê-lo diretamente, o governo lusitano arrendava a cobrança a alguém que pagava um valor antecipado (um "contratador dos dízimos"), e que, por isso, ficava com o direito à arrecadação junto aos "contribuintes", com todas as consequências daí decorrentes, que os leitores não terão dificuldade em imaginar;
  • Também como regra geral, o dízimo era arrecadado em espécie (até porque, nos dois primeiros séculos da colonização, quase não havia dinheiro amoedado no Brasil).
A questão intrigante que se levanta é esta: por que o Estado, e não a Igreja, fazia a cobrança dos dízimos? De acordo com João Manuel Pereira da Silva, "cabendo aos reis de Portugal, pela bula pontifícia de 1551, na qualidade de grão-mestres das três ordens militares de Cristo, Avis e Santiago, os privilégios de inteira jurisdição espiritual e eclesiástica sobre as suas conquistas, chamou a si a Coroa portuguesa o direito à cobrança do imposto do dízimo nas colônias, o qual no Reino e em vários Estados católicos da Europa, pertencia ao clero, formando a base da sua subsistência e da manutenção do culto divino (...)." (¹)
O pagamento dos dízimos era compulsório e pressupunha que os colonizadores teriam direito a receber assistência religiosa. Esta, porém, não estava disponível em grande parte do Brasil - não foram poucos os autores que referiram o fato de haver localidades em que jamais pisava um padre, não ocorrendo, pois, sequer celebração de missa, é preciso frisar, em tempos nos quais se entendia que morrer sem os sacramentos era uma terrível maldição.
Tudo isso considerado, veremos, agora, alguns casos interessantes, relativos à cobrança dos dízimos no Brasil. Referindo-se à produção de açúcar nos engenhos coloniais, Antonil observou:
"Tira-se também o dízimo, que se deve a Deus, que vem a ser de dez, um; e ele fica no engenho e põe-se nas caixas, que antecipadamente manda o contratador dos dízimos ao caixeiro vazias, e dele as torna a cobrar cheias." (²)
Análoga era a situação quanto ao tabaco que se produzia e exportava:
"Beneficiado e enrolado o tabaco, e pago o seu dízimo a Deus (...), como consta do arrendamento do dízimo (...), vem pagando seis carretos e fretes para a Cidade da Bahia, até se meter em uma sua própria alfândega, aonde se despacham para Lisboa, um ano por outro, de vinte e cinco mil rolos para cima (...)." (³)
Nem mesmo a população indígena ficava isenta do pagamento dos dízimos. Neste caso, porém, foi proposto um sistema de cobrança per capita, e não percentual, conforme se vê em documento citado por Varnhagen na segunda edição da História Geral do Brasil"Como, entre os índios, não se podem bem averiguar estes dízimos (...), visto não saberem contar até dez, ordenaram os predecessores de Vossa Majestade que pagassem tais dízimos por encabeçamento (...)." (⁴) Esse documento, de autoria de Bento Maciel Parente, é datado da primeira metade do Século XVII.
Finalmente, leitores, iremos considerar um caso absolutamente escabroso de pagamento de dízimos, ocorrido quando paulistas, havendo atacado missões jesuíticas, repassaram a dois clérigos que os acompanhavam como capelães (!!!) uma parte dos indígenas aprisionados para escravização. Foi o que relatou o missionário Antonio Ruiz de Montoya:
"O número de pessoas que levaram não se sabe (⁵), algo se rastreará pelo dízimo que pagaram à Igreja: deram ao religioso, como sua quota, quinhentas pessoas, de modo semelhante ao pecuarista que paga o dízimo de ovelhas ou vacas; ao clérigo entregaram duzentos [índios]." (⁶)
Como já foi dito, o dízimo, no Brasil Colonial, devia ser pago à administração portuguesa, e não diretamente à Igreja; neste caso, porém, tão ilegal quanto a expedição de apresamento, foi a entrega de escravizados aos dois capelães, a não ser por um detalhe: as missões atacadas e destruídas ficavam em território colonial espanhol, e não lusitano.

(1) SILVA, João Manuel Pereira da História da Fundação do Império Brasileiro Tomo I
Rio de Janeiro: Garnier, 1864, p. 160
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio) Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas
Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 90
(3) Ib., p. 120
(4) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 1, 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 493
(5) Quando atacavam as missões ou reduções, era comum que bandeirantes matassem a todos que opunham resistência; além disso, muitos indígenas aprisionados morriam no caminho até São Paulo ou nos primeiros tempos de escravidão. É por isso que Montoya não sabia dizer com exatidão quantos índios haviam sido levados.
(6) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus
Madrid: Imprenta del Reyno, 1639
O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.