terça-feira, 17 de outubro de 2017

Quem Nunca Deveria Pôr os Pés no Brasil

Aventureiros sempre existiram, mas há que se reconhecer o fato de que era difícil arranjar bons colonizadores que viessem ao Brasil. Não estamos falando das hordas de condenados a degredo que, malgrado os protestos de administradores e missionários jesuítas, eram periodicamente despejados nas povoações litorâneas que começavam a nascer, já que esse tipo de gente não vinha porque queria, ainda que não poucos, depois de cumprida a pena, decidissem que era melhor ficar. A dificuldade estava em trazer trabalhadores qualificados, artesãos de vários ofícios ou que soubessem cultivar a terra. O medo do desconhecido e os boatos fantasmagóricos espalhados na Europa eram determinantes para intimidar eventuais interessados em tentar a vida no Continente há pouco "descoberto".
Propaganda de massa, no sentido que hoje conhecemos, não existia, mas alguns autores escreveram obras cujo propósito era convencer portugueses quanto à excelência da vida no Brasil. Pero de Magalhães Gândavo, por exemplo, afirmou, logo no início de seu Tratado da Terra do Brasil (¹):
"(...) Achei que não se podia de um fraco homem esperar maior serviço (ainda que tal não pareça) que lançar mão desta informação da terra do Brasil (coisa que até agora não empreendeu pessoa alguma) (²) para que nestes reinos se divulgue sua fertilidade e provoque as muitas pessoas pobres que se vão viver a esta província, que nisso consiste a felicidade e aumento dela." (³)
Ora, leitores, o livro de Gândavo só foi publicado muito tempo depois de sua morte. Ainda assim, dificilmente seria útil para convencer alguém a vir ao Brasil, porque o autor não economizou palavras em descrever ataques indígenas e cenas de antropofagia, sem falar nos animais, grandes e pequenos, mas quase sempre perigosos, que viviam à espreita dos incautos...
Quem resolvia correr o risco precisava de conselhos - é o que devia pensar o autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, um livro que fez muito sucesso no Século XVIII, recomendando a necessidade de adaptação ao modo de vida no Brasil: "É mais razão acomodar-se ao uso da terra, que pretender e querer trazer aos mais o costume de sua pátria." (⁴) Não parece sensato?
No começo do Século XVII franceses tentaram estabelecer uma colônia no Maranhão e, para a catequese dos indígenas, trouxeram alguns religiosos capuchinhos. Um deles, o padre Yves d'Évreux, escreveu um livrinho precioso, com uma chuva de informações (nem todas confiáveis, é verdade), que não aparecem nas obras de autores portugueses. Também ele procurou mostrar aos jovens de seu país que era interessante vir ao Brasil, principalmente para aqueles que, de nobres, não tinham muito mais que o título. Insistia que, com produtos da terra, não faltava alimento. Doenças? Sim, havia, como em qualquer outro lugar: 
"Se algumas pessoas se dão mal, não é novidade, pois em toda parte está a morte: assim são as moléstias.
Destes males não estão isentos reis e príncipes em países os mais agradáveis e salubres que se possa imaginar." (⁵)
Apesar disso, o bom padre d'Évreux reconhecia que havia um tipo de gente que jamais deveria pôr os pés no Brasil:
"Enganar-se-ia, porém, quem pensasse que as árvores produzissem patinhos assados, as corças, quartos de carneiro recentemente tirados do espeto, e o ar andorinhas bem cozidas, de forma que não havia mais trabalho do que abrir a boca e comer. Com tal fantasia não lhe aconselho que lá vá, porque arrepender-se-ia [sic]." (⁶)
Vejam, leitores, que d'Évreux tinha senso de humor. Cumpre apenas assinalar que, para os franceses, essa questão de vir ou não ao Brasil teve vida curta. Os portugueses logo retomaram o controle do Maranhão e o sonho de uma colônia francesa no Brasil se desmanchou.

(1) Escrito por volta de 1570.
(2) Não é verdade que ninguém ainda havia escrito sobre o Brasil. Anchieta, entre outros, já o fizera, ainda que seu objetivo não fosse o mesmo de Gândavo.
(3) GÂNDAVO, Pero de Magalhães Tratado da Terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil
Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, pp. 27 e 28
(4) PEREIRA, Nuno Marques Compêndio Narrativo do Peregrino da América
Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 6
(5) D'ÉVREUX, Yves Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614
Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 185
(6) Ibid., p. 185

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Uso de Selos ou Sinetes Por Assírios, Babilônios e Outros Povos

Impressão de um selo assírio (⁴)
Entre os habitantes da Mesopotâmia (¹) na Antiguidade era corrente o uso de selos, também chamados sinetes, como forma de identificação pessoal. No Código de Hamurabi, por exemplo, que data do Século XVIII a.C., exigia-se que um documento escrito, para ser válido, fosse acompanhado do selo daquele que o outorgava. 
Impressão de um
cilindro assírio (⁵)
Os selos ou sinetes eram, quase sempre, pequenos cilindros (²) em que eram gravados desenhos que representavam deuses (³), figuras mitológicas, animais ou ainda algum texto; ao ser usado, o cilindro era rolado sobre uma placa de argila ainda mole, deixando a marca característica de seu proprietário. Para efeitos práticos, essa marca equivalia ao uso que fazemos de uma assinatura. Portanto, é fácil presumir a importância social dos artesãos que entalhavam sinetes, assim como a vigilância que se exercia sobre seu trabalho, a fim de assegurar que nenhum selo tivesse um "irmão gêmeo" para propósitos escusos.
Impressão dos sinetes dos reis do Egito (à esquerda) e
da Assíria (à direita) (⁶)
Uma vez que os selos eram amplamente utilizados por quase todos, dos reis aos humildes súditos, fica fácil entender a variedade de materiais adotados para sua confecção. Metais resistentes e baratos eram comumente empregados, mas também havia selos de marfim e de pedras e metais preciosos. Esses objetos, alguns rústicos, feitos sem grande perícia e cuidado, e outros até muito delicados, comprovando a maestria do artesão, são estudados, hoje, porque oferecem uma gama nada desprezível de informações sobre a cultura, a vida social e mesmo sobre as capacidades técnicas em uma época na qual a escrita não era ainda universalizada e, portanto, a cada indivíduo, mesmo não sendo um escriba, era facultado, através do uso de um selo ou sinete, autenticar documentos que fossem a expressão fiel de sua vontade quando adquiria uma propriedade, fazia doação de algum bem ou executava qualquer outra transação comercial. E, se era assim para o povo comum, tanto mais acontecia quando se tratava de um selo real, destinado a validar documentos que manifestavam a vontade de monarcas que se julgavam representantes dos deuses!
Impressão de um cilindro babilônico (⁸)
Selos ou sinetes foram usados também por outros povos, além dos mesopotâmios, e por muitos séculos (⁷), sempre com efeitos equivalentes aos de uma assinatura. Em lugar da impressão sobre uma placa de argila úmida, podia-se colocar um pouco de cera quente sobre a superfície desejada e então se aplicava o sinete, que deixava sua marca peculiar.
Para evitar que o proprietário de um selo ou sinete perdesse tão precioso objeto, vindo daí, talvez, consequências bastante desagradáveis, os sinetes passaram a ser feitos em forma de anel ("anel de sinete"), assegurando que, literalmente, estivessem sempre à mão. Entendia-se que um sinete, por sua natureza, devia ser manipulado apenas pelo proprietário, e entregá-lo aos cuidados de outra pessoa era prova de irrestrita confiança.

(1) Sumérios, assírios, babilônios, etc.
(2) Também havia selos em outros formatos, parecidos com pequenos carimbos, por exemplo.
(3) Muito comum, no caso do proprietário do selo ser alguém que se considerava sob a proteção de uma determinada divindade.
(4) LAYARD, Austen Henry A Second Series of the Monuments of Nineveh
London: John Murray, 1853
(5) Ibid.
(6) LAYARD, Austen Henry Discoveries on the Ruins of Nineveh and Babylon
London: John Murray, 1853, p. 156
(7) Sob circunstâncias especiais, ainda são usados.
(8) PERROT, Georges e CHIPIEZ, Charles A History of Art in Chaldea & Assyria vol. II
London: Chapman and Hall, 1884, p. 264
Todas as imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Devotos da Pá Virada

A Religiosidade Estranha de Muitos Colonizadores do Brasil


Colonizadores do Brasil eram gente devota - ao menos na aparência, e segundo seus próprios critérios. Tinham uma religiosidade curiosa, toda própria, de provocar calafrios nos teólogos europeus que eram seus contemporâneos. Mas, em território colonial, o controle da Igreja estava, frequentemente, muito distante, de modo que cada um vivia como julgava conveniente. Sim, houve visitações do Santo Ofício, mas elas somente alcançaram povoações maiores, e em poucas ocasiões. Bem sabem os leitores que, contra João Ramalho e sua mais que numerosa descendência, de nada valiam as ameaças de recurso à Inquisição que lhes faziam os missionários jesuítas. Quem iria, falando sério, imaginar que inquisidores empreenderiam, no Século XVI, qualquer tentativa de vencer o literalmente escabroso Caminho do Mar para fazer uma aparição em São Paulo?
Catequizando indígenas, os jesuítas mantinham um olho nos turbulentos colonos. Este caso, que é um exemplo acabado do tipo de religiosidade que predominava em terras portuguesas na América, vem de um documento atribuído a José de Anchieta, e faz referência a um sujeito rico, que vivia em Santos:
"Por morte deixou parte de sua fazenda para nossa igreja, que ali então se edificava; parte à Misericórdia e a outra parte aos pobres. Houve, nesse homem, enquanto se não deu a Deus, soltura no vício da luxúria; mas por respeito de Nossa Senhora nunca quis pecar com mulher que tivesse o nome de Maria." (¹)
Casos mais cabeludos seriam vistos entre os paulistas que, indo ao sertão para aprisionar indígenas que pretendiam escravizar, ainda assim se imaginavam sob a proteção de Deus. Eram essas figuras que ocasionavam no jesuíta Antonio Ruiz de Montoya a maior revolta, porque, antes da partida rumo ao sertão, faziam devotamente todo um cerimonial religioso, como se estivessem envolvidos no mais sagrado dos empreendimentos:
"Quando saem a cativar homens livres, assim declarados pelos pontífices (com excomunhão prevista aos que lhes tiram a liberdade), a matar muitos deles, a capturar suas filhas e mulheres para seus torpes usos, a desterrar o Evangelho e o Santíssimo Sacramento de seus templos, se confessam e comungam como se fossem em romaria a Compostela." (²)
Acham que era só, leitores? Certamente não: quando atacavam as missões, matando, pilhando e escravizando, os integrantes das bandeiras de apresamento cuidavam em ter, consigo, ao menos um rosário, levando Montoya, em seu relato, a uma interessante conclusão:
"Determinaram-se os inimigos a queimar a igreja: confesso que os ouvi dizer que são cristãos, e mesmo nesta ocasião traziam rosários muito visíveis. Têm, sem dúvida, a fé de Deus, mas as obras são do diabo." (³)

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 470
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus
Madrid: Imprenta del Reyno, 1639
(3) Ibid.
Os trechos citados da obra de Montoya foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Como os Comandantes Romanos Marcavam o Tempo

Vivemos amarrados à marcação do tempo - cada vez mais precisa e, em certo sentido, escravizante. Mas nem sempre foi assim. Milésimos de segundo? Há alguns séculos isso não faria o menor sentido. Que dizer, então, de relógios que tinham um único ponteiro, o das horas? Voltando no passado, chegaremos aos dias em que os relógios já não tinham ponteiros: conforme a cultura, podiam ser de areia, de água, de sol... E não exatamente portáteis.
Assim é que, na Antiga Roma, uma das funções de um comandante militar de respeito era saber determinar as horas com exatidão, para que os movimentos das forças sob sua autoridade fossem corretos. Os métodos aplicáveis, de acordo com Políbio de Megalópolis (¹), um grego que viveu entre os romanos, eram estes:
"É possível saber as horas do dia através da sombra (²), do movimento do sol ou pelos marcos existentes nos caminhos (³). Quanto às horas da noite, não há a mesma simplicidade, embora ainda assim seja possível, quando se examina o céu para saber a localização e movimento das constelações do Zodíaco." (⁴)
Os céus da Antiguidade deviam ser esplendorosos - nada de poluição de qualquer tipo para impedir a observação das estrelas, e, se bem que, vez ou outra, uma tempestade de areia (em algumas regiões) e/ou a nuvem resultante de alguma erupção vulcânica pudessem empanar o brilho dos corpos celestes, em uma noite clara haveria muito mais estrelas visíveis do que hoje, quando as luzes urbanas fazem concorrência desleal. Em tempos de paz, era possível admirar o céu com um olhar sonhador. Na guerra, perscrutar o movimento das estrelas talvez ajudasse a vencer o inimigo.

(1) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(2) Como acontece em um típico relógio de sol.
(3) Presumindo-se o tempo geralmente gasto para que uma determinada distância fosse percorrida.
(4) O trecho citado da História de Políbio de Megalópolis foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Como Indígenas Tentavam Evitar a Aproximação de Onças



Há alguns anos, uma pessoa idosa contou-me que, quando criança, ouvia o miado de onças, à noite, ao ir para casa em companhia do pai, em uma fazenda nos arredores de Campinas - SP. Isso aconteceu, se a informação for verdadeira, lá pelos anos vinte ou começo dos trinta do século passado. De qualquer modo, não deve ser coisa impossível. Afinal, nos últimos meses têm-se multiplicado as notícias da aparição de onças em áreas habitadas, perto, mesmo, de grandes centros urbanos. Alega-se que isso anda a ocorrer como consequência da destruição do habitat tanto da onça-pintada (Panthera onca) como da onça-parda (Puma concolor). Com dificuldade para encontrar alimento, alguns espécimes se aventuram junto às cidades.
As onças já foram responsáveis por amedrontar viajantes que ousavam pôr o pé no interior ainda pouco explorado do Brasil. Eram consideradas mais perigosas à noite, em razão de, por seus hábitos de caça, preferirem as horas escuras para um ataque às presas potenciais. Na década de 60 do Século XIX, quando viajar pela Província de Goiás significava, muitas vezes, ter de acampar à noite, Couto de Magalhães assim descreveu a aproximação de onças:
"À noite as onças, das quais tínhamos visto alguns estragos durante o dia, vieram urrar em torno de nosso acampamento, e uma delas tão perto que se distinguia o chiar de uma espécie de pigarro, cuja presença se nota quando urram a pequena distância; além, porém, da desagradável impressão que nos produziram, nenhum outro dano sofremos, à exceção do esparrame de nossos animais." (¹)
Emocionante, não é, leitores?!!!
É certo que o grupo liderado por Couto de Magalhães dispunha de boas armas de fogo, para o caso de alguma emergência. Indígenas dos tempos coloniais não tinham o mesmo recurso e, de acordo com Yves d'Évreux (²), acendiam fogueiras porque acreditavam que, assim, poderiam manter os poderosos felinos à distância:
"Têm [as onças] muito medo de fogo, a ponto de não se aproximarem dele, e por isso evitam-nas os índios acendendo fogueiras em suas casas, sempre abertas, quer de dia, quer de noite." (³)
Não me perguntem, leitores, até que ponto as fogueiras seriam eficazes - nunca fiz a experiência. É certo, porém, que indígenas tinham grande habilidade em lidar com o ambiente no qual viviam. Suas fogueiras eram úteis para aquecer moradias em lugares e estações frias, mantinham alguma iluminação durante a noite e serviam para afastar os incômodos mosquitos. Talvez ajudassem a manter, também, algum respeito por parte das onças.

(1) MAGALHÃES, José Vieira Couto de Viagem ao Rio Araguaia
Goiás: Tipografia Provincial, 1864, pp. 212 e 213
(2) Missionário capuchinho francês que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614.
(3) D'ÉVREUX, Yves Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614
Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 174

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Os Supersticiosos Romanos e a Crença em Presságios

Os antigos romanos (como muitos outros povos, e não só do passado) tinham a mania de querer adivinhar o que é que o futuro lhes reservava. Para isso, contavam com áugures, arúspices e outras figuras sacerdotais que, pela observação das vísceras de animais sacrificados, do voo dos pássaros e de outras coisas mais, tinham a pretensão de fazer saber aos crédulos cidadãos da poderosa Roma quais eventos estavam à sua frente.
Pois bem, leitores, há um episódio engraçado, e é até difícil acreditar em sua autenticidade, mas que, verdade ou não, dá uma boa medida do que eram as crendices romanas em presságios. Lá vai, então.
Houve um comandante romano que, antes de ir a um combate, resolveu consultar os frangos sagrados (sim, havia mesmo frangos sagrados em Roma, e eram sustentados pelo Estado). Sucede que, diante do alimento que lhes foi oferecido, as aves não mostraram o menor apetite (pior para elas, como se verá). Ora, esse fato era considerado um presságio horrorosamente desagradável. Que fazer?
A saída encontrada pelo pragmático comandante foi bem pouco ortodoxa, em se tratando de respeito às tradições (coisa muito valorizada em Roma): mandou que as aves fossem lançadas ao mar, já que, se não tinham fome, talvez quisessem água...

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Produtos Agrícolas Cultivados Por Escravos Para Consumo Próprio e Para Venda

Muitos proprietários de escravos tinham por costume ceder a seus cativos um pequeno lote, no qual podiam cultivar aquilo que quisessem. Essa prática era conveniente para os senhores, pois:
  • Suplementava a alimentação dos escravos sem que o proprietário tivesse qualquer despesa com isso;
  • Mantinha os escravos ocupados nas poucas horas vagas, nos domingos e nos feriados, evitando que se encontrassem para planejamento de alguma rebelião ou fuga;
  • Se os escravos eventualmente obtinham uma produção significativa, vendiam-na por preço módico para o próprio senhor.
Os cultivos usualmente praticados obedeciam às características regionais relacionadas a condições de clima e solo, mas alguns itens eram recorrentes, como milho, mandioca, abóbora, feijão e hortaliças. Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o segundo Barão de Paty do Alferes, recomendou, em sua Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro (¹):
"O fazendeiro deve, o mais próximo que for possível da sede da fazenda, reservar uma porção de terra onde os escravos façam as suas roças, plantação de café, milho, feijões, bananas, batatas, carás, aipim, canas, etc. Não se deve, porém, consentir que a sua colheita seja vendida a outrem, e sim a seu senhor, que deve fielmente pagar-lhes por um preço razoável: isto para evitar extravios e frequências das tabernas." (²)
A despeito desse conselho dado aos senhores, havia escravos que vendiam seu pequeno excedente quando, onde e para quem queriam. O caso é que alguns senhores mantinham grande vigilância quanto a este assunto, enquanto outros não se importavam com a questão. Cabe também assinalar, em rápida explicação, que muitos fazendeiros votavam ódio mortal às tabernas existentes na beira das estradas que passavam perto de suas propriedades agrícolas porque, além de convidarem à embriaguez dos escravos, incapacitando-os temporariamente para o trabalho, era também nelas que, não raro, as fugas e rebeliões eram combinadas.
Resta considerar o que é que os escravos faziam com o dinheiro que recebiam pela venda de sua pequena produção agrícola. Responde Lacerda Werneck:
"Este dinheiro serve para os escravos haverem o tabaco e o fumo, de que são grandes consumidores, comprarem a comida de regalo, roupa fina, a de sua mulher se são casados, e de seus filhos." (³)
Escravo pronto para ir ao trabalho (⁴)
Fica a pergunta: Não seria demais esperar que escravos, submetidos a condições de vida aviltantes, se comportassem como operosos trabalhadores livres, poupando a pequena renda que obtinham e gastando apenas em artigos realmente úteis, para si mesmos e para suas famílias? Aliás, em relação à maior parte do tempo no qual prevaleceu o trabalho compulsório no Brasil, falar em famílias de escravos é um grande problema - não porque elas não existissem, mas porque o sistema em nada favorecia a estabilidade e a formação de vínculos duradouros entre cativos.
Uma questão sempre debatida vincula-se aos escravos que, economizando por muitos anos, acabavam por ter recursos suficientes para comprar a própria liberdade. Ora, isso não era impossível, e, às vezes, acontecia. Não era, porém, fato corriqueiro, uma vez que não era fácil, apenas plantando e vendendo modestos excedentes por baixo preço, chegar a ter tanto quanto o valor de mercado de um escravo. Se excetuarmos a fase final da escravidão (após 1870), quando estava claro que a abolição seria apenas uma questão de tempo, o trabalho mais favorável às manumissões não estava na agricultura, e sim na mineração, porque era aí que um escravo, tendo a sorte de achar grande quantidade de ouro ou diamantes valiosos, acabava sendo premiado com a liberdade. Há registro de cativos nessas condições que, uma vez libertos, acabaram, eles próprios, também mineradores e senhores de escravos.

(1) A Memória do Barão de Paty do Alferes teve a primeira publicação no ano de 1847.
(2) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 40
(3) Ibid.
(4) RIBEYROLLES, Charles Brazil Pittoresco
Paris: Lemercier, 1861
O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.