terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Um Chefe Indígena que Ensinava aos Jovens a Importância do Trabalho

Liçãozinha de moral, leitores!... Podem rir, mas continuem a ler.
A coisa foi contada pelo padre Yves d'Évreux, líder do primeiro grupo de capuchinhos que veio ao Maranhão no começo do Século XVII (¹). Indo, certo dia, fazer uma visita a um chefe indígena já bastante idoso, encontrou-o ocupado em trabalhar com um tear de fazer redes. Ora, esse era, tradicionalmente, um trabalho que, entre indígenas, se reservava às mulheres. Perplexo, o religioso francês não hesitou em interrogar o experiente guerreiro quanto à razão que o levava a essa atividade - naturalmente, d'Évreux precisou da assistência de um intérprete. A resposta não se fez esperar:
"Os rapazes observam minhas ações e praticam o que eu faço: se eu ficasse deitado na rede e a fumar, eles não quereriam fazer outra coisa; quando me veem ir para o campo com o machado no ombro e a foice na mão (²), ou tecer rede, eles se envergonham de nada fazer." (³)
Vejam, leitores, que esse chefe indígena, reputado como um "selvagem" pelos colonizadores, sabia muito bem o que era liderar. Haveria algo mais forte que o exemplo? O padre d'Évreux concluiu sua narrativa do incidente com uma observação nada lisonjeira para os franceses de seu tempo:
"Eu e os que comigo então se achavam, sentimos muito prazer ouvindo estas palavras, e desejaria vê-las praticadas por todos os cristãos, porque então a ociosidade, mãe de todos os vícios, não estaria em França, como atualmente se vê." (⁴)

Tecido de tear indígena (⁵)

(1) Yves d'Évreux esteve no Maranhão entre 1613 e 1614, durante a tentativa de estabelecimento de uma colônia francesa naquela área.
(2) Ferramentas provenientes do escambo com franceses.
(3) D'ÉVREUX, Ivo Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614
Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 62
(4) Ibid.
(5) Da etnia Kaxináwa, Acre. Pertence ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Quanto o Nilo Precisava Transbordar Para que as Colheitas Fossem Boas

Vocês sabem, leitores, que, graças às enchentes periódicas do Nilo, o Egito foi, na Antiguidade, o mais destacado celeiro do mundo mediterrânico. Mas não pensem que, ano após ano, as cheias eram rigorosamente iguais. Nada disso. E, porque não eram, a época em que as águas deveriam começar a subir era cercada de grande expectativa. Não era para menos: suprema fartura e miséria estavam entre os resultados possíveis de um transbordamento mais ou menos generoso. Era feita uma medida exata do nível do rio, enquanto as águas, ao se espalharem pelas margens, arrastavam consigo o precioso húmus que fertilizava o solo. Isto, de acordo com Plínio (¹), no Livro V de Naturalis Historia, devia acontecer anualmente, pouco depois do solstício de verão:
"O Nilo começa a subir na primeira lua nova após o solstício de verão, e vai aumentando gradualmente de volume enquanto o sol passa por Câncer, chegando ao auge quando está em Leão; em Virgem o volume decresce pouco a pouco." (²)
Mas quanto, afinal, era necessário que as águas se elevassem acima do nível normal? Continuamos com Plínio:
"Com doze cúbitos a fome se manifesta, com treze há escassez, quatorze começa a trazer alegria, com quinze há segurança, com dezesseis, felicidade. O máximo transbordamento já registrado foi de dezoito cúbitos, durante o principado de Cláudio, e o mínimo foi de cinco, na época da Batalha de Farsália (³), qual grande prodígio (...)."
Cabem aqui, leitores, ao menos duas observações:
  • O cúbito (ou côvado) egípcio tinha cerca de 50 cm; o romano, um pouco menos. Plínio não explicou qual deles utilizou, de modo que, fazendo uso do valor mais alto, constatamos que, para a ocorrência de fome, haveria uma elevação de apenas seis metros, enquanto que um acréscimo de oito metros traria abundância. Os extremos registrados por Plínio seriam, respectivamente, de dois e meio e nove metros.
  • Plínio tinha um modo romano de ver os fatos, não de todo injustificável, já que ele próprio era romano e os romanos, em seu tempo, eram os "donos do mundo". Além disso, os leitores de Plínio seriam romanos também. Desde que os romanos passaram, implícita ou explicitamente, a mandar no Egito, fizeram dele a central de abastecimento de Roma, livrando-a da ameaça da fome e, por conseguinte, de uma revolta popular que poderia ter consequências incalculáveis. Por isso, não é surpresa que mencione níveis máximo e mínimo a partir de ocasiões relevantes para os romanos. A história do Egito é muito longa e muito anterior ao nascimento de certa cidadezinha insolente na Península Itálica, sendo bastante provável que, ao longo de muitos séculos, outros momentos de máxima e mínima na elevação do Nilo tenham ocorrido. 
Pois bem, finda a cheia, o que acontecia? De acordo com Heródoto, competia aos camponeses lançar sementes ao solo e deixar que seus rebanhos pisoteassem o terreno. As sementes, germinando, trariam colheitas melhores ou piores, de acordo com a cheia que precedera a semeadura. A vida dos camponeses egípcios seria, portanto, quase um paraíso... Mas não era. Como quase todos os camponeses, em quase todos os lugares do mundo, em quase todos os tempos, os do Egito trabalhavam muito, mas viam parte considerável de sua produção convertida em impostos, destinados à manutenção do faraó (com todos os seus caprichos, piramidais ou não), da nobreza, da altamente privilegiada elite sacerdotal, dos numerosos funcionários públicos (escribas, coletores de impostos, etc.) e do exército. Era muita gente dependendo do trabalho daqueles que cultivavam a terra. 
Só para completar a questão das cheias do Nilo, Plínio ainda observou: "Acrescente-se que o Nilo é o único rio que nunca emite algum odor." Talvez não tenha levado em conta algum acontecimento puntual.

(1) 23 - 79 d.C.
(2) Todas as citações de Naturalis Historia que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) 9 de agosto de 48 a.C.


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Fogões a Lenha

"Às nove horas da noite apaguei eu a candeia, e não havia no fogão nem uma brasa: o fogo foi maléfico..."
Joaquim Manuel de Macedo, As Mulheres de Mantilha

Aterrorizados pelo alarido de um burro, de um cachorro, de um gato e de um galo, ladrões fogem, a toda pressa, da casa em que se banqueteavam. Melhor para os animais, que se deliciam com uma esplêndida refeição. Uma vez satisfeitos, apagam as luminárias, e cada um trata de encontrar um bom recanto para dormir, ficando a casa em completo silêncio e às escuras.
Tarde da noite, um dos ladrões retorna. Percebe uma tímida faísca junto ao fogão, e, supondo ser uma brasa ainda viva, se aproxima, pensando em acender um pequeno facho. Mas, ai! É brutalmente arranhado pelo gato, que se encarapitara sobre o fogão. Não havia, naturalmente, brasa alguma, somente o brilho dos olhinhos vigilantes do felino. Em meio à escuridão, o meliante só pensa em fugir, não sem antes receber uma mordida do cão, estacado junto à porta, e, já do lado de fora, um coice do burro e uma valente bicada do galo.
A esta altura os leitores já sabem, suponho, que falo de Die Bremer Stadtmusikanten, um conto dos Irmãos Grimm que está por completar duzentos anos. Eu, quando era criança, amava ouvir contar essa história, mas hoje, aqui no blog, ela nos serve para mostrar que a singela brasa de um fogão a lenha ou a carvão pode ter muita importância. Então, amigos, sorrindo ou zangados, prossigam a leitura, sim? 
Forno de barro (²)
Até bem adiantado o Século XIX, a maioria das casas no Brasil tinha um grande fogão a lenha, construído em um canto da cozinha. Quem, estando fora, olhasse a chaminé, já sabia, pela fumaça, se havia comida em preparo. Panelas e tachos enormes, pesadões, enegrecidos pela fuligem no correr dos anos, eram usados para cozer lentamente os alimentos. Por essa característica do cozimento lento é que há, ainda hoje, muita gente que não hesita em afirmar que a melhor comida vem dos fogões a lenha (¹). Talvez seja mesmo só uma questão de gosto pessoal, mas é fato que em diversas tradições culinárias, distanciadas entre si no tempo e/ou no espaço, há especialidades cujo preparo é melhor em fogo moderado, demandando várias horas para o perfeito cozimento - como nos vetustos fogões a lenha. 
As cozinhas das casas-grandes coloniais ou das fazendas de café do Século XIX eram lugares movimentados, quentes no verão, é verdade, mas acolhedores no inverno e dias chuvosos. Escravas trabalhavam sob a supervisão de uma cozinheira experiente, e mesmo as senhoras não se furtavam a dar palpites. Na rotina diária, era preciso remover as cinzas, e escravos deviam rachar lenha para assegurar que o fogão estaria sempre em plena atividade. Imagine-se, pois, como seria o corre-corre na cozinha de uma fazenda, em ocasiões festivas como o Natal ou um casamento!...


Um Fogão a Lenha Especial


Fogão a lenha do Catetinho (³)
O fogão da foto ao lado pode ser visto no Catetinho: hoje um museu, o Catetinho foi, na segunda metade da década de 50 do Século XX, a residência provisória usada pelo presidente Juscelino Kubitschek, sempre que vinha acompanhar a construção de Brasília. É óbvio que nada obstava a existência de um fogão mais moderno no local, mas quem visita o museu é informado de que o presidente era apreciador da comida feita em fogões a lenha. Para atendê-lo é que este ilustre exemplar foi construído.

(1) Folclore ou não, essa preferência sustenta a fama de muitos restaurantes que preparam comida "como na fazenda". Em lugares remotos no interior do Brasil os fogões a lenha não são, ainda hoje, de todo incomuns, mesmo em residências.
(2) Pertence ao acervo do Museu Histórico e Geográfico de Monte Sião - MG.
(3) Este fogão a lenha pertence ao acervo do Museu do Catetinho (Brasília - DF).

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A Revolta de Espártaco

Espártaco era um gladiador. Como ninguém nasce gladiador, parece-me necessário explicar que, na Roma Antiga, os espetáculos de gladiadores haviam começado como um divertimento para os soldados que, lutando, mantinham a forma quando não havia guerra. Posteriormente (¹), as lutas passaram a ser uma atividade profissional, se entendermos que os "profissionais" em questão eram escravos, quase sempre selecionados entre os prisioneiros de guerra que mais impressionavam pelo vigor físico (²). Era esse o caso de Espártaco, um trácio que integrara um corpo de auxiliares do exército romano, mas que desertara e fora capturado. O que aconteceu em seguida é relatado por Aneu Floro (³) em Epitome rerum Romanarum:
O último combate de Espártaco,
na visão de um cartunista do Século XIX (⁵)
"Espártaco, Criso e Enomaus, fugindo do lugar de treinamento de Lêntulo, com trinta outros homens de semelhante condição [gladiadores], espalharam-se por Cápua, chamando escravos em seu auxílio, e, em pouco tempo, eram já dez mil homens que, não satisfeitos com a fuga, queriam a liberdade." (⁴)
As fontes apresentam alguma divergência quanto ao número de adeptos que Espártaco conseguiu arrebanhar, mas é fato que, nos três anos seguintes (73 a 71 a.C.), a Península Itálica viveu um severo conflito, no qual o exército romano foi várias vezes derrotado por gladiadores e escravos que lutavam pela liberdade - talvez houvesse nisso um fator importante para o sucesso que inicialmente obtiveram.
Não era fácil, porém, controlar milhares de homens em fúria. Afinal, as forças romanas conseguiram vencer os revoltosos. Quanto a Espártaco, no dizer de Floro, "lutando com valentia na primeira fila [de combatentes], teve a morte de um grande comandante." (⁴)
Como explicar uma rebelião de proporções tão assinaladas? Além do já citado desejo de liberdade, deve-se considerar que:
  • Os escravos eram exageradamente numerosos em Roma, em consequência do cativeiro de inimigos derrotados em combate;
  • Muitos escravos, tendo pertencido ao exército de outros povos, haviam recebido treinamento militar e, mesmo não tendo armas adequadas, eram fortes e, conforme se verificou, capazes de fazer frente ao disciplinado exército romano;
  • A chamada "Revolta de Espártaco" não foi a primeira e nem a última rebelião envolvendo escravos nos domínios de Roma (na historiografia clássica é também conhecida como Terceira Guerra Servil).
Teriam os romanos consciência do problema que criavam para si mesmos com a multiplicação de braços cativos? As consequências eram demasiado óbvias para que passassem despercebidas. Foi também Floro quem perguntou: "Por que motivo os gladiadores se revoltaram contra seus treinadores, a não ser pelo fato de que se obtinha o favor da plebe com a realização de espetáculos, nos quais supliciar o oponente vencido tornou-se uma arte?" (⁴)

(1) É opinião corrente que isso teria ocorrido por volta do final da Primeira Guerra Púnica.
(2) Autores romanos, como Júlio César, por exemplo, destacaram o fato de que gauleses e germanos, muito mais altos e mais fortes que a média da população de Roma, eram temidos pelos soldados, que somente eram capazes de derrotá-los devido à disciplina e estratégia que as forças romanas apresentavam nas batalhas.
(3) Um contemporâneo do imperador Adriano.
(4) Os trechos citados de Epitome rerum Romanarum foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) BECKETT, Gilbert Abbott à e LEECH, John The Comic History of Rome
London: Bradbury, Evans and Co., 1851, p. 281


Veja também:

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A Bagagem de Dois Missionários Jesuítas que Pretendiam Catequizar Indígenas no Ceará e no Maranhão

O Século XVII está no começo. Dois jesuítas, Francisco Pinto e Luís Figueira, saindo do Colégio de Pernambuco, iniciam uma longa caminhada com o propósito de estabelecer uma missão entre indígenas no Maranhão. 
Não vão sozinhos: têm a companhia de alguns índios, já catequizados, que auxiliam no contato com grupos indígenas. Além disso, ajudam a transportar a bagagem dos dois padres. Como somos curiosos, leitores, iremos bisbilhotar o que é que carregam. Como? Há um relato interessante, feito pelo padre José de Moraes em A Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará:
"Caminhavam a pé, sem mais vitualhas que o altar portátil que levavam dois índios, algum vinho, hóstias, cera e uma pouca de farinha de pau (¹), usual sustento da terra, repartida pelas mochilas dos companheiros; sem mais outra vianda que o peixe e caranguejos, que a diligência dos índios encontrava por aquelas praias. Usavam de umas roupetas curtas para lhes ficarem mais desembaraçados os passos (...); mas porque os charcos, pedras e lodos por onde precisamente haviam de passar eram muitos, consumidos logo nos primeiros dias os sapatos, se viram obrigados a caminhar descalços." (²)
A obra de José de Moraes somente foi escrita uns cento e cinquenta anos depois da missão de Francisco Pinto e Luís Figueira (³). Sabe-se de seu acesso a uma variedade de documentos, mas, conforme ele próprio explicou, em alguns casos seus relatos tiveram por fundamento a tradição, apenas. Apesar disso, podemos estar certos de que, ao empreenderem a viagem, os dois padres a que nos referimos entraram em um rumo de todo desconhecido para eles. Confiavam, pois, na lealdade e experiência dos indígenas já catequizados que tomavam por guias. Para a alimentação, esperavam achar pesca e alguma caça, a fim de complementar a magra dieta de farinha de mandioca. Na bagagem listada por José de Moraes, destacam-se os itens de uso religioso, a começar pela existência de um altar portátil. O mesmo autor, tratando de outras missões de catequese, faria referência ao uso de um móvel semelhante, o que nos leva à conclusão de que seu emprego era prática comum na época. 
Não foi dessa vez, no entanto, que uma missão de jesuítas foi estabelecida no Maranhão. Ao chegar à Serra de Ibiapaba, a pequena caravana foi atacada por tapuias. Francisco Pinto foi morto, assim como alguns dos índios catequizados. Luís Figueira escapou, escondendo-se no mato. Depois de sepultar o companheiro, retornou a Pernambuco. Anos mais tarde, após a expulsão dos franceses do Maranhão, foi mandado a São Luís, onde uma nova luta o aguardava, não contra grupos indígenas que rejeitavam a catequese, mas contra os colonizadores que viam em cada ameríndio um escravo em potencial.

(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará
Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 30
(3) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Os Fusos Horários e a Chegada do Ano-Novo

Todos aprendemos na escola que a Terra é, teórica e artificialmente, dividida em faixas verticais de 15º cada uma (¹), que são chamadas fusos. Para os leitores mais jovens, eu faria a seguinte comparação: imaginem que a Terra seja mais ou menos como uma laranja, composta por vinte e quatro gomos iguaizinhos - nessa comparação (simplista, mas útil), cada gomo corresponderia a um fuso.
Por convenção, utiliza-se o horário de Londres (²) como ponto de partida para a contagem dos fusos. Assim, o horário teórico de um ponto qualquer na superfície terrestre será dado ao se ter em conta se está localizado a Leste ou a Oeste do Meridiano Principal, bem como a quantos graus de distância.
Parece simples? Periodicamente, o horário de verão complica tudo, assim como outros ajustes, que são feitos por questões práticas - se estritamente seguidos, os fusos com base na divisão em faixas de 15º poderiam muito bem acabar fazendo com que lugares muito próximos, ou mesmo dentro de uma mesma cidade, tivessem horários diferentes. Seria uma calamidade! Então, cada país define a adoção de fusos ajustando-os à conveniência, até porque há países com mais de um fuso (³).
Em quase todo o mundo a contagem do tempo obedece a uma divisão em 24 horas, em que 12 horas correspondem ao meio-dia, e 24, à meia-noite. Assim, no final de cada ano, é de acordo com o fuso relativo a cada lugar que é celebrado o ano-novo: quem está em Tóquio ou em Sidney vai festejar um novo ciclo de trezentos e sessenta e cinco dias antes de quem está em São Paulo ou Los Angeles.
Mas vocês já pensaram, leitores, que a contagem do tempo, do dia e das horas nem sempre obedeceu a esse critério?
Plínio, o Velho, no Livro II de sua Naturalis Historia, relatou que "quanto ao modo como cada um observava os dias, os babilônios contavam entre dois sóis [de um nascer de sol a outro], os atenienses entre dois ocasos [de um pôr de sol a outro], os úmbrios de um meridiano a outro [meio-dia a meio-dia], pessoas comuns [em Roma], da luz às trevas [do amanhecer ao pôr do sol], os sacerdotes romanos e autoridades civis, assim como os egípcios, de meia-noite a meia-noite". (⁴)
Ora, convenhamos, seria uma enorme confusão se, até hoje, cada povo contasse o tempo como bem entendesse. Quando as comunicações entre países eram poucas e difíceis, os fusos talvez não fossem necessários, e cada lugar podia adotar a contagem das horas que lhe caísse no agrado; à medida que as comunicações se intensificaram, os fusos se tornaram imprescindíveis. Sua implantação, portanto, foi ditada não só pela conveniência, mas pela necessidade.

(1) Que se obtém pela divisão de 360° (supondo a Terra uma esfera perfeita) por 24, que é o número de horas de cada dia.
(2) Lembram-se do Meridiano de Greenwhich?
(3) É o caso do Brasil.
(4) O trecho citado de Naturalis Historia foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma Nova Capital

Brasília, Esplanada dos Ministérios, como é vista desde o lago Paranoá

A primeira capital do Brasil, a "Cidade da Bahia" (Salvador), foi estabelecida sob o comando de Tomé de Sousa, que fora designado para o cargo de governador-geral. Na escolha da localização da cidade, além de questões práticas como existência de um bom suprimento de água e condições favoráveis à defesa, pesaram outras duas questões importantes: estar perto da região produtora de açúcar e facilitar ao máximo as comunicações com Portugal. Era 1549, e, para que desse lucro, a produção açucareira do Nordeste brasileiro precisava ser levada à Europa. Portanto, considerava-se que estar localizada junto ao mar não era, para a capital, nenhum defeito, sendo, ao contrário, até uma vantagem.
Mais tarde, já no Século XVIII, a descoberta de jazidas auríferas e de pedras preciosas nas Gerais, em Goiás e nas "minas do Cuiabá" deslocou o eixo econômico do Brasil em direção ao Sul. Uma vez que era do porto do Rio de Janeiro que as riquezas minerais eram embarcadas para o Reino, para lá foi movida a capital, e, mesmo depois da Independência, assim permaneceu ao longo das décadas do Império, apesar de, ocasionalmente, vir à baila a necessidade de transferir a sede de governo para algum ponto no interior (¹). 
Após a proclamação da República houve quem sugerisse a mudança da capital para Petrópolis, mas a proposta logo foi afastada, porque, se oferecia umas poucas vantagens, tinha a inconveniência de preservar muitos dos problemas existentes no Rio. Assim, a Constituição de 1891, a primeira republicana, trazia em suas Disposições Preliminares, Título I, Art. 3º:
"Fica pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal."
E na Seção I, Capítulo IV, Artigo 34:
"Compete privativamente ao Congresso Nacional:
(...)
13. Mudar a capital da União."
Cerca de dois anos mais tarde, escrevendo na Gazeta de Notícias, Machado de Assis ponderou:
Catedral de Brasília em fotografia infravermelha
"A capital da República, uma vez estabelecida, receberá um nome deveras, em vez deste que ora temos, mero qualificativo. Não sei se viverei até a inauguração. A vida é tão curta, a morte tão incerta, que a inauguração pode fazer-se sem mim, e tão certo é o esquecimento, que nem darão pela minha falta. Mas, se viver, lá irei passar algumas férias, como os de lá virão aqui passar outras. Os cariocas ficarão sempre com a baía, a esquadra, os arsenais, os teatros, os bailes, a Rua do Ouvidor, os jornais, os bancos, a Praça do Comércio, as corridas de cavalos, tanto nos circos como nos balcões de algumas casas cá embaixo, os monumentos, a companhia lírica, os velhos templos, os rabequistas, os pianistas..." (²)
Na suposição da mudança como algo estritamente necessário, a ideia era inaugurar a nova cidade dentro dos festejos relativos ao centenário da Independência, a ser comemorado em 1922, um plano que nunca se concretizou. Como os leitores bem sabem, a construção de Brasília data da segunda metade da década de 50 do Século XX, tendo a inauguração formalmente ocorrido em 21 de abril de 1960. Machado de Assis, que não era nenhum Matusalém, faleceu em 1908, e, portanto, não viveu o suficiente para ver a nova capital. Para vê-la, precisaria ter alcançado a idade de cento e vinte anos. 

Brasília, Eixo Monumental, em fotografia infravermelha

(1) Um dos problemas apontados em relação ao Rio de Janeiro era a vulnerabilidade diante de eventual ameaça externa, por ser o litoral enorme e escassamente defendido. Com a instabilidade dos primeiros anos da República foram evidenciados também os problemas internos, com frequentes ameaças de revoltas que deixavam a população em polvorosa - basta lembrar a Revolta da Chibata (1910), quando marinheiros tomaram o controle de navios de guerra e ameaçaram bombardear a capital se suas reivindicações não fossem atendidas. Ameaça cumprida, aliás, ainda que levemente. 
(2) GAZETA DE NOTÍCIAS, 22 de janeiro de 1893.