quinta-feira, 21 de junho de 2018

A Adoção de Filhos e o Aprendizado de uma Profissão, de Acordo com o Código de Hamurabi

Um rapazinho que vivesse em alguma cidade europeia em fins da Idade Média teria de passar por um longo processo de formação, caso desejasse ser um artesão qualificado e com a devida licença para trabalhar na corporação de ofício que lhe correspondia.
Como ainda hoje acontece, havia meninos que queriam seguir a profissão do pai, para perpetuar algum ramo de atividade familiar. Mas, como também acontece até hoje, havia quem quisesse ter uma profissão completamente diferente daquela exercida por seus ancestrais. Na Idade Média, convenhamos, o caminho ficava mais difícil: era preciso deixar a própria família e ser aceito como aprendiz na oficina de um mestre do ofício desejado (¹), e isto significava ir morar lá, com outros aprendizes, fazendo todo o trabalho ordenado, por horas, dias e anos a fio. Não se deve imaginar que os ditos aprendizes fossem tratados com muita gentileza. A educação medieval não era para tanto.
O tempo passava e, penosamente, o jovem adquiria as habilidades necessárias para ser aprovado em um exame rigoroso em sua corporação. A partir daí, era visto como um profissional, ainda trabalhando com seu mestre, para juntar o dinheiro necessário a fim de, algum dia, ser também um mestre, com oficina própria e aprendizes.
Se fizermos o cronômetro da eternidade retornar ao Século XVIII a.C., iremos encontrar na Mesopotâmia um modo de aprendizado profissional que, a seu modo, antecipava o padrão da Baixa Idade Média (²). Ditava o Código de Hamurabi:
"Se um artesão adota um menino para criá-lo e lhe ensina seu ofício, essa criança não poderá ser reclamada de volta. Mas, se o artesão não lhe ensinar o ofício, o filho adotivo poderá voltar à casa de seu pai."
De saída, é possível constatar que a criança adotada não era órfã ou abandonada, já que, se não fosse devidamente ensinada em um ofício, poderia retornar à família de origem. Sabe-se que, na Antiguidade, havia pessoas que, não tendo de modo algum um filho "natural", adotavam um sucessor (³), que deveria exercer funções sacerdotais em sua nova família ou clã, mas a questão decisiva, aqui, parece ser outra, ou seja, o ensino de uma profissão: um artesão adotava um menino para fazer dele alguém de seu ofício, na expectativa, talvez, de ter nesse jovem aprendiz um auxiliar. 
Alguma semelhança entre o ensino profissional dos antigos mesopotâmios e o das corporações de ofício medievais? Sim, mas sem qualquer intencionalidade (⁴). A História tem dessas coisas.

(1) Legalmente, o jovem medieval que deixava a família para aprender uma profissão não era considerado filho do mestre de ofício com quem ia morar. Em alguns casos, a família de origem do jovem até pagava pelo ensino profissionalizante que o filho recebia.
(2) Dependendo do lugar, o sistema de controle e ensino mediante corporações de ofício continuou a existir muito além dos tempos medievais.
(3) Esse procedimento foi bastante comum entre os romanos. Inicialmente, a adoção tinha por objetivo assegurar a existência de alguém que continuasse o culto aos antepassados da família. Mais tarde, as adoções passaram a ter enorme significado político: mesmo tendo filhos biológicos, houve imperadores que adotaram outros indivíduos, tencionando fazê-los seus sucessores no poder.
(4) Quem vivia na Idade Média não sabia nada a respeito de Hamurabi e seu famoso Código. Isso vale inclusive para os eruditos da época.


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terça-feira, 19 de junho de 2018

Escravos ao Mar!

A Trágica Viagem dos Escravizados que Eram Transportados da África ao Brasil


Suponho que os leitores conheçam bem estes versos:

"Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar..."

São, como sabem, de Castro Alves, em O Navio Negreiro. O poema foi escrito em 1869, quase duas décadas depois da abolição definitiva do tráfico (¹) de africanos, portanto. Quem o lê, pode supor que seu jovem autor, escrevendo para impressionar o público que comparecia aos comícios abolicionistas, talvez exagerasse o horror das viagens que, em outros tempos, traziam escravizados ao Brasil. Afinal, era preciso despertar a sensibilidade da opinião popular. Mas não era esse o caso. Nem mesmo o talento do poeta condoreiro seria suficiente para pintar, em palavras, o que fora a perfídia do tráfico.
Em uma obra escrita e publicada no contexto da luta pela proibição da entrada de novos escravos vindos da África, Frederico Leopoldo César Burlamaqui reuniu uma coleção de relatos horripilantes, dentre os quais selecionei dois, apenas para mostrar o que podia acontecer em navios negreiros - ou tumbeiros, como, não por acaso, também eram chamadas as embarcações de traficantes de escravos. Vamos ao primeiro caso:
"Um navio negreiro transportava uma carregação [sic] de escravos, e foi encontrado por um cruzador inglês que lhe deu caça. O traficante, vendo que não podia escapar, para não sofrer as penas da sua pirataria, começou a lançar ao mar toda a sua carregação, de sorte que apenas o cruzador pôde salvar poucas vidas." (²)
Escravos recém-chegados ao Rio de Janeiro,
de acordo com Thomas Ender (⁶)
Agora, o segundo episódio:
"Não há muito tempo que um fato horroroso teve lugar em uma das províncias (³) do Império [...]. Viu-se de terra estarem lançando ao mar, de um navio de negros, alguns tonéis; estes tonéis continham os escravos ainda vivos, atacados do mal de Luanda (⁴), que o capitão, para evitar o contágio dos outros, fazia perecer nas ondas!" (⁵)
A obra de Burlamaqui era, explicitamente, propaganda abolicionista. Aos que acham que seu autor talvez exagerasse, pergunto: teria ela alguma força se, em lugar de se ater aos fatos, apresentasse mentiras?


(1) Pela Lei Eusébio de Queirós, em 1850.
(2) BURLAMAQUI, Frederico Leopoldo César Memória Analítica Acerca do Comércio de Escravos e Acerca dos Males da Escravidão Doméstica
Rio de Janeiro: Tipografia Comercial Fluminense, 1837, p. 12
(3) Em nota de rodapé, Burlamaqui informou que o incidente ocorrera em 1834, ao largo do litoral rio-grandense.
(4) Escorbuto. Além de tudo, a morte desses infelizes em nada impedia que outros manifestassem a doença, decorrente da carência de vitamina C.
(5) BURLAMAQUI, Frederico Leopoldo César, Op. cit., p. 12
(6) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Educação dos Meninos Persas na Antiguidade

Cada povo educa suas crianças e jovens para aquilo que mais preza; valem, aqui, as habilidades, os valores, os conhecimentos. Mesmo as famílias (nas sociedades em que as crianças são educadas em família) tendem a passar à geração seguinte o que julgam de maior importância. 
Não nos enganemos: se uma determinada sociedade, na educação de seus jovens, não atribui importância a algum aspecto do saber acumulado pela humanidade, é porque, afinal, esse aspecto não tem, para ela, valor algum. O recado está dado, leitores.
Mas vamos adiante, que o assunto de hoje é o modo como os antigos persas educavam meninos. Heródoto, grego de Halicarnasso, gostava de viajar e, na Antiguidade, eram os que viajavam que tinham, como regra, boas histórias para contar. Contou, por exemplo, que entre os persas, um menino ficava sob os cuidados da mãe e de outras mulheres da família até que completasse cinco anos. Antes disso (segundo Heródoto!), o pai sequer ia ver o filho, para evitar a enorme tristeza que poderia ter em caso de morte de seu rebento. Verdadeiro ou não, esse relato de Heródoto diz muito sobre a mortalidade infantil na Antiguidade.
A partir dos cinco anos, o rapazinho passava a ser instruído nas três habilidades reputadas essenciais para um homem: "cavalgar, atirar com arco e falar somente a verdade". Assim era até que atingisse a idade de vinte anos. Vejam, leitores, que a instrução era voltada, como em muitas outras culturas, para a formação de um bom soldado.
Heródoto nada disse quanto à educação das meninas. Eis um caso em que a omissão, por si, é de uma eloquência notável.


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terça-feira, 12 de junho de 2018

Por que Vir de Tão Longe Buscar Pau-brasil?

"Oh! e quão loucos são e ambiciosos!
Por um pouco de pó, por uma pedra,
Por um tronco de pau, eles se matam
Parece que têm medo que lhes falte
Terra e mar, ar e céu, aves e bosques!"
Gonçalves de Magalhães, A Confederação dos Tamoios


"Pau-de-tinta" foi um dos muitos nomes dados ao pau-brasil (Paubrasilia echinata). Na Europa do Século XVI essa notável madeira servia, entre outros usos, à construção naval e à fabricação de móveis e de instrumentos musicais, além do emprego em tinturaria. Foi sua abundância na costa do Brasil que contribuiu para dar à terra algum interesse por parte da Metrópole, uma vez que, nesse tempo, o comércio dos artigos vindos do Oriente tinha, ainda, a preponderância. 
Indígenas cortando pau-brasil com ferramentas fornecidas
por europeus (¹)
Não demorou muito e indígenas do litoral, encantados por objetos trazidos por europeus (tais como facas, tesouras e machados), também se envolveram em cortar madeira e arrastá-la até pontos junto ao mar, chamados arrogantemente de "feitorias", mas que, como regra, não passavam de amontoados de árvores cortadas, cobertas, no melhor dos casos, por alguma simples construção ao estilo indígena, aguardando que embarcações comparecessem para o escambo. Ora, leitores, nem era necessário que portugueses estabelecessem uma dessas feitorias: um relato (ao que tudo indica, verídico), presente no Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa, mostra que indígenas, motivados pelo escambo, chegavam a tomar a iniciativa de ir aos navios para oferecer madeira que, por conta própria, haviam preparado:
"A terra é toda chã, cheia de arvoredo. Como nos achegamos mais a terra se nos fez o vento sueste, e no meio-dia surgimos em fundo de onze braças, uma légua de terra. [...]. Este dia vieram de terra, a nado, às naus, índios a perguntar-nos se queríamos brasil."
Deste documento, datado de 3 de fevereiro de 1531, podem ser extraídos dois fatos importantes:
  • O escambo já despertava grande interesse entre os indígenas;
  • Indígenas e portugueses já eram capazes de razoável comunicação, ou não seria o caso de Pero Lopes de Sousa registrar que os "naturais da terra" haviam perguntado se havia interesse por madeira.
Indígenas cortando pau-brasil,
imagem do Século XVI (⁴) 
Sucede que não eram apenas os portugueses que viam no pau-brasil uma oportunidade de comércio e, portanto, de lucro. Navegadores de outras nacionalidades, especialmente franceses, eram assíduos frequentadores do litoral brasileiro, e diante deles as chamadas expedições guarda-costas eram quase inócuas. Jean de Léry (²), em conversa com tupinambás, foi interrogado quanto ao interesse dos franceses pelo pau-brasil - aos nativos da América parecia estranho que europeus viessem de muito longe para buscar lenha com que fazer fogueiras... Coube ao francês explicar que não era para queimar, mas para a extração de tinta que se usava o arabutan.
A incômoda pergunta seria repetida, um pouco mais tarde, a outro francês, o capuchinho Yves d'Évreux (³), que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614:
"Um dia disseram-me alguns [indígenas], que era preciso haver muita falta de madeira em França, e que experimentássemos muito frio para mandarmos navios de tão longe, à mercê de tantos perigos, carregarem de paus.
Respondi-lhes que não era para queimar, e sim para tingir de cores." (⁵)
Leitores, nada de achar graça na questão levantada pelos indígenas. Ignorando completamente como era a vida na Europa, eles apenas podiam imaginar o mundo segundo a vivência que tinham. Era choque de culturas, sim. Pergunto: Não serão muitos dos conflitos atuais, que assolam este mundo, resultantes, também, do quanto ainda desconhecemos em relação àqueles que diferem de nós?

(1) THEVET, André Cosmographie Universelle vol. 2
Paris: Guillaume Chaudiere, 1575, p. 950
(2) Francês, esteve no Rio de Janeiro em 1557, na malograda tentativa de estabelecimento da "França Antártica".
(3) Trabalhou como missionário na tentativa de estabelecimento da "França Equinocial", que, à semelhança da "França Antártica", fracassou.
(4) THEVET, André Les Singularitez de la France Antarctique
Paris: Maurice de La Porte, 1558, p. 117
(5) D'ÉVREUX, Yves Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Sobre a Opinião da Plebe

"Non sequeris turbam ad faciendum malum [...]."
Exodus 23, 2

Ir contra a multidão exige uma força moral que não é exatamente virtude generalizada na humanidade. Falemos sério, leitores: são poucas as pessoas que ousam manifestar e defender opinião contrária àquela que a maioria parece apoiar. Por outro lado, a força das multidões é incontestável - mas estariam elas sempre certas?
Fiz uma pequena seleção de momentos em que a atitude das massas teve importância para o rumo dos acontecimentos, todos relacionados à Antiga Roma. Então, leitores, vejam o que vem a seguir, mas com a convicção de que se trata apenas de uma amostra. A lista poderia ser muitíssimo mais longa - em se tratando de dar a volta ao mundo, faria concorrência a Fernão de Magalhães.

Espetáculos de gladiadores para agradar a plebe


Os primeiros torneios de gladiadores foram realizados em Roma para dar oportunidade de treinamento aos cidadãos livres, em ocasiões em que estavam dispensados de deveres militares. No entanto, os espetáculos sangrentos caíram no gosto dos romanos, de modo que figuras de destaque na vida política passaram a ver na realização de lutas entre gladiadores profissionais (¹) a ocasião perfeita para assegurar o favor popular. Daí resultaram consequências desastrosas, conforme argumentou Aneu Floro (²):
"Por que motivo os gladiadores se revoltaram contra seus treinadores, a não ser pelo fato de que se obtinha o favor da plebe com a realização de espetáculos, nos quais supliciar o oponente vencido chegou a ser uma arte?" (³)

Envolvimento popular na Conjuração de Catilina


De acordo com Salústio (⁴), "a plebe, desejando algo novo, apoiava o plano de Catilina" (⁵). Surpreendente? Nem um pouco. Qualquer um que levantasse a voz contra a autoridade senatorial tinha enorme chance de obter apoio da plebe, e foi, em princípio, exatamente o que ocorreu neste caso. Quando, porém, a maré se tornou desfavorável a Catilina e seus adeptos, as massas mudaram de partido, um fenômeno que também não é nenhuma raridade. Na interpretação de Salústio, "a plebe que, inicialmente, desejando coisas novas, favorecera a guerra civil, uma vez descoberta a conjuração, mudou de ideia, passou a execrar Catilina e a elevar Cícero aos céus, e, como se liberta de uma escravidão, se agitava em alegria e comemorações". (⁶)
Parece que a plebe teria compreendido que não lhe era nada favorável o plano de Catilina de incendiar a cidade de Roma. Afinal, as poucas coisas que o povo comum tinha como suas seriam consumidas pelas chamas.

Participação da plebe na perseguição de cristãos


Na visão de Tertuliano (⁷), a partir da primeira perseguição aos cristãos em Roma, nos dias de Nero, tornou-se usual colocar a culpa nos adeptos do cristianismo, sempre que o Império era afetado por algum problema grave. A perseguição recrudescia e, por consequência, nos circos havia novos banhos de sangue para abrandar o descontentamento público:
"A plebe amotinada pedia a perseguição dos cristãos, dizendo-os inimigos públicos do imperador e do Império, da religião, da pátria, da natureza e do mundo." (⁸)
E mais: 
"Se o Tibre alcança os muros da cidade, ou se o Nilo não transborda o suficiente para as plantações, se o céu, sem nuvens, não traz chuva, se há tremor de terra ou se ocorre escassez de trigo, ou se grassa a peste, o povo não tarda a gritar para que 'joguem os cristãos ao leão'. Para tantos cristãos um só leão?" (⁹)

Perdoem-me a aparente redundância, leitores, mas não sei se é preciso concluir com uma conclusão. Os fatos não falam por si mesmos? É fácil perceber que um abismo separa a democracia saudável das agitações incoerentes, nascidas talvez de causas legítimas, porém manipuladas para fins que não se ousa explicitar. Sêneca (¹º), cidadão romano, filósofo estoico, professor de Nero, opinou que "homens e mulheres, idosos e crianças, governantes e povo acorrem unânimes, e umas poucas palavras agitam de tal modo a multidão, que esta vai mais longe do que pretendia o agitador" (¹¹). Estava ele certo ou errado?

(1) Geralmente estrangeiros escravizados após derrota em luta contra os exércitos de Roma.
(2) Um autor contemporâneo do imperador Adriano.
(3) Epitome rerum Romanarum, Livro III.
(4) 86 - 34 a.C.
(5) Catilinae coniuratio
(6) Ib.
(7) c. 160 - 220 d.C.
(8) Apologia.
(9) Ib.
(10) 4 a.C. - 65 d.C.
(11) De Ira.
As citações de obras de Floro, Salústio, Tertuliano e Sêneca que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 5 de junho de 2018

Quando o Imperador Dizia Não

A Constituição Imperial de 1824 previa em detalhes o ritual a ser adotado quando a Assembleia Geral (composta pela Câmara dos Deputados e pela Câmara do Senado) aprovava um decreto qualquer, que, em seguida, devia ser encaminhado ao imperador para sanção, sem a qual não entraria em vigor. A fórmula de encaminhamento, estipulada no Capítulo IV, Artigo 62, era esta:
"A Assembleia Geral dirige ao imperador o Decreto incluso, que julga vantajoso e útil ao Império, e pede a Sua Majestade Imperial se digne dar a sua sanção."
Se o imperador concordava, devia responder: "O Imperador consente." (Art. 68). Não deixa de ser curiosa, porém, a fórmula estabelecida no caso de que Sua Majestade Imperial negasse a sanção, conforme se lê no Artigo 64:
"Recusando o Imperador prestar o seu consentimento, responderá nos termos seguintes - O Imperador quer meditar sobre o Projeto de Lei, para a seu tempo se resolver - ao que a Câmara responderá, que Louva a sua Majestade Imperial o interesse que toma pela Nação."
Os leitores deste blog, raciocinando dentro da lógica de uma democracia do Século XXI, talvez julguem que o imperador não fazia nada além de seu mais óbvio dever ao tomar interesse pelos assuntos da nação, sendo, portanto, dispensável qualquer louvor neste caso. Afinal, não era para isso mesmo que o imperador existia e era mantido com recursos públicos? Sim, mas em uma época em que havia ainda, mundo afora, muitos governos absolutos, o Império do Brasil, com sua Assembleia Geral de membros eleitos (por voto censitário), talvez não estivesse completamente mal. Ou estava?


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quinta-feira, 31 de maio de 2018

A Pobreza dos Missionários que Catequizavam Indígenas em Reduções na América do Sul

Para muitos missionários que se dedicavam à catequese de indígenas nos Séculos XVI e XVII, a vinda à América do Sul era uma viagem sem volta. Longe ficavam família, amigos, possibilidade de uma carreira de sucesso. À frente, o desconhecido. Para uns poucos, vida longa e a satisfação de ver o crescimento de uma obra que julgavam correta e mesmo indispensável (¹). Para a maioria, a pobreza extrema, os confrontos com indígenas e colonizadores, as doenças tropicais e, provavelmente, a morte precoce. Valia o mesmo para missionários nascidos na América.
Não havia a expectativa da chegada regular de suprimentos, até porque as viagens, nesse tempo, eram difíceis. Portanto, para o sustento diário, era preciso contar com o trabalho das próprias mãos e com a ajuda dos índios catecúmenos. Qualquer coisa diferente disso era vista como excepcional. Combatendo a escravização de indígenas, os missionários eram considerados por colonizadores como um entrave aos seus projetos de enriquecimento rápido, de modo que, entre a gente de origem europeia que se estabelecia na América, apenas os mais devotos estavam dispostos a cooperar com o sustento dos padres para a manutenção de reduções. 
Se quisermos saber como viviam os missionários nas reduções do Guayrá, devemos ir aos documentos deixados pelos próprios padres. A título de exemplo, veremos aqui o relato feito pelo jesuíta Antonio Ruiz de Montoya (²), por ocasião de uma visita aos padres José Cataldino e Simon Masseta na Redução de Nossa Senhora de Loreto (³):
"Cheguei à redução de Nossa Senhora de Loreto desejando ver aqueles dois homens notáveis, o padre José e o padre Simon. Encontrei-os pobríssimos, mas ricos de alegria. Por causa dos remendos, não era possível distinguir o tecido principal de suas roupas. Os sapatos, que haviam trazido do Paraguai, estavam remendados com pedaços de pano que cortavam da borda das sotainas." (⁴)
Isto quanto ao vestuário. Quanto à alimentação:
"O principal sustento eram batatas, bananas, raízes de mandioca [...]. A necessidade nos obrigou a semear com nossas mãos o trigo necessário às hóstias." (⁵)
A vida na América do Sul, nesses tempos, não era, portanto, muito parecida com tirar férias no paraíso. Se podemos crer no testemunho de Montoya, outro jesuíta, o padre Martin Urtazun, também missionário, veio a morrer, algum tempo depois, em consequência de severa desnutrição. Era já o Século XVII. No centênio precedente, entre os colonizadores que acompanharam D. Pedro de Mendoza na fundação de Buenos Aires, muitos morreram de fome. Os jesuítas talvez morressem com os olhos na eternidade. Para os "conquistadores" da América, porém, os reveses da vida colonial eram uma amarga decepção.

(1) Aqui, leitores, analisamos os fatos de que temos conhecimento através de documentos históricos. Não é intenção deste blog estabelecer juízo de valor em relação à catequese de indígenas.
(2) Montoya, filho de um espanhol de Sevilha, nasceu em Lima em 1582 e foi admitido na Companhia de Jesus em 1606. Passou a maior parte da vida envolvido na catequese e defesa dos indígenas contra a escravização perpetrada tanto por colonizadores espanhóis do Paraguai como por bandeirantes de São Paulo.
(3) Reputada por alguns como a mais antiga redução estabelecida no Guayrá; outros entendem que a primeira foi a de Santo Inácio.
(4) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus
Madrid: Imprenta del Reyno, 1639
(5) Ib. 
Os trechos citados de Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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