quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A Lei das Doze Tábuas

Os plebeus de Roma que viveram antes de 450 a.C. tinham um sério problema: precisavam, como todo mundo, obedecer às leis, mas nem mesmo sabiam que leis eram essas. Isso acontecia porque o patriciado, a pretexto de pias intenções religiosas, mas tencionando conservar para si todo o poder na cidade, havia resolvido que as leis eram um segredo que devia ser guardado pelos pontífices. Assim, uma pessoa podia ser acusada e punida por um delito que sequer sabia ser crime. Tal situação provou-se insustentável, de modo que, finalmente, as leis foram compiladas (¹) e passaram a ser de conhecimento público. De acordo com Tito Lívio (²), foram escritas em dez tábuas, às quais, posteriormente, foram anexadas outras duas, por se verificar que faltavam algumas leis. O conjunto da obra recebeu o nome de Lei das Doze Tábuas (³), porque foi exatamente assim que as normas foram afixadas no Fórum Romano. 
Infelizmente, o texto original da Lei das Doze Tábuas foi perdido, e o que hoje sabemos dela vem das citações em outros documentos e obras de autores da Antiguidade. É o suficiente, porém, para que se tenha a certeza de que, perto dela, leis severas como as do Código de Hamurabi pareceriam um enunciado humanitário. Vejamos, então, algumas amostras:
  • Aquele que fizer ou cantar uma música para insultar alguém deverá ser espancado até que morra.
  • Os frutos de uma árvore que venham a cair na propriedade de um vizinho podem ser recolhidos pelo dono da árvore.
  • Mulheres, ainda que adultas, permanecerão sob tutela [do pater familias], com exceção das virgens vestais, que serão livres.
  • É passível de punição aquele que deixar seu gado pastar no terreno de um vizinho.
  • É proibido consagrar [a um templo / aos deuses] qualquer coisa sobre a qual haja dúvida quanto ao verdadeiro proprietário [...].
  • Quem puser fogo [intencionalmente] em uma construção ou em [um campo de] cereais nas proximidades de uma casa será preso, chicoteado e queimado até a morte, desde que fique provado que sua ação foi consciente; se, porém, fizer isso por acidente, deverá reparar o dano [de acordo com suas posses].
  • Juízes ou árbitros legais que receberem suborno para favorecer alguém serão sentenciados à morte.
  • Fica proibido executar quem quer que não tenha sido [formalmente] condenado.
  • Escravos detidos em flagrante por roubo serão açoitados e jogados da rocha [Tarpeia].
  • Qualquer pessoa que for chamada a testemunhar e mentir será jogada da rocha Tarpeia.

(1) Pelos decênviros, dez homens especialmente designados para isso. 
(2) Ab urbe condita libri. Outra fonte importante para os mesmos acontecimentos (ainda que posterior à obra de Tito Lívio) é Epitome rerum Romanarum, de Aneu Floro.
(3) Lex Duodecim Tabularum.


terça-feira, 13 de novembro de 2018

Leilão de escravos

Quando alguém queria comprar um ou mais escravos, podia ir ao estabelecimento de um vendedor de "escravos novos", ou seja, de escravizados que haviam chegado recentemente da África e iriam para as mãos de seu primeiro "senhor" em solo brasileiro. Era também possível comprar cativos de um particular que planejava vender alguns dos que tinha. Havia, ainda, a opção de comprar escravos em um leilão. Dentre outras razões, escravos eram leiloados quando se tratava de converter em dinheiro (para partilha entre herdeiros ou satisfação de dívidas) os bens deixados por alguém que havia morrido. Escravos eram seres humanos como nós, tinham sentimentos como vocês e eu temos. Não obstante, eram comprados, vendidos, leiloados. Pensem nisso, leitores.
Vamos adiante. Para que vocês tenham uma ideia de como funcionava um leilão de escravos, vejam estes anúncios publicados em jornal, ambos no ano de 1852:

"Pelo Juízo de Órfãos e cartório do escrivão Castro se faz público que acham-se em praça duas escravas de nomes Francisca e Catarina, pertencentes à herança do finado José Justiniano Vieira Falcão; hão de as mesmas se arrematarem na casa da polícia no dia 10 do corrente às 10 horas da manhã, cujas avaliações acham-se no cartório do dito escrivão, e as escravas em poder de Tomás Luís Álvares, testamenteiro do dito finado." (¹)

"Por ordem do Ilustríssimo Sr. Dr. José Antônio Vaz de Carvalhaes, juiz de órfãos desta cidade e seu termo, se faz público que no dia vinte e oito do corrente, nas casas de audiência deste Juízo, ao meio-dia se arrematarão os escravos Generosa e seu filho, pertencentes à herança da finada Esméria Maria, da Freguesia da Penha, e a escrava Felicidade, de 16 anos de idade, pertencente a dois herdeiros do finado Joaquim Nunes Ribeiro, da Freguesia de Itapecerica. São Paulo, 12 de agosto de 1852. - O escrivão, Manoel José Simões Guimarães." (²)

Percebam que, como regra, não era dada a mais ínfima relevância à opinião dos escravos quanto à mudança de senhor. Talvez pareça que os cativos, em razão dos contínuos maus-tratos a que eram submetidos, aceitassem passivamente a mudança de "dono". Mas nem sempre era assim. Sabemos de um incidente, por registro do pintor francês Auguste François Biard, ocorrido no Rio de Janeiro em 1858. Com ele, a palavra:
"Durante minha permanência no Rio venderam-se sete escravos que pertenciam a um senhor de bom coração; esses pobres diabos [sic], habituados a ser tratados com doçura, não se conformavam com a ideia de irem cair a outras mãos e, nesse propósito, revoltaram-se, entrincheiraram-se. Ofereceram desesperada resistência a uns sessenta soldados e muitos deles só foram dominados depois de gravemente feridos. Levaram-nos então para a Correção. [...]." (³)
Sendo pintor, Biard fez um esboço de um leilão de escravos que presenciou, também no Rio de Janeiro. Convertido em desenho por E. Riou, esse esboço foi publicado na edição francesa de 1862 de Deux Années au Brésil, e vocês podem vê-lo logo abaixo:

Leilão de escravos (⁴)
Não deixem de observar, leitores, que, em posição dominante no cenário, o leiloeiro é retratado com seu emblemático martelinho, enquanto à volta, em meio a uma variedade de objetos, um potencial comprador, sem muita cerimônia, examina os dentes de uma escrava. Como se sabe, esse mesmo procedimento era usual, na época, entre os compradores de animais de carga.

(1) AURORA PAULISTANA, Ano I, nº 57, 3 de julho de 1852, p. 4
(2) AURORA PAULISTANA, Ano I, nº 68, 21 de agosto de 1852, p. 4
(3) BIARD, Auguste François Dois Anos no Brasil
Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 48
(4) BIARD, François Deux Années au Brésil
Paris: Hachette, 1862, p. 94


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O que é proletariado

O conceito de proletariado mais difundido atualmente é aquele proposto por Marx e Engels: "Por proletariado entende-se a classe dos modernos trabalhadores assalariados que, não tendo seus próprios meios de produção, são reduzidos a vender a força de trabalho para sobreviver" (¹).      
Contudo, o termo "proletariado" existe muito antes que o Manifesto Comunista viesse a público em 1848. Teria sido posto em uso político por Sérvio Túlio, o penúltimo dos sete reis de Roma, quando dividiu a população da cidade em centúrias. Os romanos muito ricos teriam maiores obrigações quanto ao sustento do Estado, mas também maiores direitos políticos. Os muito pobres, porém, não estavam completamente isentos de direitos, porque também tinham uma obrigação, e já verão o que era, leitores. 
Tem a palavra Marco Túlio Cícero, político, orador e escritor romano do Século I a.C.: "[...] àqueles que no censo demonstraram não ter outra posse além de suas pessoas, [Sérvio Túlio] chamou proletários, dos quais se esperava apenas que tivessem filhos, para assegurar a continuidade da cidade [de Roma]" (²). Assim, tudo se explica: a procriação por parte dos proletários, gerando uma descendência (³) que se desejava tão numerosa quanto possível, foi incentivada como um dever patriótico, por ser vital para compor o exército, garantindo a Roma o domínio do mundo à sua volta (⁴). 

(1) MARX, Karl et ENGELS, Friedrich Manifest der Kommunistischen Partei, 1848. 
(2) CÍCERO, Marco Túlio De re publica, Livro Segundo.
(3) Prole!
(4) Os trechos citados de Manifest der Kommunistischen Partei e De re publica foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Providências do padre Antônio Vieira para agilizar a catequese de indígenas no Maranhão

Vieira é conhecido dos jovens estudantes pelas aulas de Literatura, nas quais se estudam seus famosos Sermões. Mas foi também um missionário dedicado e, a seu modo, um protetor dos indígenas, de acordo com aquilo que, em seu tempo, se pensava ser o melhor para eles.
Reconhecendo que havia poucos missionários para a aventura da catequese em um território gigantesco, o padre Antônio Vieira adotou algumas medidas de ordem prática, cujo propósito era agilizar a doutrinação nas aldeias formadas por índios já catequizados e/ou catecúmenos. A ideia era simples: contar com a ajuda dos próprios ameríndios para a instrução religiosa, sempre que não fosse possível ter a presença de um jesuíta. Então, de acordo com a História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará (¹), escrita pelo padre José de Moraes:
  • Todas as aldeias indígenas controladas pela Companhia de Jesus deviam ter livros para registro de batismos, casamentos e óbitos;
  • Em cada aldeia deveriam ser selecionados dois rapazes, que receberiam instrução que os capacitasse a, diariamente, dirigir orações e doutrina na igreja;
  • Alguns índios deveriam receber preparo para que, na ausência dos padres, pudessem batizar catecúmenos e prestar assistência aos que estivessem para morrer.
Observando, de passagem, o quanto Vieira se mostrava pragmático na adoção dessas medidas, cumpre explicar que, na primeira delas, atendendo a uma determinação do Concílio de Trento, o missionário pretendia assegurar que ninguém, em cada aldeia, deixasse, a seu tempo, de receber o batismo, além de, com o registro dos casamentos, impedir a poligamia e as uniões consanguíneas vetadas pela Igreja - em tal contexto, tarefas bastante difíceis. 
Digam-me, leitores, estão curiosos para saber qual foi o resultado dessa estratégia? Nas palavras do padre José de Moraes, "exercitaram eles [os missionários] a ordem com tão grande zelo e atividade, que dentro em breve tempo não faltaram mestres para os homens e já sobejavam mestras para as mulheres, que de ordinário são as mais hábeis em aprender, e de melhor retentiva para ensinar" (²). Ao que parece, o plano de Vieira funcionou.

(1) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus. O tom bastante encomiástico em alguns trechos da obra pode, assim, ser facilmente explicado.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Deuses da Mesopotâmia

Povos de diferentes etnias, falando línguas distintas, viveram na Mesopotâmia na Antiguidade. Apesar disso, compartilhavam o culto a quase todos os deuses. É verdade que, às vezes, um mesmo deus ou deusa era venerado com nomes diferentes, mas, a despeito da variação na nomenclatura, sabemos que se tratava da mesma divindade porque a mitologia associada era muito semelhante. Além disso, não eram poucos os deuses vinculados à guerra, chamados "deus-sol", "deus-lua" (ou "deusa-lua") ou relacionados aos planetas, à fertilidade do solo, ao amor, à procriação, aos fenômenos da natureza. Em se tratando do culto aos deuses, povos da Antiguidade não tinham por hábito economizar nos encômios. Eram títulos e mais títulos, de modo que, às vezes, fica até difícil identificar a que deus, exatamente, se referiam.
Por que isso acontecia?
A antiga Mesopotâmia, em tempos nos quais o nomadismo era bastante comum, foi área de trânsito para muitos povos. Conviviam um pouco, pacificamente ou não, assimilavam algo da cultura alheia e seguiam em frente. O passar do tempo amalgamou elementos às vezes muito diversos, de modo que, com a sedentarização, as diferentes cidades, em se tratando de religião, tiveram muito em comum, ainda que, como regra, cada uma venerasse um deus principal, sem descartar o culto secundário a outras divindades. Portanto, a lista de deuses e deusas que veremos a seguir inclui, sem ser exaustiva, apenas as principais divindades cultuadas por assírios e babilônios (¹). Lembrem-se, leitores, de que havia uma infinidade de outros deuses e deusas. Era politeísmo às últimas consequências.


Relevo assírio retratando uma procissão em homenagem aos deuses (²)

Divindades cultuadas por assírios, babilônios e outros povos da Mesopotâmia


Marduk - Era o deus principal da Babilônia, retratado, muitas vezes, em companhia de quatro cães, embora também representado ao lado de um dragão dotado de dois chifres.  Era relacionado ao nascer do Sol. Sua companheira era Sarpanitu, vinculada ao nascer da Lua e, às vezes, a Vênus.
Ashur - Era cultuado exclusivamente pelos assírios, sendo, portanto, seu deus nacional e protetor da cidade de Ashur, que foi, durante muito tempo, a capital assíria. Representado frequentemente por um círculo dotado de asas, estava relacionado ao sol durante um eclipse.
Nusku - Guerreiro notável, esse deus era particularmente venerado pelos reis assírios. Era também considerado mensageiro de Marduk.
Nebu (ou Nebo, ou ainda Nabu) - Filho de Marduk, era cultuado em Borsipa. Tido como o deus-profeta, patrocinador das ciências, mensageiro dos deuses. Os escribas tinham em Nabu o seu patrono. Sua companheira chamava-se Tasmetu.  
Shamash - Seguramente uma das mais antigas divindades da Mesopotâmia, era o deus-sol (³). Por sua capacidade de iluminar todas as coisas, estava identificado como juiz tanto do céu como da terra. Ele e Aa, sua companheira, eram particularmente venerados em Larsa e Sippar. 
Ishtar - Deusa da criação, também venerada como Nina e, por isso, particularmente relacionada à cidade de Nínive, uma das capitais assírias. Um aspecto curioso de seu culto era a prática das oferendas de peixes. 
Amurru - Foi muito popular nos dias de Hamurabi. Era considerado o deus das montanhas.  
Sin Nannar ou Narnar - deus-lua; cujo principal centro de culto estava em Uru (⁴). Sua companheira era Nin-Uruwa, ou seja, a senhora de Uru. 
Rammanu (ou Rimmon, ou ainda Hadad) - Conhecido como o trovejador, era o deus das tempestades (⁵), vendavais e outros fenômenos correlatos. Sua companheira era Shala. 
Tamuz - Um dos deuses mais antigos e de culto mais amplo, a ponto de exceder os limites da Mesopotâmia. Era retratado como um pastor cuidando de seu rebanho. Sua companheira era Ishtar, deusa do amor e da guerra, cultuada principalmente em Erech e Nínive. Tamuz morria e ressurgia anualmente, sendo, por isso, identificado com a sucessão das estações do ano. 
Nin-Girsu (ou Ninurta) - Era cultuado em Lagash.  Às vezes Identificado com Tamuz, por ser, como ele, deus da agricultura. Bau, a deusa-mãe de Lagash, era sua companheira. 
Nergal - Era o deus do mundo dos mortos, do fogo, da guerra e causador das epidemias. Promovia destruição e, por isso, era invocado quando se esperava que agisse contra os inimigos na guerra. Seu principal centro de culto estava em Kutha, perto de Babilônia. Tinha Eresh-Kigal por companheira.

Relevo assírio em que o rei vitorioso é mostrado sob um círculo alado, símbolo do deus Ashur (⁶)


A consagração de uma estátua de Nebu na Assíria


Agora, meus leitores, veremos um desses documentos que, escritos em argila, sobreviveram para que soubéssemos como era a consagração da estátua de um deus na antiga Mesopotâmia. 
Foi em 798 a.C.: sob as ordens de um governador provincial assírio, uma estátua de Nebu foi edificada. Não devia ser um monumento qualquer, tendo em vista a grandiloquência de sua consagração, à qual não faltou nem mesmo um recadinho para os que viveriam muito tempo depois:
"Para Nebu, o protetor exaltado [...] que tudo vê, sem limites, o grande, o poderoso [...], cuja autoridade é suprema, mestre das artes, que vê tudo o que acontece no céu e na terra, que tudo sabe e tudo ouve, portador do estilo (⁷) de escriba [...], gracioso e majestoso, capaz de todo conhecimento e adivinhação, amado de Bel, senhor de senhores, cujo poder não tem rival, sem cujo conselho nada se faz no céu [...], ao grande senhor [...], para o bem de Ramman-nirari o rei da Assíria, seu senhor, e para o bem de Sammuramat, senhora do palácio e sua companheira, Bel-tarsi-iluma, governador das províncias de Kalach, Chamedi, Sirgana, Temeni e Yaluna, para que sua vida seja preservada e seus dias prolongados [...], para que haja paz em sua casa e em sua descendência e para que seja livre de toda enfermidade [esta estátua] foi feita e dedicada. Homem do futuro! Confie em Nebu, não confie em nenhum outro deus!"
Quem vivia na Antiguidade quase não tinha controle sobre as doenças, já que as verdadeiras causas das diferentes moléstias eram desconhecidas. A expectativa de vida, por consequência, era baixa e, na busca por cura e sobrevivência, era usual a invocação de divindades. É nesse contexto que se insere a dedicação da estátua de Nebu, homenageado, dessa vez, por assírios, embora fosse, também, estimadíssimo entre os babilônios. É bastante provável que proclamações semelhantes fossem realizadas onde quer que a consagração de um novo templo ou estátua ocorresse entre os demais mesopotâmios.  

(1) A ideia é apenas colocar um pouco de ordem no vastíssimo panteão da Mesopotâmia, venerado por sumérios, acádios, babilônios, assírios, etc.
(2) LAYARD, Austen Henry The Monuments of Nineveh
London: John Murray, 1853
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Ou um deles...
(4) Também conhecida como Ur.
(5) Quase toda mitologia tem um.
(6) LAYARD, Austen Henry Op. cit.
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(7) Pequeno bastão destinado à gravação da escrita cuneiforme em placas de argila.


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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Fundição e forja de ferro no interior do Brasil no Século XIX

Oficina de ferreiro (Museu Histórico e Geográfico
de Monte Sião - MG)
"É verdadeiramente vergonhoso", afirmou Saint-Hilaire (¹), "que num país onde este metal é tão abundante, proceda ainda do estrangeiro grande parte do que consome" (²). De que metal falava? Do ferro. 
Já tratei aqui neste blog de um empreendimento ambicioso, a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, da qual se esperava a produção de artefatos de ferro em larga escala. Seria injusto dizer que ela foi um fracasso absoluto; na mesma proporção seria inadequado sugerir que foi um sucesso retumbante. Assim, persistia a dependência de importações, geralmente de procedência britânica. 
Enquanto isso, em uma localidade remota no interior do Brasil, sem qualquer subvenção do Estado, trabalhava-se o ferro, ainda que em proporções reduzidas, para atender apenas à demanda local. O relato, pouco posterior à Independência, foi feito por Cunha Matos, ao visitar o arraial conhecido como Minas de Carlos Marinho, distrito de São Félix, pertencente, na época, à Província de Goiás:  "É muito abundante em excelente ferro, que vários pobríssimos fundidores reduzem a pequenas barras, que se vendem a 300 réis a libra." (³)
Décadas mais tarde (⁴), Richard F. Burton visitou a mina de Gongo Soco (⁵) e verificou que lá também se trabalhava em ferro, por um processo antiquado, apenas para atender às necessidades da extração de ouro na mesma localidade: "Aqui, a forja é um grosseiro banco de alvenaria, tendo 3,5 metros aproximadamente de comprimento por 3 metros de altura, com duas ou três bacias em forma de funil, de 30 cm de diâmetro, e abertas no fundo, adiante e atrás. [...]. O minério é quebrado em pedaços do tamanho aproximado de uma noz, sem prévio aquecimento ou joeiramento, e misturado na proporção de um terço para dois terços de carvão vegetal, mal medidos, por meio de um cesto; a mistura é colocada nas bacias do forno, que são previamente aquecidas e, de vez em quando, é ajuntado carvão vegetal. [...]. O negro (⁶) encarregado do fogo atiça-o alto com uma haste e sabe que o processo de fundição está terminado quando a espessa fumaça e a chama azul se transformam em uma labareda muito clara." (⁷)
A rabugice que transparece nos escritos de Burton poderia levar à conclusão de que exagerava nas deficiências do sistema observado em Gongo Soco. Não neste caso, porém. O processo adotado era rudimentar. De alta qualidade, somente o minério encontrado na área.

(1) Naturalista francês (1779 - 1853). Esteve no Brasil entre 1816 e 1822.
(2) SAINT-HILAIRE, Auguste de Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 115
(3) MATOS, Raimundo José da Cunha Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás Tomo II
Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 142
(4) Em 1867.
(5) Em Barão de Cocais - MG.
(6) Burton queria dizer que o trabalho era feito por um escravo. As ideias racistas desse autor são bastante conhecidas e dispensam comentários. 
(7) BURTON, Richard Francis Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho
Brasília: Ed. Senado Federal, 2001, p.. 371


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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Duas coisas sobre as mulheres que os antigos romanos não sabiam

Pode ser que os antigos romanos desconhecessem muitas outras coisas sobre as mulheres, mas para estas duas de que vamos tratar existe comprovação. Ambas podem ser lidas em Naturalis historia, e, segundo todas as aparênciasPlínio, o Velho, (¹), o grande enciclopedista do mundo romano, acreditava piamente no que escreveu. Vejamos, pois..
Homens e mulheres têm número diferente de dentes? (²) Plínio achava que sim: "Homens têm trinta e dois dentes", afirmou, "mulheres têm menos" (³). Só não explicou como foi que chegou a tal conclusão.
Tem mais. Plínio sabia que a população mundial se dividia em destros e canhotos, obviamente em proporções desiguais. A partir desse fato (verídico), pontificou: "A mão direita é mais forte, embora alguns tenham ambas fortes, e outros tenham mais forte a esquerda, o que nunca ocorre em mulheres [...]." (⁴) Ora, meus leitores, contrariando Plínio, posso afirmar, no mais extremo grau de certeza, que sim, isto ocorre em mulheres!
Não imaginem que estou desrespeitando um dos maiores gênios dos dias antigos. Nada disso. A pergunta que devemos fazer é: Por que um sábio como Plínio escrevia essas tolices?
Talvez a resposta esteja, em parte, no modo como se fazia ciência na Antiguidade. Poucos eram dados a investigar supostas informações, e menos numerosos ainda os que ousavam algum experimento para comprovar ou descartar uma suposição. Então, se a crença popular era de que mulheres tinham menos dentes que homens, dificilmente alguém iria andar examinando bocas para contar os dentes das senhoras romanas. Seria, no mínimo, um brutal constrangimento.
Outra questão importante está relacionada à educação que meninos e meninas recebiam em Roma, bem como às atividades quotidianas que homens e mulheres habitualmente realizavam. É perfeitamente possível que, não tendo aprendido a escrever, uma mulher passasse a vida toda sem saber que era canhota, malgrado o bullying das amigas por ser um pouco desastrada nos trabalhos de agulha e na execução de tarefas domésticas que  lhe haviam ensinado a fazer com uso da mão direita (⁵). 
Finalmente, podemos argumentar que a convivência entre homens e mulheres no mundo romano era muito diferente da que pode ser vista hoje no Ocidente. É verdade que as mulheres de Roma tinham mais direitos e mais liberdade que as gregas; também é fato que, como regra geral, não viviam trancafiadas em um compartimento da casa, de onde seria indecoroso sair, a não ser que acompanhadas por pai, marido, filho ou outro parente do sexo masculino. Mas também é notório que muitos homens se imaginavam em um plano superior, com suas atividades na vida pública, quer no exercício da política, quer em ocupações militares, e seu contato com as mulheres não ia, muitas vezes, além do tempo gasto para gerar filhos, intencionalmente ou não. Resultava, desse cenário, o pouco conhecimento e as muitas superstições que circulavam a respeito das mulheres. Parece surpreendente?

(1) 23 - 79 d.C.
(2) Supondo dentição completa, claro.
(3) Naturalis historia, Livro VII.
(4) Ibid.
Os trechos citados de Naturalis historia foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(5) Em tempos posteriores - lembremo-nos - canhotos, fossem homens ou mulheres, ainda sofreriam a discriminação dos que os viam como mensageiros do mal, por sua incrível habilidade com a mão esquerda. Talvez o futebol tenha contribuído para reabilitar canhotos, à medida que atletas notáveis com o pé esquerdo ganharam fama mundial. Em todo caso, não estão muito longe os dias em que alunos canhotos eram maltratados na escola e, não raro, obrigados a escrever com a mão direita. E depois ainda havia quem dissesse que canhotos "tinham letra feia"...


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