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quarta-feira, 2 de abril de 2025

O cultivo de café no Século XIX e o esgotamento do solo

Práticas equivocadas no cultivo do café levavam ao rápido esgotamento do solo e a mudanças das plantações para novas áreas.


Muitos fazendeiros de café do Século XIX, a despeito do lucro que obtinham com o cultivo, não tinham a menor ideia de que era preciso adotar técnicas de preservação do solo, bem como da necessidade do emprego regular de algum tipo de fertilizante. Nesse tempo a química aplicada à agricultura ainda engatinhava, e não seriam os fazendeiros brasileiros que teriam um amplo conhecimento desse assunto. Sob outros aspectos, o atraso era também quase geral, e muitos fazendeiros preferiam investir em mais escravos do que ousar adquirindo maquinário que pudesse substituir ferramentas tão modernas quanto as enxadas. Até arados eram pouco ou nada empregados em algumas áreas.
O segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, disse, ao dar orientações ao filho, um fazendeiro ainda jovem e um tanto inexperiente, que seria útil pensar no cultivo de chá, "vista a próxima ruína com que se acha ameaçada a cultura do café pela escassez de matas virgens [sic] e não dar ele senão em terras novas [...]" (¹). Portanto, os fazendeiros viviam em um ciclo mais ou menos contínuo que envolvia explorar uma área até esgotá-la e, então, ir em busca de outra, cujo cultivo inadequado também acabaria por arruinar. É de surpreender que afirmassem que somente "terras novas" eram boas para um cafezal?
A primeira edição da obra de Lacerda Werneck foi publicada em 1847. Décadas antes, mais exatamente em 1822, o cientista francês Auguste de Saint-Hilaire, ao passar por Areias - SP, observou que assim se fazia o estabelecimento de um cafezal:
"Tiram-se as mudas dos velhos cafezais. Começam elas a produzir aos três anos e estão em pleno vigor aos quatro. Quando o pé ainda é novo capina-se a terra duas ou três vezes, mas não se dá mais de uma carpa quando as árvores já estão vigorosas. [...] Não se podam as árvores, contentam-se os lavradores em descoroá-las para impedir que cresçam muito.
[...] Quando o arbusto principia a envelhecer, cortam-no e ele dá brotos que frutificam novamente." (²)
Seria razoável esperar que, com o correr dos anos, as técnicas de cultivo progredissem. Mas não foi o caso, se considerarmos o relato do casal Agassiz, que esteve no Brasil entre 1865 e 1866, no qual está presente nova menção ao abandono de uma área de cultivo, tão logo a produção começava a declinar:
"Planta-se primeiro um viveiro, onde a plantinha se desenvolve durante um ano. Passado esse lapso de tempo, arrancam-na com precaução e transportam-na para o lugar que vai definitivamente ocupar. Com três anos, o novo cafeeiro principia a dar frutos, mas a primeira colheita é mínima. Desde então, [...] continua a produzir, dando às vezes duas colheitas por ano, e mesmo mais, pelo prazo de trinta anos. Ao cabo deste período, o arbusto e o solo estão igualmente esgotados. É hábito então do fazendeiro abandonar completamente o velho cafezal, sem cuidar no entanto de restituir ao terreno seu valor e fertilidade. Derruba-se uma nova porção da floresta e refaz-se uma nova plantação. [...]" (³).
Árvores tombavam, florestas desapareciam, muitas vezes mediante queimadas (⁴), e novos cafezais eram plantados. Depois de alguns anos, a tragédia recomeçava, mas em outro lugar.

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À medida que leis que restringiam o trabalho escravo foram aprovadas, muitos fazendeiros perceberam que, de algum modo, suas fazendas deveriam ser cultivadas por mão de obra livre. Na foto abaixo (⁵), colonos estrangeiros são vistos colhendo café em uma propriedade agrícola no interior de São Paulo.


(1) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 74.
(2) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 117.
(3) AGASSIZ, Jean Louis R. e AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 129.
(4) Conhecidas como coivara.
(5) VALLENTIN, W. In Brasilien. Berlin: Hermann Paetel, 1909.

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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A implantação de ferrovias e o desenvolvimento da lavoura cafeeira em São Paulo

Que impacto exerceu a implantação de ferrovias no Estado de São Paulo? Segundo dados citados por Adolpho Augusto Pinto em História da Viação Pública em de São Paulo (¹), no ano em que foi inaugurado o primeiro trecho ferroviário na então Província de São Paulo, a situação era a seguinte:


Já na entrada do Século XX podia ser constatada uma mudança radical:


Muita coisa aconteceu nesses poucos anos. O Brasil, que era um Império, viera a ser uma República, de modo que a antiga Província agora recebia o nome de Estado de São Paulo. O trabalho escravo fora extinto e os trens vinham de Santos apinhados de imigrantes que jogavam todas as suas esperanças nas férteis terras do chamado Oeste Paulista (²). A virada econômica, para Adolpho Augusto Pinto, um entusiasta das ferrovias, era decorrente da implantação dos "caminhos de ferro":
"Pois bem, aparece o caminho de ferro, aperfeiçoa-se a viação pública, e o resultado é como se no organismo social se tivesse inoculado o seu princípio vital. [...]." (³)
Ora, leitores, seria ingenuidade supor que a simples implantação de ferrovias produziu essa mágica. As ferrovias - muito importantes, sim - foram estabelecidas porque havia uma demanda por transportes que justificava o investimento. Por outro lado, é forçoso considerar que, havendo ferrovias, era mais fácil exportar café e o produto chegava ao porto em melhores condições para satisfazer às exigências do mercado. Compensava, pois, expandir a lavoura, e isso se fez com tal exagero que, por superprodução, acarretou um decréscimo nos preços internacionais do café (embora essa não fosse a única causa).
Para produzir mais, nas condições vigentes no Brasil do Século XIX, em que predominava baixíssima mecanização da agricultura, era necessário mão de obra além da já existente no País, daí a ênfase na imigração, secundada pela situação política e econômica na Europa. Populações que se viam sem perspectivas favoráveis no país de origem vinham buscar novas oportunidades no Continente Americano.
No limiar do Século XX, São Paulo não era só café. Mas era principalmente café. As ferrovias foram, em parte, causa e consequência para esse cenário. 

(1) PINTO, Adolpho Augusto. História da Viação Pública de São Paulo. São Paulo: Typographia e Papelaria de Vanorden & Cia., 1903, p. 315.
(2) Que não correspondia ao Oeste geográfico do Estado de São Paulo.
(3) PINTO, Adolpho Augusto. Op. cit., p. 315.


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sexta-feira, 30 de maio de 2014

A rotina dos escravos em uma fazenda produtora de café

Ao tempo em que, no Brasil, havia trabalho escravo, a manutenção da rotina diária era muito importante nas propriedades agrícolas, como forma de evitar rebeliões entre os trabalhadores submetidos a tão duras condições de vida. "Nada de novidades", parecia ser a regra fundamental.
O escravo recém-chegado era logo inteirado das obrigações que, quotidianamente, deveria executar, sempre sob os olhares atentos (e muitas vezes cruéis) dos feitores.
Isso não significa que todas as fazendas obedecessem à mesma rotina, mas havia uma certa semelhança, resguardadas diferenças decorrentes do tamanho da propriedade agrícola e do tipo de cultivo predominante.
Em visita ao Brasil (chegou em setembro de 1842), o Príncipe Adalberto da Prússia teve ocasião de ir até uma fazenda de café, não muito longe do Rio de Janeiro, a Capital do Brasil na época. Ali, fez um registro cuidadoso quanto à rotina dos escravos, observando horários que eram cumpridos, bem como a alimentação que recebiam:
"O trabalho na fazenda começa às quatro e meia da madrugada, depois de todos os escravos terem tomado café com açúcar. Às dez horas almoçam, constando o almoço de farinha de mandioca, arroz cozido ou milho. Às duas horas jantam e comem carne-seca (cuja maior parte vem de Buenos Aires) com arroz e farinha, se bem que na região costumam receber só carne e gordura de porco como alimentação animal comum, porquanto o transporte da carne-seca do Rio até aqui é muito caro." (¹)
Faço uma breve pausa para recordar a meus leitores o problema que, naqueles tempos, suscitavam os altos impostos com que era taxado o charque do Rio Grande do Sul que - tremendo absurdo - chegava a tornar mais vantajosa a importação de carne-seca da Argentina, como bem refere o autor de Brasil: Amazônia - Xingu. Mas é hora de prosseguir, já que, às duas da tarde, a jornada de um escravo estava longe de acabar. Continua o Príncipe Adalberto:
"Depois toca a trabalhar novamente até às sete horas da noite. Das sete às nove ceiam novamente arroz ou farinha de mandioca ou de milho, e de nove horas em diante é tempo de dormir; contudo em vez disto vêm as conversas em comum, quase sempre até depois da meia-noite." (²)

Colheita do Café (³)

O trabalho escorchante e a péssima alimentação resultavam em uma expectativa de vida quase sempre muito baixa para os escravos obrigados a ocupar-se das tarefas de cultivo. Agregue-se a isso o tempo insuficiente de repouso e ter-se-á uma visão aterradora do que era ser escravo, a despeito do lampejo de sociabilidade insinuado pelas conversas que seguiam noite adentro. Alguns anos mais tarde, com a proibição do tráfico de africanos no Brasil, os senhores teriam de preocupar-se um pouco mais com a sobrevivência de seus escravos. O preço das "peças" sofreria considerável elevação, dependendo apenas do mercado interno.
Melhorou assim a vida dos escravos? Pouco ou quase nada. Escravos eram sempre escravos, e na privação da liberdade pessoal estava centralizada a desgraça desses trabalhadores. O mais era apenas consequência.

(1) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 130.
(2) Ibid.
(3) SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p. 177.


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terça-feira, 21 de junho de 2011

Sobre o inverno e suas consequências na República Velha

                                                                 O inverno envolto em mantos de geada
                                                                        Cresta a rosa de amor que além se erguera...
                                                                        Ave de arribação, voa, anuncia
                                                                        Da liberdade a santa primavera.
                                                                                Castro Alves, Adeus, Meu Canto

Hoje, 21 de junho, é, oficialmente, início do verão no Hemisfério Norte e do inverno no Hemisfério Sul. Por tradição, as festividades relacionadas ao Solstício de Verão sempre tiveram maior importância do que suas congêneres associadas ao Solstício de Inverno, o que é facilmente compreensível se tivermos em conta o fato de que as primeiras são celebrações associadas ao sol, à luz e aos dias tépidos, sempre mais apreciados que as longas (em alguns lugares longuíssimas) noites de inverno.
Ainda assim, no caso do Brasil, ao menos nas regiões em que há efetivamente uma estação que pode ser chamada de inverno, a época é agradável, não apenas pela óbvia associação às festas juninas, mas por uma série de pequenos prazeres que vêm junto com os dias frios, como é o caso das comidas típicas da época - sopas, fondues, chocolate quente...
Vale lembrar, porém, que já houve tempo em que a chegada dos meses mais frios era, a cada ano, uma fase de grande apreensão para fazendeiros e, por extensão, para governantes do Brasil, particularmente no Estado de São Paulo, no qual a agricultura cafeeira representava, até fins da década de 1920, um papel econômico preponderante. Expliquemos.
A maioria dos cafeicultores buscava capitais junto a instituições financeiras e, como é prática recorrente na agricultura, saldava seus compromissos com a venda da safra. Entretanto, em relação ao café, havia um problema gravíssimo, ou seja, a geada, que por vezes comparecia nos meses mais frios, o que no caso de São Paulo, equivale a dizer, a partir de maio. Nesse caso, um cafeicultor de levara três ou quatro anos formando um cafezal, esperando talvez a partir do quinto ano obter lucros, corria o sério risco de ver seu empreendimento fracassar sob uma eventual geada que podia danificar toda a safra, o que significava afundar em dívidas e até perder a propriedade. Daí o pavor que, nas décadas iniciais do século XX, quando as condições de previsão do tempo eram meramente empíricas, tomava conta dos agricultores quando a temperatura despencava, fossem eles pequenos proprietários ou grandes fazendeiros politicamente muito influentes.
Fato curioso é que, se a safra era ruim, devido às geadas, os cafeicultores tinham problemas, mas se era muito boa, havia problemas também. Por quê? Simples, a safra ruim trazia endividamento, a safra muito boa trazia superprodução e consequente queda nos preços de mercado, a despeito da intervenção estatal no sentido de frear a expansão dos cafezais e garantir o preço mínimo para o produto. Pode imaginar, leitor, o quanto a economia brasileira era refém do café, produto absolutamente dominante na pauta de exportações durante a República Velha!
Mudando levemente de assunto (você verá que quase nadinha), as primeiras décadas do século XX, com a nova realidade trazida pela imigração, foram marcadas por um crescimento - sutil, a princípio - no grau de consciência social. O país saíra, tardiamente, da lógica do escravismo, que muita gente considerava "natural", para uma nova situação em termos de relações de trabalho e de estratificação social. Assim, coisas que nem eram observadas com muito cuidado, começaram, aos poucos, a chamar a atenção. Veja, leitor, essa capa de uma edição de A Cigarra:


Quem quer que tome tempo para analisar as capas da revista em seus muitos números de anos anteriores verá o quanto era ousada a crítica embutida nessa edição (*). Era 1919. O mundo, não só o Brasil, passava por grandes transformações.

(*) Edição de sexta-feira, 1º de agosto de 1919. 
Observação importante: a crítica social contida na capa em análise não invalida o fato de que animais domésticos devem receber proteção adequada no inverno. Ao contrário de animais que vivem livres na natureza, eles não têm como procurar por si mesmos uma caverna para abrigo ou outra proteção qualquer, portanto precisam de nosso cuidado.


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