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terça-feira, 3 de julho de 2018

Embaúbas

Embaúbas (¹) podem ser encontradas em quase todo o Brasil e em outros pontos do Continente Americano. Por seu aspecto curioso, atraíram a atenção de viajantes estrangeiros que passaram pelo Brasil em diversos momentos do Século XIX. Thomas Ender, por exemplo, um pintor vienense que esteve no Brasil durante o governo joanino, esboçou-as assim:

Embaúbas, de acordo com Thomas Ender (²)

J. M. Rugendas, que esteve no Brasil durante a terceira década do Século XIX, incluiu uma embaúba nesta gravura, cujo título em Malerische Reise in Brasilien é "Encontro de índios com viajantes europeus". Observem, leitores, na parte superior à direita:

"Encontro de índios com viajantes europeus", de acordo com Rugendas (²)

Um pouco mais tarde, o príncipe Adalberto da Prússia, que chegou ao Rio de Janeiro em 1842, anotou em suas recordações de viagem:
"Tinha um aspecto peculiar um grupo de embaúbas cujos troncos brancos, lisos e finos, enraizados numa colina ao lado do caminho, erguiam-se altos saindo do mato, e cuja pequena coroa era formada por grandes folhas recortadas pitorescamente, encostadas umas nas outras ou sobrepondo-se." (³)

Embaúba jovem, obra de Thomas Ender (²)

O tronco das embaúbas é oco. Alheias a todo o interesse de viajantes estrangeiros pelas espécies nativas da América, formigas fizeram e fazem residência confortável dentro dessas árvores. 

(1) Cecropia.
(2) Os originais pertencem à BNDigital. As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog. 
(3) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 115.


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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O "beija-mão"

O "beija-mão" na Corte do Rio de Janeiro ao tempo de D. João VI (¹)

O "beija-mão" era uma cerimônia que nós hoje consideraríamos ridícula, mas que já foi muito prezada no passado: nela, o monarca dava a mão a beijar a seus leais súditos, que para isso faziam fila e, conseguindo seu intento, tinham-se na conta de muito favorecidos.
Esqueçam o componente da brutal falta de higiene, que é preocupação nossa; antigamente quase ninguém dava muita importância para isso. Afinal, era mão do rei ou imperador... Está bem, havia gente que achava nojento, concordo, mas vamos adiante.
Segundo relato de Alexandre J. de Mello Moraes (²), D. João VI, durante sua estada no Rio de Janeiro (³), costumava realizar o beija-mão quase todos os dias, quando retornava ao Palácio de São Cristóvão, após seu passeio vespertino. Ao que parece, sempre que estava de bom humor, o rei demonstrava a maior complacência com o ritual, ainda que isso atrasasse um pouco a ceia, essa, sim, um acontecimento da maior importância em sua agenda. Quanto aos beijoqueiros, lá se iam, felizes da vida, a contar para meio mundo que haviam beijado a mão do rei. Em datas importantes o beija-mão era mais cerimonioso e acontecia no interior do palácio.
Com as devidas formalidades, o beija-mão prosseguiu no Brasil durante o governo de D. Pedro I, sendo a cerimônia restrita, em alguns casos, à gente da Corte, embora, em certos dias, fosse considerada geral, ou seja, para quem quisesse ou fosse admitido à presença de Sua Majestade. Um acontecimento nada desprezível, também referido por Mello Morais, é que, quando faleceu a imperatriz D. Leopoldina, houve beija-mão do cadáver, por parte dos filhos e da criadagem.
O Príncipe Adalberto da Prússia, que esteve no Brasil em 1842 e teve a oportunidade de presenciar um beija-mão na data comemorativa da Independência, quando o imperador era o jovem D. Pedro II, observou: "Vieram então os militares e civis por corporações para o beija-mão." (⁴) 
A ocasião era muito importante e, por isso, leitores, nada de esperar a quase informalidade do beija-mão ao pé da escada em São Cristóvão, como no "tempo do rei". Vê-se apenas que, malgrado o passar dos anos, a mania de oscular devotamente a mão do monarca continuava em vigor. Lembremo-nos de que, em 1842, Robert Koch nem havia nascido - só veio ao mundo no ano seguinte - mas faria, ao longo da vida, um trabalho notável para informar à humanidade a existência de coisas tão minúsculas que, mesmo não estando ao alcance da vista, tornavam o beija-mão muito pouco recomendável.

(1) A.P.D.G. Sketches of Portuguese Life London: Geo. B. Whittaker, 1826.
(2) MORAES, Alexandre José de Mello. Crônica Geral do Brasil vol. 2. Rio de Janeiro: Garnier, 1886, pp. 155 e 258.
(3) 1808 - 1821
(4) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 58.


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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Como indígenas do Brasil faziam contas

Segundo um grande número de relatos, povos indígenas do Brasil eram hábeis em usar a calculadora mais antiga do mundo. Sim, aquela mesma, leitores, que vocês devem ter usado em seus primeiros anos escolares, malgrado a oposição dos professores ou dos pais, quando acompanhavam suas tarefas. Já sabem do que estou falando, não?
Hans Staden, que foi prisioneiro dos tupinambás no Século XVI, teve sorte suficiente para escapar de virar moquém (¹) e, depois de tudo isso, ainda publicou um livro na Alemanha, no qual relatou:
"Eles [os indígenas] não sabem contar além de cinco. Quando desejam contar, nomeiam os dedos das mãos e dos pés. Se querem falar de números maiores, mostram quatro ou cinco pessoas, para dizer os dedos e artelhos que têm." (²)
Uma informação semelhante vem de Frei Vicente do Salvador, que concluiu o manuscrito de sua História do Brasil por volta de 1627; observem a tentativa de justificar por que indígenas não tinham um sistema altamente sofisticado para indicar quantidades:
"Jamais usam de pesos e medidas, nem têm números por onde contem mais que até cinco, e se a conta houver de passar daí a fazem pelos dedos das mãos e pés, o que lhes nasce da sua pouca cobiça [...]."
Explicando que indígenas tinham dificuldade em estabelecer uma conta exata dos rios que constituíam uma bacia, o jesuíta Simão de Vasconcelos observou, em obra cuja primeira edição é datada da segunda metade do Século XVII:
"[...] As nações que habitavam a circunferência [sic] do rio, e seus grandes braços, não podiam contá-la, não só pelos dedos das mãos e dos pés, por onde costumam contar, mas nem ainda com os seixos da praia [...]." (³)
Como os leitores devem ter notado, a novidade apresentada por Simão de Vasconcelos é a menção ao uso de "seixos da praia", para indicar quantidades que não podiam ser contadas com os dedos. Mas vamos, agora, a uma última referência, que nos vem da obra do Príncipe Adalberto da Prússia. Quando percorria o Xingu, anotou em seu diário de viagem, em um dia de dezembro de 1842, este relato do encontro com um chefe juruna bastante idoso, que lhe contava como reunia gente para ir fazer guerra a uma maloca pertencente a desafetos:
"Para o pôr do sol reuniram-se muitos índios diante da cabana do tuxava de Piranhaquara, um velho amável, cujos compridos cabelos brancos caíam sobre os ombros escuros. [...] Para nos mostrar o número dos que o acompanharam, contava os dedos das mãos e dos pés, e, por fim, fazendo um largo círculo em volta, apontava para as mãos e os pés de todos os circunstantes, para significar que o número dos seus era igual à soma dos dedos dos pés e das mãos de todos nós." (⁴)
Ora, meus leitores, é muito fácil constatar que, entre a descrição do método indígena de contar feita por Hans Staden, que esteve entre os tupinambás no Século XVI, e a que aparece na obra do Príncipe Adalberto, que andou entre jurunas em meados do Século XIX, há uma semelhança notável. Como pode ser isso, já que todos sabemos o quanto os séculos de colonização afetaram as variadas culturas dos povos indígenas do Brasil? 
A explicação é bastante simples: os tupinambás que Hans Staden encontrou viviam em áreas litorâneas do Sudeste e, em consequência do confronto precoce com colonizadores, não tardaram a "desaparecer"; os jurunas que o príncipe Adalberto conheceu viviam, por assim dizer, no coração do Brasil, portanto em uma área que, no Século XIX, ainda era relativamente pouco afetada pela presença de não indígenas, daí não ser uma completa surpresa a permanência de elementos da cultura tradicional, como era o caso da forma de contar. Não creio que seja necessário recordar que, para bem e/ou para mal, as coisas não permaneceram assim por muito tempo.

(1) Não foi, por muito pouco, o prato principal de um festim antropofágico.
(2) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557. O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 37.
(4) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 322.


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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Danças dos povos indígenas do Brasil

Uma característica comum aos povos indígenas do Brasil, conforme relatos dos mais variados autores que tiveram contato com eles no Período Colonial, era o grande apreço pela música e pela dança. Os missionários jesuítas, longe de trabalharem por banir essas preferências, trataram de usá-las como aliadas na catequese. No Rio de Janeiro, por exemplo, para celebrar a chegada do visitador dos jesuítas, padre Cristóvão de Gouvêa (¹), os meninos indígenas apresentaram, de acordo com relato do padre Fernão Cardim, "a mais aprazível dança":
"Era para ver uma dança de meninos índios, o mais velho seria de oito anos, todos nuzinhos, pintados de certas cores aprazíveis, com seus cascavéis (²) nos pés, e braços, pernas, cinta e cabeças com várias invenções de diademas de penas, colares e braceletes; parece-me que se os viram nesse Reino, que andaram todo o dia atrás deles; foi a mais aprazível dança que destes meninos cá vi [...]." (³)
No Século XIX, em razão do crescimento tanto do interesse como da curiosidade pelo Brasil, viajantes estrangeiros percorreram vários pontos do País, e alguns deles deixaram depoimentos escritos quanto às danças indígenas que tiveram a oportunidade de presenciar. É difícil dizer o quanto as danças observadas eram, ainda, autenticamente indígenas, já que em alguns casos há indícios de que pareciam encomendadas para "agradar aos turistas". Mas vamos a dois registros, apenas para dar uma ideia do que podia ser visto.
Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff (1825 - 1829), presenciou uma série de movimentos lúdicos dos bororos, executados a partir da formação de um círculo:
"A princípio não fazem mais do que levantar um pé e depois outro, seguindo uma toada lenta que marcam batendo com as mãos, e acompanhada de um canto rouquenho, baixo e demorado como o compasso. De repente param, dão um grande berro e saltam [...]. Em seguida recomeçam com a monótona dança.
Enquanto os bororos a executavam, dois deles, dentro do círculo, representavam o jogo do tamanduá. Um põe-se de quatro pés com uma criança agarrada às costas: é a fêmea do tamanduá-bandeira e seu filhote. Outro o incita, pondo-lhe a ponta de um pau no nariz, imitando com muita fidelidade os movimentos letárgicos do animal; o que faz de tamanduá levanta devagar a cara e uma das mãos, com os dedos curvos como que querendo agarrar o pau: quando se adianta, o outro recua. [...].
Esses índios imitam também suas lutas com a onça, a caçada da anta, lobo, veado, etc." (⁴)
O Príncipe Adalberto da Prússia, que chegou ao Rio de Janeiro em 1842, observou uma dança dos puris, cujo propósito era, também, imitar os movimentos de vários animais nativos da América:
"A dança consistia num bambolear dum lado para o outro acompanhado dum canto monótono, muito fanhoso. Devia representar simbolicamente, a luta de um anum (eu porém compreendi que era duma mosca) contra um boi; uma outra mais tarde descrevia o caititu, o porco-do-mato, correndo dum lado para o outro na floresta; assim foi, pelo menos, que me explicou o próprio puri esta espécie de improvisações." (⁵)
Ora, meus leitores, os bovinos não são originários do Continente Americano. Se, de fato, a dança presenciada representava um desentendimento entre um anum (ave) e um boi, já havia nela uma construção posterior ao início da colonização. 

Dança dos índios puris (⁶)
Muitos autores trataram desse tema das danças indígenas em seus diários de viagem e quem quiser um aprofundamento no assunto não terá dificuldade em encontrar material para estudo. Deve-se levar sempre em conta, porém, que viajantes estrangeiros observavam as danças através do filtro de sua cultura de origem e, sendo numerosos os povos indígenas do Brasil, é preciso cuidado para não incorrer em generalizações que empobreçam a investigação de suas expressões rituais e/ou artísticas.

(1) Essa Visitação ao Brasil ocorreu entre 1583 e 1590.
(2) Guizos.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 92.
(4) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 169.
(5) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 147.
(6) SPIX, Johann B. von et MARTIUS, Carl F. P. von. Atlas zur Reise in Brasilien. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Cigarras do Brasil

Quem dentre os leitores gosta de ouvir o canto (¹) das cigarras? Há bastante tempo alguém me falou de uma senhora que  tinha ódio a elas, pois julgava que o tal canto repetia-lhe o nome continuamente... É fato que cada um ouve, por assim dizer, aquilo que quer, nos sons da natureza, e, nesse caso não era diferente.
Acho que também Machado de Assis não era um apaixonado pelo canto desses insetos. Vai aqui um trecho de uma coluna que escreveu para a Gazeta de Notícias, publicada em 7 de janeiro de 1894:
"Entra o galo e faz com a cigarra um concerto de vozes, que me acorda inteiramente. [...]
Pássaros, galo, cigarra, entoam a sinfonia matutina, até que salto da cama e abro a janela.
[...]
Ir-me-á cantar, todo o verão, esta cigarra estrídula? Canta, e que eu te ouça, amiga minha; é sinal de que não haverei entrado no obituário do mesmo verão, que já sobe a cinquenta pessoas diárias. Disseram-mo; eu não me dou ao trabalho de contar os mortos."
Entre as cigarras a espécie mais comum na faixa leste do Brasil é a Carineta fasciculata, mas não pensem que elas são exclusivas do Brasil. Há, no mundo, mais de mil e quinhentas espécies conhecidas e, na década de quarenta do Século XIX, uma delas deve ter atormentado os ouvidos  do príncipe Adalberto da Prússia, que, em suas andanças pelo Rio de Janeiro, registrou: "...já estava escuro, e as cigarras já começavam a cantar quando chegamos à chácara das Mangueiras. O som que estas cantoras brasileiras emitem fere os ouvidos; só posso compará-lo, é claro que em miniatura, ao desagradável apito de uma locomotiva." (²) 
Vejam, então, os senhores leitores que, havendo cigarras pelo mundo afora, as do Brasil cantavam demais, ao menos para os ouvidos sensíveis do príncipe prussiano.
Já ouvi comentários e li algumas observações de que as cigarras de São Paulo cantam de modo diferente do que pode ser encontrado em todas as outras regiões do Brasil. Ora, não sei se é verdade, mas observei que, quando começa o berreiro, parece haver uma vibração algo particular. Serão de alguma espécie diferente? Não sei, não sou especialista em cantorias de cigarras. Apenas tenho delas as melhores recordações de uma travessura dos tempos de universidade que, por suposto, não seria apropriado contar aqui.

Zi - Zi - Zi - Zi - Zi - Ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiih
(é uma cigarra paulista)

(1) Apenas os machos emitem o ruído característico das cigarras que, aliás, não provém da boca.
(2) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 32.


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quarta-feira, 4 de março de 2015

O vestuário típico de um mineiro no Século XIX

Nesta imagem de Rugendas (¹), retratando habitantes de Minas, podem ser vistos
tanto as botas altas como o poncho típicos da região no Século XIX

O que é que determina o vestuário típico de um lugar? Tradições, materiais disponíveis, técnicas dominadas para tecer e costurar? Clima? Costumes religiosos? Estilo de vida ou principais ocupações da população? 
Sim, esses são fatores importantes, e vários outros poderiam ser ainda citados. No caso do Brasil, a população colonial trazia costumes e técnicas originárias da Península Ibérica, que foram amalgamados a tradições africanas e indígenas, adaptando-se às condições climáticas dominantes, para produzir uma variedade de trajares, regionalmente adequados, em virtude da vastidão do território. 
Foi assim que surgiu, por exemplo, o vestuário usual entre habitantes de Minas Gerais. Tão conveniente era essa indumentária que viajantes, ainda que não fossem "mineiros", eram vistos frequentemente usando o que se costumava chamar de "botas mineiras", assim descritas pelo Príncipe Adalberto da Prússia, que chegou ao Brasil em 1842:
"Estas botas são de couro marrom, de veado, sobem até ao meio das coxas [...], ou também, à vontade, dobram para baixo à semelhança das botas turcas de pano [...], finalmente, também se enrugam em pregas [...]." (²)
Mas não era só. O trajar típico de um mineiro, afeito a viagens nas quais a mudança de temperatura podia ocorrer bruscamente, em particular na transição das horas de luz para a noite, ou mesmo à ocorrência de chuvas repentinas, incluía um poncho, que primava pela praticidade, conforme contou ainda o Príncipe Adalberto:
"O poncho é a principal peça da indumentária do mineiro; um manto muito simples que consiste num grande quadrado de pano de lã com uma abertura redonda no centro, para enfiar a cabeça. O brasileiro sabe usar o poncho com perfeição; ora atira-o pitorescamente por cima dos ombros, ora ajeita-o sobre o peito de maneira que os braços (porque não tem mangas) ficam inteiramente de fora e aparecendo o forro vermelho, o que fica muito bem e lhes dá um aspecto peculiar. Este manto é leve, fresco e protege contra a chuva, sendo assim muito conveniente para este clima; é fácil de transportar, serve de porta-mantas, para carregar roupas, e muitas vezes me serviu de cobertor e de macio travesseiro." (³)

Viajante mineiro típico, com botas e poncho (⁴)
A praticidade de um poncho mineiro fazia com que mesmo os tropeiros e viajantes de outros lugares viessem a adotá-lo. Foi o que aconteceu com o príncipe, um usuário confesso tanto do poncho como das botas de Minas, para suas andanças por terras brasileiras, isso na década de quarenta do Século XIX.

(1) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, pp. 71 e 72.
(3) Ibid., p. 72.
(4) _________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig &; Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Escravos vendedores

Durante a escravidão, havia escravos especializados em várias tarefas


"Com efeito, eram diferentes letras, e só então reparei nisto; apontei ainda outros escravos, alguns com os mesmos nomes, distinguindo-se por um apelido, ou da pessoa, como João Fulo, Maria Gorda, ou de nação, como Pedro Benguela, Antônio Moçambique...- E estão todos aqui em casa? perguntou ele.- Não, alguns andam ganhando na rua, outros estão alugados. Não era possível ter todos em casa. Nem são todos os da roça; a maior parte ficou lá."
Machado de Assis, Dom Casmurro

Escrava vendedora de
galinhas (²)
Assim como os trabalhadores livres, escravos podiam também ser especializados em alguma tarefa, fosse porque tivessem aprendido um ofício, fosse porque os respectivos senhores os destinavam a certos trabalhos em particular. Desse modo, havia escravos vendedores, escravos "de recados", escravos (especialmente escravas) para afazeres domésticos, escravos "do eito", ou seja, da lavoura, e assim por diante.
Quanto aos ofícios, propriamente, havia escravos sapateiros, pedreiros, barbeiros... Disso decorria que o proprietário, às vezes, alugava o(s) escravo(s) para que prestasse(m) serviço a outras pessoas. É claro que o pagamento pelo trabalho ia para as mãos do senhor e não do escravo, embora certos acordos não fossem proibidos. Não havia nenhum regulamento que impedisse um senhor de prometer ao escravo uma parte dos ganhos, uma "comissão", no caso de escravos encarregados da venda de um produto qualquer.
Viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil durante o Século XIX notaram que era grande o número de escravos que, pelas ruas do Rio de Janeiro, apregoavam uma variedade de artigos para venda. Há registros escritos e iconográficos desse costume. Como exemplo, vejamos um trechinho anotado pelo príncipe Adalberto da Prússia:

Escrava vendedora de frutas (³)
"Frequentemente os negros que passavam carregavam na cabeça caixas envidraçadas com artigos de armarinho para vender; muitas vezes vendendo roletes de cana-de-açúcar também. Muito originais e quase grotescos são os pregões com que gritam ou cantam apregoando sua mercadoria." (¹)
Havia, é certo, escravas com enormes tabuleiros de doces, havia quem vendesse bonecas de pano e outros brinquedos rústicos - coisas que faziam a delícia das crianças da época. Havia também vendedores de café, caldo de cana, limonada... A lista é enorme. A maior parte das pessoas achava tudo isso normal, sem levar em conta que, afinal, os vendedores eram escravos. Não trabalhavam para si mesmos, e sim para o lucro dos respectivos senhores.


Escravo vendedor de doces (⁴)
(1) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, pp. 30 e 31.
(2) Escrava vendedora de galinhas no Rio de Janeiro, provavelmente Século XIX. O original pertence ao acervo da BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização.
(3) _____________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence ao acervo da BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Escravo vendedor de doces, de acordo com Joaquim Lopes de Barros, 1840/41. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.






quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Jabuticabas e jabuticabeiras


Jabuticabas bem maduras, doces, são ótimas. A frutinha, que é encontrada junto ao tronco da árvore que a produz, encantou os colonizadores e, já no Século XIX, buscando sistematizar informações históricas e geográficas sobre o Brasil, o Padre Ayres de Casal observou:
"A jabuticabeira é árvore pequena, delgada e de casca lisa; as folhas, que são envernizadas por ambas as bandas, mas não de um mesmo verde, variam de forma num mesmo ramo; só floresce no tronco, começando do chão até onde os ramos têm boa grossura; [...] é fruta gostosa e inocente: dela se destila um licor forte." (¹)
Deixemos de lado quaisquer considerações sobre o último falar de Ayres de Casal...
Em meados do Século XIX, o jovem Império do Brasil, ainda coberto por densas florestas, despertava uma certa curiosidade, atraindo a visita de estrangeiros que, entre suas observações, sempre relatavam as frutas da terra que haviam tido ocasião de apreciar. O príncipe Adalberto, que percorreu terras brasileiras nos anos quarenta do Século XIX, contou:
"Paramos então por um momento debaixo de uma árvore da qual fizemos cair, sacudindo-a, uma grande quantidade de jabuticabas, uma fruta muito parecida com a nossa cereja preta, que nos refrescou agradavelmente." (²)
Esse príncipe prussiano deve ter realizado um sonho de menino ao andar pela América do Sul; no entanto, não sei de onde tirou a ideia de que jabuticabas são semelhantes a cerejas pretas. É provável que não lhe ocorresse, ao escrever, nenhuma outra comparação que pudesse dar a seus leitores uma ideia exata do que eram as jabuticabas.
Não muito feliz, também, foi a comparação feita por Daniel P. Kidder, pastor e missionário metodista, nascido nos Estados Unidos, que residiu no Brasil durante o Período Regencial:
"Essa árvore pertence à ordem das mirtáceas e é dotada da grande singularidade de dar as flores e os frutos diretamente colados ao tronco e aos galhos principais enquanto que as extremidades são cobertas por densa folhagem verde. A fruta é deliciosíssima, e dá a ideia de uma grande uva roxa." (³)
"Grande uva roxa"? Muito estranho. Talvez o príncipe Adalberto e o missionário Kidder só tenham acertado mesmo no formato, o que, convenhamos, não era tão complicado. Mas, se queremos ser justos com eles, havemos de admitir que a tarefa não era fácil. Quem é que nunca se viu sem palavras ao tentar descrever a outra pessoa uma fruta ou mesmo uma especialidade culinária pouco conhecida?

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. 
Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, pp. 97 e 98.
(2) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 145.
(3) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 216.


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sexta-feira, 30 de maio de 2014

A rotina dos escravos em uma fazenda produtora de café

Ao tempo em que, no Brasil, havia trabalho escravo, a manutenção da rotina diária era muito importante nas propriedades agrícolas, como forma de evitar rebeliões entre os trabalhadores submetidos a tão duras condições de vida. "Nada de novidades", parecia ser a regra fundamental.
O escravo recém-chegado era logo inteirado das obrigações que, quotidianamente, deveria executar, sempre sob os olhares atentos (e muitas vezes cruéis) dos feitores.
Isso não significa que todas as fazendas obedecessem à mesma rotina, mas havia uma certa semelhança, resguardadas diferenças decorrentes do tamanho da propriedade agrícola e do tipo de cultivo predominante.
Em visita ao Brasil (chegou em setembro de 1842), o Príncipe Adalberto da Prússia teve ocasião de ir até uma fazenda de café, não muito longe do Rio de Janeiro, a Capital do Brasil na época. Ali, fez um registro cuidadoso quanto à rotina dos escravos, observando horários que eram cumpridos, bem como a alimentação que recebiam:
"O trabalho na fazenda começa às quatro e meia da madrugada, depois de todos os escravos terem tomado café com açúcar. Às dez horas almoçam, constando o almoço de farinha de mandioca, arroz cozido ou milho. Às duas horas jantam e comem carne-seca (cuja maior parte vem de Buenos Aires) com arroz e farinha, se bem que na região costumam receber só carne e gordura de porco como alimentação animal comum, porquanto o transporte da carne-seca do Rio até aqui é muito caro." (¹)
Faço uma breve pausa para recordar a meus leitores o problema que, naqueles tempos, suscitavam os altos impostos com que era taxado o charque do Rio Grande do Sul que - tremendo absurdo - chegava a tornar mais vantajosa a importação de carne-seca da Argentina, como bem refere o autor de Brasil: Amazônia - Xingu. Mas é hora de prosseguir, já que, às duas da tarde, a jornada de um escravo estava longe de acabar. Continua o Príncipe Adalberto:
"Depois toca a trabalhar novamente até às sete horas da noite. Das sete às nove ceiam novamente arroz ou farinha de mandioca ou de milho, e de nove horas em diante é tempo de dormir; contudo em vez disto vêm as conversas em comum, quase sempre até depois da meia-noite." (²)

Colheita do Café (³)

O trabalho escorchante e a péssima alimentação resultavam em uma expectativa de vida quase sempre muito baixa para os escravos obrigados a ocupar-se das tarefas de cultivo. Agregue-se a isso o tempo insuficiente de repouso e ter-se-á uma visão aterradora do que era ser escravo, a despeito do lampejo de sociabilidade insinuado pelas conversas que seguiam noite adentro. Alguns anos mais tarde, com a proibição do tráfico de africanos no Brasil, os senhores teriam de preocupar-se um pouco mais com a sobrevivência de seus escravos. O preço das "peças" sofreria considerável elevação, dependendo apenas do mercado interno.
Melhorou assim a vida dos escravos? Pouco ou quase nada. Escravos eram sempre escravos, e na privação da liberdade pessoal estava centralizada a desgraça desses trabalhadores. O mais era apenas consequência.

(1) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 130.
(2) Ibid.
(3) SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p. 177.


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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Uma senzala, por dentro e por fora

Já mostrei, em uma outra postagem, que as senzalas, moradias dos escravos no Brasil, podiam ser construídas de formas variadas, desde que fossem eficientes para impedir a fuga dos cativos, particularmente à noite. E, embora muitos fazendeiros tivessem medo de uma eventual revolta de seus cativos, era usual que as senzalas ficassem perto da casa dos senhores, para que os escravos fossem melhor vigiados.
Hoje, por assim dizer, visitaremos uma senzala específica, a de uma fazenda de café, propriedade de franceses, na região de Cantagalo - RJ, na qual esteve o Príncipe Adalberto da Prússia, isso na década de quarenta do Século XIX.
Escreveu ele:
"Enquanto eu me entretinha com as senhoras da casa, meus companheiros aproveitaram a oportunidade para irem ver o alojamento dos escravos, que ficava numa comprida e suja construção de um só piso, que exteriormente tinha uma grande semelhança com uma cavalariça." (¹)
Não exagerou, o Príncipe. A maioria das senzalas era exatamente assim, já que a qualidade de vida de seus moradores não estava em questão.
Esse era o aspecto externo. Interiormente, uma senzala podia ser ainda mais horripilante:
"Daí percorreram os visitantes um largo corredor até as habitações dos negros, pequenos quartos enegrecidos pelo fumo. Todas as noites, depois do trabalho, os habitantes acendem fogo neles, sentando-se em volta por muitas horas, mesmo depois dos mais árduos trabalhos; conversam e fumam, tanto os homens como as mulheres, o fumo que lhes é distribuído todas as semanas." (²)
Finalmente, observou:
"Nos quartos dormem seis até oito juntos; cada um tem sua esteira, e além disto a maioria deles constrói com galhos de árvores e tábuas ajustadas pequenas camas em que gostam muito mais de dormir do que nas esteiras [...]." (³)
Um visitante estrangeiro vinha com a sensibilidade aguçada para observar detalhes do quotidiano no Brasil que, em regra, passariam despercebidos a autores nacionais. Como bem notaram José Bonifácio e Saint-Hilaire, a escravidão fazia com que as pessoas se acostumassem à crueldade com que os trabalhadores cativos eram tratados, fazendo-a parecer uma coisa "natural". Não era, e é graças a testemunhos como o de um príncipe alemão (Adalberto da Prússia), entre tantos outros, que chegamos a detalhes no estudo do que era ser escravo que, de outro modo, estariam, talvez, perdidos para sempre. Detalhes como esse de que os escravos, não suportando as míseras esteiras que lhes eram fornecidas, faziam camas rústicas para si mesmos.

(1) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 130.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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domingo, 19 de janeiro de 2014

As tropas de muares e seus tropeiros

Como eram transportadas mercadorias no Brasil antes da existência de estradas de ferro

"De longe e visto de perfil, o rochedo parecia um tropeiro, derreado sobre o pescoço da mula e carregando às costas sua maca de viagem."
                                                                                     José de Alencar, O Tronco do Ipê

Antes das ferrovias (que só compareceram ao Brasil na segunda metade do Século XIX), praticamente todo o transporte de cargas era feito por mulas, arregimentadas em grupos mais ou menos numerosos - as "tropas" - e conduzidas por gente livre ou escrava, mas especializada nesse tipo de transporte - os tropeiros.
As estradas que então havia eram péssimas, e isso é o melhor que se pode dizer sobre elas, pouco faltando para que fossem intransitáveis. No entanto, as mulas, animais resistentes e de custo relativamente baixo, conseguiam enfrentar bem as agruras dos caminhos cheios de lama ou poeira, levando mercadorias de uma região a outra, como era o caso das que seguiam para abastecer as Minas, ou daquelas destinadas à exportação e que, portanto, iam do interior para o litoral.
Referindo-se a às mercadorias que, desde Minas Gerais seguiam para o Rio de Janeiro, o Padre Ayres de Casal escreveu:
"Exporta-se, desta Província, sola, couros de veado e de outros animais selváticos, algodão tecido e em lã, tabaco, café, frutas, açúcar, queijos, carne de porco, rapaduras, pedra-sabão, pedraria, salitre, marmelada. Quase tudo é conduzido à Metrópole em bestas, das quais se encontram comboios de cem e maior número, repartidas em récuas de sete cada uma, e governada por um homem, levando de retorno sal, fazendas secas e molhados." (¹)
Um pouco mais tarde, Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, escreveu, referindo-se aos dias nos quais esteve em Cubatão:
"Durante os oito dias que lá fiquei, vi diariamente chegar três a quatro tropas de animais e outras tantas partirem.
Cada tropa compõe-se no geral de quarenta a oitenta bestas de carga, guiadas por um tropeiro e divididas em lotes de oito animais que caminham sob a direção de um camarada ." (²)
Os números são um pouco diferentes dos apresentados por Ayres de Casal, mas, de qualquer modo, relatam um padrão geral no que se refere à quantidade de animais e de homens que compunham uma tropa comum.
É o próprio Florence quem nos dá uma lista das coisas que essas tropas, vindas de São Paulo, carregavam rumo ao litoral, ou, de retorno, levavam tanto para a capital da Província como para outras localidades:
"As tropas, ao descerem de São Paulo, vêm carregadas de açúcar bruto, toicinho e aguardente de cana e voltam levando sal, vinhos portugueses, fardos de mercadorias, vidros, ferragens, etc." (³)
Comparem os leitores as duas listas de mercadorias - a de Minas Gerais, relatada por Ayres de Casal, e a de São Paulo, feita por Hércules Florence - e terão uma boa ideia do que se produzia em ambas as Províncias na época. É bom lembrar que, nesse tempo, o café ainda não era, por assim dizer, a estrela da economia brasileira. Viria a ser, logo depois.

Caravana de tropeiros, de acordo com gravura de M. Rugendas (⁴)

Ocupados assim em tanger animais e zelar pela segurança das cargas, seria natural esperar que tropeiros não tivessem muito tempo para outros afazeres. Alguns, no entanto, conseguiam. Há um caso interessante registrado pelo Príncipe Adalberto da Prússia, que esteve no Brasil em 1842, referente a um sujeito por ele contratado como tropeiro que, ao lado de sua ocupação normal, encarregava-se de reportar a chegada dos "navios negreiros", embarcações que traziam africanos escravizados:
"Antônio, um português nato, tinha tido durante o governo de D. Miguel de fugir para os Açores, de onde mais tarde se transferira para o Brasil num navio baleeiro. Desde sua chegada a este país, seu trabalho era, assim que chegava um navio negreiro a S. João da Barra, partir a cavalo para o Rio e levar a notícia ao seu proprietário; ninguém portanto podia conhecer este caminho melhor do que ele que, segundo afirmava, já o tinha percorrido muitas vezes em três dias." (⁵)

(1) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 363.
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 3.
(3) Ibid.
(4) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 160.


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