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terça-feira, 17 de abril de 2018

Pergunta difícil

Rousseau (¹) abriu discussão em Do Contrato Social afirmando que o homem nasce livre (²), mas que, a despeito disso, é visto aprisionado em toda parte. É certo que a prisão, neste caso, deve ser entendida como uma cadeia de circunstancias limitadoras da liberdade, e que pode assumir as mais variadas formas. Pensem nisso, leitores, e verão o quanto a família em que alguém nasce e em que lugar, assim como a condição socioeconômica dos pais, determinam o futuro de uma criança. Que se dirá, então, da época em que alguém vem ao mundo, com todas as suas implicações políticas? 
Quase um século antes que Rousseau aparecesse neste planeta, o capuchinho francês Yves d'Évreux, de quem já falei aqui no blog, registrou uma conversa que teve com um indígena do Brasil, que se provava, então, um catecúmeno bastante questionador (³).  Disse o índio:
"Nascem ao mesmo tempo dois meninos, um francês e outro tupinambá, ambos doentes e fracos, e não obstante, um nasce para gozar de todas as comodidades e o outro para viver pobremente.
Livres nascemos, um não tem mais do que outro, e, contudo, uns são escravos e outros Murubuichaues (⁴)." (⁵) 
A óbvia pergunta subjacente é: Por quê?
O assunto era espinhoso também para o missionário:
"Respondi-lhe a tudo isto, dizendo ser muito pequeno nosso espírito para conceber coisas tão altas, reservadas por Deus só para si." (⁶) 
Portanto, leitores, Yves d'Évreux esteve longe de ensaiar uma réplica. Não teve outra intenção, ao relatar o episódio, além de demonstrar a perspicácia do tupinambá, calando os críticos que opinavam ser a catequese de indígenas uma perda de tempo.

(1) 1712 - 1778
(2) Será mesmo?
(3) Assumindo que d'Évreux não tenha exagerado na criatividade, a conversa entre ele e o índio, relatada em Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614, pode muito bem ser considerada como um dos mais notáveis registros desse gênero de que se tem notícia.
(4) Morubixabas eram os grandes chefes tribais indígenas.
(5) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 316.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Como a deusa favorita dos atenienses ganhou um nome extra

Nomes indígenas, explicou Hans Staden, eram em geral referências às qualidades de animais, plantas e do que mais havia na natureza. Ao nascer, cada menino tupinambá recebia um nome, e assim ficava, até que, já adulto, estava apto a matar inimigos. Então, àquele a quem era conferida a honra de abater um prisioneiro em um ritual de antropofagia, concedia-se o privilégio extra de "ganhar um nome", ou seja, de anexar ao seu próprio o nome do guerreiro de outra tribo que matara. Por isso, a lista de nomes que um tupinambá podia ostentar era diretamente proporcional ao número de inimigos mortos. Entretanto, como documentava o "currículo", se pertencia a uma cultura ágrafa?
Ainda de acordo com Hans Staden, após matar o prisioneiro que seria devorado, o tupinambá tinha o braço riscado com um dente pontiagudo de algum animal. Essa cerimônia tinha grande importância e devia ser realizada pelo chefe da aldeia. A cicatriz que daí procedia era o comprovante inequívoco da coragem e valentia que o caracterizavam como um verdadeiro herói diante de sua gente.
Agora, leitores, vamos voar até a Grécia Antiga, onde encontraremos alguém que também ganhou um nome. Atena - lembram-se dela? - a deusa que nasceu da cabeça de Zeus, entrou em combate, ao lado do pai, contra gigantes que ameaçavam o Olimpo. Matando um deles, cujo nome era Palas, arrancou-lhe a pele, da qual fez um revestimento para o escudo que usava. Com isso, a deusa grega, que não era tupinambá, também ganhou um nome, passando a ser conhecida como Palas Atena, e lá se foi mitologia afora, para viver novas aventuras.


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Modo indígena de discutir algum assunto importante

Para quem acha que o melhor modo de deliberar sobre algum assunto importante é fazer com que todos os interessados sejam postos ao redor de uma mesa para um debate franco, o modo indígena de discutir coisas relevantes pode parecer estranho. Continha, porém, um princípio valioso: o respeito àquele que falava, para que pudesse expressar seu ponto de vista integral e claramente.
Tupinambás, além de outros grupos, tinham por costume jamais interromper alguém que falava - ouviam em estrito silêncio, pelo tempo que fosse necessário, segundo relato de Jean de Léry, francês que esteve no Brasil no Século XVI. Informação semelhante nos vem de Gabriel Soares, um colonizador e senhor de engenho, que também viveu no Brasil no Século XVI, mas na Bahia, e não no Rio de Janeiro, como Léry:
"Se assentam todos de cócoras, e como tudo está quieto, propõe o principal (¹) sua prática, a que todos estão muito atentos; e como acaba sua oração, respondem os mais antigos cada um por si, e quando um fala, calam-se todos os outros, até que vem a concluir no que hão de fazer [...]." (²)

Reunião em uma aldeia de índios coroados (³)

Quanto poderia durar a deliberação? Ora, dependia do assunto, mas, segundo Léry (⁴), às vezes uma reunião tribal passava de seis horas. O detalhe pitoresco é que cada orador, ao invés de simplesmente falar, fazia uso, também, de um amplo gestual, batendo compassadamente os pés no chão ou as mãos no próprio corpo Valia, ainda, alterar, intencionalmente, a intensidade da voz. Estratégias de convencimento, é claro, próprias das culturas em questão, que não passaram despercebidas aos missionários que queriam catequizar indígenas. Mediante observação, os padres logo aprenderam que o ensino da doutrina e das histórias bíblicas seria mais atraente se apresentado no estilo que era familiar a seus ouvintes. E, se o método funcionava, os missionários (particularmente os jesuítas), não vacilavam em adotá-lo.

(1) Líder da aldeia indígena ou cacique.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 326.
(3) SPIX, Johann B. von et MARTIUS, Carl F. P. von. Atlas zur Reise in Brasilien. A imagem foi editada para facilitar a visualização nestes blog.
(4) LÉRY, Jean de. Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil. Genève: Antoine Chuppin, 1580.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Como os tupinambás festejavam a volta de alguém que fizera uma viagem

Culturas diferentes têm diferentes respostas a situações semelhantes. Verdade, leitores? 
Vejamos. Vários autores dos dois primeiros séculos de colonização do Brasil referiram que indígenas, em particular os tupinambás, tinham um modo muito estranho de recepcionar uma pessoa que, em razão de uma viagem, estivera ausente por longo tempo. Gabriel Soares, em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, foi um dos que descreveram o tal hábito:
"Costumam os tupinambás que vindo qualquer deles de fora, em entrando pela porta, se vai logo deitar na sua rede, ao qual se vai logo uma velha ou velhas, e põem-se em cócoras diante dele a chorá-lo em altas vozes, em o qual pranto lhe dizem as saudades que dele tinham com sua ausência, os trabalhos que uns e outros passaram, a que os machos lhes respondem chorando em altas vozes, e sem pronunciarem nada, até que se enfadam, e mandam às velhas que se calem, ao que estas obedecem." (¹)
Ora, leitores, para a mentalidade ocidental do Século XXI essa recepção que faziam os tupinambás parece um absurdo - se estavam felizes pelo regresso do amigo, por que é que choravam? É bastante provável que quisessem reforçar a coesão de seu grupo, mostrando quanto era preferível estar em casa, entre parentes e amigos, a viver longe, em outras terras.
Mas não era só. A choradeira era ainda maior, no caso de um recém-chegado que percorrera grande distância:
"Se o chorado vem de longe, o vêm chorar desta maneira todas as fêmeas mulheres daquela casa, e as parentes, que vivem nas outras, e como acabam de chorar, lhe dão as boas-vindas, e trazem-lhe de comer, em um alguidar, peixe, carne e farinha, tudo junto posto no chão, o que ele assim deitado come; e como acaba de comer lhe vêm dar as boas-vindas todos os da aldeia um a um, e lhe perguntam como lhe foi pelas partes por onde andou [...]." (²)
Podemos considerar que, quanto ao hábito de oferecer alimento para quem retornava de uma viagem, talvez houvesse uma intersecção cultural entre colonizadores europeus e tupinambás. Mas parava aí. O pranto dos índios parecia estranhíssimo aos portugueses, para quem o choro incontido quase sempre expressava tristeza, e não alegria. Engraçado, mesmo, é que nem colonizadores escapavam, eventualmente, de tão ruidosa celebração. Quando europeus e ameríndios andavam em bom relacionamento e o escambo prosperava, não era raro que a chegada dos "comerciantes", com seus espelhos, pentes, ferramentas e adornos baratos, fosse também homenageada com muitas lágrimas, para dizer o quanto a vida era ruim antes que eles viessem. Pensem nisso, leitores, da próxima vez que encontrarem amigos ou parentes que não veem há muito tempo...

(1) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 323.
(2) Ibid., pp. 323 e 324.


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Flechas incendiárias

Não, leitores, elas não foram inventadas por Nero - o uso de flechas incendiárias ocorreu entre as mais diversas culturas, e era bem conhecido entre povos da Antiguidade. Heródoto afirma, no Livro VIII de suas Histórias, que os persas, durante as Guerras Médicas, haviam usado flechas incendiárias quando lutavam contra os atenienses que, protegidos pelas muralhas de sua cidade, resistiam corajosamente. Apenas como curiosidade, os persas finalmente tiveram êxito em forçar a entrada, e, conforme o hábito nas guerras antigas, degolaram todos os defensores que se haviam refugiado no templo de Palas Atena. A cidade foi entregue às chamas. Depois de saqueada, é claro.
Flechas comuns eram dirigidas, habitualmente, contra as formações dos exércitos inimigos. Ajudavam a reduzir o número de combatentes, antes que se travasse a luta corpo a corpo. Foi também Heródoto quem afirmou, no livro VII das Histórias, que, na guerra contra os gregos, as chuvas de flechas provenientes do exército persa, comandado por Xerxes, chegavam a encobrir a luz do sol.
Flechas incendiárias, porém, eram usadas com o objetivo de atear fogo às construções que os inimigos procuravam defender. Eram um recurso extremo, quando parecia impossível forçar a entrada de outro modo, pois um incêndio durante uma batalha dificilmente seria contido antes que tudo, ao redor, acabasse em cinzas. Admissíveis, portanto, quando o projeto era aniquilar o adversário, flechas incendiárias não eram uma ideia inteligente quando se pretendia conquistar uma cidade, conservando-a para o vencedor. 
De acordo com Hans Staden, indígenas do Brasil (*) conheciam o uso de flechas incendiárias, que preparavam do seguinte modo: um chumaço de algodão era untado com cera e, em seguida, amarrado à ponta de uma flecha, à qual se ateava fogo. Arqueiros fortes e bem-treinados atiravam contra as casas de seus inimigos, geralmente cobertas por folhas de alguma palmeira, que logo estavam em chamas. Os colonizadores perceberam a eficácia desse procedimento e, tão pronto conseguiam, pela diplomacia ou pela força, arrolar indígenas entre seus comandados, incluíam as flechas incendiárias entre seus recursos bélicos.

(*) Observação válida pelo menos para os tupinambás, com quem Hans Staden, mesmo contra a vontade, teve convivência demorada. Feito por eles prisioneiro, somente a muito custo conseguiu escapar de ser o prato principal de um banquete antropofágico.


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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Como indígenas do Brasil faziam contas

Segundo um grande número de relatos, povos indígenas do Brasil eram hábeis em usar a calculadora mais antiga do mundo. Sim, aquela mesma, leitores, que vocês devem ter usado em seus primeiros anos escolares, malgrado a oposição dos professores ou dos pais, quando acompanhavam suas tarefas. Já sabem do que estou falando, não?
Hans Staden, que foi prisioneiro dos tupinambás no Século XVI, teve sorte suficiente para escapar de virar moquém (¹) e, depois de tudo isso, ainda publicou um livro na Alemanha, no qual relatou:
"Eles [os indígenas] não sabem contar além de cinco. Quando desejam contar, nomeiam os dedos das mãos e dos pés. Se querem falar de números maiores, mostram quatro ou cinco pessoas, para dizer os dedos e artelhos que têm." (²)
Uma informação semelhante vem de Frei Vicente do Salvador, que concluiu o manuscrito de sua História do Brasil por volta de 1627; observem a tentativa de justificar por que indígenas não tinham um sistema altamente sofisticado para indicar quantidades:
"Jamais usam de pesos e medidas, nem têm números por onde contem mais que até cinco, e se a conta houver de passar daí a fazem pelos dedos das mãos e pés, o que lhes nasce da sua pouca cobiça [...]."
Explicando que indígenas tinham dificuldade em estabelecer uma conta exata dos rios que constituíam uma bacia, o jesuíta Simão de Vasconcelos observou, em obra cuja primeira edição é datada da segunda metade do Século XVII:
"[...] As nações que habitavam a circunferência [sic] do rio, e seus grandes braços, não podiam contá-la, não só pelos dedos das mãos e dos pés, por onde costumam contar, mas nem ainda com os seixos da praia [...]." (³)
Como os leitores devem ter notado, a novidade apresentada por Simão de Vasconcelos é a menção ao uso de "seixos da praia", para indicar quantidades que não podiam ser contadas com os dedos. Mas vamos, agora, a uma última referência, que nos vem da obra do Príncipe Adalberto da Prússia. Quando percorria o Xingu, anotou em seu diário de viagem, em um dia de dezembro de 1842, este relato do encontro com um chefe juruna bastante idoso, que lhe contava como reunia gente para ir fazer guerra a uma maloca pertencente a desafetos:
"Para o pôr do sol reuniram-se muitos índios diante da cabana do tuxava de Piranhaquara, um velho amável, cujos compridos cabelos brancos caíam sobre os ombros escuros. [...] Para nos mostrar o número dos que o acompanharam, contava os dedos das mãos e dos pés, e, por fim, fazendo um largo círculo em volta, apontava para as mãos e os pés de todos os circunstantes, para significar que o número dos seus era igual à soma dos dedos dos pés e das mãos de todos nós." (⁴)
Ora, meus leitores, é muito fácil constatar que, entre a descrição do método indígena de contar feita por Hans Staden, que esteve entre os tupinambás no Século XVI, e a que aparece na obra do Príncipe Adalberto, que andou entre jurunas em meados do Século XIX, há uma semelhança notável. Como pode ser isso, já que todos sabemos o quanto os séculos de colonização afetaram as variadas culturas dos povos indígenas do Brasil? 
A explicação é bastante simples: os tupinambás que Hans Staden encontrou viviam em áreas litorâneas do Sudeste e, em consequência do confronto precoce com colonizadores, não tardaram a "desaparecer"; os jurunas que o príncipe Adalberto conheceu viviam, por assim dizer, no coração do Brasil, portanto em uma área que, no Século XIX, ainda era relativamente pouco afetada pela presença de não indígenas, daí não ser uma completa surpresa a permanência de elementos da cultura tradicional, como era o caso da forma de contar. Não creio que seja necessário recordar que, para bem e/ou para mal, as coisas não permaneceram assim por muito tempo.

(1) Não foi, por muito pouco, o prato principal de um festim antropofágico.
(2) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557. O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 37.
(4) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 322.


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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Tupinambás seriam bons franciscanos?

Quem veio com a ideia foi Gabriel Soares, autor do Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Observando que os indígenas e, especificamente, os tupinambás, pareciam não ter um senso de propriedade privada muito apurado, já que estavam dispostos a compartilhar tudo o que tinham com seus companheiros, chegou a sugerir que esses nativos seriam ótimos franciscanos:
"Têm estes tupinambás uma condição muito boa para frades franciscanos, porque o seu fato e quanto têm, é comum a todos os da sua casa que querem usar dele, assim das ferramentas, que é o que mais estimam, como das suas roupas, se as têm, e do seu mantimento; [...] quando estão comendo, pode comer com eles quem quiser, ainda que seja contrário (¹), sem lhe impedirem nem fazerem por isso carranca." (²)
Percebam, leitores, que temos aqui um caso muito interessante do que chamaríamos "choque cultural": por um lado, Gabriel Soares espantava-se com a postura dos indígenas quanto à posse de coisas que, na lógica do colonizador, deveriam ser de uso individual; de outra parte, já que os nativos eram tão desapegados em relação aos bens materiais (assim é que seu comportamento estava sendo interpretado), talvez dessem bons franciscanos... 
Apenas como conjectura, devemos considerar a possibilidade de que Gabriel Soares quisesse, discretamente, sugerir que franciscanos, e não jesuítas, é que deveriam trabalhar na catequese dos tupinambás. Independente disso, o conceito de que os indígenas tinham um estilo de vida próprio, que devia ser respeitado, e que só a eles competia decidir sobre eventuais mudanças não fazia parte do panteão de ideias de um colonizador típico do Século XVI. Fica só uma dúvida: estará isso devidamente claro nesta segunda década do Século XXI?

Indígenas do Brasil com seus pertences (³)

(1) Isto é, inimigo.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 322.
(3) NIEUHOF, Johan. Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien. Amsterdam: de Weduwe van Jacob van Meurs, 1682, p. 218.


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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Como os indígenas do Brasil faziam canoas

Não há quem desconheça o fato de que os indígenas do Brasil, como regra geral, eram excelentes nadadores. Eram também muito hábeis em construir canoas e, com elas, podiam deslocar-se por rios e mesmo no mar, embora, neste último caso, nunca se distanciassem muito da costa, ou acabariam perdidos em meio ao oceano, sem que pudessem voltar.
Cada grupo indígena tinha sua própria técnica para construir canoas, mas era quase unânime o uso de um só grande tronco, conforme explicou Frei Vicente do Salvador:
"...os índios naturais da terra, as embarcações que usam são canoas de um só pau, que lavram a fogo e a ferro; e há paus tão grandes, que ficam depois de cavados com dez palmos de boca de bordo a bordo; e tão compridos, que remam a vinte remos por banda." (¹)

Sistema indígena para fabricação de canoas, de acordo com desenho de
Joaquim José Codima (²)

Lavrar a ferro, é bom recordar, só foi possível, todavia, a partir do escambo (troca) com europeus. Antes disso, as ferramentas eram de pedra.
Os tupinambás estavam entre os que faziam canoas pelo sistema de usar um único tronco:
"...São grandes remadores, assim nas suas canoas, que fazem de um só pau, que remam em pé vinte ou trinta índios, com o que as fazem voar." (³)
Os tamoios (⁴), que o Padre Anchieta tão bem conheceu, provavelmente usavam um método parecido, pelo que se depreende da explicação dada pelo famoso jesuíta nativo das Canárias:
"...Tinham aparelhadas duzentas ou mais canoas, que fazem de uma cortiça só de uma árvore cada uma, pondo-lhes outros pedaços da mesma cortiça por bordos, mui bem atados com vimes, e são tão grandes que levam cada uma delas vinte e vinte e cinco e mais pessoas, com suas armas e vitualhas; e algumas mais de trinta, e passam ondas e mares tão bravos que é coisa espantosa e que não se pode crer nem imaginar, senão quem o vê..." (⁵)

Canoa indígena, de acordo com Rugendas (⁶)

Os leitores já devem ter notado que uma característica das técnicas indígenas para confecção de objetos de uso diário era que sempre usavam material fartamente disponível na área em que viviam. Não era comum que fossem procurar recursos a grande distância. Portanto, grandes canoas feitas de um só tronco eram possíveis a quem vivesse próximo às grandes matas. Sendo outras as circunstâncias naturais, a técnica para a construção de embarcações também mudava, como podemos facilmente deduzir desta descrição, feita por Gabriel Soares, das canoas usadas pelos índios caetés:
"As embarcações de que este gentio usava eram de uma palha comprida como a das esteiras de tabua (⁷) que fazem em Santarém, a que eles chamam periperi, a qual palha fazem em molhos muito apertados com umas varas como vimes, a que eles chamam timbós, que são muito brandas e rijas, e com estes molhos atados em umas varas grossas faziam uma feição de embarcações, em que cabiam dez a doze índios, que se remavam muito bem e nelas guerreavam com os tupinambás neste rio de São Francisco, e se faziam uns aos outros muito dano. E aconteceu por muitas vezes fazerem os Caetés desta palha tamanhas embarcações, que vinham nelas ao longo da costa fazer seus saltos aos tupinambás junto da Bahia, que são cinquenta léguas." (⁸)
É verdade que, do ponto de vista tecnológico, os colonizadores europeus estavam muito à frente, de um modo geral, dos povos indígenas do Brasil. No entanto, é inegável que os ameríndios estavam bastante bem adaptados ao meio em que viviam e, com habilidade por vezes surpreendente, eram capazes de satisfazer às suas pequenas necessidades de consumo, como suas eficientes embarcações eram capazes de demonstrar.

(1) SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil, c. 1627.
(2) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 321.
(4) Segundo a compreensão atual, os tamoios pertenciam ao grupo tupinambá, e a distinção do nome se faz pela região em que habitavam, ou seja, o litoral dos atuais Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 203.
(6) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence ao à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(7) Em São Paulo também se diz "taboa".
(8) SOUSA, Gabriel Soares de. Op. cit., pp. 38 e 39.


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