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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Modo indígena de discutir algum assunto importante

Para quem acha que o melhor modo de deliberar sobre algum assunto importante é fazer com que todos os interessados sejam postos ao redor de uma mesa para um debate franco, o modo indígena de discutir coisas relevantes pode parecer estranho. Continha, porém, um princípio valioso: o respeito àquele que falava, para que pudesse expressar seu ponto de vista integral e claramente.
Tupinambás, além de outros grupos, tinham por costume jamais interromper alguém que falava - ouviam em estrito silêncio, pelo tempo que fosse necessário, segundo relato de Jean de Léry, francês que esteve no Brasil no Século XVI. Informação semelhante nos vem de Gabriel Soares, um colonizador e senhor de engenho, que também viveu no Brasil no Século XVI, mas na Bahia, e não no Rio de Janeiro, como Léry:
"Se assentam todos de cócoras, e como tudo está quieto, propõe o principal (¹) sua prática, a que todos estão muito atentos; e como acaba sua oração, respondem os mais antigos cada um por si, e quando um fala, calam-se todos os outros, até que vem a concluir no que hão de fazer [...]." (²)

Reunião em uma aldeia de índios coroados (³)

Quanto poderia durar a deliberação? Ora, dependia do assunto, mas, segundo Léry (⁴), às vezes uma reunião tribal passava de seis horas. O detalhe pitoresco é que cada orador, ao invés de simplesmente falar, fazia uso, também, de um amplo gestual, batendo compassadamente os pés no chão ou as mãos no próprio corpo Valia, ainda, alterar, intencionalmente, a intensidade da voz. Estratégias de convencimento, é claro, próprias das culturas em questão, que não passaram despercebidas aos missionários que queriam catequizar indígenas. Mediante observação, os padres logo aprenderam que o ensino da doutrina e das histórias bíblicas seria mais atraente se apresentado no estilo que era familiar a seus ouvintes. E, se o método funcionava, os missionários (particularmente os jesuítas), não vacilavam em adotá-lo.

(1) Líder da aldeia indígena ou cacique.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 326.
(3) SPIX, Johann B. von et MARTIUS, Carl F. P. von. Atlas zur Reise in Brasilien. A imagem foi editada para facilitar a visualização nestes blog.
(4) LÉRY, Jean de. Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil. Genève: Antoine Chuppin, 1580.

terça-feira, 21 de março de 2017

Sinais de fumaça

Os antigos romanos tinham um sistema de comunicação por meio de sinais de fumaça, que estava em uso para propósitos militares. De acordo com o que Políbio de Megalópolis registrou em sua História, o método, com o passar do tempo, foi aperfeiçoado, tornando-se mais complexo, sim, mas permitindo, com boa execução, transmitir mensagens de fumaça que exprimiam as letras do alfabeto. Empregava-se, naturalmente, o mínimo de letras ou palavras para comunicar uma ideia, lembrando um pouco o que, muito mais tarde, aconteceria com os telegramas. Entretanto, era preciso, a bem da eficiência, que os soldados a quem se encarregava a transmissão de mensagens fossem devidamente treinados. 
Um buriti (no centro da imagem)
A complexidade podia até não ser a mesma, mas os indígenas do Brasil também empregavam sinais de fumaça, sempre que desejavam mandar recados à distância. Aqueles que viviam no Brasil Central faziam uso deste método, descrito por José Vieira Couto de Magalhães:
"Vão subindo por um buriti (¹) e amarrando em torno dele, com um palmo de espaço, faixas de capim verde; descem depois, e ateiam-lhe fogo: a última das faixas o comunica às outras, de modo que a gigantesca palmeira serve de farol, não só por ficar toda em brasas, como também pela coluna elevada de fumaça, que se eleva ao céu em forma de espiral." (²)
É possível que alguns dos leitores queiram saber qual era o objetivo desse sinal. De acordo com Couto de Magalhães, era ao cair da tarde que xavantes, carajás e outros povos faziam uso dele, com a finalidade de informar um ponto de encontro para grupos dispersos de caçadores, embora também pudesse ser usado, ocasionalmente, ao meio-dia, sempre que o líder tribal notasse algum perigo. Não era a sinalização militar dos romanos, é verdade, mas funcionava.

(1) Palmeira típica do Brasil Central, mas que pode, também, ser encontrada em outras áreas.
(2) MAGALHÃES, José Vieira Couto de. Viagem ao Rio Araguaia. Goiás: Tipografia Provincial, 1864, p. 64.


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Dois europeus entre os tupinambás no Século XVI

Indígenas que viviam junto ao mar e a chegada de embarcações europeias,
de acordo com ilustração publicada na edição 
de 1557 de Zwei Reisen nach Brasilien

Hans Staden e Jean de Léry foram dois europeus que, no Século XVI, viveram entre os tupinambás, indígenas que habitavam áreas do litoral brasileiro.
Staden, alemão, depois de algumas aventuras entre marinheiros na costa do Brasil, foi contratado como artilheiro de um pequeno forte português. Caiu prisioneiro dos tupinambás, e, por isso, já se vê que sua permanência entre eles não foi voluntária. Por muito pouco não foi devorado em um festim antropofágico. De volta à Europa, publicou um livro conhecido como Zwei Reisen nach Brasilien (¹), cujo longuíssimo título da primeira edição deixava claro o teor da obra:  "História verdadeira e descrição de uma terra de selvagens nus, ferozes e devoradores de homens"...
O caso de Jean de Léry é bem diferente. Francês, veio ao Brasil para viver na colônia que protestantes tentavam fundar no litoral do Rio de Janeiro. A colônia fracassou, mas Léry, que assim como Hans Staden, retornou à Europa, publicou um livro muitos anos depois, ao qual deu o título de Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil (²). Como os franceses andavam em boa paz com os tupinambás, Léry pôde viver tranquilamente entre eles, sem que seu relato fosse afetado pela sensação de medo inerente a quem corria o risco de, a qualquer momento, ser abatido para o jantar, como era o caso de Staden. Apesar disso, ambos os autores concordam na maioria dos pontos que descrevem em relação aos hábitos e costumes dos indígenas com quem, voluntariamente ou não, conviveram.
Sabemos, assim, que os tupinambás praticavam uma agricultura rudimentar; quando ao estabelecimento de aldeias, deveriam ser considerados seminômades, porque, quando esgotavam os recursos alimentares que podiam ser obtidos mediante a caça e a coleta, construíam novas habitações em um lugar não muito distante daquele que ocupavam (meia légua, quando muito, segundo Léry). A construção de novas casas era, além disso, uma necessidade, já que os materiais empregados habitualmente não eram muito duráveis.
Por outro lado, o fato de que Jean de Léry podia andar com liberdade entre os tupinambás favoreceu a obtenção de informações detalhadas quando ao quotidiano dos indígenas: tinham por hábito guardar estrito silêncio durante as refeições, que nunca eram acompanhadas da ingestão de líquidos; se desejavam manifestar grande respeito por alguém, jamais comiam em sua presença. Parece estranho? Talvez, e até mesmo o oposto do que pode ser dito em relação a muitas outras culturas - sem esquecer que os tupinambás eram também adeptos da famosa choradeira quando alguém retornava de uma viagem, fenômeno já mencionado em outra postagem neste blog.
Então, leitores, não há dúvida de que os registros feitos por Hans Staden e Jean de Léry são, ainda hoje, de muito interesse, até porque, como não estavam sujeitos às implicâncias e à censura do Desembargo do Paço e da Inquisição, foram escritos com uma liberdade da qual os autores portugueses contemporâneos não desfrutavam.

(1) Duas Viagens ao Brasil.
(2) História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil.


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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Tupinambás seriam bons franciscanos?

Quem veio com a ideia foi Gabriel Soares, autor do Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Observando que os indígenas e, especificamente, os tupinambás, pareciam não ter um senso de propriedade privada muito apurado, já que estavam dispostos a compartilhar tudo o que tinham com seus companheiros, chegou a sugerir que esses nativos seriam ótimos franciscanos:
"Têm estes tupinambás uma condição muito boa para frades franciscanos, porque o seu fato e quanto têm, é comum a todos os da sua casa que querem usar dele, assim das ferramentas, que é o que mais estimam, como das suas roupas, se as têm, e do seu mantimento; [...] quando estão comendo, pode comer com eles quem quiser, ainda que seja contrário (¹), sem lhe impedirem nem fazerem por isso carranca." (²)
Percebam, leitores, que temos aqui um caso muito interessante do que chamaríamos "choque cultural": por um lado, Gabriel Soares espantava-se com a postura dos indígenas quanto à posse de coisas que, na lógica do colonizador, deveriam ser de uso individual; de outra parte, já que os nativos eram tão desapegados em relação aos bens materiais (assim é que seu comportamento estava sendo interpretado), talvez dessem bons franciscanos... 
Apenas como conjectura, devemos considerar a possibilidade de que Gabriel Soares quisesse, discretamente, sugerir que franciscanos, e não jesuítas, é que deveriam trabalhar na catequese dos tupinambás. Independente disso, o conceito de que os indígenas tinham um estilo de vida próprio, que devia ser respeitado, e que só a eles competia decidir sobre eventuais mudanças não fazia parte do panteão de ideias de um colonizador típico do Século XVI. Fica só uma dúvida: estará isso devidamente claro nesta segunda década do Século XXI?

Indígenas do Brasil com seus pertences (³)

(1) Isto é, inimigo.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 322.
(3) NIEUHOF, Johan. Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien. Amsterdam: de Weduwe van Jacob van Meurs, 1682, p. 218.


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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Como os indígenas do Nordeste preparavam carne assada

Administradores e militares que estiveram no chamado "Brasil Holandês" no Século XVII demonstravam uma intensa curiosidade sobre a fauna e a flora da América do Sul. Tinham também muito interesse em compreender o modo de vida dos povos indígenas com os quais entravam em contato. Não poucos desses europeus chegaram a ter um razoável conhecimento da língua predominante entre os ameríndios que, na época, viviam no Nordeste do Brasil. 
Joan Nieuhof esteve em Pernambuco entre 1640 e 1649. A maior importância de sua obra está ligada aos relatos vívidos que deixou das escaramuças entre os defensores do domínio holandês e os partidários de senhores de engenho de origem lusitana. Não obstante, em sua Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil há também descrições pitorescas do que era, então, a vida diária no Nordeste açucareiro. É fato que algumas dessas informações são provenientes de outros autores (como Piso e Markgraf), mas Nieuhof viveu bastante tempo na América do Sul e tinha muito para contar.
Uma de suas observações, com certeza resultante do contato com indígenas, refere-se ao modo como eles assavam carne. Escreveu Nieuhof:
"Para assar carne, procedem da seguinte maneira: cavam um buraco no chão, forram-no com folhas sobre as quais colocam a carne que vão preparar; cobrem-na com folhas da mesma espécie e depositam sobre uma camada de terra ou areia. Sobre essa arrumação acendem uma fogueira, que deixam arder até que presumam estar a carne suficientemente assada. Se acertam o ponto, a carne fica excelente, melhor que a preparada por qualquer outro processo. A esse sistema de preparar chamam Biaribi." (*)
Façamos umas poucas considerações:
  • Nieuhof falava apenas de indígenas do Nordeste do Brasil e, portanto, ninguém deve supor que a mesma técnica fosse seguida por todos os demais grupos ameríndios;
  • Ao contrário do que ocorria com muitos colonizadores, Nieuhof parecia ter grande interesse na cultura local, e sua observação sobre a preparação da carne assada sugere que, provavelmente, chegou a experimentá-la;
  • Sendo nômades ou seminômades, os indígenas dominavam técnicas simples de sobrevivência que podem ter sido muito úteis aos militares europeus durante os anos de guerra em Pernambuco, quando era necessário lutar em áreas sem quaisquer dos recursos comuns à civilização da qual provinham.
Para algum leitor que esteja inquieto quanto ao que aconteceu a Nieuhof (sabendo que a Companhia das Índias Ocidentais foi obrigada a sair do Brasil), informo que ele, ao perceber que o domínio holandês no Nordeste estava com os dias contados, conseguiu, depois de muita insistência, uma autorização para regressar à Holanda. Mais tarde continuou suas andanças pelo mundo afora, até que desapareceu sem que dele houvesse mais notícia. A primeira edição da Memorável Viagem Marítima, publicada em Amsterdã no ano de 1682, foi iniciativa de seu irmão, que quis prestar-lhe uma homenagem.

(*) NIEUHOF, Joan. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, p. 303.


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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Antropófagos

Em um assunto, pelo menos, os autores do Século XVI que escreveram sobre o Brasil eram unânimes: o de que os povos indígenas que habitavam as proximidades do litoral eram, em sua maioria, consumidores de carne humana. Hans Staden, por exemplo, anotou, no subtítulo de seu livro Zwei Reisen nach Brasilien (¹), que fazia a "descrição de uma terra de selvagens, comedores de carne humana". Outros autores seguiam aproximadamente o mesmo caminho, apontando o costume que tinham muitos grupos nativos de, ritualmente, abater e devorar os inimigos que haviam derrotado em uma guerra.

Indígenas abatendo prisioneiro (²)

Pois bem, senhores leitores, vou apresentar-lhes, hoje, aquela que tenho como a mais saborosa (Ai! nada de trocadilhos...) das histórias que já li, envolvendo a questão da antropofagia. Vem ela relatada pelo Padre Simão de Vasconcelos, em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, que foi escrita no Século XVII e, portanto, já um pouco distante, no tempo, do acontecimento narrado. Porém, esse autor afirmava ter-se servido de anotações manuscritas deixadas pelo Padre José de Anchieta, esse sim personagem de destaque do décimo sexto século.
Sem mais delongas, vamos à história.
Um padre jesuíta, em sua missão de catequese, chegou a uma aldeia indígena, onde encontrou uma vovó muitíssimo idosa, que reputou, pela fragilidade, estar já à beira da morte. Ora, eram os padres muito cautelosos em ministrar o batismo, mas em tais situações, in extremis, costumavam fazê-lo, tendo em vista o que entendiam ser para a salvação da alma de um catecúmeno, e desde que pudessem prepará-lo devidamente quanto às "coisas da fé". Portanto, pôs-se o padre a doutrinar a dita senhora, segundo julgava que fosse capaz de compreender, e ela parecia em tudo atender e concordar plenamente.
Animou-se com isso o missionário e, supondo que melhor faria sua tarefa se pudesse dar, ao lado do espiritual, algum conforto material à velhinha, perguntou-lhe se não desejava tomar algum alimento, para que pudesse estar um pouco mais forte.
Segue agora a narrativa de Simão de Vasconcelos:
"- Minha avó (assim chamam às que são muito velhas) se eu vos dera agora um pequeno açúcar, ou outro bocado de conforto de lá das nossas partes do mar, não o comeríeis?
Respondeu a velha, catequizada já:
- Meu neto, nenhuma coisa da vida desejo, tudo já me aborrece, só uma coisa me pudera abrir agora o fastio: se eu tivera uma mãozinha de um rapaz tapuia de pouca idade, tenrinha, e lhe chupara aqueles ossinhos, então me parece tomara algum alento; porém eu (coitada de mim), não tenho quem me vá flechar a um destes." (³)
Como veem os meus leitores, o problema não era exatamente falta de apetite!...

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 33.


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terça-feira, 29 de novembro de 2011

A alimentação dos indígenas do Brasil, segundo Hans Staden

Feito prisioneiro dos índios tupinambás (veja postagem anterior), Hans Staden foi amarrado e levado até a aldeia em que moravam. A partir daí, aguardando uma execução (seguida de antropofagia) que acabou não acontecendo, foi tomando contato com os hábitos de seus captores, hábitos aos quais, por mais estranhos que lhe parecessem, precisava adaptar-se, se queria ter alguma chance de sobrevivência. Posteriormente, ao regressar à Europa, Hans Staden deixou em um livro um registro valioso (¹) sobre as práticas quotidianas dos nativos, incluindo, naturalmente, o que se referia à alimentação.
Cabe aqui, antes de dar prosseguimento ao assunto, fazer uma observação importante: o Brasil tinha e tem uma grande diversidade de povos indígenas e, por conseguinte, de acordo com a região em que se estabeleceram, há também variação de tradições. Por isso, o que se dirá refere-se especificamente aos costumes dos indígenas do litoral brasileiro, em particular os que habitavam, no século XVI, o que hoje são os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, embora alguns de seus hábitos fossem partilhados com outros povos do interior. Isto estabelecido, vejamos o que registrou o famoso prisioneiro.
Na mesma hora em que chegava pela primeira vez à aldeia, Hans Staden viu as mulheres trabalhando em uma plantação, da qual colhiam as raízes - era a mandioca, conforme os leitores já devem ter imaginado e, pelo que se infere do relato, consistia no principal artigo cultivado para alimentação. Outros alimentos provinham da caça e da pesca, razão pela qual os indígenas, ao saírem às matas, iam sempre armados de seus arcos e flechas, sendo extremamente habilidosos em seu manejo, de modo que um animal, uma vez avistado, dificilmente lhes escapava.
Pescaria indígena com arco e flecha, gravura da
obra de Hans Staden Zwei Reisen nach Brasilien
Já a pesca podia seguir dois métodos distintos, um com arco e flechas, outro com rede. No primeiro caso, pescava-se à beira-mar (o que nos informa, discretamente, sobre a quantidade de peixe ali existente na época) e, sendo um peixe asseteado, o índio mergulhava em seu encalço, até trazê-lo à superfície. A pesca com rede, no entanto, era comunitária: entravam na água, formando um círculo e fazendo movimentos de modo que os peixes acabassem dentro da rede. Vale salientar que, nesse caso, o produto da pescaria era repartido entre todos os participantes, igualmente.
Quanto ao preparo dos alimentos, Hans Staden refere que as mulheres cozinhavam carne ou peixe e temperavam com pimenta verde e, desses ingredientes, faziam mingaus (²). Registre-se aqui que esse não era o único tipo de mingau que faziam. Para conservar a mandioca ou o peixe por mais tempo, assegurando um suprimento de comida para tempos de escassez ou mesmo para viagens, como as que se faziam em tempo de guerra, era usual a preparação de farinha, além de já conhecerem uma técnica para defumar: carne e/ou peixe, fixados em varas, eram colocados sobre fogueiras, aí permanecendo para receber tanta fumaça quanto possível, até que secassem. Posteriormente, quando desejavam consumir o que fora defumado, colocava-se em água para ferver.
Eis aqui uma síntese do que Hans Staden observou em seus dias como prisioneiro. É claro que poderíamos incluir na dieta indígena os frutos que eram coletados nas matas, mas isso era algo de que se serviam apenas na estação apropriada de maturação de cada espécie.

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) Veja, sobre isso, a postagem: "Uma receita inusitada de mingau".


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domingo, 14 de agosto de 2011

Passeio de rede - Parte 2

"José da Silva sentia agora deixar tudo isso, abandonar o encanto selvagem das florestas brasileiras - ali vivera feliz largo tempo, amara, enriquecera. Tornara-se americano, acostumara-se à música daquelas árvores seculares, à harmonia dos campos, às sestas preguiçosas da fazenda, à vida de chinelas e peito nu, à rede embalada pelo vento, o sono guardado por escravos."
                                                                                                                     Aluísio Azevedo, O Mulato

O hábito de se fazer transportar em uma rede era, aos olhos dos que não estavam acostumados a ele, no mínimo curioso. Há, a esse respeito, um interessante relato de Hércules Florence que, durante a Expedição Langsdorff, conheceu uma fazendeira idosa, D. Antônia, que, ao que parece, não viajava de outro modo, tendo para isso todo um séquito a lhe servir:
"No dia 1º de maio de 1827 partimos para a vila de Guimarães. Em caminho fomos visitar a fazenda do Buriti, de cana-de-açúcar, e pertencente a uma velha chamada D. Antônia, a qual chegou ao mesmo tempo que nós, vinda de Cuiabá. Viajava de um modo novo para nós, carregada por dois negros numa rede suspensa a uma grossa taquara de guativoca. De muda iam outros dois pretos aos lados. Acocorada nessa rede e a fumar num comprido cachimbo, vinha ela seguida de negras e mulatas, todas vestidas limpamente e carregando à cabeça cestos, trouxas e roupas, vasilhas de barro e outros objetos comprados há pouco." (¹)
Antes de mais comentários, leitor, será bom assinalar o quanto de influência indígena havia nesses hábitos: a rede, o cachimbo, o viajar levando os pertences sobre a cabeça (que não é costume exclusivamente indígena, mas que nesse caso parece ser o fator determinante). Acontece que essa exótica personagem não se servia da rede apenas para viajar, como logo descobrimos pelas palavras do mesmo H. Florence, que nos descreve o modo como a fazendeira controlava o trabalho que se fazia em sua propriedade:
"[...] D. Antônia tem sua rede armada perto da porta de entrada, à direita: ali passa os dias a fumar e a dirigir o trabalho das pretas e mulatas." (²)
Além do que descreveu em palavras, H. Florence deixou um precioso desenho do que viu na Fazenda do Buriti, no qual, além da casa-sede, vemos, como não poderia deixar de ser, a proprietária, devidamente instalada em sua rede.


(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, pp. 143 e 144.
(2) Ibid., p. 144.


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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Passeio de rede - Parte 1

Partiu nesse mesmo dia, dentro de uma rede, com direção à Vila do Paço. Mas o terrível beribéri subia sempre; os membros por onde ele atravessava iam ficando paralisados e frios como membros de defunto. A onda maldita galgara finalmente a caixa torácica, Vasconcelos não pôde respirar de todo e morreu.
Amélia, ao receber a inesperada noticia, rebentou num berreiro e tratou de cobrir-se de luto fechado.
                                                                                                       Aluísio Azevedo, Casa de Pensão

Redes foram e são usadas por indígenas do Brasil para dormir (¹). Bandeirantes, que devem ter aprendido o hábito com os indígenas, também usavam redes, que eram amarradas entre duas árvores, sempre que se parava para estabelecer lugar de pouso. Em redes dormiam, frequentemente, os escravos nas senzalas, e muitas vezes até a família dos senhores na casa-grande. E, verdadeiro ícone do repouso, mas também da preguiça, é a famosa imagem de uma praia, céu impecavelmente azul, dois coqueiros e, entre eles, uma rede bem confortável, sem desconsiderar um copo de suco gelado. O que nem todo mundo sabe é que as redes já tiveram outro uso no Brasil.
Durante séculos, a pessoa que não fosse suficientemente afortunada para ter uma cadeirinha de arruar ou uma liteira, mas ainda assim dispusesse de dois escravos, costumava fazer-se carregar pela cidade ou em pequenas viagens em nada mais, nada menos, que uma rede. Tanto assim que, no intuito de elogiar Matias de Albuquerque, líder das forças luso-brasileiras na guerra contra os holandeses na Bahia, Frei Vicente do Salvador escreveu:
"Foi Matias de Albuquerque todo o tempo que serviu, assim de Capitão-mor de Pernambuco como de Governador Geral do Brasil, que foram sete anos, sempre muito limpo de mãos, não aceitando coisa alguma a alguém, nem tirando ofícios para dar a seus criados. Nas ocasiões de guerra e do serviço de Sua Majestade foi muito diligente, não se poupando de dia nem de noite ao trabalho; nunca quis andar em rede, como no Brasil se costuma, senão a cavalo, ou em barcos, e quando nestes entrava não se assentava, mas em pé os ia ele próprio governando." (²)
Nunca quis andar em rede!

Homem sendo transportado em rede por seus escravos, segundo Debret (³)

Finalmente, fica por dizer que, no interior do Brasil era costume, em outros tempos, quando não se dispunha de caixão apropriado, que os mortos fossem sepultados envolvidos por uma rede - a mesma, aliás, que era usada para conduzi-los ao túmulo, hábito esse também muito provavelmente de origem indígena, já que havia tribos que enterravam seus mortos com os pertences de que haviam se servido em vida, o que incluía, com toda certeza, a rede de dormir.

Doente sendo transportado em rede, segundo H. Florence (⁴)

(1) Diz Pero de Magalhães Gândavo, em seu Tratado da Terra do Brasil:
"A maior parte das camas do Brasil são redes, as quais armam numa casa com duas cordas e lançam-se nelas a dormir. Este costume tomaram dos índios da terra."
(2) SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil, vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Senado Federal, 2007. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. Neste caso, refere-se a um membro da Expedição Langsdorff. Muitos dos expedicionários foram vitimados por febres tropicais. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dormir em redes - Parte 3

"Às vezes entrava em casa ao amanhecer. Não podia dormir logo; vinha excitado, sacudido pelas impressões e pela bebedeira da noite. Atirava-se à rede, com uma vertigem impotente de conceber poesias byronianas, escrever coisas no gênero de Álvares de Azevedo, cantar orgias, extravagâncias, delírios."
                                                                                                        Aluísio Azevedo, Casa de Pensão

Para os indígenas do Brasil, para bandeirantes, para monçoeiros, a rede era um modo muito conveniente de "carregarem a cama nas costas", onde quer que fossem. Ora, leitor, o hábito tornou-se tão arraigado que foi (e em alguns lugares ainda é) usado mesmo por gente estritamente sedentarizada.
Viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil no século XIX tiveram a oportunidade de verificar e deixar registros desse costume bastante longevo. As imagens que fixaram revelam, inclusive, um fato curioso: uma certa semelhança entre o interior de uma habitação indígena e o da residência de uma família pobre, como se pode perceber pelas amostras seguintes - uma evidente influência e perpetuação dos hábitos dos ameríndios.

Imagem 1 - Interior de uma habitação indígena, ocupada por índios mundurucus, segundo Hércules Florence (¹)


Imagem 2 - Interior da habitação de uma família pobre, segundo Debret (²)


(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil, vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 7 de agosto de 2011

Dormir em redes - Parte 2

Desfeiava-lhe a testa uma grande cicatriz - foi um trambolhão que levou na primeira noite em que deram-lhe uma rede para dormir - o pobre desterradozinho, que não sabia se haver com semelhante engenhoca, foi meter primeiro os pés e caiu desamparadamente sobre uma caixa de pinho de um dos companheiros.
                                                                                                                     Aluísio Azevedo, O Mulato

O hábito indígena de dormir em redes, muito conveniente a quem tinha um estilo de vida nômade ou seminômade, espalhou-se amplamente pelas áreas de povoamento lusitano durante o período colonial. Sendo muitas vezes filhos de portugueses e índias, os bandeirantes de São Paulo fizeram uso habitual dessas camas portáteis em suas expedições pelo interior do Brasil, estivessem eles tentando aprisionar indígenas para escravização ou mesmo em procura de riquezas minerais (entenda-se: ouro).
Chama a atenção o fato de que o método descrito de armar redes dos monçoeiros era, em essência, o mesmo que fora descrito por Hans Staden relativamente aos índios - a rede era colocada entre dois paus ou duas árvores. O Conde de Azambuja, obrigado por dever de ofício a meter-se em viagem Tietê afora para ir a Cuiabá em 1751, assim explicou o uso que se fazia das redes nas monções, às quais se adicionava um mosquiteiro, por razões demasiado evidentes para carecerem de menção, e uma cobertura, em caso de chuva:
"Bem sabereis o grande uso que tem nesta terra a rede, a qual é a cama mais pronta e mais fácil de conduzir: porém, como esta não basta para livrar das muitas chuvas que necessariamente se apanham em uma travessia tão grande do sertão, como esta, não guarda também da imensidade de mosquitos, que em partes se encontram: para suprir esta falta, inventaram os viandantes deste caminho o mosquiteiro, que vem a ser uma cobertura de linhagem, ou de outra droga leve, a qual lançam por cima de uma corda, que prendem aos mesmos paus a que atam a rede, por cima dela dois palmos. Esta coberta chega até ao chão por todas as partes, fechada pelos lados e pelas cabeceiras, deixando-lhes nestas umas mangas para se enfiarem os punhos das redes. Quando chove cobrem esta máquina com uma baeta singela, da largura que baste para alcançar alguma coisa mais abaixo da altura em que a rede fica, depois de seu dono deitado nela." (¹)
Muito tempo depois, durante a Expedição Langsdorff, repetia-se ainda a mesma rotina das monções, quanto a baixar acampamento, prover alimentação e instalar redes ao final de cada dia de viagem, conforme relato de Hércules Florence:
"À tardinha, lá pelo ocaso do sol, aproava-se, e então cada remador desempenhava o serviço que lhe havia indicado o guia para toda a viagem. Uns cortavam árvores, limpavam o terreno que ia ser acampamento; outros buscavam lenha seca para acenderem fogo; outros, enfim, armavam as barracas e suspendiam as redes. O cozinheiro preparava sua panelada dos feijões que deviam ser consumidos naquela hora ou no dia seguinte." (²)

Pouso da Represa Grande, de acordo com Hércules Florence (³)

(1) Da viagem que fez o Conde de Azambuja, D. Antônio Rolim, da cidade de São Paulo para a vila de Cuiabá em 1751, in TAUNAY, A. de E. História das Bandeiras Paulistas, vol. 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos/MEC, 1975, p. 199.
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 24. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dormir em redes - Parte 1

Por que motivo alguém deixaria sua cidade natal e, em meados do século XVI, sairia a percorrer o mundo em navios que mais pareciam cascas de ovos sobre as águas revoltas do Atlântico? Sim, portugueses e espanhóis, envolvidos no processo de descobrimento e colonização a América, tinham seus motivos para tais viagens, mas um alemão que nem era marinheiro? Esse foi o caso de Hans Staden. Fez duas viagens à América do Sul, a primeira em uma frota portuguesa, a segunda a serviço da Espanha. Na segunda viagem teve a infelicidade de naufragar na costa do Brasil. Como era artilheiro, acabou contratado para trabalhar na defesa da povoação portuguesa na área de São Vicente. Entretanto, acabou sendo feito prisioneiro de indígenas, aliás indígenas que tinham, segundo o próprio Hans Staden, o hábito da antropofagia e, muito satisfeitos em prendê-lo, levaram-no para sua aldeia, na região de Ubatuba, com a finalidade de... devorá-lo. Curiosamente, acabou conseguindo safar-se e retornar à Europa, onde, no melhor estilo dos aventureiros de nosso tempo, escreveu um livro, Zwei Reisen nach Brasilien (¹), no qual contou não apenas as peripécias pelas quais passou, mas também algo sobre as particularidades do estilo de vida dos ameríndios com que tivera contato. A obra é tão boa que chega a ser surpreendente que não haja, quanto ao que eu saiba, nenhum longa-metragem expressivo com base nela.
Um dos hábitos indígenas assinalados pelo nosso viajante foi o costume de dormir em redes. Conta-nos Hans Staden que, uma vez prisioneiro dos tupinambás, foi levado à sua aldeia, sendo-lhe destinada uma rede (a que os nativos chamavam inni), na qual deveria dormir. Explica também que a rede era armada entre dois paus ou, quando em viagem, entre duas árvores. Essas redes por ele descritas eram tecidas com fios de algodão e, durante a noite, costumavam os índios manter uma pequena fogueira perto delas, tanto para aquecimento como para afastar insetos e animais peçonhentos.

Rede indígena de acordo com Hans Staden (²)
Hans Staden em uma rede, prisioneiro dos tupinambás (²)

Entretanto, devia haver indígenas que trançavam redes de outros materiais, porque o desenhista francês Hércules Florence relatou que, em 1826, durante a Expedição Langsdorff, viu uma feita de cipó:
"No lugar onde paramos, havia uns gravetos queimados entre cinzas, assim como uma rede de cipó suspensa à alta ramada de uma árvore, sem dúvida para pôr quem lá dormira ao abrigo das onças. Creio que fora algum índio, o qual fizera sua cama tão alta por se achar sozinho, pois tenho como certo que não deve haver o menor receio daquelas feras, quando se viaja em grupo." (³)
Estava a Expedição, segundo o mesmo autor, próximo ao ponto em que o Tietê lança suas águas no rio Paraná.

(1) Duas Viagens ao Brasil. Editado em Marburg em 1557.
(2) De acordo com a edição de Marburg. As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog..
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 45.


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