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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Como indígenas se referiam ao rei de Portugal

Uma carta escrita pelo padre Antônio Vieira em 1653 e transcrita pelo padre José de Moraes na História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará (¹) traz uma revelação surpreendente quanto ao modo como indígenas se referiam ao rei de Portugal. O destinatário era o provincial jesuíta do Brasil, e o assunto principal, uma expedição da qual Vieira e outros inacianos haviam participado, percorrendo o rio Tocantins, com a finalidade, assim pensavam eles, de fazer contato com nativos para a catequese. Colonizadores que os acompanhavam tinham, porém, outros planos, porque viam nessa viagem uma oportunidade excelente para a captura e escravização de indígenas.
Por esse tempo, já eram corridos mais de cento e cinquenta anos que portugueses frequentavam o Brasil, não sendo, por essa razão, nada espantoso que indígenas que se relacionavam, de um ou outro modo, com colonizadores, tivessem conhecimento da existência de um rei em Portugal. No entanto, é possível que não entendessem muito bem a questão do poder hereditário e imaginassem que, década após década, o rei era sempre o mesmo, algo que se pode inferir das palavras de Vieira, ao relatar o encontro com parentes de líderes tribais, que, segundo o jesuíta, estavam dispostos a receber a catequese, mas nada queriam com os colonizadores (tinham razões de sobra para isso):
"[...] Em companhia deste índio vieram seis da nação a que íamos buscar, filhos e sobrinhos dos principais, com os quais e com os dois que vieram desde o Pará não temos perdido tempo, declarando-lhes a tenção de Sua Majestade, e a nossa, [...] e nos têm prometido que não hão de admitir senão o estar juntos, e ser filhos dos padres, e vassalos de El-Rei." (²)
Prossegue o padre Vieira:
"[...] Pasmei de ver, quão familiar é entre eles, este nome de rei, e quão continuamente o trazem na boca; e querendo eu saber, que conceito faziam da palavra, e o que cuidavam que era rei, responderam: Jára omanó eyma, que querem dizer: Senhor que não morre. [...]" (³)
E Vieira, ousado praticante de esgrima verbal, assim concluiu o episódio: 
"[...] Explicamos-lhes que imortal era só Deus; mas por este alto conceito que fazem estes gentios do nosso rei (⁴) mereciam ao menos, que em prêmio da imortalidade que lhe atribuem, os defendessem eficazmente de tantas violências." (⁵)

(1) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 470.
(3) Ibid.
(4) D. João IV, nessa ocasião.
(5) MORAES, José de S.J. Op. cit., p. 470.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Obstáculos à catequese de indígenas, de acordo com José de Anchieta

Não foi o desconhecimento da língua falada pelos indígenas a maior dificuldade enfrentada pelos missionários que, desde meados do Século XVI, vieram ao Brasil no interesse de desenvolver um projeto de catequese. Nos colégios jesuítas estabelecidos na América portuguesa era obrigatório o estudo do "grego da terra", como jocosamente se referiam à língua predominante na costa do Brasil, e, não muito mais tarde, já havia até gramática pela qual orientar a instrução dos religiosos. Com base em um documento datado de 1584 (¹) e atribuído a Anchieta (²), pode-se afirmar que, sob a ótica dos jesuítas, os maiores obstáculos à catequese eram de outra natureza, e poderiam ser assim resumidos:
  • Prática da poligamia por indígenas;
  • Apreço pelo "vinho" (principalmente pela bebida fermentada de caju, cujo uso o próprio Anchieta reconhecia ser preferível moderar que tentar abolir);
  • Guerras frequentes por questão de honra, seguidas, não raro, de antropofagia;
  • Inconstância, já que ameríndios pareciam aceitar prontamente as ideias propostas pelos missionários, porém, mais tarde, abandonavam-nas com idêntica facilidade (³);
  • Falta de "temor e sujeição" (os missionários, incluindo Anchieta, achavam que a catequese poderia ser facilitada, se imposta pelas autoridades coloniais, que obrigassem, por exemplo, ao aldeamento dos indígenas em comunidades subordinadas aos padres).
Qual destes itens corresponderia à maior dificuldade? Conforme Anchieta, nenhum deles; o problema mais grave não era nativo da América:
"Os maiores impedimentos nascem dos portugueses, e o primeiro é não haver neles zelo da salvação dos índios [...], antes os têm por selvagens e, ao que mostram, lhes pesa de ouvir dizer que sabem eles alguma coisa da lei de Deus [...]." (⁴)
A maioria dos colonizadores via nos índios apenas um vasto acervo de mão de obra gratuita, a cuja escravização mesmo as autoridades coloniais faziam vistas grossas, isso quando não estavam diretamente envolvidas no apresamento dos naturais da terra sob o pretexto de "guerras justas". A Companhia de Jesus, por seu turno, buscava implantar um modelo de catequese em que os ameríndios viveriam em comunidades sob a tutela dos padres. Perspectivas tão diferentes resultaram em cerca de dois séculos de confrontos.

(1) "Informação do Brasil e de Suas Capitanias". In: ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 333.
(2) Ele mesmo um notável missionário.
(3) É interessante que Anchieta não parecia considerar que a suposta inconstância podia ser, talvez, fruto de um choque cultural. Como regra, não era esse o modo de ver os fatos no Século XVI.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Pero Corrêa - de escravizador de indígenas a missionário jesuíta

Um pequeno grupo de jesuítas foi mandado por Manuel da Nóbrega ao interior, com o propósito de iniciar a catequese de indígenas identificados por Anchieta como "ibirajaras". Estavam também incumbidos da tarefa de achar caminho pelo qual fosse possível chegar às terras de colonização espanhola no Paraguai. Iam, entre eles, Pero Corrêa e João de Sousa, missionários. 
Interessante a história desse Pero Corrêa. Português, viera ao Brasil como colonizador e, como muitos outros, queria prosperar. Não demorou muito e estava envolvido com o apresamento de indígenas para escravização. Em uma carta escrita em São Vicente em 15 de março de 1555, Anchieta observou: "Era um dos principais portugueses que estavam nesta terra e andava em uma nau, por toda a parte, matando índios ou aprisionando-os, parecendo-lhe que fazia um grande serviço a Nosso Senhor [...]." (¹) Que serviço, prestava ele!...
Mas, um dia, tudo mudou. O caçador de índios resolveu mudar de vida e se tornar jesuíta. Novamente de acordo com Anchieta, "logo que a trombeta de Cristo começou a soar pelos da Companhia, foi ele o primeiro que dobrou o colo ao jugo dela; e dizia muitas vezes, e de tal se persuadira, que se queria salvar-se, era mister que todo se desse ao serviço desses índios, até morrer pela alma deles, não achando nenhuma satisfação com que reparasse o mal que lhes havia feito." (²)
É difícil identificar o que poderia ter provocado tão notável emenda. Seria, talvez, sentimento de culpa, medo das penas eternas (conforme se ensinava na época), quem sabe arrependimento sincero? De qualquer modo, admitido como irmão na Companhia de Jesus, logo estava Pero Corrêa mergulhado na catequese de indígenas, ajudado pelo conhecimento que tinha da língua por eles falada. 
Seria até natural, todavia, que os índios, sabendo quem era o sujeito, tivessem medo dele. Não estaria preparando uma armadilha para capturá-los aos milhares? 
Pero Corrêa foi jesuíta durante cinco anos, até ser enviado por Nóbrega, com outros religiosos, na expedição para catequese dos "ibirajaras". Ao que parece, a insistência em que abandonassem a antropofagia soou demasiado irritante para os senhores da terra, que resolveram acabar com o incômodo. João de Sousa foi o primeiro a morrer, sob o efeito das flechadas recebidas. Em seguida, foi a vez de Pero Corrêa. Em outra carta, também de 1555, mas escrita em São Paulo, Anchieta relatou: "O irmão Pero Corrêa, vendo isto [a morte de João de Sousa], lhes começou a falar, e a resposta deles era flechadas [...], até que, não podendo mais sofrê-las, deixou o bordão que trazia e se pôs de joelhos, encomendando sua alma ao Senhor [...]." (³) Infere-se que a notícia da morte dos dois missionários tenha chegado a Nóbrega, Anchieta e aos demais jesuítas por boca dos outros integrantes da expedição, que conseguiram escapar.  

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 81.
(2) Ibid.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Como indígenas reagiam às tentativas de catequese por missionários jesuítas

De acordo com José de Moraes, jesuíta do Século XVIII, havia, como regra geral, três reações possíveis dos indígenas, quando missionários queriam catequizá-los:

1. Indígenas que recusavam a catequese


Não era incomum que o "não queremos" fosse declarado com agressividade. Alguns jesuítas foram mortos por grupos indígenas que recusaram a catequese. Às vezes, a recusa podia assumir um caráter até humorístico, como sucedeu com um índio que, para não ouvir a catequese, alegava ser surdo. 
Uma estratégia frequentemente adotada por jesuítas era enviar às aldeias não catequizadas alguns indígenas que já eram cristãos, devidamente instruídos para que dissessem viver muito bem em companhia dos padres. Então, na expressão de José de Moraes, "destas tão importantes práticas resultava comumente um de três efeitos: o primeiro, e o mais raro, era responderem com as armas na mão, que não querem nada com os brancos, porque sabem de certo que os hão de tratar muito mal e consumir no seu serviço". (¹)

2. Indígenas que disfarçavam o desinteresse pela catequese alegando que queriam pensar no assunto com mais tempo


Outra resposta possível, nas palavras do padre José de Moraes: "O segundo [modo de resposta] e menos usado é dizerem como os atenienses a São Paulo Audiemus te de hoc iterum (²), que é o mesmo que "considerarei no ponto mais devagar." (³)

3. Indígenas que recebiam bem os missionários e aceitavam o início da catequese


Atraídos pelas palavras dos já catequizados e por presentes (ferramentas, espelhos, pentes, agulhas, anzóis e outros pequenos objetos úteis), havia indígenas que recebiam bem os missionários. À medida que a expansão colonial prosseguia, a recepção favorável aos jesuítas passou a ter outro motivo: sob ameaça constante de escravização, ameríndios viam nos "padres da Companhia" sua única defesa, infelizmente menos eficaz do que seria desejável. Devotos de fachada, colonizadores também se faziam de surdos para não ouvir os padres, sempre que interesses econômicos estavam em jogo. A explicação de José de Moraes, quanto a uma recepção favorável, era esta:
"O terceiro e mais ordinário [modo de responder] é mandarem com os embaixadores (⁴) dois ou três índios dos mais capazes, que com a vista examinassem primeiro o que ouviram, e que significassem ao padre o grande gosto com que os seus nacionais ficavam de o verem nas suas terras. E quando já o industrioso missionário os via na sua presença, não é fácil explicar os carinhos e afagos que lhes fazia, e de tal sorte com regalos lhes ganhava os corações, que voltavam contentes e alegres a dizer maravilhas do padre, do bem que eram tratados os índios nas suas aldeias, a quem não faltavam com o necessário, e acudiam com mais ainda do preciso; e para que o gosto de todos ficasse de todo completo, levavam já a certeza de quando o padre os havia de ir visitar, passadas tantas luas, que é o método por onde regula este gentio a sucessiva distribuição e número certo dos tempos, o algarismo dos meses e a numerosa idade dos dias." (⁵)

Escrevendo em meados do Século XVIII, José de Moraes podia, já, buscar uma sistematização dos fatos relacionados à catequese jesuítica nos dois séculos precedentes. Sua retrospectiva foi, no entanto, assinalada por um caráter apologético, que nada tinha de gratuito. A Companhia de Jesus passava por dias turbulentos, nos quais, sob o governo do Marquês de Pombal, a Ordem seria expulsa de Portugal e de seus domínios, pondo fim à catequese que empreendera no Brasil Colonial.

(1) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 94.
(2) Cf. Actus Apostulorum 17, 32.
(3) MORAES, José de S.J. Op. cit., p. 94.
(4) Referência aos indígenas que os missionários haviam mandado à aldeia.
(5) MORAES, José de S.J. Op. cit., pp. 94 e 95.


terça-feira, 27 de março de 2018

Jesuítas acampavam quando iam ao sertão

Tendo indígenas como guias, missionários jesuítas foram, em diversas ocasiões, a vanguarda da exploração do território brasileiro por europeus.
Em suas expedições de catequese era frequente que precisassem acampar, uma vez que, sertão adentro, não havia povoações de colonizadores, onde pudessem encontrar abrigo quando anoitecia. Um relato escrito pelo jesuíta José de Moraes em meados do Século XVIII oferece uma ideia de como se arranjava um missionário quando precisava "baixar acampamento":
"Todos os dias antes de ser noite fazia alto com os índios que o acompanhavam, mandava armar o rancho, que era uma casa formada de paus e coberta de palha, que para tudo dão comodidade os matos do Brasil; tratavam de cozinhar o que entredia de caminho tinham morto, ou na caça ou na pesca, de que há abundância nestas terras, por serem muito destros os índios neste exercício em que rara é a vez que voltam sem trazer alguma coisa. Acabada a ceia à luz de muitas fogueiras, que faziam ao redor da casa para se defenderem das feras e de infinidade de mosquitos, que de ordinário se não atrevem a chegar junto do fogo, se deitavam a dormir até o seguinte dia de madrugada, que continuavam a sua viagem." (¹)
A vivacidade da explicação dada pelo padre José de Moraes até nos leva a imaginar, em sua rústica cabana improvisada, o que conversariam, o missionário, usualmente com um companheiro também jesuíta, e os indígenas, nessas horas em que, não fossem as palavras, ficariam apenas a ouvir os sons noturnos da floresta (²). Falariam em coisas da religião? Ouviriam com interesse as lendas e tradições indígenas? Ainda que sem pôr os sentimentos em palavras, teriam receio do caminho adiante? Embora não tenhamos resposta para tais questões, ficamos com a certeza de que os aspectos práticos da jornada deviam ocupar muito do tempo desses expedicionários que estavam dispostos a gastar a vida na propagação de suas convicções religiosas. 
Se o lugar não era favorável para arranchar, era preciso armar as redes (como os indígenas), em algum ponto nas árvores. O modo de fazer fogo era também aquele aprendido com os filhos da terra. Talvez possamos falar, portanto, em um estilo colonial de acampar, comum a jesuítas e bandeirantes, e, mais tarde, a partir do Século XVIII, adotado também por tropeiros, e aprendido, em grande parte, com os mestres ameríndios, verdadeiros especialistas em sobrevivência na variedade de paisagens naturais de que se compunha o Brasil.

(1) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 95.
(2) Que não são exatamente tranquilizantes.


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A bagagem de dois missionários jesuítas que pretendiam catequizar indígenas no Ceará e no Maranhão

O Século XVII está no começo. Dois jesuítas, Francisco Pinto e Luís Figueira, saindo do Colégio de Pernambuco, iniciam uma longa caminhada com o propósito de estabelecer uma missão entre indígenas no Maranhão. 
Não vão sozinhos: têm a companhia de alguns índios, já catequizados, que auxiliam no contato com grupos indígenas. Além disso, ajudam a transportar a bagagem dos dois padres. Como somos curiosos, leitores, iremos bisbilhotar o que é que carregam. Como? Há um relato interessante, feito pelo padre José de Moraes em A Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará:
"Caminhavam a pé, sem mais vitualhas que o altar portátil que levavam dois índios, algum vinho, hóstias, cera e uma pouca de farinha de pau (¹), usual sustento da terra, repartida pelas mochilas dos companheiros; sem mais outra vianda que o peixe e caranguejos, que a diligência dos índios encontrava por aquelas praias. Usavam de umas roupetas curtas para lhes ficarem mais desembaraçados os passos [...]; mas porque os charcos, pedras e lodos por onde precisamente haviam de passar eram muitos, consumidos logo nos primeiros dias os sapatos, se viram obrigados a caminhar descalços." (²)
A obra de José de Moraes somente foi escrita uns cento e cinquenta anos depois da missão de Francisco Pinto e Luís Figueira (³). Sabe-se de seu acesso a uma variedade de documentos, mas, conforme ele próprio explicou, em alguns casos seus relatos tiveram por fundamento a tradição, apenas. Apesar disso, podemos estar certos de que, ao empreenderem a viagem, os dois padres a que nos referimos entraram em um rumo de todo desconhecido para eles. Confiavam, pois, na lealdade e experiência dos indígenas já catequizados que tomavam por guias. Para a alimentação, esperavam achar pesca e alguma caça, a fim de complementar a magra dieta de farinha de mandioca. Na bagagem listada por José de Moraes, destacam-se os itens de uso religioso, a começar pela existência de um altar portátil. O mesmo autor, tratando de outras missões de catequese, faria referência ao uso de um móvel semelhante, o que nos leva à conclusão de que seu emprego era prática comum na época. 
Não foi dessa vez, no entanto, que uma missão de jesuítas foi estabelecida no Maranhão. Ao chegar à Serra de Ibiapaba, a pequena caravana foi atacada por tapuias. Francisco Pinto foi morto, assim como alguns dos índios catequizados. Luís Figueira escapou, escondendo-se no mato. Depois de sepultar o companheiro, retornou a Pernambuco. Anos mais tarde, após a expulsão dos franceses do Maranhão, foi mandado a São Luís, onde uma nova luta o aguardava, não contra grupos indígenas que rejeitavam a catequese, mas contra os colonizadores que viam em cada ameríndio um escravo em potencial.

(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 30.
(3) A primeira edição foi publicada em 1759, mesmo ano em que o autor foi deportado para o Reino, no contexto das restrições e posterior extinção da Companhia de Jesus.


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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Uma cerimônia feudal na selva da América do Sul

A homenagem era uma cerimônia típica do feudalismo. Por meio dela é que formalmente eram reconhecidos os laços de suserania e vassalagem. Envolvia, de um lado, a obrigação de proteção (por parte do suserano) e, de outro, vários deveres, dentre os quais, o do serviço militar (por parte daquele que se reconhecia como vassalo). Não é difícil perceber que a homenagem fazia sentido dentro da sociedade medieval, em que as guerras eram frequentes e os exércitos, constituídos por gente da nobreza, não eram e nem podiam ser muito numerosos.
Agora, leitores, respirem fundo: é que iremos encontrar uma autêntica cerimônia de homenagem no ano de 1659, não na Europa, mas no Brasil. O autor da ideia foi ninguém menos que o padre Antônio Vieira - sim, o jesuíta famoso por seus sermões. Está na hora de uma explicação.
Antônio Vieira, que exercia funções diplomáticas para o monarca português, um dia entalou na cabeça que queria vir ao Brasil para trabalhar na catequese de indígenas. Veio, e logo percebeu que seu maior obstáculo eram os colonizadores, que tinham, sim, grande interesse nos índios, mas para escravizá-los. O jesuíta não perdeu tempo, e obteve do rei uma ordem pela qual, ao menos oficialmente, o trabalho compulsório de indígenas ficaria restrito àqueles capturados em "guerra justa". Os demais deviam ser catequizados pelos missionários, sob as ordens do próprio Vieira.
Sucede que, há tempos, portugueses e vários grupos indígenas conhecidos como nheengaíbas viviam às turras, fazendo estragos de parte a parte, sempre que era possível. Pôs-se o padre Vieira a negociar a paz, e, surpreendentemente, os indígenas confiaram nele e concordaram em depor as armas. 
Mas era preciso dar um aspecto oficial ao acordo. Vieira achava que os índios, atribuindo grande importância às cerimônias pomposas, seriam mais fiéis à palavra empenhada se um juramento fosse feito de forma solene. Que fazer? Organizou-se uma homenagem, com tanto luxo quanto as circunstâncias permitiam, na presença de chefes indígenas já catequizados, de portugueses e dos chefes dos nheengaíbas. O melhor é deixar que o próprio Antônio Vieira conte o que aconteceu, tendo por cenário uma pequena igreja construída pelos índios:
"Ao lado direito da igreja estavam os principais (¹) das nações cristãs com os melhores vestidos que tinham, mas sem mais armas que as suas espadas. Da outra parte estavam os principais gentios (²) despidos e empenados ao uso bárbaro, com seus arcos e flechas na mãos; e entre uns e outros os portugueses. Logo disse missa o padre Antônio Vieira, em um altar ricamente ornado [...], à qual [...] assistiam os gentios de joelhos [...]." (³)
Depois da missa, o mesmo Vieira perguntou aos nheengaíbas se era de sua vontade que viessem a ser vassalos do rei de Portugal. A pergunta foi respondida afirmativamente, e, ato contínuo, cada chefe, ajoelhado e pondo as mãos entre as do padre, proferiu o seguinte juramento:
"Eu Fulano, principal de tal nação, em meu nome e de todos os meus súditos e descendentes, prometo a Deus e a El-Rei de Portugal a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, e de ser (como já sou de hoje em diante) vassalo de Sua Majestade, e de ter perpétua paz com os portugueses, sendo amigo de todos os seus amigos e inimigo de todos os seus inimigos, e me obrigo de assim o guardar inteiramente para sempre." (⁴)
Feito o juramento, cada chefe beijava a mão ao padre e era por ele abençoado. Desnecessário é dizer que tudo se fazia com a assistência de intérpretes. Abraços e festas completaram o evento.
Convenhamos, leitores, que a cena descrita por Vieira é digna de um exercício de imaginação. Tentem, portanto, visualizar toda essa pantomima medieval em meio à selva amazônica. O rei, a quem se acrescentavam tantos vassalos, de tudo foi informado por carta datada de 11 de fevereiro de 1660.

(1) Caciques ou chefes indígenas.
(2) Chefes dos nheengaíbas.
(3) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 34 e 35.
(4) Ibid., p. 37.


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terça-feira, 11 de abril de 2017

O Colégio de São Paulo e o início da catequese de indígenas no Brasil

De acordo com José de Anchieta, o primeiro colégio dos jesuítas em São Paulo, aquele de 1554, era muito pequeno:
"Assim, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia, que se chama Piratininga, chegamos a 25 de janeiro do ano do Senhor de 1554, e celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa." (¹)
Este relato aparece em uma carta escrita na própria Casa de São Paulo, provavelmente no final de setembro de 1554. Nesse mesmo documento, Anchieta forneceu outras informações sobre o lugar em que viviam:
"De janeiro até o presente tempo permanecemos, algumas vezes mais de vinte, em uma pobre casinha feita de barro e paus, coberta de palhas, tendo quatorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha, a despensa; todavia, não invejamos as espaçosas habitações de que gozam em outras partes os nossos irmãos, pois N. S. Jesus Cristo se colocou em mais estreito lugar, e dignou-se nascer em pobre manjedoura, entre dois brutos animais, e morrer em altíssima cruz por nós." (²)
Por que a primitiva construção ocupada por jesuítas em São Paulo era tão pequena? Southey, em sua História do Brasil, argumentou, com acerto, que não era por falta de espaço para construir, mas errou ao supor que os missionários viviam assim como forma de proteção contra o frio. Ora, leitores, o Colégio de São Paulo foi fundado em janeiro de 1554 - portanto, em pleno verão - não havendo o menor sentido em acreditar que a mísera construção em que foi celebrada a primeira missa era para garantir que nenhum jesuíta ou indígena morresse congelado. Basta continuar a leitura da carta de Anchieta para compreender o que acontecia:
"Os índios por si mesmos edificaram para nosso uso esta casa; mandamos agora fazer outra algum tanto maior, cujos arquitetos seremos nós, com o suor do nosso rosto e o auxílio dos índios." (³)
Então, tudo se explica: o local da primeira missa, oficiada pelo padre Manuel de Paiva, foi erguido às pressas, para dar início ao trabalho de catequese na aldeiazinha de Piratininga; assim que as circunstâncias permitiram, fez-se nova construção. 
A partir de um documento datado de 1584, cuja redação também é atribuída a Anchieta, entende-se que, a princípio, a ideia era estabelecer um colégio para catecúmenos em São Vicente. Todavia, Manuel da Nóbrega julgou apropriado mudar a localização porque em Piratininga havia maior fartura de alimentos. 
Assim nasceram a cidade e o colégio de São Paulo, um por causa do outro. Como casa de jesuítas, não foi a primeira fundada em terras portuguesas na América, já que, nesse aspecto, a Cidade da Bahia (Salvador), como sede do Governo-Geral, teve a prioridade; mas, conforme o citado documento de 1584, foi em São Paulo de Piratininga que "se começou de propósito a conversão do Brasil, sendo esta a primeira igreja que se fez entre o gentio (⁴)." (⁵) 

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 38.
(2) Ibid., p. 43.
(3) Ibid.
(4) O termo "gentio" era usado como sinônimo de indígena não catequizado.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Op. cit., p. 321.


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Quantos governantes seriam necessários?

A surpreendente resposta do padre Antônio Vieira, quando consultado sobre governantes para as Capitanias do Maranhão e do Pará


Antônio Vieira (sim, o padre dos famosos "Sermões") era figura de destaque na Corte portuguesa, ao tempo do rei D. João IV. Ainda assim, meteu na cabeça a ideia de que devia vir ao Brasil para trabalhar na catequese dos povos indígenas. Depois de algumas peripécias, chegou ao Maranhão, apenas para descobrir que não seria nada fácil o seu trabalho, e não por culpa dos índios. Governantes e governados tinham, na Capitania, pensamento muito diverso, em relação aos ameríndios, daquele que defendiam os missionários jesuítas. Governantes e governados achavam que os índios eram muito úteis, utilíssimos, mesmo, mas para trabalho escravo, ainda que legalmente o dito trabalho recebesse outros nomes.
Valendo-se do favor com que era visto na Corte, Vieira tratou de, por carta, levar ao conhecimento do rei os desmandos que se faziam contra a população nativa. Ora, em uma das respostas vindas do Reino, D. João IV perguntou ao padre se achava que seria melhor que as capitanias do Maranhão e do Pará tivessem governos separados, ou que fosse um só o governante de ambas. A resposta, surpreendente, foi esta:
"Eu, senhor, razões políticas nunca as soube, e hoje as sei muito menos; mas por obedecer direi toscamente o que me parece. Digo que menos mau será um ladrão que dois, e que mais dificultosos serão de achar dois homens de bem, que um." (¹)
Notável franqueza! Vieira não deixava dúvidas, portanto, quanto à ideia que fazia dos governantes que, do Reino, eram mandados às terras do Brasil. Já chegavam com o objetivo de acumular toda a riqueza que pudessem, uma vez que seu mandato não duraria para sempre. Portanto, tratavam do estabelecimento de lavouras para produzir tabaco. A mão de obra era, invariavelmente, dos índios, que, explorados até o limite de suas forças, pouco ou nada recebiam em troca. Nas palavras de Vieira, relativamente aos índios do Pará, "se serve quem ali governa como se foram seus escravos, e os trazem quase todos ocupados em seus interesses, principalmente no dos tabacos [...]." (²)
Detalhando o que acontecia, explicou ainda:
"Primeiramente, nenhum destes índios vai senão violentado e por força, e o trabalho é excessivo, e em todos os anos morrem muitos [...]; os nomes que lhes chamam e que eles muito sentem, feiíssimos, o comer é quase nenhum, a paga tão limitada que não satisfaz a menor parte do tempo, nem do trabalho [...]." (³)
Alguém teria dificuldade em perceber que tudo isso emperrava a catequese pretendida por Vieira, daí sua manifesta irritação com os administradores coloniais? 
A bombástica missiva, escrita no Maranhão, seguiu para Lisboa com a data de 4 de abril de 1654.

(1) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 1. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 49.
(2) Ibid., p. 51.
(3) Ibid. 


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sexta-feira, 6 de maio de 2016

A construção de capelas nas aldeias como parte do projeto jesuíta para a catequese de indígenas

Era estratégia dos missionários jesuítas que vieram ao Brasil no Século XVI: sempre que faziam contato com um grupo de indígenas e iniciavam a catequese, tratavam de obter daquela comunidade a permissão para construir uma igreja ou capela em sua aldeia. Explicou o padre Simão de Vasconcelos, em obra datada do Século XVII:
"A primeira coisa que procuraram todos estes pregoeiros do Evangelho foi que os índios catecúmenos fizessem capelas e igrejas acomodadas a suas aldeias, para nelas lhes administrarem o culto divino e necessários sacramentos." (¹)
 Assim que o pequeno local de culto ficava pronto, os padres da Companhia de Jesus começavam a efetuar ali os seus ofícios religiosos. Ora, isso atraía a atenção, mesmo que só por curiosidade, até daqueles que não demonstravam interesse pelos ensinos dos padres. Construir uma capelinha era, então, abrir a porta para a catequese mais ampla.
Outra razão para a existência de uma capela é que, tendo os padres constatado que muitos grupos indígenas eram seminômades, pensavam que com algum estabelecimento permanente (como uma igreja ou capela), os naturais da América, desistindo do costume de mudar a aldeia de lugar, adotariam um estilo de vida sedentário, que os missionários consideravam mais favorável aos seus propósitos. De fato, em alguns casos foi exatamente o que aconteceu, sem falar que, não poucas vezes, governadores-gerais, depois que faziam guerra aos indígenas, estipulavam, como uma das condições para a "paz", que os ameríndios deixassem seus costumes ancestrais e fossem viver em uma aldeia controlada pelos padres.
Ninguém deve imaginar, porém, que as capelas edificadas em aldeias indígenas eram belos templos na melhor alvenaria. Nada disso. Eram construções muitíssimo simples, feitas com qualquer material que estivesse disponível, quase sempre com aquilo que os próprios índios usavam em suas habitações. Aliás, na grande maioria das vezes, eram construídas com mão de obra indígena - voluntariamente ou não. Para que os leitores tenham uma ideia de como eram as ditas capelas, basta notar a humilde descrição daquela que foi a primeira a ser construída em Piratininga, junto ao Colégio de São Paulo: "Fizeram juntamente igreja de taipa de mão, coberta de palha, acomodada à ocasião de tempo." (²)
Tão frágeis eram algumas dessas edificações que, narrando as façanhas atribuídas ao padre Belchior de Pontes, o também padre jesuíta Manoel da Fonseca observou que uma igreja, na Aldeia de Nossa Senhora da Escada, estava em tão má situação que só não vinha abaixo porque era sustentada por escoras:
"Estava a igreja desta aldeia [Nossa Senhora da Escada] arruinada, e para que de todo não caísse, estavam arrimados à parede alguns espeques. Sentiam os índios vê-la naquele estado, e queixando-se em uma ocasião, a tempo em que o padre Pontes por ali passava, ele lhes disse que só depois da sua morte se faria igreja nova. Sucedeu assim, porque conservando-se naquele estado alguns anos, depois de sua morte se fez nova fábrica." (³)
Como regra geral, as primitivas capelinhas, feitas com material pouco durável, foram logo substituídas por construções mais resistentes. Dessas últimas, poucas também restaram, já que um sentido equivocado de progresso levou à demolição de muitas construções coloniais (que deveriam ser alvo de preservação), para que, em seu lugar, outras fossem edificadas.

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 55.
(2) Ibid., p. 91.
(3) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 196 (Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo). 


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sexta-feira, 8 de abril de 2016

A hora da catequese

Missionários jesuítas adaptavam os horários de catequese à rotina seguida pelos povos indígenas


Embora, pelas cartas de Anchieta, seja possível inferir que missionários jesuítas não perdiam ocasião de ensinar suas crenças aos indígenas, também sabemos que, sempre que conseguiam ser admitidos ao convívio em uma aldeia, logo tratavam de adotar um horário definido para a catequese. O aspecto interessante é que a escolha da hora estava relacionada à rotina que habitualmente era seguida, não pelos padres, mas pelos índios, ao menos para a catequese de adultos. 
Razão para isso? Muito simples: os homens indígenas adultos costumavam passar boa parte do dia em atividades como caça e pesca, e só no final da tarde é que retornavam à aldeia. O padre Simão de Vasconcelos, autor seiscentista da Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, explicou:
"Como [os índios] vivem de seu arco, em amanhecendo partem à caça das aves e feras por esses campos [...], voltam comumente à noite, de maneira que em todo o dia não há tratar com eles com sossego. Porém este inconveniente vencia o grande fervor de Aspilcueta (¹). Ia esperá-los sobre a tarde, a tempo que vinham carregados com suas caças, dava-lhes as boas-vindas e os parabéns do sucesso aos que tiveram boa dita. Dizia-lhes que descansassem e ceassem [...] com suas famílias; e quando já estavam descansados e satisfeitos, em começando a noite a desenrolar seu manto, começava ele a despregar a torrente de sua eloquência, levantando a voz, e pregando-lhes os mistérios da fé, andando em roda deles, batendo o pé, espalmando mãos, fazendo as mesmas pausas, quebros e espantos costumados entre seus pregadores, para mais os agradar e persuadir." (²)
Para a catequese das crianças a estratégia era diferente: estabeleciam-se escolas, que funcionavam durante o dia. O mesmo Simão de Vasconcelos, na biografia do padre José de Anchieta, escreveu: "Nestas escolas gastam duas horas de manhã, outras duas da tarde." (³)
Logo os missionários jesuítas perceberam que os meninos catecúmenos podiam ser muito úteis quando a questão era convencer os adultos. Assim que anoitecia, as crianças, cantando, percorriam as ruas, o que devia fazer boa impressão entre os nativos do Brasil, notórios amantes da música:
"Tangendo as Ave Marias da noite, tornam-se  a ajuntar [os meninos] à porta da igreja, e daí formam procissão com cruz levantada diante, e postos em ordem, vão cantando pelas ruas em alta voz prosas santas em sua língua [...]." (⁴)
Aos jesuítas parecia, a princípio, mais fácil catequizar crianças que adultos; o tempo veio provar, porém, que assim que chegavam à adolescência, quase todos os meninos optavam pelo atraente estilo de vida de seus pais, com sua liberdade, suas caçadas e suas guerras a cada nova safra de cajus, em lugar dos severos costumes que os padres tentavam ensinar. Justamente por isso é que Anchieta, um mestre no gênero epistolar, viria a escrever algumas de suas páginas mais amargas, exprobando à criançada indígena o abandono da fé que antes pareciam aceitar com tanta facilidade.

(1) Padre João Aspilcueta Navarro, o primeiro dentre os missionários jesuítas a ser capaz de ensinar na "língua geral" dos indígenas que viviam em áreas litorâneas.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 55.
(3) Idem. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 163.
(4) Ibid.


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A celebração do Natal por missionários jesuítas e indígenas catequizados em São Paulo de Piratininga

Os jesuítas, a despeito de métodos inovadores que eventualmente empregavam na catequese, procuravam conformar os catecúmenos às práticas da Igreja quanto ao calendário litúrgico e à administração dos sacramentos. É o que se nota em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga por José de Anchieta, em fins de dezembro de 1556, na qual descrevia práticas associadas à celebração do Natal:
"Antes do dia do Nascimento do Senhor procuramos que [os indígenas] se confessassem, o qual fizeram muitas mulheres e alguns homens, os quais diligentemente examinamos nas coisas da fé, e o que principalmente pretendemos é que saibam o que toca aos artigos da fé, scilicet ao conhecimento da Santíssima Trindade e aos mistérios da vida de Cristo que a Igreja celebra, e que saibam, quando lhes for perguntado, dar conta destas coisas [...]." (¹)
Anchieta diria ainda:
"Neste mesmo tempo do Nascimento do Senhor se confessaram e comungaram muitas mulheres mestiças com muita devoção, o qual em outros tempos muitas vezes fazem." (²)
O que se pode observar é que a catequese não ficava restrita aos indígenas, mas tinha também como objetivo, tanto quanto fosse possível, alcançar o restante da população da aldeia de Piratininga, como se vê pela referência a "mulheres mestiças", ainda que nem sempre os colonizadores estivessem dispostos a dar atenção aos padres da Companhia (³). Em todo caso, era mais frequente que, dentre a população livre, as mulheres se mostrassem mais devotas, embora os homens, até por obrigação social, não deixassem de comparecer aos ofícios religiosos em ocasiões de maior importância. Também quanto à menção de Anchieta relativamente às "mulheres mestiças", será útil recordar que eram poucas, ou melhor, pouquíssimas as mulheres que, nesse tempo, vinham do Reino para viver no Brasil, de modo que não era incomum que colonos portugueses em Piratininga se casassem com índias, nem sempre sob as leis da Igreja. Desses casamentos nasciam os chamados mamelucos, que, nos primeiros séculos de São Paulo, viriam a ser a maioria da população.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 93.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 94.
(3) Não eram incomuns os atritos entre padres e colonizadores, tendo por principal razão as objeções que os jesuítas faziam à escravização de indígenas.


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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Danças dos povos indígenas do Brasil

Uma característica comum aos povos indígenas do Brasil, conforme relatos dos mais variados autores que tiveram contato com eles no Período Colonial, era o grande apreço pela música e pela dança. Os missionários jesuítas, longe de trabalharem por banir essas preferências, trataram de usá-las como aliadas na catequese. No Rio de Janeiro, por exemplo, para celebrar a chegada do visitador dos jesuítas, padre Cristóvão de Gouvêa (¹), os meninos indígenas apresentaram, de acordo com relato do padre Fernão Cardim, "a mais aprazível dança":
"Era para ver uma dança de meninos índios, o mais velho seria de oito anos, todos nuzinhos, pintados de certas cores aprazíveis, com seus cascavéis (²) nos pés, e braços, pernas, cinta e cabeças com várias invenções de diademas de penas, colares e braceletes; parece-me que se os viram nesse Reino, que andaram todo o dia atrás deles; foi a mais aprazível dança que destes meninos cá vi [...]." (³)
No Século XIX, em razão do crescimento tanto do interesse como da curiosidade pelo Brasil, viajantes estrangeiros percorreram vários pontos do País, e alguns deles deixaram depoimentos escritos quanto às danças indígenas que tiveram a oportunidade de presenciar. É difícil dizer o quanto as danças observadas eram, ainda, autenticamente indígenas, já que em alguns casos há indícios de que pareciam encomendadas para "agradar aos turistas". Mas vamos a dois registros, apenas para dar uma ideia do que podia ser visto.
Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff (1825 - 1829), presenciou uma série de movimentos lúdicos dos bororos, executados a partir da formação de um círculo:
"A princípio não fazem mais do que levantar um pé e depois outro, seguindo uma toada lenta que marcam batendo com as mãos, e acompanhada de um canto rouquenho, baixo e demorado como o compasso. De repente param, dão um grande berro e saltam [...]. Em seguida recomeçam com a monótona dança.
Enquanto os bororos a executavam, dois deles, dentro do círculo, representavam o jogo do tamanduá. Um põe-se de quatro pés com uma criança agarrada às costas: é a fêmea do tamanduá-bandeira e seu filhote. Outro o incita, pondo-lhe a ponta de um pau no nariz, imitando com muita fidelidade os movimentos letárgicos do animal; o que faz de tamanduá levanta devagar a cara e uma das mãos, com os dedos curvos como que querendo agarrar o pau: quando se adianta, o outro recua. [...].
Esses índios imitam também suas lutas com a onça, a caçada da anta, lobo, veado, etc." (⁴)
O Príncipe Adalberto da Prússia, que chegou ao Rio de Janeiro em 1842, observou uma dança dos puris, cujo propósito era, também, imitar os movimentos de vários animais nativos da América:
"A dança consistia num bambolear dum lado para o outro acompanhado dum canto monótono, muito fanhoso. Devia representar simbolicamente, a luta de um anum (eu porém compreendi que era duma mosca) contra um boi; uma outra mais tarde descrevia o caititu, o porco-do-mato, correndo dum lado para o outro na floresta; assim foi, pelo menos, que me explicou o próprio puri esta espécie de improvisações." (⁵)
Ora, meus leitores, os bovinos não são originários do Continente Americano. Se, de fato, a dança presenciada representava um desentendimento entre um anum (ave) e um boi, já havia nela uma construção posterior ao início da colonização. 

Dança dos índios puris (⁶)
Muitos autores trataram desse tema das danças indígenas em seus diários de viagem e quem quiser um aprofundamento no assunto não terá dificuldade em encontrar material para estudo. Deve-se levar sempre em conta, porém, que viajantes estrangeiros observavam as danças através do filtro de sua cultura de origem e, sendo numerosos os povos indígenas do Brasil, é preciso cuidado para não incorrer em generalizações que empobreçam a investigação de suas expressões rituais e/ou artísticas.

(1) Essa Visitação ao Brasil ocorreu entre 1583 e 1590.
(2) Guizos.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 92.
(4) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 169.
(5) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 147.
(6) SPIX, Johann B. von et MARTIUS, Carl F. P. von. Atlas zur Reise in Brasilien. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 31 de julho de 2015

O uso da música na catequese empreendida por jesuítas no Brasil Colonial

Para os jesuítas que em meados do Século XVI trocaram as aparentes certezas da Europa pelo desconhecido da América, no rumo da missão que se atribuíam de catequizar os "gentios", ou seja, os povos indígenas, logo surgiu a questão de qual seria o método de maior eficácia, tanto para uma primeira aproximação como para o estabelecimento de um sistema regular de doutrinação entre os nativos. Algum tempo de experiência mostrou aos missionários que um poderoso recurso era a música, pela qual os indígenas eram apaixonados. Desse modo, nas escolas estabelecidas por jesuítas nas aldeias (¹) era usual que, ao lado de ler, escrever e contar, fossem ministradas lições de música, tão importantes, naquele contexto, quanto as de doutrina cristã.
O Padre Anchieta é bem conhecido por sua habilidade em pôr os ensinos em versos simples, que podiam ser facilmente memorizados, quer por filhos dos colonos, quer por meninos indígenas, ou ainda por catecúmenos já adultos. Consta ser ele mesmo o autor desta informação:
"No princípio do ano de 1578 veio por governador Lourenço da Veiga, o qual por si mesmo visitou as aldeias da doutrina que estão a cargo dos padres, com muito gosto e lágrimas de devoção, vendo as doutrinas, procissões, disciplinas e comunhões dos índios e as missas oficiadas em canto de órgão, em flautas, pelos filhos dos mesmos índios." (²)
E ainda o mesmo Anchieta, tratando da catequese de meninos que se empreendia em certa aldeia, observou:
"Em uma delas lhes ensinam a cantar e têm seu coro de canto e flautas para suas festas [...]." (³)
Segundo o Padre Simão de Vasconcelos, cujos escritos datam da segunda metade do Século XVII (⁴), foi o Padre Manuel da Nóbrega quem teve a ideia de fazer uso da música como recurso de catequese:
"Nenhuma outra satisfaz tanto a esta gente, como a doçura do canto: nela põem a felicidade humana. Chegou a ser opinião de Nóbrega que era um dos meios com que podia converter-se a gentilidade do Brasil, a doce harmonia do canto; e por esta causa ordenou se lho pusessem em solfa as orações e documentos mais necessários de nossa santa fé; porque à volta da suavidade do canto entrasse em suas almas a inteligência das coisas do céu." (⁵)
Para que ajudassem na catequese que se empreendia na recentemente fundada São Paulo de Piratininga, Nóbrega teria mandado que viessem meninos de São Vicente, já destros na arte de cantar:
"Para mais fácil catecismo de tanta gente, ordenou o Padre Nóbrega que viessem da vila de São Vicente aqueles meninos filhos de índios que [...] tinham ali criado os padres em seminário de boa doutrina, e sabiam já ler, escrever e cantar muitos deles: foram estes de grande ajuda a toda a sua gente, continuando na nova aldeia sua escola e ajudando a beneficiar os ofícios sagrados em canto de órgão com destreza e instrumentos músicos [...]. Juntavam-se à noite a cantar pelas casas cantigas de Deus em sua própria língua, contrapostas às que eles costumavam cantar, vãs e gentílicas [sic] [...]." (⁶)
E acrescentaria, quanto ao gosto que indígenas demonstravam pela música:
"São afeiçoadíssimos à música, e os que são escolhidos para cantores da igreja prezam-se muito do ofício, e gastam os dias e as noites em aprender e ensinar outros. Saem destros em todos os instrumentos músicos [...], com eles beneficiam em canto de órgão Vésperas, Completas, Missas, Procissões, tão solenes como entre os portugueses." (⁷)
Com algum esforço da imaginação, quase podemos ver e ouvir os missionários e seus pequenos discípulos cantando e tocando pelas aldeias. A favor dos jesuítas deve-se notar que, se ensinavam português aos índios, punham, simultaneamente, todo o empenho em aprender a língua dos nativos, fixando-lhe a gramática e nela fazendo escrever e publicar um catecismo.

(1) Quase sempre aldeamentos forçados pelas autoridades coloniais, como condição para a paz com os povos nativos do Brasil.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 305.
(3) Ibid., p. 416.
(4) Cerca de um século mais tarde, portanto.
(5) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 71.
(6) Ibid., pp. 91 e 92.
(7) Ibid., p. 120.


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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tentativa de suborno

No Século XVI, um índio tentou subornar o padre Luís da Grã para ser o primeiro em sua aldeia a receber o batismo


O Padre Simão de Vasconcelos, jesuíta, registrou em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil um episódio interessante, numa ocasião em que o padre Luís da Grã, provincial da Ordem, foi visitar uma certa aldeia indígena, onde outros religiosos já faziam, há tempos, o trabalho de catequese.
Pois bem, tendo Luís da Grã empreendido a pé a jornada até a aldeia, foi, no caminho, rodeado por indígenas que, com alegria, já o aguardavam, pois que a tão festiva data destinava-se ao batismo dos que, tendo sido doutrinados, eram considerados aptos para o sacramento. Foi exatamente por esse motivo que um dentre os índios, ávido pela honra de ser o primeiro dentre os seus a ser batizado, resolveu obter a tão almejada graça por nada menos que uma tentativa de suborno. Escreveu o padre Simão de Vasconcelos:
"[...] Houve tal que determinou levar a coisa por modo de peita, vindo para isso carregado de cera e um bugio, que oferecia ao padre para que o batizasse entre os primeiros, dando juntamente por causa que era velho, e podia faltar-lhe a vida, e perder a dita daquela água que leva ao lugar do descanso." (¹)
É bem possível que Luís da Grã tenha sorrido interiormente diante do que via... De qualquer modo, segundo o registro de Simão de Vasconcelos, tratou os afoitos indígenas bondosamente, tanto os que, ao vê-lo caminhar queriam transportá-lo em rede, como quem ousava tentar suborno para receber o batismo:
"Abraçou o padre a todos: aos que traziam as redes, disse que os pés dos servos de Deus não cansavam; aos que festejavam, que celebrassem embora as vésperas do dia de sua maior ventura (pelo batismo que ao outro dia haviam de receber); aos que pediam ser dos primeiros, disse que teria lembrança, mas fez-lhes uma prática sobre o presente da cera e bugio, e declarou-lhes a grande pureza dos sacramentos da Lei da Graça [...]." (²)
Depois de gentilmente repelir o suborno, o padre Luís da Grã, que devia crer firmemente que corrupção é pecado, impôs suave penitência ao índio que quisera comprar com cera e bugio a primazia entre os catecúmenos: "Em penitência ordenou ao velho que tornasse carregado e entregasse aquelas coisas a sua mulher e filhos." (³)
Exemplo sábio, que bem poderia ter feito adeptos, não apenas nos tempos coloniais, mas pelos séculos dos séculos.

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 167.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Roupas para as índias

Se houve um fato que deixou estarrecidos os europeus que, em fins do Século XV e início do XVI chegaram à América do Sul, este sem dúvida foi o de que a população nativa não tinha, quase toda ela, o hábito de usar roupas. Na Carta de Caminha lemos, logo na descrição dos primeiros humanos avistados que eram "pardos, nus e sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas". Mais adiante, voltaria a afirmar: "Andam nus, sem cobertura alguma".
Pois bem, mais chocante era, ainda, para os valentes navegadores, que também as índias não usavam vestir-se, e Caminha não deixou de observar que não tinham elas nenhum constrangimento "de as nós muito bem olharmos". 
Senhor Caminha!...
Ao escrivão da esquadra de Cabral ocorreu lembrar ao rei D. Manuel que, "a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior"; mas faz uma ressalva: "quanto ao pudor". Não queria, naturalmente, ser acusado de heresia quanto às crenças correntes, relativas ao pecado original.
Durante a celebração da segunda missa na Terra de Santa Cruz vários indígenas, motivados pela curiosidade, vieram presenciar o que faziam os portugueses. Dentre eles, relatou Caminha, "uma [...] moça, que esteve sempre à missa, à qual deram um pano para que se cobrisse e puseram-no em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir." Vê-se que, para ela, aquilo não fazia o menor sentido. Falo da roupa que lhe queriam impor, claro. Quanto à missa, é difícil julgar se podia apreender seu significado como um ritual de caráter religioso, até por não entender palavra alguma do que era dito (¹).
Cinquenta anos mais tarde a obsessão por vestir as índias prevalecia, ao menos entre os religiosos. O padre Manuel da Nóbrega, jesuíta que veio ao Brasil com o primeiro governador-geral Tomé de Sousa, em carta escrita na Bahia no dia 9 de agosto de 1549, destinada ao padre-mestre Simão Rodrigues, pedia-lhe que empreendesse uma verdadeira campanha no Reino entre senhoras devotas, com o objetivo de conseguir a doação de peças de vestuário com que pudessem cobrir as índias que aos domingos vinham à missa:
"Também peça Vossa Reverendíssima algum peditório para roupa, para entretanto cobrirmos estes novos convertidos, ao menos uma camisa a cada mulher pela honestidade da Religião Cristã, porque vêm todas a esta cidade à missa aos domingos e festas, que faz muita devoção, e vêm rezando as orações que lhes ensinamos, e não parece honesto estarem nuas entre os cristãos na igreja, e quando as ensinamos. E disto peço ao padre mestre João tome cuidado por ele ser parte na conversão destes gentios, e não fique senhora nem parenta a que não importune para coisa tão santa, e a isto se haviam de aplicar todas as restituições que lá se houvessem de fazer, e isto agora somente no começo, que eles farão algodões para se vestirem ao diante." (²)
Não se enganava o padre Nóbrega: por todo o Período Colonial, e mesmo mais tarde, a roupa da gente pobre da terra, fosse para o trabalho quotidiano, fosse para dias de festa ou para ouvir missa aos domingos, seria confeccionada com o algodão rústico que se podia tecer no Brasil.

(1) Da missa, em si, só pelo costume é que os rústicos marujos deviam, também, entender alguma coisa, já que era oficiada em latim. A pregação de frei Henrique de Coimbra, após a comunhão, foi, certamente, em português.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 298.


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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um índio que só era surdo na hora da catequese

Os jesuítas que, no Século XVI, vieram ao Brasil tendo como meta a catequese dos povos indígenas, comunicavam-se com seus irmãos de Ordem em Portugal, ou mesmo com o Geral da Companhia de Jesus em Roma, através de cartas. Eram essas correspondências um tanto longas, já que nelas era descrito o trabalho de vários meses, quando não de anos. Entende-se: as comunicações, na época, eram difíceis. Em regra, apenas um navio por ano fazia a rota de São Vicente a Lisboa e, por vezes, nem mesmo esse único empreendia a viagem.
Por força de uma série de circunstâncias, Anchieta, que ainda noviço viera ao Brasil, acabou por fazer-se um verdadeiro mestre no gênero epistolar, de modo que muito da correspondência da Companhia de Jesus em suas primeiras décadas no Brasil foi por ele redigida. E é assim que temos, dele, um relato que raia a humorístico, de um índio que, para não ser catequizado, fazia-se passar por surdo. O episódio aparece em uma carta escrita em São Vicente, datada de 1º de junho de 1560, cujo destinatário era ninguém menos que o Geral Diego Laynez, sucessor de Inácio de Loyola:
"Adoeceu um destes catecúmenos em uma aldeia nos arrabaldes de Piratininga e fomos lá para lhe dar algum remédio, principalmente para a sua alma: dizíamos-lhe que olhasse para a sua alma, e que deixando os costumes passados, se preparasse para o batismo; respondeu que o deixássemos sarar primeiro, e esta resposta somente nos dava a tudo que lhe dizíamos nós outros; declarávamos abreviadamente os artigos da fé e os mandamentos de Deus, que muitas vezes de nós já tinha ouvido, e respondido, como enjoado, que já tinha os ouvidos tapados, sem ouvir ao que lhe dizíamos, em todas as outras coisas fora deste propósito, respondia prontamente, que bem parecia não ter tapados os ouvidos do corpo, e somente os do coração." (¹)
Perseverantes os padres em catequizar, perseverante o "surdo" em não se deixar batizar, o fato é que não sabemos quem venceu essa batalha - Anchieta nada diz a respeito. Porém, com esse relato, temos uma ideia de como marchava a catequese. Os padres queriam multiplicar discípulos. Alguns índios, ao que parece (²), queriam apenas que os deixassem viver como índios. Isso, é claro, quando as coisas ocorriam pacificamente. Em outras cartas, o próprio Anchieta chegou a defender o uso de métodos aos quais, hoje, não atribuiríamos muita suavidade.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 145.
(2) Como não temos relatos dessa época escritos pelos próprios índios, podemos apenas fazer algumas inferências a partir do que escreveram os missionários.


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