quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tentativa de Suborno

No Século XVI, um Índio Tentou Subornar o Padre Luís da Grã Para Ser o Primeiro em sua Aldeia a Receber o Batismo


O Padre Simão de Vasconcelos, jesuíta, registrou em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil um episódio interessante, numa ocasião em que o padre Luís da Grã, provincial da Ordem, foi visitar uma certa aldeia indígena, onde outros religiosos já faziam, há tempos, o trabalho de catequese.
Pois bem, tendo Luís da Grã empreendido a pé a jornada até a aldeia, foi, no caminho, rodeado por indígenas que, com alegria, já o aguardavam, pois que a tão festiva data destinava-se ao batismo dos que, tendo sido doutrinados, eram considerados aptos para o sacramento. Foi exatamente por esse motivo que um dentre os índios, ávido pela honra de ser o primeiro dentre os seus a ser batizado, resolveu obter a tão almejada graça por nada menos que uma tentativa de suborno. Escreveu o padre Simão de Vasconcelos:
"(...) Houve tal que determinou levar a coisa por modo de peita, vindo para isso carregado de cera e um bugio, que oferecia ao padre para que o batizasse entre os primeiros, dando juntamente por causa que era velho, e podia faltar-lhe a vida, e perder a dita daquela água que leva ao lugar do descanso." (*)
É bem possível que Luís da Grã tenha sorrido interiormente diante do que via... De qualquer modo, segundo o registro de Simão de Vasconcelos, tratou os afoitos indígenas bondosamente, tanto os que, ao vê-lo caminhar queriam transportá-lo em rede, como quem ousava tentar suborno para receber o batismo:
"Abraçou o padre a todos: aos que traziam as redes, disse que os pés dos servos de Deus não cansavam; aos que festejavam, que celebrassem embora as vésperas do dia de sua maior ventura (pelo batismo que ao outro dia haviam de receber); aos que pediam ser dos primeiros, disse que teria lembrança, mas fez-lhes uma prática sobre o presente da cera e bugio, e declarou-lhes a grande pureza dos sacramentos da Lei da Graça (...)." (**)
Depois de gentilmente repelir o suborno, o padre Luís da Grã, que devia crer firmemente que corrupção é pecado, impôs suave penitência ao índio que quisera comprar com cera e bugio a primazia entre os catecúmenos: "Em penitência ordenou ao velho que tornasse carregado e entregasse aquelas coisas a sua mulher e filhos." (***)
Exemplo sábio, que bem poderia ter feito adeptos, não apenas nos tempos coloniais, mas pelos séculos dos séculos.

(*) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed.
Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 167
(**) Ib.
(***) Ib.

2 comentários:

  1. Pena que os bons exemplos nunca se tornam muito populares....
    Abraço

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    Respostas
    1. Hahaha, dificilmente têm adeptos numerosos.

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