terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Emas e Avestruzes

"Pelo tamanho, fazem-se notáveis os agigantados tuiuiús, os arteiros jaburus (...) e as corredoras emas, que são as avestruzes deste Continente."
                                                                                                                       F. A. Varnhagen, História Geral do Brasil (¹)


Avestruz
Há poucos dias postei neste blog um comentário sobre algumas ideias absurdas (a ponto de serem engraçadas), que podem ser encontradas na mais que famosa carta do descobrimento do Brasil escrita por Pero Vaz de Caminha. Ora, meus leitores, ao longo dos séculos outros autores continuaram a cometer equívocos sobre animais e plantas da América do Sul. Um deles relaciona-se às emas que, por sua semelhança com avestruzes, chegaram a ser classificadas como tais. Que se veja, por exemplo, esta deliciosa comparação, tão dentro do espírito de sua época, anotada por Frei Vicente do Salvador no século XVII:
"... e emas tão grandes como as de África, umas brancas e outras malhadas de negro que, sem voarem do chão, com uma asa levantada ao alto, ao modo de vela latina, correm com o vento como caravelas..." (²)
Mais tarde, já no século XIX, a dificuldade em distinguir emas de avestruzes ainda persistia, até mesmo para um naturalista como Saint-Hilaire, de cujo diário de viagem ao Rio Grande do Sul e Uruguai, nos meses que antecederam a independência do Brasil, temos o seguinte trecho:
"Devorado pelas pulgas e mal acomodado, quando me deitava na carroça, preferi dormir sob a minha cama, sentindo-me muito bem com a troca. Região irregular com excelentes pastagens; não há feras, mas uma prodigiosa quantidade de jumentos selvagens, veados e avestruzes. No meio deste deserto constitui divertimento presenciar esses animais correrem nos campos. Os veados andam sempre em bandos. Como jamais são caçados, deixam-se ficar bem perto de nós, e os avestruzes igualmente não se mostram selvagens." (³)
Ema
A dificuldade com essas aves gigantes iria, porém, logo desaparecer. Ainda na década de 20 do século XIX Hércules Florence, desenhista a serviço da Expedição Langsdorff, não hesitou em asseverar que as corredoras que via no interior do Brasil eram emas:
"Uma ema passou por nós seguida de três filhotes com a velocidade quase da flecha." (⁴)
Entretanto, se alguma dúvida fica para algum de meus leitores, eventualmente menos familiarizado com a fauna do Brasil, estão nesta postagem fotografias tanto de uma ema quanto de um/uma avestruz (segundo os dicionários, as duas possibilidades são aceitáveis), tornando viável uma comparação.

(1) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 1, 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 11
(2) História do Brasil, c. 1627
(3) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul
Brasília: Senado Federal, 2002, p. 280
(4) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 188


Veja também:

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Democraticamente, comentários e debates construtivos serão bem-recebidos. Participe!
Devido à natureza dos assuntos tratados neste blog, todos os comentários passarão, necessariamente, por moderação, antes que sejam publicados. Comentários de caráter preconceituoso, racista, sexista, etc. não serão aceitos. Entretanto, a discussão inteligente de ideias será sempre estimulada.