segunda-feira, 8 de junho de 2015

O Templo de Diana em Éfeso e o Direito de Asilo Concedido Pelo Governo Romano

Vai aqui uma história que bem merecia começar com um "há muitos e muitos anos..".
Pois bem, há muitos e muitos anos, no nono ano de governo de Tibério em Roma (*), levantou-se uma polêmica no mundo governado pelos romanos quanto ao direito de asilo em templos e altares de diferentes deuses.
Explica-se: era crença geral que pessoas acusadas injustamente de alguns crimes podiam obter asilo, de modo que não fossem presas e punidas, se conseguissem adentrar certos templos, chegando ao altar consagrado a um certo deus. Não era todo e qualquer templo que detinha esse privilégio, e aí é que começou a confusão, porque todo mundo queria que deuses e altares de suas respectivas cidades fossem reconhecidos como locais de asilo. 
Está ficando complicado, senhores leitores? Vem mais: o privilégio de asilo tornou-se alvo da mais ignóbil corrupção, uma vez que reles bandidos de toda espécie, culpados de crimes comuns, corriam a buscar refúgio nos templos. Diante disso, o governo romano, que queria moralizar a questão do asilo, estipulou um prazo para que representantes das cidades cujos templos se pretendiam com o tal direito comparecessem a Roma para defender sua posição.
Através dos Annales registrados por Tácito, historiador romano, ficamos sabendo que os primeiros que chegaram à capital foram os enviados de Éfeso:
"Os primeiros homens que se apresentaram foram os de Éfeso, alegando que, contrariamente à crença popular, Diana e Apolo (**) não haviam nascido em Delos, mas sim no território que pertencia a Éfeso em Ortígia, às margens do Cencrium, onde, junto a uma oliveira, sua mãe, Latona, vendo chegada a hora do parto, apoiou-se para dar à luz." (***)
Ártemis ou Diana, Século V a.C. (****)
Acrescentando outras aventuras da mesma espécie, afirmavam os habitantes de Éfeso que o privilégio de asilo no templo de Diana jamais fora contestado, sendo, ao contrário, alvo de respeito por persas, macedônios e pelos próprios romanos.
Ora, sucede que outras cidades também arrazoavam com fatos (que nós consideraríamos mitológicos), reclamando para si o privilégio de asilo com base no culto da caçadora Diana. Tantas alegações cabeludas eram demais para os veneráveis senadores romanos. Repassaram o caso aos cônsules, que, não podendo terceirizar a tarefa, fizeram alguma investigação do assunto e responderam que era comprovada a antiguidade e legitimidade de asilo em um altar consagrado a Esculápio na cidade de Pérgamo. Tudo o mais era obscuro, perdendo-se na noite dos tempos:"ceteros obscuris ob vetustatem initiis niti..."
Algum leitor talvez esteja curioso quanto ao fim de tanta confusão. Fique então dito que os senadores, tendo considerado o caso, responderam de forma respeitosa, para que ninguém se ofendesse, determinando limites para que o privilégio de asilo fosse conservado, mas sem abusos. 
Prudente decisão, essa do Senado romano. 

(*) Ano 775 da fundação de Roma, de acordo com Tácito.
(**) Na mitologia grega, Diana era chamada Ártemis. 
(***) Tácito, Annales, Livro III. Tradução de Marta Iansen exclusivamente para uso no blog História & Outras Histórias.
(****) FAIRBANKS, Arthur Greek Gods and Heroes
Boston: Museum of Fine Arts / Houghton Mifflin Company, 1915, p. 23

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