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quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Imperialismo ateniense

Quem deveria ser a divindade protetora da cidade de Atenas? A resposta vem de uma lenda da Antiguidade. Poseidon e Palas Atena brigavam pelo posto - brigas não eram incomuns no Olimpo. Sucede que a contenda tomou proporções um tanto perigosas e, para restaurar a paz, Zeus e sua corte foram chamados à ação. Poseidon fundava sua pretensão no fato de ser Atenas uma cidade voltada ao comércio marítimo, estando, pois, em seus domínios. Para provar seu afeto àquela pólis, com um simples toque de seu famoso tridente fez brotar da terra um cavalo belíssimo, ideal para a guerra. Palas Atena, belicosa como era, ao menos desta vez decidiu apresentar aos deuses uma dádiva da paz que ofereceria à cidade, fazendo brotar no solo da Ática uma esplêndida oliveira, já carregada de azeitonas maduras. Nem será preciso dizer que Palas, aplaudida pelos deuses, foi considerada vencedora e, em consequência, deu seu nome à cidade. Em troca, foi nela venerada como divindade principal
Dentre as cidades da Grécia Antiga, Atenas é considerada a mais culta e desenvolvida. Sabe-se, contudo, que nela a escravidão era uma dura realidade (só assim é que os cidadãos podiam dispor de tempo livre para o envolvimento na política e para o estudo das ciências e das artes); sabe-se, também, que as mulheres eram, em geral, tratadas como seres inferiores; além disso, como cidade-Estado, mesmo no auge da democracia, admitia como cidadãos apenas uma quantidade relativamente pequena de indivíduos. Atenas foi tremendamente imperialista e, para assegurar sua vantajosa posição como exportadora de azeite, esteve perto de produzir uma verdadeira catástrofe ambiental, ao substituir a diversificada vegetação da Ática quase exclusivamente por oliveiras.
É fato que Atenas saiu das guerras contra os persas (¹) como uma potência naval forjada no calor da luta pela sobrevivência das cidades gregas. Para derrotar o "bárbaro (²)", sua atuação foi muito mais decisiva que a de Esparta. Resolvida a tirar a maior vantagem possível de um momento que lhe era favorável, Atenas aceitou liderar um conjunto de cidades que, naquelas circunstâncias, viam nela uma protetora. Foi assim que se tornou senhora de um império, acumulando riquezas provenientes do comércio marítimo e dos tributos que as cidades aliadas pagavam.
Contudo, essa situação incomodava Esparta, que também tinha aliados. Terminada a guerra contra os persas, espartanos tentaram convencer atenienses a não reconstruírem as muralhas de sua cidade, alegando que, se os persas voltassem, podiam conquistar a Ática e fazer ali sua base de operações. Será que os emissários de Esparta realmente imaginavam que a população de Atenas aceitaria uma tolice como essa? Não só os muros de Atenas foram reerguidos, também o porto de Pireu, de que Atenas se servia, foi devidamente fortificado. Atenas, desse modo, cresceu em importância política e econômica, causando medo à Liga do Peloponeso.
A partir dessas considerações, não é difícil entender que Esparta tratou de incentivar e apoiar revoltas entre os aliados de Atenas, que, passado o perigo persa, estavam já cansados de contribuir para sua orgulhosa "protetora". O curioso é que, ao contrário do que acontece em nosso tempo, em que o imperialismo às vezes se faz passar por humanitário, filantrópico, até caritativo, no Século V Atenas não fazia nenhum esforço para ocultar seu caráter dominador. Achava, até, que tinha todo o direito a isso. Assumia o fato abertamente, segundo palavras de delegados atenienses que compareceram a uma assembleia em Esparta. Sua cidade-Estado, amante do conhecimento, apaixonada por novidades e sempre receptiva a mudanças se isto lhe trouxesse alguma vantagem, não estava disposta a ceder diante das reclamações de cidades aliadas (³). Não seria o caso de Esparta estar por trás de tudo isso, tentando atraí-las para seu lado? 
De uma parte, a militarista e conservadora Esparta, com seus aliados do Peloponeso; do outro, a imperialista, rica e culta Atenas, também com seus aliados. Será que essa política de alianças lembra alguma coisa mais recente, leitores? A guerra era inevitável, por ser, inclusive, desejada (⁴). No decurso dos acontecimentos, Atenas foi atingida por uma peste que, mais que as armas inimigas, contribuiu para esgotá-la. Como se sabe, Esparta venceu. A Grécia, porém, jamais foi a mesma. Os longos anos de guerra haviam-na enfraquecido sobremaneira. Em um discurso proferido por Cláudio, imperador romano, cujas palavras foram relatadas por Tácito, há uma ideia que dá o que pensar. "Qual foi a causa da decadência dos lacedemônios e dos atenienses", perguntou ele, "que foram poderosos nas armas, a não ser que tratavam como estrangeiros a todos os povos que dominavam? (⁵)". Começamos com uma pergunta, leitores, e terminamos com outra. Não é raro, em se tratando de História, que as questões levantadas sejam mais numerosas que as respostas.

(1) 498 - 448 a.C.
(2) Era assim que os gregos se referiam ao monarca persa.
(3) Cf. TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso, § 73 a § 78.
(4) A Guerra do Peloponeso ocorreu de 431 a 404 a.C.
(5) TÁCITO, Annales, Livro XI. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O juramento de lealdade ao imperador romano

Todo soldado romano fazia um juramento de lealdade ao imperador, comprometendo-se a, se necessário, sacrificar a vida por ele. Lembrem-se leitores: juramento era coisa séria. Podia ter consequências dramáticas. Podia ser hilário. Duvidam?
Vamos ao primeiro caso. Era o ano 66, ou, se preferirem, 819 da fundação de Roma. Tramou-se o assassinato do imperador - era Nero - mas a conspiração foi descoberta, e os envolvidos, levados a julgamento. Um deles, o tribuno Subrius Flavius, ao ser interrogado pelo próprio imperador e acusado de ter faltado ao julgamento de lealdade que lhe fizera, respondeu: "Eu te odeio, mas ninguém entre os soldados foi mais fiel a ti do que eu, enquanto mereceste ser amado; mas eu te odeio, pois és o assassino de tua mãe e de tua mulher, e te fizeste auriga, comediante e incendiário." (¹) 
Agora, o episódio cômico. O imperador - era Nero, outra vez - preparava-se para uma representação teatral e, conforme exigência da peça, devia aparecer no palco caracterizado como um prisioneiro, carregado de cadeias. Acontece que um soldado pouco experiente, desconhecendo tratar-se apenas de uma representação, correu a socorrê-lo, disposto a dar a vida para libertá-lo (²). O imperador, todos sabem, apreciava exibir diante das massas seus talentos como ator e cantor, mas era pouco dado às lides de Estado, para desgosto da elite senatorial, que via os supostamente tradicionais valores de Roma se esvaindo, enquanto Nero dedilhava a cítara.

(1) TÁCITO. Annales, Livro XV. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro VI.


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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Por que Augusto escolheu Tibério como sucessor

Imperador Tibério (³)
César Augusto, considerado formalmente o primeiro imperador de Roma, foi, ao longo da vida, manobrando o jogo político para fazer um sucessor. No entanto, a morte precoce de várias figuras a ele relacionadas, como seus netos, por exemplo, tornou a situação mais melindrosa do que, por si mesma, já era. Suetônio (¹), no Livro II de De vita Caesarum, indica que Augusto teria pensado até em restaurar a República, tal como era antes dos triunviratos, mas considerações, inclusive de segurança pessoal, fizeram-no desistir da ideia. 
O escolhido, afinal, foi Tibério.
Por quê?
Tácito (²), no livro I dos Annales, afirmou que Augusto teria escolhido Tibério como sucessor "para ter a vantagem de ser comparado a um pior que ele". Ora, os anos subsequentes mostraram que, se a intenção de fato foi essa, a escolha resultou perfeita. Tibério era um mestre das arbitrariedades e, quando morreu em 37 d.C., as manifestações públicas de alegria foram mais que exuberantes. De acordo com Suetônio, o povo corria pelas ruas de Roma, gritando que o cadáver do imperador deveria ser jogado no Tibre, pedindo aos deuses que não lhe dessem descanso, além de outras atrocidades mais. Romanos, romanos... Ainda não sabiam que o próximo imperador seria Calígula.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) c. 47 d.C. - 120 d.C.
(3) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.



quinta-feira, 16 de abril de 2020

Familiares do Santo Ofício

Tácito, autor romano, escreveu, tratando do governo do imperador Tibério: "Assim os delatores, uma espécie de homens que existem para desgraça pública e que nunca são satisfatoriamente punidos, eram aliciados com prêmios" (¹). Ao que parece, muitos séculos após a queda do Império Romano, o Tribunal do Santo Ofício percebeu que, para seus propósitos investigativos, era conveniente contar com indivíduos dessa espécie descrita por Tácito, e deu a eles o título de "familiares do Santo Ofício".
Em termos práticos e claros, os familiares do Santo Ofício eram bisbilhoteiros que tinham a confiança dos inquisidores, e andavam, por conseguinte, a investigar a vida alheia, para denunciar suspeitas de heresia que pudessem interessar ao inquisidor de plantão. 
Ser familiar, porém, era garantia de status, porque, para isso, era preciso passar por uma investigação quanto à "limpeza de sangue", outra infame mania da época. Isto posto, esse indivíduo de sangue imaculado entrava no exercício de funções diversas, conforme as circunstâncias requeressem, além de, em Portugal e seus domínios - incluindo o Brasil, portanto - desfrutar de uma gama de privilégios, que o isentavam de muitas obrigações ordinariamente impostas à gente "comum", conforme estipulado por uma Carta Régia de 1562, que, como se vê pela data, foi expedida no reinado do muito famoso rei Dom Sebastião.
Em nosso tempo, semelhante fofoqueiro oficial pareceria, talvez, digno da máxima execração, mas quando a Inquisição estava no auge, o título de familiar era reputado honroso, como se infere por esta menção na Nobiliarchia Paulistana (escrita no Século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme), ao tratar de certo homem chamado João Vieira da Silva, casado com dona Bernarda de Almeida: "[...] João Vieira da Silva, natural da freguesia de S. Jorge de Lima de Selheiro, termo de Guimarães. Tomou juramento de familiar do Santo Ofício em São Paulo a 7 de janeiro de 1766 por carta passada em Lisboa a 16 de janeiro de 1764, registrada no livro 18 a 19 do dito mês pelo secretário André Cursino de Figueiredo". Levando em conta que a Nobiliarchia inclui uma enxurrada de elogios aos seus "nobres", presume-se o quanto um indivíduo desses deveria andar de nariz empinado e, talvez, ser temido, mesmo em São Paulo, onde a Inquisição não era bem-vinda (²).

(1) TÁCITO. Annales, Livro IV. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Missionários jesuítas, em confronto com paulistas aprisionadores de índios, ameaçavam-nos com a Inquisição. Para burla geral, os religiosos foram lembrados de que o inquisidor, se ousasse ir à vila, seria lançado serra abaixo, ao intentar a escalada do áspero Caminho do Mar.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

O dia em que cinquenta mil pessoas foram vítimas em um anfiteatro romano

Em um só dia, nada menos que cinquenta mil pessoas morreram ou sofreram ferimentos em um anfiteatro romano, mas não suponham, leitores, que todos os mortos ou feridos fossem gladiadores. Eram parte do público que assistia a um espetáculo em um anfiteatro particular em Fidenas, que estava localizada bem perto de Roma. É melhor contar essa história desde o princípio.
Aconteceu no ano 27 d.C., quando Tibério era imperador. Um liberto (ou seja, um ex-escravo) chamado Atílio, decidiu construir por conta própria um anfiteatro, com a ideia de lucrar com ele o máximo possível. Não creio que seja difícil imaginar o quanto a construção foi precária e, devido ao número elevado de espectadores, o anfiteatro veio ao chão, soterrando não só os que estavam dentro, mas até quem se achava perto, porém do lado de fora. 
O resultado foi horrendo e, de acordo com Tácito (*), que registrou essa tragédia no Livro IV dos Annales, mais felizes foram os que morreram de imediato, porque muitos dilacerados, contudo ainda vivos entre os escombros, gritavam, desesperados, dia e noite, por socorro, aumentando a angústia dos parentes que haviam acorrido ao local à procura de sobreviventes. Estimou-se em cinquenta mil o número de mortos e feridos.
Esse episódio permite algumas considerações:
  • Romanos de todas as camadas sociais eram fanáticos por espetáculos de gladiadores, o que explica a quantidade de pessoas presentes no dia do desabamento;
  • Havia libertos que conseguiam acumular um patrimônio razoável, e Atílio, o dono do anfiteatro que caiu, é prova disso;
  • As técnicas de resgate em caso de acidentes e os recursos médicos, rudimentares como eram na Antiguidade, explicam, ao menos em parte, o número de mortos nessa ocasião.
Segundo Tácito, uma decisão posterior do Senado estipulou a quantia mínima que alguém deveria ter ao solicitar permissão para construir um anfiteatro. Assim os romanos estavam, é claro, colocando tranca em porta arrombada. Quanto a Atílio, o dono do anfiteatro que desabou - sim, ele sobreviveu! - também por decisão do Senado, foi punido com o exílio.

(*) c. 47 d.C. - 120 d.C.


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terça-feira, 1 de outubro de 2019

Um prodígio vegetal que abalou Roma

De acordo com Tito Lívio (¹), historiador romano da Antiguidade, os pontífices tinham, em Roma, as atribuições de zelar pela conservação dos templos e pela realização de sacrifícios aos deuses, aplacar a alma dos defuntos (para que não andassem perturbando os vivos) e fazer expiação quando ocorressem prodígios (²). Deve-se presumir, por conseguinte, que estiveram muito ocupados em 59 d.C., diante de um suposto prodígio que parecia sinalizar, literalmente, um abalo das raízes de Roma. Tácito registrou no Livro XIII dos Annales:
"Neste ano a árvore Ruminal, que existia no lugar dos comícios e que há oitocentos e quarenta anos protegera a infância de Rômulo e Remo, depois que seus ramos secaram, começou também a secar no tronco, fato que se considerou prodígio desfavorável, até que reviveu com novos brotos." (³)
Vamos falar sério, leitores: é improvável que a árvore em questão fosse a mesma dos dias de Rômulo e Remo, isto é, admitindo-se que esses ilustres senhores tenham, de fato, existido, e não sejam apenas figuras lendárias. Uma árvore após outra talvez tenha ocupado o lugar da mitológica árvore sagrada, mas, quando se quer acreditar ou, quando em benefício da estabilidade do poder, é conveniente acreditar, afirma-se, e pronto: assim é que ficou sendo a árvore da infância de Rômulo e Remo. Supersticiosíssimos, os romanos devem ter imaginado que Roma estava por um fio (ou por uma folha, um galho, um tronco, uma raiz). Brotando a árvore, Roma estava salva.

(1) 59 a.C. - 17 d.C.
(2) Cf. Ab urbe condita libri.
(3) c. 47 d.C. 120 d.C.


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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Terremotos no Império Romano

Parte expressiva do território até onde se estendeu o Império Romano estava em áreas sujeitas a tremores de terra mais ou menos frequentes. Não é surpresa, portanto, que, nos registros feitos por autores da Antiguidade, os terremotos fossem seguidamente mencionados.
Tácito (¹), por exemplo, citou vários incidentes relativos a tremores: um que atingiu Pompeia alguns anos antes que a cidade fosse soterrada pelo Vesúvio (²), uma sucessão de tremores sentidos em Roma no ano 52 d.C., provocando o desabamento de casas (³), e um grande terremoto que, nos dias de Tibério, arruinou doze cidades da Ásia Menor (⁴), entre outros.  
Plínio, o Velho (⁵), em extensa dissertação no Livro II de sua Naturalis Historia, afirmou que "os babilônios achavam que terremotos e rachaduras, como tudo o mais, eram consequência da ação das estrelas." (⁶) Sensatamente cético, Plínio procurava causas naturais para os tremores de terra, ainda que nada soubesse sobre a existência de placas tectônicas. Já entendia, porém, que alguns terremotos são seguidos por tsunamis (⁷): "Tremores de terra são seguidos por inundações que vêm do mar" (⁸), escreveu.
Mais enfático que Tácito em relação ao mesmo incidente, Plínio entendia que o terremoto ocorrido nos dias de Tibério fora o maior de que, até então, se tivera notícia:
"O maior tremor de terra de que os mortais têm memória aconteceu durante o principado de Tibério César, quando doze cidades da Ásia vieram ao chão em uma noite [...]." (⁹)
É claro que, para os supersticiosos romanos, tremores de terra, assim como outros fenômenos naturais, eram vistos como prodígios, manifestações da ira dos deuses que deviam ser conjuradas com sacrifícios. Tertuliano (¹º) referiu, na Apologia, que tremores estavam entre os pretextos que conduziam à perseguição de cristãos no Império:
"Se o Tibre alcança os muros da cidade, ou se o Nilo não transborda o suficiente para as plantações, se o céu, sem nuvens, não traz chuva, se há tremor de terra ou se ocorre escassez de trigo, ou se grassa a peste, o povo não tarda a gritar para que joguem os cristãos ao leão."
Voltemos a Tácito. Quando um terremoto de maiores proporções ocorria dentro dos limites do Império Romano, era usual que recursos públicos fossem oferecidos - e aceitos - para reparar os danos materiais. Bem, assim era na maioria dos casos. Prodígio, mesmo (¹¹), a ponto de merecer registro no Livro XIV dos Annales, ocorreu no ano 814 da fundação de Roma (¹²): "Naquele ano, a ilustre cidade de Laodiceia, na Ásia, que havia sido arrasada por um terremoto, foi reconstruída com seus próprios recursos, sem receber qualquer auxílio de nossa parte [de Roma]." (¹³) Pelo visto, esse fato foi novidade até para Tácito, tão acostumado às manhas de seus contemporâneos.

(1) 47 - 120 d.C.
(2) TÁCITO, Annales, Livro XV.
(3) Ibid., Livro XII.
(4) Ibid., Livro II.
(5) 23 - 79 d.C.
(6) PLÍNIO, Naturalis Historia, Livro II.
(7) Ainda que a palavra "tsunami" lhe fosse, como é óbvio, desconhecida.
(8) PLÍNIO, Op. cit., Livro II.
(9) Ibid. 
(10) 160 - 220 d.C.
(11) Até para os critérios do Século XXI.
(12) 61 d.C.
(13) Todas as citações das obras de Plínio, Tácito e Tertuliano que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Feriados e mais feriados

Os feriados, na Roma Imperial, chegaram a ser quase tão numerosos quanto os dias de trabalho


Um pequeno desafio para vocês, leitores: encontrem alguém que não goste de feriados. Talvez haja neste planeta algumas exceções, é verdade, mas a regra entre os mortais é que os feriados sejam da maior estimação.
De vez em quando, alguém diz que há feriados em excesso, que deveríamos ter mais dias de trabalho, que ter menos feriados seria bom para a economia do País - por certo quem atua no setor de turismo não há de concordar com essa ideia. Basta comparar o calendário brasileiro com os que vigoram em outros países para ver que não há tantos feriados assim.
Já na Roma Antiga o número de feriados ao longo do ano veio a ser problema sério. É que, com tantos deuses, e cada deus ou deusa (ou seus respectivos devotos) reclamando um feriado, tornou-se difícil haver uma sequência razoável de dias "comuns", ou seja, de trabalho. O problema era tão grave que virou debate no Senado em 59 d.C. (ou 812 da fundação de Roma, se preferirem). De acordo com Tácito (¹), Caio Cássio, defendendo a limitação das festividades, argumentou ser necessário "dividir os dias sagrados e de trabalho, de tal maneira que não se impedissem as celebrações dos deuses e nem as ocupações dos homens". Em sua lógica, se fosse o caso de homenagear os deuses por todos os benefícios para com os humanos, não haveria no calendário dias suficientes - algumas festas, portanto, bastavam (²).
Roma, porém, passava por tempos turbulentos, tendo o instável Nero à frente do governo. Desagradá-lo era perigoso, e não é surpresa que houvesse uma multidão de aduladores, inclusive entre a elite senatorial. O debate sobre os feriados fora desencadeado justamente em razão das seguidas festas para dedicar estátuas e outras homenagens ao imperador, e dar graças aos deuses que favoreciam a cidade com tão ilustre mandatário - não seriam muitos, portanto, os que ousariam dizer: Romanos, tratem de ir trabalhar!...

(1) Annales, Livro XIII; o trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(2) Os membros da elite romana que pretendiam seguir carreira política aprendiam, desde muito cedo, a arte da argumentação. 


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como os romanos tratavam os prisioneiros de guerra

As vitórias militares de Roma corresponderam, em muitas ocasiões, à completa ruína dos povos derrotados. O destino dos prisioneiros de guerra, como regra, resultava em uma das seguintes situações:
  • Execução sumária, em particular no caso dos chefes, como medida para impedir que as forças inimigas se reorganizassem;
  • Escravização para trabalho em obras públicas;
  • Muitos eram vendidos em mercados de escravos (a chegada de um grupo de cativos era vista como espetáculo público, especialmente se os escravizados tinham características físicas diferentes daquelas que eram usuais entre romanos);
  • Soldados vencedores recebiam prisioneiros como prêmio e podiam dispor deles como julgassem conveniente, quer conservando-os a seu serviço, quer vendendo-os para quem pagasse bem.
Embora os antigos não costumassem registrar as quantidades de escravizados segundo critérios que nós, hoje, reputamos corretos, é possível ter uma ideia aproximada do que acontecia a cada grande vitória, em virtude de relatos da época. O próprio Júlio César, em De Bello Gallico, deixou informações muito úteis, e é assim que sabemos que, em certa ocasião (¹), foram vendidos como escravos nada menos que cinquenta e três mil prisioneiros de guerra. Depois de derrotar gauleses em uma batalha naval, César julgou apropriado impor uma punição severa, por entender que embaixadores de Roma haviam sido desrespeitados: "Todos os líderes idosos foram executados e os demais prisioneiros foram vendidos como escravos" (²). E, ainda na mesma obra, é dito que, depois de derrotar Vercingetórix, César recompensou cada soldado romano com um prisioneiro de guerra (³).
Assim, guerra após guerra, Roma estendia seus domínios e multidões de prisioneiros eram trazidas para escravização, de modo que, com o correr do tempo, grande parte do trabalho passou a ser feito por mão de obra cativa. A população pobre, mas livre, já não encontrava ocupação remunerada. Outras multidões, dessa vez compostas por romanos desocupados, afluíam à capital. Os problemas sociais eram inevitáveis. Tácito, no livro quarto dos Annales, lembrou que, ao tempo em que Tibério era imperador, "os escravos [eram] uma multidão que crescia imensamente e pouco o povo de condição livre" (⁴). Era preciso, portanto, que o Estado assumisse a obrigação de alimentar e entreter os homens livres que andavam desocupados, sob pena de uma revolta social de dimensões catastróficas. Periodicamente, eram feitas distribuições de cereais. O exército ocupava uma parte dos homens livres, enquanto espetáculos públicos sangrentos divertiam multidões que tinham excesso de tempo e falta do que fazer.
Mas não era só. A entrada de tantos escravos estrangeiros ia, gradualmente, descaracterizando aquilo que se poderia chamar de "cultura romana", além de ser contínuo o temor de uma rebelião. Caio Cássio, falando no Senado romano em 62 d.C., sendo Nero o imperador, observou: "Temos fâmulos [escravos] de todas as nações, que vêm de costumes os mais variados, de religiões estrangeiras ou sem nenhuma religião, e é somente sob coerção que podemos mantê-los em obediência [...]." (⁵) 
Reconhecia-se a necessidade da força para manter tantos cativos em subordinação à minoria romana. No entanto, até mesmo o exército ia, gradualmente, admitindo estrangeiros, pois, do contrário, não haveria soldados em número suficiente para as tentativas de preservar a ordem nas fronteiras. Roma se tornara tão grande que já não conseguia ser Roma. As rupturas no tecido social que constituía o Império preparavam caminho para seu declínio e queda.

(1) De Bello Gallico, Livro Segundo.
(2) Ibid., Livro Terceiro.
(3) Ibid., Livro Sétimo.
(4) Annales, Livro Quarto.
(5) Ibid., Livro Décimo Quarto. 
Os trechos de De Bello Gallico e dos Annales aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lá se foram as lâmpadas incandescentes

Propaganda de lâmpada
incandescente, 1923 (²)
Tácito, historiador romano que viveu entre os Séculos I e II, escreveu: "Todas as coisas que agora achamos velhíssimas, já foram novas." (¹)
Duvida, leitor? Olhe para aquilo que, em seu conceito, é o máximo de tecnologia que está à sua mão. Tenha certeza de uma coisa: algum dia esse seu motivo de orgulho tecnológico terá o status de velharia, e, para tanto, nem será preciso muito tempo, se o ritmo atual de inovação for mantido.
No Brasil do começo do Século XX quase todas as casas, assim que anoitecia, precisavam de velas, lampiões ou lamparinas para que houvesse alguma luz - afinal, humanos não têm olhos de coruja. O máximo do luxo, só disponível em umas poucas localidades, era ter iluminação residencial a gás. Mas aí veio o uso da eletricidade e, com ela, as lâmpadas incandescentes entraram em cena. 
Agora que as lâmpadas incandescentes foram embora, substituídas por outras mais econômicas, como negar que o velho Tácito tinha razão?

(1) Annales, Livro XI
(2) O MALHO, 17 de março de 1923. O original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 20 de julho de 2016

A importância atribuída aos sonhos pelos povos da Antiguidade

Quase todas as culturas da Antiguidade davam grande importância aos sonhos, entendendo que, através deles, era possível obter algum tipo de previsão do futuro, em virtude da interferência dos deuses. Como os tempos freudianos ainda estavam distantes, não espanta que monarcas que eram aclamados como divindades ou seus representantes, acabassem achando que seus sonhos eram assunto de Estado. Querem alguns exemplos, leitores?
Heródoto conta que Ciro, o Grande (¹), teve um sonho, certa noite, em que via um jovem de vinte anos, cujos ombros eram dotados de duas asas (²); com uma delas cobria a Europa e, com a outra, a Ásia. Reconheceu que o rapaz que via era Dario, filho de Histapes, e imaginou que estaria armando um golpe para destroná-lo. Pensou em liquidar o garotão, mas, ainda segundo Heródoto, o sonho prefigurava a morte de Ciro (³), e não uma conspiração. O detalhe curioso é que, no futuro, o jovem Dario finalmente seria rei, sendo conhecido como Dario I. 
Mais Heródoto e mais persas: Xerxes, rei dos persas, sonhou com um homem alto e belo que lhe ordenava fazer guerra aos gregos. A despeito do sonho, resolveu dizer a seus conselheiros que desistia da guerra. Na noite seguinte, novo sonho, com a mesma personagem, que lhe fez uma severa ameaça: "Você será castigado, caso não faça a guerra, e tão rápido como veio a ser um grande rei, será desprezado e humilhado." (⁴)
Para piorar a situação, um conselheiro de nome Artabano teve um sonho parecido. O resultado disso tudo, como os leitores sabem, é que os persas foram à guerra contra as cidades gregas. Ao final, foram derrotados - vejam em que é que deram os sonhos de Xerxes!
Entre os antigos romanos os sonhos eram, também, muito considerados. Vai aqui o caso de um sonho, relatado por Tácito, que ocorreu a Germânico, quando em guerra contra os bárbaros. Viu-se "oferecendo um sacrifício, cujo sangue lhe manchava a toga pretexta que usava, mas que era, em seguida, substituída por outra melhor, oferecida por sua avó Augusta" (⁵). Isso bastou para que Germânico declarasse que os deuses lhe eram favoráveis. Foi à guerra e, depois de várias escaramuças, derrotou os bárbaros, mas, logo em seguida, teve as forças que comandava destroçadas por uma brutal tempestade, ocorrida no Mar do Norte
Iríamos longe se quiséssemos enumerar outros sonhadores de tempos remotos. Tal era a importância que se atribuía aos sonhos, que gregos, persas, babilônios, romanos e muitos outros povos tinham gente especializada em interpretá-los. Malgrado o respeito que devemos ter pelas crenças alheias, não deixa de impressionar o fato de que ainda existe, hoje em dia, gente que tenta decifrar os próprios sonhos com base na "ciência" dos tão bem-sucedidos intérpretes que adulavam os monarcas da Antiguidade. Eram mesmo bons nisso: alguns de seus erros ajudaram a levar reinos e impérios ao colapso.

(1) Não foram poucos os monarcas que, ao longo dos tempos, foram chamados de "Grandes". Os bajuladores constituem uma das estirpes mais numerosas deste planeta.
(2) Se levarmos em conta que divindades da época eram frequentemente representadas com asas, o sonho não deveria ter causado tanta impressão em Ciro, a não ser pelo fato de que a gente de seu tempo achava que, desse modo, podia receber recados dos deuses.
(3) Os leitores percebem, com isso, que Heródoto também achava que os sonhos podiam predizer o futuro.
(4) Heródoto. Histórias, Livro VII.
(5) Tácito, Annales, Livro II. 
As citações das Histórias de Heródoto e dos Annales de Tácito que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 17 de junho de 2016

Tolices ditas sobre os cristãos no Império Romano

"É esta uma sociedade composta por animais ferozes, com a ressalva de que os animais não atacam os de sua própria espécie, mas o homem quer o sangue do homem."
Sêneca, Da Ira

Os leitores já devem ter visto uma situação mais ou menos assim, quando alguém chega e diz: "Ouvi dizer que..." "Ohhh!", respondem os circunstantes. E lá vem uma história cabeluda, que já andou por uma centena de bocas e ouvidos, e que agora é repetida, com direito a nuances que estava longe de ter quando a fofoca começou. Ganha mais alguns detalhes e segue em frente. Poderia ser hilariante, mas os boatos têm, às vezes, consequências desastrosas.
Em meados do Primeiro Século o cristianismo era uma novidade em Roma. Ao que se sabe, fez adeptos, a princípio, entre as camadas mais pobres da população - artesãos e escravos - mas não tardou a ganhar seguidores também nos estratos elevados. 
Em 64 d.C. um incêndio brutal reduziu a cinzas uma parte considerável da capital do Império. De acordo com Tácito, Nero, sob suspeita de estar envolvido no incêndio, tratou logo de apontar supostos responsáveis pela catástrofe:
"Para afastar os numerosos rumores, Nero incriminou e passou a punir com toda sorte de tormentos a uma gente desagradável, vulgarmente chamada de cristãos." (¹)
Esta foi a primeira grande perseguição aos cristãos dentro do Império Romano, mas não foi a única. Outras viriam, à medida que boatos sem qualquer fundamento era espalhados entre a população ignorante. No ano 200 d.C., sob governo de Sétimo Severo, o Senado desencadeou uma dessas "caçadas", e foi nessa ocasião que Tertuliano escreveu, em defesa da fé cristã, sua famosa Apologia. Através dela é que ficamos sabendo de algumas dentre as muitas tolices que eram ditas a respeito dos cristãos no mundo romano, e que serviam de pretexto para que os adeptos da nova religião fossem presos, torturados e mortos. Lemos, na obra de Tertuliano:
"Os crimes ocultos, que se diz que cometemos, são estes:
- Que em uma reunião à noite, sacrificamos e comemos um menino;
- Que molhamos e empapamos um pão no sangue do menino que havia sido degolado, e que cada um dos presentes à reunião comeu um pedaço desse pão;
- Que partes desse pão foram lançadas a alguns cachorros, que, presos aos candelabros, queriam alcançar o sangue;
- Que, protegidos pelas trevas decorrentes de serem apagados os candelabros, misturamo-nos impiamente com irmãs e mães."
Leitores perspicazes já devem ter notado o que é que estava na origem de tamanho absurdo: no ritual da Comunhão, cristãos compartilhavam pão e vinho, "corpo e sangue de Cristo"!... É certo que, para os não iniciados, essa história soava enigmática, e também é fato que cristãos, que se sabiam perseguidos, faziam suas reuniões à noite, às escondidas, para escapar à fúria de seus oponentes. Vejam, agora, leitores, em que é que resultou a onda de boatos. (²)
Havia mais. Sigamos, ainda com Tertuliano e sua Apologia:
"Já houve quem afirmasse que adoramos uma cabeça de jumento. Essa tolice foi dita por Cornélio Tácito, no livro quinto de sua História, em que, discorrendo sobre a guerra dos judeus, tratou de sua origem [...]. Contou que saindo os judeus do Egito (ao qual denomina exílio), ao andarem pelos vastos desertos da Arábia, tiveram sede, sem que pudessem encontrar água. Foi então que viram alguns jumentos selvagens, e indo após suas pegadas, encontraram água. Agradecidos pela guia do jumento, consagraram sua cabeça como deus. Sendo os cristãos algo semelhantes aos judeus, os perversos têm dito que também eles adoram a cabeça de jumento." (³)
Podem rir, leitores. Não é para menos. O lado perverso é que, com tanta tolice como pretexto, inocentes, aos milhares, eram mortos porque não se lhes reconhecia o direito de ter um pensamento religioso divergente em relação à maioria. Execuções públicas de cristãos eram um espetáculo que as massas apreciavam, não custavam quase nada ao Estado e desviavam a atenção do populacho dos verdadeiros problemas que afetavam o Império.

Este desenho, descoberto em 1857 e datado dos dias do Império Romano,
é uma sátira ao culto cristão.
Com a legenda "Alexamenos cultua seu deus" vê-se um crucificado,
com cabeça de jumento, sendo adorado por um homem. (⁴)

(1) Annales, Livro XIV.
(2) É interessante notar que, em tempos medievais, circulava em alguns lugares da Europa a história de um menino que teria sido sequestrado e assassinado, sendo seu corpo e sangue misturado a um tipo de pão. Dessa vez, entretanto, eram cristãos que atribuíam a culpa aos judeus...
(3) As citações de Da Ira de Sêneca, dos Annales de Tácito e da Apologia de Tertuliano foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(4) WRIGHT, Thomas. A History of Caricature & Grotesque in Literature and Art. London: Virtue Brothers & Co., c. 1864, p. 39.


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segunda-feira, 9 de maio de 2016

Por que povos da Antiguidade acreditavam na influência dos corpos celestes sobre a vida quotidiana na Terra


"Então surgiu um cometa, que para a opinião vulgar pressagia a mudança de rei."
                                                                                                                                                Tácito, Annales

Para os povos que criam que os corpos celestes eram divindades, não era muito complicado imaginar que pudessem causar problemas aos pobres mortais que viviam sobre a Terra. Sabe-se, por exemplo, que um eclipse total ocorrido em 763 a.C. foi associado, pelos assírios, a uma série de infortúnios. Funcionava mais ou menos assim: ocorria um eclipse solar e, logo depois, vinha, digamos, uma enchente, uma safra ruim, uma praga de ratos ou gafanhotos - adivinhem leitores, quem era o culpado? - o eclipse, é claro! Interpretava-se a ocultação do deus-sol como um momento de ira celeste, que só podia resultar em desgraças. Podemos facilmente medir o que é que isso significava, se tomarmos em conta o fato de que quase todos os povos antigos tinham alguma personificação do Sol em suas respectivas coleções de deuses.
Por outro lado, um eclipse lunar podia ser considerado como presságio favorável, de acordo com o que contou Tácito (¹), ao descrever uma revolta do exército romano nos dias do imperador Tibério. Estacionados na Panônia, onde eram obrigados a viver em condições de extrema penúria, os soldados começaram uma rebelião, durante a qual ocorreu um eclipse lunar, que, reputado como indicação de favor dos deuses, levou-os a fazer enorme alarido no acampamento. Porém, não demorou para que a Lua fosse ocultada por nuvens, e, dessa vez, o acontecimento foi interpretado como desfavorável. A soldadesca caiu em profundo desânimo, proporcionando assim aos comandantes a oportunidade perfeita para que retomassem o controle e fizessem justiçar os cabeças da revolta, pelo modo típico do exército romano - os cabeças obviamente perderam a cabeça. Mas não foi só. Usualmente, os soldados que queriam mostrar aos comandantes que estavam arrependidos da sedição, tratavam de comprovar esse fato despedaçando os companheiros rebeldes. Os leitores veem, então, que é melhor voltar ao assunto da suposta influência dos planetas, estrelas, cometas, etc. sobre o destino dos homens...
A questão é que, mesmo quando a crença nos deuses arrefeceu, a humanidade continuou a achar que, de algum modo, os corpos celestes tinham poder para trazer calamidades e espalhar doenças. No Século XVI, cometas eram particularmente temidos, mas nem a Lua, tão próxima e tão familiar, estava isenta da acusação de causar dano à integridade física dos terráqueos. Em um relato de 1585, cuja autoria é atribuída ao padre José de Anchieta, observa-se que, no Brasil, "a lua é mui prejudicial à saúde e corrompe muito as coisas [...]." (²) 
Ah, então é ela a culpada!

(1) Annales, Livro I.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. 
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 424.


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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O culto aos imperadores em Roma

Após derrotar os germanos dalém do Reno (que eram comandados por Armínio), os romanos ergueram uma coluna com as armas capturadas, na qual, segundo Tácito (Annales, livro II), lia-se: "DEBELLATIS INTER RHENVM ALBIMQVE NATIONIBVS EXERCITVM TIBERII CAESARIS EA MONIMENTA MARTI ET IOVI ET AVGVSTO SACRAVISSE" ("Tendo dominado os povos entre o Reno e o Elba, o exército de Tibério César consagra este monumento a Marte, Júpiter e Augusto").  (¹)
Vê-se, aqui, em ação, o chamado "culto ao Imperador", neste caso um já falecido, ou seja, Augusto, e que, portanto, passava ser venerado como um deus, segundo as tradições romanas de culto aos antepassados. Nos dias de Nero, todavia, de acordo com o mesmo Tácito, um adulador tentou fazer aprovar no Senado a construção de um templo para o  imperador ainda vivo, ao que o autor dos Annales juntou a observação de que "não se honra um príncipe como um deus enquanto ainda vive entre os homens" (²), ainda que não desconsiderasse a possibilidade de que a tal homenagem fosse um agouro da morte do "Divo Nero" (³).
À medida que o tempo passava, as honras civis e militares prestadas aos imperadores adquiriam, mais e mais, um cunho religioso, e a não adesão de cristãos a essas cerimônias estava entre as causas mais recorrentes para que fossem perseguidos no segundo e terceiro séculos. De acordo com Tertuliano (⁴), o estopim da perseguição nos dias de Sétimo Severo foi a ausência dos cristãos nas festividades decretadas para comemorar o aniversário do imperador. Ora, um raciocínio simples e lógico é que os adeptos da fé cristã não participavam dessas cerimônias porque viam nelas elementos de caráter cultual, e não simples festejos pelo aniversário do governante de Roma. Além disso, o próprio Tertuliano admitia que a recusa dos cristãos em participar das festas foi interpretada como apoio a rebeliões civis ocorridas pouco antes.
Usualmente, esperava-se que cidadãos romanos oferecessem sacrifícios aos deuses em favor do imperador, para que vivesse muito e fizesse Roma sempre maior e mais próspera; dos soldados, exigia-se um juramento de lealdade ao imperador, no qual eram invocadas as divindades tradicionais de Roma como testemunhas e executoras de castigo aos perjuros. A essas práticas os cristãos, que eram monoteístas, não aderiam, segundo explicou Tertuliano:
"Dizem que nós, os cristãos, somos sacrílegos e réus de lesa-majestade, porque não prestamos culto aos deuses, e nem oferecemos sacrifícios em favor do imperador. [...] Não adoramos aos deuses porque estamos convencidos de que os que assim são chamados, não são deuses." (⁵).
Vê-se, afinal, que as honras religiosas prestadas à figura do imperador tinham, em Roma, um aspecto cívico-patriótico, que poderia, mutatis mutandis, ser comparado ao hasteamento da bandeira ou ao cantar do hino nacional em nossos dias, com a diferença de que, ao menos no Ocidente, essas práticas não têm significado religioso (espera-se!). Mas em Roma, não importando se as pessoas ainda acreditavam na existência dos deuses, deixar de honrar divindades e imperadores era incorrer em suspeita de traição à pátria, e quem agia dessa maneira assumia o risco de terríveis consequências.

(1) Os trechos das obras de Tácito e Tertuliano citados nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(2) Annales, Livro XV.
(3) Honra idêntica foi proposta a Tibério, que a recusou; em Pérgamo, na Ásia Menor, um templo foi edificado em honra de Augusto e da cidade de Roma, quando o imperador ainda vivia. 
(4) Apologia.
(5) Ibid


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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O primeiro censo realizado em Roma

Sabemos, por informação de Tácito, no Livro XI dos Annales, que no ano 801 da fundação de Roma (ou 48 d.C.), foi realizado um censo, que apontou a existência de seis milhões e novecentos e quarenta e quatro mil cidadãos no Império. 
Ora, a realização de censos era uma prática muito antiga entre os romanos, e, de acordo com Tito Lívio (Ab urbe condita libri), o primeiro deles ocorreu durante o governo de Sérvio Túlio, sexto rei de Roma. Naquele primeiro censo (¹) foram contados cerca de oitenta mil cidadãos romanos militarmente válidos (²). 
É interessante notar que, para os romanos, a contagem dos cidadãos ia muito além de um levantamento de informações que pudessem favorecer projetos militares ou tributários dos governantes. Sabemos que havia, também, um elemento religioso envolvido, na intenção de assegurar o favor dos deuses, tanto para os homens destinados à defesa da cidade como para os que iam à guerra contra inimigos externos. Esse aspecto fica evidente na maneira como foi organizada a cerimônia que assinalou a conclusão do primeiro censo: todos os cidadãos foram reunidos no Campo de Marte, onde teve lugar um ritual de purificação chamado Lustro, no qual foram sacrificados, ao que tudo indica em honra do deus da guerra, um porco, uma ovelha e um touro.

(1) Século VI a.C.
(2) A cidadania estava, então,  vinculada à prestação do serviço militar.


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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Agripina, mãe de Nero, não era nenhuma santa

É sabido que Nero providenciou a morte de Agripina, sua mãe, primeiro com uma tentativa (fracassada) de afogamento, e depois, de um modo talvez mais prático e explícito, pela espada de seus subordinados. Mas, se o filho era péssimo, Agripina, por sua vez, não era nenhuma santa. "Tal mãe, tal filho", dirão alguns dos leitores, ou, sem prejuízo da causalidade, tal filho, tal mãe...
Apenas para contentar quem duvida da capacidade de causar dano que tinha a senhora Agripina, lá vai um episódio relacionado àquela mestra de intrigas, contado por Tácito no Livro XII dos Annales. Em poucas palavras, os leitores terão um exemplo acabado do que é perfídia.
Havia em Roma um sujeito muito rico, cujo nome era Estatílio Tauro. Esse homem era proprietário de um belíssimo pomar, que Agripina invejava e queria para si. A terrível mulher arquitetou então um plano para pôr as mãos na propriedade alheia, arranjando um cúmplice que acusou Estatílio Tauro de coisas gravíssimas, relacionadas a uma suposta improbidade quando havia exercido o cargo de procônsul na África; como se isso fosse coisa de pouca monta, juntaram-se acusações de envolvimento com magia.
Levado a julgamento, Estatílio Tauro cometeu suicídio, antes que o Senado desse o parecer final sobre o caso (em Roma, isso era muito comum). Se serve de consolo, diga-se que a decisão do Senado não foi favorável aos interesses de Agripina, mesmo porque, a essa altura, deviam ser poucos os senadores que tinham alguma simpatia por ela. De qualquer modo, é bom recordar que, pelas leis romanas, os bens de um sentenciado à morte, cometendo este suicídio, eram distribuídos segundo suas disposições testamentárias, em lugar de passar ao Estado, o que explica a atitude do ex-procônsul.


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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A perseguição aos cristãos no Império Romano

Por séculos os cristãos que viviam no Império Romano foram perseguidos. Eram presos, torturados para que negassem sua fé e, muitas vezes, condenados à morte, o que se executava com extrema crueldade, e até mesmo como espetáculo público.
Quem, afinal, teve a ideia de iniciar tal prática?
De acordo com a Apologia, escrita por Tertuliano no ano 200 d.C. (com a finalidade de defender a causa dos cristãos diante do Senado romano, por ocasião de uma perseguição movida pelo próprio Senado e referendada pelo imperador Sétimo Severo), os cristãos de Roma foram perseguidos, pela primeira vez, sob o mando de Nero:
"Procurem nos registros anuais e irão encontrar que Nero foi o primeiro a ensanguentar a espada dos Césares no sangue da religião cristã, quando ela começava a fazer-se conhecer em Roma." (*)
Tertuliano ainda acrescentaria:
"Não há maior elogio à religião cristã que haver sido perseguida por Nero, uma vez que um homem tão mau não poderia senão perseguir algo completamente bom."
É perceptível que, ao final do segundo século da Era Cristã, a imagem de Nero entre os romanos não era das mais favoráveis, ou Tertuliano não teria se referido a ele do modo como o fez. Mas, voltando à questão da primeira perseguição aos cristãos, ocorreu ela porque Nero, vendo-se sob suspeita de ter ordenado o incêndio que arrasou a capital do Império, tratou de achar a quem incriminar, e lançou a responsabilidade sobre os cristãos, que, nesse tempo (64 - 65 d.C.) não deviam ser assim tão numerosos em Roma. No livro XV dos Annales, Tácito escreveu:
"Para afastar os rumores, Nero incriminou e passou a punir com toda sorte de tormentos a uma gente desagradável, os cristãos, como vulgarmente eram chamados. [...] Zombando deles, eram vestidos com peles de animais, sendo, em seguida, lançados aos cães, enquanto outros eram crucificados, e outros, ainda, queimados quando anoitecia, para que servissem de iluminação."
Sabe-se que, pela época que o cristianismo chegou a Roma, a crença nos antigos deuses já andava em declínio. No entanto (como se vê, mutatis mutandis, até hoje sob algumas circunstâncias), sempre que ocorria alguma grande catástrofe o povo romano corria aos templos, tentando aplacar a fúria das divindades esquecidas. Foi também Tácito, a despeito de seu mau humor para com os cristãos, quem registrou:
"Entendeu-se que o incêndio fora devido à fúria dos deuses, e tomaram-se providências para acalmá-los. [...] Livros sibilinos foram consultados, sendo então dirigidas súplicas a Vulcano, Ceres e Proserpina, enquanto as matronas faziam propiciação a Juno no Capitólio e, depois, junto ao mar, levando dali água para aspergir o templo e a estátua da deusa."
Estando o imperador envolvido no incêndio ou não, naquela hora o expediente serviu para que Nero escapasse da ameaça popular e ainda caísse, momentaneamente, nas graças da plebe, que acorria aos espetáculos públicos nos quais cristãos eram sacrificados, com o pretexto de que isso seria em extremo agradável aos deuses. 
Nem por isso o cristianismo desapareceu, e nem mesmo as sucessivas perseguições tiveram o efeito de fazer com que os cristãos sumissem do Império. Ao contrário. Se nos dias de Nero os cristão eram, em Roma, relativamente pouco numerosos, quase um século e meio mais tarde, sob nova perseguição, Tertuliano diria: "Nascemos ontem, e já hoje enchemos o Império [...]."

(*) As citações da Apologia de Tertuliano e dos Annales de Tácito incluídas nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Nero, os publicanos e a cobrança indevida de impostos no Império Romano

Como Nero perdeu uma das grandes oportunidades de sua vida


Era o ano 812 da fundação de Roma, mas se preferirem, leitores, podem dizer 59 d.C. Independente do calendário adotado, era Nero quem detinha o poder supremo no Império, em um momento de grande insatisfação popular. E, acreditem, não por obra e graça do ilustre imperador, e sim por causa dos desmandos cometidos pelos publicanos.
Ora, cabe aqui explicar que "publicanos" eram nem mais e nem menos que funcionários cuja tarefa consistia na cobrança de alguns impostos. Esses sujeitos eram dados a exigir mais dinheiro do que era devido ao governo romano, e, naturalmente, ficavam com o "excedente" para si mesmos. Simples assim. O registro de Tácito no Livro XIII dos Annales explica:
"Naquele mesmo ano, diante de tantos protestos da plebe contra os publicanos, Nero esteve a ponto de suprimir todos os impostos de entrada e saída, no que teria feito uma dádiva estupenda aos mortais." (*)
Digam-me, leitores, que lhes parece essa ideia de Nero? A proposta foi, conforme a praxe, amplamente debatida no Senado, que acabou por convencer o jovem mandatário romano de que, caso seu plano fosse adotado, o Império iria à falência. 
Talvez devamos lamentar que não tenham os romanos fabricado, aí, um precedente histórico (em mais de um sentido), ao mesmo tempo em que Nero perdia uma gloriosa oportunidade de tornar-se perpetuamente célebre, e por razão bem diversa de quase todas as outras que o fizeram notável. E, para quem está curioso por saber em que acabou o caso, basta voltar a Tácito:
"Chegou-se a um meio-termo com medidas para reprimir a cupidez dos publicanos, de modo que não viessem a repetir as extorsões que, por anos, se haviam tolerado."
Tácito, infelizmente, nada informa quanto à eficácia das tais medidas destinadas a manter os publicanos sobre controle.

(*) As citações dos Annales de Tácito que aparecem nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Os prodígios do ano 55 d.C.

Corria o ano 808 da fundação de Roma (55 d.C.), quando uma série de "prodígios" deixou atônita a população da capital do Império. Sendo os romanos muito supersticiosos, só podiam supor que tudo prognosticava grandes desgraças.
E que prodígios, afinal, foram esses?
De acordo com Tácito (*):
  • Um fogo vindo do céu queimou bandeiras e barracas de um acampamento de soldados;
  • Um enxame de abelhas cometeu o atrevimento de ir instalar-se no Capitólio;
  • Foram registrados nascimentos de animais com duas cabeças;
  • Alguns leitões vieram ao mundo dotados de unhas de águia;
  • Como cúmulo das desgraças, nesse malfadado ano morreram vários magistrados (um questor, um edil, um tribuno, um pretor e um cônsul).
Quanta tragédia, não?
As crendices da época e a veloz propagação dos boatos devem ter dado uma contribuição nada desprezível para que alguns dos tais prodígios ganhassem fama de realidade. No entanto, senhores leitores, uma trágica coincidência veio reforçar, na memória dos romanos, a ideia de que 55 d.C. foi mesmo um ano infeliz: embora não integrasse a lista de maus sinais de Tácito, foi o primeiro ano completo sob o governo de Nero (ascendeu ao posto de principal do Império em outubro de 54 d.C.). 

(*) Livro XI dos Annales.


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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dez fatos interessantes sobre guerras da Antiguidade

Estão aqui alguns fatos interessantes, registrados por cronistas e historiadores da Antiguidade, que podem ser úteis para quem quiser visualizar mentalmente como eram as guerras daqueles tempos remotos.

1. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, quando pretendia arrasar uma cidade ou não conseguia conquistá-la, mandava cortar todas as árvores que havia ao seu redor.

2.  Nas guerras da Antiguidade não era incomum a participação de fundeiros, ou seja, soldados que atiravam com fundas (como Davi contra Golias...). Ocorre que a técnica, por assim dizer, foi aperfeiçoada, de modo que, ao tempo dos romanos, já não eram atiradas pedras, e sim bolas de chumbo.

3. Uma prática muito comum nas guerras da Antiguidade, tendo em vista enfraquecer o(s) inimigo(s), consistia em roubar as colheitas e depois inutilizar os campos de cultivo enchendo-os de pedras.

4. De acordo com Júlio César, em seus Commentarii de Bello Gallico, os belgas eram os mais valentes de todos os moradores das Gálias, uma vez que não eram acostumados ao consumo de coisas delicadas, pois os mercadores raramente iam ao seu território.

5. Também de acordo com César, os gauleses, que eram muito altos, zombavam dos romanos, a quem consideravam "baixinhos".

6. Políbio de Megalópolis afirmava que as tropas comandadas por Cipião, o Africano, quando atacaram Cartagena (durante as Guerras Púnicas), eram compostas por vinte e cinco mil soldados de infantaria e dois mil e quinhentos de cavalaria, com seus respectivos cavalos, por suposto.

7. Ainda Políbio: as tendas dos cartagineses em seus acampamentos militares eram feitas de folhas e ramos de árvores.

Um soldado romano, de acordo com desenho
em uma parede de Pompeia (*)
8. Durante as Guerras Púnicas, percebendo os romanos que as vitórias dos cartagineses vinham em razão da superioridade de sua cavalaria, trataram de destruir os campos de onde provinham o feno e a cevada para os cavalos. A prática dava resultado porque era bastante difícil trazer de longe a forragem para os animais.

9. Tácito, historiador romano, no livro segundo dos Annales, afirmou que os germanos não eram, em relação aos romanos, menos valentes no combate; porém as armas e táticas dos romanos mostravam-se superiores, vindo daí sua vantagem.

10. As vitórias de César nas Gálias foram comemoradas em Roma durante quinze dias; segundo o próprio César, nunca antes havia ocorrido entre os romanos uma celebração assim, mas, posteriormente, outras comemorações ordenadas pelo Senado, também por conquistas de César, duraram nada menos que vinte dias.

(*) PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper & Brothers, 1877, p. 15. Este desenho teria sido feito provavelmente por um soldado romano, na parede de um alojamento militar em Pompeia (portanto, antes que a cidade fosse destruída pelo Vesúvio em agosto de 79 d.C.).


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