segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Em Que Acreditavam os Cristãos Que Viviam no Final do Século II

O Credo Niceno, que só seria formulado em 325 d.C., estava ainda distante quando Tertuliano escreveu sua Apologia, com o propósito de defender os cristãos perseguidos por ordem do Senado romano (*). No entanto, como estratégia para demonstrar que a perseguição era injusta, Tertuliano tratou de explicar sucintamente quais eram as principais ideias do cristianismo no final do Século II, dentre as quais, leitores, veremos algumas.

O Deus dos cristãos como um ser único e criador do universo

"Nós, cristãos, adoramos a um Deus que, a partir do nada, criou o mundo e os elementos que o compõem (...). Embora Deus seja invisível, traços dele podem ser vistos nos seres que criou (...)." (**) 
Essa crença era de difícil compreensão para a mentalidade politeísta que predominava no mundo romano. Especulava-se sobre quem, de fato, os cristãos adoravam, e verdadeiros absurdos eram repetidos: as nuvens, uma cabeça de jumento...

Escritos sagrados continham previsões em relação ao futuro

Segundo Tertuliano, acontecimentos previstos nos escritos sagrados dos cristãos já haviam acontecido; portanto, era razoável crer que os que ainda estavam no futuro também viriam a ser realidade:
"Nós, cristãos, cremos no que virá, da mesma forma que no que já aconteceu, uma vez que, junto àquilo que hoje vemos, já está profetizado o que sucederá no futuro. (...)
Será tolice crer que se cumprirá o que ainda falta acontecer, uma vez que já ocorreu e está ainda ocorrendo o que se profetizou?" (**)
Textos considerados sagrados não eram estranhos ao mundo romano, e até se pode dizer que pessoas de certa instrução costumavam mostrar interesse por eles; além disso, nesse tempo, ainda que com algumas restrições, o judaísmo era admitido em Roma, e, fosse por curiosidade ou por qualquer outro motivo, eruditos romanos tinham algum conhecimento da chamada Lei de Moisés. "Digam-me", escreveu Tertuliano, "qual dos poetas ou sofistas deixou de ir beber à límpida fonte dos profetas?" (**)
Por outro lado, embora nos dias de Tertuliano o cristianismo já fosse uma religião distinta do judaísmo, o fato de que compartilhavam alguns escritos sagrados levava, às vezes, a confusões que podiam resultar em problemas.

Cristãos não deviam esconder sua fé

Mesmo sob perseguição, cristãos não deviam usar qualquer artifício para disfarçar sua fé: 
"A nenhum cristão é lícito mentir ou disfarçar a profissão de fé. (...) Dizemos de público, cobertos de sangue, destroçados em razão da tortura, mas afirmamos plenamente aos que nos atormentam, que a Cristo adoramos como nosso Deus." (**)

Jesus, Filho de Deus, que já estivera uma vez na Terra, apareceria uma segunda vez

"A Escritura aponta duas vindas de Cristo, estando já cumprida a primeira, na condição humilde de carne humana, enquanto a segunda será no fim do mundo, com manifestação do poder divino." (**)
Gregos e romanos não achariam estranha a ideia de Jesus ser chamado "Filho de Deus" pelos cristãos, porque muitos de seus deuses eram, por sua vez, descritos como filhos de outros deuses (Zeus, filho de Cronos, Palas Atena, filha de Zeus, e assim por diante); teofanias, ou seja, manifestações visíveis dos deuses, também eram parte do acervo de crenças do mundo greco-romano. A ideia de um juízo final é que não era muito comum, e muito menos a crença de que, algum dia, os mortos tornariam a viver. Em outro de seus escritos (***), Tertuliano explicou: "...cremos que o espírito e a carne haverão de ressuscitar."

Cristãos praticavam um estilo de vida muito diferente daquele adotado pela maioria dos romanos

Os leitores que conhecem alguma coisa do modo de vida que imperava em Roma não terão dificuldade em reconhecer, com estas breves citações da Apologia, que cristãos adotavam um comportamento bastante diferente, e que, talvez, nisso residisse uma das grandes dificuldades, já que, para não poucos romanos, adeptos do cristianismo pareciam "gente desagradável" (conforme opinião de Tácito):

  • Cristãos não se divertiam com os espetáculos favoritos do povo romano: "Nossos olhos não se agradam em presenciar animais despedaçando homens na arena." (**)
  • Cristãos eram instados para que tivessem amor uns pelos outros: "Vejam como se amam, dizem, e isso falam com espanto, porque seu costume é que tenham ódio uns aos outros." (**)
  • Sob perseguição, cristãos partilhavam os bens: "Temos todos os bens em comum, exceto as mulheres." (**) [sic!!!] 

Não é improvável que, a esta altura, alguns de vocês, leitores, estejam pensando: Por que é que essa gente inofensiva e até benéfica sofria perseguição? Só por causa de ideias que soavam um pouco esquisitas para a mentalidade romana?
Responderia Tertuliano:
"Se o Tibre alcança os muros da cidade, ou se o Nilo não transborda o suficiente para as plantações, se o céu sem nuvens não traz chuva, se há tremor de terra, se ocorre escassez de trigo ou se grassa a peste, o povo não tarda a gritar para que "joguem os cristãos ao leão". Para tantos cristãos um só leão?" (**)
Ora, leitores, estamos diante de um fenômeno recorrente ao longo dos séculos. Quando as coisas vão mal, não demora a aparecer quem aponte um suposto culpado (quase sempre aquele que não tem como se defender), cuja única culpa, na verdade, é ser minoria, ser diferente, é ir, talvez, contra aquilo que faz a multidão. Não será difícil para vocês, que têm bom nível de informação, identificar situações assim, longe ou perto de nós, no espaço e no tempo.
Na época em que o cristianismo nasceu e se espalhou pelo Império Romano, as religiões existentes eram, quase todas, politeístas e de caráter local, ou, quando muito, nacional. Nisso, também, o cristianismo era diferente da maioria: admitia adeptos de todas as nacionalidades, não fazia restrição a qualquer camada social e apresentava uma surpreendente mensagem de fraternidade entre todos os homens (infelizmente, nem sempre praticada). Foi duramente perseguido, mas, a despeito disso, ganhou mais e mais adeptos, primeiro entre artesãos e mesmo escravos e, gradualmente, até entre a elite romana. 
Já que começamos com Tertuliano, concluiremos também com ele. "Se os cristãos resolvessem viver juntos em algum canto do mundo", escreveu, "o Império ficaria em assombro, por perder cidadãos de tal qualidade e sofrendo o dano de ficar sem os bons." E, naquela que é a mais difundida de suas ideias, até mesmo entre os que não têm o mínimo interesse por História, afirmou que, se a intenção era extinguir o cristianismo, a perseguição era inútil: "Quando vocês matam cristãos, estão semeando. Quanto mais derramam nosso sangue, mais numerosos nos tornamos, porque o sangue dos cristãos é semente." 
Convenhamos: mesmo em meio à perseguição, era uma mudança notável, para uma religião que nascera quase dois séculos antes em uma província não muito tranquila do Império. Os centênios seguintes trariam ainda muitas outras transformações.

(*) 200 d.C.
(**) Tertuliano, Apologia.
Exceto quando mencionado, todas as citações que aparecem nesta postagem pertencem à Apologia de Tertuliano e foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(***) Da Paciência.

2 comentários:

  1. No fundo tudo se repete, numa sucessão de ciclos que chega a ser desesperante para quem ambiciona o resgate do melhor que há nos homens: quando alguma coisa corre mal, a primeira coisa é apontar o dedo a quem ameaça a nossa zona de conforto.
    Postagem muito interessante, Marta!

    Uma boa semana :)

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    1. Sim, concordo. Situações parecidas, tanto no aspecto social quanto no político, podem ser observadas em diversos outros momentos e lugares. Além disso, contrariar a maioria é sempre perigoso...

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