sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A Poligamia Entre Indígenas (e Como os Missionários Jesuítas Lidavam Com Ela)

Vai aqui, leitores, uma postagem destinada àqueles dentre vocês que são muito curiosos sobre o modo de vida dos ameríndios. 
Todo mundo sabe que, em vários povos indígenas do Brasil, a poligamia predominava, ou era, pelo menos, admitida. Pode-se bem imaginar o que missionários jesuítas pensavam de tal costume. Mas, afinal, o que é que se fazia quando um índio polígamo, tornando-se catecúmeno, pedia o batismo?
No que se refere à vida diária dos indígenas, os escritos de Anchieta são verdadeiro "mapa da mina". Em um documento que a ele é atribuído e que recebeu o título de "Informação dos Primeiros Aldeamentos na Bahia", lemos, relativamente à visita feita pelo bispo D. Pedro Leitão às aldeias da catequese em 1562:
"(...) Por sua mão batizava a muitos e crismava a outros, e depois casava em lei da graça os que eram para isso, e duas vezes foi às ditas igrejas, batizando os índios, que para isso estavam aparelhados, e os que o não estavam, deixando as muitas mulheres, casavam com uma, em lei da natureza, e as outras se casavam com outros índios (...)." (*)
Vejam, leitores, que não havia nenhuma tolerância com a poligamia. Na prática, o polígamo que pretendia o batismo devia escolher uma mulher e estar casado com ela "em lei da graça"; as outras mulheres ficavam livres para um novo casamento, desde que monogamicamente.
Em outro documento (**), também atribuído a Anchieta, vem esta observação, que nos oferece um exemplo prático de como a questão era resolvida:
"Em Piratininga (***), da Capitania de São Vicente, Caiubi, velho de muitos anos, deixou uma [mulher] de sua nação, também muito velha, da qual tinha um filho homem muito principal, e muitas filhas casadas, segundo seu modo, com índios principais de toda a aldeia de Jeribatiba (...), e sem embargo disso casou com outra (...), sua escrava tomada em guerra, a qual tinha por mulher, e dela tinha quatro filhos, e esta trazia consigo, e com ela estava e conversava, e depois recebeu in lege gratiae, sem a primeira mulher nem os filhos e genros fazerem por isso sentimento algum." (****)
A ideia de Anchieta é que esse procedimento não trazia problemas aos indígenas porque a mulher que fosse "dispensada" não se ofendia, e logo arranjava outro marido. E, se vocês, leitores, estão pensando se a prática inversa era também admitida, ou seja, se uma mulher indígena podia abandonar o marido, para viver com outro homem, digo que, de acordo com Anchieta, a resposta é afirmativa, pelo menos entre alguns povos:
"(...) Também elas deixam o marido e tomam outro, como me contaram que fez a principal mulher de Cunhambebe (*****), que era o principal mais estimado dos tamoios que havia na comarca de Iperoig, do qual tinha já um filho e uma filha casadouros, e com tudo isso o deixou, por ele ter outras, ou pelo que quis, e se casou ou amancebou com outro; e outras fazem o mesmo sem sentimento dos maridos (...)." (******)
Admitindo que as informações de Anchieta sejam corretas, é forçoso reconhecer que muitos povos indígenas do Brasil tinham, em suas respectivas culturas, arranjos familiares muito diferentes do modelo que os jesuítas vinham propor. Não é surpreendente, portanto, que os missionários ficassem algo escandalizados com o que viam, um fato que transparece, até com facilidade, em alguns dos escritos que deixaram.

(*) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 354
(**) "Informação dos Casamentos dos Índios do Brasil".
(***) São Paulo.
(****) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ, Op. cit. p. 448
(*****) Hans Staden teria muito a dizer sobre esse famoso chefe tamoio.
(******) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ, Op. cit. p. 449

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