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quinta-feira, 14 de março de 2019

Abusos de colonizadores contra indígenas escravizados

Acusação feita por missionários jesuítas contra colonizadores do Maranhão e do Pará: indígenas não apenas eram escravizados (contrariando ordens vindas do Reino), como eram deixados sem doutrinação. E, grande absurdo, ao menos sob o ponto de vista dos padres: mesmo sem a catequese, os ameríndios escravizados eram batizados, "imaginando seus senhores mais por ignorância, que por malícia, que bastava aplicar-lhes com a água a forma para ficarem regenerados à graça, não lhes causando mais efeito aquele banho salutífero, que se fossem uma pedra ou tronco de uma árvore" (¹), conforme expressão do jesuíta José de Moraes, que viveu no Século XVIII.
Vejam, leitores, que, se adotarmos a ótica dos missionários, seremos levados à inevitável conclusão de que, afinal, não eram só os indígenas escravizados e batizados na mais completa ignorância do significado de tal cerimônia que tinham necessidade de doutrinação - os senhores, vindos do Reino ou nascidos no Brasil, também precisavam com urgência de catequese. Vejo aqui duas possibilidades: ou admitimos a ignorância dos colonizadores, que viam alguma espécie de poder mágico na água do batismo, ou entendemos que os escravizados eram forçados ao batismo para acalmar a consciência dos senhores, quase sempre gente religiosa "de fachada", e não mais que isso, porque, prevendo alguma importunação dos missionários, tratavam de fazer com que os escravos fossem, ao menos formalmente, admitidos na Igreja. Sabendo que havia clérigos também adeptos da escravização de ameríndios, não chega a ser surpresa que alguns ministrassem o batismo nessas circunstâncias.
Ninguém deve imaginar, porém, que o fato de um escravo indígena ser batizado oferecia a ele alguma vantagem. A crermos no que escreveu José de Moraes, vinha depois uma sequência de abusos:
  • Senhores impediam que escravos se casassem segundo as regras da Igreja, sob a curiosa alegação de que os casados se mostravam preguiçosos no trabalho;
  • Não havia nenhuma preocupação em prover assistência religiosa para os escravos que, doentes ou idosos, se aproximavam da morte (²);
  • Quando indígenas escravizados morriam, de acordo com o testemunho do padre José de Moraes na História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará, "ficavam seus corpos insepultos, ou sem sepultura eclesiástica, porque a uns os lançavam no rio e a outros os enterravam ao pé das casas, por se pouparem de maior trabalho em os fazer conduzir para os lugares sagrados, sem reverência ao batismo que receberam, sem temor algum de Deus e sem medo dos homens, que o sabiam e não impediam por razão de seu ofício". (³)
Alguém poderia dizer que José de Moraes talvez estivesse exagerando. A isso respondo que relatos semelhantes são tão comuns em relação aos escravos, fossem eles ameríndios ou de origem africana, que me parece tolice duvidar. Embora já existisse um reconhecimento oficial da Igreja (⁴), muitos colonizadores ainda se recusavam a admitir o óbvio: povos indígenas eram parte da humanidade. 

(1) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 427.
(2) Embora o governo português cobrasse dízimos de toda a população colonial, ficando, portanto, obrigado a garantir a assistência religiosa necessária, isso, na prática, dificilmente acontecia, de modo que os moradores do Brasil, fossem livres ou escravos, nem sempre podiam contar com a presença de clérigos que celebrassem missa com regularidade e se encarregassem dos sacramentos, a menos que residissem nas povoações maiores. Alguns senhores de engenho assalariavam capelães para que vivessem em suas terras.
(3) MORAES, José de S.J. Op. cit. p. 427.
(4) Bula Sublimis Deus, Papa Paulo III, 1537.


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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

A celebração do Natal durante a expedição missionária do padre Antônio Vieira em 1653

Véspera de Natal, 1653: uma expedição percorre o rio Tocantins. Para os jesuítas que dela participam, o objetivo é estabelecer contato com indígenas que pretendem catequizar. Mas vão também colonizadores, e estes têm outras ideias (¹). A data, porém, pede celebração. Mas, que fazer, em meio à floresta?
A simplicidade deu o tom, pelo que se depreende de um relato feito pelo padre Antônio Vieira, que liderava os missionários jesuítas:
"Tínhamos determinado fazer alto neste dia mais cedo que nos outros, para gastar toda a tarde em adereçar uma capela de palma, em que celebrar com mais decência os mistérios desta sagrada noite, mas não tivemos lugar para mais que de engenhar uma pequena choupana mal coberta com as toldas das canoas, aonde armamos o nosso altar. [...]." (²)
Aos missionários não ficou sequer a alegria de celebrar missa com todos reunidos. É que uma das canoas não acompanhou o ritmo das demais, conforme explicação do próprio Vieira:
"Não nos achamos juntos mais que os padres Francisco Veloso, Manoel de Sousa e eu, porque o padre Antônio Ribeiro com a sua canoa não pôde avançar tanto, e ficou em outro lugar, aonde também aportaram algumas canoas que não estavam conosco, e por esta tardança e apartamento vieram uns e outros a ter a consolação da santa missa aquela noite." (³)
Desse modo, a ocasião foi marcada pela celebração de missas e por uma refeição muito simples - quem esperaria encontrar uma autêntica ceia de Natal em meio às águas e matas ainda desconhecidas para europeus? Sigamos com as informações do padre Vieira:
"O padre Antônio Ribeiro contentou-se só com a água sem farinha, os demais [...] não tiveram mais sobre a farinha que um pouco de peixe seco, mas Deus tempera de maneira estes regalos que os não trocarão os que gostam deles pelos maiores do mundo. O trabalho tão extraordinário de todo o dia parece pedia o descanso da noite, mas toda ela se passou em vela sobre a terra nua da choupana, oferecendo cada um ao Menino nascido não só os desamparos de seu Belém, mas as saudades da devoção e concerto que esta santa noite celebra nos colégios da Companhia. À meia-noite dissemos três missas, que todos ouviram, as demais se disseram às suas horas, e no dia comungaram alguns portugueses e alguns índios." (⁴)
Entre preces e reflexões que talvez não ousassem compartilhar, missionários passaram as horas do Natal. Fatigados pela viagem, a mente inquieta pelo temor quanto às péssimas intenções de alguns integrantes da expedição, deram as boas-vindas a algum repouso. Concluindo o informe desse Natal atípico, Vieira escreveu: "Por celebridade do dia não fizemos jornada nele [...]." (5)

(1) A ideia, óbvia para quem conhece alguma coisa sobre a conduta dos colonizadores da época, era escravizar indígenas.
(2) Cf. MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 467.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

Catecismos manuscritos usados por jesuítas no Brasil Colonial

O padre José de Anchieta passava noites copiando, à mão, as lições que seus alunos precisariam estudar - já falei sobre isso aqui no blog, ao tratar do ensino e catequese na Capitania de São Vicente. Mas ele não foi o único que recorreu às cópias manuscritas quando havia necessidade de multiplicar algum texto para uso no Brasil. Não havendo nem impressoras e nem trabalhadores gráficos (¹), o material necessário à catequese era pacientemente copiado pelos missionários. Em explicação dada pelo padre Antônio Vieira ao Provincial jesuíta do Brasil, através de uma carta datada de 22 de maio de 1653, somos informados de que um catecismo simplificado estava em uso para doutrinação dos indígenas - em contato com culturas ameríndias muito diferentes da sua, os missionários tinham dificuldade em explicar alguns conceitos a seus catecúmenos - e, para multiplicar o dito catecismo, era necessário, literalmente, pôr mãos à obra:
"Não sendo [os indígenas] capazes de catecismo tão dilatado e miúdo como é o geral que anda impresso, tomamos dele as coisas mais substanciais e fizemos outro catecismo recopilado, em que, por muito breve e claro estilo, estão dispostos os mistérios necessários à salvação, e este é o que se ensina." (²)
Como se conclui que o catecismo resumido era manuscrito? Deixemos que Vieira prossiga:
"Além deste catecismo breve, fizemos outro brevíssimo para nos casos de maior necessidade se poder batizar um gentio (³), e ajudar a bem morrer um batizado, dos quais se têm pedido cópias para os lugares onde não estamos, e se começam a fazer algumas; mas porque é quase impossível escreverem-se os muitos que são necessários, na primeira monção (⁴) determinamos de os mandar imprimir em grande quantidade, para que se possam repartir por todos os moradores, e cada um ensinar aos seus índios, e instruí-los em falta de sacerdotes para o batismo e para a morte." (⁵)
Percebe-se que Vieira assumia que muitos colonizadores eram "donos" de índios, e, pragmático, tencionava, com a distribuição dos catecismos, obter alguma ajuda na doutrinação dos cativos, ciente de que os padres de sua Ordem, sendo pouco numerosos, não podiam dar conta de todo o trabalho; ainda que jesuítas, por princípio, combatessem a escravização de ameríndios, não eram contrários ao cativeiro dos aprisionados em "guerras justas", feitas, inclusive, contra aqueles que se opunham ou se recusavam a receber a catequese.

(1) Quem quer que se dê ao trabalho de folhear livros impressos em Portugal entre os Séculos XVI e XVIII, logo perceberá que as obras eram precedidas por várias páginas com permissões para impressão, expedidas por autoridades civis e eclesiásticas. Sem as ditas autorizações nenhum livro podia ser impresso ou vendido. Além do custo inerente à impressão das cópias, toda essa burocracia desencorajava a multiplicação de edições e a livre circulação das ideias.
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 328.
(3) Era assim que os missionários se referiam aos indígenas ainda não batizados.
(4) Monção, aqui, é referência à época do ano favorável à navegação, quando era possível cruzar o Atlântico. Esperava-se, portanto, a ocasião propícia para que alguém, indo a Portugal, encomendasse cópias impressas dos catecismos simplificados em uso no Brasil.

terça-feira, 1 de maio de 2018

O poeta José de Anchieta

Praia de Iperoig (Ubatuba - SP), onde se supõe
que Anchieta tenha escrito o Poema à Virgem

Anchieta é famoso pelo Poema à Virgem, do qual todo mundo ouve falar na escola, mas que quase ninguém lê - os versos foram escritos em latim e, segundo o próprio Anchieta relatou, registrados originalmente nas areias de Iperoig enquanto foi refém dos tamoios (¹). Sobre a habilidade de Anchieta em fazer versos, o padre Simão de Vasconcelos, jesuíta como ele, escreveu:
"Compôs [...] em várias partes do Brasil, com vivo e raro engenho, muitas obras poéticas, em toda a sorte de metro, em que era mui fácil, todas ao divino e a fim de evitar abusos e entretenimentos menos honestos." (²) 
Como professor, Anchieta era adepto de rimas, não apenas por questões estéticas, mas como recurso didático, a fim de doutrinar indígenas e colonizadores. Estes últimos, como se sabe, eram pouco ilustres pelos afetos religiosos. Os versos tornavam mais fácil e atraente a memorização, e, lendo as quadrinhas seguintes, até podemos imaginar o padre José, (como era habitualmente chamado por seus contemporâneos), ensinando os meninos que acorriam às suas aulas:

"Noé fez a grande arca 
em que o homem racional 
junto com o bruto animal 
escapassem, como em barca
do dilúvio universal."

"Davi com grande vigor
um leão mui carniceiro
e um urso roubador,
com o gigante espantador
matou, com ser ovelheiro." (³)

Não me parece justo discutir o mérito artístico destes singelos versinhos. Como já disse, o propósito de José de Anchieta era, com suas rimas, embutir assuntos religiosos na cachola da população colonial. Para uso nas festas religiosas, era comum que as palavras fossem vestidas com música, que, porém, com o tempo, se perdeu. Que pena!...

(1) Escrever na areia foi o método escolhido por Anchieta para reter os versos na memória.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 26.
(3) ANCHIETA, José de S.J. Carta da Companhia.


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terça-feira, 28 de março de 2017

Escravos africanos em lugar de indígenas

A escravidão, no Brasil, foi de indígenas e de africanos. Desumana, em um e outro caso, como só ela pode ser. Os indígenas tinham nos missionários jesuítas valentes defensores, que se opunham à sua escravização. Os cativos de origem africana, não. Por quê?
O padre Antônio Vieira (¹), em uma de suas cartas, escreveu que calvinistas e luteranos eram menos hereges que paulistas, porque "enforcam a quem furta e fazem pagar a quem deve, e a seita pauliniana [sic] tudo isto está devorando sempre sem escrúpulo." (²)
Só é possível compreender perfeitamente o que Vieira queria dizer se duas coisas forem consideradas em relação aos jesuítas que empreendiam a catequese no Brasil: o desgosto em relação à chamada "heresia protestante" e o ódio aos paulistas que escravizavam indígenas. 
Não se deve pensar, entretanto, que a escravização da população nativa era fenômeno restrito a São Paulo. Em um documento atribuído a outro jesuíta, o padre José de Anchieta (³), pode-se ler esta observação, relacionada à Bahia e adjacências:
"[...] Já sabem [os indígenas] por todo o sertão, que somente gente que está nas igrejas, onde os padres residem, tem liberdade, que toda a mais é cativa (...)." (⁴)
Isso acontecia porque os missionários eram audazes em fazer frente aos colonizadores, quando o assunto era a escravização de indígenas ou qualquer outra ação que comprometesse sua catequese; em alguns casos, houve até rebeliões de colonos contra a presença da Companhia de Jesus, ao ponto de serem expulsos os padres, como aconteceu em São Paulo no ano de 1640.
Entretanto, observando o outro lado dessa história, veremos que a posição dos jesuítas em relação aos escravizados africanos e/ou de origem africana era muito diferente. Os próprios missionários tinham escravos a seu serviço, e não viam nada de errado em tal prática. Em uma carta enviada ao rei D. João III em 1551, o padre Manuel da Nóbrega (⁵) foi explícito em pedir escravos para o Colégio da Bahia:
"[...] Mande dar alguns escravos de Guiné à Casa [Colégio da Bahia], para fazerem mantimentos, porque a terra é tão fértil, que facilmente se manterão e vestirão muitos meninos, se tiverem alguns escravos que façam roças de mantimentos e algodoais [...]." (⁶)
Outro exemplo pode ser encontrado na sugestão feita pelo padre Antônio Vieira, tendo em vista a queixa persistente dos moradores do Maranhão, de que a catequese de indígenas resultava em falta de mão de obra para as lavouras:
"[...] Não podem haver ao presente outros meios mais certos e efetivos, que os de meter no dito Estado [do Maranhão] escravos de Angola [...].
[...].
Comprem e remetam ao Maranhão duzentos escravos, que devem ser homens e mulheres em ordem à propagação [sic] [...]." (⁷)
Como explicar a diferença no trato dos jesuítas com indígenas e africanos? Nos dois casos, a resposta está na catequese. Os missionários da Companhia de Jesus queriam os indígenas "livres", para que, reunidos em aldeias sob a vigilância dos padres, fossem submetidos a doutrinação. Entretanto, apoiavam a escravização de africanos porque entendiam que, vindo ao Brasil, estariam ao alcance da catequese. Por isso, houve até quem julgasse que, em última análise,  a escravidão era um benefício que se fazia aos africanos...
Uma ideia de como era feita a doutrinação de escravizados, fossem eles indígenas ou africanos, pode ser obtida por esta descrição, proveniente de outro relato de Anchieta: 
"O método que se adota nestas missões é ensinar e explicar a doutrina cristã aos índios e africanos reunidos em um lugar, batizar, ouvir-lhes as confissões, separá-los das concubinas e sujeitá-los às leis do matrimônio, o que nesta Província é trabalho quotidiano, necessário e utilíssimo à salvação das almas." (⁸)
A que conclusão chegamos, leitores? No que se refere à escravidão de africanos, por séculos houve bem pouca gente que atinasse com sua imoralidade, mesmo dentro de contextos estritamente religiosos. Nos chamados países protestantes, o movimento abolicionista precisou lutar contra quem, com base na Bíblia, defendia a manutenção da ordem escravista. Interessante é que a mesma fonte era citada por quem queria acabar de vez com a escravidão. Não foi diferente onde o catolicismo predominou (⁹), o que vale, certamente, também para o Brasil. 

(1) 1608 - 1697.
(2) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2isboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 474.
(3) 1534 - 1597.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de S. J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 378.
(5) 1517 - 1570.
(6) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, pp. 307 e 308.
(7) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Op. cit. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, pp. 176 e 177.
(8) ANCHIETA, Pe. Joseph de S. J. Op. cit. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 399.
(9) Para quem tiver interesse no assunto, poderá ser útil correr os olhos por uma obrinha de muita importância, escrita por José Bonifácio de Andrada e Silva, e que tem por título A Abolição.


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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

"Guerra justa" contra indígenas do Brasil

Veremos hoje, leitores, um exemplo prático daquilo que, nos tempos coloniais, recebia o nome de "guerra justa" contra indígenas. Como foi o próprio padre Antônio Vieira, jesuíta, quem contou, não é possível supor que houvesse intenção difamatória; além disso, o relato, em si, é sumamente interessante como documento histórico daquilo que, no Século XVII, era o tratamento dispensado aos povos nativos do Brasil.
Uma tribo, chamada dos inheiguaras por Vieira, vivia em algum ponto nas proximidades do rio Tocantins. Sucede que a dita tribo teria tentando impedir que outros grupos deixassem suas terras e fossem viver sob a tutela dos padres em uma missão, conforme esclarecimento oferecido em carta ao rei de Portugal: "[...] com morte de alguns cristãos tinham impedido a outros índios de sua vizinhança de se descerem para a Igreja e vassalagem de Vossa Majestade [...]". (¹)
O pretexto estava dado. Na expedição para escravizá-los, liderada pelo jesuíta Manoel Nunes, foram quatrocentos e cinquenta índios "de arco e remo" e quarenta e cinco soldados portugueses, comandados por um capitão de infantaria. Os inheiguaras (seguimos com a descrição do padre Vieira), "foram buscados, achados, cercados, rendidos e tomados quase todos, sem dano mais que de dois índios nossos levemente feridos. Ficaram prisioneiros duzentos e quarenta, os quais [...], a título de haverem impedido a pregação do Evangelho, foram julgados por escravos e repartidos aos soldados." (²) 
Este fato ocorreu em 1659. A ideia de que a escravização (de quem quer que fosse) era uma coisa má em si mesma, não passava, ao que parece, pela cabeça de quase ninguém, nem mesmo no caso de um sujeito esclarecido, como era o padre Antônio Vieira.

(1) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 19.
(2) Ibid., p. 20.


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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A poligamia entre indígenas (e como os missionários jesuítas lidavam com ela)

Vai aqui, leitores, uma postagem destinada àqueles dentre vocês que são muito curiosos sobre o modo de vida dos ameríndios. 
Todo mundo sabe que, em vários povos indígenas do Brasil, a poligamia predominava, ou era, pelo menos, admitida. Pode-se bem imaginar o que missionários jesuítas pensavam de tal costume. Mas, afinal, o que é que se fazia quando um índio polígamo, tornando-se catecúmeno, pedia o batismo?
No que se refere à vida diária dos indígenas, os escritos de Anchieta são verdadeiro "mapa da mina". Em um documento que a ele é atribuído e que recebeu o título de "Informação dos Primeiros Aldeamentos na Bahia", lemos, relativamente à visita feita pelo bispo D. Pedro Leitão às aldeias da catequese em 1562:
"[...] Por sua mão batizava a muitos e crismava a outros, e depois casava em lei da graça os que eram para isso, e duas vezes foi às ditas igrejas, batizando os índios, que para isso estavam aparelhados, e os que o não estavam, deixando as muitas mulheres, casavam com uma, em lei da natureza, e as outras se casavam com outros índios [...]." (¹)
Vejam, leitores, que não havia nenhuma tolerância com a poligamia. Na prática, o polígamo que pretendia o batismo devia escolher uma mulher e estar casado com ela "em lei da graça"; as outras mulheres ficavam livres para um novo casamento, desde que monogamicamente.
Em outro documento (²), também atribuído a Anchieta, vem esta observação, que nos oferece um exemplo prático de como a questão era resolvida:
"Em Piratininga (³), da Capitania de São Vicente, Caiubi, velho de muitos anos, deixou uma [mulher] de sua nação, também muito velha, da qual tinha um filho homem muito principal, e muitas filhas casadas, segundo seu modo, com índios principais de toda a aldeia de Jeribatiba [...], e sem embargo disso casou com outra [...], sua escrava tomada em guerra, a qual tinha por mulher, e dela tinha quatro filhos, e esta trazia consigo, e com ela estava e conversava, e depois recebeu in lege gratiae, sem a primeira mulher nem os filhos e genros fazerem por isso sentimento algum." (⁴)
A ideia de Anchieta é que esse procedimento não trazia problemas aos indígenas porque a mulher que fosse "dispensada" não se ofendia, e logo arranjava outro marido. E, se vocês, leitores, estão pensando se a prática inversa era também admitida, ou seja, se uma mulher indígena podia abandonar o marido, para viver com outro homem, digo que, de acordo com Anchieta, a resposta é afirmativa, pelo menos entre alguns povos:
"[...] Também elas deixam o marido e tomam outro, como me contaram que fez a principal mulher de Cunhambebe (⁵), que era o principal mais estimado dos tamoios que havia na comarca de Iperoig, do qual tinha já um filho e uma filha casadouros, e com tudo isso o deixou, por ele ter outras, ou pelo que quis, e se casou ou amancebou com outro; e outras fazem o mesmo sem sentimento dos maridos [...]." (⁶)
Admitindo que as informações de Anchieta sejam corretas, é forçoso reconhecer que muitos povos indígenas do Brasil tinham, em suas respectivas culturas, arranjos familiares muito diferentes do modelo que os jesuítas vinham propor. Não é surpreendente, portanto, que os missionários ficassem algo escandalizados com o que viam, um fato que transparece, até com facilidade, em alguns dos escritos que deixaram.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 354.
(2) "Informação dos Casamentos dos Índios do Brasil".
(3) São Paulo.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit. p. 448.
(5) Hans Staden teria muito a dizer sobre esse famoso chefe tamoio.
(6) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit. p. 449.


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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Ensino e catequese no Brasil após a expulsão dos jesuítas no Século XVIII

Os jesuítas vieram inicialmente ao Brasil com Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, em 1549. Desde então passaram a desenvolver a catequese de indígenas e a ensinar filhos de colonos em seus colégios. Sucede que a Companhia de Jesus tornou-se muitíssimo poderosa na América, a ponto de ser acusada de ter intenções de estabelecer, no sul do Continente, um verdadeiro império sob seu controle. No Século XVIII o ideário iluminista, influente até mesmo sobre alguns governantes na Europa (¹), fez com que as suspeitas contra os jesuítas chegassem ao auge, resultando na supressão da Ordem em 1773 (²). A expulsão de Portugal e seus domínios ocorreu antes, em 1759, até porque o Marquês de Pombal, ministro do rei D. José I, não tinha por eles nenhuma simpatia. 
O que aconteceu às missões no Brasil que os jesuítas foram obrigados a abandonar?
Saint-Hilaire, naturalista francês, percorrendo o Rio Grande do Sul um pouco antes da Independência, observou:
"Outrora ensinava-se a ler e a escrever em todas as aldeias, mas essas lições cessaram há muito tempo." (³) 
Referia-se, naturalmente, às aldeias de índios guaranis que haviam sido catequizadas por jesuítas. Deve-se notar que, expulsos os missionários da Companhia, competia ao governo português prover instrução básica à população. Como, porém, notou o próprio Saint-Hilaire, os salários oferecidos aos professores eram muito baixos, disso resultando um desinteresse pelo cargo e, por consequência, muitas povoações deixaram de ter escolas.
Não só o ensino foi abandonado em muitos lugares. A saída dos jesuítas também interrompeu a catequese, ainda que, em alguns casos, religiosos de outras Ordens tenham assumido as missões. Um resultado curioso desse abandono foi registrado no Diário da Expedição que em 1780 saiu para demarcação da América Portuguesa, com a constatação de que havia indígenas semicatequizados que, sem uma doutrinação completa, chegavam, quando interrogados, a expressar uma lista algo sincrética de crenças que, se eram em parte cristãs, eram, também parcialmente, bem pouco ortodoxas. Exemplo? Veja-se o que disse o chefe indígena de uma tribo da região amazônica, que já tinha "alguma luz da doutrina cristã":
"...indagado por alguns princípios da religião que seguiam nas suas terras, respondeu que os bons depois de mortos iam ter muitas mulheres, e os maus iam para uma cova muito funda em que havia muito fogo."

(1) Os chamados "déspotas esclarecidos".
(2) A bula papal, permitindo a restauração da Companhia de Jesus, data de 1814.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 341.


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quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tentativa de suborno

No Século XVI, um índio tentou subornar o padre Luís da Grã para ser o primeiro em sua aldeia a receber o batismo


O Padre Simão de Vasconcelos, jesuíta, registrou em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil um episódio interessante, numa ocasião em que o padre Luís da Grã, provincial da Ordem, foi visitar uma certa aldeia indígena, onde outros religiosos já faziam, há tempos, o trabalho de catequese.
Pois bem, tendo Luís da Grã empreendido a pé a jornada até a aldeia, foi, no caminho, rodeado por indígenas que, com alegria, já o aguardavam, pois que a tão festiva data destinava-se ao batismo dos que, tendo sido doutrinados, eram considerados aptos para o sacramento. Foi exatamente por esse motivo que um dentre os índios, ávido pela honra de ser o primeiro dentre os seus a ser batizado, resolveu obter a tão almejada graça por nada menos que uma tentativa de suborno. Escreveu o padre Simão de Vasconcelos:
"[...] Houve tal que determinou levar a coisa por modo de peita, vindo para isso carregado de cera e um bugio, que oferecia ao padre para que o batizasse entre os primeiros, dando juntamente por causa que era velho, e podia faltar-lhe a vida, e perder a dita daquela água que leva ao lugar do descanso." (¹)
É bem possível que Luís da Grã tenha sorrido interiormente diante do que via... De qualquer modo, segundo o registro de Simão de Vasconcelos, tratou os afoitos indígenas bondosamente, tanto os que, ao vê-lo caminhar queriam transportá-lo em rede, como quem ousava tentar suborno para receber o batismo:
"Abraçou o padre a todos: aos que traziam as redes, disse que os pés dos servos de Deus não cansavam; aos que festejavam, que celebrassem embora as vésperas do dia de sua maior ventura (pelo batismo que ao outro dia haviam de receber); aos que pediam ser dos primeiros, disse que teria lembrança, mas fez-lhes uma prática sobre o presente da cera e bugio, e declarou-lhes a grande pureza dos sacramentos da Lei da Graça [...]." (²)
Depois de gentilmente repelir o suborno, o padre Luís da Grã, que devia crer firmemente que corrupção é pecado, impôs suave penitência ao índio que quisera comprar com cera e bugio a primazia entre os catecúmenos: "Em penitência ordenou ao velho que tornasse carregado e entregasse aquelas coisas a sua mulher e filhos." (³)
Exemplo sábio, que bem poderia ter feito adeptos, não apenas nos tempos coloniais, mas pelos séculos dos séculos.

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 167.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Um professor dedicado

O trabalho de Anchieta como professor de Gramática no Colégio de São Paulo


O Colégio de São Paulo, iniciado por jesuítas em 1554, teve, de acordo com o padre Simão de Vasconcelos (¹), a segunda classe de Gramática que veio a existir no Brasil, uma vez que a primeira já funcionava no Colégio da Bahia. Diz Vasconcelos que as aulas eram frequentadas por "nossos irmãos e bom número de estudantes brancos e mamelucos, que acudiam das vilas vizinhas" (²).
Quem era o professor?
Ninguém menos que o jovem José de Anchieta. Não era ainda o famoso missionário que, depois de longuíssimo processo (³), acabaria canonizado, mas era um professor que mostrava muita dedicação ao ofício e, a crermos no que escreveu o Padre Simão de Vasconcelos, levava seus alunos a bons resultados, em termos de aprendizagem:
"Lia esta classe o Irmão José de Anchieta, ocupação em que perseverou alguns anos, com grande aproveitamento de seus discípulos, e com maior opinião de sua santidade." (⁴)
As condições de trabalho eram, todavia, precárias. Nada que se parecesse com as salas de aula do Reino, ou mesmo do Colégio da Bahia. Nem livros, sequer, havia para os alunos. Mas desistir não era uma possibilidade:
"O trabalho era excessivo; ainda naquele tempo não havia nestas partes cópia de livros, por onde pudessem os discípulos aprender os preceitos da Gramática.
Esta grande falta remediava a caridade de José à custa de seu suor e trabalho, escrevendo por própria mão tantos cadernos dos ditos preceitos, quantos eram os discípulos que ensinava, passando nisto as noites sem dormir, porque os dias ocupava inteiros nas obrigações do ofício; e acontecia não poucas vezes romper a manhã, e achar a José com a pena na mão." (⁵)
Os jesuítas não estavam, portanto, envolvidos apenas com a catequese dos povos indígenas da América. Lidavam também com o ensino dos colonizadores e seus filhos, razão pela qual criavam classes de Gramática. Por certo isso abria as portas para mais ampla divulgação dos valores defendidos por sua Ordem entre as mentes jovens da Colônia, como parte dos métodos adotados dentro da reação católica à Reforma Protestante (chamada Contrarreforma ou Reforma Católica). Porém, independente da opinião que tenhamos em relação à catequese e doutrinação na América, como não apreciar a dedicação de um professor como Anchieta? 

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865.
(2) Ibid., p. 90.
(3) Durou de 1617 a 2014.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Op. cit., p. 90.
(5) Ibid.


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sexta-feira, 20 de março de 2015

A catequese como justificativa para a escravidão no Brasil Colonial

Um argumento recorrente para justificar a escravidão de africanos no Brasil Colonial era de que, vindo à América, os escravizados seriam mais facilmente doutrinados na fé cristã (!!!). Nuno Marques Pereira, autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, obra de grande sucesso no Século XVIII, declarou, sem rodeios:
"E também permite sua divina misericórdia que muitos destes gentios sejam trazidos às terras dos católicos para os ensinarem e doutrinarem, e lhes tirarem os ritos gentílicos, que lá tinham aprendido com seus pais." (¹) 
Essa ideia, hoje, pode parecer absurda - colocava-se em Deus a responsabilidade pela escravidão - mas é fato que foi amplamente empregada, até mesmo por religiosos, e, portanto, não era coisa apenas de escravocratas que queriam acalmar a consciência, até porque os proprietários de escravos não tinham por costume ver algo de errado na apropriação do trabalho de um ser humano por outro. Para eles, escravos eram sua propriedade, e nada mais. 
Era obrigação dos senhores providenciar assistência religiosa para seus escravos, mas a maioria não tomava qualquer atitude nesse sentido. Até mesmo o dever (imposto pela Igreja) de conceder descanso aos escravos nos domingos e feriados religiosos era desconsiderado. Afinal, não havia qualquer fiscalização e, pensava-se, escravos existiam para trabalhar.
No começo do Século XVIII Antonil observou:
"Outros são tão pouco cuidadosos do que pertence à salvação dos seus escravos, que os têm por muito tempo no canavial ou no engenho sem batismo." (²) 
Entende-se que Antonil, ele próprio um jesuíta, escandalizava-se com o pouco caso dos senhores em questões de fé. E acrescentava, recordando aos poderosos que de tudo dariam conta no Juízo Final:
"Dizem os senhores que estes [os escravos] não são capazes de aprender a confessar-se, nem de pedir perdão a Deus, nem de rezar pelas contas, nem de saber os dez mandamentos; tudo por falta de ensino e por não considerarem a conta grande que de tudo isto hão de dar a Deus, pois (como diz São Paulo), sendo cristãos e descuidando-se de seus escravos, se hão com eles pior do que se fossem infiéis." (³)
O tempo evidenciava que o tal argumento da catequese para justificar a escravidão não passava de um embuste, a tal ponto que, já no Século XIX, o padre Ayres de Casal viria a afirmar que, ao contrário do que geralmente se aceitava, a escravidão era, sim, um impedimento à propagação da fé cristã:
"Convém-se que esta gente é um mal moral, um obstáculo ao aumento da população branca, e que enquanto escravos, não podem ser bons cristãos, nem vassalos fiéis." (⁴)
Deixando de lado o quanto o dizer de Ayres de Casal soa preconceituoso a um leitor do Século XXI, vale notar que, em seu tempo, já se levantava o argumento de que a escravidão não era somente um impedimento à religião. Tornava também impossível que a população cativa pudesse servir aos interesses do rei.

(1) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 119.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 25.
(3) Ibid.
(4) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica,  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 60.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Decepções dos jesuítas na catequese de meninos indígenas

Em uma carta escrita em São Vicente, datada de março de 1555, José de Anchieta assinalou, referindo-se ao Colégio de Piratininga:
"Temos uma grande escola de meninos índios, bem instruídos em leitura, escrita e em bons costumes, os quais abominam os usos de seus progenitores. São eles a consolação nossa, bem que seus pais já pareçam mui diferentes nos costumes dos de outras terras; pois que não matam, não comem os inimigos, nem bebem da maneira por que dantes o faziam." (¹)
Os meninos índios, porém, logo cresceram, e lá se foi a "consolação" dos jesuítas - já adolescentes, os catecúmenos não mais queriam saber da rotina do colégio dos padres, e logo iam com seus parentes às práticas que, para os povos indígenas, caracterizavam os verdadeiros homens adultos. É ainda Anchieta quem relata, em uma outra carta, enviada ao Geral Diego Laynez em 1º de julho de 1560:
"Dos moços que falei no princípio foram ensinados não só nos costumes cristãos, cuja vida quanto era mais diferente da de seus pais, tanto maior ocasião dava de louvar a Deus e de receber consolação, não queria fazer menção por não refrescar as chagas, que parecem algum tanto estar curadas; e daqueles direi somente que chegando aos anos da puberdade, começaram a apoderar-se de si, vieram a tanta corrupção, que tanto excedem agora a seus pais em maldade quanto antes em bondade, e com tanta maior sem-vergonha [sic] e desenfreamento se dão às borracheiras e luxúrias, quanto com maior modéstia e obediência se entregavam dantes aos costumes cristãos e divinas instruções. Trabalhamos muito com eles para os reduzir ao caminho direito, nem nos espanta esta mudança, pois vemos que os mesmos cristãos procedem da mesma maneira." (²)
Será bom ressaltar que casos análogos ocorriam em quase todos os lugares nos quais os jesuítas estabeleciam missões, de modo que não será nada difícil imaginar quão frustrante era, para eles, observar que seus esforços resultavam inúteis. Lembrem-se os senhores leitores de que, no Século XVI, não era fácil empreender uma viagem à América, com a certeza quase absoluta de jamais retornar. Se é verdade que a Europa da época não era exatamente o melhor dos mundos, vir ao Continente Americano significava defrontar-se com o desconhecido, sem dispor dos recursos habituais para a sobrevivência. Vale reforçar, ainda, que, independente do que se pense hoje da catequese de indígenas, os jesuítas do Século XVI acreditavam com firmeza no trabalho que faziam e nele empregavam seus melhores esforços, daí porque a "deserção" dos meninos indígenas devia assumir um aspecto em extremo decepcionante. Disso resultou, portanto, uma gradual mudança de postura dos missionários. Se no princípio da catequese a ideia era empregar toda a doçura e caridade cristãs, não demorou para que os padres "jogassem a toalha", de modo que, em carta datada de 16 de abril de 1563, novamente endereçada ao Geral Diego Laynez, já vamos encontrar Anchieta disposto à adoção de práticas coercitivas no trato com os indígenas:
"Parece-nos agora que estão as portas abertas nesta Capitania para a conversão dos gentios, se Deus Nosso Senhor quiser dar maneira com que sejam postos debaixo de jugo, porque para este gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro, na qual mais do que em nenhuma outra é necessário que se cumpra o compelle eos intrare." (³)
A Europa daqueles dias defrontava-se com a Reforma Protestante, com o Concílio de Trento, com a propagação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Ora, se era aceitável queimar hereges no Velho Mundo, por que pareceria estranho ou impróprio forçar os índios à conversão?

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 79.
(2) Ibidp. 156.
(3) Ibid.


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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sobre os padres que vinham ao Brasil no Século XVI

É de Joaquim Manuel de Macedo (¹) uma curiosa afirmação sobre os padres que, no início da colonização, vinham ao Brasil - diz ele que "os padres entraram com o pé esquerdo na Terra de Santa Cruz" (²). E explica:
"Os padres que naquela época foram chegando não deviam ser dos mais recomendáveis, nem pela sua ilustração, nem por uma grande moralidade, porque os donatários, que no Reino recrutavam nas últimas camadas da sociedade a gente de que precisavam para criar os seus estabelecimentos coloniais, por certo que não teriam mui zeloso cuidado na escolha dos clérigos que fizeram vir."
A situação era de tamanha seriedade que, quando em 1549 vieram os primeiros jesuítas, Nóbrega, um deles, ficou horrorizado com o desregramento que notou entre os "padres seculares" que já andavam pela Colônia. Daí o empenho para que ficasse clara a distinção entre os "padres da Companhia" e os outros.
É fato que o número de sacerdotes era reduzido e de modo algum suficiente para atender a todas as povoações. Era, então, perfeitamente possível que alguém passasse quase a vida toda sem qualquer assistência religiosa, em tempos nos quais a Igreja desempenhava um papel preponderante na sociedade e, por conseguinte, nas ideias que povoavam a cabeça de cada colono. Aprovemos ou não, na época a religião podia ser um fator importante de controle social - uma ferramenta valiosa como freio à má conduta dos colonos, em situações nas quais o Estado era, na prática, ausente. Disso decorria a importância de que os padres fossem exemplos de bom comportamento. Não era, porém, o que usualmente ocorria.
Nóbrega tinha a língua afiada e, em carta datada de 1549, que enviou a seus irmãos de Ordem em Portugal, não economizou nas palavras ao descrever os religiosos que encontrou no Brasil:
"Os clérigos desta terra têm mais ofício de demônios que de clérigos, porque, além do seu mau exemplo e costumes, querem contrariar a doutrina de Cristo, e dizem publicamente aos homens que lhes é lícito estar em pecado com suas negras, pois que são suas escravas, e que podem ter os salteados, pois que são cães, e outras coisas semelhantes, por escusar seus pecados e abominações. De maneira que nenhum demônio temos agora que nos persiga senão estes. Querem-nos mal porque lhes somos contrários a seus maus costumes, e não podem sofrer que digamos as missas de graça, em detrimento de seus interesses. Cuido que, se não fora pelo favor que temos do governador e principais da terra, e assim porque Deus não o quer permitir, que nos tiveram já tiradas as vidas. Esperamos que venha o bispo, que proveja isto com temor, pois nós outros não podemos por amor." (³)
Até quanto ao bispo que viesse, tinha Nóbrega as suas restrições, já que, escrevendo ao padre-mestre Simão Rodrigues a respeito do prelado que devia receber a dignidade episcopal (⁴), observou: "Venha para trabalhar e não para ganhar." (⁵)
Disso se conclui que Nóbrega estava em plena consciência quanto à enormidade do trabalho de catequese que desejava empreender. Que, ao menos, não viessem padres de má conduta para atrapalhar!

(1) Todo mundo conhece Joaquim Manuel de Macedo como romancista - o homem que escreveu A Moreninha. Mas poucos sabem que, por formação, era médico, e que atuou como professor de História no Imperial Colégio de Pedro II.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 231.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 311.
(4) Dom Pero Fernandes Sardinha foi o primeiro bispo do Brasil.
(5) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Op. cit., p. 296.


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domingo, 4 de novembro de 2012

Deslizes de alguns membros do clero colonial - Parte 1

Causas da má fama de membros do clero colonial


Independente da opinião que se tenha sobre a catequese de indígenas no Brasil Colonial, não há como negar a dedicação de muitos religiosos que a empreenderam. Alguns chegaram a extremos, em se tratando de autossacrifício, para assegurar o que consideravam ser melhor para seus catecúmenos. Consta que, em alguns casos em que indígenas foram aprisionados para a escravidão, os catequistas imploraram para serem também levados, a fim de que seus recém-convertidos não se vissem sem amparo espiritual.
Assim, como severos cumpridores dos deveres que assumiam e, além disso, estudiosos da língua e costumes dos povos indígenas, alguns desses padres alcançaram notoriedade, a ponto de, sobre eles, ter a devoção popular feito nascer e prosperar uma série de lendas, glorificando suas virtudes e descrevendo fatos que eram considerados milagres.
Vale lembrar também que, quer nascidos no Reino, quer na própria Colônia, vários religiosos podem ser listados entre os que, no Brasil, contribuíram decisivamente para o aparecimento de uma literatura que poderia ser chamada "brasileira". De sermões eruditos a poesia, inclusive com conotação política, a produção literária de membros do clero foi significativa.
No entanto...
No entanto, no Brasil Colonial, a fama dos clérigos estava longe de ser das melhores. A pena nada moderada de Gregório de Matos escreveu:

"O Cura, a quem toca a cura
de curar esta cidade,
cheia a tem de enfermidade
tão moral, que não tem cura:
dizem, que a si só se cura
de uma natural sezão,
que lhe dá na ocasião
de ver as moças no eirado,
com que o Cura é o curado,
e as moças seu cura são."

Fato é que, havendo quem estivesse muito longe de zelar pelos votos que professara, a fama desses acabava contaminando a dos religiosos como um todo, embora, a crermos no que muitos autores da época registraram, não fosse pequeno o número dos clérigos que levavam a vida a escandalizar a população.
Por que isso acontecia?
Há várias razões, dentre as quais vale mencionar que muitos rapazes eram encaminhados para a vida eclesiástica não porque demonstravam vocação para ela, mas por decisão familiar. As famílias importantes economicamente entendiam que era indispensável ter, entre seus membros, um padre, porque isso, naqueles tempos, servia, antes de mais nada, para comprovação da chamada "limpeza de sangue". Seguia-se, pois, que um patriarca simplesmente determinava qual (ou quais) de seus filhos seria(m) sacerdote(s), e a questão se encerrava aí.
Além disso, se um jovem tinha interesse em prosseguir os estudos além do nível das "primeiras letras", seu único caminho talvez fosse ingressar em uma ordem religiosa, já que na Colônia não havia instituições superiores laicas de ensino. Ora, ter interesses acadêmicos não é sinônimo, de nenhum modo, de ter vocação religiosa, daí que, por esse caminho, muita gente seguia, por amor ao conhecimento, o rumo de um estilo de vida que não desejava e que jamais adotaria se tivesse outra opção.
Resta ainda dizer que não era nada fácil aos superiores das ordens religiosas o exercício de um controle eficaz sobre seus subordinados, face à vastidão das terras, virtualmente desconhecidas, do Brasil Colonial. Estava longe de ser coisa simples ter que supervisionar estabelecimentos distantes entre si centenas e até milhares de quilômetros, quando não havia estradas - nem boas e nem más - por onde se pudesse viajar. Se um monge escapulia e metia-se, digamos, a procurar ouro, a chance de encontrá-lo e chamá-lo de volta a seus deveres era ínfima, por mais que o governo português invocasse a ação das autoridades coloniais no sentido de impedir que "frades andarilhos" circulassem livremente pelas áreas mineradoras.


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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Uma ornamentação bem brasileira em altares dos tempos coloniais

É bastante conhecido o fato de que as cores das penas das aves do Brasil encantaram os portugueses desde a chegada da esquadra de Cabral a Porto Seguro. Na carta destinada ao monarca Dom Manuel, Pero Vaz de Caminha relatou que haviam feito a troca, com os indígenas que encontraram, de alguns guizos  por aves coloridas e objetos confeccionados com penas de aves, que seriam todos enviados ao Reino, como amostra das coisas da terra à qual haviam chegado. "Resgataram", diz ele, "por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse."
Nem todo mundo sabe, porém, que as belas penas de aves do Brasil iriam acabar por constituir-se em exótico adorno para altares de igrejas! Ao menos, é o que se depreende do que escreveu Nuno Marques Pereira, no seu célebre Compêndio Narrativo do Peregrino da América, obra extremamente popular no Brasil do Século XVIII. Ao narrar a viagem da Bahia em direção às Minas, o peregrino chega a uma pequena igreja campestre, na qual entra para ouvir missa, não sem antes entabular com o sacerdote mais um de seus extensos diálogos, aliás, uma característica da obra. É na sacristia que observa os adornos para os altares que ora nos interessam:
"Entrei na sacristia, onde achei o sacristão preparando os ornamentos e o mais necessário para se dizer missa. E reparando, vi o grande asseio e alinho com que estava a sacristia tão bem adornada, assim pela limpeza do lavatório, como pela perfeição de um armário, em que estavam cálices e pedras de ara, e mui perfeitos ramalhetes, uns de penas de várias cores e outros de papel, que todos serviam para se porem nos altares nos dias festivos." (*)
É difícil determinar, meus leitores, o quanto o uso de penas e outros artigos próprios do artesanato dos povos indígenas era frequente nos tempos coloniais. Mas, de qualquer modo, a simples menção de seu uso no Peregrino da América nos dá uma pista de que, se é verdade que os missionários cristãos procuraram catequizar os nativos, também é fato que os indígenas, a seu modo, também exerceram uma "catequese", à medida que belas expressões de sua arte acabaram indo decorar nada menos que os altares de uma igreja, quer isoladamente, quer em conjunto com expressões mais convencionais, próprias da religiosidade europeia.

(*) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, pp. 404 e 405.


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domingo, 8 de abril de 2012

A catequese no Período Colonial e a participação dos indígenas nos rituais da Semana Santa

Muito se tem discutido sobre a legitimidade da catequese dos povos indígenas do Brasil Colônia, já que esse processo significou, por vezes, a supressão da maior parte da cultura original, mas, para efeitos desta postagem adotarei, simplesmente, a premissa de que ela ocorreu, o que é fato que não pode ser mudado. Então, nesse quadro, é inegável que, do ponto de vista dos missionários das várias ordens religiosas que empreenderam a catequese, o trabalho era penoso e seus resultados muitas vezes frustrantes, diante do enorme distanciamento entre as culturas que se encontravam (e/ou se chocavam).
Frei Vicente do Salvador, que escreveu na primeira metade do século XVII, relatou um episódio que é, a esse respeito, bastante esclarecedor, que mostra também como ele, um religioso,  interpretava o comportamento dos índios face aos ensinos e às cerimônias da Igreja:
"Só acodem todos com muita vontade nas festas em que há alguma cerimônia, porque são mui amigos de novidades, como dia de São João Batista, por causa das fogueiras e capelas, dia da Comemoração Geral dos defuntos, para ofertarem por eles, dia de Cinza e de Ramos e principalmente pelas Endoenças (¹), para se disciplinarem, porque o têm por valentia, e tanto é isto assim que um principal chamado Iniaoba, e depois de cristão Jorge de Albuquerque, estando ausente na Semana Santa, chegando à aldeia nas Oitavas da Páscoa (²), e dizendo-lhe os outros que se haviam disciplinado grandes e pequenos, se foi ter comigo, que então ali presidia, dizendo "como se havia de haver no mundo que se disciplinassem até os meninos e ele, sendo tão grande valente, como de feito era, ficasse com o seu sangue no corpo sem o derramar", respondi-lhe eu que todas as coisas tinham seu tempo e que nas Endoenças se haviam disciplinado em memória dos açoites que Cristo Senhor Nosso por nós havia padecido, mas que já agora se festejava sua gloriosa ressurreição com alegria, e nem com isto se aquietou, antes me pôs tantas instâncias, dizendo que ficaria desonrado e tido por fraco, que foi necessário dizer-lhe fizesse o que quisesse, com o que logo se foi açoitar rijamente por toda a aldeia, derramando tanto sangue das suas costas quanto os outros estavam, por festa, metendo de vinho nas ilhargas." (³)
Temos aqui, como se vê, um exemplo acabado do que é que resultava desse choque de duas culturas, a cristã-católica dos portugueses e a dos nativos do Brasil. Consideremos mais detalhadamente:
- Os indígenas tinham seu próprio modo de contar o tempo, muito diverso de empregado pelos catequistas europeus e, embora se possa afirmar que, nos dois casos havia um ciclo anual de festividades, para os nativos era estranha a noção de uma data previamente fixada, já que seu cômputo dependia de acontecimentos naturais, como era o amadurecimento de determinados frutos, que não tinha hora marcada para acontecer, ainda que se pudesse esperar para uma determinada época;
- Para os europeus a autoflagelação da liturgia da quinta-feira santa tinha pelo menos dois aspectos, o rememorativo (lembrando a flagelação de Jesus por soldados romanos) e o penitencial; já para os índios, suportar essa tortura autoimposta era prova conclusiva de valentia, de modo que mesmo os meninos queriam disso participar, evidenciando o quanto lhes era estranha a ideia que os padres a custo pretendiam inculcar-lhes;
- Finalmente, resta dizer que o interesse pelas festividades advinha, em parte, de ser essa uma expressão cujo caráter se podia entender, um ponto de contato, se assim se pode chamar, fosse de alegria, luto, solenidade. Malgrado os brilhantes esforços de muitos religiosos no sentido de compreender e estudar os idiomas indígenas, a língua era por certo uma barreira poderosa na comunicação - expressar em outra língua uma realidade desconhecida aos falantes nativos é tarefa das mais árduas, quando chega a ser passível de realização.

(1) Liturgia de Quinta-Feira Santa, quando se relembra a flagelação de Jesus antes da crucifixão.
(2) Domingo seguinte ao domingo de Páscoa.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Os índios pagaram a conta

No Século XVIII, uma provisão do capitão-general Caldeira Pimentel autorizou a escravização de indígenas 


Uma análise do modo pelo qual foi conduzida a escravização de indígenas no Brasil oferece excelente oportunidade para perceber como a(s) ideologia(s) pode(m) ser uma ferramenta perfeita na tentativa de mascarar os verdadeiros propósitos de quem governa.
Era o ano de 1727. Há muito tempo indígenas eram escravizados, a despeito dos protestos de religiosos que pretendiam ampará-los nas chamadas "reduções", aldeamentos liderados por membros do clero nos quais os indígenas catequizados viviam dentro de "valores cristãos", como família monogâmica, estrita disciplina de trabalho, prática frequente de atividades religiosas e muitas vezes sob um regime de horário inspirado no monasticismo. Entretanto, índios assim supostamente pacificados eram as vítimas favoritas de sertanistas que encetavam expedições de apresamento. Mas a questão é que, ao menos formalmente, escravizar índios era ilegal e apenas aceitável quando houvesse confronto armado com os colonizadores portugueses.
Todavia as coisas estavam mudando bem depressa. A exploração aurífera nas Gerais fizera a demanda por escravos disparar, de modo que o preço de um cativo africano tornara-se absolutamente proibitivo para os agricultores de São Paulo. Que fazer? Por meio de uma Provisão Sobre o se Cativar os Índios que Forem Apanhados em Guerra o capitão-general Antônio da Silva Caldeira Pimentel autorizou a captura e escravização de nativos, fazendo uso de uma ginástica argumentativa cujo estudo pode ser instrutivo para a compreensão dos conflitos ideológicos daqueles dias.
Vejamos:

"Sendo o principal intento dos Sereníssimos Reis de Portugal a propagação e aumento da Religião Católica, e o haverem procurado tão vastas e dilatadas conquistas para reduzir ao grêmio da Igreja a inumerável multidão de bárbaros, seus habitantes, e procurando por estes respeitos reduzir ao verdadeiro conhecimento da fé católica aos índios habitantes da América, para o que empregaram há tantos anos o seu zeloso fim povoando os sertões de missionários e soldados, que com instruções católicas mais do que com as armas os reduzem ao verdadeiro conhecimento da salvação das suas almas; tem mostrado a experiência frustrar-se tão santo intento recusando a barbaridade dos mesmos índios não abraçar a luz do Evangelho, mas opondo-se às conquistas e descobrimentos tanto em prejuízo da sua real Coroa e fazenda como da de seus vassalos, por cujo respeito e em atenção da obstinada resistência dos ditos índios, perdas, e danos, e mortes que executam impedindo penetrarem-se os sertões e se fazerem os referidos descobrimentos: Hei por bem declarar segundo as ordens de S. Majestade que todos os moradores desta capitania poderão cativar a todo o gênero de gentio de corso e guerra que, por qualquer modo violento, não querendo reduzir-se à fé, lhes impeçam o livre passo, comércio e comunicação e descobrimento das terras pertencentes às conquistas de sua Real Coroa, ficando os ditos índios legitimamente cativos de justa guerra, podendo os que os cativarem possuí-los por escravos, e como tais ficarem sujeitos ao seu domínio e passarem em administração a seus herdeiros, com declaração de que havendo os ditos herdeiros ou descendentes se conservará neles a dita administração sem que se lhe possam tirar, sendo tão somente obrigados todos aqueles que cativarem os ditos índios a pagar deles o quinto a S. Majestade..." (¹)

De acordo com o Documento:
  • Todo o empenho da monarquia lusitana, ao empreender as viagens de conquista territorial que conhecemos como Grandes Navegações, era fruto do desejo de levar os povos indígenas ao conhecimento da fé católica, reunindo-os à Igreja;
  • Os povos indígenas mostravam-se irredutíveis na questão, a despeito da preocupação do governo português em povoar "os sertões de missionários e soldados" para promover a catequese;
  • Diante disso, ficavam os moradores da Capitania autorizados a escravizar indígenas, tanto para si como para seus herdeiros, apenas com a recomendação de que os quintos reais fossem estritamente pagos.
A que conclusões chegamos, leitor?
Mesmo os mais relapsos estudantes do ensino fundamental seriam capazes de reconhecer que a catequese de nativos pode ter sido, no máximo, um pretexto, nunca o objetivo maior do processo de colonização. Entretanto, o discurso de tom aparentemente conciliador degola-se a si mesmo quando reconhece que a catequese fora feita com missionários e soldados. Entende-se a função dos religiosos, por mais que seja discutível o direito de impor práticas religiosas a quem quer que seja, mas precisamos reconhecer que o documento, da primeira metade do século XVIII, foi escrito em uma época na qual o conceito de liberdade religiosa, como hoje o entendemos, era praticamente desconhecido. Porém é de estranhar-se, no mínimo, essa atribuição de funções catequizadoras aos militares, ainda que em sua fala o capitão-general pareça diminuir o papel das armas na evangelização. Não há nenhuma palavra sobre os frequentes ataques de bandeirantes às reduções, a que os governantes lusos faziam vistas grossas, mesmo porque não seria fato de menção conveniente para os propósitos da argumentação. E, finalmente, o capitão-general escancara a finalidade de sua Provisão: tornar livres os paulistas para escravizar os índios, contanto que paguem os quintos reais. Não assume, por suposto, seu verdadeiro motivo, ou seja, a falta de mão de obra na Capitania em virtude da expansão da atividade mineradora, que encarecia os escravos de origem africana e atraía, com enganosas promessas de enriquecimento rápido e fácil, a população livre masculina de origem europeia. Despovoava-se a capitania de S. Paulo, reduzindo a arrecadação de impostos, um gravíssimo problema para as pretensões de carreira desse governante português. Verifica-se, portanto, o que afirmei no início: a ideologia, nesse caso principalmente de caráter religioso, foi usada, escandalosamente, com o propósito de mascarar razões sabidamente menos nobres.
Na segunda metade do século XVIII a escravização de indígenas foi definitivamente proibida pelo governo português, deixando, porém, marcas acentuadas na sociedade paulista. Mas isso é assunto já bastante discutido por vários historiadores, havendo razoável bibliografia a respeito, com a qual, você, leitor, poderá divertir-se, se tiver interesse mais amplo no assunto.

Algumas etnias indígenas, de acordo com uma publicação do Século XIX (²)

(1) Publicação Official de Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo vol. XXVI Parte 1ª, 1727 - 1728. São Paulo: Archivo do Estado de S. Paulo / Typographia da Industrial de São Paulo, 1898, pp. 32 - 34. O documento foi transcrito  na ortografia atual.
(2) DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837.


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