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quarta-feira, 5 de junho de 2024

O Brasil, depois que Tomé de Sousa voltou a Portugal

                                                                                "Qual homem pode haver tão paciente, 
                                                                                Que, vendo o triste estado da Bahia 
                                                                                Não chore, não suspire e não lamente?"
                                                                                                                   (Gregório de Matos)

Muitos dentre os primeiros colonizadores do Brasil não eram gente de costumes propriamente exemplares, e menos ainda o eram alguns dos clérigos que aportaram em terras portuguesas na América durante o Século XVI (¹). Em uma carta escrita pelo missionário jesuíta Manuel da Nóbrega, tendo Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, como destinatário, pode ser lido este relatório bem pouco edificante:
"E assim está agora a terra nestes termos, que se contarem todas as coisas desta terra, todas acharão cheias de pecados mortais, cheias de adultérios, cheias de fornicações, excessos e abominações em tanto, que [...] escassamente se oferece um ou dois que guardem bem seu estado, ao menos sem pecado público. Pois dos outros pecados que direi, não há paz, mas tudo ódio, murmurações, roubos e rapinas, enganos e mentiras; não há segurança, nem se guarda um só mandamento de Deus, e muito menos os da Igreja." (²) 
A carta foi escrita por Nóbrega em 5 de junho de 1559, depois que Tomé de Sousa, cumprido seu tempo de governo no Brasil, havia retornado a Portugal. Portanto, a ideia seria expor como andavam os colonizadores, em particular na Bahia, onde fora fundada a primeira capital do Brasil. Já estava concluído, também, o segundo governo-geral, de Duarte da Costa, e, quanto ao terceiro, de Mem de Sá, começara há cerca de ano e meio. 
Fica evidente que o padre Manuel da Nóbrega conservava certa amizade com o primeiro governador-geral, e era pessimista, não apenas quanto à religiosidade dos colonizadores, mas até quanto à decência no convívio e ordem pública. Não seria fácil, para nenhum governador, impor regras de conduta a uma população que se via, ao pisar no Brasil, na liberdade decorrente de um vasto território, onde escasso seria o controle que autoridades civis e eclesiásticas poderiam exercer. 

(1) As acusações eram numerosas contra padres que vieram ao Brasil em companhia do primeiro bispo, Pedro Fernandes Sardinha. Eram destinados, não à catequese de indígenas, mas ao atendimento dos colonizadores portugueses.
(2) Citado em: LISBOA, Balthazar da Silva. Anais do Rio de Janeiro, tomo VI. Rio de Janeiro: Seignot-Plancher, 1835, p. 68.


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terça-feira, 31 de julho de 2018

Pero Corrêa - de escravizador de indígenas a missionário jesuíta

Um pequeno grupo de jesuítas foi mandado por Manuel da Nóbrega ao interior, com o propósito de iniciar a catequese de indígenas identificados por Anchieta como "ibirajaras". Estavam também incumbidos da tarefa de achar caminho pelo qual fosse possível chegar às terras de colonização espanhola no Paraguai. Iam, entre eles, Pero Corrêa e João de Sousa, missionários. 
Interessante a história desse Pero Corrêa. Português, viera ao Brasil como colonizador e, como muitos outros, queria prosperar. Não demorou muito e estava envolvido com o apresamento de indígenas para escravização. Em uma carta escrita em São Vicente em 15 de março de 1555, Anchieta observou: "Era um dos principais portugueses que estavam nesta terra e andava em uma nau, por toda a parte, matando índios ou aprisionando-os, parecendo-lhe que fazia um grande serviço a Nosso Senhor [...]." (¹) Que serviço, prestava ele!...
Mas, um dia, tudo mudou. O caçador de índios resolveu mudar de vida e se tornar jesuíta. Novamente de acordo com Anchieta, "logo que a trombeta de Cristo começou a soar pelos da Companhia, foi ele o primeiro que dobrou o colo ao jugo dela; e dizia muitas vezes, e de tal se persuadira, que se queria salvar-se, era mister que todo se desse ao serviço desses índios, até morrer pela alma deles, não achando nenhuma satisfação com que reparasse o mal que lhes havia feito." (²)
É difícil identificar o que poderia ter provocado tão notável emenda. Seria, talvez, sentimento de culpa, medo das penas eternas (conforme se ensinava na época), quem sabe arrependimento sincero? De qualquer modo, admitido como irmão na Companhia de Jesus, logo estava Pero Corrêa mergulhado na catequese de indígenas, ajudado pelo conhecimento que tinha da língua por eles falada. 
Seria até natural, todavia, que os índios, sabendo quem era o sujeito, tivessem medo dele. Não estaria preparando uma armadilha para capturá-los aos milhares? 
Pero Corrêa foi jesuíta durante cinco anos, até ser enviado por Nóbrega, com outros religiosos, na expedição para catequese dos "ibirajaras". Ao que parece, a insistência em que abandonassem a antropofagia soou demasiado irritante para os senhores da terra, que resolveram acabar com o incômodo. João de Sousa foi o primeiro a morrer, sob o efeito das flechadas recebidas. Em seguida, foi a vez de Pero Corrêa. Em outra carta, também de 1555, mas escrita em São Paulo, Anchieta relatou: "O irmão Pero Corrêa, vendo isto [a morte de João de Sousa], lhes começou a falar, e a resposta deles era flechadas [...], até que, não podendo mais sofrê-las, deixou o bordão que trazia e se pôs de joelhos, encomendando sua alma ao Senhor [...]." (³) Infere-se que a notícia da morte dos dois missionários tenha chegado a Nóbrega, Anchieta e aos demais jesuítas por boca dos outros integrantes da expedição, que conseguiram escapar.  

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 81.
(2) Ibid.

terça-feira, 28 de março de 2017

Escravos africanos em lugar de indígenas

A escravidão, no Brasil, foi de indígenas e de africanos. Desumana, em um e outro caso, como só ela pode ser. Os indígenas tinham nos missionários jesuítas valentes defensores, que se opunham à sua escravização. Os cativos de origem africana, não. Por quê?
O padre Antônio Vieira (¹), em uma de suas cartas, escreveu que calvinistas e luteranos eram menos hereges que paulistas, porque "enforcam a quem furta e fazem pagar a quem deve, e a seita pauliniana [sic] tudo isto está devorando sempre sem escrúpulo." (²)
Só é possível compreender perfeitamente o que Vieira queria dizer se duas coisas forem consideradas em relação aos jesuítas que empreendiam a catequese no Brasil: o desgosto em relação à chamada "heresia protestante" e o ódio aos paulistas que escravizavam indígenas. 
Não se deve pensar, entretanto, que a escravização da população nativa era fenômeno restrito a São Paulo. Em um documento atribuído a outro jesuíta, o padre José de Anchieta (³), pode-se ler esta observação, relacionada à Bahia e adjacências:
"[...] Já sabem [os indígenas] por todo o sertão, que somente gente que está nas igrejas, onde os padres residem, tem liberdade, que toda a mais é cativa (...)." (⁴)
Isso acontecia porque os missionários eram audazes em fazer frente aos colonizadores, quando o assunto era a escravização de indígenas ou qualquer outra ação que comprometesse sua catequese; em alguns casos, houve até rebeliões de colonos contra a presença da Companhia de Jesus, ao ponto de serem expulsos os padres, como aconteceu em São Paulo no ano de 1640.
Entretanto, observando o outro lado dessa história, veremos que a posição dos jesuítas em relação aos escravizados africanos e/ou de origem africana era muito diferente. Os próprios missionários tinham escravos a seu serviço, e não viam nada de errado em tal prática. Em uma carta enviada ao rei D. João III em 1551, o padre Manuel da Nóbrega (⁵) foi explícito em pedir escravos para o Colégio da Bahia:
"[...] Mande dar alguns escravos de Guiné à Casa [Colégio da Bahia], para fazerem mantimentos, porque a terra é tão fértil, que facilmente se manterão e vestirão muitos meninos, se tiverem alguns escravos que façam roças de mantimentos e algodoais [...]." (⁶)
Outro exemplo pode ser encontrado na sugestão feita pelo padre Antônio Vieira, tendo em vista a queixa persistente dos moradores do Maranhão, de que a catequese de indígenas resultava em falta de mão de obra para as lavouras:
"[...] Não podem haver ao presente outros meios mais certos e efetivos, que os de meter no dito Estado [do Maranhão] escravos de Angola [...].
[...].
Comprem e remetam ao Maranhão duzentos escravos, que devem ser homens e mulheres em ordem à propagação [sic] [...]." (⁷)
Como explicar a diferença no trato dos jesuítas com indígenas e africanos? Nos dois casos, a resposta está na catequese. Os missionários da Companhia de Jesus queriam os indígenas "livres", para que, reunidos em aldeias sob a vigilância dos padres, fossem submetidos a doutrinação. Entretanto, apoiavam a escravização de africanos porque entendiam que, vindo ao Brasil, estariam ao alcance da catequese. Por isso, houve até quem julgasse que, em última análise,  a escravidão era um benefício que se fazia aos africanos...
Uma ideia de como era feita a doutrinação de escravizados, fossem eles indígenas ou africanos, pode ser obtida por esta descrição, proveniente de outro relato de Anchieta: 
"O método que se adota nestas missões é ensinar e explicar a doutrina cristã aos índios e africanos reunidos em um lugar, batizar, ouvir-lhes as confissões, separá-los das concubinas e sujeitá-los às leis do matrimônio, o que nesta Província é trabalho quotidiano, necessário e utilíssimo à salvação das almas." (⁸)
A que conclusão chegamos, leitores? No que se refere à escravidão de africanos, por séculos houve bem pouca gente que atinasse com sua imoralidade, mesmo dentro de contextos estritamente religiosos. Nos chamados países protestantes, o movimento abolicionista precisou lutar contra quem, com base na Bíblia, defendia a manutenção da ordem escravista. Interessante é que a mesma fonte era citada por quem queria acabar de vez com a escravidão. Não foi diferente onde o catolicismo predominou (⁹), o que vale, certamente, também para o Brasil. 

(1) 1608 - 1697.
(2) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Cartas vol. 2isboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, p. 474.
(3) 1534 - 1597.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de S. J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 378.
(5) 1517 - 1570.
(6) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, pp. 307 e 308.
(7) VIEIRA, Pe. Antônio S. J.  Op. cit. Lisboa Ocidental: Oficina da Congregação do Oratório, 1735, pp. 176 e 177.
(8) ANCHIETA, Pe. Joseph de S. J. Op. cit. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 399.
(9) Para quem tiver interesse no assunto, poderá ser útil correr os olhos por uma obrinha de muita importância, escrita por José Bonifácio de Andrada e Silva, e que tem por título A Abolição.


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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Como morreu o primeiro bispo do Brasil

Intrigas administrativas, antropofagia e escravização de indígenas no palco da colonização no Século XVI


Uma carta escrita pelo jesuíta Manuel da Nóbrega em 1549, cujo destinatário era o padre-mestre Simão Rodrigues, trazia a seguinte observação, com respeito àquele que viesse a ser indicado para o cargo de primeiro bispo do Brasil: "Venha para trabalhar e não para ganhar." (¹) Alguns anos depois, o mesmo Nóbrega, em carta ao cardeal infante Dom Henrique, ainda diria: "Certifico a Vossa Alteza que nesta terra, mais que em nenhuma outra, não poderá um governador e um bispo, e outras pessoas públicas, contentar a Deus Nosso Senhor e aos homens, e o mais certo sinal de não contentar a Nosso Senhor é contentar a todos, por estar o mal mui introduzido na terra por costume." (²)
D. Pedro (ou Pero) Fernandes Sardinha foi o escolhido para primeiro bispo do Brasil. Autores de seu tempo descreveram-no como homem virtuoso e atento às questões pertinentes à Igreja no território colonial, o que não impediu (ou até favoreceu) que entrasse em atrito com o governador-geral Duarte da Costa, cujo filho era tido pelo bispo como um péssimo exemplo para os habitantes da Bahia. O resultado da contenda foi que D. Pedro Fernandes Sardinha deixou a função que ocupava e se preparou para voltar ao Reino, a fim de prestar contas dos entreveros com o governador. O que aconteceu em seguida contribuiu para tornar este bispo tristemente famoso. Gabriel Soares, autor do Século XVI, escreveu:
"Aqui se perdeu o bispo do Brasil Dom Pedro Fernandes Sardinha com sua nau vinda da Bahia para Lisboa, em a qual vinha Antônio Cardoso de Barros, provedor-mor, que fora do Brasil, e dois cônegos e duas mulheres honradas e casadas, muitos homens nobres e outra muita gente, que seriam mais de cem pessoas brancas, afora escravos, a qual escapou toda deste naufrágio, mas não do gentio caeté, que neste tempo senhoreava esta costa da boca deste rio de São Francisco até o da Paraíba. Depois que estes caetés roubaram este bispo e toda esta gente de quanto salvaram, os despiram e amarraram a bom recado, e pouco a pouco os foram matando e comendo, sem escapar mais que dois índios da Bahia com um português que sabia a língua, filho do meirinho da correição." (³)
Mais conciso e mais virulento, o jesuíta Simão de Vasconcelos assim registrou o caso um século mais tarde, em suas Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil:
"Em uma enseada, junto a este rio [São Francisco], alguns anos depois sucedeu o triste desastre do naufrágio do bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, primeiro do Brasil, que dando nela à costa, foi cativo dos índios caetés, cruéis e desumanos, que conforme o rito de sua gentilidade, sacrificaram à gula e fizeram pasto de seus ventres, não somente aquele santo varão, mas também a cento e tantas pessoas, gente de conta, a mais dela nobre, que lhe faziam companhia voltando ao Reino de Portugal." (⁴)
É verdade, leitores. Dom Pedro Fernandes Sardinha e seu ilustre séquito foram vítimas de antropofagia em julho de 1556. É difícil saber o quanto andavam más as relações entre colonizadores e caetés anteriormente ao naufrágio, já que os registros da época, à exceção dos feitos por missionários, tendem a generalizar as características dos povos indígenas, atribuindo a eles toda a responsabilidade quando se declarava uma situação de confronto. Sabemos, porém, que, alguns anos mais tarde, sendo Mem de Sá o governador-geral, determinou-se que todos os "gentios do Caeté" deviam, como castigo, ser escravizados, independente de quem estivesse ou não envolvido na morte do bispo e de seus companheiros de viagem. Uma informação atribuída a José de Anchieta mostra que, afinal, a ordem do governador foi vista como uma licença para matar e escravizar todos os indígenas que fossem encontrados, de tal maneira que um massacre (o de Dom Pedro Fernandes Sardinha) foi seguido de outro ainda maior:
"Neste [...] ano de 1562, estando todos os índios com muita paz e quietação em suas igrejas, e fazendo-se muito fruto nas almas, quis o governador Mem de Sá castigar os índios do Caeté [...], por terem morto o bispo Dom Pedro Fernandes, e outra muita gente que desta Bahia partiu para o Reino em uma nau [...], pronunciou o dito governador sentença contra o dito gentio do Caeté, que fossem escravos onde quer que fossem achados sem fazer exceção nenhuma, nem advertir no mal que podia vir à terra.
[...] Nas igrejas dos padres (⁵) havia muito gentio que procedia daquele, mas criados e nascidos nesta parte da Bahia, que não viram e nem foram em tais mortes, mas como o demônio sabia que era esta a melhor invenção que podia haver para destruir o que estava feito e impedir que não fosse por diante a conversão do gentio, ajudou-se do desejo que os portugueses tinham de haver escravos, tanto que em breves dias se despovoou toda a terra [...]." (⁶)
Abreviando a história: quando os indígenas compreenderam o que estava acontecendo, trataram de fugir com suas famílias para o sertão. Quem esperaria outra coisa?
O governador ainda tentou consertar o erro, mas sem muito resultado: 
"Vendo o governador quão mal isto saíra, e quantos males e pecados daqui resultaram, que pagavam os inocentes pelos culpados, e que a terra se destruíra em tão pouco espaço de tempo, revogou a sentença dos caetés, mas a tempo que já não havia remédio, porque como os homens andavam já tão metidos no saltear dos índios, como ainda agora hoje em dia se vê [...], usavam outra manha não menos perigosa, onde os índios se iam esconder para fugir deles, e faziam com eles que se vendessem uns aos outros, dizendo que eram caetés [...]." (⁷)
Vejam, leitores, que a morte do bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha ocorreu em 1556, e foi somente uns seis anos mais tarde que o novo governador-geral resolveu punir os responsáveis. Não se trata, aqui, de defender a antropofagia - isto está fora de questão - mas, como duvidar de que, tanto tempo depois, o suposto castigo aos caetés não passasse de um reles subterfúgio, de uma tentativa de aplicar um verniz de legalidade para o apresamento e escravização de indígenas? 

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 296.
(2) Ibid., p. 313.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, pp. 37 e 38.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 52 e 53.
(5) Referência aos missionários da Companhia de Jesus.
(6) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 355.
(7) Ibid., p. 356.


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sexta-feira, 15 de julho de 2016

A escassez de mão de obra qualificada no Brasil Colonial

As primeiras povoações de colonizadores no Brasil começaram em meio a grandes dificuldades, embora seja verdade que, enquanto não houve tentativas de escravizá-los, indígenas mostraram-se muitas vezes amistosos, ajudaram espontaneamente no trabalho e atuaram como guias quanto ao uso de madeiras, frutos, e mesmo quanto a técnicas de caça e pesca, vitais para a sobrevivência em uma terra ainda desconhecida.
Não era fácil, porém, derrubar árvores (¹), construir casas, limpar uma área para lavoura. Algumas estimativas apontam para um tempo mínimo de dois anos para que uma povoação fosse completamente estabelecida, ao menos com o que havia de mais indispensável para os padrões da época. Existia, ainda, uma dificuldade adicional: eram raros, entre os colonizadores, os chamados "oficiais mecânicos", trabalhadores qualificados que pudessem comandar e supervisionar as tarefas. Para começar a Cidade da Bahia (Salvador), por exemplo, fundada por Tomé de Sousa para ser a primeira capital, vieram muitos funcionários públicos, soldados, alguns religiosos, uns tantos condenados a degredo, mas eram tão poucos os que sabiam ofícios que, segundo Varnhagen, foi necessário baixar um regulamento dispensando os oficiais mecânicos de alguns impostos pelo prazo de cinco anos, a fim de estimular sua vinda ao Brasil. A lista dos profissionais incluía "carpinteiros, calafates, tanoeiros, ferreiros, serralheiros, besteiros, pedreiros, cavouqueiros, serradores ou oleiros" (²), gente indispensável, já se vê, para as construções que a cidade precisaria ter e para a confecção de armas e utensílios necessários à sua defesa.
A necessidade de pessoas qualificadas para o trabalho não passou despercebida ao padre Manuel da Nóbrega, que liderava o primeiro grupo de jesuítas que veio ao Brasil em companhia de Tomé de Sousa. Escrevendo ao padre-mestre Simão Rodrigues em agosto de 1549, observou: 
"É necessário Vossa Reverendíssima mandar oficiais, e hão de vir já com a paga, porque cá diz o governador, que ainda que venha alvará de Sua Alteza para nos dar o necessário, que não o haverá para isto. Os oficiais que cá estão têm muito que fazer [...]. Portanto me parece que haviam de vir de lá [de Portugal], e se possível fosse com suas mulheres e filhos, e alguns que façam taipas, e carpinteiros. [...].
Serão cá muito necessárias pessoas que teçam algodão, que cá há muito, e outros oficiais." (³)
O tempo ficou encarregado de mostrar aos missionários jesuítas que melhor seria para eles que tivessem seus próprios oficiais mecânicos, independente de ajuda do governador-geral. Sendo grande a necessidade, alguns membros da Ordem exerceram ofícios - Simão de Vasconcelos menciona um religioso chamado Mateus Nogueira, que era ferreiro (⁴) - mas, à medida que a Companhia de Jesus prosperava no Brasil, passou a ter escravos que faziam o trabalho. Preocupados em que os escravos fossem casados segundo as leis da Igreja, os jesuítas compravam também escravas, que exerciam ofícios considerados femininos. Seguimos com o relato, de 1585, que é atribuído a Anchieta:
"Quanto aos escravos [...] também são oficiais de vários ofícios, como pedreiros, carpinteiros, ferreiros, carreiros, boieiros e alfaiates, e é necessário comprar-lhes mulheres por não viverem em mau estado e para este efeito na roça têm a dita povoação com suas mulheres e filhos, as quais também servem para plantar e fazer os mantimentos, lavar a roupa, anilar e serem costureiras, etc." (⁵)
Cabe ainda dizer que, se o clero entendeu que era mais fácil treinar cativos para os ofícios, por caminho semelhante andaram os laicos, até porque a ideia era duplamente lucrativa: escravos que tinham uma profissão trabalhavam em oficinas e a renda ia para as mãos dos senhores; o preço de mercado de um escravo que sabia um ofício mecânico era alto, face à escassez de mão de obra qualificada. A Nobiliarchia Paulistana menciona que, no Século XVII, Lourenço Castanho Taques foi proprietário de oficinas nas quais trabalhavam escravos:
"A sua casa era de numerosa escravatura, com lugar destinado para o lavor das oficinas, em que trabalhavam os mestres e oficiais de vários ofícios, seus escravos, de que percebia os lucros dos salários que ganhavam." 
É provável que esses escravizados fossem indígenas, já que essa era a regra em São Paulo nos tempos coloniais. Quanto aos salários, nem precisava dizer...
Há, ainda na Nobiliarchia, uma menção a outro paulista, João Pires das Neves, que também tinha oficinas:
"A sua fazenda era um como arraial pelas casas que tinha com numerosa escravatura de pretos e mulatos, e estes oficiais de artes fabris e mecânicas, os quais trajavam calçados."
João Pires das Neves faleceu em 1720. Distinguiu-se na São Paulo colonial, não porque seus escravos tivessem ofícios, que, como percebem os leitores, não era um fato incomum, mas por ter escravos de origem africana, numa localidade em que imperava a escravização de indígenas, e por permitir que seus escravos andassem calçados, contrariando uma tradição que vinha da Roma Antiga.

(1) Não havia motosserras, é claro; machados e serras manuais demandavam grande esforço físico. Sabe-se que, para os indígenas, cujas ferramentas eram apenas de madeira ou pedra, os machados e serras metálicos pareciam muito atraentes e eram alvo frequente para trocas com europeus.
(2) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 1, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 252.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, pp. 297 e 298.
(4) Ibid., vol. 1, pp. 176 e 177.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 415.


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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Viviam todos em pecado mortal

Ao vir ao Brasil para estabelecer a primeira povoação com status de cidade, Tomé de Sousa, o governador-geral, trouxe consigo alguns jesuítas, dos quais se esperava tanto a catequese de indígenas quanto a assistência religiosa aos portugueses que, por uma ou outra razão, haviam saído do Reino e agora viviam na América. Manuel da Nóbrega liderava o grupo de jesuítas - os outros eram Leonardo Nunes, João de Aspilcueta Navarro, Antônio Pires, Vicente Rodrigues e Diogo Jacome.
Nóbrega, ao que parece, não ficou nada satisfeito com o que viu na terra, não quanto aos indígenas, nem quanto às boas disposições do governador para com sua Ordem, mas no que tocava à conduta dos colonos em geral. Temos a certeza de suas opiniões porque tudo explicou em uma carta, escrita pouco depois de sua chegada em 1549, e cujo destinatário era o Provincial da Companhia de Jesus em Portugal, padre Simão Rodrigues:
"Espero em Nosso Senhor fazer-se fruto, posto que a gente da terra vive toda em pecado mortal. E não há nenhum que deixe de ter muitas negras (¹), das quais estão cheios de filhos e é grande mal. Nenhum deles se vem confessar, ainda queira Nosso Senhor que o façam depois." (²)
O que talvez Nóbrega ainda não soubesse é que seu confronto com portugueses que viviam no Brasil estava apenas começando. Em São Vicente a coisa ganhou um estereótipo na figura de João Ramalho com seus muitos filhos mamelucos, que, não aceitando reprimendas dos padres, eram acusados de, sem nenhuma compostura, proferirem ameaças contra os religiosos. Estes, por sua vez, julgando que não deixavam por menos, teriam advertido que chamariam a Inquisição. Resposta? Que viesse o Santo Ofício, pois seria corrido do planalto à custa de umas boas flechadas...
Julgando que os casamentos com mulheres indígenas decorriam da falta de europeias, Nóbrega insistia com o governo português quanto ao envio de órfãs que viessem para casar no Brasil. Deixando de lado, por agora, a questão dessas pobres meninas que se viam obrigadas a contrair casamento em uma terra distante e com pessoas que desconheciam completamente, sabe-se que, de fato, o pedido algumas vezes foi atendido, provando-se, assim, que não era solução para nada. Não poucos homens em terras coloniais eram casados segundo as leis da Igreja e, a despeito disso, tinham vasta prole com suas escravas, fossem elas indígenas ou africanas.
No entanto, talvez seja possível dizer alguma coisa em defesa dos colonos. Vejamos:
  • Alguns deles eram condenados ao degredo que vinham cumprir pena no Brasil - quem é que haveria de esperar que as terras da América fossem um reformatório conveniente para quem já não tinha boa conduta no Reino?
  • Os colonos que estavam de livre vontade no Brasil haviam saído de um país pequenino, no qual as restrições, legal e socialmente impostas, podiam sofrer um controle relativamente fácil, enquanto que o enorme território colonial era visto como um convite à mais ampla liberdade, para bem e/ou para mal;
  • Mesmo que um colono fosse homem muito religioso, a assistência que poderia obter era bastante limitada, já que, pela época da chegada de Nóbrega, eram pouquíssimos os padres que viviam no Brasil, de modo que ir às missas e comparecer à confissão eram práticas que simplesmente não estavam disponíveis;
  • Não muito tempo depois de pisar em terras do Brasil, Nóbrega acabaria descobrindo que mesmo os poucos padres que viviam entre os colonos andavam longe uma vida exemplar, segundo as normas da Igreja - como esperar perfeição da gente do povo que, como regra, tinha pouca instrução religiosa e que, tendo vindo à América com a expectativa enriquecer o mais rápido possível, não tinha muita preocupação ética quanto aos meios que, para tanto, fossem empregados?
Digo aos leitores deste blog que o elenco de argumentos em favor dos colonos poderia ser bem maior, embora não tenha nenhuma intenção de justificar sua má conduta, em particular no trato desumano para com a população nativa, ainda que isso tenha se repetido, com crueldade crescente, em quase todo o Continente Americano, sob as mais diversas bandeiras de colonização. Será bom recordar, apenas, que de toda essa situação colonial, e do mais que ocorreu depois, é que se formou o Brasil que hoje existe, com suas virtudes (muitas) e seus defeitos (não poucos, como se sabe).

(1) Refere-se, provavelmente, a portugueses que viviam com mulheres indígenas, e não africanas, já que era comum no Século XVI, e mesmo um pouco mais tarde, que europeus residentes no Brasil mencionassem como negros tanto os indígenas como os escravizados trazidos da África. 
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 290.


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sexta-feira, 31 de julho de 2015

O uso da música na catequese empreendida por jesuítas no Brasil Colonial

Para os jesuítas que em meados do Século XVI trocaram as aparentes certezas da Europa pelo desconhecido da América, no rumo da missão que se atribuíam de catequizar os "gentios", ou seja, os povos indígenas, logo surgiu a questão de qual seria o método de maior eficácia, tanto para uma primeira aproximação como para o estabelecimento de um sistema regular de doutrinação entre os nativos. Algum tempo de experiência mostrou aos missionários que um poderoso recurso era a música, pela qual os indígenas eram apaixonados. Desse modo, nas escolas estabelecidas por jesuítas nas aldeias (¹) era usual que, ao lado de ler, escrever e contar, fossem ministradas lições de música, tão importantes, naquele contexto, quanto as de doutrina cristã.
O Padre Anchieta é bem conhecido por sua habilidade em pôr os ensinos em versos simples, que podiam ser facilmente memorizados, quer por filhos dos colonos, quer por meninos indígenas, ou ainda por catecúmenos já adultos. Consta ser ele mesmo o autor desta informação:
"No princípio do ano de 1578 veio por governador Lourenço da Veiga, o qual por si mesmo visitou as aldeias da doutrina que estão a cargo dos padres, com muito gosto e lágrimas de devoção, vendo as doutrinas, procissões, disciplinas e comunhões dos índios e as missas oficiadas em canto de órgão, em flautas, pelos filhos dos mesmos índios." (²)
E ainda o mesmo Anchieta, tratando da catequese de meninos que se empreendia em certa aldeia, observou:
"Em uma delas lhes ensinam a cantar e têm seu coro de canto e flautas para suas festas [...]." (³)
Segundo o Padre Simão de Vasconcelos, cujos escritos datam da segunda metade do Século XVII (⁴), foi o Padre Manuel da Nóbrega quem teve a ideia de fazer uso da música como recurso de catequese:
"Nenhuma outra satisfaz tanto a esta gente, como a doçura do canto: nela põem a felicidade humana. Chegou a ser opinião de Nóbrega que era um dos meios com que podia converter-se a gentilidade do Brasil, a doce harmonia do canto; e por esta causa ordenou se lho pusessem em solfa as orações e documentos mais necessários de nossa santa fé; porque à volta da suavidade do canto entrasse em suas almas a inteligência das coisas do céu." (⁵)
Para que ajudassem na catequese que se empreendia na recentemente fundada São Paulo de Piratininga, Nóbrega teria mandado que viessem meninos de São Vicente, já destros na arte de cantar:
"Para mais fácil catecismo de tanta gente, ordenou o Padre Nóbrega que viessem da vila de São Vicente aqueles meninos filhos de índios que [...] tinham ali criado os padres em seminário de boa doutrina, e sabiam já ler, escrever e cantar muitos deles: foram estes de grande ajuda a toda a sua gente, continuando na nova aldeia sua escola e ajudando a beneficiar os ofícios sagrados em canto de órgão com destreza e instrumentos músicos [...]. Juntavam-se à noite a cantar pelas casas cantigas de Deus em sua própria língua, contrapostas às que eles costumavam cantar, vãs e gentílicas [sic] [...]." (⁶)
E acrescentaria, quanto ao gosto que indígenas demonstravam pela música:
"São afeiçoadíssimos à música, e os que são escolhidos para cantores da igreja prezam-se muito do ofício, e gastam os dias e as noites em aprender e ensinar outros. Saem destros em todos os instrumentos músicos [...], com eles beneficiam em canto de órgão Vésperas, Completas, Missas, Procissões, tão solenes como entre os portugueses." (⁷)
Com algum esforço da imaginação, quase podemos ver e ouvir os missionários e seus pequenos discípulos cantando e tocando pelas aldeias. A favor dos jesuítas deve-se notar que, se ensinavam português aos índios, punham, simultaneamente, todo o empenho em aprender a língua dos nativos, fixando-lhe a gramática e nela fazendo escrever e publicar um catecismo.

(1) Quase sempre aldeamentos forçados pelas autoridades coloniais, como condição para a paz com os povos nativos do Brasil.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 305.
(3) Ibid., p. 416.
(4) Cerca de um século mais tarde, portanto.
(5) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 71.
(6) Ibid., pp. 91 e 92.
(7) Ibid., p. 120.


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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Roupas para as índias

Se houve um fato que deixou estarrecidos os europeus que, em fins do Século XV e início do XVI chegaram à América do Sul, este sem dúvida foi o de que a população nativa não tinha, quase toda ela, o hábito de usar roupas. Na Carta de Caminha lemos, logo na descrição dos primeiros humanos avistados que eram "pardos, nus e sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas". Mais adiante, voltaria a afirmar: "Andam nus, sem cobertura alguma".
Pois bem, mais chocante era, ainda, para os valentes navegadores, que também as índias não usavam vestir-se, e Caminha não deixou de observar que não tinham elas nenhum constrangimento "de as nós muito bem olharmos"
Senhor Caminha!...
Ao escrivão da esquadra de Cabral ocorreu lembrar ao rei D. Manuel que, "a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior"; mas faz uma ressalva: "quanto ao pudor". Não queria, naturalmente, ser acusado de heresia quanto às crenças correntes, relativas ao pecado original.
Durante a celebração da segunda missa na Terra de Santa Cruz vários indígenas, motivados pela curiosidade, vieram presenciar o que faziam os portugueses. Dentre eles, relatou Caminha, "uma [...] moça, que esteve sempre à missa, à qual deram um pano para que se cobrisse e puseram-no em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir." Vê-se que, para ela, aquilo não fazia o menor sentido. Falo da roupa que lhe queriam impor, claro. Quanto à missa, é difícil julgar se podia apreender seu significado como um ritual de caráter religioso, até por não entender palavra alguma do que era dito (¹).
Cinquenta anos mais tarde a obsessão por vestir as índias prevalecia, ao menos entre os religiosos. O padre Manuel da Nóbrega, jesuíta que veio ao Brasil com o primeiro governador-geral Tomé de Sousa, em carta escrita na Bahia no dia 9 de agosto de 1549, destinada ao padre-mestre Simão Rodrigues, pedia-lhe que empreendesse uma verdadeira campanha no Reino entre senhoras devotas, com o objetivo de conseguir a doação de peças de vestuário com que pudessem cobrir as índias que aos domingos vinham à missa:
"Também peça Vossa Reverendíssima algum peditório para roupa, para entretanto cobrirmos estes novos convertidos, ao menos uma camisa a cada mulher pela honestidade da Religião Cristã, porque vêm todas a esta cidade à missa aos domingos e festas, que faz muita devoção, e vêm rezando as orações que lhes ensinamos, e não parece honesto estarem nuas entre os cristãos na igreja, e quando as ensinamos. E disto peço ao padre mestre João tome cuidado por ele ser parte na conversão destes gentios, e não fique senhora nem parenta a que não importune para coisa tão santa, e a isto se haviam de aplicar todas as restituições que lá se houvessem de fazer, e isto agora somente no começo, que eles farão algodões para se vestirem ao diante." (²)
Não se enganava o padre Nóbrega: por todo o Período Colonial, e mesmo mais tarde, a roupa da gente pobre da terra, fosse para o trabalho quotidiano, fosse para dias de festa ou para ouvir missa aos domingos, seria confeccionada com o algodão rústico que se podia tecer no Brasil.

(1) Da missa, em si, só pelo costume é que os rústicos marujos deviam, também, entender alguma coisa, já que era oficiada em latim. A pregação de frei Henrique de Coimbra, após a comunhão, foi, certamente, em português.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 298.


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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sobre os padres que vinham ao Brasil no Século XVI

É de Joaquim Manuel de Macedo (¹) uma curiosa afirmação sobre os padres que, no início da colonização, vinham ao Brasil - diz ele que "os padres entraram com o pé esquerdo na Terra de Santa Cruz" (²). E explica:
"Os padres que naquela época foram chegando não deviam ser dos mais recomendáveis, nem pela sua ilustração, nem por uma grande moralidade, porque os donatários, que no Reino recrutavam nas últimas camadas da sociedade a gente de que precisavam para criar os seus estabelecimentos coloniais, por certo que não teriam mui zeloso cuidado na escolha dos clérigos que fizeram vir."
A situação era de tamanha seriedade que, quando em 1549 vieram os primeiros jesuítas, Nóbrega, um deles, ficou horrorizado com o desregramento que notou entre os "padres seculares" que já andavam pela Colônia. Daí o empenho para que ficasse clara a distinção entre os "padres da Companhia" e os outros.
É fato que o número de sacerdotes era reduzido e de modo algum suficiente para atender a todas as povoações. Era, então, perfeitamente possível que alguém passasse quase a vida toda sem qualquer assistência religiosa, em tempos nos quais a Igreja desempenhava um papel preponderante na sociedade e, por conseguinte, nas ideias que povoavam a cabeça de cada colono. Aprovemos ou não, na época a religião podia ser um fator importante de controle social - uma ferramenta valiosa como freio à má conduta dos colonos, em situações nas quais o Estado era, na prática, ausente. Disso decorria a importância de que os padres fossem exemplos de bom comportamento. Não era, porém, o que usualmente ocorria.
Nóbrega tinha a língua afiada e, em carta datada de 1549, que enviou a seus irmãos de Ordem em Portugal, não economizou nas palavras ao descrever os religiosos que encontrou no Brasil:
"Os clérigos desta terra têm mais ofício de demônios que de clérigos, porque, além do seu mau exemplo e costumes, querem contrariar a doutrina de Cristo, e dizem publicamente aos homens que lhes é lícito estar em pecado com suas negras, pois que são suas escravas, e que podem ter os salteados, pois que são cães, e outras coisas semelhantes, por escusar seus pecados e abominações. De maneira que nenhum demônio temos agora que nos persiga senão estes. Querem-nos mal porque lhes somos contrários a seus maus costumes, e não podem sofrer que digamos as missas de graça, em detrimento de seus interesses. Cuido que, se não fora pelo favor que temos do governador e principais da terra, e assim porque Deus não o quer permitir, que nos tiveram já tiradas as vidas. Esperamos que venha o bispo, que proveja isto com temor, pois nós outros não podemos por amor." (³)
Até quanto ao bispo que viesse, tinha Nóbrega as suas restrições, já que, escrevendo ao padre-mestre Simão Rodrigues a respeito do prelado que devia receber a dignidade episcopal (⁴), observou: "Venha para trabalhar e não para ganhar." (⁵)
Disso se conclui que Nóbrega estava em plena consciência quanto à enormidade do trabalho de catequese que desejava empreender. Que, ao menos, não viessem padres de má conduta para atrapalhar!

(1) Todo mundo conhece Joaquim Manuel de Macedo como romancista - o homem que escreveu A Moreninha. Mas poucos sabem que, por formação, era médico, e que atuou como professor de História no Imperial Colégio de Pedro II.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 231.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 311.
(4) Dom Pero Fernandes Sardinha foi o primeiro bispo do Brasil.
(5) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Op. cit., p. 296.


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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Como os jesuítas ensinavam aos indígenas a doutrina da Trindade

O Padre Manuel da Nóbrega, jesuíta que veio ao Brasil com Tomé de Sousa em 1549, era, apesar de jovem, já experiente em doutrinar, no Reino, a gente que não dava muita importância aos assuntos religiosos. Na Colônia, porém, enfrentaria dificuldades bem diferentes daquelas às quais estava habituado.
Como poderiam comunicar-se os jesuítas com os indígenas que pretendiam catequizar, se não lhes conheciam o idioma? Logo veriam, também, que não estariam lidando com uma única e homogênea cultura indígena - os povos indígenas eram diferentes e numerosos, como eram também diversos o idioma e a cultura. Assim, tratou-se de aprender a língua predominantemente falada no litoral, buscando meios de tornar inteligíveis os ensinos que julgavam ser seu dever transmitir.
Em uma carta dirigida a seus irmãos jesuítas em Portugal, o Padre Manuel da Nóbrega escreveu, a propósito dos indígenas que tentava doutrinar:
"Têm mui poucos vocábulos para lhes poder bem declarar nossa fé. Mas contudo damos-lha a entender o melhor que podemos, e algumas coisas lhes declaramos por rodeios. Estão mui apegados com as coisas sensuais. Muitas vezes me perguntam se Deus tem cabeça e corpo, e mulher; e se come, e de que se veste, e outras coisas semelhantes." (¹)
Ora, meus leitores, já podemos aqui traçar ao menos duas reflexões: ou os padres não tinham suficiente compreensão da língua e cultura dos povos indígenas para explicar o que pretendiam, ou a cultura indígena era muito diferente da dos portugueses e outros europeus no que tange a questões religiosas, daí a dificuldade de encontrar um meio de expressão conveniente para conceitos, por vezes, bastante abstratos.
Creio, senhores leitores, que as duas coisas, de fato, aconteciam.
O jesuíta Belchior de Pontes usava uma
vela 
para ensinar aos índios a
doutrina da Trindade
Como exemplo, tomemos o caso das tentativas que se faziam para explicar aos índios a Doutrina da Trindade. A noção da existência de um Deus-Pai e de um Deus-Filho não era assim tão difícil; entretanto, parecia aos padres quase impossível aclarar o conceito da existência do Espírito Santo. Anchieta, outro missionário jesuíta, relatou em uma carta ao Geral Diego Laynez, datada de 16 de abril de 1563, ao falar da catequese de um índio muito idoso:
"Dando-lhe pois a primeira lição de ser um só Deus Todo-Poderoso, que criou todas as coisas, etc., logo se lhe imprimiu na memória, dizendo que lhe rogava muitas vezes que criasse os mantimentos para a sustentação de todos, mas que pensava que os trovões eram este Deus; porém agora que sabia haver outro Deus verdadeiro sobre todas as coisas, que a ele rogaria chamando-o Deus Pai e Deus Filho; porque dos nomes da Santa Trindade este dois somente pôde tomar, pela razão de que se podem dizer em sua língua; mas o Espírito Santo, para o qual nunca achamos vocábulo próprio, nem circunlóquio bastante, ainda que o não sabia nomear, sabia-o contudo crer como nós lhe dizíamos." (²)
No entanto, um padre, também jesuíta, mas nascido no Brasil no Século XVII, acabaria encontrando uma curiosa e didática solução para o problema. Conta Manuel da Fonseca, outro jesuíta, tratando do modo pelo qual o padre Belchior de Pontes procedia à catequese dos índios na povoação de São Paulo de Piratininga:
"Ajuntava-os em uma praça junto à Igreja da Misericórdia, e postos em fileiras se metia entre eles. Tomava nas mãos uma vela acesa, e com ela lhes declarava o altíssimo Mistério da Santíssima Trindade, explicando como era Deus Trino em Pessoas, e um na essência, porque assim como se notam na vela três coisas, as quais, ainda que são entre si tão distintas, que uma não é outra, constituem um só composto, assim também se notam naquele incompreensível mistério, e que tanto supera a capacidade humana, três Pessoas distintas, e um só Deus." (³)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 304.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 190.
(3) FONSECA, Manoel da S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, pp. 113 e 114 (Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo).


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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

As boas ações praticadas pelos condenados ao degredo no Brasil

Pero Vaz de Caminha, após o relato da segunda missa celebrada na "Terra de Santa Cruz", recomendava que, numa próxima viagem que se fizesse ao Brasil, viesse um padre para batizar índios, supondo que haveria conversos, em razão dos dois condenados ao degredo que ficavam na terra:
"Se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degradados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram."
A crer, entretanto, nos relatos feitos ao longo dos séculos da colonização, não era exatamente por obra de degradados que deveriam os portugueses esperar conversões entre os indígenas.
Nada disso - a maioria dos condenados ao degredo, uma vez no Brasil, mantinha a mesma prática de "boas ações" que os levara à condenação no Reino, de modo que não poucos religiosos, fatigados por seu mau exemplo, imploravam às autoridades que não mais permitissem a vinda desse tipo de gente.
O Padre Manuel da Nóbrega, dos primeiros jesuítas que vieram ao Brasil com Tomé de Sousa, era da opinião de que sentenciados ao degredo somente viessem se condenados, simultaneamente, a trabalhos forçados na Colônia:
"...certo é mal empregada esta terra em degradados, que cá fazem muito mal; e já que cá viessem, havia de ser para andarem aferrolhados nas obras de Sua Alteza." (¹)
Neste caso, o problema devia ser tão evidente, que Nóbrega escreveu o trecho acima em uma carta datada de agosto de 1549, ou seja, pouco depois de ter chegado ao Brasil.
Sobre um desses degradados, observou o Padre Simão de Vasconcelos, também jesuíta:
"Eram mais ilustres que ele seus vícios, cometidos assim em Portugal, como no Brasil: malfeitor, arrogante, soberbo, desbocado, sem temor de Deus nem dos homens, em cabo desalmado." (²)
Que lista de virtudes!
A que conclusão chegamos?
A ideia das autoridades do Reino era que, ao enviar condenados ao degredo, mais rapidamente fosse povoada a Colônia (uma prova, afinal, de que, livremente, poucos viriam); dava-se, ao mesmo tempo, uma oportunidade aos condenados para que endireitassem a vida. Parece, no entanto, que o resultado estava longe disso, se levarmos em conta o testemunho dos padres, segundo o qual o maior obstáculo à catequese eram os colonos europeus e, entre eles, claro, os famosos degradados.
 
(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 291.
(2) Ibid., pp. 52 e 53.


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segunda-feira, 30 de junho de 2014

O padre Manuel da Nóbrega tinha dificuldade para falar

Nos primeiros tempos da catequese empreendida por jesuítas no Brasil o líder era o Padre Manuel da Nóbrega. Embora Anchieta tenha, posteriormente, se destacado, vale lembrar que este, ao vir ao Brasil, era ainda um jovenzinho inexperiente, enquanto Nóbrega era um religioso de elevada reputação, tanto pela severidade dos costumes como pelo zelo missionário. Não obstante, é a Anchieta que se deve, em grande parte, o que sabemos sobre a obra de Manuel da Nóbrega no Brasil, pois era ele, desde noviço, quem em geral escrevia, tanto cartas como outros registros.
Assim, sabemos, por exemplo, que o Padre Manuel da Nóbrega tinha muita dificuldade para falar, o que resultava em longas missas; além disso, como não compreendia bem o falar dos povos indígenas, precisava de um intérprete para ouvir confissões (!):
"Dizia sempre missa e como era muito gago, gastava de ordinário nela uma hora e ali se lhe comunicava muito Nosso Senhor. Era mui solícito no rezar do Ofício Divino, no qual usava sempre do companheiro pelo mesmo impedimento da língua; mas não bastava isso para deixar o ofício da pregação, o qual exercitava visitando as povoações dos portugueses a miúdo, ouvindo juntamente suas confissões e remediando a todos; e as de suas mulheres, filhos, escravos e índios livres ouvia por intérprete, enquanto os Irmãos línguas não eram sacerdotes." (¹)
Deve-se esclarecer que "irmãos línguas" eram religiosos que ainda não haviam recebido a ordenação sacerdotal, mas que conheciam bem a língua dos indígenas e, por isso, atuavam como intérpretes. Aliás, era usual, naqueles tempos, em meio ao falar diário do Português, chamar "língua" a qualquer um que atuasse como intérprete, independente do idioma. Isto se explica em outro trecho, da mesma memória sobre Nóbrega:
"Como os Padres sacerdotes não sabiam a língua da terra, serviam os Irmãos de intérpretes para as doutrinas e pregações e confissões, ainda dos mestiços, mulheres e filhos dos portugueses, principalmente nas confissões gerais, para melhor se darem a entender e ficarem satisfeitos." (²)
Concluímos, pois, com uma constatação que o trecho acima nos permite: se as mulheres (índias ou mamelucas) e seus filhos com portugueses não falavam Português, é porque em casa deviam falar apenas a língua indígena. Ora, como se sabe, foi assim mesmo em São Paulo, até ir bem adiantado o Século XVIII.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 476.
(2) Ibid., p. 478.


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domingo, 2 de março de 2014

A criatividade dos jesuítas para preservar valores religiosos no Brasil Colonial

É proverbial o relaxamento dos costumes, no que tange à religião (¹), que andava em vigor no Brasil Colonial. Para combater essa situação, os padres enviados para a catequese de nativos e para assistência espiritual aos que vinham da Europa precisavam exercitar, como veremos, uma certa criatividade.
Em carta escrita em Piratininga e datada de 1554, Anchieta explicava o método de que se fazia uso na Capitania do Espírito Santo para evitar que fossem proferidos juramentos irrefletidos ou que se pronunciasse o nome de Deus sem o devido cuidado:
"Para que os homens se dissuadissem dos juramentos, estabeleceu-se uma como confraria de caridade; os que a ela se filiarem, se quando jurarem, a si mesmos se acusarem, pagam uma determinada quantia de dinheiro para o casamento de alguma órfã (²); acusados, porém, por outros, pagam o dobro; assim, raramente se pronuncia o nome de Deus com irreverência [...]." (³)
Ideia interessante, essa...
Singular ideia, no entanto, foi a que teve o Padre Manuel da Nóbrega, já cansado de repreender um padre que não levava a sério seu voto de castidade - é ainda Anchieta quem relata, ao traçar a biografia do Padre Nóbrega:
"Tendo avisado por vezes a um clérigo escandaloso, como se não emendasse, sabendo o Padre estar com a ocasião do seu pecado (⁴), se foi à porta da casa, gritando a grandes vozes que acudisse gente, que estavam ali crucificando a Cristo. Acudiu gente e ficaram tão espantados os dois pecadores que se apartaram e cessou o escândalo." (⁵)
Ora, senhores leitores, tentem imaginar a situação! Chega a ser espantoso que, como diz Anchieta, cessasse o escândalo?

(1) E não somente à religião.
(2) Ou seja, para que se constituísse um dote que permitisse a uma órfã casar-se, já que naqueles tempos, e muito além, nenhuma mulher que não dispusesse de um dote razoável conseguia contrair matrimônio.
(3) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 37.
(4) Interessante eufemismo.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Op. cit., p. 471.


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