Mostrando postagens com marcador Carta de Pero Vaz de Caminha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carta de Pero Vaz de Caminha. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de maio de 2020

A falta de água em viagens marítimas

A falta de água potável em navios nos séculos XV e XVI estava entre os maiores pesadelos dos marinheiros. Afinal, era água e mais água ao redor, mas os sedentos marujos não podiam nem pensar em bebê-la, porque era salgada. 
Assim, facilmente se explica por que razão, a cada oportunidade, iam todos os navegantes "fazer aguada", ou seja, abastecer os tonéis de água, ainda que, no momento, não houvesse falta. Na Carta de Caminha, relata-se que, mesmo antes que alguém fosse mandado a terra e que, desse modo, se fizesse o descobrimento oficial do Brasil, procurou-se um lugar favorável para aportar em busca de água e lenha, reconhecendo o escrivão que, naquele momento, não tinham escassez dessas coisas: "Fomos ao longo da costa [...], para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso onde ficássemos, para tomar água e lenha, não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui". Navegantes experientes, os portugueses sabiam que, diante de tanta e tão boa água, valia a pena abastecer os navios, pelo risco de não terem como fazê-lo mais tarde, quando prosseguissem no rumo das Índias.
Se estavam em alto mar e faltava água, só havia uma coisa que os marinheiros podiam fazer, e era suplicar aos céus por chuva. Quando ela vinha, os navegadores usavam recolher cada gota, do melhor modo que podiam. Um método era estender lençóis no convés e, cessando a chuva, torcê-los, para recolher o líquido. Segundo Jean de Léry, foi esse o procedimento adotado quando fazia a viagem de regresso à França em 1558, porque no navio estava disponível, diariamente, apenas um copo pequeno de água imunda para cada um. A sede era tanta que até mesmo a água que escorria pelo convés era recolhida e sofregamente ingerida, ainda que muito suja. Bernal Díaz del Castillo, um soldado que se tornou famoso ao escrever sobre a chamada "conquista do México" por Hernán Cortés, da qual participou, fez o registro de experiência similar. "Digo que tanta sede passamos", afirmou (¹), "que na língua e na boca, tão secas, tínhamos rachaduras, pois nada havia para refrigério" (²).
Situação análoga foi provada pelos homens que, com Pedro Sarmiento de Gamboa, contornaram a Patagônia e, no rumo da costa da África, chegaram à Europa (³). O relatório da viagem diz que, em certo dia, já em direção aos arquipélagos perto da África, "[...] às dez da noite caiu um grande aguaceiro, do qual se tomou alguma água, o que foi grande consolo, porque o calor era excessivo e pouca a água que tínhamos, já bastante racionada" (⁴).
Quando, afinal, chegaram ao arquipélago de Cabo Verde, a população local apenas se convenceu quanto à veracidade da viagem que diziam ter feito em razão do péssimo aspecto que tinham os marinheiros, com cabelo e barba que não viam a ação de tesoura ou navalha há muito tempo. Mas Pedro Sarmiento, ao dar conta do sucedido, concluiu: "[...] vínhamos mais cobiçosos de água que de parecer lindos" (⁵).

(1) Bernal Díaz del Castillo foi um soldado espanhol que participou da expedição de Cortés. Escreveu a obra muitos anos depois, já em idade avançada.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Entre 1579 e 1580. 
(4) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viage al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 314. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid., p. 343.


terça-feira, 17 de julho de 2018

Como marinheiros sabiam que estavam perto de terra

Embarcação chegando a terra; marinheiros nem
sempre sabiam exatamente onde estavam (¹)

Quando modernos instrumentos náuticos não estavam ainda disponíveis e os mapas eram precários, marinheiros tinham alguns métodos, desenvolvidos com a experiência, para saber se estavam perto de alguma terra. Um deles era fazer sucessivas medições da profundidade do oceano, entendendo que, se as medidas iam se tornando cada vez menores, é porque logo alcançariam ilha ou continente. Vegetais boiando e mesmo a observação de aves que, sabidamente, formavam colônias, também eram vistos como indícios animadores. Foi Pero Vaz de Caminha quem escreveu: "Assim seguimos nosso caminho por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, topamos alguns sinais de terra [...], os quais eram muita quantidade de umas ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E na quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos."
A marujada tinha razão. Em 22 de abril, topariam com terra, muita terra. Mas eles ainda não sabiam que era tanta assim, e Cabral, que comandava o grupo de navios portugueses, iria chamá-la Ilha de Vera Cruz. Atribuir topônimos, nesse tempo, era quase um ritual religioso, de onde se compreende o nome dado ao lugar. Mas não era só.
Olhem para o céu austral, leitores, e vocês verão, lá em cima, o Cruzeiro do Sul (²). Se quiserem saber a localização dos pontos cardeais, basta medir quatro vezes e meia o braço maior da constelação, a partir da Estrela de Magalhães (na base da cruz), e terão a localização aproximada do Sul. Fica fácil, a partir daí, determinar Norte, Leste e Oeste. Em noite limpa, o Cruzeiro do Sul evitava a navegação a esmo, ainda que uma bússola não estivesse disponível. Era, para os marinheiros, a contrapartida, no Hemisfério Sul, daquilo que a Estrela Polar representava no Hemisfério Norte. 
Entretanto, há no Hemisfério Sul outro grupo de estrelas em forma de cruz: é a Falsa Cruz. Um navegador inexperiente, crendo que se orientava pelo Cruzeiro do Sul, podia muito bem arranjar problemas, caso se guiasse pela Falsa Cruz. Agora, leitores vocês já entendem a razão do primeiro nome atribuído ao Brasil, a terra da verdadeira (ou "vera") cruz. Lembrem-se disso, quando virem no céu a famosa constelação.

(1) ARTHUS, M. Gotthart, OTTSEN, Heinrich et alii.  Warhafftige Beschreibung der unglückhafften Schiffarht eines Schiffs von Ambsterdam. Frankfurt am Main: Wolff Richtern, 1604. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Ou Crux.


Veja também:

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O consumo de palmito por navegadores, náufragos e colonizadores do Brasil

Os portugueses que vieram ao Brasil na esquadra comandada por Cabral já estavam familiarizados com o uso do palmito como alimento. Como podemos ter certeza disso? É simples, há duas referências na Carta do Achamento, escrita por Pero Vaz de Caminha. Na primeira delas, lemos:
"Ao longo dele [um pequeno rio] há muitas palmeiras e não muito altas, e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles."
A segunda guarda alguma semelhança com a primeira, mas trata de uma ocasião posterior:
"Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por esse arvoredo até um ribeiro grande e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto, tamanho, tão vasto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos."
Como os leitores podem ver, as palavras de Caminha demonstram que ele já sabia o que é que havia dentro das palmeiras e apreciava o sabor - falaria duas vezes em "bons palmitos" se não gostasse deles?
Nas décadas subsequentes, quando naufrágios na costa do Brasil não eram eventos incomuns, a existência de palmeiras (e, portanto, de palmitos) era importante na alimentação de sobreviventes. Hans Staden, que esteve no litoral sul do Brasil no Século XVI em companhia de navegadores espanhóis, relatou que, procurando alguma coisa para comer, derrubaram uma palmeira para extrair dela o palmito. Isso prova que também entre eles o palmito era bem conhecido. Bandeirantes que iam ao sertão nos Séculos XVII e XVIII eram consumidores habituais de palmito. Entravam na mata e, com a ajuda de indígenas, tratavam de localizar as palmeiras adequadas. Náufragos e bandeirantes procuravam palmito por uma questão de sobrevivência, não como uma especialidade gastronômica. 
Apesar disso, entre os viajantes europeus que vieram à América do Sul no Século XIX, alguns davam mostras de que experimentavam palmito pela primeira vez. Foi o caso do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire. Ao percorrer terras do atual Estado do Rio Grande do Sul e do Uruguai pouco antes da independência do Brasil, observou:
"Esta manhã, o tenente da guarda de Angostura me fez comer cru o novo gomo de uma de suas palmeiras; o gosto me fez lembrar o da castanha crua, mas é infinitamente mais delicado."
A percepção do sabor é algo bastante individual, não há dúvida, mas acho discutível comparar o palmito à castanha crua - o que pensam os leitores? Não obstante, ao descrever o sabor como delicado, parece que Saint-Hilaire dava a ele sua aprovação. 
À parte disso, cabe registrar que, há séculos, palmeiras adultas vêm sendo cortadas apenas para extração do palmito. Não surpreende, portanto, que, com tanto desperdício, haja variedades ameaçadas de extinção.


Veja também:

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Crianças indígenas (na visão dos colonizadores)

Colonização e catequese trouxeram mudanças significativas ao modo como viviam os povos indígenas da América. Estrutura familiar, práticas de sociabilidade e valores foram afetados, de modo que, em não poucos casos, fica difícil saber quais eram os costumes originais, até porque quase tudo o que conhecemos sobre os ameríndios, com os quais europeus travaram contato desde fins do Século XV e ao longo do Século XVI, vem de relatos dos próprios colonizadores, que expunham em seus escritos o modo como interpretavam o que viam, e não necessariamente aquilo que, de fato, acontecia.
A mais antiga referência conhecida a uma criança nativa do Brasil está na Carta do "Achamento", escrita por Pero Vaz de Caminha, que, como se sabe, integrava a expedição comandada por Pedro Álvares Cabral, expedição essa que, ao menos oficialmente, era destinada às Índias, onde se esperava que estabelecesse vínculos comerciais mais fortes que os alcançados pela esquadra de Vasco da Gama. Após pisar em terra e travar contato com indígenas, Caminha observou: "Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum."
Embora a imagem seja de quase cento e cinquenta anos após o Descobrimento, o que Caminha deve ter visto seria mais ou menos o que encontramos na Figura 1, que aparece em Historia naturalis Brasiliae, publicada na Holanda em 1648 (¹); uma imagem alternativa, na qual o bebê indígena é mostrado dentro de um cesto, pode ser encontrada em Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien, de Nieuhof, publicação também holandesa, datada de 1682 (²), conforme a Figura 2:


Como já disse, não podemos ter certeza absoluta de que tudo o que diziam os colonizadores e missionários estava correto, mas, se dermos crédito ao que escreveram ao longo do Século XVI, os meninos e meninas indígenas deviam ser muito mais felizes que as crianças europeias da mesma idade, submetidas, tradicionalmente, a uma educação severa, tanto por parte dos pais quanto dos professores. Segundo Gabriel Soares, os tupinambás eram bastante gentis no trato com seus filhos:
"Não dão os tupinambás a seus filhos nenhum castigo, nem os doutrinam, nem os repreendem por coisa que façam; aos machos ensinam-nos a atirar com arcos e flechas ao alvo, e depois aos pássaros, e trazem-nos sempre às costas até a idade de sete e oito anos, e o mesmo às fêmeas; e uns e outros mamam na mãe até que torna a parir outra vez, pelo que mamam muitas vezes seis e sete anos; às fêmeas ensinam as mães a enfeitar-se, como fazem as portuguesas, e a fiar algodão, e a fazer o mais serviço de suas casas conforme é seu costume." (³)
Sem ilusões, leitores: a educação, salvo raríssimas exceções, tende a reproduzir na geração mais jovem aquilo que a geração adulta considera certo ou errado. Qualquer coisa fora disso escaparia, com absoluta certeza, à regra que encontramos, sob inúmeras versões, por todo este planeta. Mas vamos adiante, com as impressões do missionário jesuíta Fernão Cardim, contemporâneo de Gabriel Soares:
"Os pais [indígenas] não têm coisa que mais amem que os filhos [...]; nenhum gênero de castigo têm para os filhos, nem há pai nem mãe que em toda a vida castigue nem toque em filho [...]; em pequenos são obedientíssimos a seus pais e mães, e todos muito amáveis e aprazíveis: têm muitos jogos a seu modo, que fazem com muito mais festa e alegria que os meninos portugueses; nestes jogos arremedam vários pássaros, cobras e outros animais, etc.; os jogos são mui graciosos e desenfadiços, nem há entre eles desavença, nem queixumes, pelejas, nem se ouvem pulhas ou nomes ruins e desonestos [...]." (⁴) Sim, leitores, caberiam aqui uns quantos pontos de exclamação!!!
Não há como saber se tudo era assim, ou se Soares e Cardim exageravam. Cabe muito bem a observação, todavia, de que, como jesuíta que era, Fernão Cardim estava habituado a viver entre os índios, e devia saber do que falava. Assumindo, portanto, em linhas gerais, a veracidade de seu relato, teríamos um bom motivo para concordar com os que diziam que na América estava o verdadeiro paraíso terrestre - não em todos os aspectos, claro, mas quanto ao comportamento das crianças.

(1) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 270.
(2) NIEUHOF, Johan. Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien. Amsterdam: de Weduwe van Jacob van Meurs, 1682, p. 224.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 314.
(4) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 40 e 41.


Veja também:

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Roupas para as índias

Se houve um fato que deixou estarrecidos os europeus que, em fins do Século XV e início do XVI chegaram à América do Sul, este sem dúvida foi o de que a população nativa não tinha, quase toda ela, o hábito de usar roupas. Na Carta de Caminha lemos, logo na descrição dos primeiros humanos avistados que eram "pardos, nus e sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas". Mais adiante, voltaria a afirmar: "Andam nus, sem cobertura alguma".
Pois bem, mais chocante era, ainda, para os valentes navegadores, que também as índias não usavam vestir-se, e Caminha não deixou de observar que não tinham elas nenhum constrangimento "de as nós muito bem olharmos"
Senhor Caminha!...
Ao escrivão da esquadra de Cabral ocorreu lembrar ao rei D. Manuel que, "a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior"; mas faz uma ressalva: "quanto ao pudor". Não queria, naturalmente, ser acusado de heresia quanto às crenças correntes, relativas ao pecado original.
Durante a celebração da segunda missa na Terra de Santa Cruz vários indígenas, motivados pela curiosidade, vieram presenciar o que faziam os portugueses. Dentre eles, relatou Caminha, "uma [...] moça, que esteve sempre à missa, à qual deram um pano para que se cobrisse e puseram-no em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir." Vê-se que, para ela, aquilo não fazia o menor sentido. Falo da roupa que lhe queriam impor, claro. Quanto à missa, é difícil julgar se podia apreender seu significado como um ritual de caráter religioso, até por não entender palavra alguma do que era dito (¹).
Cinquenta anos mais tarde a obsessão por vestir as índias prevalecia, ao menos entre os religiosos. O padre Manuel da Nóbrega, jesuíta que veio ao Brasil com o primeiro governador-geral Tomé de Sousa, em carta escrita na Bahia no dia 9 de agosto de 1549, destinada ao padre-mestre Simão Rodrigues, pedia-lhe que empreendesse uma verdadeira campanha no Reino entre senhoras devotas, com o objetivo de conseguir a doação de peças de vestuário com que pudessem cobrir as índias que aos domingos vinham à missa:
"Também peça Vossa Reverendíssima algum peditório para roupa, para entretanto cobrirmos estes novos convertidos, ao menos uma camisa a cada mulher pela honestidade da Religião Cristã, porque vêm todas a esta cidade à missa aos domingos e festas, que faz muita devoção, e vêm rezando as orações que lhes ensinamos, e não parece honesto estarem nuas entre os cristãos na igreja, e quando as ensinamos. E disto peço ao padre mestre João tome cuidado por ele ser parte na conversão destes gentios, e não fique senhora nem parenta a que não importune para coisa tão santa, e a isto se haviam de aplicar todas as restituições que lá se houvessem de fazer, e isto agora somente no começo, que eles farão algodões para se vestirem ao diante." (²)
Não se enganava o padre Nóbrega: por todo o Período Colonial, e mesmo mais tarde, a roupa da gente pobre da terra, fosse para o trabalho quotidiano, fosse para dias de festa ou para ouvir missa aos domingos, seria confeccionada com o algodão rústico que se podia tecer no Brasil.

(1) Da missa, em si, só pelo costume é que os rústicos marujos deviam, também, entender alguma coisa, já que era oficiada em latim. A pregação de frei Henrique de Coimbra, após a comunhão, foi, certamente, em português.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 298.


Veja também:

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O primeiro contato entre portugueses e indígenas, sob a ótica de Pero Vaz de Caminha

Um modo muito proveitoso de estudar o que aconteceu em um tempo diferente daquele em que vivemos é a comparação de escritos da época, nos quais são expressos diferentes pontos de vista. Sobre a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500 e os primeiros contatos entre europeus e indígenas, porém, não podemos, infelizmente, realizar esse tipo de estudo. A razão para isso é que os nativos do Brasil não usavam nenhum sistema de escrita e, portanto, não deixaram documentos que pudéssemos comparar, por exemplo, à Carta de Pero Vaz de Caminha. Aliás, de acordo com Caminha, foi assim que, pela primeira vez, os portugueses viram ameríndios:
"E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte. Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel."
Veio, em seguida, o primeiro contato "oficial":
"E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos, e eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio."
Quebrando o mar na costa ou não, Nicolau Coelho e sua gente não teriam mesmo qualquer "entendimento que aproveitasse", já que ninguém conhecia o falar dos indígenas. Outra coisa que salta aos olhos é que a aproximação não foi assim tão próxima, uma vez que Nicolau Coelho arremessou o barrete, a carapuça e o sombreiro, e o mesmo fez o ameríndio com o cocar de penas. Ora, arremessar é atirar a alguma distância... Devia haver temor de ambas as partes.
Mais tarde, com a ajuda forçada dos dois condenados a degredo que vinham com Cabral (e que ficaram no Brasil), portugueses e índios chegaram a ganhar maior confiança. Jovens da terra foram à embarcação onde estava Cabral, experimentaram a comida dos navegadores e até dormiram. Sabe-se que, nas duas missas relatadas por Caminha, indígenas estavam entre a assistência.
É verdade que Caminha também relatou a existência de um índio que se opunha à aproximação, mas parece, ao menos dessa vez, ter sido um caso isolado:
"Andava lá um que falava muito aos outros que se afastassem (¹), mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que assim os andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e contas pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, era mais vermelho."
Como terá sido a despedida? Sabe-se que os dois condenados ficaram em terra contra a vontade, extremamente chorosos, receando nunca mais voltar a Portugal (²). Terão os navegadores acenado, quem sabe com lenços, à medida que as embarcações se afastavam rumo ao alto mar? Teriam os índios tentado acompanhar com os olhos, até que a última nau desapareceu?
Não sabemos. Se ao menos tivéssemos um relato indígena...


***

Ainda sobre o Descobrimento, muitos anos depois, por obra de um cartunista, na edição de 1º de maio de 1921, Ano VIII, nº 159, da revista paulistana A Cigarra:


Diz a legenda:
Pedro Álvares Cabral - Então que é isso? Ainda se encontram nesse estado?
O Cacique-guaçu - Não estranhe: nós somos nacionalistas.

(1) Provavelmente o gestual é que deve ter levado Caminha a concluir que o índio pintado de vermelho queria afastar os demais do contato com os navegadores.
(2) Há relatos que dizem que um deles, pelo menos, chegou a voltar ao Reino.


Veja também:

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

As boas ações praticadas pelos condenados ao degredo no Brasil

Pero Vaz de Caminha, após o relato da segunda missa celebrada na "Terra de Santa Cruz", recomendava que, numa próxima viagem que se fizesse ao Brasil, viesse um padre para batizar índios, supondo que haveria conversos, em razão dos dois condenados ao degredo que ficavam na terra:
"Se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degradados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram."
A crer, entretanto, nos relatos feitos ao longo dos séculos da colonização, não era exatamente por obra de degradados que deveriam os portugueses esperar conversões entre os indígenas.
Nada disso - a maioria dos condenados ao degredo, uma vez no Brasil, mantinha a mesma prática de "boas ações" que os levara à condenação no Reino, de modo que não poucos religiosos, fatigados por seu mau exemplo, imploravam às autoridades que não mais permitissem a vinda desse tipo de gente.
O Padre Manuel da Nóbrega, dos primeiros jesuítas que vieram ao Brasil com Tomé de Sousa, era da opinião de que sentenciados ao degredo somente viessem se condenados, simultaneamente, a trabalhos forçados na Colônia:
"...certo é mal empregada esta terra em degradados, que cá fazem muito mal; e já que cá viessem, havia de ser para andarem aferrolhados nas obras de Sua Alteza." (¹)
Neste caso, o problema devia ser tão evidente, que Nóbrega escreveu o trecho acima em uma carta datada de agosto de 1549, ou seja, pouco depois de ter chegado ao Brasil.
Sobre um desses degradados, observou o Padre Simão de Vasconcelos, também jesuíta:
"Eram mais ilustres que ele seus vícios, cometidos assim em Portugal, como no Brasil: malfeitor, arrogante, soberbo, desbocado, sem temor de Deus nem dos homens, em cabo desalmado." (²)
Que lista de virtudes!
A que conclusão chegamos?
A ideia das autoridades do Reino era que, ao enviar condenados ao degredo, mais rapidamente fosse povoada a Colônia (uma prova, afinal, de que, livremente, poucos viriam); dava-se, ao mesmo tempo, uma oportunidade aos condenados para que endireitassem a vida. Parece, no entanto, que o resultado estava longe disso, se levarmos em conta o testemunho dos padres, segundo o qual o maior obstáculo à catequese eram os colonos europeus e, entre eles, claro, os famosos degradados.
 
(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 291.
(2) Ibid., pp. 52 e 53.


Veja também:

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A reação dos índios a animais desconhecidos

Os primeiros cavalos trazidos por espanhóis à América causaram não pouco espanto entre os povos ameríndios, habituados a animais muito menores. Entende-se, inclusive, que o uso de cavalos em combate foi, para os espanhóis, uma vantagem decisiva na chamada "conquista da América", ao lado do emprego de armas de fogo.
Parece, no entanto, que as coisas transcorreram com mais suavidade quando da chegada da esquadra de Cabral ao Brasil. A Carta escrita por Pero Vaz de Caminha trata explicitamente da reação de jovens índios aos animais que vinham na embarcação do comandante:
"Mostraram-lhes um papagaio pardo que o capitão traz consigo. Tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali."
Como se os houvesse ali... Papagaios? Sim, mas não pardos. Verdes, vermelhos, amarelos, azuis. Multicoloridos, enfim. Vê-se, pois, que papagaios, ou melhor, psitaciformes em geral, independente da coloração das penas, jamais seriam um problema para o relacionamento com os portugueses.
Vamos em frente. A seguir, ainda de acordo com Caminha, foi-lhes apresentado um animal maior, um carneiro:
"Mostraram-lhes um carneiro, mas não fizeram caso dele."
Não havia carneiros no Continente Americano. Ainda assim, o exemplar mostrado, ao menos nessa ocasião, não chegou a ser uma grande surpresa, pelo que se pode inferir. O bicho devia ser pacífico e não era, nem de longe, grande como um cavalo. Não assustava, portanto.
Porém... Logo foi apresentado um outro ser vivo, capaz de gelar o sangue dos rapazes ameríndios:
"Mostraram-lhes uma galinha, mas quase tiveram medo dela e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados."
Para concluir, fica aqui a resposta a uma pergunta que deve andar pela cabeça de alguns dos leitores, e que deixo subentendida: carneiros e galinhas viajavam na esquadra de Cabral (e em muitas outras) como comida ambulante. Era isso que faziam na embarcação, razão pela qual foram devidamente apresentados aos habitantes do Brasil.


Veja também:

quinta-feira, 27 de março de 2014

O primeiro português que (oficialmente) pisou em terra do Brasil

Não, senhores leitores, não foi Pedro Álvares Cabral o primeiro português que pisou em terra do Brasil. O comandante da esquadra lusa era bastante esperto para não correr riscos desnecessários, que pudessem, em última instância, trazer algum dano à sua gloriosa pessoa. Tinha, também, toda a autoridade para mandar alguém em seu lugar.
E o escolhido foi...
Segundo a carta escrita por Pero Vaz de Caminha, o eleito para a tarefa de ser o primeiro português a desembarcar, oficialmente, em solo brasileiro, atendia pelo nome de Nicolau Coelho. Deixemos falar Caminha:
"O capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens, aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte."
Esse Nicolau Coelho deve ter passado uns maus instantes. Os indígenas que o viram chegar foram em sua direção já com flechas a postos em seus arcos, para alguma eventual emergência. No entanto, Nicolau Coelho lhes fez sinal para que abaixassem as armas, e - ufa! - foi atendido.

Armas indígenas, de acordo com Debret (*)

(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


Veja também:

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Brasil

Ramo de pau-brasil

Segundo assinalado por Pero Vaz de Caminha, o nome atribuído inicialmente às terras "encontradas" por sua esquadra na América foi o de "Terra de Vera Cruz" ou "Ilha de Vera Cruz", conforme dois trechos de sua Carta a D. Manuel, dois quais um deles é este:
"Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, primeiramente de um grande monte mui alto e redondo, e de outras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o Capitão pôs nome "o Monte Pascoal" e à terra "a terra da Vera Cruz".
E aqui, o outro, já na conclusão do relato:
"Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500."
De passagem, observemos que essa ambiguidade na denominação, primeiro "Terra", depois "Ilha", reforça o fato de que os portugueses, assim como os demais navegantes da época, tinham ainda grande dificuldade em saber onde, exatamente, estavam. Em linhas gerais, pode-se dizer que eram capazes, com alguma imprecisão, é verdade, de determinarem a latitude; a longitude, porém, ainda levaria muito tempo para ser corretamente registrada.
Prossigamos.
Seja lá ilha ou terra, o nome inicial, de "Vera Cruz", logo foi substituído por "Santa Cruz", para, não muito mais tarde, tornar-se Brasil, bem a contragosto dos religiosos, como já veremos.
Em 1504, quando Fernando de Noronha recebeu a então chamada Ilha de São João, ainda se usava o nome de Terra de Santa Cruz, como se vê da correspondente Carta de Doação:
"A quantos esta nossa carta virem fazemos saber que havendo-nos respeito aos serviços que Fernando de Noronha, cavaleiro de nossa casa nos tem feito e esperamos ao diante dele receber, e querendo-lhe por isso fazer graça e mercê, temos por bem e nos apraz que vindo-se a povoar em algum tempo a nossa ilha de São João, que ele ora novamente achou e descobriu cinquenta léguas ao mar da nossa Terra de Santa Cruz, lhe darmos e fazermos mercê da Capitania dela em vida sua e de um seu filho..." (¹)
Porém, em 1511, quando se autorizou a vinda da Nau Bretoa às terras da América, já aparece o nome "Brasil", no próprio título de seu diário de bordo: "Livro da Nau Bretoa que vai para a terra do Brasil". E depois: "Livro do dia que partimos da cidade de Lisboa para o Brasil, até que tornamos a Portugal".
Duas décadas mais tarde, quando a expedição comandada por Martim Afonso de Sousa foi enviada à América, o nome de Brasil já devia ser coisa consolidada, pelo que se vê no documento através do qual o monarca lusitano estipulava os poderes do homem a quem confiara o mando:
"Dom João, a quantos esta minha carta de poder virem, faço saber que eu envio ora a Martim Afonso de Sousa, do meu Conselho, por Capitão-Mor da armada que envio à Terra do Brasil, e assim de todas as terras que ele dito, Martim Afonso, na dita terra achar e descobrir..." (²)
Tronco de pau-brasil
Pode parecer uma simplificação até útil, essa adoção do nome de Brasil em lugar de Ilha de Vera Cruz ou Terra de Santa Cruz. Aos olhos dos mais religiosos, fossem clérigos ou não, essa mudança foi sobremodo irritante. É o que se depreende do que escreveu Gândavo em obra datada de 1576 (³):
"Por onde não parece razão que lhe neguemos este nome e nem que nos esqueçamos dele tão indevidamente, por que lhe deu o vulgo mal considerado, depois que o pau da tinta começou a vir a estes reinos, ao qual chamaram "brasil" por ser vermelho e ter semelhança de brasa, e daqui ficou a terra com este nome de Brasil. Mas, para que nesta parte magoemos ao Demônio, que tanto trabalhou e trabalha por extinguir a memória da Santa Cruz e desterrá-la dos corações dos homens, mediante a qual somos redimidos e livrados do poder de sua tirania, tornemos-lhe a restituir seu nome e chamemos-lhe Província de Santa Cruz como em princípio [...], porque na verdade mais é destinar e melhor é nos ouvidos da gente cristã o nome de um pau em que se obrou o mistério de nossa redenção, que outro que não serve mais que de tingir panos ou coisas semelhantes." (⁴)
Quase um século mais tarde, o Padre Simão de Vasconcelos ainda lamentaria a tal mudança de nome:
"Aqui arvoraram aos 3 de maio (como querem alguns) (⁵) o primeiro troféu de portugueses que o Brasil viu, o estandarte da Santa Cruz, ao som de demonstrações de grandes alegrias e solenidade de missa, pregação e salvas de artilharia da Armada, pondo por nome à terra tão formosa, Terra de Santa Cruz, título que depois converteu a cobiça dos homens em Brasil, contentes do nome de outro pau bem diferente do da Cruz, e de efeitos bem diversos." (⁶)
Meus leitores sabem muito bem como, afinal, terminou essa "queda de braço". Não é necessário, pois, nenhuma outra explicação. Só resta imaginar como seria o grito dos torcedores no estádio, em dia de jogo da seleção brasileira, se o nome ainda fosse Terra de Santa Cruz. Séculos antes, portanto, as coisas se arranjaram melhor, ao menos para esse propósito, com o curto e incisivo nome: Brasil!
 
(1) Carta dada em 1504 e, a pedido do próprio Fernando de Noronha (também chamado "Fernão de Noronha"), confirmada em 1522. Veja-se que a expressão "nossa Ilha de São João, que ele ora novamente achou e descobriu", reforça o que acima foi dito sobre a imprecisão dos cálculos marítimos na época dos Grandes Descobrimentos. Uma terra descoberta podia ser facilmente perdida... e depois, novamente encontrada.
(2) Diário da Navegação de Pero Lopes de Sousa (1530 a 1532).
(3) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. 1576.
(4) Esqueceu-se Gândavo de mencionar que o pau-brasil tinha outros usos, igualmente importantes, sendo particularmente prezado na construção naval daquela época, para a confecção de partes de embarcações que requeriam madeira flexível, porém muito resistente. É pela mesma razão que se faz ainda hoje muito estimado dos que constroem ou tocam instrumentos de cordas de alto padrão, com emprego assinalado para arcos de violino.
(5) Nisto diverge da Carta de Caminha, já citada. A carta de Caminha menciona duas missas, celebradas, a primeira, no chamado "Domingo da Pascoela", ou seja, o domingo seguinte ao domingo de Páscoa, e a segunda, em 1º de maio de 1500, e deve ser a esta que se refere o Padre Vasconcelos, por ter sido nessa ocasião que a cruz e as armas de Portugal foram plantadas em terra. Entretanto, é bom lembrar que já houve quem discutisse essa questão de datas, tentando demonstrar que Caminha poderia ter errado nas datas que anotou em sua Carta.
(6) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668.


Veja também:

domingo, 24 de março de 2013

O primeiro contato dos índios com a comida dos portugueses

Se há alguma coisa que pode ser classificada como definidora de uma dada cultura é, sem dúvida, a comida. Sim, vestuário, estrutura familiar, organização social e do trabalho, tudo isso também faz parte, mas os costumes quanto à alimentação são, por vezes, tão particulares a um determinado grupo humano que, aquilo que para uns pode ser uma delícia, um verdadeiro manjar dos deuses, para outros não passa de coisa nojenta. O primeiro contato dos índios do Brasil com a alimentação dos portugueses da esquadra de Pedro Álvares Cabral ilustra perfeitamente esse ponto.
Conta-nos o escrivão Pero Vaz de Caminha que, tentando mostrar amizade para com índios que foram à embarcação do comandante, os portugueses ofereceram-lhes comida:
"Deram-lhes ali de comer pão e pescado cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada, e alguma coisa, se a provavam, lançavam-na logo fora. Trouxeram-lhes vinho por uma taça, puseram assim a boca tão mal e não gostaram dele nada, nem o quiseram mais."
Ora, aqui ficamos nós imaginando a cena: os portugueses tentando oferecer aos seus visitantes o melhor que tinham, e estes sequer suportando provar tal comida. Sim, é verdade que depois de várias semanas no mar, o alimento dos lusos talvez não estivesse lá muito bem conservado, mas que dizer do vinho? É curiosa a reação dos nativos do Brasil, que, aliás, eram grandes apreciadores de bebidas fermentadas, que fabricavam segundo um número bastante significativo de técnicas distintas (*).
Nos contatos subsequentes, ainda com os homens da esquadra de Cabral, jovens índios acabariam experimentando, com mais gosto, a comida dos navegantes.
Conta ainda a carta que os portugueses provaram comida dos índios, que é descrita como inhame - talvez fosse mandioca, ou aipim.
E, como comida é, ao menos em parte, uma questão de hábito, logo estavam os índios a acostumar-se com a alimentação dos portugueses, conforme registrou Caminha:
"Comiam conosco do que lhes dávamos e bebiam alguns deles vinho, e outros não podiam beber, mas parece-me que se lho avezarem que o beberão de boa vontade."

(*) Veja, sobre isso, a postagem: "Cajus e cajueiros - Parte 4: O "vinho" de caju dos indígenas"


Veja também:

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Os bandeirantes não sabiam geografia. Os eruditos também não!

Era 1736. No contexto das disputas entre portugueses e espanhóis sobre questões relacionadas aos limites de suas terras na América do Sul, Manuel Dias da Silva resolveu organizar uma expedição cujo objetivo era apoiar as pretensões da Coroa Lusitana. Havia, porém, um problema (entre muitos outros): Como atinar com o rumo correto a ser seguido?
Pode-se ler na Nobiliarchia Paulistana, de Pedro Taques de Almeida Paes Leme:
"Consistia também a dificuldade no temor de não acertar com o sítio de Camapuã por falta de geografia, cuja ciência totalmente ignorava, bem como todos os antigos paulistas, que sem outro adjutório mais do que o rumo do nascente ao poente, a que lhes servia de verdadeira agulha o sol, penetraram a maior parte dos incultos sertões da América, conquistando nações bárbaras, de cujos índios se serviam, como administradores seus, pelo benefício de os terem desentranhado do paganismo para o grêmio da Igreja." [sic!]
A revelação fundamental, aqui, nem é tanto o problema com que se deparava Manuel Dias da Silva. É, sim, que os antigos paulistas, ao correrem o interior do Brasil, não podiam contar com conhecimentos de geografia (sobre uma área que, aliás, ninguém conhecia mesmo), nem sabiam usar mapas ou instrumentos, como a bússola por exemplo. Pedro Taques não menciona, mas é verdade que os índios cativos eram, frequentemente, guias nas trilhas do sertão. Mas mesmo eles não podiam indicar caminhos para além dos terrenos que conheciam. O sol foi, depreende-se do texto citado, o guia principal de que dispunham os sertanistas a que chamamos bandeirantes, quando se tratava de achar o caminho em meio à vegetação cerrada e ao relevo desconhecido.
Acontece, meus leitores, que os bandeirantes de São Paulo não eram, nesses tempos, os únicos que desconheciam geografia. Mesmo gente de maior instrução, erudita, até, tinha severas dificuldades nessa área. Basta dar uma olhada nos mapas que então havia, ou correr os olhos por obras escritas por intelectuais da época. O mar de tolices escritas sobre o Brasil é tão vasto, que chega a ser difícil pinçar algumas "obras de arte", para gáudio de meus leitores. Mas vão a seguir algumas lorotas cabeludas, que farão sorrir quem estudou, direitinho, suas lições de Geografia. Para facilitar as coisas, as citações obedecem à ordem cronológica em que foram escritas.

a) Pero Vaz de Caminha, na "Carta do Descobrimento", datada de 1500, relatando ao rei D. Manuel a chegada da esquadra de Cabral ao Brasil:
"Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste ponto houvemos vista, será tamanha, que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa." (¹)

b) Pero de Magalhães Gândavo, afirmando, na segunda metade do século XVI, que os rios Paraguai e São Francisco provinham de um mesmo lago:
"Neste rio pela terra dentro se vem meter outro a que chamam Paraguai, que também procede do mesmo lago como o de São Francisco que atrás fica." (²)

c) O Padre Simão de Vasconcelos entendia que o Amazonas e o Rio da Prata uniam-se no sertão:
"O comprimento deste grão-gigante dos rios é de mil e trezentas, mil e seiscentas ou mil e oitocentas léguas, segundo cômputos vários dos que o navegaram. A distância por onde estende seus braços espaçosos, direito e esquerdo, soma passante de mil léguas, por relação das gentes que bebem suas águas, e assim deve ser de razão, para ser verdade o que dizem, que chegam no meio do sertão a dar-se as mãos estes dois rios do Pará e da Prata." (³)

d) Novamente o Padre Simão de Vasconcelos, tratando, desta vez, do rio São Francisco:
"É este rio um dos mais célebres do Brasil, o primogênito daqueles dois primeiros, e como marco terceiro do meio desta costa. Está em altura de 10 graus e um quarto. É copiosíssimo em águas, desemboca no mar, com duas léguas de largura, com tanta violência que bebem delas os mareantes em distância de quatro e cinco léguas antes de sua barra. Seu nascimento é daquela famosa lagoa feita das vertentes de águas das serranias do Chile e Peru, donde dissemos procediam os outros dois principais rios Grão-Pará e da Prata." (⁴)

Observação muito importante:

Quem não entendeu coisa alguma precisa, desesperadamente, ir estudar Geografia agora mesmo!

(1) A légua, de acordo com o padrão que fosse adotado, podia ter pouco mais de 5,5 km ou cerca de 6,1 km.
(2) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. 1576.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 32.
(4) Ibid. p. 49.


Veja também:

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Como os tupinambás cortavam os cabelos, segundo Hans Staden

Os portugueses que vieram ao Brasil em 1500, na esquadra de Pedro Álvares Cabral, observaram que os indígenas tinham os cabelos devidamente cortados, conforme relatou Pero Vaz de Caminha:
"Todos andam rapados até por cima das orelhas, e assim mesmo de sobrancelhas e pestanas."
O tempo e o contato cada vez mais frequente entre colonizadores e povos indígenas acabaria revelando aos primeiros que havia muitos tipos de cortes diferentes para os cabelos, que constituíam verdadeira tradição tribal, praticada segundo costumes muito antigos.
Podem, no entanto, perguntar alguns de meus leitores, que talvez já tenham visto neste blog postagens relativas ao escambo entre portugueses e índios: Se os índios só começaram a usar tesouras ao trocá-las por mercadorias que forneciam aos portugueses, como é que podiam cortar tão bem os cabelos?

Corte de cabelos dos tupinambás, de acordo com Hans Staden (¹)

Hans Staden (²), que absolutamente contra a vontade permaneceu algum tempo entre os tupinambás, levantou a mesma questão (vale lembrar que esses tupinambás tinham por hábito um corte de cabelo que lembrava um pouco a tonsura dos frades). Foi-lhe explicado que uma concha de pedra servia de molde para o corte, enquanto que uma outra pedra cortante era usada para friccionar os cabelos até que se partissem. Já a coroa no alto da cabeça era conseguida também com uma pedra, usada para raspar os fios.
É certo, porém, que este método funcionava para os tupinambás. Outros povos empregavam técnicas diferentes, que eram parte de uma rica tradição que, em muitos casos, se perdeu, de modo que hoje pouco sabemos a respeito.

(1) Cf. STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) Ibid.


Veja também:

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O início do escambo entre europeus e indígenas no Brasil

Para nós parece a coisa mais natural que, quando queremos adquirir qualquer bem ou serviço, façamos o pagamento com o uso de moeda corrente, que pode variar, de acordo com o lugar onde se vive, mas cujo princípio é exatamente o mesmo, o de intermediário para facilitar as trocas.
Houve, entretanto - e há, ainda - sociedades nas quais a moeda, como a entendemos, era coisa inexistente. Isso valia para os povos indígenas do Brasil que viviam nas áreas litorâneas, quando da chegada dos portugueses, de modo que as relações comerciais que se estabeleceram foram, de saída, baseadas em escambo, ou seja, a troca direta de uma mercadoria por outra, sem o uso de moeda, mesmo porque, se os povos indígenas tivessem alguma moeda, seria pouco provável o estabelecimento de algum padrão de equivalência (câmbio) em relação ao dinheiro usado pelos portugueses.
O "comércio" entre portugueses e índios começou bem cedo. Mal chegada a esquadra de Cabral, houve, a crer no relato de Pero Vaz de Caminha, uma autêntica troca de presentes entre nativos e visitantes:
"Levava Nicolau Coelho cascavéis (¹) e manilhas. E a uns dava uma cascavel, a outros uma manilha [...]. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, ou de qualquer coisa que a gente lhes queria dar."
Em pouco tempo, entretanto, essa troca amistosa iria transformar-se em negócio sério, à medida que os europeus (não apenas portugueses) percebiam que era possível obter grande lucro com o escambo, fornecendo os índios mercadorias de alto preço nos mercados da Europa, em troca de objetos que, para os navegadores, tinham bem pouco valor. Era o caso da troca, por exemplo, de madeiras nobres por facas e tesouras, como se vê no Livro da Nau Bretoa, datado de 1511, ressalvando a autoridade real que de nenhum modo de fornecessem quaisquer armas aos nativos:
"Notificareis isso mesmo a toda a dita companhia que não resgate nem venda e nem troque com a gente da dita terra nenhumas armas de nenhuma sorte, que sejam punhais nem outras nenhumas que são defesas (²) pelo Santo Padre e por El-Rei Nosso Senhor, e poderão levar facas e tesouras como sempre levaram."

(1) Guizos.
(2) Isto é, proibidas.


Veja também:

domingo, 22 de abril de 2012

Coisas infinitas que se dizia haver no Brasil após o Descobrimento

Quase não há quem desconheça a declaração de Pero Vaz de Caminha em sua célebre Carta: "As águas são muitas, infindas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem". Que exagero! Sim, exagero até compreensível diante da exuberância natural da terra à qual a esquadra de Cabral acabava de chegar. A despeito disso, em se tratando de exageros sobre as terras coloniais portuguesas na América, Pero Vaz de Caminha está longe de ser o recordista absoluto. Em minha opinião, o troféu dessa modalidade de megalomania deve pertencer a Pero de Magalhães Gândavo, e meus leitores já verão o porquê.
Fiz uma lista dos "infinitos" que esse autor menciona, tanto em seu Tratado da Terra do Brasil como em História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. É verdade que o mesmo autor por vezes trata das inconveniências da terra - animais selvagens, doenças tropicais, ataques indígenas - mas isso parece pouco diante de seu entusiasmo. Entretanto, já é tempo de ver a lista.

1. Infinito pau-brasil, referindo-se à Capitania do Rio de Janeiro:
"Há nela muito infinito pau do Brasil, de que os moradores da terra fazem muito proveito." (¹)

2. Infinita caça, desta vez junto ao rio Camamu, Bahia de Todos os Santos:
"Nesse mesmo rio há muito peixe em extremo, e junto dele muita infinita caça de porcos e veados". (²)

3. Infinito algodão, ainda na Bahia:
"Esta capitania tem uma baía muito grande e formosa, há três léguas de largura, e navega-se quinze por ela dentro, tem muitas ilhas de terras muito viçosas que dão infinito algodão [...]." (³)
Reafirma isto em História da Província de Santa Cruz:
"... e na Bahia de Salvador quase outros tantos, donde se tira cada ano grande quantidade de açúcares e se dá infinito algodão [...]." (⁴)

4. Infinito peixe no rio "de Paraíba", Capitania do Espírito Santo:
"Avante desta capitania em altura de vinte e um graus está o rio de Paraíba, este é mui grande e formoso e tem infinito peixe." (⁵)

5. Fontes infinitas, justificando a existência de tantos rios no Brasil:
"As fontes que há na terra são infinitas, cujas águas fazem crescer a muitos e mui grandes rios que por esta costa, assim da banda do Norte, como do Oriente, entram no mar Oceano." (⁶)

6. E, concluindo a História da Província de Santa Cruz, obra publicada em 1576, conclui também que a terra descoberta é dotada de infinita riqueza, graças a suas pedras preciosas (que, aliás, ninguém ainda havia efetivamente descoberto):
"Do preço delas não trato aqui, porque ao presente o não pude saber, mas sei que assim destas como doutras há nesta província muitas e mui finas, e muitos metais, donde se pode conseguir infinita riqueza." (⁷)
Paremos por aqui, meus leitores, antes que esta postagem venha a ter infinitas notas de rodapé... 

(1) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p.48.
(2) Ibid., p. 39.
(3) Ibid., pp. 38 e 39.
(4) Idem. História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil, edição de 1576.
(5)Idem. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 46.
(6) Idem. História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil, edição de 1576.
(7) Ibid.

Estariam Caminha e Pero de Magalhães Gândavo realmente exagerando?

Veja também:

domingo, 15 de abril de 2012

A visão da costa do Brasil, por viajantes de antigamente

"Neste dia", escreveu Pero Vaz de Caminha, referindo-se à data de 22 de abril do ano de 1500, "a horas de véspera, houvemos vista de terra. Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo, e doutras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã, com grandes arvoredos. Ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal, e à Terra, a Terra de Vera Cruz". Embora seja perfeitamente possível que Cabral e seus companheiros de expedição não tenham sido os primeiros europeus, talvez sequer os primeiros portugueses que puseram os pés em terras brasileiras, é esse, no entanto, o primeiro relato formal que temos, ao que até agora se conhece, descrevendo o avistar do litoral brasileiro.
Da segunda metade do século XVII temos o registro feito pelo missionário Padre Simão de Vasconcelos, segundo o qual a impressão de navegadores e cosmógrafos a respeito do aspecto da costa do Brasil era esta:
"Quanto à vista exterior aos que vêm de mar em fora, depuseram aqueles capitães e cosmógrafos que não viram coisa igual no universo todo à perspectiva desta nova terra, porque ao longo parece uma glória o avultar dos montes e serranias, com tal compostura e altura que representam formar muito para ver, e sobem, parece, à região segunda do ar, levando consigo os olhos e os corações ao céu. À meia vista começa a aparecer o alegre dos bosques, campos e arvoredos, verdes sempre, e sempre aprazíveis. Mais ao perto, alvejam as praias formosas, e vão logo aparecendo nelas uma imensidade de portos, barras, enseadas, rios e ribeiras despenhadas, e com tão grande variedade, que é um espanto da natureza. De tudo disseram alguma coisa, que tudo não lhes era possível." (¹)
Infelizmente, há pouquíssimas imagens dos primeiros tempos coloniais, e o pouco que existe é grandemente devido aos artistas holandeses que andaram pelo Brasil à época do governo de Nassau. Somente no século XIX, quando a paisagem, ao menos na faixa litorânea, já havia sofrido importantes modificações, é que houve maior preocupação em fixar, através de desenhos, aquarelas ou gravuras, por exemplo, o que se via em terras do Brasil. Embora tardias, essas imagens são significativas por nos permitirem um estudo, por comparação, de transformações posteriores resultantes do processo de ocupação do território. Nas últimas décadas do século XIX os meios informativos tornaram-se mais abundantes, à medida que a fotografia passou a integrar o arsenal de  recursos disponíveis  para o registro de acontecimentos e lugares. Assim justapostos, desenhos, aquarelas e fotografias nos permitem analisar as graduais alterações na paisagem brasileira, principalmente em áreas de grande urbanização.
Para que se tenha ideia do que isso significa, estão a seguir três imagens, todas da primeira metade do século XIX (editadas para melhor visualização), conforme o registro por três diferentes artistas.

Vista do litoral da Bahia, por Rugendas (²)

Vista do alto do Corcovado, Rio de Janeiro, por Thomas Ender (³)

Vista da entrada da baía do Rio de Janeiro, por Debret (⁴)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 28 e 29.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. 
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


Veja também: