Mostrando postagens com marcador Pedro Sarmiento de Gamboa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pedro Sarmiento de Gamboa. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 14 de maio de 2020

A falta de água em viagens marítimas

A falta de água potável em navios nos séculos XV e XVI estava entre os maiores pesadelos dos marinheiros. Afinal, era água e mais água ao redor, mas os sedentos marujos não podiam nem pensar em bebê-la, porque era salgada. 
Assim, facilmente se explica por que razão, a cada oportunidade, iam todos os navegantes "fazer aguada", ou seja, abastecer os tonéis de água, ainda que, no momento, não houvesse falta. Na Carta de Caminha, relata-se que, mesmo antes que alguém fosse mandado a terra e que, desse modo, se fizesse o descobrimento oficial do Brasil, procurou-se um lugar favorável para aportar em busca de água e lenha, reconhecendo o escrivão que, naquele momento, não tinham escassez dessas coisas: "Fomos ao longo da costa [...], para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso onde ficássemos, para tomar água e lenha, não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui". Navegantes experientes, os portugueses sabiam que, diante de tanta e tão boa água, valia a pena abastecer os navios, pelo risco de não terem como fazê-lo mais tarde, quando prosseguissem no rumo das Índias.
Se estavam em alto mar e faltava água, só havia uma coisa que os marinheiros podiam fazer, e era suplicar aos céus por chuva. Quando ela vinha, os navegadores usavam recolher cada gota, do melhor modo que podiam. Um método era estender lençóis no convés e, cessando a chuva, torcê-los, para recolher o líquido. Segundo Jean de Léry, foi esse o procedimento adotado quando fazia a viagem de regresso à França em 1558, porque no navio estava disponível, diariamente, apenas um copo pequeno de água imunda para cada um. A sede era tanta que até mesmo a água que escorria pelo convés era recolhida e sofregamente ingerida, ainda que muito suja. Bernal Díaz del Castillo, um soldado que se tornou famoso ao escrever sobre a chamada "conquista do México" por Hernán Cortés, da qual participou, fez o registro de experiência similar. "Digo que tanta sede passamos", afirmou (¹), "que na língua e na boca, tão secas, tínhamos rachaduras, pois nada havia para refrigério" (²).
Situação análoga foi provada pelos homens que, com Pedro Sarmiento de Gamboa, contornaram a Patagônia e, no rumo da costa da África, chegaram à Europa (³). O relatório da viagem diz que, em certo dia, já em direção aos arquipélagos perto da África, "[...] às dez da noite caiu um grande aguaceiro, do qual se tomou alguma água, o que foi grande consolo, porque o calor era excessivo e pouca a água que tínhamos, já bastante racionada" (⁴).
Quando, afinal, chegaram ao arquipélago de Cabo Verde, a população local apenas se convenceu quanto à veracidade da viagem que diziam ter feito em razão do péssimo aspecto que tinham os marinheiros, com cabelo e barba que não viam a ação de tesoura ou navalha há muito tempo. Mas Pedro Sarmiento, ao dar conta do sucedido, concluiu: "[...] vínhamos mais cobiçosos de água que de parecer lindos" (⁵).

(1) Bernal Díaz del Castillo foi um soldado espanhol que participou da expedição de Cortés. Escreveu a obra muitos anos depois, já em idade avançada.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Entre 1579 e 1580. 
(4) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viage al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 314. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid., p. 343.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Descobridores tomavam posse das terras encontradas em nome do rei

Quando chegavam a um lugar que supunham estar descobrindo, navegadores dos Séculos XV e XVI, e mesmo mais tarde, tomavam posse do território em nome do respectivo rei ou imperador, com a formalidade que era, então, corrente. Assim fez Colombo, assim fez Cabral. Assim fizeram muitos outros.
As ordens expedidas para os que navegavam eram enfáticas nesse sentido. Ao mandar Martim Afonso de Sousa ao Brasil em 1530, como líder de uma expedição que devia investigar melhor o litoral e verificar as possibilidades de colonização, dizia o rei D. João III: ".[...] dou poder ao dito Martim Afonso de Sousa para que em todas as terras que forem de minha conquista e demarcação (¹) que ele achar e descobrir possa meter padrões [...] em meu nome [...]." Outro exemplo vem das ordens dadas a Pedro Sarmiento de Gamboa, a quem se encarregou uma expedição pelo Estreito de Magalhães nos anos de 1579 e 1580: "E onde quer que chegardes e saltardes em terra, tomareis posse, em nome de sua majestade, de todas as terras das províncias e partes a que chegardes, fazendo a solenidade e registros necessários, dos quais deem fé e testemunho em forma pública os ditos escrivães que levais." (²)
Sabe-se, mediante registro feito por seu escrivão, que Pedro Sarmiento cumpriu direitinho as ordens recebidas: "[...] o capitão superior Pedro Sarmiento se pôs em pé, e lançando mão a uma espada que tinha na cinta, disse em alta voz, em presença de todos, que fossem testemunhas de como "em nome da Sacra, Católica e Real Majestade do rei D. Filipe nosso senhor, rei de Castela e seus anexos, e em nome de seus herdeiros e sucessores", tomava posse daquela terra perpetuamente" (³). Em outra ocasião, registrou-se que a posse da terra foi declarada "sem contradição dos naturais" (⁴). Não consta, todavia, qualquer relatório de como e se os "naturais" foram informados da cerimônia e de seu significado.
Na lógica da época, quando descobridores tomavam posse de algum território, era como se o próprio rei ali estivesse, na pessoa de seus súditos, declarando que as terras encontradas eram, agora, de sua propriedade, incorporadas ao patrimônio real, com os aspectos práticos que daí resultavam, incluindo o direito a explorar o território e sua população como julgasse conveniente. E, como o rei estava longe, era também aos exploradores que competia, posteriormente, extrair as riquezas existentes, enviando às cabeças coroadas a parte que lhes correspondia. 
Ao desembarcar em 1518 no que viria a ser, mais tarde, a Nova Espanha, Hernán Cortés, no dizer de Bernal Díaz"tomou posse daquela terra por sua majestade e em seu real nome" (⁵). Ambicioso como era, não fazia ideia, contudo, do império que iria encontrar e, depois de combates e perdas terríveis, conquistar e destruir. Seria diferente se, em lugar de um súdito, estivesse lá, em pessoa, o rei da Espanha? Ninguém pode afirmar com certeza, mas os costumes então vigentes e os interesses econômicos, em tudo respaldados por argumentos religiosos, permitem, a quem quer que reflita sobre o assunto, fazer algumas conjecturas. Deixo aos leitores o direito às próprias conclusões.

(1) Uma provável referência às terras que, pelo Tratado de Tordesilhas, seriam de Portugal, mesmo que ainda não estivessem formalmente descobertas.
(2) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viage al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 16.
(3) Ibid., pp. 72 e 73.
(4) Ibid., p. 165. Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 5 de novembro de 2019

A comunicação entre navios durante viagens no Século XVI

Entre as ordens dadas por Pedro Sarmiento de Gamboa em 1579, para a viagem pelo Estreito de Magalhães que liderou, havia estas:
"[...] sigam sempre o farol, de noite, e a a bandeira, de dia, da Capitana (¹). E, sendo conveniente que a Capitana, em que vou, mude para rota ou caminho diferente daquele que até ali houver seguido, dará aviso com dois faróis para aquela parte onde se mudará o caminho, movendo-os para que melhor se conheça e siga o dito caminho;
[...] se ocorrer em alguma necessidade que seja preciso socorro, se dará um tiro de canhão, e se for necessidade de socorro de pessoas, se darão dois, porque o mesmo fica entendido que farei eu, em meu navio, para que me socorra, se for preciso." (²)
Era muito importante que essas convenções fossem escrupulosamente obedecidas, porque:
  • Não havia, na época, modo mais eficiente de comunicação;
  • Em caso de algum acidente em um navio, outros poderiam prestar socorro;
  • A segurança dos que viajavam dependia do agrupamento de navios, para facilitar a defesa em caso de um ataque de piratas e corsários, o que não era nada incomum nesse tempo.
A imensa esquadra comandada por Pedro Sarmiento era composta por apenas dois navios "de verdade", em não muito bom estado, aos quais se juntaram pequenas embarcações feitas pelos próprios navegantes. Um dos navios desertou, e Sarmiento e os que com ele estavam completaram sozinhos a viagem que, depois de transposto o Estreito de Magalhães, conduziu-os à costa da África, aos arquipélagos de Cabo Verde e Açores e, finalmente, à Espanha. Não houve sinalização, portanto, que impedisse a nau comandada por Juan de Villalobos de "desaparecer". Sabe-se, todavia, que a técnica de sinalizar, dia e noite, respectivamente, com bandeiras e faróis, era usual, nessa época, para navios que viajavam em comboio. Em meio às ondas do oceano, as embarcações de madeira talvez parecessem tão frágeis como cascas de ovos, sendo necessária toda a ajuda mútua possível, no empreendimento de conduzir os corajosos navegadores até o destino que almejavam.

(1) As duas embarcações principais da expedição de Pedro Sarmiento foram denominadas "Capitana", na qual ele próprio ia, e "Almiranta", comandada por Juan de Villalobos.
(2) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viage al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 38. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.



Veja também:

terça-feira, 16 de julho de 2019

Tentaram mudar o nome do Estreito de Magalhães

Fernão de Magalhães era português, mas, a serviço da Espanha, comandou a primeira viagem de circum-navegação. É fato que não pôde completá-la, porque morreu em combate nas Filipinas, mas Juan Sebastián Elcano conduziu de retorno à Espanha o último navio que restou da expedição, concluindo a quase inacreditável viagem em cerca de três anos. Por conta desse feito notável, o nome de Magalhães foi atribuído ao Estreito no sul da América do Sul, mas também a lugares bem mais distantes, como as chamadas Nuvens de Magalhães (galáxias, na verdade).
Parece, contudo, que, no Século XVI, causava certo incômodo a navegadores espanhóis que o Estreito fosse dito "de Magalhães", porque houve quem tentasse dar-lhe outra denominação. Pedro Sarmiento de Gamboa, enviado a explorar o Estreito em 1579, afirmou, em seu relatório de viagem:
"Faço saber a todos, que para fazer esta viagem e descobrimento, tomei por advogada e padroeira a sereníssima senhora Nossa Rainha dos Anjos Santa Maria Mãe de Deus Sempre Virgem, conforme a instrução de Sua Excelência (¹). Por isso, e pelos milagres que Deus Nosso Senhor por sua intercessão há usado para conosco nesta viagem e descobrimento e nos perigos que nela tivemos, pus por nome a este ESTREITO DA MÃE DE DEUS, posto que antes se chamasse ESTREITO DE MAGALHÃES; e espero que Sua Majestade, sendo, como é, tão devoto da Mãe de Deus, confirmará este mesmo nome em seus escritos e provisões, pois eu em seu Real Nome (²) o pus [...]." (³)
Aos que quiserem saber se Sarmiento foi bem-sucedido em sua ideia de mudar o nome do Estreito de Magalhães, aconselho, como resposta, uma rápida vista a meia dúzia de mapas, quaisquer que sejam, desde que da América do Sul. Não será preciso mais que isso. 

(1) Referia-se ao vice-rei do Peru.
(2) Como os navegadores tinham ordem para tomar posse das terras que descobriam em nome do respectivo rei, Pedro Sarmiento deve ter entendido que estava autorizado, também, a mudar o nome de um lugar anteriormente descoberto.
(3) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viaje al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, pp. 239 e 240. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 18 de junho de 2019

A ilha do índio que fugiu

Pedro Sarmiento de Gamboa foi escolhido para comandar uma expedição que, saindo do Peru, devia percorrer o Estreito de Magalhães, para mapear a região e procurar locais favoráveis ao estabelecimento de povoações colonizadoras. A razão para isso é que se supunha, com sobejas razões, que o extremo sul do Continente, apesar de ser área de navegação dificílima, andava a receber a visita de corsários - aliás, de um corsário em particular, o famoso Francis Drake. Julgava-se, portanto, que era necessário efetivar o controle espanhol da região. Essa expedição de Sarmiento aconteceu entre os anos de 1579 e 1580.
Nas instruções dadas pelo vice-rei antes da partida, havia uma em que se dizia, expressamente, que fizessem o possível para conseguir, com bons modos, índios que servissem de "línguas", ou seja, de intérpretes: "E achando algumas povoações de índios, depois de havê-los tratado com carinho e dado das coisas que levais de tesouras, pentes, facas, anzóis, botões coloridos, espelhos, guizos, contas de vidro e outras coisas das que se dão a eles (¹), procurareis levar alguns índios para línguas às partes onde fordes [...], aos quais fareis todo o bom tratamento [...]." (²)
É possível que, além de ter intérpretes para a viagem, o que já é surpreendente, por ser improvável que encontrassem naquela distante região indígenas que, além de sua língua materna, falassem espanhol, os espanhóis também quisessem trazer alguns ameríndios ao convívio colonial, para que, ao tempo em que se estabelecessem colônias nos arredores do Estreito, fossem com os povoadores e facilitassem o contato com a população nativa. Pergunto: como seria possível conseguir, apenas com a prática de boas maneiras, que alguém deixasse sua família, seu grupo tribal, e fosse, contra a vontade, viajar e viver entre desconhecidos? Contraditório, não? Na formalidade dos documentos é preciso ver além daquilo que se diz. 
De acordo com o relatório feito durante a expedição, Pedro Sarmiento procurou, em todo o tempo e nos menores detalhes, ser o mais obediente cumpridor das instruções do vice-rei. Foi com seus homens em dois navios, costeando a América do Sul, e, com o uso de outra pequena embarcação, às vezes descia em terra para ver o que havia. Assim, logo encontrou indígenas, com os quais procurou fazer contato, e, tendo sucesso, convenceu-os a ir ao lugar em que havia deixado o que trazia, embora desconfiasse, sempre, da possibilidade de um ataque dos nativos. Sua intenção, porém, era, tão pronto quanto possível, capturar um "língua": "Ao chegar ao alojamento, Sarmiento pôs, por segurança, duas sentinelas; procurou tomar algum [dos indígenas] para língua, e com toda a diligência conseguiu tomar um deles, e em seguida Pedro Sarmiento o abraçou, [...], vestiu e o meteram no batel, e nos embarcamos todos [...]." (³)
Missão cumprida? Nada disso: "[...] No quarto da alva o índio que havíamos tomado fugiu daquele que o vigiava; mandando buscá-lo [...] pela beira do mar, o guarda de quem ele havia fugido encontrou-o, e, ao agarrá-lo por uma camisa que vestia, deixou-a em suas mãos, lançou-se ao mar e se foi. [...]" (⁴) Quem, em plena razão, esperaria outra coisa?
No relatório da viagem, o escrivão acrescentou: "Chamamos a este lugar "a ilha do índio [que] fugiu". (⁵)" Aos muito curiosos, informo que, posteriormente, Sarmiento e sua gente capturaram outros índios, com o mesmo propósito de obter intérpretes, e não se fez qualquer menção de que houvessem conseguido escapulir.

(1) Eram as práticas correntes de escambo, não só na chamada América Espanhola, como no Brasil.
(2) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viaje al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 16. Todos os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid., p. 111.
(4) Ibid., pp. 116 e 117.
(5) Ibid., p. 117.


Veja também: