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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

As primeiras laranjeiras da Nova Espanha

Gabolice ou realidade? Não sabemos ao certo, mas Bernal Díaz del Castillo, aventureiro espanhol que fez parte do bando de Hernán Cortés na chamada "conquista do México", alardeou ter sido o primeiro europeu a plantar sementes de laranja na região. Vamos ao relato feito por ele:
"Também quero dizer como semeei algumas sementes de laranja junto a outras casas de ídolos (¹), e foi desta maneira: como havia muitos mosquitos [...], fui dormir em uma casa alta de ídolos (²), e ali junto àquela casa semeei sete ou oito sementes de laranja que havia trazido de Cuba, e nasceram muito bem, porque parece que os sacerdotes daqueles ídolos cuidaram para que não fossem comidas pelas formigas, e regaram e cuidaram desde que viram que eram plantas diferentes das suas. [...]." (³)
Como podemos ter certeza de que essas foram, de fato, as primeiras laranjeiras que cresceram ali? Resposta: Não podemos ter certeza. Certo é, porém, que, como muitas vezes acontece, Bernal Díaz reivindicou para si a façanha, e a ele cabe a honra do feito. Contudo, não se pode deixar de fazer algumas objeções. Como estaria ele em tão bom relacionamento com os sacerdotes locais, a ponto de cuidarem das laranjeiras bebês?  Como lhe passara pela cabeça trazer desde Cuba as sementes de laranja? Tencionaria ficar em definitivo no lugar? Que prova teria, ao escrever, de que suas pequenas mudas de laranja haviam, afinal, crescido o suficiente para se tornarem laranjeiras produtivas, mesmo que apenas de laranjas azedas?
Cheio de orgulho pelo feito, Bernal Díaz del Castillo concluiu assim o assunto:  "Trouxe isto à memória para que se saiba que estas foram as primeiras laranjeiras plantadas na Nova Espanha [...]" (⁴). Admitindo como verdadeira essa possibilidade, as implicações, leitores, são enormes.

(1) Era assim que ele se referia aos locais de culto dos povos nativos.
(2) Provavelmente uma pirâmide de degraus.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos dessa obra citados aqui foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Uma bebida de cacau para o imperador asteca

Com um misto de curiosidade, ambição e medo, os europeus que faziam parte do bando comandado por Hernán Cortés chegaram a Tenochtitlán, a capital asteca, em 1519. Lá foram recebidos pelo temido imperador Montezuma (¹), cujo cerimonial e luxo deixaram os recém-chegados de queixo caído. Não era para menos: apesar de detestados pelos povos que dominavam, os astecas exerciam controle sobre uma vasta região, absorvendo, através de diversos tributos, muito da riqueza produzida.
À hora das refeições, um verdadeiro desfile gastronômico (à moda asteca) passava diante do imperador, tudo servido como a máxima higiene (²). Para acompanhar a comida, vinha uma bebida, que Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados de Cortés, assim descreveu: "[...] traziam umas taças de fino ouro, com certa bebida feita do [...] cacau" (³), salientando que não era usada apenas pelo sabor: "[...] diziam que era para ter contato com mulheres" (⁴). 
Aos muito curiosos, fica a observação de Bernal Díaz, de que a dita bebida era feita "de bom cacau com sua espuma" (⁵).

(1) Ou Moctezuma, também conhecido como Montezuma II.
(2) Pelo que se depreende do relato de Bernal Díaz del Castillo, esse detalhe deve ter impressionado os visitantes.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Como Hernán Cortés e seus homens curaram os ferimentos recebidos em combate contra os tlaxcaltecas

Depois de deixar o litoral, onde ficaram alguns espanhóis com a finalidade de estabelecer uma povoação, Hernán Cortés e cerca de quatrocentos e cinquenta homens seguiram adiante, porque sua meta era chegar ao coração do império asteca. De caminho, encontraram os tlaxcaltecas, que de modo nenhum aceitaram fazer a paz com os recém-chegados. O confronto foi inevitável e, ao contrário do que ocorrera contra povos menos poderosos, dessa vez os europeus, ainda que não derrotados, tiveram perdas importantes, entre mortos e feridos. Enfrentaram, além disso, a falta dos recursos a que estavam acostumados para tratar ferimentos. 
Que fazer?
O depoimento cru de Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados, explica, sem disfarces piedosos: "[...] com a gordura de um índio gordo que ali matamos, que se abriu, se curaram os feridos, porque não havia azeite [...]" (¹). Era costume usar azeite como emoliente para tratar ferimentos.
Não, leitores, não me façam perguntas quanto à eficácia do tratamento. Sabe-se, porém, que essa primeira batalha contra os tlaxcaltecas foi travada em 2 de setembro de 1519. Novo combate, três dias mais tarde, enfraqueceu a resistência da população local, que, a contragosto, foi tratando de negociar a paz. 
Enquanto isso, em seu acampamento, os espanhóis se ocupavam em curar os feridos. Como? Do mesmo modo que haviam feito após o primeiro confronto: "[...] se curaram todos os feridos com a gordura do índio, como já disse outras vezes" (²), informou Bernal Díaz, testemunha ocular.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos dessa obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Machadinhas de cobre em troca de contas coloridas

Escambo, todo mundo sabe, é o nome tradicionalmente dado às trocas de mercadorias entre europeus e indígenas da América, ocorridas no princípio da Colonização. À procura de madeiras nobres, especiarias e metais preciosos, comerciantes ofereciam aos indígenas tesouras, facas e outras ferramentas, contas coloridas, ou seja, coisas de baixo custo, ainda que o valor de um objeto não esteja relacionado apenas ao preço, mas à raridade e estima que lhe são dadas. Economicamente, os europeus levavam grande vantagem, mas seria tolice negar que nativos do Continente Americano logo tenham desenvolvido interesse por esse tipo de comércio. Em alguns casos, contudo, as trocas resultaram em situações engraçadas. Vou falar de uma delas.
Corria o ano de 1518. Um grupo de soldados e aventureiros espanhóis, desesperados por encontrar ouro, navegava nas proximidades do México, quando entrou em contato com alguns indígenas e começou a resgatar com eles. "Resgatar" significava fazer trocas ou escambo, e "resgates" eram as mercadorias de pouco valor que ofereciam aos ameríndios. Conta Bernal Díaz del Castillo, soldado espanhol que era parte do grupo:
"[...] todos os índios daquela província tinham por costume trazer umas machadinhas de cobre polido, à semelhança de armas, que tinham cabos de madeira muito pintados, e nós acreditamos que eram ouro baixo, e começamos a resgatar com eles; digo que em três dias conseguimos mais de seiscentas delas, e estávamos muito contentes, crendo que eram de ouro baixo, e os índios muito mais com suas contas. Tudo, porém, em vão, porque as machadinhas eram de cobre (¹), e as contas, quase nada. Um marinheiro havia resgatado às escondidas sete machadinhas e estava muito alegre por elas, e parece que outro marinheiro foi dizê-lo ao capitão, que lhe ordenou entregá-las, mas nós pedimos por ele, e ficou com as machadinhas, crendo que eram de ouro." (²)
Quem poderia calcular o entusiasmo dos espanhóis, diante de um "achado" que, supunham, iria torná-los ricos de um dia para outro? Que sorte, a deles...
Navegaram de volta a Santiago de Cuba, onde estava o governador Diego Velazquez, a quem deviam prestar contas de suas viagens, descobertas e façanhas. Como leais súditos do rei da Espanha, apresentaram as machadinhas brilhantes para que o ouro fosse quintado (³). Foi aí que fizeram uma importante - e triste - descoberta. É ainda Bernal Díaz quem relata:
"[...] trouxeram as seiscentas machadinhas (⁴) que pareciam de ouro, e quando as trouxeram para quintar estavam tão mofadas, como cobre que eram, e ali houve muito que rir e dizer da burla e do resgate." (⁵)
Para quem queria ouro, era mesmo muito pouco.

(1) Ou, pelo menos, Bernal Díaz supunha que fossem desse material.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos dessa obra citados aqui foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Vejam, leitores, que a cobrança dos Reais Quintos não era exigência apenas dos monarcas portugueses.
(4) Não é impossível haver exagero no número de machadinhas que trouxeram.
(5) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit.


terça-feira, 16 de julho de 2019

Tentaram mudar o nome do Estreito de Magalhães

Fernão de Magalhães era português, mas, a serviço da Espanha, comandou a primeira viagem de circum-navegação. É fato que não pôde completá-la, porque morreu em combate nas Filipinas, mas Juan Sebastián Elcano conduziu de retorno à Espanha o último navio que restou da expedição, concluindo a quase inacreditável viagem em cerca de três anos. Por conta desse feito notável, o nome de Magalhães foi atribuído ao Estreito no sul da América do Sul, mas também a lugares bem mais distantes, como as chamadas Nuvens de Magalhães (galáxias, na verdade).
Parece, contudo, que, no Século XVI, causava certo incômodo a navegadores espanhóis que o Estreito fosse dito "de Magalhães", porque houve quem tentasse dar-lhe outra denominação. Pedro Sarmiento de Gamboa, enviado a explorar o Estreito em 1579, afirmou, em seu relatório de viagem:
"Faço saber a todos, que para fazer esta viagem e descobrimento, tomei por advogada e padroeira a sereníssima senhora Nossa Rainha dos Anjos Santa Maria Mãe de Deus Sempre Virgem, conforme a instrução de Sua Excelência (¹). Por isso, e pelos milagres que Deus Nosso Senhor por sua intercessão há usado para conosco nesta viagem e descobrimento e nos perigos que nela tivemos, pus por nome a este ESTREITO DA MÃE DE DEUS, posto que antes se chamasse ESTREITO DE MAGALHÃES; e espero que Sua Majestade, sendo, como é, tão devoto da Mãe de Deus, confirmará este mesmo nome em seus escritos e provisões, pois eu em seu Real Nome (²) o pus [...]." (³)
Aos que quiserem saber se Sarmiento foi bem-sucedido em sua ideia de mudar o nome do Estreito de Magalhães, aconselho, como resposta, uma rápida vista a meia dúzia de mapas, quaisquer que sejam, desde que da América do Sul. Não será preciso mais que isso. 

(1) Referia-se ao vice-rei do Peru.
(2) Como os navegadores tinham ordem para tomar posse das terras que descobriam em nome do respectivo rei, Pedro Sarmiento deve ter entendido que estava autorizado, também, a mudar o nome de um lugar anteriormente descoberto.
(3) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viaje al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, pp. 239 e 240. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.