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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Fundibulários

Fundibulários, também chamados fundeiros, usavam fundas, com quase inacreditável pontaria, para arremessar pedras e outros objetos, não por esporte ou diversão, mas com propósitos bélicos. Eram, portanto, soldados especializados e, por isso, fizeram parte de muitos exércitos na Antiguidade. Tito, por exemplo, ao comandar a conquista e destruição de Jerusalém em 70 d.C., teve fundibulários em suas tropas e, no dizer de Flávio Josefo (¹), marchavam próximo dos lançadores de dardos.
Os projéteis usados por fundibulários não eram, como regra, inocentes pedrinhas de um ou dois centímetros de diâmetro. Aquelas que faziam cair sobre as forças inimigas eram pedras grandes, do tamanho das atuais bolas de golfe e até das de tênis. Como se isso fosse pouco, usavam também objetos pontiagudos e bolas de chumbo. Fode-se facilmente imaginar o estrago que causavam.
Não só na Antiguidade, porém, é que fundibulários tiveram ocupação. No Século XVI, Hernán Cortés e seus soldados, na luta pela conquista do México, provaram na própria carne quão eficientes podiam ser as fundas de guerreiros tlaxcaltecas e astecas. De acordo com Bernal Díaz del Castillo, testemunha ocular que lutou ao lado de Cortés, dos tlaxcaltecas "ao passar enfrentamos grande perigo, porque eram bons flecheiros [...], e também as fundas e pedras que caíam como granizo eram muito más [...]" (²); e, quanto aos astecas, "[...] atiraram tanta vara e pedra com fundas e flechas, que nos feriram daquela vez quarenta e seis dos nossos, e doze morreram das feridas" (³). Quem gostaria de estar sob o efeito dessas chuvas?

(1) Cf. JOSEFO, Flávio. As Guerras Judaicas. Livro V, § 403.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Soldados de Hernán Cortés que se tornaram monges

Os homens que seguiram Hernán Cortés na guerra que culminou com a conquista do Império Asteca eram movidos, na mais esmagadora maioria, pela ambição. Queriam ficar ricos, muito ricos, no menor tempo possível. Alguns - poucos - conseguiram. Muitos morreram por doenças, ferimentos recebidos em combate ou foram aprisionados por indígenas e sacrificados. Dentre os sobreviventes, houve alguns que tomaram um rumo quase inusitado, diante das pretensões anteriores: professaram em alguma ordem religiosa, tornando-se monges, portanto.
Seriam estes movidos pela consciência da destruição que haviam causado e, com a vida religiosa, pretenderiam, quem sabe, redimir os atos cruéis do passado? Ou foram movidos apenas pela influência de seu tempo, que concedia um valor extremo à vida religiosa, ainda que poucos fossem, de fato, estritos praticantes da regra da respectiva ordem?
Um única resposta poderia fazer injustiça a tais homens. Essas hipóteses devem ser consideradas, sem exclusão de outras, ainda. Mas quem foram eles, afinal?
De acordo com Bernal Díaz del Castillo, que também acompanhou Cortés, e que não se tornou monge, mas escreveu a Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España, estavam entre os que optaram pela vida monástica estes soldados:
"[...] outro bom soldado que se chamava Villasinda, natural de Portillo, que se tornou frade franciscano [...]."
"[...] outro soldado que tinha por sobrenome Lencero, [...], que foi bom soldado e se tornou frade mercedário; [...] Alonso Durán, que era um tanto velho e não enxergava bem, que ajudava como sacristão e se tonou frade mercedário [...]."
"[...] um soldado que se chamava Síndos de Portillo, natural de Portillo, e teve índios muito bons (¹) e esteve rico, e deixou seus índios e vendeu seus bens, repartiu-os entre os pobres e se tornou frade, e foi de santa vida; e outro bom soldado que se chamava Quintero, natural de Moguel, e teve bons índios e esteve rico, e o deu por Deus e se tornou frade franciscano e foi bom religioso; e outro soldado que se chamava Alonso de Aguilar [...], foi pessoa rica e teve bom repartimiento de índios, vendeu tudo e entregou a Deus, e se tornou frade dominicano e foi muito bom religioso [...]."
É preciso reconhecer que nem todos perseveraram na vida monástica:
"[...] outro soldado chamado Fulano Burguillos, teve bons índios e esteve rico, e deixou e se tornou frade franciscano, e este Burguillos depois saiu da Ordem; e outro bom soldado que se chamava Escalante, tinha boa aparência e era bom cavaleiro, tornou-se frade franciscano, depois saiu do monastério e voltou a triunfar, e cerca de um mês mais tarde tornou a tomar o hábito e foi bom religioso [...]."
Por outro lado, havia também quem fosse a extremos:
"[...] outro soldado que se chamava Gaspar Díaz, natural de Castilla la Vieja, e foi rico, assim por seus índios como por seus negócios, e tudo entregou a Deus e se foi aos cumes de Guaxocingo, em lugar muito isolado, fez uma ermida e nela se pôs como ermitão e foi de tão boa vida e se entregava a jejuns e disciplinas (²), que esteve muito fraco e debilitado e diziam que dormia no chão sobre palhas; disso soube o bispo dom frei Juan de Zumarraga e lhe mandou que não fizesse vida tão áspera, e teve tão boa fama de ermitão Gaspar Díaz, que se puseram em sua companhia outros ermitães, e todos fizeram boas vidas, e depois de quatro anos que ali estava Deus foi servido levá-lo à sua santa glória [...] (³)."

(1) Tinha uma encomienda, podendo, assim, explorar a força de trabalho indígena.
(2) Autoflagelação.
(3) Todos os trechos citados da Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Façanhas bizarras de soldados que acompanharam Hernán Cortés na invasão do Império Asteca

A Hernán Cortés foram atribuídas todas as honras da conquista do México, com pouca ou nenhuma referência aos feitos e valor dos mais soldados - essa foi a queixa que, ao final de sua Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España, fez Bernal Díaz del Castillo. Com notável memória, porque já eram passados muitos anos desde o fim do Império Asteca, fez uma lista extensa dos homens que acompanharam Cortés, mencionando o nome de quase todos, além de algumas de suas façanhas. 
Contudo, nem todos se notabilizaram pelos feitos de armas. Vejam, leitores, dentre os citados por Bernal Díaz, alguns que tiveram fama por outras razões:
"Cristóbal de Olí (1) [...] morreu [...] degolado [...] porque se insurgiu com uma armada que Cortés lhe confiara."
"Pedro de Solis Atrás-da-porta, porque estava sempre em sua casa atrás da porta, olhando os que passavam na rua, mas não podia ser visto [...]."
"um bom soldado (2) que tinha uma mão a menos, que fora cortada pela Justiça em Castela [...]."
"Juan Perez, que matou sua mulher [...]."
"[...] Fulano Suarez o Velho, que matou sua mulher com uma pedra de moer milho [...]."
"[...] Gonzalo de Umbria, muito bom soldado, a este [...] Cortés mandou cortar os dedos dos pés [...]."
"[...] outro soldado que se chamava Yañes, natural de Córdoba, e este soldado foi conosco a Las Higueras, e enquanto isso sua mulher se casou com outro marido [...]."
"[...] outro soldado que se chamava Ribadeo, galego, que nós apelidamos Beberreo, porque bebia muito vinho [...]."
"[...] um soldado que se chamava Álvaro, homem do mar, natural de Palos, do qual se dizia que teve com índias da terra trinta filhos em cerca de três anos [...]."
Finalmente, três homens com o mesmo sobrenome - Tarifa -, dois deles destacados mais pelo que falavam que pelo que faziam:
"[...] três soldados que tinham por sobrenome Tarifa; um foi morador de Guaxaca [...]; outro era chamado Tarifa dos serviços, porque vivia dizendo que servia a sua majestade e não lhe davam nada [...]; e ao outro chamavam Tarifa das mãos brancas, [...], porque não era para a guerra nem para coisa de trabalho, mas apenas para falar de coisas passadas que lhe haviam acontecido em Sevilha [...]." (3)
(1) Foi um dos principais líderes da campanha de conquista de Tenochtitlán.
(2) Seu nome não foi referido por Bernal Diaz del Castillo.
(3) Todos os trechos aqui citados da  Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quinta-feira, 10 de junho de 2021

Pedro de Alvarado

Nascido em Badajoz em 1485 - antes, portanto, que Colombo chegasse à América pela primeira vez - Pedro de Alvarado foi membro importante do bando de aventureiros comandados por Hernán Cortés na invasão do Império Asteca. Foi responsável direto pelo incidente que provocou o levante da população de Tenochtitlán (¹) e resultou na fuga dos invasores, episódio que ficou conhecido como a "noite triste". Sim, triste, ao menos para os espanhóis (²), que perderam muitos companheiros, cavalos e armas, além da maior parte do ouro que tentavam conduzir para fora da grande cidade.
Mais tarde, após voltar à capital asteca e, finalmente, conquistá-la, Hernán Cortés decidiu que era hora de expandir os domínios espanhóis na América e, por essa razão, enviou grupos de soldados para outras áreas. Deviam "pacificar" indígenas, fazendo-os jurar lealdade ao rei da Espanha e, muito importante, deviam tomar informações sobre a existência de jazidas de metais preciosos que pudessem ser exploradas. Um desses grupos, sob o comando de Pedro de Alvarado, seguiu para a Guatemala. Não é ocioso questionar se Cortés, com alguma dificuldade para se equilibrar como chefe supremo dos invasores, não chegaria, afinal, a ter medo do impetuoso Alvarado, que já se notabilizara pela extrema crueldade - daí, portanto, a ideia de mandá-lo para longe.
Sabe-se, pelos escritos de Bernal Díaz del Castillo (³), que antes da partida, Cortés deu a Alvarado instruções explícitas quanto ao modo de se conduzir na região para onde seguia: "[...] mandava a Alvarado que com toda a diligência procurasse atrair [os indígenas] pela paz, sem fazer-lhes guerra, e que com certos intérpretes que levava, frei Bartolomé de Olmedo (⁴) lhes pregasse as coisas relativas à nossa fé, e que não lhes consentisse sacrifícios (⁵), nem sodomias e nem roubos uns aos outros, que as cadeias e redes que achasse feitas, em que costumam ter índios aprisionados para engordar e comer, que as quebrasse,  que os tirasse das prisões, e que com amor e boa vontade os atraísse para que prestassem obediência a Sua Majestade e em tudo lhes fizesse bons tratamentos [...]" (⁶). 
Fossem essas instruções dadas como mera formalidade ou não, parece que Pedro de Alvarado não julgou conveniente tê-las em conta. É o que se depreende de suas ações. Um incidente, apenas, relacionado ao modo como lidou com um cacique indígena que se opunha aos invasores, será suficiente para demonstrar o padrão de sua conduta: "[...] mandou prender o cacique daquela povoação e por sentença mandou queimá-lo. Frei Bartolomé de Olmedo pediu a Alvarado que queria ver se poderia ensiná-lo e pregar-lhe a fé de Cristo para batizá-lo; e o frade pediu um dia de prazo, e não o fez em dois, mas ao fim quis Jesus Cristo [sic] que o cacique se fizesse cristão, e foi batizado pelo frade, e pediu a Alvarado que não o queimassem, e sim que o enforcassem, e Alvarado concordou [...]" (⁷). Quanta caridade!
Não se enganem, meus leitores: assim marchavam na América, muitas vezes de mãos dadas, a conquista e a catequese.

(1) Capital do Império Asteca.
(2) Espanhóis eram predominantes no grupo liderado por Hernán Cortés, ainda que houvesse entre eles soldados de várias nacionalidades.
(3) Na época da conquista do México, era um jovem soldado. Muito tempo mais tarde, escreveu um relato pormenorizado dos acontecimentos que culminaram na destruição do Império Asteca.
(4) Religioso católico que acompanhava a expedição.
(5) Referência a sacrifícios humanos.
(6) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(7) Ibid.


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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Hernán Cortés e a conquista da capital asteca

Noventa e três dias foi quanto durou o cerco a Tenochtitlán, a capital asteca, empreendido por europeus, cujo comandante era o espanhol Hernán Cortés, e por indígenas aliados, principalmente tlaxcaltecas. 
Depois de ser escorraçado de lá em 1520, quando só a duras penas sobreviveu, tendo perdido mais de oitocentos homens, Cortés se preparou como podia para voltar. Reorganizou soldados e aliados, obteve mais cavalos e armas e fez construir embarcações, treze bergantins, que poderiam apoiar o cerco pela água. Era uma providência fundamental para quem queria conquistar uma cidade que estava, literalmente, construída, em grande parte, em uma ilha lacustre.
O processo de cerco e conquista seguiu as práticas comuns em guerras antigas, e que, com adaptações circunstanciais, vigoravam ainda no Século XVI. Tenochtitlán foi cercada por tropas, o suprimento regular de água foi cortado e o de alimentos dificultado. Escaramuças contínuas tinham por objetivo ir minando a resistência dos defensores, enquanto pontes e casas em áreas conquistadas iam sendo destruídas pelo fogo e, não sendo isso possível, eram demolidas. Espionagem e captura de inimigos, dos quais se arrancavam informações, não foram negligenciadas. 
Em termos de planejamento, talvez parecesse uma conquista fácil, mas não foi. O exército à disposição de Hernán Cortés era pouco numeroso e a resistência asteca, raiando ao heroísmo, chegou a provocar nos invasores dúvidas atrozes quanto à possibilidade de vitória. Cortés dividiu a gente que o acompanhava em três grupos, que deveriam atacar a partir de pontos estratégicos. Cada grupo tinha, além de combatentes a pé, alguns cavalarianos, balestreiros e escopeteiros, bem como bergantins com a respectiva tripulação. Índios aliados, em maior número, reforçavam o contingente.
A primeira grande providência, segundo Bernal Díaz del Castillo, soldado espanhol a serviço de Cortés, foi danificar a estrutura que fornecia água à capital asteca: "[...] indo quebrar os tubos, encontramos muitos guerreiros [astecas], que nos esperavam no caminho, porque tinham entendido corretamente que aquele seria o primeiro dano que lhes poderíamos fazer [...], e lhes quebramos os tubos por onde a água ia à sua cidade, e desde então nunca mais foi ao México enquanto a guerra durou" (¹).
O conflito, porém, estava longe de acabar, porque durante a noite uma infinidade de canoas cruzava o lago, vindo de povoações adjacentes, para levar água e alimentos à cidade. Entendeu-se que os bergantins deveriam entrar na luta para impedir a ação dos canoeiros. Obtiveram sucesso limitado, porque algumas canoas sempre escapavam e, além disso, os astecas logo descobriram que, colocando estacas no fundo do lago, as embarcações dos espanhóis ficariam impossibilitadas de navegar. Sua audácia foi tanta que chegaram mesmo a capturar um dos bergantins. Os combates eram contínuos, obrigando os espanhóis, em seus acampamentos, a uma vigilância permanente, dia e noite. O próprio Cortés quase morreu, e só foi salvo pela interferência de um soldado que, na ação, acabou perdendo a vida. Soldados feridos eram obrigados a ir à luta, até porque quase não havia entre eles quem estivesse em completa saúde. Com o passar do tempo, as tripulações dos bergantins encontraram um modo de navegar, a despeito das estacas na água, e, desde então, foram de maior utilidade. 
A captura de alguns astecas ofereceu informações que Cortés não desprezou. Havia ainda uma fonte de que a cidade se servia, e medidas foram prontamente adotadas para inutilizá-la. "[...] chegamos ao lugar em que tinham a fonte", disse Bernal Díaz, "[...] a qual quebramos e desfizemos para que não se servissem dela [...]" (²). 
Várias vezes Cortés enviou mensageiros com propostas de paz, que foram rechaçadas. Havia medo entre os astecas em relação ao que poderia acontecer, principalmente quanto à escravização dos derrotados, pois já chegara à cidade a informação de que inimigos capturados eram, usualmente, não só escravizados, mas tinham essa condição marcada no rosto a ferro quente. Presentes enviados por Cortés ao imperador Cuauhtémoc não foram suficientes para convencê-lo a depor as armas. A luta, portanto, continuou. 
Gradualmente e com grandes dificuldades os espanhóis foram conquistando terreno. Ao chegar perto da praça central da cidade já havia espaço aberto em que cavalos pudessem correr e, com a miséria reinando entre a população sitiada, gente faminta começou a aparecer nos acampamentos espanhóis. A fome e a sede, neste caso, deviam ser maiores que o medo.
Agora, a captura do imperador e seu séquito, que haviam se refugiado em um ponto da cidade que somente poderia ser alcançado por água, era apenas questão de tempo. Segundo Bernal Díaz, Hernán Cortés "ordenou a Gonzalo de Sandoval que entrasse com os bergantins no sítio e rincão da cidade onde se refugiavam Guatemuz (³) e toda a flor de seus capitães e pessoas mais nobres que havia no México" (⁴). Cuauhtémoc tinha, porém, canoas prontas para a fuga, e ainda fez uma tentativa desesperada nesse sentido - inútil, porém: "[...] Garci-Holguin alcançou as canoas [...] em que ia Guatemuz (³), [...] e soube que era o grande senhor do México, e deu sinais para que o aguardassem, mas não queriam e fez como se fosse atirar com escopetas e balestras, e Guatemuz (³) teve medo daquilo, e disse: "Não atirem, que sou o rei do México e desta terra, e peço que não toquem em minha mulher e nem em meus filhos [...], mas que me tomem e me levem até Malinche"." (⁵) "Malinche" era, conforme Bernal Díaz, o modo como os astecas se referiam a Cortés. 
Assim terminaram os noventa e três dias de cerco. Bernal Díaz, algo tagarela como escritor, assinalou a data do acontecimento: "Guatemuz (3) e seus capitães foram aprisionados em 13 de agosto, à hora de vésperas, dia do senhor Santo Hipólito, ano de 1521 [...]. Choveu, trovejou e relampejou aquela noite, e até meia-noite muito mais que outras vezes" (⁶).
Entre os vencedores atribuiu-se tudo à intervenção divina e houve muita festa. Posteriormente, Hernán Cortés não teve escrúpulos em torturar o jovem imperador capturado, para que revelasse o esconderijo de tesouros. Cuauhtémoc foi executado por enforcamento em 26 de fevereiro de 1525, na suposição de que andava tramando uma revolta contra os novos senhores daquilo que fora, até bem pouco tempo, o Império Asteca.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Cuauhtémoc.
(4) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid.
(6) Ibid.


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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Hernán Cortés e a escravização de indígenas no México

Depois da morte do imperador Montezuma, Hernán Cortés, líder de um bando de aventureiros cuja pretensão era a conquista do Império Asteca, concluiu que o levante da população de Tenochtitlán não poderia ser detido e, portanto, não restava a ele e seus homens nenhuma possibilidade de sobrevivência que não fosse a fuga. Nessa ideia parece ter sido até incitado por um astrólogo - lembrem-se, leitores, era o ano de 1520.
A fuga dos espanhóis aconteceu à noite, sob chuva e neblina. Cortés sobreviveu, mas as perdas em soldados, cavalos e armamento foram enormes. Morreram muitos indígenas aliados, morreu Botello, o astrólogo que aconselhara a fuga. O peso do ouro que tentavam carregar dificultava o deslocamento em condições tão adversas. Esse episódio ficou conhecido como "a noite triste". Pergunto: triste para quem?
Mesmo fora da capital asteca, a perseguição ao bando de Cortés continuou. Finalmente, os sobreviventes chegaram a um ponto em que, com alguma segurança, puderam curar os ferimentos recebidos e buscar a ajuda de indígenas que tinham interesse em pôr fim ao domínio asteca. Vê-se que, para Cortes, desistir não era uma opção. 
Medidas radicais logo foram adotadas, no intuito de reencetar a conquista do México. Uma delas veio sob a forma de escravizar todo indígena que matasse um espanhol, conforme explicou Bernal Díaz del Castillo, que, já idoso, fez um relato pormenorizado daquilo que havia vivido como um jovem soldado a serviço de Hernán Cortés: "[...] foi acordado que diante de um escrivão que desse fé do acontecido, se fizesse um documento, pelo qual se considerassem escravos todos os aliados do México [Império Asteca] que houvessem matado espanhóis, porque haviam jurado obediência a Sua Majestade [o rei da Espanha] e se rebelaram, e mataram mais de oitocentos e sessenta dos nossos e sessenta cavalos [...]." (¹)
Antes se prosseguir, talvez sejam necessárias algumas observações. A primeira delas é que, quando ainda julgava ter controle da capital asteca, Cortés havia imposto um juramento pelo qual se reconhecia o rei da Espanha como suserano. Essa era uma formalidade claramente compreensível aos europeus, mas não se pode ter certeza de que os astecas entendiam seu significado e consequências. Não obstante, foi uma justificativa para a escravização dos "rebeldes". Outra observação indispensável está relacionada à intenção de Cortés, ao lavrar um documento, de que fazia tudo dentro da legalidade. Ora, que legalidade era essa? A lógica da conquista, a pretexto de serviço ao rei e à religião.
Para provar que a ameaça de escravização não era apenas bazófia, adotou-se um expediente terrível: "[...] fizeram um ferro com que se havia de marcar os que se tomassem por escravos, que era uma [letra] G, que quer dizer guerra. [...]" (²). E, pouco depois, tiveram ocasião de colocar em prática o "novo regulamento": "[...] em Cachula haviam matado [...] quinze espanhóis, e neste [lugar] de Cachula conseguimos muitos escravos, de modo que em cerca de quarenta dias tivemos aquelas povoações pacíficas e castigadas" (³).
Explicitamente ou sob algum disfarce, a escravização logo seria um dos maiores pesadelos dos povos indígenas do Continente Americano. A varíola e outras doenças se encarregaram de completar o cenário infernal.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Armas dos espanhóis nas mãos de guerreiros astecas

Retirada é uma ação estratégica organizada, quando o confronto aberto parece indesejável ou impossível. Hernán Cortés bem que tentou, mas a saída de seu bando de invasores de Tenochtitlán, após a morte do imperador Montezuma, não foi mais que uma fuga, com um só lema: salve-se quem puder.
Sob o ataque da população local em fúria, espanhóis e indígenas aliados (¹) tentaram escapulir, carregando parte do enorme tesouro que haviam encontrado. Tanto peso, porém, era demais para quem precisava fugir para salvar a vida. Sob chuva, neblina e em terreno difícil, as perdas em homens, cavalos e armas foram terríveis. Para os sobreviventes, essa foi a "noite triste".
Era 1520. Nos meses seguintes, Cortés tratou de reorganizar seu grupo, atraindo mais soldados e obtendo armamento. Os astecas, contudo, não descansavam. Não davam tréguas, enviando grupos de combatentes que não permitiam que europeus e seus aliados pudessem sequer dormir em paz. Além do encontro eventual em templos astecas dos ossos de companheiros que haviam perdido, os invasores logo descobriram que as espadas deixadas em Tenochtitlán não eram desperdiçadas, quando, em algum combate, viam seus oponentes usando "lanças muito longas para matar os cavalos, nelas engastadas as espadas que nos tomaram na noite do desbarate" (²), segundo informou Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados que acompanhavam Cortés.   
Pode-se imaginar qual terá sido a reação dos espanhóis quando viram nas lanças astecas um brilho de lâminas de Toledo!... Mas não foi só. Ainda de acordo com Bernal Díaz, os valorosos astecas logo aprenderam a empunhar as espadas com maestria: "Os capitães mexicanos [...] traziam espadas das nossas, fazendo com elas muitas demonstrações de valentia, e diziam que com nossas armas nos haviam de matar [...]" (³).

(1) Principalmente tlaxcaltecas.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 


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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A morte de Montezuma, imperador asteca

Depois de entrar na capital asteca e aprisionar o imperador Montezuma, Hernán Cortés foi informado de que um exército numeroso, sob o comando de Pânfilo de Narváez, mandado desde Cuba pelo governador Diego Velásquez, acabara de desembarcar e estava já em marcha para pôr fim a seus projetos de conquista. Entendendo que sua única chance estava em não fugir ao confronto, Cortés saiu de Tenochtitlán, deixando entre os astecas somente aqueles a quem se confiou a guarda do imperador e a vigilância sobre o riquíssimo tesouro encontrado.
A despeito da franca desvantagem numérica, os comandados de Cortés suplantaram os de Narváez. Não tiveram, porém, muito tempo para comemorações, por chegarem notícias alarmantes do México, dando conta de uma sublevação geral, em decorrência de atitudes imprudentes de Pedro de Alvarado. Retornando a toda pressa, Cortés apenas pôde compreender que, já dentro da capital, ele e seus homens é que eram agora os prisioneiros, ainda que conservassem Montezuma em seu poder. 
Seguiram-se dias de combates sangrentos. De um lado, a população do México lutava para expulsar os invasores; de outro, os espanhóis se davam conta de que dificilmente sairiam dali vivos, mas não queriam renunciar ao tesouro asteca. 
Na tentativa de serenar os ânimos, Cortés compeliu Montezuma a falar ao povo, pedindo calma. A essa altura, porém, outro membro da família real já era apontado como governante, e o imperador prisioneiro não foi recebido com satisfação. Segundo o relato de Bernal Díaz del Castillo, soldado a serviço de Cortés, em um momento de descuido dos que deviam proteger Montezuma, alguém atirou contra ele "três pedradas, uma na cabeça, outra em um braço e outra em uma perna, e posto que lhe pedissem que se curasse e comesse, dizendo-lhe palavras amáveis, não quis [...]".(*) 
O que havia acontecido àquele que fora tratado como um deus, e a quem seus súditos chamavam "senhor, meu senhor, grande senhor"? Com uma autoridade alicerçada na força (sobre outros povos) e na religião (entre seu próprio povo), Montezuma mostrou-se incapaz de liderar os astecas contra um punhado de invasores europeus. 
Teriam as engrenagens do poder funcionado tão bem (pelo menos até ali), a ponto de disfarçarem a incapacidade de liderança por parte do imperador? Foi somente em meio a uma crise sem precedentes que a inaptidão de Montezuma II para o comando do Império Asteca ficou evidente, ainda que ele tenha sido, desde muito jovem, preparado para o cargo que ocupava. 
Supostas profecias, sugerindo a chegada de invasores que destruiriam o mundo asteca têm sido apontadas como causa para sua tímida reação diante das notícias relativas a estrangeiros que se aproximavam. Tentou negociar, ameaçou, bajulou, todavia jamais chamou seu povo às armas, em massa, para cortar a passagem aos que vinham do mar. A vitória teria sido fácil e rápida, se os astecas houvessem atacado com fúria idêntica à demonstrada mais tarde, quando suas crenças religiosas foram questionadas pelos espanhóis. Havia, também, suficientes intrigas palacianas e lutas surdas pelo poder na família real, mas nada disso explica, isoladamente, o comportamento apático do imperador ao receber Cortés e, posteriormente, ao ser aprisionado.
Montezuma morreu, ao que parece, em decorrência da pedrada na cabeça. Até os espanhóis choraram por ele, lamentando que não houvesse sido batizado por um dos religiosos que acompanhavam Cortés.

(*) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Um exército indígena para ajudar Cortés

Furioso com a ida de Hernán Cortés ao México, ocorrida sem sua aprovação, o governador espanhol Diego Velásquez enviara, desde Cuba, uma expedição sob o comando de Pánfilo de Narváez, com a finalidade de prender Cortés e pôr fim a seus sonhos de conquista. Isto prova que os ambiciosos conquistadores espanhóis contendiam entre si, buscando, a qualquer preço, o prêmio de honras, glória e, principalmente, riquezas incalculáveis.
Numericamente, a vantagem estava do lado de Narváez. Estima-se que dispunha de três homens para cada um do bando de seu oponente. Apesar disso, Cortés acabou vencendo, por adotar uma estratégia mais eficiente. É verdade, também, que pedira ajuda a chefes locais, e, por relato de Bernal Díaz del Castillo, sabemos que um grupo de mil e quinhentos lanceiros, ao qual denominou "índios de Chinanta" (¹), chegou a Cempoal com a intenção de participar do combate contra Narváez. Um aspecto muito interessante desse fato é que, através dele, pode-se ter uma visão da capacidade bélica dos povos nativos da região que viria a ser conhecida como Nova Espanha: "[...] vinham por capitães os caciques [...] e um de nossos soldados [...], e entraram em Cempoal com perfeita ordem, de dois em dois; e traziam lanças muito longas e encorpadas, e têm nelas [...] lâminas de pedra (²), que cortam como navalhas, [...] e cada índio trazia um escudo redondo, e com suas bandeiras estendidas e com muitas plumagens, tambores e trombetas, e entre cada dois lanceiros um flecheiro [...], e entraram tão corajosos, que era coisa de se notar, e sendo mil e quinhentos, pela maneira e ordem como vinham, pareciam três mil [...]." (³)
Impressiona, de fato, a ordem e disciplina reinantes na tropa indígena, facilmente perceptíveis nessa verdadeira fotografia em palavras feita por Bernal Díaz, cru e autêntico, como sempre. Mas por que razão, afinal, indígenas apoiavam Cortés? Esse astuto conquistador já tivera tempo suficiente para perceber que, entre os povos submetidos ao Império Asteca, reinava o maior descontentamento. Tratou, por conseguinte, de obter seu apoio, sempre que possível com promessas e presentes, mas com uso da intimidação, quando não cooperavam de boa vontade. De um modo geral, portanto, apoiavam Cortés, não só por temor aos espanhóis, mas porque odiavam a dominação asteca. 
Contudo, nesse dia da batalha de Cortés contra Narváez, a versão ameríndia da falange macedônica chegou tarde. À altura de sua entrada em Cempoal, Cortés e seu bando já eram vitoriosos e senhores da situação, Não obstante, no dizer de Bernal Díaz del Castillo, "Cortés falou aos capitães indígenas com muita gentileza, agradecendo sua vinda, deu a eles contas de Castela e mandou que voltassem a suas povoações [...]" (⁴). Sem perder de vista as riquezas do Império Asteca, era prudente angariar o maior apoio possível entre povos descontentes, para aquilo que ainda estava por vir.

(1) Chinantla.
(2) Provavelmente obsidiana.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

As primeiras laranjeiras da Nova Espanha

Gabolice ou realidade? Não sabemos ao certo, mas Bernal Díaz del Castillo, aventureiro espanhol que fez parte do bando de Hernán Cortés na chamada "conquista do México", alardeou ter sido o primeiro europeu a plantar sementes de laranja na região. Vamos ao relato feito por ele:
"Também quero dizer como semeei algumas sementes de laranja junto a outras casas de ídolos (¹), e foi desta maneira: como havia muitos mosquitos [...], fui dormir em uma casa alta de ídolos (²), e ali junto àquela casa semeei sete ou oito sementes de laranja que havia trazido de Cuba, e nasceram muito bem, porque parece que os sacerdotes daqueles ídolos cuidaram para que não fossem comidas pelas formigas, e regaram e cuidaram desde que viram que eram plantas diferentes das suas. [...]." (³)
Como podemos ter certeza de que essas foram, de fato, as primeiras laranjeiras que cresceram ali? Resposta: Não podemos ter certeza. Certo é, porém, que, como muitas vezes acontece, Bernal Díaz reivindicou para si a façanha, e a ele cabe a honra do feito. Contudo, não se pode deixar de fazer algumas objeções. Como estaria ele em tão bom relacionamento com os sacerdotes locais, a ponto de cuidarem das laranjeiras bebês?  Como lhe passara pela cabeça trazer desde Cuba as sementes de laranja? Tencionaria ficar em definitivo no lugar? Que prova teria, ao escrever, de que suas pequenas mudas de laranja haviam, afinal, crescido o suficiente para se tornarem laranjeiras produtivas, mesmo que apenas de laranjas azedas?
Cheio de orgulho pelo feito, Bernal Díaz del Castillo concluiu assim o assunto:  "Trouxe isto à memória para que se saiba que estas foram as primeiras laranjeiras plantadas na Nova Espanha [...]" (⁴). Admitindo como verdadeira essa possibilidade, as implicações, leitores, são enormes.

(1) Era assim que ele se referia aos locais de culto dos povos nativos.
(2) Provavelmente uma pirâmide de degraus.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos dessa obra citados aqui foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

A busca por um tesouro, um imperador aprisionado e a colocação de uma cruz no principal templo asteca

Tendo chegado e conseguido entrar em Tenochtitlán, a capital asteca, Hernán Cortés se fez convidar pelo imperador Montezuma para ir visitar o principal templo da cidade. Os astecas, como se sabe, eram politeístas e, em seus rituais, incluíam a prática de sacrifícios humanos. Em lá chegando, Cortés teve a ideia de propor a Montezuma que se desfizesse de seus deuses, substituindo-os pelas práticas religiosas que os espanhóis traziam: "Para que vossa majestade e todos os seus sacerdotes  saibam, faça-me o favor e tenha por bem que no alto desta torre coloquemos uma cruz, e junto aos santuários [...] ponhamos uma imagem de Nossa Senhora [...]" (*).
Qual imaginam, leitores, foi a reação de Montezuma? Ficou furioso, é claro, e respondeu, ainda que mantendo a compostura: "[...] Se soubesse que tal desaforo me havias de dizer, não te mostraria meus deuses, que consideramos muito bons, nos dão saúde, água e boas colheitas [...], e a eles temos de adorar e oferecer sacrifícios. Peço que não sejam ditas outras palavras para desonrá-los" (*).
Sabemos desse diálogo porque Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados espanhóis, escreveu, muito tempo depois, um relato da chamada "conquista do México", no qual o incidente é referido. Mas, entrando, por um instante, nos domínios da chamada História Contrafactual, convido os leitores a uma reflexão sobre o que poderia ter acontecido se Montezuma, em lugar de ficar furioso com a proposta de Cortés, houvesse concordado, fosse por medo ou curiosidade, ou sabe-se lá que outro sentimento. Tocando as bordas do absurdo: o que sucederia se os astecas houvessem, em massa, decidido que, daí por diante, seriam todos cristãos, pondo de lado suas seculares práticas politeístas? Teriam os espanhóis, num arroubo de alegria, festejado os novos irmãos de fé e, cristãmente, saído do México para ir à Espanha notificar a "seu rei e natural senhor" o sucesso de sua expedição missionária? Quem é que acredita na possibilidade de uma coisa dessas?
Ora, amigos leitores, o bando de aventureiros europeus (espanhóis, majoritariamente), não fora tão longe, passando por tantos riscos e privações, simplesmente pela glória de plantar uma cruz na mais importante pirâmide escalonada do México. Não, a expectativa era outra: riqueza, e muita riqueza, tão rapidamente quanto possível. Que fariam eles, se Montezuma e sua gente concordassem em se fazer cristãos? Iriam, ainda assim, aprisionar o imperador e exigir o gigantesco tesouro, cuja localização haviam, incidentalmente, descoberto?
Posteriormente, tendo aprisionado Montezuma, que, por algum tempo, foi conservado como uma espécie de imperador fantoche, para evitar agitações populares, Cortés impôs aos astecas a concessão de um lugar para símbolos cristãos no templo. Sem capacidade para reagir, Montezuma, a contragosto, teve que concordar. Seguimos com a narrativa de Bernal Díaz: "[...] Montezuma, ainda que com suspiros e semblante muito triste, disse que conversaria com os sacerdotes, e, depois de muitas palavras com eles, se pôs uma altar nosso, afastado de seus malditos ídolos, e a imagem de Nossa Senhora e uma cruz, e com muita devoção e dando graças a Deus, disseram missa cantada o padre da Mercê,  e ajudava a missa o clérigo Juan Díaz e muitos de nossos soldados; ali nosso capitão [Hernán Cortés] mandou pôr um soldado velho como guarda, e pediu a Montezuma que mandasse aos sacerdotes [astecas] que não tocassem em nada, salvo para varrer, queimar incenso e para pôr candeias de cera ardente dia e noite, ramos e flores" (*). 
Creio que são dispensáveis mais palavras para elucidar como andava a suposta "catequese". A Bernal Díaz faltou apenas a ideia de dizer que, para homens tão devotos, como aqueles do bando de Cortés, só mesmo a canonização seria uma recompensa adequada.

(*) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Todos os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.