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quarta-feira, 24 de julho de 2024

Centauros

Na mitologia grega, centauros eram seres que tinham o corpo parcialmente humano - tronco, braços e cabeça - e o restante, de equinos. Os espanhóis comandados por Hernán Cortés que invadiram o Império Asteca devem ter-se achado mais ou menos centáuricos, ou os indígenas que os combatiam é que isto pensaram deles, ainda que nada soubessem sobre os seres mitológicos da Grécia Antiga.
O soldado Bernal Díaz del Castillo, que acompanhou Cortés em sua aventura de conquista e destruição do Império Asteca, registrou isto em suas memórias da guerra, ao falar de como os povos indígenas reagiam ao ver cavalos:
"[...] Vimos chegar os que combatiam a cavalo, e como aqueles esquadrões [indígenas] estavam envolvidos em nos fazer guerra, não perceberam tão prontamente os que vinham a cavalo, porque vinham pelas costas; e como o campo era plano e os cavaleiros montavam muito bem, e alguns dos cavalos eram agitados e corriam muito, deram-lhes uma boa carga, usando as lanças como queriam (¹) e como a ocasião requeria [...]. Assim os índios acreditaram que o cavalo e o cavaleiro formavam um só corpo, porque nunca antes haviam visto cavalos [...]." (²) 
O caso é que os homens que acompanhavam Cortés nada tinham de centauros, não eram seres mitológicos e muito menos divinos. Como os povos indígenas logo iriam descobrir, eram bastante humanos, com os piores objetivos fundados na cobiça e na sede por enriquecimento rápido. Segundo Bernal Díaz del Castillo, pelo menos oitocentos indígenas morreram nesse que foi o primeiro combate na guerra de conquista. É pouco provável que alguém tivesse se dado ao trabalho de contar os corpos dos que morreram, mas, como gente prática em guerras, talvez não errassem na estimativa, ainda que seja possível admitir algum exagero para valorização da façanha.

(1) A cavalaria costumava ir ao combate tendo lanças como arma, que cada cavaleiro era treinado a conduzir. 
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quarta-feira, 17 de julho de 2024

Introdução da varíola entre os astecas e outros povos indígenas

A varíola não era conhecida na América antes da chegada de europeus. Foi assim, segundo Bernal Díaz del Castillo (¹), que a doença se introduziu entre indígenas, ao tempo em que Montezuma, imperador Asteca, caíra prisioneiro de espanhóis, e que Hernán Cortés se vira obrigado a combater os homens de Pánfilo de Narváez, que vinha contra ele:
"[...] Voltemos agora ao Narváez e a um negro que trazia cheio de varíolas, [..] que foi causa que toda a terra se enchesse delas, de que se seguiu grande mortandade, porque, conforme diziam os índios, nunca antes tinham tido tal enfermidade, e como não a conheciam, lavavam-se muitas vezes, e [...] morreram muitos deles." (²) 
Bernal Díaz também relatou que a varíola foi responsável pela morte de muitos chefes indígenas:
"[...] como naquele tempo a varíola andou tão comum na Nova Espanha, morreram muitos caciques [...]" (³).
Sem qualquer imunidade contra a terrível doença, os indígenas morriam depois de muito sofrimento. Vê-se, portanto, que não só de cavalos, armas de fogo e soldados se fez a chamada "conquista" do Império Asteca e de outros povos da mesma região. A introdução, intencional ou não, de novas doenças, foi muito importante para debilitar a resistência dos povos nativos em sua tentativa de conter os invasores espanhóis. 

(1) Soldado a serviço de Hernán Cortés, o autoproclamado conquistador do México. 
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.   


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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Altares domésticos dos astecas

Não só de sacrifícios em altares no alto das pirâmides escalonadas, com intervenção da elite sacerdotal, era feita a religião dos astecas. Essa, por certo, era mais religião de Estado que fenômeno pessoal e quotidiano. Se podemos crer nas palavras de Bernal Díaz del Castillo, soldado espanhol que participou da conquista e destruição do Império Asteca com Hernán Cortés, havia, também, práticas religiosas domésticas:
"[...] cada índio e índia tinha dois altares, um no lugar em que dormiam, outro na porta da casa, [..] cheios de ídolos (¹), alguns pequenos, outros grandes, pedras pequenas e grandes, e uns livrinhos de papel feito de casca de árvore, a que chamam amatl, e neles seus sinais do tempo e coisas passadas. [...]" (²)
Sabe-se que Bernal Díaz escreveu suas memórias da guerra contra os astecas muito tempo depois dos acontecimentos. Quanto é ele confiável? É difícil determinar, mas foi, de qualquer modo, testemunha ocular, e conviveu com os indígenas antes e depois da "conquista", e pôde, assim, fazer observações em primeira mão. É verdade que tudo passava pelo filtro de suas convicções religiosas, mas, ressalvados esses fatores, é interessante que tenha registrado como os astecas que encontrou faziam suas práticas religiosas no âmbito privado. 
Para quem hoje se interessa por estudar a cultura dos povos indígenas, resta lamentar que nem todos os livrinhos com imagens que representavam "coisas passadas" tenham sobrevivido. Os "conquistadores" tinham pressa em apagar tudo o que remetia às crenças nativas e, para isso, muitos deles não hesitavam em queimar qualquer coisa que encontravam. Em uma época em que europeus queimavam pessoas que se atreviam a pensar diferente em matéria de religião, por que não queimariam os objetos de culto dos astecas? 

(1) Esculturas ou outras representações de deuses.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias



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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Soldados de Hernán Cortés que se tornaram monges

Os homens que seguiram Hernán Cortés na guerra que culminou com a conquista do Império Asteca eram movidos, na mais esmagadora maioria, pela ambição. Queriam ficar ricos, muito ricos, no menor tempo possível. Alguns - poucos - conseguiram. Muitos morreram por doenças, ferimentos recebidos em combate ou foram aprisionados por indígenas e sacrificados. Dentre os sobreviventes, houve alguns que tomaram um rumo quase inusitado, diante das pretensões anteriores: professaram em alguma ordem religiosa, tornando-se monges, portanto.
Seriam estes movidos pela consciência da destruição que haviam causado e, com a vida religiosa, pretenderiam, quem sabe, redimir os atos cruéis do passado? Ou foram movidos apenas pela influência de seu tempo, que concedia um valor extremo à vida religiosa, ainda que poucos fossem, de fato, estritos praticantes da regra da respectiva ordem?
Um única resposta poderia fazer injustiça a tais homens. Essas hipóteses devem ser consideradas, sem exclusão de outras, ainda. Mas quem foram eles, afinal?
De acordo com Bernal Díaz del Castillo, que também acompanhou Cortés, e que não se tornou monge, mas escreveu a Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España, estavam entre os que optaram pela vida monástica estes soldados:
"[...] outro bom soldado que se chamava Villasinda, natural de Portillo, que se tornou frade franciscano [...]."
"[...] outro soldado que tinha por sobrenome Lencero, [...], que foi bom soldado e se tornou frade mercedário; [...] Alonso Durán, que era um tanto velho e não enxergava bem, que ajudava como sacristão e se tonou frade mercedário [...]."
"[...] um soldado que se chamava Síndos de Portillo, natural de Portillo, e teve índios muito bons (¹) e esteve rico, e deixou seus índios e vendeu seus bens, repartiu-os entre os pobres e se tornou frade, e foi de santa vida; e outro bom soldado que se chamava Quintero, natural de Moguel, e teve bons índios e esteve rico, e o deu por Deus e se tornou frade franciscano e foi bom religioso; e outro soldado que se chamava Alonso de Aguilar [...], foi pessoa rica e teve bom repartimiento de índios, vendeu tudo e entregou a Deus, e se tornou frade dominicano e foi muito bom religioso [...]."
É preciso reconhecer que nem todos perseveraram na vida monástica:
"[...] outro soldado chamado Fulano Burguillos, teve bons índios e esteve rico, e deixou e se tornou frade franciscano, e este Burguillos depois saiu da Ordem; e outro bom soldado que se chamava Escalante, tinha boa aparência e era bom cavaleiro, tornou-se frade franciscano, depois saiu do monastério e voltou a triunfar, e cerca de um mês mais tarde tornou a tomar o hábito e foi bom religioso [...]."
Por outro lado, havia também quem fosse a extremos:
"[...] outro soldado que se chamava Gaspar Díaz, natural de Castilla la Vieja, e foi rico, assim por seus índios como por seus negócios, e tudo entregou a Deus e se foi aos cumes de Guaxocingo, em lugar muito isolado, fez uma ermida e nela se pôs como ermitão e foi de tão boa vida e se entregava a jejuns e disciplinas (²), que esteve muito fraco e debilitado e diziam que dormia no chão sobre palhas; disso soube o bispo dom frei Juan de Zumarraga e lhe mandou que não fizesse vida tão áspera, e teve tão boa fama de ermitão Gaspar Díaz, que se puseram em sua companhia outros ermitães, e todos fizeram boas vidas, e depois de quatro anos que ali estava Deus foi servido levá-lo à sua santa glória [...] (³)."

(1) Tinha uma encomienda, podendo, assim, explorar a força de trabalho indígena.
(2) Autoflagelação.
(3) Todos os trechos citados da Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Façanhas bizarras de soldados que acompanharam Hernán Cortés na invasão do Império Asteca

A Hernán Cortés foram atribuídas todas as honras da conquista do México, com pouca ou nenhuma referência aos feitos e valor dos mais soldados - essa foi a queixa que, ao final de sua Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España, fez Bernal Díaz del Castillo. Com notável memória, porque já eram passados muitos anos desde o fim do Império Asteca, fez uma lista extensa dos homens que acompanharam Cortés, mencionando o nome de quase todos, além de algumas de suas façanhas. 
Contudo, nem todos se notabilizaram pelos feitos de armas. Vejam, leitores, dentre os citados por Bernal Díaz, alguns que tiveram fama por outras razões:
"Cristóbal de Olí (1) [...] morreu [...] degolado [...] porque se insurgiu com uma armada que Cortés lhe confiara."
"Pedro de Solis Atrás-da-porta, porque estava sempre em sua casa atrás da porta, olhando os que passavam na rua, mas não podia ser visto [...]."
"um bom soldado (2) que tinha uma mão a menos, que fora cortada pela Justiça em Castela [...]."
"Juan Perez, que matou sua mulher [...]."
"[...] Fulano Suarez o Velho, que matou sua mulher com uma pedra de moer milho [...]."
"[...] Gonzalo de Umbria, muito bom soldado, a este [...] Cortés mandou cortar os dedos dos pés [...]."
"[...] outro soldado que se chamava Yañes, natural de Córdoba, e este soldado foi conosco a Las Higueras, e enquanto isso sua mulher se casou com outro marido [...]."
"[...] outro soldado que se chamava Ribadeo, galego, que nós apelidamos Beberreo, porque bebia muito vinho [...]."
"[...] um soldado que se chamava Álvaro, homem do mar, natural de Palos, do qual se dizia que teve com índias da terra trinta filhos em cerca de três anos [...]."
Finalmente, três homens com o mesmo sobrenome - Tarifa -, dois deles destacados mais pelo que falavam que pelo que faziam:
"[...] três soldados que tinham por sobrenome Tarifa; um foi morador de Guaxaca [...]; outro era chamado Tarifa dos serviços, porque vivia dizendo que servia a sua majestade e não lhe davam nada [...]; e ao outro chamavam Tarifa das mãos brancas, [...], porque não era para a guerra nem para coisa de trabalho, mas apenas para falar de coisas passadas que lhe haviam acontecido em Sevilha [...]." (3)
(1) Foi um dos principais líderes da campanha de conquista de Tenochtitlán.
(2) Seu nome não foi referido por Bernal Diaz del Castillo.
(3) Todos os trechos aqui citados da  Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quinta-feira, 8 de julho de 2021

Hernán Cortés e o começo da criação de porcos em Honduras

Para bem e/ou para mal, Hernán Cortés, o espanhol que liderou um bando de aventureiros na conquista do Império Asteca, é figura à qual se atribuem muitas façanhas e aventuras, algumas notáveis, outras prosaicas. Trataremos de uma delas, e fica a critério de quem lê dizer se pode ser classificada de um ou outro modo.
Embora Bernal Díaz del Castillo, que relata o acontecimento, não tenha designado a ele uma data precisa, pode-se presumir que tenha ocorrido por volta de 1525, quando, após a conquista do México, Cortés empreendeu uma marcha para combater opositores (¹). Ia com muitos soldados, alguns a cavalo, outros a pé, indígenas carregadores e combatentes. Após essa comitiva, seguia, literalmente caminhando para a morte, certo número de porcos, para garantir que o aventureiro não tivesse falta de comida. Segundo Bernal Díaz, a outros não se reservava tal acepipe, de modo que, de boa ou má vontade, era a população indígena que acabava fornecendo alimento para tanta gente.
Voltemos a falar dos porcos. Chegando a Honduras, Hernán Cortés encontrou uma povoação de espanhóis chamada Trujillo (²), na qual os colonizadores viviam em condições precárias. Ora, restavam ainda alguns sobreviventes da manada que acompanhara Cortés, e foi assim que ocorreu a ele a ideia de deixá-los ali, segundo informação de Bernal Díaz, "para que gerassem descendência, por ter-lhe dito um espanhol que aquela era uma boa terra para multiplicá-los, deixando-os soltos nas ilhotas e sem que fosse preciso guardá-los, e aconteceu como se disse, pois em dois anos havia muitos porcos e iam caçá-los. [...]" (³).
Portanto, meus leitores, admitindo ser fidedigno o relato de Bernal Díaz del Castillo, cabe a Hernán Cortés o título de introdutor da criação de porcos em Honduras. É pouco provável, contudo, que ele próprio desejasse ser lembrado por esse feito. 
 
Porcos, em imagem do Século XVI (⁴)

(1) Principalmente Cristóbal de Olí.
(2) Colonizadores muitas vezes fundavam povoações dando a elas o nome de alguma cidade europeia. Foi o que aconteceu neste caso.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) GESNER, Conrad. Icones Animalium Quadrupedum Viviparorum et Oviparorum. Zürich: Christof Froshover, 1560, p. 24. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 10 de junho de 2021

Pedro de Alvarado

Nascido em Badajoz em 1485 - antes, portanto, que Colombo chegasse à América pela primeira vez - Pedro de Alvarado foi membro importante do bando de aventureiros comandados por Hernán Cortés na invasão do Império Asteca. Foi responsável direto pelo incidente que provocou o levante da população de Tenochtitlán (¹) e resultou na fuga dos invasores, episódio que ficou conhecido como a "noite triste". Sim, triste, ao menos para os espanhóis (²), que perderam muitos companheiros, cavalos e armas, além da maior parte do ouro que tentavam conduzir para fora da grande cidade.
Mais tarde, após voltar à capital asteca e, finalmente, conquistá-la, Hernán Cortés decidiu que era hora de expandir os domínios espanhóis na América e, por essa razão, enviou grupos de soldados para outras áreas. Deviam "pacificar" indígenas, fazendo-os jurar lealdade ao rei da Espanha e, muito importante, deviam tomar informações sobre a existência de jazidas de metais preciosos que pudessem ser exploradas. Um desses grupos, sob o comando de Pedro de Alvarado, seguiu para a Guatemala. Não é ocioso questionar se Cortés, com alguma dificuldade para se equilibrar como chefe supremo dos invasores, não chegaria, afinal, a ter medo do impetuoso Alvarado, que já se notabilizara pela extrema crueldade - daí, portanto, a ideia de mandá-lo para longe.
Sabe-se, pelos escritos de Bernal Díaz del Castillo (³), que antes da partida, Cortés deu a Alvarado instruções explícitas quanto ao modo de se conduzir na região para onde seguia: "[...] mandava a Alvarado que com toda a diligência procurasse atrair [os indígenas] pela paz, sem fazer-lhes guerra, e que com certos intérpretes que levava, frei Bartolomé de Olmedo (⁴) lhes pregasse as coisas relativas à nossa fé, e que não lhes consentisse sacrifícios (⁵), nem sodomias e nem roubos uns aos outros, que as cadeias e redes que achasse feitas, em que costumam ter índios aprisionados para engordar e comer, que as quebrasse,  que os tirasse das prisões, e que com amor e boa vontade os atraísse para que prestassem obediência a Sua Majestade e em tudo lhes fizesse bons tratamentos [...]" (⁶). 
Fossem essas instruções dadas como mera formalidade ou não, parece que Pedro de Alvarado não julgou conveniente tê-las em conta. É o que se depreende de suas ações. Um incidente, apenas, relacionado ao modo como lidou com um cacique indígena que se opunha aos invasores, será suficiente para demonstrar o padrão de sua conduta: "[...] mandou prender o cacique daquela povoação e por sentença mandou queimá-lo. Frei Bartolomé de Olmedo pediu a Alvarado que queria ver se poderia ensiná-lo e pregar-lhe a fé de Cristo para batizá-lo; e o frade pediu um dia de prazo, e não o fez em dois, mas ao fim quis Jesus Cristo [sic] que o cacique se fizesse cristão, e foi batizado pelo frade, e pediu a Alvarado que não o queimassem, e sim que o enforcassem, e Alvarado concordou [...]" (⁷). Quanta caridade!
Não se enganem, meus leitores: assim marchavam na América, muitas vezes de mãos dadas, a conquista e a catequese.

(1) Capital do Império Asteca.
(2) Espanhóis eram predominantes no grupo liderado por Hernán Cortés, ainda que houvesse entre eles soldados de várias nacionalidades.
(3) Na época da conquista do México, era um jovem soldado. Muito tempo mais tarde, escreveu um relato pormenorizado dos acontecimentos que culminaram na destruição do Império Asteca.
(4) Religioso católico que acompanhava a expedição.
(5) Referência a sacrifícios humanos.
(6) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(7) Ibid.


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quinta-feira, 20 de maio de 2021

Como indígenas lutavam contra cavalos

Cavalos eram desconhecidos na América antes da chegada de europeus no final do Século XV, e nas guerras de conquista, empreendidas principalmente por espanhóis, mostraram-se formidáveis. O modo como ameríndios reagiram à sua presença pode, talvez, ser comparado ao espanto dos romanos quando viram elefantes no exército de Pirro. Contudo, não tardou para que indígenas descobrissem que homem e cavalo não formavam um só e centáurico ser, que espanhóis não eram deuses e que cavalos eram mortais. Importava, assim, aprender a lutar contra eles.
Conhecendo muito bem o território em que viviam, astecas e outros povos vizinhos tentavam forçar os invasores à luta em terrenos difíceis para a cavalaria, cavavam buracos que, disfarçados com arbustos, eram armadilhas terríveis e tanto mais eficazes se, em seu interior, fossem colocadas estacas pontiagudas.
Mas não era só. De acordo com Bernal Díaz del Castillo, soldado a serviço de Hernán Cortés, estas eram, dentre outras, algumas práticas adotadas por indígenas quando deviam enfrentar homens a cavalo:
  • "Quero dizer que se juntavam seis ou sete dos contrários e se abraçavam com os cavalos [...], e ainda derrubaram a um soldado do cavalo, e se não o socorrêssemos, já o levariam a sacrificar [...]" (¹). Esse incidente ocorreu em luta contra chiapanecas.
  • "[...] muitos deles traziam cordas para jogar laços aos cavalos [...] para derrubá-los, e tinham estendidas em outros lugares, contra os cavalos, muitas redes que costumam usar para caçar veados [...]" (²). Aqui, novamente, Bernal Díaz falava dos chiapanecas.
  • "[...] achamos todos os caminhos bloqueados, cheios de troncos e árvores cortadas, muito obstruídos, que cavalos não podiam passar [...]" (³). Neste caso, ainda era possível desobstruir o caminho, mas a tarefa retardava a marcha e dava aos ameríndios a oportunidade da fuga.
Vê-se, facilmente, que a chamada conquista da América não se fez sem resistência. Cavalos eram caros e pouco numerosos na época em que Cortés chegou ao México. Era preciso, assim, poupá-los, tanto quanto possível. Soldados que combatiam a cavalo levavam uma lança, e perceberam que correriam menos risco e seriam de maior utilidade a seu bando de invasores se, em lugar de tentar atingir indígenas a cada lado, cavalgassem à maior velocidade que podiam, com a lança em riste, à altura do rosto dos oponentes, até obrigá-los à fuga. Intimidavam, é fato, mas não eram invencíveis e não são a única explicação para as vitórias obtidas por grupos relativamente pequenos de europeus que investiam contra exércitos numerosos de ameríndios. Armas de fogo, estratégia eficiente, incentivo às dissensões existentes entre povos indígenas e o auxílio silencioso, ainda que não intencional, de doenças como a gripe e a varíola, tiveram parte no processo de dominação imposto aos povos do Continente Americano.  

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Todos os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Hernán Cortés e a conquista da capital asteca

Noventa e três dias foi quanto durou o cerco a Tenochtitlán, a capital asteca, empreendido por europeus, cujo comandante era o espanhol Hernán Cortés, e por indígenas aliados, principalmente tlaxcaltecas. 
Depois de ser escorraçado de lá em 1520, quando só a duras penas sobreviveu, tendo perdido mais de oitocentos homens, Cortés se preparou como podia para voltar. Reorganizou soldados e aliados, obteve mais cavalos e armas e fez construir embarcações, treze bergantins, que poderiam apoiar o cerco pela água. Era uma providência fundamental para quem queria conquistar uma cidade que estava, literalmente, construída, em grande parte, em uma ilha lacustre.
O processo de cerco e conquista seguiu as práticas comuns em guerras antigas, e que, com adaptações circunstanciais, vigoravam ainda no Século XVI. Tenochtitlán foi cercada por tropas, o suprimento regular de água foi cortado e o de alimentos dificultado. Escaramuças contínuas tinham por objetivo ir minando a resistência dos defensores, enquanto pontes e casas em áreas conquistadas iam sendo destruídas pelo fogo e, não sendo isso possível, eram demolidas. Espionagem e captura de inimigos, dos quais se arrancavam informações, não foram negligenciadas. 
Em termos de planejamento, talvez parecesse uma conquista fácil, mas não foi. O exército à disposição de Hernán Cortés era pouco numeroso e a resistência asteca, raiando ao heroísmo, chegou a provocar nos invasores dúvidas atrozes quanto à possibilidade de vitória. Cortés dividiu a gente que o acompanhava em três grupos, que deveriam atacar a partir de pontos estratégicos. Cada grupo tinha, além de combatentes a pé, alguns cavalarianos, balestreiros e escopeteiros, bem como bergantins com a respectiva tripulação. Índios aliados, em maior número, reforçavam o contingente.
A primeira grande providência, segundo Bernal Díaz del Castillo, soldado espanhol a serviço de Cortés, foi danificar a estrutura que fornecia água à capital asteca: "[...] indo quebrar os tubos, encontramos muitos guerreiros [astecas], que nos esperavam no caminho, porque tinham entendido corretamente que aquele seria o primeiro dano que lhes poderíamos fazer [...], e lhes quebramos os tubos por onde a água ia à sua cidade, e desde então nunca mais foi ao México enquanto a guerra durou" (¹).
O conflito, porém, estava longe de acabar, porque durante a noite uma infinidade de canoas cruzava o lago, vindo de povoações adjacentes, para levar água e alimentos à cidade. Entendeu-se que os bergantins deveriam entrar na luta para impedir a ação dos canoeiros. Obtiveram sucesso limitado, porque algumas canoas sempre escapavam e, além disso, os astecas logo descobriram que, colocando estacas no fundo do lago, as embarcações dos espanhóis ficariam impossibilitadas de navegar. Sua audácia foi tanta que chegaram mesmo a capturar um dos bergantins. Os combates eram contínuos, obrigando os espanhóis, em seus acampamentos, a uma vigilância permanente, dia e noite. O próprio Cortés quase morreu, e só foi salvo pela interferência de um soldado que, na ação, acabou perdendo a vida. Soldados feridos eram obrigados a ir à luta, até porque quase não havia entre eles quem estivesse em completa saúde. Com o passar do tempo, as tripulações dos bergantins encontraram um modo de navegar, a despeito das estacas na água, e, desde então, foram de maior utilidade. 
A captura de alguns astecas ofereceu informações que Cortés não desprezou. Havia ainda uma fonte de que a cidade se servia, e medidas foram prontamente adotadas para inutilizá-la. "[...] chegamos ao lugar em que tinham a fonte", disse Bernal Díaz, "[...] a qual quebramos e desfizemos para que não se servissem dela [...]" (²). 
Várias vezes Cortés enviou mensageiros com propostas de paz, que foram rechaçadas. Havia medo entre os astecas em relação ao que poderia acontecer, principalmente quanto à escravização dos derrotados, pois já chegara à cidade a informação de que inimigos capturados eram, usualmente, não só escravizados, mas tinham essa condição marcada no rosto a ferro quente. Presentes enviados por Cortés ao imperador Cuauhtémoc não foram suficientes para convencê-lo a depor as armas. A luta, portanto, continuou. 
Gradualmente e com grandes dificuldades os espanhóis foram conquistando terreno. Ao chegar perto da praça central da cidade já havia espaço aberto em que cavalos pudessem correr e, com a miséria reinando entre a população sitiada, gente faminta começou a aparecer nos acampamentos espanhóis. A fome e a sede, neste caso, deviam ser maiores que o medo.
Agora, a captura do imperador e seu séquito, que haviam se refugiado em um ponto da cidade que somente poderia ser alcançado por água, era apenas questão de tempo. Segundo Bernal Díaz, Hernán Cortés "ordenou a Gonzalo de Sandoval que entrasse com os bergantins no sítio e rincão da cidade onde se refugiavam Guatemuz (³) e toda a flor de seus capitães e pessoas mais nobres que havia no México" (⁴). Cuauhtémoc tinha, porém, canoas prontas para a fuga, e ainda fez uma tentativa desesperada nesse sentido - inútil, porém: "[...] Garci-Holguin alcançou as canoas [...] em que ia Guatemuz (³), [...] e soube que era o grande senhor do México, e deu sinais para que o aguardassem, mas não queriam e fez como se fosse atirar com escopetas e balestras, e Guatemuz (³) teve medo daquilo, e disse: "Não atirem, que sou o rei do México e desta terra, e peço que não toquem em minha mulher e nem em meus filhos [...], mas que me tomem e me levem até Malinche"." (⁵) "Malinche" era, conforme Bernal Díaz, o modo como os astecas se referiam a Cortés. 
Assim terminaram os noventa e três dias de cerco. Bernal Díaz, algo tagarela como escritor, assinalou a data do acontecimento: "Guatemuz (3) e seus capitães foram aprisionados em 13 de agosto, à hora de vésperas, dia do senhor Santo Hipólito, ano de 1521 [...]. Choveu, trovejou e relampejou aquela noite, e até meia-noite muito mais que outras vezes" (⁶).
Entre os vencedores atribuiu-se tudo à intervenção divina e houve muita festa. Posteriormente, Hernán Cortés não teve escrúpulos em torturar o jovem imperador capturado, para que revelasse o esconderijo de tesouros. Cuauhtémoc foi executado por enforcamento em 26 de fevereiro de 1525, na suposição de que andava tramando uma revolta contra os novos senhores daquilo que fora, até bem pouco tempo, o Império Asteca.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Cuauhtémoc.
(4) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid.
(6) Ibid.


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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Armas dos espanhóis nas mãos de guerreiros astecas

Retirada é uma ação estratégica organizada, quando o confronto aberto parece indesejável ou impossível. Hernán Cortés bem que tentou, mas a saída de seu bando de invasores de Tenochtitlán, após a morte do imperador Montezuma, não foi mais que uma fuga, com um só lema: salve-se quem puder.
Sob o ataque da população local em fúria, espanhóis e indígenas aliados (¹) tentaram escapulir, carregando parte do enorme tesouro que haviam encontrado. Tanto peso, porém, era demais para quem precisava fugir para salvar a vida. Sob chuva, neblina e em terreno difícil, as perdas em homens, cavalos e armas foram terríveis. Para os sobreviventes, essa foi a "noite triste".
Era 1520. Nos meses seguintes, Cortés tratou de reorganizar seu grupo, atraindo mais soldados e obtendo armamento. Os astecas, contudo, não descansavam. Não davam tréguas, enviando grupos de combatentes que não permitiam que europeus e seus aliados pudessem sequer dormir em paz. Além do encontro eventual em templos astecas dos ossos de companheiros que haviam perdido, os invasores logo descobriram que as espadas deixadas em Tenochtitlán não eram desperdiçadas, quando, em algum combate, viam seus oponentes usando "lanças muito longas para matar os cavalos, nelas engastadas as espadas que nos tomaram na noite do desbarate" (²), segundo informou Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados que acompanhavam Cortés.   
Pode-se imaginar qual terá sido a reação dos espanhóis quando viram nas lanças astecas um brilho de lâminas de Toledo!... Mas não foi só. Ainda de acordo com Bernal Díaz, os valorosos astecas logo aprenderam a empunhar as espadas com maestria: "Os capitães mexicanos [...] traziam espadas das nossas, fazendo com elas muitas demonstrações de valentia, e diziam que com nossas armas nos haviam de matar [...]" (³).

(1) Principalmente tlaxcaltecas.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 


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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A morte de Montezuma, imperador asteca

Depois de entrar na capital asteca e aprisionar o imperador Montezuma, Hernán Cortés foi informado de que um exército numeroso, sob o comando de Pânfilo de Narváez, mandado desde Cuba pelo governador Diego Velásquez, acabara de desembarcar e estava já em marcha para pôr fim a seus projetos de conquista. Entendendo que sua única chance estava em não fugir ao confronto, Cortés saiu de Tenochtitlán, deixando entre os astecas somente aqueles a quem se confiou a guarda do imperador e a vigilância sobre o riquíssimo tesouro encontrado.
A despeito da franca desvantagem numérica, os comandados de Cortés suplantaram os de Narváez. Não tiveram, porém, muito tempo para comemorações, por chegarem notícias alarmantes do México, dando conta de uma sublevação geral, em decorrência de atitudes imprudentes de Pedro de Alvarado. Retornando a toda pressa, Cortés apenas pôde compreender que, já dentro da capital, ele e seus homens é que eram agora os prisioneiros, ainda que conservassem Montezuma em seu poder. 
Seguiram-se dias de combates sangrentos. De um lado, a população do México lutava para expulsar os invasores; de outro, os espanhóis se davam conta de que dificilmente sairiam dali vivos, mas não queriam renunciar ao tesouro asteca. 
Na tentativa de serenar os ânimos, Cortés compeliu Montezuma a falar ao povo, pedindo calma. A essa altura, porém, outro membro da família real já era apontado como governante, e o imperador prisioneiro não foi recebido com satisfação. Segundo o relato de Bernal Díaz del Castillo, soldado a serviço de Cortés, em um momento de descuido dos que deviam proteger Montezuma, alguém atirou contra ele "três pedradas, uma na cabeça, outra em um braço e outra em uma perna, e posto que lhe pedissem que se curasse e comesse, dizendo-lhe palavras amáveis, não quis [...]".(*) 
O que havia acontecido àquele que fora tratado como um deus, e a quem seus súditos chamavam "senhor, meu senhor, grande senhor"? Com uma autoridade alicerçada na força (sobre outros povos) e na religião (entre seu próprio povo), Montezuma mostrou-se incapaz de liderar os astecas contra um punhado de invasores europeus. 
Teriam as engrenagens do poder funcionado tão bem (pelo menos até ali), a ponto de disfarçarem a incapacidade de liderança por parte do imperador? Foi somente em meio a uma crise sem precedentes que a inaptidão de Montezuma II para o comando do Império Asteca ficou evidente, ainda que ele tenha sido, desde muito jovem, preparado para o cargo que ocupava. 
Supostas profecias, sugerindo a chegada de invasores que destruiriam o mundo asteca têm sido apontadas como causa para sua tímida reação diante das notícias relativas a estrangeiros que se aproximavam. Tentou negociar, ameaçou, bajulou, todavia jamais chamou seu povo às armas, em massa, para cortar a passagem aos que vinham do mar. A vitória teria sido fácil e rápida, se os astecas houvessem atacado com fúria idêntica à demonstrada mais tarde, quando suas crenças religiosas foram questionadas pelos espanhóis. Havia, também, suficientes intrigas palacianas e lutas surdas pelo poder na família real, mas nada disso explica, isoladamente, o comportamento apático do imperador ao receber Cortés e, posteriormente, ao ser aprisionado.
Montezuma morreu, ao que parece, em decorrência da pedrada na cabeça. Até os espanhóis choraram por ele, lamentando que não houvesse sido batizado por um dos religiosos que acompanhavam Cortés.

(*) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Um exército indígena para ajudar Cortés

Furioso com a ida de Hernán Cortés ao México, ocorrida sem sua aprovação, o governador espanhol Diego Velásquez enviara, desde Cuba, uma expedição sob o comando de Pánfilo de Narváez, com a finalidade de prender Cortés e pôr fim a seus sonhos de conquista. Isto prova que os ambiciosos conquistadores espanhóis contendiam entre si, buscando, a qualquer preço, o prêmio de honras, glória e, principalmente, riquezas incalculáveis.
Numericamente, a vantagem estava do lado de Narváez. Estima-se que dispunha de três homens para cada um do bando de seu oponente. Apesar disso, Cortés acabou vencendo, por adotar uma estratégia mais eficiente. É verdade, também, que pedira ajuda a chefes locais, e, por relato de Bernal Díaz del Castillo, sabemos que um grupo de mil e quinhentos lanceiros, ao qual denominou "índios de Chinanta" (¹), chegou a Cempoal com a intenção de participar do combate contra Narváez. Um aspecto muito interessante desse fato é que, através dele, pode-se ter uma visão da capacidade bélica dos povos nativos da região que viria a ser conhecida como Nova Espanha: "[...] vinham por capitães os caciques [...] e um de nossos soldados [...], e entraram em Cempoal com perfeita ordem, de dois em dois; e traziam lanças muito longas e encorpadas, e têm nelas [...] lâminas de pedra (²), que cortam como navalhas, [...] e cada índio trazia um escudo redondo, e com suas bandeiras estendidas e com muitas plumagens, tambores e trombetas, e entre cada dois lanceiros um flecheiro [...], e entraram tão corajosos, que era coisa de se notar, e sendo mil e quinhentos, pela maneira e ordem como vinham, pareciam três mil [...]." (³)
Impressiona, de fato, a ordem e disciplina reinantes na tropa indígena, facilmente perceptíveis nessa verdadeira fotografia em palavras feita por Bernal Díaz, cru e autêntico, como sempre. Mas por que razão, afinal, indígenas apoiavam Cortés? Esse astuto conquistador já tivera tempo suficiente para perceber que, entre os povos submetidos ao Império Asteca, reinava o maior descontentamento. Tratou, por conseguinte, de obter seu apoio, sempre que possível com promessas e presentes, mas com uso da intimidação, quando não cooperavam de boa vontade. De um modo geral, portanto, apoiavam Cortés, não só por temor aos espanhóis, mas porque odiavam a dominação asteca. 
Contudo, nesse dia da batalha de Cortés contra Narváez, a versão ameríndia da falange macedônica chegou tarde. À altura de sua entrada em Cempoal, Cortés e seu bando já eram vitoriosos e senhores da situação, Não obstante, no dizer de Bernal Díaz del Castillo, "Cortés falou aos capitães indígenas com muita gentileza, agradecendo sua vinda, deu a eles contas de Castela e mandou que voltassem a suas povoações [...]" (⁴). Sem perder de vista as riquezas do Império Asteca, era prudente angariar o maior apoio possível entre povos descontentes, para aquilo que ainda estava por vir.

(1) Chinantla.
(2) Provavelmente obsidiana.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

As primeiras laranjeiras da Nova Espanha

Gabolice ou realidade? Não sabemos ao certo, mas Bernal Díaz del Castillo, aventureiro espanhol que fez parte do bando de Hernán Cortés na chamada "conquista do México", alardeou ter sido o primeiro europeu a plantar sementes de laranja na região. Vamos ao relato feito por ele:
"Também quero dizer como semeei algumas sementes de laranja junto a outras casas de ídolos (¹), e foi desta maneira: como havia muitos mosquitos [...], fui dormir em uma casa alta de ídolos (²), e ali junto àquela casa semeei sete ou oito sementes de laranja que havia trazido de Cuba, e nasceram muito bem, porque parece que os sacerdotes daqueles ídolos cuidaram para que não fossem comidas pelas formigas, e regaram e cuidaram desde que viram que eram plantas diferentes das suas. [...]." (³)
Como podemos ter certeza de que essas foram, de fato, as primeiras laranjeiras que cresceram ali? Resposta: Não podemos ter certeza. Certo é, porém, que, como muitas vezes acontece, Bernal Díaz reivindicou para si a façanha, e a ele cabe a honra do feito. Contudo, não se pode deixar de fazer algumas objeções. Como estaria ele em tão bom relacionamento com os sacerdotes locais, a ponto de cuidarem das laranjeiras bebês?  Como lhe passara pela cabeça trazer desde Cuba as sementes de laranja? Tencionaria ficar em definitivo no lugar? Que prova teria, ao escrever, de que suas pequenas mudas de laranja haviam, afinal, crescido o suficiente para se tornarem laranjeiras produtivas, mesmo que apenas de laranjas azedas?
Cheio de orgulho pelo feito, Bernal Díaz del Castillo concluiu assim o assunto:  "Trouxe isto à memória para que se saiba que estas foram as primeiras laranjeiras plantadas na Nova Espanha [...]" (⁴). Admitindo como verdadeira essa possibilidade, as implicações, leitores, são enormes.

(1) Era assim que ele se referia aos locais de culto dos povos nativos.
(2) Provavelmente uma pirâmide de degraus.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos dessa obra citados aqui foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

A praça do mercado público de Tenochtitlán

Os primeiros europeus, parte do bando de Hernán Cortés, que foram à praça do comércio de Tenochtitlán, a capital asteca, ficaram deslumbrados com o que viram. Reinava ali a maior ordem e limpeza, e vasto mercado público atestava o poderio econômico, bem como o desenvolvimento técnico notável, de uma civilização que, não obstante, estava prestes a naufragar, ante a força e astúcia de invasores.
É certo que a visita dos europeus se fez sob olhares atentos de oficiais astecas, mais que desconfiados das intenções dos "hóspedes". Contudo, Bernal Díaz del Castillo, um soldado jovem naquela ocasião, que, muitos anos depois, decidiu pôr no papel suas recordações desses acontecimentos notáveis (para bem e para mal), guardava vívida memória do que havia visto, e escreveu: "[...] quando chegamos à grande praça, que se diz o Tatelulco (¹), como ainda não a havíamos visto, ficamos admirados da multidão de gente e de mercadorias que nela havia, e da grande organização que em tudo tinham [...]; cada tipo de mercadoria tinha seu lugar marcado" (²).
Os homens de Cortés arregalavam os olhos, e mal podiam conter o espanto. Mais de um deve ter tido ímpeto de se lançar sobre as mercadorias à venda. Acompanhemos Bernal Díaz, que, não por acaso, começou a lista de artigos disponíveis por... Ouro, é claro:
"[...] Comecemos pelos mercadores de ouro, prata e pedras preciosas, plumas, mantas [..], escravos e escravas; digo que eram tantos os que estavam à venda naquela grande praça, como são os negros de Guiné que trazem os portugueses, e estavam atados a umas varas longas e com colares no pescoço para que não fugissem, mas outros andavam soltos." (²)
Não era tudo: 
"Em seguida estavam outros mercadores, que vendiam roupas mais simples e algodão, além de outras coisas de fio torcido, e vendedores de cacau, e desta maneira estavam quantos gêneros de mercadoria há em toda a Nova Espanha, ordenadamente, de modo semelhante ao que há em minha terra, que é Medina del Campo, onde se fazem feiras, que em cada rua estão as mercadorias distribuídas por tipo, e assim estavam na grande praça [...]." (²)
Bernal Díaz notou, também, vendedores de peles de animais, alimentos diversos, objetos de cerâmica, madeira, sal, facas de pedra, machados de vários metais e muitos outros objetos. Não havia tempo para observar tudo de uma vez: "[...] a grande praça estava cheia de gente, era cercada de portais, e em um único dia não seria possível ver tudo o que havia [...]." (²)
Talvez os espanhóis ainda não soubessem, mas mercadores, que, por dever de ofício, viajavam de uma parte a outra do Império Asteca, eram frequentemente recrutados para espionagem. Quem mais poderia bisbilhotar sem levantar suspeitas? Tanta prosperidade, porém, tinha os dias contados. Haveria, é certo, um acervo de peripécias à frente, mas, auxiliados por povos indígenas oprimidos, espanhóis derrotariam os astecas e seus aliados. Um império desabava, tornando em escombros sua cultura, visão de mundo, crenças religiosas, estrutura política e econômica. Como sempre acontece, outro mundo estava prestes a surgir, amalgamando elementos antigos àqueles que traziam os europeus.

(1) Tlatelolco.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Todos os trechos dessa obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Uma bebida de cacau para o imperador asteca

Com um misto de curiosidade, ambição e medo, os europeus que faziam parte do bando comandado por Hernán Cortés chegaram a Tenochtitlán, a capital asteca, em 1519. Lá foram recebidos pelo temido imperador Montezuma (¹), cujo cerimonial e luxo deixaram os recém-chegados de queixo caído. Não era para menos: apesar de detestados pelos povos que dominavam, os astecas exerciam controle sobre uma vasta região, absorvendo, através de diversos tributos, muito da riqueza produzida.
À hora das refeições, um verdadeiro desfile gastronômico (à moda asteca) passava diante do imperador, tudo servido como a máxima higiene (²). Para acompanhar a comida, vinha uma bebida, que Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados de Cortés, assim descreveu: "[...] traziam umas taças de fino ouro, com certa bebida feita do [...] cacau" (³), salientando que não era usada apenas pelo sabor: "[...] diziam que era para ter contato com mulheres" (⁴). 
Aos muito curiosos, fica a observação de Bernal Díaz, de que a dita bebida era feita "de bom cacau com sua espuma" (⁵).

(1) Ou Moctezuma, também conhecido como Montezuma II.
(2) Pelo que se depreende do relato de Bernal Díaz del Castillo, esse detalhe deve ter impressionado os visitantes.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


quinta-feira, 14 de maio de 2020

A falta de água em viagens marítimas

A falta de água potável em navios nos séculos XV e XVI estava entre os maiores pesadelos dos marinheiros. Afinal, era água e mais água ao redor, mas os sedentos marujos não podiam nem pensar em bebê-la, porque era salgada. 
Assim, facilmente se explica por que razão, a cada oportunidade, iam todos os navegantes "fazer aguada", ou seja, abastecer os tonéis de água, ainda que, no momento, não houvesse falta. Na Carta de Caminha, relata-se que, mesmo antes que alguém fosse mandado a terra e que, desse modo, se fizesse o descobrimento oficial do Brasil, procurou-se um lugar favorável para aportar em busca de água e lenha, reconhecendo o escrivão que, naquele momento, não tinham escassez dessas coisas: "Fomos ao longo da costa [...], para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso onde ficássemos, para tomar água e lenha, não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui". Navegantes experientes, os portugueses sabiam que, diante de tanta e tão boa água, valia a pena abastecer os navios, pelo risco de não terem como fazê-lo mais tarde, quando prosseguissem no rumo das Índias.
Se estavam em alto mar e faltava água, só havia uma coisa que os marinheiros podiam fazer, e era suplicar aos céus por chuva. Quando ela vinha, os navegadores usavam recolher cada gota, do melhor modo que podiam. Um método era estender lençóis no convés e, cessando a chuva, torcê-los, para recolher o líquido. Segundo Jean de Léry, foi esse o procedimento adotado quando fazia a viagem de regresso à França em 1558, porque no navio estava disponível, diariamente, apenas um copo pequeno de água imunda para cada um. A sede era tanta que até mesmo a água que escorria pelo convés era recolhida e sofregamente ingerida, ainda que muito suja. Bernal Díaz del Castillo, um soldado que se tornou famoso ao escrever sobre a chamada "conquista do México" por Hernán Cortés, da qual participou, fez o registro de experiência similar. "Digo que tanta sede passamos", afirmou (¹), "que na língua e na boca, tão secas, tínhamos rachaduras, pois nada havia para refrigério" (²).
Situação análoga foi provada pelos homens que, com Pedro Sarmiento de Gamboa, contornaram a Patagônia e, no rumo da costa da África, chegaram à Europa (³). O relatório da viagem diz que, em certo dia, já em direção aos arquipélagos perto da África, "[...] às dez da noite caiu um grande aguaceiro, do qual se tomou alguma água, o que foi grande consolo, porque o calor era excessivo e pouca a água que tínhamos, já bastante racionada" (⁴).
Quando, afinal, chegaram ao arquipélago de Cabo Verde, a população local apenas se convenceu quanto à veracidade da viagem que diziam ter feito em razão do péssimo aspecto que tinham os marinheiros, com cabelo e barba que não viam a ação de tesoura ou navalha há muito tempo. Mas Pedro Sarmiento, ao dar conta do sucedido, concluiu: "[...] vínhamos mais cobiçosos de água que de parecer lindos" (⁵).

(1) Bernal Díaz del Castillo foi um soldado espanhol que participou da expedição de Cortés. Escreveu a obra muitos anos depois, já em idade avançada.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Entre 1579 e 1580. 
(4) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viage al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 314. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid., p. 343.


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Como os servidores do imperador asteca se comportavam quando falavam com ele

Monarcas de todos os lugares sempre tiveram certos rituais no trato com os súditos, em especial quando o rei ou imperador era visto ou se fazia ver como uma figura dotada de atributos divinos. O cerimonial que os cercava tinha a função de estabelecer a distinção entre quem mandava e quem obedecia, justificando ou tentando justificar por que motivo alguém tinha tantos privilégios, enquanto a maioria tinha poucos direitos e quase infinitas obrigações. 
Sabe-se, pelo relato de Bernal Díaz del Castillo, um soldado espanhol que acompanhou Hernán Cortés na "conquista" do México, que Montezuma (¹), o grande imperador asteca, exigia de seus servidores certos gestos cerimoniais que, continuamente, demonstravam a submissão que lhe era devida:
"[...] Quando iam falar com ele [Montezuma], deviam tirar as mantas de qualidade e colocar roupas de pouco valor, que, no entanto, deviam ser limpas, deviam entrar descalços e com os olhos voltados ao chão, jamais olhando diretamente em seu rosto, fazendo três reverências antes de chegar à sua presença, dizendo nelas: "Senhor, meu senhor, grande senhor!", e quando lhe diziam por que estavam ali, com poucas palavras os despachava; [os servidores] sem erguer o rosto quando se despediam dele, antes com o rosto e olhos postos na terra onde estavam, saíam sem voltar as costas até que estivessem fora da sala." (²)
Para quem vive em um Estado democrático na atualidade, tudo isso pode parecer muito estranho, mas, pergunto: a seu modo, as cerimônias exigidas por Montezuma não são comparáveis, por exemplo, ao ritual da corte de Luís XIV, estabelecido, diga-se de passagem, para atrair a nobreza, mantê-la obediente mediante a servidão às regras de etiqueta, enquanto o monarca, a seu gosto, governava, absoluto, como "Rei Sol"? Nesse sentido, as diferenças estariam apenas em questões de aparência. Na essência, abaixo da superfície, os objetivos eram mais ou menos os mesmos.

(1) Ou Moctezuma, também conhecido como Montezuma II.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 26 de março de 2020

Roubou duas galinhas e quase foi enforcado

Como Hernán Cortés mantinha a disciplina entre seus comandados


No imaginário popular, ladrão de galinhas é o estrato mais baixo entre os gatunos de toda espécie. Pior, ainda, foi a situação de um soldado que, como parte do bando liderado por Hernán Cortés, invadiu o Império Asteca. Antes, porém, que se efetuasse a chamada "conquista" do México, o soldado Mora quase perdeu o fôlego, e de uma vez por todas.
Tem a palavra Bernal Díaz del Castillo, outro aventureiro comandado por Cortés: 
"[...] partimos para Cempoal (¹) por outro caminho, [...] e estávamos descansando porque fazia sol forte, e vínhamos muito cansados, com as armas às costas, e um soldado que se chamava Fulano de Mora, natural de Ciudad Rodrigo, tomou duas galinhas de uma casa de índios daquele povoado [...]." (²)
Ora, leitores, os invasores europeus são frequentemente descritos como aves de rapina, para quem o roubo, a pilhagem, eram ferramentas úteis, quer para sobrevivência, quer para dominação. Mas havia quem prezasse algum sentimento cavalheiresco de honra, e, infelizmente para o ladrão, Hernán Cortés, ainda que ávido por ouro, era um desses. Portanto, não estava disposto a tolerar indisciplina entre seus soldados, mesmo porque o roubo das galinhas fora feito contra um povoado com o qual eles, espanhóis, haviam entrado em amizade. Para que seus sonhos dourados (³) de conquista vingassem, era indispensável ganhar e manter o apoio de nativos desafetos dos astecas.
Para azar do ladrãozinho, Cortés viu o que fizera. Disse Bernal Díaz:
"{...] Cortés ficou furioso com o que, diante dele, fez aquele soldado em um povoado de paz em tomar as galinhas, que logo mandou colocar uma corda em seu pescoço e teria sido enforcado, se Pedro de Alvarado, que estava junto de Cortés, não lhe cortasse a corda com a espada, e meio morto ficou o pobre soldado." (⁴)
Cortés era homem de vontade férrea. Para bem ou para mal, tratava de manter a disciplina entre os comandados, não fosse o caso de algum deles estragar seus planos. Era bom negociador, conversava bem, e não seria um ladrão de galinhas que iria impedi-lo de surrupiar algo infinitamente mais valioso: o tesouro de Montezuma, imperador asteca.

(1) ou Cempoala.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Sem intenção de trocadilho... 
(4) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit.


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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Como Hernán Cortés e seus homens curaram os ferimentos recebidos em combate contra os tlaxcaltecas

Depois de deixar o litoral, onde ficaram alguns espanhóis com a finalidade de estabelecer uma povoação, Hernán Cortés e cerca de quatrocentos e cinquenta homens seguiram adiante, porque sua meta era chegar ao coração do império asteca. De caminho, encontraram os tlaxcaltecas, que de modo nenhum aceitaram fazer a paz com os recém-chegados. O confronto foi inevitável e, ao contrário do que ocorrera contra povos menos poderosos, dessa vez os europeus, ainda que não derrotados, tiveram perdas importantes, entre mortos e feridos. Enfrentaram, além disso, a falta dos recursos a que estavam acostumados para tratar ferimentos. 
Que fazer?
O depoimento cru de Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados, explica, sem disfarces piedosos: "[...] com a gordura de um índio gordo que ali matamos, que se abriu, se curaram os feridos, porque não havia azeite [...]" (¹). Era costume usar azeite como emoliente para tratar ferimentos.
Não, leitores, não me façam perguntas quanto à eficácia do tratamento. Sabe-se, porém, que essa primeira batalha contra os tlaxcaltecas foi travada em 2 de setembro de 1519. Novo combate, três dias mais tarde, enfraqueceu a resistência da população local, que, a contragosto, foi tratando de negociar a paz. 
Enquanto isso, em seu acampamento, os espanhóis se ocupavam em curar os feridos. Como? Do mesmo modo que haviam feito após o primeiro confronto: "[...] se curaram todos os feridos com a gordura do índio, como já disse outras vezes" (²), informou Bernal Díaz, testemunha ocular.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos dessa obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.