sexta-feira, 4 de março de 2016

Licurgo e as Leis de Esparta

Os antigos espartanos diziam que Licurgo era seu legislador, ou seja, o homem que havia criado as severas leis sob as quais Esparta era governada. Militarismo, domínio absoluto por parte da elite que detinha a propriedade da terra, educação rígida da juventude e repressão aos hilotas - com alguma licença, poderíamos dizer que lá vigorava um regime totalitário à moda da Antiguidade. E, se acreditássemos pura e simplesmente na tradição, tudo isso era responsabilidade de Licurgo.
O problema é que não se conhece grande coisa sobre essa ilustre personagem, e há até quem duvide de sua existência (o que não deveria surpreender, já que mesmo Homero é, nesse sentido, questionado por não poucos especialistas). Não se conhecem documentos escritos pelo próprio Licurgo, e toda a informação de que se dispõe é fruto da tradição registrada por autores que viveram muito depois da época em que se supõe que ele possa ter existido.
Entre os historiadores antigos que falaram sobre o legislador espartano está Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre romanos no segundo século antes de Cristo. Pois bem, de acordo com Políbio, Licurgo era um hábil usuário das crenças religiosas populares, já que buscava sempre referendar suas decisões e ideias como sendo originárias do oráculo de Delfos. Esperto, ele, não?
Deixando de lado as questões - quando, onde e se - sobre Licurgo, e assumindo que os espartanos eram muito obedientes (por bem ou por mal) às suas leis, devemos entender que o uso político das ideias religiosas em voga só era possível porque as pessoas de fato acreditavam nelas, e isso não se restringia aos pouco refinados membros da elite de Esparta. Foi também Políbio quem registrou a informação de que Cipião (conhecido como "Africano", militar romano, cuja existência está muito bem documentada), exatamente antes de atacar Cartagena, durante as Guerras Púnicas, serviu-se da religiosidade de seus comandados para incitá-los a atos de bravura. Em discurso a eles dirigido, prometeu que daria coroas de ouro àqueles que fossem os primeiros a escalar a muralha da cidade, além de outros prêmios que os generais costumavam oferecer; mas, para garantir a coragem das tropas, afirmou que, em sonhos, o deus Netuno lhe aparecera, assegurando seu favor aos romanos durante o combate. Coisas da Antiguidade, logo se vê.


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6 comentários:

  1. E, no entanto, em pleno século XXI, ainda se mata em nome de um deus....
    Abraço, Marta

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    1. Não se deve matar, seja lá a que pretexto for.

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  2. Religião é mesmo saber diferenciar o bem do mal, deste se afastando. Ontem, fui de ônibus para o centro da cidade e fiquei ouvindo um poeta a dizer versos, de improviso, sobre Deus e o Diabo. Claro que usou nossos políticos! Uma senhora o chamou de blasfemo e aí deu bate boca! Fiquei do lado do poeta!

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    1. Hmmm, a tal senhora deve andar precisando de uma aulinha de tolerância, tanto em matéria de religião quanto de política rsrsrsrsssss...

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  3. Coisas da Antiguidade? Não me parece, Marta. Qualquer motivador, de hoje ou de ontem, se baseia, ou baseou, na recompensa, seja ela espiritual ou material. Isto para não falar daquilo que motiva os modernos radicais combatentes árabes.
    É sempre um prazer lê-la.

    Um beijinho :)

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    1. Hahaha, quando eu escrevi que eram "coisas da Antiguidade" estava, é claro, querendo dizer exatamente o contrário. A humanidade, nesse aspecto, não mudou nadinha através dos tempos.

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