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sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Altares para os deuses nos portos de Atenas

Pausânias foi um grego que viveu no Século II d.C., e fez-se notável por ter prestado um grande serviço à posteridade: escreveu uma Descrição da Grécia, contando em detalhes como era a Hélade de seus dias. Não fosse por ele, e não saberíamos muitas coisas desse tempo, perdidas nos escombros da civilização.
Ao falar de Atenas, a Descrição da Grécia coloca o leitor na posição de um viajante que chega à cidade por um de seus portos. Pausânias esclarece, então, que em tempos remotos, o único porto era o de Falero, e foi só no tempo de Temístocles que o Pireu tornou-se o mais importante. Apesar disso, Falero ainda era usado, porque ficava mais perto da cidade. Quem viajava entre cidades gregas, geralmente chegava por ele, assim como os navios menores, com menos carga, preferiam-no. O Pireu era para grandes negociantes e embarcações maiores.
Politeístas como eram, os gregos amontoavam estátuas e altares para seus deuses junto aos portos. Não era bom correr o risco de irritar alguma das irascíveis divindades do Olimpo, nem mesmo algum dos heróis, igualmente cultuados. Seguindo a linha de raciocínio de Pausânias (*), quem chegava a Atenas pelo porto de Falero, poderia ver um belo templo em honra da deusa mais importante da cidade, Atena, e, a alguma distância, outro para o culto a Zeus. Vinham então, altares que homenageavam os heróis mitológicos da cidade, filhos de Teseu e Falero, que teria navegado com Jason em tempos distantes, e outro dedicado a um filho de Minos. No meio de muitos outros, um altar consagrado aos deuses cujo nome os atenienses desconheciam. Ainda assim, a cidade e seus habitantes pretendiam obter sua proteção e bom humor. Era politeísmo no mais alto grau, embora, nos dias de Pausânias, os velhos cultos fossem, já, mais convenção que convicção.  

(*) Cf. PAUSÂNIAS. Descrição da Grécia, Livro I. 


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segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Dois caminhos

O conceito de que há dois caminhos diante de qualquer pessoa que nasce neste mundo, um que leva ao mal, outro ao bem, ocorreu em várias culturas do passado. Os gregos, por exemplo, também refletiram sobre essa ideia, conforme se vê em Os Trabalhos e os Dias, obra atribuída a Hesíodo, poeta grego que teria vivido entre os Séculos VIII e VII a.C.:
"É fácil fazer o que é mau, porque o caminho para isso não só é curto como está perto de nós; para fazer o que é certo, o trabalho é grande, e até os deuses lutam para alcançá-lo. O caminho para a virtude é longo e cheio de obstáculos, mas, quando alguém se aproxima do cume, vai-se tornando mais fácil." (*)
Dilema ético altamente complicado para toda a humanidade, que ficará mais complicado ainda se for introduzido um grupo de questões inquietantes: O que se considera mau ou bom é o mesmo em qualquer cultura? E quanto à virtude? Quase certa de que você que lê terá respondido com um não, então, por que não? Existem valores absolutos, válidos para toda a humanidade? Fique, leitor ou leitora, com esses pensamentos. Boas ideias podem se tornar comentários logo abaixo, sim?

(*) HESÍODO. Os Trabalhos e os Dias. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Por que os antigos gregos sacrificavam um porco antes de cultivar um campo

A maioria dos povos da Antiguidade tinha algum tipo de ritual relacionado ao plantio e à colheita, que geralmente incluía sacrifícios ao deus ou deusa que supostamente regia essas atividades. Esperava-se que as divindades protetoras afastassem as pragas, fizessem germinar as sementes, cair chuva em quantidade adequada e, finalmente, que enchessem os campos com uma colheita farta. Os antigos gregos, em particular nos tempos primitivos, não fugiam à regra, prestando culto à sua deusa da agricultura, Deméter (¹) - Ceres, para os romanos - quase sempre representada com uma foice na mão. Como a foice era usada na colheita dos cereais, o símbolo era apropriado. Hoje poderia significar outra coisa.
Chegava a primavera, e os agricultores gregos sabiam que não havia tempo a perder, se pretendiam cultivar o solo em condições climáticas favoráveis. Era hora de ir ao trabalho, mas nada se fazia sem um ritual curioso e sangrento. Um porco era levado aos campos que seriam cultivados e, depois, o pobre animal era sacrificado em honra de Deméter. 
Qual o significado disso?
Uma interpretação possível é que o porco era considerado malfazejo para a agricultura, por seu costume de cavar o chão, supostamente impedindo a germinação das sementes (²) e, assim, era sacrificado para demonstrar o que se pretendia que Deméter realizasse com quem procurasse atrapalhar a lavoura. Mas é sabido que porcos eram muito frequentemente sacrificados em honra dos deuses gregos (³), não só no caso dos rituais campesinos de primavera, mas em muitas outras circunstâncias em que se desejava prestar culto e obter o favor dos deuses. Neste caso específico, culto a uma deusa, cuja ajuda se esperava para o sucesso das lides agrícolas anuais. 

(1) Deméter era uma divindade menor no panteão grego, mas nem por isso desprezada pelos agricultores que levavam a sério seu culto. 
(2) Os egípcios, ao que parece, gostavam de ter a ajuda dos porcos na lavoura. Quando as águas do Nilo se retiravam, ficando a terra fértil para o cultivo, as sementes eram espalhadas e, em seguida, os porcos eram deixados nos campos, para que pisoteassem o que se plantara. Assim enterradas na lama, as sementes poderiam germinar mais facilmente.
(3) Basta dar uma olhada na Ilíada, de Homero.


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quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Mílon de Crotona

O maior atleta dos jogos olímpicos da Antiguidade


Crotona é hoje uma cidade italiana, mas foi fundada, na Antiguidade, por gente de origem grega - lembram-se do que era a Magna Grécia, leitores? Tornou-se uma cidade-Estado e nela nasceu, no Século VI a.C., aquele que pode ter sido o maior atleta a competir nos jogos olímpicos da Antiguidade. Seu nome era Mílon, e por causa da origem, ficou conhecido como Mílon de Crotona (*).
Era, portanto, candidato perfeito a se tornar herói de muitas lendas. Sagrou-se vencedor na luta várias vezes, mas em qualquer lenda respeitável é preciso que haja algum exagero. E há: teria carregado um touro de uma extremidade a outra da pista, em Olímpia, em que se realizavam corridas a pé, e, como se isso fosse pouca coisa, em seguida teria matado o touro e tratado de devorá-lo. Lenda, lenda, leitores! 
Não poderia, contudo, faltar um desfecho trágico, como em toda boa história grega da Antiguidade. Humano como era, apesar dos feitos mirabolantes, Mílon envelheceu, sem notar que a força espantosa de que era dotado ia, aos poucos, diminuindo. Um dia, ao passear por um bosque, viu um carvalho no qual lenhadores haviam aberto uma fenda, sem, contudo, concluir o trabalho. Por imaginar que ainda tinha as forças intactas, o herói quis separar as duas partes do carvalho, mas, à medida que puxava, foram-se acabando as energias e, então, as duas partes voltaram à posição original, prendendo os braços de Mílon, que gritou, berrou, esperneou, mas não conseguiu se livrar da prisão em que se colocara. Para cúmulo da desgraça, atraiu a atenção de lobos, que o devoraram. 
Avisei que era lenda, mas diz muito sobre a natureza humana, para quem quiser entender.

(*) Era comum, na Antiguidade, que pessoas fossem designadas pelo local de nascimento. 


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sexta-feira, 5 de julho de 2024

Cegonhas da Tessália

Uma dentre as várias espécies de cegonha
É uma dessas tolices populares que, no entanto, têm alguma graça: quando um bebê nasce, se diz que foi trazido pela cegonha. Isto é coisa dos tempos em que não se contava às crianças como os bebês de fato eram concebidos e, diante de perguntas indiscretas, era preciso inventar uma boa história. Em algumas culturas se dizia aos pequenos que haviam nascido de um repolho...
Hoje essas explicações já não têm muita justificativa, mas ainda se ouve, de um casal que aguarda o nascimento de um filho, que os dois "estão esperando a cegonha". Se esperarem por ela, provavelmente não terão filho nenhum.
Na Antiguidade, as cegonhas foram muito estimadas, mas por outra razão. Conforme Plínio, O Velho (¹), talvez o maior estudioso das ciências entre os romanos, as serpentes eram "numerosas na Tessália (²), e, porque as cegonhas as destruíam, eram muito apreciadas, de modo que se considerava que matar uma cegonha merecia pena capital, idêntica à atribuída aos homicidas" (³). Haveria lugar melhor que a Tessália para uma cegonha viver feliz?

(1) 23 d.C. - 79 d.C. 
(2) Região da Grécia.
(3) PLÍNIO, o Velho. Naturalis historia, Livro X. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 31 de maio de 2024

A estátua de Hera em Corinto

Por que havia um cuco no cetro de Hera


A história, meio fato, meio lenda, é ótima, e foi contada por Pausânias, escritor grego do Século II. Havia em Corinto (¹) uma bela estátua de Hera, feita de ouro e marfim, na qual a deusa era retratada em um trono, e que seria obra de Policleto, escultor notável do Século V a.C. Hera, naturalmente, usava uma coroa de ouro e, enquanto em uma das mãos segurava um cetro, na outra, exibia uma romã (²). 
Pois bem, Pausânias alegou nada poder dizer sobre a romã, que seria uma espécie de mistério religioso da Antiguidade, mas, a partir daí, entra o elemento lendário, porque sobre o cetro estava cravado um cuco - sim, a ave - e sobre o cuco ele tinha muito para falar. 
Zeus, senhor do Olimpo, se apaixonara por Hera quando ela era ainda uma virgem. Mas como o deus poderia se aproximar da jovenzinha? Simples, transformando-se em uma ave - um cuco - do qual ela tanto gostou que fez dele seu animalzinho de estimação. O restante, leitores, vocês podem imaginar, e segue o mesmo rumo de outras aventuras dos deuses gregos, suas estranhas metamorfoses e o que delas habitualmente resultava.
Nosso informante, Pausânias, viveu em um tempo em que já era possível contestar as façanhas dos deuses sem, por isso, correr grande risco. E foi assim que não teve escrúpulo em afirmar, ao concluir a história, que não acreditava em nada disso. Contava por contar, e nós apreciamos que assim tenha sido, porque seus escritos nos ajudam a entender melhor o tempo em que viveu e o que passava pela cabeça de seus contemporâneos.

(1) No Século II d.C., quando viveu Pausânias, Corinto já não era uma cidade de população grega, e sim uma colônia romana, apesar de conservar muitas das antigas tradições dos seus primeiros habitantes. 
(2) Cf. PAUSÂNIAS. Descrição da Grécia, Livro II. 


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segunda-feira, 20 de maio de 2024

Como eram premiados os atletas atenienses que venciam em Olímpia

Esportes, na Grécia Antiga, eram assunto de Estado - de cada cidade-Estado, porque não eram entendidos como simples lazer ou entretenimento. Os homens eram incentivados à prática de esportes porque isso os ajudava a manter a capacidade física da qual dependia, em larga medida, o sucesso de um exército em caso de guerra. E, como na Grécia cada cidade-Estado tinha seu próprio exército, e como as guerras eram quase ininterruptas, os grandes campeões eram muito valorizados. Alie-se a isto o fato de que as diversas competições eram sempre celebradas em honra dos deuses, e será possível notar o quanto era relevante, para os gregos, ter um corpo forte e saudável, capaz de correr e saltar com facilidade, até de enfrentar as lutas brutais que despertavam a atenção dos espectadores. 
Em Vitae parallelae, Plutarco (¹) explicou que nos dias de Sólon (²), um dos grandes legisladores da Antiguidade, foi instituída uma premiação significativa para os atletas de Atenas que fossem coroados vencedores nos jogos:
"[Sólon] desejava que os homens exercitassem o corpo e instituiu uma premiação para os que mais se destacassem: cem dracmas para os vencedores nos Jogos Ístmicos (³), e quinhentas dracmas para os que triunfassem nas competições em Olímpia (⁴)." (⁵)
Parece, contudo, que os esportes não foram as únicas atividades físicas favorecidas pelas leis de Sólon; a caça, e especialmente a caça aos lobos, também merecia premiação, ainda que muito inferior: 
"[...] Quem aprisionasse um lobo devia ser recompensado com cinco dracmas; se trouxesse uma loba, com uma dracma." (⁶)
Essa lei pode nos parecer cruel e pouco ecológica. Mas, naqueles tempos já remotos, a proliferação de lobos podia ser uma ameaça real à segurança de pessoas e rebanhos. Ainda de acordo com Plutarco, ao concluir o assunto das premiações, era "muito antigo entre os atenienses o costume de combater os lobos" (⁷).
 
(1) c. 45 - 125 d.C. Nascido em Queroneia.
(2) Século VI a.C.; morreu em 560 a.C. 
(3) Os Jogos Ístmicos eram realizados em Corinto a cada dois anos. 
(4) Os Jogos Olímpicos eram realizados em Olímpia a cada quatro anos, desde 776 a.C. Funcionavam como uma espécie de calendário para os antigos gregos, de modo que o tempo era contado em "olimpíadas", ou seja, em ciclos de quatro anos. 
(5) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(6) Ibid.
(7) Ibid. 


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segunda-feira, 13 de maio de 2024

Como os antigos gregos estocavam o produto das colheitas

Considerem, meus leitores, a vida dos agricultores na Antiguidade. Quer a colheita fosse excepcionalmente boa, quer magra ou mesmo insuficiente, uma parte dela não poderia ser destinada ao consumo. Devia ser cuidadosamente guardada, até que chegasse a nova estação de plantio. Era semente para futura colheita, e não alimento. Quem não fizesse assim corria o risco de morrer de forme, porque, naquele tempo, não havia lojas de produtos para a lavoura em que sementes pudessem ser adquiridas.
Não bastava, porém, reservar uma parte da colheita de cereais para plantio na próxima temporada. Era preciso parcimônia no consumo, para que a safra durasse tanto quanto necessário. Por isso, a maneira de estocar os suprimentos era decisiva. Os gregos tinham um método que tanto contribuía para a conservação dos grãos, evitando, até certo ponto, que fossem assaltados por roedores e outras pragas, como evitava, também até certo ponto, o roubo e a pilhagem: as colheitas eram guardadas em vasilhas de cerâmica enormes, colocadas dentro da terra, e, em caso de quantidades muito grandes, utilizavam-se celeiros subterrâneos.
Ora, entre os gregos, quase todas as atividades humanas tinham um deus tutelar, e sabe-se que Hades (*) era a divindade das colheitas armazenadas. Mas não era ele o deus do mundo dos mortos? Sim, era, como igualmente se encarregava de tudo o que estivesse no subsolo, fossem coisas reais ou imaginárias. Por isso, era o deus do frio, escuro e úmido submundo dos mortos, como era o protetor dos grãos tão cuidadosamente estocados em seus domínios. Não por acaso, Hades era, ainda, o deus das riquezas. Entende-se: no tempo em que um homem era tanto mais rico quanto mais alimentos tivesse para si, para a família e para fornecer a outros, ter uma boa reserva de grãos era o tesouro mais valioso. Hades que cuidasse bem dele.  

(*) Plutão, entre os romanos. 


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segunda-feira, 6 de maio de 2024

O que é um bom governo?

Tucídides (²) 
Já houve quem pensasse - e ainda há quem pense - que não deveria haver governo algum. Mas, como a ideia parece inexequível, ou ao menos improvável, fazendo com que governos sejam inevitáveis, lanço aqui a questão: o que é, afinal, um bom governo?
Entre os gregos da Antiguidade esse assunto já era debatido, e Tucídides, em sua História da Guerra do Peloponeso, Livro VI, mencionou que em um discurso, o ateniense Nísias teria declarado que, em uma cidade-Estado (¹), um bom governante seria aquele que trabalhasse pelo que fosse benéfico a seus concidadãos; não sendo isso possível, que, ao menos, nada fizesse intencionalmente que fosse contrário aos interesses da cidade. Convenhamos: já era um passo importante.
No Século XIX, o francês Arsène Isabelle, que viajou pela América do Sul, escreveu: "Parece-me que o governo que mais respeitar o direito natural, o direito público e o direito das gentes, deve ser o melhor de todos" (³).
Agora, é com vocês, que leem este blog: que opinião têm sobre a existência de governos e como devem (ou deveriam) ser?

(1) A Grécia do tempo de Tucídides era formada por cidades-Estado, cada uma com seu próprio governo e forças militares também próprias.
(2) Cf. HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 17. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(3) ISABELLE, Arsène. Viagem ao Rio da Prata e ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2006, p. 23.


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sexta-feira, 26 de abril de 2024

Rituais funerários em Atenas

Sólon determinou moderação nas lamentações pelos atenienses mortos


Atenienses contemporâneos de Sólon (¹) enterravam os mortos com a cabeça voltada para o Ocidente, ao contrário de outros gregos (²). Não era só: em Atenas era costume sepultar uma só pessoa em cada túmulo, enquanto outros gregos (³) não viam problema em enterrar três ou quatro pessoas na mesma sepultura. Talvez não houvesse muita lembrança desses detalhes, não fosse o fato de Plutarco tê-los mencionado em Vitae parallelae, ao escrever a biografia de Sólon, legislador ateniense, que conduziu os interesses de sua cidade na disputa contra os megarenses pela ilha de Salamina. 
Consta, também em Vitae parallelae, que com a ajuda de Epimênides de Creta, reputado um dos grandes sábios da época, Sólon teria introduzido algumas mudanças nos rituais funerários praticados em Atenas:
"Ordenou-se que nas homenagens prestadas aos mortos houvesse mais moderação, em lugar das lamentações exageradas que até então se faziam, como se muito choro pudesse, de algum modo, ser útil aos que haviam morrido." (⁴)
Isso não significa, contudo, que em qualquer caso os que morriam fossem sempre e necessariamente deixados em paz. Por ocasião de uma rebelião popular enfrentada por Sólon e outros líderes atenienses, os revoltosos foram condenados, em julgamento público, ao exílio - estavam obrigados a ir viver fora da Ática. Quanto aos rebeldes que haviam morrido na sedição, aplicou-se a mesma sentença: "Em julgamento público decidiu-se que, quanto aos rebeldes já sepultados, seus ossos fossem desenterrados e levados para fora dos limites da Ática" (⁵), a região da Grécia onde se encontrava Atenas. Vingança perversa? Não, apenas uma evidência de que, para um ateniense, a pior punição seria a imposição de estar longe de sua cidade, quer na vida, quer na morte. 
 
(1) Sólon morreu em c. 560 a.C.
(2) Os habitantes de Mégara, por exemplo, sepultavam os mortos com a cabeça direcionada ao Oriente, segundo Plutarco.
(3) Novamente, era o que acontecia em Mégara. 
(4) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid. 


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quarta-feira, 3 de abril de 2024

Sicofantas de Atenas

Sicofanta, atualmente, é palavra que significa delator, acusador. Convenhamos, não é costume que seja aplicada como um elogio. Em Atenas, na Antiguidade, também havia sicofantas, mas, a despeito do ódio público contra eles, exerciam uma função importante para o abastecimento da cidade.
Parece estranho? É disso que trataremos.
Sólon, o legislador, havia instituído uma lei em Atenas, segundo a qual, para assegurar que não houvesse falta de alimentos para a população local, se proibia que a produção agrícola da Ática fosse comercializada fora, em outras cidades, ou mesmo em portos mais distantes, mediante navegação marítima pelo Mediterrâneo. A única exceção admitida eram as azeitonas, que a Ática produzia em abundância e que se constituíam em sua maior riqueza no comércio internacional. 
Acontece, no entanto, que os saborosos figos áticos eram demasiadamente cobiçados, e por eles se pagava muito bem, de modo que, a despeito da legislação contrária, sempre havia quem estivesse disposto a correr o risco, para vendê-los em outros lugares. Era aí que entrava em cena o sicofanta, segundo Plutarco, em Vitae parallelae, ao fazer a biografia de Sólon:
"[...] sicofanta se diz de quem acusava outro, quando, contrariando a legislação da cidade, levava figos para fora dos limites de Atenas [...]." (*)
Ao que parece, Plutarco não tinha certeza de que o termo viera à existência a partir das leis de Sólon, já que havia quem reconhecesse seu uso muito antes. Mas, deixando de lado a questão etimológica, pelo que se afirmava estar na primeira das tábuas de madeira em que teriam sido escritas as leis de Sólon, o desobediente era brutalmente multado em nada menos que cem dracmas; o sicofanta, mais detestado do que nunca, geralmente recebia algum dinheiro, "dinheiro sujo", pelo trabalho, "trabalho sujo", de dar com a língua nos dentes contra um de seus concidadãos, ainda que, bem ou mal, sua delação favorecesse os interesses da cidade contra os de um particular. Estava certo? Estava errado? Eis um debate ético (e não só ático) espinhoso.

(*) PLUTARCO, Vitae Parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quarta-feira, 27 de março de 2024

Utilidade do comércio internacional para os antigos gregos

A porção deste planeta que era perfeitamente conhecida pela maioria dos povos da Antiguidade era muito pequena. Assim, é compreensível que, para os curiosos, que queriam saber mais do mundo em que viviam, o comércio internacional oferecesse uma oportunidade muito interessante. Plutarco, ao contar os fatos que considerava relevantes na vida de Sólon (¹), o legislador ateniense, afirmou que "[...] ao tratar com pessoas de diversos povos e reinos, e ao observar os costumes e governo de outras nações, é possível, para pessoas inteligentes, obter experiência e prudência, que são virtudes mais valiosas que a riqueza proveniente do comércio." (²)
Por suposto, além do desenvolvimento dessas apreciadas virtudes políticas, o comércio internacional trazia, também, enriquecimento a quem podia se envolver nele, e Plutarco não desprezou esse fato, mostrando, também, que o intercâmbio de mercadorias era fator de sobrevivência: "Do trabalho decorrente [do comércio internacional], reinos e cidades se abastecem daquilo que precisam, e mercadorias chegam de outras regiões de onde elas são abundantes, fazendo-se provisão para que a vida se conserve" (³).
A razão que levou Plutarco a tecer essas considerações é que Sólon, durante algum tempo, se ocupou de atividades comerciais, antes de mergulhar de vez na vida pública em Atenas. O comércio marítimo era favorecido na Grécia porque seu território, cujo relevo dificultava, às vezes, as viagens terrestres, era, ao mesmo tempo, dotado de bons portos naturais, condição indispensável para o comércio internacional em larga escala na Antiguidade. 

(1) Século VI a.C.
(2) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.  
(3) Ibid


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segunda-feira, 4 de março de 2024

Ursa Maior e Órion

Hera, a deusa que, por ciúmes,
teria transformado uma ninfa em ursa (*)
Pastores de ovelhas, na Antiguidade, enquanto guardavam rebanhos ao ar livre em noites de verão, devem ter olhado para o céu e, com elementos da cultura a que pertenciam, ajudaram a criar lendas relacionadas à forma de agrupamentos de estrelas que viam. Dois exemplos: as constelações que conhecemos como Ursa Maior e Órion.


Ursa Maior

Dizia a lenda que Zeus teria se apaixonado (outra vez!) por uma das ninfas de Ártemis; Hera, com os ciúmes de sempre, vingou-se, transformando a ninfa em ursa, que Zeus, condoído, colocou no céu - a constelação da Ursa Maior.

Órion

Há muitas versões para a lenda de Órion. Esta é uma delas: o grande caçador celeste foi picado mortalmente por um escorpião, mas Ártemis, a deusa da caça, colocou-o no céu, onde continua a caçar em companhia de seus dois cães, o Cão Maior e o Cão Menor, também constelações, sempre perseguido pelo escorpião (a constelação de Escorpião). 

(*) BRUNN, Heinrich. Griechische Götterideale. München: Verlagsanstalt für Kunst und Wissenschaft, 1893, p. 7. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Pragas de gafanhotos na Antiguidade

Nuvens de gafanhotos, com uma infinidade de espécimes, podem ser devastadoras. Chegam, pousam sobre tudo o que é verde e, quando tornam a voar para longe, nada fica por onde passaram. Os antigos gregos sabiam disso muito bem, e supunham que o deus Apolo é que os livrara em uma ocasião em que gafanhotos ameaçaram a Ática. Por esse motivo, haviam feito uma escultura de bronze que, segundo Pausânias (¹), seria obra de Fídias, na qual Apolo era retratado como "deus gafanhoto". Ainda em conformidade com o mesmo autor, os atenienses confirmavam que a expulsão dos gafanhotos fora obra de Apolo, ainda que não soubessem dizer como o fizera.
Pausânias declarou ter conhecimento de que, em três diferentes ocasiões, gafanhotos haviam se tornado uma ameaça na região do monte Sípilo (²), mas que, por três modos distintos, foram dispersados. Na primeira vez, um vendaval levou-os para longe; na segunda vez, um calor violento, depois de uma chuva, exterminou-os; na terceira vez, foram mortos por frio intenso e súbito que atingiu a região (³).
Uma coisa é certa: na Antiguidade, quando uma praga de gafanhotos atacava uma área e devastava os campos de cultivo, era bastante provável que muita gente acabasse morrendo de fome. Importações em larga escala eram difíceis, excedentes exportáveis nem sempre estavam disponíveis para quem desejava adquiri-los, meios de transporte eram lentos e a chegada de suprimentos vindos de longe podia acontecer tarde demais. E, se os campos não produziam, com que se havia de comprar mantimentos de outros lugares? Pequenos e frágeis, isoladamente, os gafanhotos, aos milhões, eram mesmo um terror, e não deve ser surpresa para ninguém que o súbito livramento da destruição que poderiam causar, fosse, entre os gregos politeístas, atribuído a um deus - Apolo, no caso.

(1) Escritor grego do Século II d.C.
(2) O monte Sípilo localiza-se na atual Turquia, em área que, na Antiguidade, era território da Lídia. 
(3) Cf. PAUSÂNIAS, Descrição da Grécia, Livro I.


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segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Lei de Sólon contra ofensas em lugares públicos

Sólon determinou que quem proferisse ofensas públicas seria multado


Uma discussão qualquer começa, por qualquer motivo, e não demora para que os envolvidos desfiem uma sequência de insultos recíprocos - pode acontecer a qualquer hora, quase em qualquer lugar do mundo, e acontecia também na Grécia de Drácon e de Sólon.
Drácon, draconianamente, instituíra pena de morte para quem insultasse alguém em público, punição severa demais, na opinião de Sólon, que tratou de modificar a lei. De acordo com Plutarco, pelas leis de Sólon, "se uma pessoa dirigisse insultos contra alguém em lugar público, fosse em um templo, tribunal ou diante de um magistrado, ou mesmo quando havia ajuntamento popular para presenciar jogos, aquele que dissera as palavras ofensivas deveria pagar três dracmas ao insultado e mais três ao tesouro público. [...]" (*).
Na opinião de Plutarco, essa lei de Sólon era demonstração de prudência. Os insultos não eram livremente tolerados, mas a punição levava em conta as fraquezas comuns à humanidade. Não fazia sentido ameaçar com a morte quando uma pena pecuniária talvez fosse mais eficaz como fator de dissuasão. 

(*) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.  


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quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Filósofos na Antiguidade

Por que, na Antiguidade, atenienses tinham tanto interesse em vários campos do conhecimento, enquanto espartanos não se importavam com nada disso? Estrabão (¹), em sua Geografia, avaliou a questão desta maneira: 
"Foi o hábito [dos estudos] que fez dos atenienses filósofos, enquanto espartanos não o foram, e nem mesmo os tebanos, que viviam tão perto de Atenas. Pela mesma razão, não é por natureza que babilônios e egípcios são filósofos, e sim por hábito e prática [de investigar, estudar]. O mesmo pode ser dito de cavalos, bois e outros seres vivos, cujas qualidades são resultado, não simplesmente do lugar em que vivem, mas do adestramento. [...]" (²)
Quando Estrabão falava em "filósofo", não dava à palavra necessariamente o mesmo significado que hoje recebe. Ele pensava em alguém que buscava o conhecimento em todas as suas formas, que se interessava pelas ciências, pelas artes, incluindo a música, que, enfim, era amigo das letras. O campo de conhecimento que interessava ao filósofo da Antiguidade era imenso. Nesse sentido, atenienses e babilônios, citados por Estrabão, eram filósofos, mas se ocupavam de coisas distintas. Enquanto os homens de Atenas se interessavam pela política, pela ética, pela matemática e outros campos afins, os da Babilônia, que também eram ótimos matemáticos, perscrutavam o céu, sendo, ao seu modo, astrônomos, mas também astrólogos, um campo que hoje ninguém, sensatamente, poderia chamar de científico.
É curiosa a comparação de que o hábito do estudo se desenvolveria nos humanos por adestramento, de modo análogo ao treino ministrado aos animais para que fossem úteis no trabalho. Está aí uma questão que poderia muito bem resultar em debate acalorado. E se a esse treino ou adestramento chamássemos educação?
Eu diria ainda (talvez contrariando um pouco o que disse Estrabão), que, para ser reconhecido como filósofo na Antiguidade, era preciso estar no lugar certo, no tempo certo. Não é possível calcular quanta ciência se perdeu, porque algum filósofo ou filósofa (no sentido antigo) estava sozinho (ou sozinha) com seus pensamentos, olhando as estrelas enquanto cuidava de um rebanho ou lutando para manter o fogo aceso ao preparar alimento, ou simplesmente porque estereótipos de gênero impediam que cerca de metade da humanidade expressasse raciocínios e ideias próprias.

(1) c. 63 a.C. - 24 d.C.
(2) ESTRABÃO, Geografia. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Leis draconianas

Quando se faz uma lei severa demais, é costume dizer-se que é "draconiana". Por quê?
Drácon foi um legislador ateniense que viveu no Século VII a.C., e, segundo Plutarco, revogar a maioria de suas leis teria sido o primeiro ato de governo de Sólon. O Código de Hamurabi, no qual vigorava a lei de talião, ou seja, a retribuição semelhante ao crime cometido - quem matava, devia morrer, quem causava um ferimento, recebia ferida igual - nem de leve chegava perto da severidade das leis de Drácon. O mesmo pode ser dito da Lei de Moisés, também regida, em grande parte, pela lei de talião - "olho por olho, dente por dente" (¹) - talvez explicável pelo contexto social em que foi produzida. 
As leis de Drácon, contudo, iam muito além, porque, segundo Plutarco, "eram em extremo severas e cruéis, impondo penas muito grandes para delitos muito pequenos. Para quase todas as infrações havia a imposição da pena de morte" (²).
É verdade que, para Drácon, aos homicidas cabia a sentença de morte, também admitida para aqueles que cometessem crime de sacrilégio (coisa tanto mais complicada quanto eram quase infinitos os deuses); mas também é fato que o crime de injúria e até mesmo o "furto de frutas e outros vegetais, ou outras coisas de pouco valor" (³), também devia significar um ponto final à existência do infrator. 
Em consequência, logo se tornou corrente o dito de que Drácon, em lugar de tinta, havia usado sangue ao escrever suas leis. Havia mais: interrogado quanto à razão de tanta severidade, Drácon teria respondido que "a seu ver, pequenos delitos mereciam ser castigados com a morte, e, quanto aos grandes crimes, não encontrava, para eles, penalidade maior que a morte" (⁴). Não parece boa a explicação, e bem se pode imaginar que, tendo Sólon revogado as leis de Drácon, toda a cidade de Atenas pôde respirar com alívio.

(1) Cf Exodus XXI, 24-25: "oculum pro oculo, dentem pro dente, manum pro manu, pedem pro pede, adustionem pro adustione, vulnus pro vulnere, livorem pro livore."  
(2) PLUTARCO, Vitae parallelae. Os trechos aqui citados da biografia de Sólon em Vitae parallelae foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 
(4) Ibid. 


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

A educação das meninas espartanas

A educação das meninas espartanas era assunto de Estado, tanto quanto a dos meninos. Não se esperava, como regra geral, que aprendessem o manejo das armas para a ida aos campos de batalha; contudo, deviam realizar exercícios físicos que fizessem delas mulheres saudáveis, capazes de gerar filhos adequados às exigências militares de sua cidade-Estado.
Se podemos crer no que Plutarco escreveu em Vitae parallelae, Licurgo, o legislador de Esparta, determinou que as meninas "ao contrário do que sucedia em outros lugares, não permanecessem desocupadas em casa, mas deviam exercitar o corpo em corrida, luta, lançamento do dardo e no tiro com arco. Desse modo, seriam tão fortes quanto os rapazes, e seriam aptas a resistir às dificuldades que sobreviessem. [...] Licurgo pensava que as jovens habituadas a esses exercícios [...] seriam posteriormente mais fortes e capazes para resistir às dores do parto" (¹). Portanto, sem mais rodeios, a educação das meninas tinha por objetivo garantir a contínua produção de novos soldados para Esparta.
Não menos curioso é que Licurgo, rompendo com a tradição grega que ordenava às mulheres que cobrissem a cabeça quando em público, teria determinado que as jovens e mulheres espartanas não deveriam fazê-lo. Voltemos a Plutarco: "[Licurgo] fez com que as jovens espartanas, à semelhança dos rapazes, se habituassem a estar com a cabeça descoberta nos lugares públicos [...], com toda a honestidade e respeito, diante da presença dos anciãos e cidadãos de renome. [...] O costume de terem [as meninas] a cabeça descoberta não era fruto de leviandade, mas, [...] com essa prática, estavam sempre limpas e eram tão fortes quanto os rapazes" (²).
Essa educação tinha impacto considerável no comportamento das mulheres espartanas quando adultas. Ainda conforme Plutarco: "Conta-se que Górgona, mulher de Leônidas, ao ter em certa ocasião a companhia de uma estrangeira, foi por ela questionada quanto aos costumes que vigoravam em Esparta, dizendo que, ao que parecia, as mulheres da Lacônia tinham autoridade sobre os maridos. A isso a espartana teria respondido: Não se espante. É que somente nós trazemos homens ao mundo" (³). Como negar, então, que meninas e mulheres de Esparta tinham uma condição muito diferente daquela que podia ser encontrada no restante da Grécia Antiga?

(1) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História e Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Espartanos teriam provocado a "desaparição" de muitos hilotas

Narrado por Tucídides no Livro IV de sua História da Guerra do Peloponeso, há um episódio que bem pode ser rotulado como verdadeira síntese da perfídia: espartanos, que viviam com medo de uma revolta dos hilotas, a quem dominavam brutalmente, mas de quem dependiam para todo o trabalho na lavoura, base de sua economia, resolveram convocar, dentre eles, todos os indivíduos que se julgavam dignos de respeito porque, indo à guerra com seus senhores esparciatas, haviam se notabilizado pela coragem e pelos bons serviços prestados a Esparta. Subentendia-se que, em virtude desses méritos, os hilotas que comparecessem receberiam, como prêmio, a liberdade. Sim, os que vieram, uns dois mil homens, ao todo, depois de coroados, foram em procissão aos templos da cidade, exatamente como homens livres fariam. Mas não... A ideia era simplesmente testar quem tinha consciência do próprio valor, calculando-se que gente assim seria perfeita para a liderança de uma rebelião. Os supostos libertos desapareceram e nunca mais foram vistos. 
Como julgar esta história? Intriga, apenas? Ou horrorosa verdade?
De um lado, foi contada por Tucídides, que, mesmo buscando ser imparcial, era ateniense. De outro, não é difícil admitir que tenha mesmo acontecido, se apenas considerarmos que, sendo capazes de lançar os próprios filhos recém-nascidos em um abismo, caso tivessem algum defeito, não seria demais para os espartanos matar, às ocultas, os servos hilotas, se entendessem que, sendo bons demais como soldados, poderiam liderar um motim de sua gente para que, depois de aniquilados os esparciatas opressores, pudessem, afinal, desfrutar completa liberdade. 
Não há provas de que isso tenha mesmo ocorrido. Não há, igualmente, comprovação de que não tenha acontecido. É inegável, todavia, que combina muito bem com o que se sabe sobre Esparta e o modo como era governada. Decidam vocês, meus leitores, se, nesse ponto, desejam crer ou não em Tucídides.


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quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Por que espartanos não deviam visitar outros lugares

Geralmente se considera que viajar para conhecer lugares novos e outras culturas é um modo excelente de se obter instrução. Gregos da Antiguidade foram notáveis pelo gosto que tinham por viagens. Não os espartanos, porém, e por razão que se atribuía a uma ordem dada pelo legislador Licurgo, conforme Plutarco (¹) explicou em Vitae parallelae:
"Licurgo não admitia que espartanos viajassem livremente de um lugar a outro. Pensava que se andassem por outros lugares, acabariam deixando de lado os costumes sóbrios que haviam aprendido e tomariam conhecimento das futilidades, hábitos e formas distintas de governo entre outros povos. Assim acabariam se tornando corruptos e, finalmente, ensinando essas coisas a outros espartanos, poriam a perder sua cidade." (²)
É fácil concluir que uma regra assim tinha como objetivo impedir o contato, por exemplo, com cidades sob regimes menos rígidos - democracias, por exemplo. Há, inclusive, quem atribua a Guerra do Peloponeso, ao menos em parte, a um confronto ideológico entre cidades sob regime democrático e outras dominadas por oligarquias.
A proibição, contudo, ia mais longe. Não só os espartanos livres, inclusive homens adultos (esparciatas) estavam proibidos de fazer turismo perto ou longe, como fazia-se todo o possível para que estrangeiros não pusessem os pés em Esparta, não fosse o caso de algum espírito novidadeiro fazer perguntas demais, repetir a conversa aqui e acolá e, indo a coisa adiante, suscitar uma rebelião. Oficialmente, no entanto, ainda conforme Plutarco, o motivo era outro: estrangeiros não deviam ser admitidos em Esparta porque poderiam trazer doenças.
O lado intrigante disso tudo, se as palavras de Plutarco forem dignas de crédito, é que o próprio Licurgo havia sido um peregrino incansável pela região mediterrânica, antes de retornar a Esparta para ditar-lhe as leis. Com o propósito de conhecer como eram governadas as diferentes localidades, viajara muito, fizera observações, tomara nota daquilo que parecia interessante e só então iniciara as reformas que instituíram a legislação que é conhecida sob seu nome. Viajar fora útil, até indispensável para ele. Para gente comum, achou melhor proibir.

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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