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segunda-feira, 4 de março de 2024

Ursa Maior e Órion

Hera, a deusa que, por ciúmes,
teria transformado uma ninfa em ursa (*)
Pastores de ovelhas, na Antiguidade, enquanto guardavam rebanhos ao ar livre em noites de verão, devem ter olhado para o céu e, com elementos da cultura a que pertenciam, ajudaram a criar lendas relacionadas à forma de agrupamentos de estrelas que viam. Dois exemplos: as constelações que conhecemos como Ursa Maior e Órion.


Ursa Maior

Dizia a lenda que Zeus teria se apaixonado (outra vez!) por uma das ninfas de Ártemis; Hera, com os ciúmes de sempre, vingou-se, transformando a ninfa em ursa, que Zeus, condoído, colocou no céu - a constelação da Ursa Maior.

Órion

Há muitas versões para a lenda de Órion. Esta é uma delas: o grande caçador celeste foi picado mortalmente por um escorpião, mas Ártemis, a deusa da caça, colocou-o no céu, onde continua a caçar em companhia de seus dois cães, o Cão Maior e o Cão Menor, também constelações, sempre perseguido pelo escorpião (a constelação de Escorpião). 

(*) BRUNN, Heinrich. Griechische Götterideale. München: Verlagsanstalt für Kunst und Wissenschaft, 1893, p. 7. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

A lenda da aparição de Teseu na batalha de Maratona

Teseu foi um herói lendário, supostamente introdutor do conceito de democracia em Atenas, e teria vivido nos primórdios da cidade. Nada impede que haja existido alguém real com esse nome, a quem o tempo e as sucessivas narrações dos feitos se encarregaram de quase deificar. Em sua homenagem eram realizadas cerimônias em Atenas, que Plutarco, justificando em Vitae parallelae, relacionou a uma suposta aparição durante a batalha de Maratona em 490 a.C., durante a Primeira Guerra Médica: "Naquela terrível batalha que travaram em Maratona contra os medos (¹), afirma-se que muitos dos combatentes que nela estiveram viram nitidamente a figura de Teseu que marchava diante deles portando armas e, de espada em punho, fazia muitas vítimas entre os inimigos" (²).
Lendas bélicas não são exclusividade de povo algum. Os romanos também tinham como certa a aparição de Castor e Pólux, os gêmeos celestes, em momentos decisivos de suas guerras. Uma dessas ocasiões teria sido em um combate contra os latinos, no contexto do fim da realeza, com a deposição do rei Tarquínio, o Soberbo, e o estabelecimento da República em Roma. São palavras de Aneu Floro, em Rerum Romanarum: "Tanto foi a ferocidade da batalha que correu a notícia de que estavam os deuses Castor e Pólux como espectadores, montados em cavalos brancos, e não houve quem duvidasse" (³).
Se essa ideia de que deuses e heróis mortos tinham a capacidade de aparecer para ajudar os vivos fosse coisa só da Antiguidade, eu poderia desejar um bom dia a vocês, leitores, e encerrar o assunto por aqui. Mas não! Vamos às tradições vinculadas à luta de portugueses contra tamoios e franceses no Rio de Janeiro, no Século XVI. Deixo o caso por conta do padre Simão de Vasconcelos, jesuíta famoso por seus escritos publicados no Século XVII, em que relata o incidente da aparição de São Sebastião para ajudar as forças lusas contra os guerreiros nativos da América: "[...] os tamoios todos na mesma conformidade perguntavam depois aos nossos com grande espanto, quem era aquele soldado gentil-homem, que andava armado no tempo do conflito, e saltava intrépido em nossas canoas? "Porque a vista dele", diziam, "nos meteu terror. E foi a causa de fugirmos, igualmente à do incêndio". Foi tido o caso por milagroso. Eu nisto não determino nada; acho porém que fazem força as palavras de José [de Anchieta], que escrevendo dele diz assim: "A mão de Deus andou ali, e mostrou nesta ocasião sua misericórdia e providência: foi medo que Deus nosso Senhor pôs aos índios à vista daquele incêndio; e particular favor do glorioso mártir São Sebastião, que ali foi visto dos tamoios, que perguntavam depois, quem era um soldado que andava armado, muito gentil-homem, saltando de canoa em canoa, e os espantara, e fizera fugir?"." (⁴)
Sem querer assumir a ocorrência de um milagre, Simão de Vasconcelos contou o incidente, mas é razoável supor que, como homem de seu tempo, acreditasse nele. De qualquer modo, e já entrando no lado efetivamente histórico da questão, o governador-geral Mem de Sá, chegando com alguns navios ao Rio de Janeiro no começo de 1567, para desfechar um ataque decisivo contra franceses e indígenas, decidiu que o combate seria travado no dia 20 de janeiro, não por acaso a data em que o calendário católico celebra o soldado romano e mártir São Sebastião. Saíram-se bem os portugueses, ainda que com algumas perdas: "Depois de vários sucessos, encontros e recontros [...] foi entrada e vencida [a fortificação inimiga] com estrago lastimoso, porque dos tamoios não ficou um com vida. Dos franceses morreram dois no conflito, e cinco que houveram às mãos os portugueses, foram pendurados em um pau, para escarmento de outros: à vista de tão triste espetáculo, ficaram tremendo as demais aldeias" (⁵).Coisas da colonização, leitores!

(1) Os gregos se referiam genericamente ao Império Persa, que agregava diversos povos, como sendo dos medos, e, por essa razão, as guerras entre gregos e persas são conhecidas como Guerras Médicas.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelaeO trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) FLORO, Aneu. Epitome Rerum RomanarumO trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, pp. 53 e 54.
(5) Ibid., p. 55.


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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Quem era a loba que alimentou Rômulo e Remo

Uma das razões, ainda que não a única, que faz com que a fundação de Roma por Rômulo e Remo seja considerada uma lenda, é a afirmação de que os gêmeos, abandonados junto ao Tibre, teriam sido amamentados por uma loba. Quem é que acreditaria numa coisa dessas?
Contudo, leitores, se admitirmos um pequeno ajuste, talvez essa história não seja de todo inverossímil. O melhor é que podemos fazer isso, não por mero exercício de imaginação, mas com base em informações que vêm da Antiguidade. Portanto, vamos ao caso.
Aneu Floro, historiador que viveu nos dias do Império Romano, repetiu sem novidade a fábula de Rômulo e Remo, dizendo que "[...] uma loba, fugindo a seu instinto lupino, ao ouvir o choro dos meninos, amamentou-os, como se fosse mãe deles" (¹). Já Tito Lívio (²), em Ab urbe condita libri, contou que era voz corrente em Roma que "o cesto em que os meninos estavam, por estar baixa a corrente, ficou retido em terra seca, e uma loba, vindo dos montes que há ao redor, ouviu o choro deles" (³). Com ternura, cuidou dos gêmeos, atraindo a atenção de Fáustulo, um pastor que os levou para casa e deles se encarregou até que crescessem.
Para Plutarco (⁴), porém, havia outra interpretação possível, humana e perfeitamente lógica, mas nada zoológica. "Talvez [...] o duplo significado da palavra [loba]", disse ele, "seja a explicação para esta fábula, porque os latinos dizem lobas para os animais, mas chamam também lobas às prostitutas" (⁵). Com o passar do tempo, "loba", como eufemismo, caíra talvez em desuso, e a história de Rômulo e Remo teria ganho contornos de lenda, na suposição de que uma autêntica Canis lupus alimentara os meninos. Ainda que não explique outras incongruências da fábula, a versão sugerida por Plutarco parece interessante.

(1) FLORO, Aneu. Epitome rerum Romanarum. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) 59 a.C. - 17 d.C.
(3) LÍVIO, Tito. Ab urbe condita libri. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Nascido em Queroneia em c. 45 d.C.
(5) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

É possível guardar um segredo?

A fabulosa história das orelhas de Midas


Midas, de infeliz memória, reinou na Frígia por volta do Século VIII a.C. - sim, estamos falando do desastrado rei que, segundo a lenda, adquiriu a duvidosa virtude de transformar em ouro tudo o que tocava. Entre o homem de verdade e o ser lendário vai, no entanto, uma grande diferença. É que, estranhamente, sabemos muito mais sobre o Midas mitológico do que sobre o sujeito "de carne e osso". Pesquisas arqueológicas comprovaram a existência desse rei - deixo a cargo de vocês, leitores, a diversão de tentar separar o mito da realidade. 
Os concursos de música eram comuns entre os antigos gregos, e os vencedores tinham elevada reputação, tanto quanto os que venciam em competições atléticas. Ora, em uma dessas ocasiões, Midas teria sido convidado a arbitrar um certame que tinha, entre os participantes, ninguém menos que Apolo. No julgar do rei, porém, a coroa coube a um humano, e não ao deus. Caso encerrado? Não!
Apolo, aparentando a virtude necessária a um bom competidor, não demonstrou, no momento, nenhuma insatisfação. A vingança, porém, veio com a máxima crueldade. Decorrido algum tempo, o funcionário encarregado de cortar os cabelos do rei começou a notar uma estranha transformação nas orelhas de seu amo, que não apenas estavam ganhando um tamanho descomunal, como também iam, aos poucos, adquirindo a semelhança de orelhas de burro. 
Que fazer? O real cabeleireiro não teve alternativa senão comunicar ao rei o que sucedia (como se fora possível que o próprio Midas não houvesse notado). A solução encontrada foi providenciar peruca e um tipo de chapéu para o rei, com a óbvia finalidade de ocultar algo que os súditos jamais deveriam ver. Isto feito, o cabeleireiro foi silenciado sob a ameaça do mais severo castigo.
Guardar segredos, como todo mundo sabe, não é tarefa fácil. O caso das orelhas do rei fazia cócegas no cérebro e na língua do cabeleireiro, quase levando esse distinto funcionário ao desespero. Então, um dia, já não suportando reter para si tão terrível segredo, procurou, em um bosque, um lugar que supunha completamente desabitado, e lá, cavando um buraco no chão, gritou, dentro dele: Midas tem orelhas de buuuuuuuuuuuuuuuurro!
Ufa, que alívio! Não parecia de modo algum uma inconfidência e, afinal, ninguém ouvira... Feliz da vida, o cabeleireiro voltou a seus afazeres. 
O tempo passou. Veio o inverno e, com ele, a neve. Veio a primavera e, com ela, a vegetação renasceu e brotaram as flores. O céu azul, as nuvens leves, o canto dos pássaros, tudo convidava a um passeio no bosque. Lá se foi nosso amigo cabeleireiro a desfrutar as horas de uma manhã junto à natureza. A brisa primaveril agitava docemente a vegetação - e eis aí o problema. Ao passar pelo lugar em que cavara o buraco no ano anterior, notou, aflito, que arbustos haviam crescido ao redor e, no compasso do vento, repetiam com meiguice: De buuurro, orelhas de buuuurro, Midas tem orelhas de buuuuuuuuuuuuuuuuuuuurro! Desnecessário é dizer que, em muito pouco tempo, todo o reino estava a par do lastimável segredo.
Não espero que vocês, leitores, suponham essa lenda uma realidade. Seria completa tolice. Mas os antigos gregos deixaram, nela, um ensinamento valioso: se tiverem um segredo e não quiserem de modo algum que venha a público, será melhor não contar a ninguém. Quando mais de uma pessoa sabe, já deixou de ser segredo. Esse foi o grande problema de Midas. 


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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sobre o unicórnio


Unicórnio, de acordo com representação do Século XVI (*)
Um unicórnio deveria ser, por definição e etimologia, um ser vivo dotado de um único chifre. Fácil, dirão alguns leitores, veja os rinocerontes!...
Mas, como se sabe, há rinocerontes com dois chifres, e o problema permanece porque a suposta criatura a que na Antiguidade e no Medievo se atribuía o nome de unicórnio era bem diversa de um rinoceronte. Era geralmente descrita como um belíssimo cavalo branco, tendo, na testa, um longo chifre espiralado. Vê-se, portanto, que até onde vão os conhecimentos da humanidade, tal ser não existe e, provavelmente nunca existiu - não foram encontrados fósseis que tivessem tais características.
Ainda assim, pela época do Renascimento acreditava-se, na Europa, que pó de chifre de unicórnio era o melhor remédio contra venenos diversos, inclusive de animais peçonhentos, além de combater pestes em geral. Resta saber de que animal, de fato, vinha tal pó...
Se recordarmos a devastação causada pela Peste Negra (pandemia de peste bubônica), talvez possamos dizer, não sem um sorriso mordaz, que a mortandade decorreu, afinal, da falta de um suprimento conveniente de chifres de unicórnio, não é mesmo? Não me entendam mal, leitores. O mais difícil é aceitar que ainda hoje haja quem acredite nessas tolices.

(*) THEVET, André. Cosmographie Universelle vol. 1. Paris: Guillaume Chaudiere, 1575. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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