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terça-feira, 23 de julho de 2019

Apolo e Jacinto

Jacinto (Hyacinthus orientalis)
É mais uma lenda da antiga Grécia, que explica, não sem um toque de triste lirismo, a origem do jacinto (*). Apolo, filho de Zeus e deus-sol dos gregos, tinha um amigo humano, um pastor de ovelhas, cujo nome era Jacinto. Os dois jovens gostavam de compartilhar entretenimentos, um dos quais consistia no arremesso de discos de chumbo. 
Certo dia, enquanto praticavam esse esporte reconhecidamente perigoso, um disco lançado por Apolo atingiu Jacinto na cabeça, fazendo-o ir ao chão. Em desespero, o deus notou que havia sangue a escorrer da fronte do amigo, que, em pouco tempo, morreu. Do sangue de Jacinto, dizia a tradição helênica, nasceu uma flor, à qual Apolo, choroso, atribuiu o nome do amigo que acabara de perder.
Essa lenda, em sua simplicidade, é bastante reveladora quanto àquilo que os antigos gregos criam, em relação às felizes divindades do Olimpo. Primeiro, nem mesmo os deuses, a quem supunham imortais, escapavam ao fatalismo, ao destino imutável, que os gregos entendiam pautar a existência dos homens. Além disso, ainda que poderosos, os deuses estavam longe da onipotência: o desastrado Apolo que, sem qualquer intenção perversa, matara o amigo Jacinto, não foi capaz de trazê-lo de volta à vida. Finalmente, ao explicar a origem de árvores, flores, e uma infinidade de outras coisas por meio de episódios relacionados aos deuses, os gregos não estavam só fazendo poesia. Essas eram suas crenças religiosas. A nós, que buscamos e encontramos na ciência a explicação para os fenômenos naturais, é que suas lendas, umas alegres e até cômicas, outras dolorosamente trágicas, soam poéticas. Exceto pela imortalidade que caracterizava os habitantes do Olimpo, deuses e homens eram muito parecidos. 

(*) Há alguns questionamentos quanto à verdadeira flor que a lenda evoca, mas o Hyacinthus orientalis não é, ao menos no aspecto, incompatível, ainda que, em sua forma atual, talvez não seja exatamente a espécie que os antigos gregos conheciam.    


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

É possível guardar um segredo?

A fabulosa história das orelhas de Midas


Midas, de infeliz memória, reinou na Frígia por volta do Século VIII a.C. - sim, estamos falando do desastrado rei que, segundo a lenda, adquiriu a duvidosa virtude de transformar em ouro tudo o que tocava. Entre o homem de verdade e o ser lendário vai, no entanto, uma grande diferença. É que, estranhamente, sabemos muito mais sobre o Midas mitológico do que sobre o sujeito "de carne e osso". Pesquisas arqueológicas comprovaram a existência desse rei - deixo a cargo de vocês, leitores, a diversão de tentar separar o mito da realidade. 
Os concursos de música eram comuns entre os antigos gregos, e os vencedores tinham elevada reputação, tanto quanto os que venciam em competições atléticas. Ora, em uma dessas ocasiões, Midas teria sido convidado a arbitrar um certame que tinha, entre os participantes, ninguém menos que Apolo. No julgar do rei, porém, a coroa coube a um humano, e não ao deus. Caso encerrado? Não!
Apolo, aparentando a virtude necessária a um bom competidor, não demonstrou, no momento, nenhuma insatisfação. A vingança, porém, veio com a máxima crueldade. Decorrido algum tempo, o funcionário encarregado de cortar os cabelos do rei começou a notar uma estranha transformação nas orelhas de seu amo, que não apenas estavam ganhando um tamanho descomunal, como também iam, aos poucos, adquirindo a semelhança de orelhas de burro. 
Que fazer? O real cabeleireiro não teve alternativa senão comunicar ao rei o que sucedia (como se fora possível que o próprio Midas não houvesse notado). A solução encontrada foi providenciar peruca e um tipo de chapéu para o rei, com a óbvia finalidade de ocultar algo que os súditos jamais deveriam ver. Isto feito, o cabeleireiro foi silenciado sob a ameaça do mais severo castigo.
Guardar segredos, como todo mundo sabe, não é tarefa fácil. O caso das orelhas do rei fazia cócegas no cérebro e na língua do cabeleireiro, quase levando esse distinto funcionário ao desespero. Então, um dia, já não suportando reter para si tão terrível segredo, procurou, em um bosque, um lugar que supunha completamente desabitado, e lá, cavando um buraco no chão, gritou, dentro dele: Midas tem orelhas de buuuuuuuuuuuuuuuurro!
Ufa, que alívio! Não parecia de modo algum uma inconfidência e, afinal, ninguém ouvira... Feliz da vida, o cabeleireiro voltou a seus afazeres. 
O tempo passou. Veio o inverno e, com ele, a neve. Veio a primavera e, com ela, a vegetação renasceu e brotaram as flores. O céu azul, as nuvens leves, o canto dos pássaros, tudo convidava a um passeio no bosque. Lá se foi nosso amigo cabeleireiro a desfrutar as horas de uma manhã junto à natureza. A brisa primaveril agitava docemente a vegetação - e eis aí o problema. Ao passar pelo lugar em que cavara o buraco no ano anterior, notou, aflito, que arbustos haviam crescido ao redor e, no compasso do vento, repetiam com meiguice: De buuurro, orelhas de buuuurro, Midas tem orelhas de buuuuuuuuuuuuuuuuuuuurro! Desnecessário é dizer que, em muito pouco tempo, todo o reino estava a par do lastimável segredo.
Não espero que vocês, leitores, suponham essa lenda uma realidade. Seria completa tolice. Mas os antigos gregos deixaram, nela, um ensinamento valioso: se tiverem um segredo e não quiserem de modo algum que venha a público, será melhor não contar a ninguém. Quando mais de uma pessoa sabe, já deixou de ser segredo. Esse foi o grande problema de Midas. 


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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Travessuras dos deuses gregos

Deuses greco-romanos não foram incontestáveis nem na Antiguidade


Mesmo quando a antiga civilização grega estava em boa forma, já havia críticas às crenças religiosas populares. Platão, em sua República idealmente configurada, propunha que de modo nenhum a juventude devia ser induzida a crer em deuses como Zeus e Hera, que não podiam ser apresentados como paradigmas de autocontrole e moralidade. O raciocínio de Platão era simples: quem pretendia formar bons cidadãos não poderia ensinar a devoção a deuses que não passavam de maus exemplos. 
Estaria o filósofo exagerando? Vai aqui uma pequena coleção de travessuras, talvez pouco conhecidas, que mostram o que deuses gregos eram capazes de aprontar:
  • Um caso de teofagia: segundo a Teogonia de Hesíodo, Zeus Olímpico (ele mesmo!) devorou Métis, sua primeira esposa (¹), que era a personalidade mais sábia que havia, tanto entre os deuses como entre os humanos.
  • Mais Hesíodo: Zeus Olímpico era pai de uma infinidade de seres; entre eles estavam as nove musas, cuja mãe era Mnemósine. Oh! Acontece que Zeus era casado com Hera, e sua filharada tinha uma variedade de mães, e não apenas deusas: vez por outra Zeus se apaixonava por uma mortal... E então nascia um semideus.
  • Ainda segundo Hesíodo, Urano foi emasculado por seu filho Cronos (que depois seria pai de Zeus). Que estirpe!
  • Palas Atena (até ela), enciumada pelos belos trabalhos de agulha feitos por uma mortal de nome Aracne, tão bons que se equiparavam aos seus (se é que não levavam vantagem), teria presenteado a infeliz bordadeira humana com a capacidade de tecer e tecer, eternamente - transformada em uma aranha (²), é claro.
  • Vingança desproporcional: Acteon, um caçador, viu, um dia, por acaso, a deusa Diana (também caçadora), que saía do banho em um riacho. Irritadíssima, Diana transformou o indiscreto caçador em um cervo que (nem é preciso lembrar), foi logo perseguido e estraçalhado pelos cães de caça que acompanhavam a deusa.
  • Para escapar do assédio de Apolo, Dafne, uma ninfa que pastoreava ovelhas, viu-se transformada em um loureiro. 
  • Mais Apolo, e mais vingança desproporcional: Furioso com Marsias, um flautista que ousou desafiá-lo em um torneio de música, o deus que conduzia a carruagem do sol ordenou que seu oponente, amarrado a uma árvore, fosse esfolado vivo. Os berros de Marsias foram suficientes para comover as outras divindades, que resolveram transformar o infeliz torturado em um rio, com águas compostas de lágrimas e sangue.
Vaso grego com decoração retratando
o nascimento de Palas Atena (⁴)
Algumas dessas estripulias parecem, hoje, até poéticas, mas, na Antiguidade, nem sempre eram vistas com tanta benevolência. No final do Século II, em face da perseguição imposta aos cristãos pelo Império Romano, Tertuliano escreveu na Apologia endereçada ao Senado:
"Vossa justiça é uma ofensa aos céus, porque, ao condenar ladrões, assume que há deuses que deveriam ser enforcados." (³)
Indo mais longe na argumentação, chegou a sugerir que seria mais sensato ter homens virtuosos na conta de divindades, e não deuses cheios de defeitos de caráter, como eram aqueles do panteão greco-romano:
"Há, porventura, entre vossos deuses, algum que seja mais sábio que Sócrates, ou mais justo que Aristides, melhor soldado que Temístocles, melhor comandante que Alexandre, de mais sucesso que Polícrates ou mais eloquente que Demóstenes? Há entre os eleitos para deuses alguém mais sábio que Catão, mais justo e melhor general que Cipião, ou melhor comandante que Pompeu, ou mais feliz que Sila, ou melhor orador que Túlio? Se a divindade é questão de mérito, melhor seria ser atribuída a eles, do que a Júpiter ou Saturno." (³)
Portanto, leitores, tudo indica que, quanto ao conceito que faziam dos deuses venerados entre o povo, Tertuliano e Platão estavam de acordo, ainda que, quanto ao tempo, tenham vivido separados por vários séculos.

(1) As lendas da Antiguidade divergiam quanto ao modo como isso ocorreu, mas uma tradição corrente era de que Métis, transformada em água, fora engolida por Zeus.
(2) Havia outras explicações para a origem dos aracnídeos, mas esta é perfeitamente compatível com o caráter de Palas Atena, ciumenta e vingativa como poucos.
(3) As citações da Apologia de Tertuliano que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) BIRCH, Samuel. History of Pottery vol. 1. London: John Murray, 1858.


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