domingo, 25 de março de 2012

Como os Índios do Brasil Obtinham Fogo

Conta Hans Staden em Zwei Reisen nach Brasilien (¹) ter visto os índios fazendo fogo com o seguinte método: cortavam dois pauzinhos, atritavam-nos, disso desprendia-se um pó que, em resultado do calor do atrito, incendiava-se. No livro que fez publicar, dando notícia das aventuras que vivera na América, há uma ilustração que mostra esse procedimento, e pode ser vista abaixo:

Índio obtendo fogo mediante atrito, segundo Hans Staden
Já o Padre Simão de Vasconcelos, jesuíta, assim explica o processo de obtenção do fogo pelos índios:
"O fogo tiram de certos paus, um mole e outro duro, que roçam à força um com o outro, e com o movimento concebem calor e com o calor, fogo; e feito isto comem, bebem e dormem contentes." (²)
Vê-se que, em essência, ambos descrevem a mesma coisa - os indígenas obtinham fogo mediante atrito de dois paus.
São esses relatos confiáveis? Neste caso, em particular, não há motivo para duvidar deles, ainda que as explicações, para padrões científicos atuais, deixem algo a desejar. Hans Staden viveu involuntariamente entre os tupinambás (e, por muito pouco, deixou de virar "moquém"), de modo que teve tempo de sobra para observar-lhes os costumes. Já para o Padre Simão de Vasconcelos vale o que se pode dizer, em linhas gerais, dos registros feitos por muitos sacerdotes que, nos primeiros séculos da colonização, "iam ao sertão missionar", como então se dizia - são muito úteis e interessantes porque, a despeito de alguns erros de interpretação do que se via, fruto óbvio do choque de culturas tão diferentes, esses religiosos é que tinham o maior contato com os povos nativos, buscando aprender seus costumes e língua para melhor comunicar-lhes os ensinos que entendiam ser seu dever transmitir. Podiam revestir seus relatos de um preconceito do qual talvez nem estivessem conscientes, mas não se contavam, por suposto, entre os que viam os índios apenas com um obstáculo à exploração e ocupação do território, obstáculo esse que, quanto antes fosse suprimido, melhor.
Em suma, e para finalizar, vale para todos os documentos históricos (como são as obras de Hans Staden e do Padre Simão de Vasconcelos) a seguinte consideração: devem ser analisados criticamente, buscando-se, segundo correta metodologia de interpretação, extrair deles toda a informação possível e jamais desconsiderando o contexto em que foram produzidos.
 
(1) De acordo com a edição de Marburg, 1557.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil
Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 124


Veja também:

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Olá, Valdemir, obrigada por sua visita ao blog.

      Excluir
  2. Gostaria de saber como os europeus faziam fogo por volta do século xv.Sabe-se que a pederneira era usada como método de ignição nas armas de fogo dessa época, mas não encontrei informações sobre o que era usado no dia a dia, seria uma pederneira? Algum isqueiro primitivo? Saberiam me dizer? Grato!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Enes,

      Geralmente o fogo era obtido pelo atrito entre pedras, como em quase todo o mundo, sendo também já conhecido o método da obtenção de fogo pela colocação de um pedaço de vidro (lente) sob a luz do sol, que incendiava algum material como folhas secas ou lã. Essa última técnica, ao que tudo indica, já era conhecida desde o tempo dos antigos romanos. No entanto, havia muito cuidado em conservar o fogo obtido, tanto nas casas e templos como até mesmo pelos que viajavam e conduziam archotes (não é à toa que diversas práticas religiosas antigas tinham alguma espécie de "guardião do fogo"). Quanto ao material consumido nas lâmpadas, os mais comuns eram azeite ou alguma gordura animal, dependendo da região.

      Obrigada por acessar o blog. Volte mais vezes! :-)))

      Excluir

Democraticamente, comentários e debates construtivos serão bem-recebidos. Participe!
Devido à natureza dos assuntos tratados neste blog, todos os comentários passarão, necessariamente, por moderação, antes que sejam publicados. Comentários de caráter preconceituoso, racista, sexista, etc. não serão aceitos. Entretanto, a discussão inteligente de ideias será sempre estimulada.