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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Como mães indígenas cuidavam de seus bebês

"A jovem mãe passou aos ombros a larga faixa de macio algodão, que fabricara para trazer o filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela areia o rastro do esposo, que há três sóis se partira. Ela caminhava docemente para não despertar a criancinha, adormecida como o passarinho sob a asa materna."
José de Alencar, Iracema

Faixa indígena usada
para carregar bebê (³)
Por sua simplicidade, aspectos práticos da vida em comunidades indígenas intrigaram europeus que vieram ao Brasil nos Séculos XVI e XVII. Yves d'Évreux (¹), um capuchinho francês que esteve na França Equinocial, fracassada tentativa francesa de colonização no Brasil, assim descreveu o modo como mães indígenas cuidavam de seus bebês:
"A natureza, boa mãe destes selvagens, quis que o menino saído do ventre de sua mãe, se achasse em estado de receber em si as primeiras sementes do natural comum destes selvagens, porque não é afagado, pensado, aquecido, bem-nutrido, bem-tratado, nem confiado aos cuidados de alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou nalguma vasilha com água, deitado numa redezinha de algodão, com todos os seus membros em plena liberdade, nus inteiramente, tendo por único alimento o leite de sua mãe e grãos de milho assados, mastigados por ela até ficarem reduzidos a farinha, amassados com saliva em forma de caldo, e postos em sua boquinha como costumam fazer os pássaros com sua prole, isto é, passando de boca para boca." (²)
Nesta passagem D'Évreux estava comparando o cuidado dispensado às crianças indígenas ao modo como o pequenos eram tratados na Europa de seu tempo. A convivência com indígenas lhe dava autoridade para confrontar realidades tão distintas. Não se pode negar que, à vista do que afirmou, cada mãe indígena adotava procedimentos em conformidade com o modo de vida da respectiva etnia, adequados à natureza do lugar e às técnicas de sobrevivência que seu grupo dominava.  
D'Évreux interpretava todo o vigor físico dos indígenas quando adultos como um favor da natureza: "[...] tendo a natureza, por longos anos, recusado vestidos aos corpos dos índios, os compensara formando-os belos e agradáveis, sem o menor auxílio de suas mães, que apenas os lavam e carregam como se fosse qualquer pedaço de pau" (⁴). Entretanto, outro religioso, o jesuíta Simão de Vasconcelos, autor seiscentista assim como Yves d'Évreux, entendeu que o modo como indígenas criavam os filhos resultava em adultos de mais saúde: "[...] São de ordinário corpulentos, robustos, forçosos, e para que mais o sejam, os atam pelas pernas, quando nascem, com certas faixas [...], com que depois de grandes ficam mais vigorosos" (⁵). Sim, havia mortalidade infantil entre eles, mas não havia, também, e bastante elevada, entre os pequenos que, na época, vinham ao mundo em lares europeus? 

(1) Embora alguns relatos digam o contrário, Yves d'Évreux veio como superior dos quatro capuchinhos destinados à colônia francesa no Maranhão, onde permaneceu entre 1613 e 1614.
(2) D'ÉVREUX, Yves O. F. M. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 72.
(3) Essa faixa pertence ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).
(4) D'ÉVREUX, Yves O. F. M. Op, cit., p. 95.
(5) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, p. 15.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Canoas usadas por meninos indígenas

Brinquedos indígenas: canoas pequeninas (¹)

As canoas dos indígenas do Brasil, feitas de um só tronco, foram célebres. Havendo nas florestas árvores enormes, havia, também, canoas para vinte remadores, e até mais. E, como crianças indígenas aprendiam o modo de vida dos adultos pela imitação daquilo que viam os pais fazendo, preparavam-se canoas pequenas, próprias para que os meninos fossem ganhando prática na arte de remar com grande velocidade. 
Surge, então, a pergunta: como eram feitas essas canoas que os meninos usavam?
Um episódio relatado por Simão de Vasconcelos, envolvendo um jesuíta que viveu no Rio de Janeiro no Século XVII, deixa entrever a resposta. Chamaram o padre João de Almeida para ir ministrar a confissão a um escravo cristão que corria risco de morte. O lugar em que estava, porém, exigia deslocamento por mar. Indo à praia, o padre e seu companheiro não encontraram canoas disponíveis, porque, no dizer de Simão de Vasconcelos, eram "partidos os índios todos, senhores delas, para suas pescas e roças" (²). É nesse ponto que o relato ganha interesse para nós, porque o padre só encontra na praia uma canoa pequena, que é assim descrita: "Chega à praia, vê à borda do mar uma canoazinha de meninos, que os pais lhes fazem para os acostumar ao mar, e são ordinariamente capazes de dois ou três rapazes" (³).
Já têm, portanto, leitores, uma ideia de como eram essas embarcações de brinquedo. Mas, para que não fiquem aflitos quanto ao que pode ter acontecido ao padre que se aventurou a embarcar em tão exígua canoa, indo ele, seu companheiro e um índio que deveria remar, vai aqui o que mais disse Simão de Vasconcelos, também jesuíta, assim como o padre João de Almeida: "Porém eram poucos passos andados, quando logo a pobre canoinha, em pedaço de trave cavada, se encheu d'água, não acostumada a peso tão grande" (⁴). Para não desistir da pequena viagem que necessitava fazer, João de Almeida mandou que o índio saltasse na água e fosse, a nado, conduzindo a canoa, até chegar à aldeia de São Francisco Xavier, distante quatorze léguas do Rio de Janeiro. 
Supondo que as coisas tenham se passado do modo como contou Simão de Vasconcelos, devemos reconhecer que esse índio, que teria conduzido a pequena canoa infantil com os dois padres, era um nadador absurdamente atlético... Ficamos, é claro, com a descrição da canoinha, que nos ajuda a visualizar, ainda que de modo tênue, como viviam os ameríndios, nesses tempos já distantes, em que a colonização, avançando, punha fim a um modo de vida que imperara por muito tempo em terras da América.

(1) Os brinquedos indígenas vistos nesta foto pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF). São, evidentemente, bem menores que a canoa descrita nesta postagem.
(2) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, p. 315.
(3) Ibid.
(4) Ibid., p. 316.


terça-feira, 15 de setembro de 2020

Arariboia

Arariboia (¹) era cacique temiminó. Colonizadores portugueses gostavam muito dele, em razão de ser seu aliado. É fácil notar que os índios que se opunham à colonização eram considerados maus.
À frente dos guerreiros de sua tribo, Arariboia juntou-se às forças do governador-geral Mem de Sá para a guerra de expulsão dos franceses que haviam gostado tanto da baía de Guanabara que não queriam deixá-la em mãos de portugueses. A atuação dos indígenas, de um e de outro lado, foi importante no confronto. Afinal, vitoriosos os portugueses, foram enviadas notícias ao Reino. Em resultado, o jovem rei D. Sebastião mandou presentes ao chefe temiminó que tanto se destacara. "[...] El-rei D. Sebastião louvou o esforço do índio, mandou-lhe peças de estima, e entre elas um hábito de Cristo com tença, e um vestido de seu próprio corpo" (²), escreveu Simão de Vasconcelos, autor seiscentista. Sabe-se também que a Arariboia e sua gente foi concedido um lugar, a título de sesmaria, não muito longe do Rio de Janeiro. Era vantajoso ter um aliado desses por perto, com armas na mão para defesa dos colonizadores, sempre que fosse preciso. Seria impertinência perguntar que sentido faziam esses presentes, para quem fora, até pouco antes, senhor inconteste na terra em que nascera?
O episódio mais famoso associado a Arariboia tem que ver com a chegada do governador Antônio de Salema ao Rio de Janeiro em 1575, para assumir o mando nas "capitanias do sul". Foi recebido tanto por portugueses como por chefes indígenas, entre os quais o já idoso temiminó, a quem se dera o nome de Martim Afonso de Sousa (³) por ocasião do batismo. Conta frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (⁴), que, vindo Arariboia à presença do mandatário recém-chegado, foi-lhe concedida uma cadeira em que se sentasse. Isso era uma grande honra, segundo o costume da época, porque gente comum, se chegava a estar diante do governador, devia permanecer em pé, com o chapéu na mão e falando apenas quando permitido. O temiminó, porém, tinha outras ideias, e parece não ter dado grande importância às cerimônias dos colonizadores:
"[...] como o governador desse cadeira, e ele em se assentando cavalgasse uma perna sobre a outra segundo o seu costume, mandou-lhe dizer o governador pelo intérprete que ali tinha, que não era aquela boa cortesia quando falava com um governador, que representava a pessoa de el-rei.
Respondeu o índio de repente, não sem cólera e arrogância, dizendo-lhe: "Se tu souberas quão cansadas eu tenho as pernas das guerras em que servi a el-rei, não estranharas dar-lhes agora este pequeno descanso, mas já que me achas pouco cortesão eu me vou para minha aldeia, onde nós não curamos desses pontos, e não tornarei mais à tua corte". Porém nunca deixou de se achar com os seus em todas as ocasiões, que o ocupou."
Grande Arariboia! Não podemos ter certeza de que as coisas foram exatamente assim - temos o relato de frei Vicente do Salvador, mas os índios, como se sabe, nada deixaram escrito. É de se lamentar, e muito. Tendo em conta, porém, o quanto os atritos entre nativos e colonizadores eram frequentes, não é absurda a suposição de que, ao menos na essência, esse incidente pode ser autêntico, porque não se esperaria que, décadas mais tarde, alguém se lembrasse dele, não fora pela forte impressão que causara.

(1) Há outras grafias, como Ararigboia, por exemplo.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 73.
(3) O mesmo nome do navegador português que percorrera, com sua expedição, o litoral brasileiro, várias décadas antes. Não confundir com outro indígena catequizado que aderira aos portugueses, o cacique Tibiriçá, que, no batismo, também foi chamado Martim Afonso, e que viveu em São Paulo no Século XVI.
(4) O manuscrito é de c. 1627.


terça-feira, 8 de setembro de 2020

Escravos eram mãos e pés de seus senhores

Em Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas, cuja publicação data de 1711, Antonil (¹) tornou célebre a ideia de que os escravos eram "as mãos e os pés do senhor de engenho" (²). Um pequeno incidente revela, porém, que a expressão não foi cunhada por Antonil e, provavelmente, já corria no vocabulário popular muito antes disso. 
Rio de Janeiro, Século XVII. O padre jesuíta João de Almeida vai visitar uma senhora que está doente. De acordo com o relato do também jesuíta Simão de Vasconcelos, nessa ocasião a irmã da enferma faz ao religioso dois pedidos: "[...] indo o padre João de Almeida à casa de uma pobre viúva, cuja irmã, que estava enferma, ia o padre visitar, e que despedindo-se o dito padre da enferma, lhe pedira a viúva se lembrasse de encomendar a Deus a doente, e juntamente lhe fizesse petição, lhe trouxesse uma negra que andava fugida, que era os pés e mãos daquela casa; cuja falta lhe fazia padecer tantas necessidades, que nem água havia em casa, por não haver quem a fosse buscar. [...]" (³).
É evidente, portanto, que pessoas de condição livre que viviam no Brasil Colonial não tinham o menor constrangimento em assumir que seu modo de vida resultava em dependência dos escravos, não apenas para assegurar o funcionamento de grandes propriedades agrícolas, tais como os engenhos, mas até para as tarefas domésticas de rotina. 
Voltando, porém, ao caso da escrava que havia fugido, vejam, leitores, qual foi a resposta do padre: "[...] Compassivo, o padre João de Almeida do desamparo da pobre viúva, disse: Ela virá, e em vindo, tirem-lhe logo os ferros" (⁴). Escravos capturados usavam, por certo tempo, colares de ferro e outros instrumentos que assinalavam sua condição de "fujões", como então se dizia, diante da sociedade escravocrata. E, se alguém está curioso para saber o desfecho desse caso intrigante, vai aqui a conclusão, conforme narrada por Simão de Vasconcelos: "[...] tornando depois [...] o padre João de Almeida à casa da mesma viúva, se lançou a pobre aos pés do venerável padre, dando-lhe as graças pela satisfação da sua promessa, dizendo que no mesmo dia trouxera um soldado presa a negra, a qual logo lhe tirara os ferros conforme sua paternidade lhe tinha mandado." (⁵)
Deixo de lado a suposta profecia do padre João de Almeida, que disto não nos ocupamos neste blog, para assinalar, apenas, que uma coisa fica clara: se o padre, por um lado, mostrava preocupações humanitárias, ao recomendar que à escrava não se impusessem os abjetos sinais que estavam em uso para fugitivos, por outro não fazia a menor censura à escravidão, como um mal que permeava a sociedade. Sua atitude, pelo contrário, validava, sem questionamentos, a existência de mão de obra cativa.

Neste esboço aquarelado de Thomas Ender, feito no Século XIX, um grupo de escravos
 (à direita) é visto em aglomeração junto a um chafariz. Garantir o abastecimento de água
para as residências era uma tarefa comum atribuída aos cativos. (⁶)

(1) Pseudônimo adotado pelo jesuíta Giovanni Antonio Andreoni.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio) S. J. Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 22.
(3) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, p. 266.
(4) Ibid.
(5) Ibid.
(6) Esboço aquarelado de Thomas Ender (1793 - 1875). O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


Veja também:

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Traição no escambo com os índios carijós

Colonizadores europeus e indígenas do Brasil, quando viviam em boa paz, praticavam o escambo, ou troca de mercadorias. Essas mercadorias eram chamadas "resgates", porque se dizia que quem ia ao sertão para tal comércio "ia resgatar". 
O escambo parecia interessante para ambas as partes. Aos indígenas, oferecia a possibilidade da aquisição de ferramentas mais eficientes que as suas, tradicionalmente feitas de pedra, além de objetos de adorno e outras quinquilharias. Aos colonizadores, era um recurso para a obtenção de madeiras, alguns alimentos e objetos de artesanato indígena, como redes, por exemplo. As trocas corriam bem quando nenhuma das partes se sentia lesada, ainda que, como se sabe, as ferramentas oferecidas para resgates - machados, facas, tesouras - nem sempre fossem de boa qualidade, e as roupas - camisas, calções, carapuças - não primassem pela excelência.
No entanto, um episódio relatado pelo jesuíta Simão de Vasconcelos em Vida do Padre João de Almeida mostra bem que, não satisfeitos em fazer as trocas, alguns moradores de Santos, uma das povoações coloniais mais antigas, tiveram a ideia de enganar carijós, indígenas que eram da chamada "região dos Patos", acessível por mar, ao sul da Capitania de São Vicente. Escreveu Simão de Vasconcelos:
"Partindo de Santos certos mancebos [...], chegaram ao porto dos Patos com sua embarcação, a título de seus resgates [...], e antes que corressem os índios ao contrato, trataram este estratagema: pregaram os caixões dos resgates no porão, debaixo da escotilha, de tal maneira que não pudessem ser abalados; vinham os simples, fora de tal engano, e desejosos da mercadoria, concorriam a bandos; os mancebos os mandavam abaixo a carregar os caixões para cima, e como eles estavam fortemente pregados, não podiam os índios abalá-los; chamavam mais e mais companheiros, e quanto mais resistência viam nos caixões, tanto mais entravam, sem receio algum e desacautelados, mas os enganadores sagazes, em vendo a embarcação que estava cheia, deram à vela, fechando as escotilhas, e levaram consigo índios e resgates. [...]." (¹)
É óbvio que o acontecimento não passou despercebido aos carijós que não tinham entrado na embarcação. Nas palavras de Vasconcelos, "[...] bramiam de raiva os que ficavam em terra, vendo a traição, e sentidos da perda e apartamento dos parentes, maridos e filhos, batendo logo os arcos, apregoaram guerra" (²). Por outro lado, pode-se imaginar o rebuliço em Santos, quando, de retorno a embarcação, saltaram em terra os seus ocupantes e deram notícia do que haviam feito. Continua Simão de Vasconcelos:
"Chegaram ao porto de Santos os capitães de tão ilustre feito, e sabido ele, acudiram os padres da Companhia (³), estranhando caso tão enorme; e como era o capitão daquela Capitania por nome Jerônimo Leitão, homem nobre e temente a Deus, repreendeu como devia o latrocínio [sic], e enviou por embaixadores dois dos nossos padres, chamados, um, o padre Agostinho de Matos, e outro, o padre Custódio Pires, aos quais fez entregar os índios com recado seu para os principais (⁴), de como estranhara o caso e o castigara, e fazia restituição e queria continuar as pazes com eles." (⁵)
Duas observações são aqui necessárias. A primeira é relativa a Jerônimo Leitão, o capitão-mor. Nobreza e religiosidade talvez não fossem preponderantes na decisão de devolver os cativos à sua gente. Mais importava, naquela hora, manter o bom relacionamento com os carijós, já que a Capitania de São Vicente vivia às turras com seus vizinhos indígenas, e mais um conflito não era exatamente uma coisa desejável. A segunda questão tem a ver com a atuação dos jesuítas no caso. Por que o padre Simão de Vasconcelos teria trabalho em contar o incidente, não fora para encarecer a atuação de seus irmãos de Ordem? Por outro lado, é sabido o quanto jesuítas se empenhavam pela liberdade dos povos indígenas que haviam catequizado ou que tinham a intenção de ainda catequizar. Nenhuma surpresa, portanto, que entrassem no caso, pressionando, talvez, o capitão-mor a agir. 
Como, afinal, acabou tudo isso? Vamos novamente às palavras de Simão de Vasconcelos:
"[...] Fizeram os padres sua embaixada, e aquietaram os índios por sua língua, de tal maneira que suspenderam os arcos, abrandaram sua ira e abraçando os padres prometeram paz e boa amizade, continuando os resgates e trato com os portugueses. [...]" (⁶)

(1) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, pp. 121 e 122.
(2) Ibid., p. 122.
(3) Referência aos jesuítas.
(4) Líderes tribais dos carijós.
(5) VASCONCELOS, Simão de S. J. Op. cit., p. 122.
(6) Ibid.


terça-feira, 7 de julho de 2020

Um réptil no jantar de alguns bandeirantes paulistas

Nem as cobras escapavam de virar refeição, quando faltava aos bandeirantes comida melhor


Em suas empreitadas de apresamento de indígenas, bandeirantes paulistas levavam uma provisão de farinha de mandioca e de milho, feijão e alguns outros alimentos que se conservassem bem por algum tempo. Além disso, como não eram nem veganos e nem vegetarianos, comiam quanta caça lhes caísse nas unhas. Frutas silvestres, palmito e, em circunstâncias de extrema penúria, até raízes, eram mastigados para acalmar o estômago.
Aqueles dentre os sertanistas que tomavam o rumo das missões jesuíticas de Guairá, pretendendo capturar índios já catequizados e instruídos em um ofício, podiam contar, para alimentação, com fartura de pinhões, que encontravam pelo caminho. Disse Simão de Vasconcelos, jesuíta e escritor do Século XVII, em Vida do Padre João de Almeida, ao tratar das sementes da Araucaria angustifolia:
"[...] É comum mantimento dos bárbaros (¹) e de exércitos inteiros de índios e brancos, que hoje talam aquelas campanhas cada dia, a fazer guerra ao gentio, que habita junto ao Paraguai, terra dos castelhanos, e detendo-se os tais exércitos anos inteiros por estes sertões, bastam só os pinhões para sustento deles. É mantimento doce mais que castanha de Europa, e come-se da mesma maneira que esta, ou cru, ou assado ou cozido. [...]." (²)
Cabe explicar que "exércitos", neste caso, era o modo de Simão de Vasconcelos indicar bandos de homens armados que iam ao sertão, alguns por ordem de administradores coloniais, partindo do "lado espanhol", supostamente para "pacificar" indígenas, mas a maioria formada por gente que saía de São Paulo, e, em um e outro caso, para efeitos práticos, o objetivo era o mesmo: escravizar quantos ameríndios fossem capazes de capturar.
Tentem agora, leitores, usar a imaginação para pintar, mentalmente, a cena: bandeirantes e indígenas que os acompanham, já cansados de um longo dia de caminhada, procuram um lugar conveniente para passar a noite. Aí, depois de armadas as redes, fazem fogo e põem a cozinhar o feijão, que servirá, com a farinha, para a refeição da noite e para o dia seguinte. Alguns, tentando algo mais para o jantar, vão à caça. Coloquem na cena, agora, estas palavras, ainda de Simão de Vasconcelos, em referência às cobras que havia nos sertões:
"[...] se criam cobras tão monstruosas em grandeza, que se conta por certo que da carne de uma só delas, comeu um exército inteiro, e não parece grande o espanto aos que sabem a disforme grandeza daquelas [...] a que chamam jiboias vulgarmente." (³)
Bem, se fosse, não uma jiboia, mas uma sucuri... Ou se o tal exército não fosse muito numeroso... Simão de Vasconcelos talvez quisesse provocar espanto em seus leitores que viviam no Velho Mundo. Uma coisa é certa, porém: não parecia absurdo que sertanistas andassem pelo mato a devorar cobras, se não houvesse nada mais interessante para o jantar.


Jiboia vista em um córrego no interior do Estado de São Paulo

(1) Por "bárbaros", Simão de Vasconcelos fazia referência aos indígenas da região.
(2) VASCONCELOS, Simão de S. J. Vida do Padre João de Almeida. Lisboa: Oficina Craesbeeckiana, 1658, p. 54.
(3) Ibid., p. 55.


quinta-feira, 30 de março de 2017

Espécimes animais que você nunca encontrará em um zoológico

Seria difícil exagerar o progresso na impressão de livros ao longo do Século XVI, tanto em quantidade como em qualidade. Embora ainda não fossem baratos, os livros impressos eram muito mais acessíveis que os belos exemplares medievais copiados à mão e repletos de iluminuras. Mais gente lia, mais autores escreviam e publicavam. O desenvolvimento da qualidade gráfica possibilitou o aparecimento de livros como ICONES ANIMALIVM QVADRVPEDVM VIVIPARORVM ET OVIPARORVM e ICONES ANIMALIVM AQVATILIUM IN MARI & DVLCIBVS AQVIS de Conrad Gesner, publicados em Zürich em meados do Século XVI, com centenas de ilustrações: nesse tempo, cada uma delas precisava ser preparada manualmente por um artista, para, depois, ser inserida na composição da respectiva página. 
Os livros em questão mostravam animais chamados "domésticos", que todo mundo conhecia, tais como bois, vacas, patos, galinhas, cabras, etc., e também centenas de peixes, além de animais considerados selvagens, como rinocerontes, elefantes e girafas, sobre os quais reinava grande curiosidade, já que pouca gente na Europa tivera ocasião de vê-los, durante alguma viagem. 
Além de toda essa bicharada, as obras incluíam, aqui e ali, alguns seres realmente exóticos (se é que podemos falar assim), cujas aparições havia quem relatasse como autênticas. Leitores, é até difícil explicar! Será melhor se passarmos imediatamente às imagens (¹), que falarão por si mesmas.

1. Nem mesmo o autor se atreveu a dar nome; o monstro teria sido capturado em Salzburg no ano de 1531.


2. Alguém sabe o que é isso? A cauda lembra o cangambá ou a jaratataca, mas leva os filhotes consigo, como os gambás. As semelhanças param aí. Gesner dizia que era um animal do Continente Americano. Leitores, se algum dia virem um desses, venham contar aqui no blog, sim?


3. A aparição deste animal teria sido registrada na Itália. Como está incluído no livro dos animais aquáticos, supõe-se que fosse um deles. Seria isso a representação infeliz de um otarídeo - leão-marinho ou lobo-marinho, talvez?


4. Dois semelhantes: o primeiro teria sido avistado em Roma em novembro de 1523; já o segundo ("demônio-marinho"), com direito a aparições na Bélgica (Antuérpia), Noruega e Alemanha, vinha acompanhado de referências a autores da Antiguidade que atestavam sua existência.



5. Hidras são cnidários de água doce, e não há nada de monstruoso nisso. Mas a hidra de Conrad Gesner era muito parecida com o venenosíssimo animal da mitologia grega - o texto alemão falava em "serpente aquática com sete cabeças" - e são sete mesmo, todas bastante humanoides...


Quem de vocês terá visto estes bichos em algum zoológico ou aquário? Será que alguém teve a ideia de capturar e dissecar qualquer deles? Os livros de Gesner traziam também o unicórnio, o peixe-monge e o peixe-bispo, personagens que já andaram frequentando este blog.
Hora de falar sério, leitores. O que estas criaturas estranhas nos mostram é que:
  • Havia, no Século XVI, muita curiosidade por saber o que existia em outras terras (lembrem-se de que os livros de Conrad Gesner foram publicados algum tempo depois do apogeu do Renascimento e das Grandes Navegações, e logo contavam com várias edições);
  • Não podemos descartar o fato de que autores e editores incluíssem coisas absurdas intencionalmente em suas obras, como uma espécie de isca para fisgar leitores crédulos e/ou curiosos;
  • A sede de conhecimento vinha, muitas vezes, acompanhada da falta de informações confiáveis, e até especialistas geniais, como era o caso de Gesner, ainda eram crédulos para supor a existência real dessas simpáticas criaturas - criadas pela imaginação, naturalmente.

No Brasil, um pouco mais tarde...

O jesuíta Simão de Vasconcelos escreveu, no Século XVII, em suas Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil:
"Monstros marinhos têm saído à costa, de cuja espécie, nem antes, nem depois sabemos que houvesse notícia em outra alguma parte do mundo. [...] Dos peixes-homens e peixes-mulheres vi grandes lapas junto ao mar, cheias de ossadas dos mortos; e vi suas caveiras, que não tinham mais diferença de homem ou mulher, que um buraco no toutiço, por onde dizem que respiram." (²)
Vejam só, leitores: não é que, afinal, apareceu uma testemunha ocular?!!!

(1) Para esta postagem seguiu-se a segunda edição das obras citadas, publicadas em Zürich por Christof Froshover em 1560; as imagens foram editadas digitalmente para facilitar a visualização neste blog.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 279 e 280.


Veja também:

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Quem foi João Ramalho

Se existe uma personagem do primeiro século da colonização sobre quem pairam dúvidas, essa é, certamente, João Ramalho. Já foi descrito como condenado a degredo, como náufrago, até como fugitivo. É fato, porém, que, em 1532, quando Martim Afonso de Sousa fundou São Vicente, já esse homem vivia há tempos no Brasil e, perfeitamente adaptado ao modo de vida dos indígenas, entre eles constituíra família numerosa. 
Frei Gaspar da Madre de Deus faz um relato pitoresco do encontro de João Ramalho com a gente de Martim Afonso: Índios que andavam à pesca veem chegar a esquadra portuguesa, correm à procura de um esconderijo e observam, pasmados, o ritual de fundação de São Vicente. A toda pressa percorrem o brutal Caminho do Mar, indo dar a notícia a Tibiriçá, seu chefe, que, de imediato, convoca as tribos aliadas para fazer guerra e expulsar os invasores. É aí que entra em cena João Ramalho:
"Perto de Tibiriçá morava João Ramalho, aquele português que aqui chegara muitos anos antes; ele fazia vida marital com uma filha do régulo [o cacique Tibiriçá], e este lhe participou sem demora a notícia que acabava de receber. Ouviu-a Ramalho com alvoroço grande, porque logo assentou que a esquadra era de portugueses [...]. Firme nesta opinião, e desejoso de evitar a guerra que se dispunha contra os brancos, solicitou o socorro, onde os bárbaros [sic] buscavam o aumento das suas forças. Depois de persuadir o sogro de que os forasteiros eram seus nacionais [...], propôs-lhe grandes conveniências que poderiam resultar de receber benigno aos hóspedes desconhecidos [...]." (¹)
O mesmo autor assevera que, ao terceiro dia, a contar do desembarque de Martim Afonso, é que João Ramalho e Tibiriçá, à frente de quinhentos índios flecheiros, chegaram ao lugar em que estavam os portugueses:
"Apresentou-se Ramalho ao capitão-mor, narrou-lhe os sucessos passados da sua vida e assegurou-lhe que, a instâncias suas, vinha o senhor da terra [Tibiriçá] a defendê-los com os índios que ali via." (²)
Percebam, leitores, que, para frei Gaspar da Madre de Deus, beneditino, nascido em São Vicente no começo do Século XVIII, o encontro de João Ramalho e Martim Afonso foi amigável e oportuno, porque teria impedido que os povos indígenas da região se pusessem em armas contra os recém-chegados lusitanos. Seu registro deve refletir, até certo ponto, as lembranças do acontecimento que sobreviveram por muitos anos. 
A Nobiliarchia Paulistana (também de um autor do Século XVIII, Pedro Taques de Almeida Paes Leme), faz referência a João Ramalho, embora incorra em um erro evidente, conforme já veremos:
"[...] João Ramalho, o progenitor de muitas famílias de São Paulo, que foi o fundador da povoação de Santo André da Borda do Campo, que se aclamou vila em 8 de abril de 1553, sendo então o dito Ramalho guarda-mor e alcaide-mor do campo, e tinha o foro de cavaleiro [...]. Este João Ramalho veio de Portugal (era natural de Barcelos, comarca de Viseu), na companhia de Martim Afonso de Sousa, no fim do ano de 1530 [...]."
Ora, não é possível que João Ramalho viesse com Martim Afonso e, ao mesmo tempo, fosse recebê-lo em companhia de algumas centenas de índios! Ao que se sabe, porém, João Ramalho foi mesmo o fundador de Santo André da Borda do Campo, uma povoação que, por enfrentar dificuldades para a defesa contra ataques dos tamoios, acabou desaparecendo. Seus moradores receberam ordem para ir viver em São Paulo de Piratininga. 
Então, problemas à vista!...
O ponto mais controvertido a respeito do português que vivia como índio está relacionado às suas divergências com os jesuítas, mandados a São Vicente para catequizar indígenas. Para perfeita clareza, é preciso dizer que os missionários detestavam João Ramalho (sendo o inverso, ao que parece, igualmente verdade), a quem consideravam um inimigo da doutrinação dos povos indígenas e um perfeito mau exemplo. Basta ver o que disse Anchieta, em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga no ano de 1554:
"[...] Uns certos cristãos, nascidos de pai português e de mãe brasílica, que estão distantes de nós nove milhas, em uma povoação de portugueses, não cessam, juntamente com seu pai, de empregar contínuos esforços para derrubar a obra que, ajudando-nos a graça de Deus, trabalhamos por edificar, persuadindo aos próprios catecúmenos com assíduos e nefandos conselhos para que se apartem de nós [...], e não deem o menor crédito a nós, que para aqui fomos mandados por causa da nossa perversidade. Com estas e outras semelhantes, fazem que uns não acreditem na pregação da palavra de Deus, e outros, que já víamos entrarem para o aprisco de Cristo, voltem aos antigos costumes, e fujam de nós para que possam mais livremente viver." (³)
"Para que possam mais livremente viver" - interessante essa observação, não é mesmo, meus leitores? Vejam que nenhum nome é mencionado, mas a situação, bem conhecida, indica que a família causadora de problemas era mesmo a de João Ramalho. Um fator importante, nesse caso, é que Anchieta foi um contemporâneo de João Ramalho e, pelo visto, conhecia muito bem o sujeito. Se, no entanto, restar alguma dúvida quanto à identidade do "pai português", temos o recurso aos registros do padre Simão de Vasconcelos, que, valendo-se da documentação escrita de que sua Ordem dispunha, bem como de testemunhos orais, escreveu, no Século XVII, a Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, na qual encontramos:
"Havia em São Vicente um João Ramalho, homem por graves crimes infame, e atualmente excomungado. Mandou-lhe o padre Leonardo [Nunes] pedir com cortesia, fosse servido sair da igreja, porque pudesse ele celebrar sacrifício, pois não podia em sua presença; fê-lo assim, e celebrou o padre. Porém dois filhos seus, mamelucos, dados por afrontados, determinaram castigar no servo do Senhor a injúria que tinham por feita ao pai [...]." (⁴)
Mas não é só. Descrevendo, em outro trecho, a chegada de Manuel da Nóbrega a São Vicente em 1553, acrescentou:
"Aquele famoso João Ramalho, homem rico na terra, mas infame nos vícios, amancebado público por quase quarenta anos, e de ordinário por essa causa excomungado [...], lembrado agora de seus antigos ódios, e tendo ainda vivo no peito o agravo que cuidou lhe fizera o padre quando o mandou avisar se saísse da igreja, porque ele não podia exercer o sacrifício do altar, por estar censurado; entre as alegrias e parabéns com que o povo recebia por hóspede o padre Nóbrega, andava ele com a caterva de seus filhos, muitos em número, e todos de má casta, mamelucos ilegítimos e desalmados, com arcos, flechas e gritarias, espalhando de alguns deles [os padres da Companhia] crimes péssimos e indignos de seculares, quanto mais de pessoas religiosas [...]." (⁵)
O que se pode notar, de pronto, é que, vivendo em um tempo no qual todas as personagens dessa história já haviam morrido, Simão de Vasconcelos deu eco às informações que denunciavam João Ramalho e sua vasta descendência como uma horda de facínoras, cujo objetivo era emperrar o trabalho dos jesuítas. Não é impossível que, da parte do português, houvesse algum receio de perder a influência considerável que adquirira entre os ameríndios, com os quais se aparentara; por outro lado, levando em conta os costumes que então vigoravam entre europeus, não surpreende que, para os jesuítas, fosse um escândalo a existência de um cristão que, vivendo entre os indígenas, chegara, por assim dizer, a ser um deles. Algum tempo no Brasil, porém, acabaria mostrando aos missionários que, se queriam sobreviver e catequizar, precisariam, até certo ponto, adotar alguns costumes da terra. Não como João Ramalho, porém.

(1) MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente, Hoje Chamada de São Paulo, do Estado do Brasil. Lisboa: Typografia da Academia, 1797, p. 30.
(2) Ibid., p. 31.
(3) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 46.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 47.
(5) Ibid., p. 75.


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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Como indígenas do Brasil faziam contas

Segundo um grande número de relatos, povos indígenas do Brasil eram hábeis em usar a calculadora mais antiga do mundo. Sim, aquela mesma, leitores, que vocês devem ter usado em seus primeiros anos escolares, malgrado a oposição dos professores ou dos pais, quando acompanhavam suas tarefas. Já sabem do que estou falando, não?
Hans Staden, que foi prisioneiro dos tupinambás no Século XVI, teve sorte suficiente para escapar de virar moquém (¹) e, depois de tudo isso, ainda publicou um livro na Alemanha, no qual relatou:
"Eles [os indígenas] não sabem contar além de cinco. Quando desejam contar, nomeiam os dedos das mãos e dos pés. Se querem falar de números maiores, mostram quatro ou cinco pessoas, para dizer os dedos e artelhos que têm." (²)
Uma informação semelhante vem de Frei Vicente do Salvador, que concluiu o manuscrito de sua História do Brasil por volta de 1627; observem a tentativa de justificar por que indígenas não tinham um sistema altamente sofisticado para indicar quantidades:
"Jamais usam de pesos e medidas, nem têm números por onde contem mais que até cinco, e se a conta houver de passar daí a fazem pelos dedos das mãos e pés, o que lhes nasce da sua pouca cobiça [...]."
Explicando que indígenas tinham dificuldade em estabelecer uma conta exata dos rios que constituíam uma bacia, o jesuíta Simão de Vasconcelos observou, em obra cuja primeira edição é datada da segunda metade do Século XVII:
"[...] As nações que habitavam a circunferência [sic] do rio, e seus grandes braços, não podiam contá-la, não só pelos dedos das mãos e dos pés, por onde costumam contar, mas nem ainda com os seixos da praia [...]." (³)
Como os leitores devem ter notado, a novidade apresentada por Simão de Vasconcelos é a menção ao uso de "seixos da praia", para indicar quantidades que não podiam ser contadas com os dedos. Mas vamos, agora, a uma última referência, que nos vem da obra do Príncipe Adalberto da Prússia. Quando percorria o Xingu, anotou em seu diário de viagem, em um dia de dezembro de 1842, este relato do encontro com um chefe juruna bastante idoso, que lhe contava como reunia gente para ir fazer guerra a uma maloca pertencente a desafetos:
"Para o pôr do sol reuniram-se muitos índios diante da cabana do tuxava de Piranhaquara, um velho amável, cujos compridos cabelos brancos caíam sobre os ombros escuros. [...] Para nos mostrar o número dos que o acompanharam, contava os dedos das mãos e dos pés, e, por fim, fazendo um largo círculo em volta, apontava para as mãos e os pés de todos os circunstantes, para significar que o número dos seus era igual à soma dos dedos dos pés e das mãos de todos nós." (⁴)
Ora, meus leitores, é muito fácil constatar que, entre a descrição do método indígena de contar feita por Hans Staden, que esteve entre os tupinambás no Século XVI, e a que aparece na obra do Príncipe Adalberto, que andou entre jurunas em meados do Século XIX, há uma semelhança notável. Como pode ser isso, já que todos sabemos o quanto os séculos de colonização afetaram as variadas culturas dos povos indígenas do Brasil? 
A explicação é bastante simples: os tupinambás que Hans Staden encontrou viviam em áreas litorâneas do Sudeste e, em consequência do confronto precoce com colonizadores, não tardaram a "desaparecer"; os jurunas que o príncipe Adalberto conheceu viviam, por assim dizer, no coração do Brasil, portanto em uma área que, no Século XIX, ainda era relativamente pouco afetada pela presença de não indígenas, daí não ser uma completa surpresa a permanência de elementos da cultura tradicional, como era o caso da forma de contar. Não creio que seja necessário recordar que, para bem e/ou para mal, as coisas não permaneceram assim por muito tempo.

(1) Não foi, por muito pouco, o prato principal de um festim antropofágico.
(2) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557. O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 37.
(4) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazonas - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 322.


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sexta-feira, 8 de abril de 2016

A hora da catequese

Missionários jesuítas adaptavam os horários de catequese à rotina seguida pelos povos indígenas


Embora, pelas cartas de Anchieta, seja possível inferir que missionários jesuítas não perdiam ocasião de ensinar suas crenças aos indígenas, também sabemos que, sempre que conseguiam ser admitidos ao convívio em uma aldeia, logo tratavam de adotar um horário definido para a catequese. O aspecto interessante é que a escolha da hora estava relacionada à rotina que habitualmente era seguida, não pelos padres, mas pelos índios, ao menos para a catequese de adultos. 
Razão para isso? Muito simples: os homens indígenas adultos costumavam passar boa parte do dia em atividades como caça e pesca, e só no final da tarde é que retornavam à aldeia. O padre Simão de Vasconcelos, autor seiscentista da Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, explicou:
"Como [os índios] vivem de seu arco, em amanhecendo partem à caça das aves e feras por esses campos [...], voltam comumente à noite, de maneira que em todo o dia não há tratar com eles com sossego. Porém este inconveniente vencia o grande fervor de Aspilcueta (¹). Ia esperá-los sobre a tarde, a tempo que vinham carregados com suas caças, dava-lhes as boas-vindas e os parabéns do sucesso aos que tiveram boa dita. Dizia-lhes que descansassem e ceassem [...] com suas famílias; e quando já estavam descansados e satisfeitos, em começando a noite a desenrolar seu manto, começava ele a despregar a torrente de sua eloquência, levantando a voz, e pregando-lhes os mistérios da fé, andando em roda deles, batendo o pé, espalmando mãos, fazendo as mesmas pausas, quebros e espantos costumados entre seus pregadores, para mais os agradar e persuadir." (²)
Para a catequese das crianças a estratégia era diferente: estabeleciam-se escolas, que funcionavam durante o dia. O mesmo Simão de Vasconcelos, na biografia do padre José de Anchieta, escreveu: "Nestas escolas gastam duas horas de manhã, outras duas da tarde." (³)
Logo os missionários jesuítas perceberam que os meninos catecúmenos podiam ser muito úteis quando a questão era convencer os adultos. Assim que anoitecia, as crianças, cantando, percorriam as ruas, o que devia fazer boa impressão entre os nativos do Brasil, notórios amantes da música:
"Tangendo as Ave Marias da noite, tornam-se  a ajuntar [os meninos] à porta da igreja, e daí formam procissão com cruz levantada diante, e postos em ordem, vão cantando pelas ruas em alta voz prosas santas em sua língua [...]." (⁴)
Aos jesuítas parecia, a princípio, mais fácil catequizar crianças que adultos; o tempo veio provar, porém, que assim que chegavam à adolescência, quase todos os meninos optavam pelo atraente estilo de vida de seus pais, com sua liberdade, suas caçadas e suas guerras a cada nova safra de cajus, em lugar dos severos costumes que os padres tentavam ensinar. Justamente por isso é que Anchieta, um mestre no gênero epistolar, viria a escrever algumas de suas páginas mais amargas, exprobando à criançada indígena o abandono da fé que antes pareciam aceitar com tanta facilidade.

(1) Padre João Aspilcueta Navarro, o primeiro dentre os missionários jesuítas a ser capaz de ensinar na "língua geral" dos indígenas que viviam em áreas litorâneas.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 55.
(3) Idem. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 163.
(4) Ibid.


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quarta-feira, 9 de março de 2016

Zona Tórrida

As grandes navegações dos Séculos XV e XVI provaram que as classificações climáticas adotadas pelos sábios da Antiguidade continham ideias absurdas


"É sempre um prazer ver as velhas e respeitáveis verdades 'respeitadas pelo tempo' de nossa infância esfrangalhadas e atiradas ao vento."
Richard Burton (1)

A ideia de classificar o mundo em três zonas climáticas surgiu, ao que parece, na cabeça de Eratóstenes (cerca de 276 a.C. a 195 a.C.), um sábio helenista que viveu em Alexandria (a do Egito). Foi ele mesmo quem colocou em prática um experimento que permitiu, naqueles tempos remotos, medir com razoável precisão a circunferência da Terra. Mas não foi só. Para chegar à noção de que a Terra tinha três zonas climáticas (frígida, temperada e tórrida), Eratóstenes precisava ter já algum conhecimento das condições do planeta em áreas que nunca havia visitado, além de supor, naturalmente, uma correspondência de climas ao longo da esfera terrestre.
Antes dele, porém, outros já haviam considerado a existência de uma misteriosa região, que, segundo conjecturavam, era tão quente que de modo algum poderia ser habitada. E, como Aristóteles (c. 384 a.C. - 322 a.C.) estava entre os defensores dessa ideia, a dita opinião foi, por muito tempo, considerada por muitos uma verdade incontestável, levando-se em consideração o prestígio atribuído ao pensamento do Estagirita entre a intelectualidade medieval.

Zonas climáticas da Terra, de acordo com a Cosmographia de Petrus Apianus,
publicada em Paris em 1553

As grandes navegações dos Séculos XV e XVI vieram provar que Aristóteles e companhia estavam simplesmente errados. Muito errados. Havia, é fato, uma região da Terra cujas temperaturas eram mais elevadas que as conhecidas na Europa da época. Não era, porém, em absoluto, impossível a existência de vida, inclusive humana, nesse lugar. E, já que na Antiguidade houve, também, quem achasse que a suposta zona tórrida devia ser um ótimo lugar, a coisa assumiu proporções de uma batalha ideológica, ainda que muitos séculos depois que os pensadores gregos e helenistas tinham andado por este pequeno planeta. Um melhor conhecimento da Terra, em decorrência das viagens marítimas, acabou, finalmente, com as dúvidas.
O Padre Simão de Vasconcelos, jesuíta que viveu no Brasil durante o Século XVII, escreveu bastante sobre o "desmentido" em relação às teorias relacionadas à zona tórrida, desde que se descobrira a América e, mais especificamente, desde que se passara a explorar o Hemisfério Sul:
"Confesso que andando correndo esta terra", observou ele, "e considerando a perfeição de sua formosura, me ria comigo algumas vezes, lembrando dos ditos dos antigos, e do engano em que viveram tantos séculos." (²)
Explicou, então, aos leitores das suas Notícias Curiosas e Necessárias:
"Aristóteles, o príncipe dos sábios, no segundo livro de seus Meteoros, capítulo V, com toda a escola de seus discípulos, foi o primeiro que infamou a América (³), apregoando dela e de toda a mais terra que corresponde à Zona a que chamava Tórrida, entre os dois círculos solstícios de Câncer e Capricórnio, ser terra inútil, seca, requeimada e incapaz de fontes, rios, pastos e arvoredos, e, por conseguinte deserta para sempre, e inabitável aos homens, pelos excessivos ardores causados da proximidade do Sol, que anda sempre sobre ela." (⁴)
Dando asas à imaginação, Simão de Vasconcelos pôs-se a pensar sobre qual seria a reação dos sábios da Antiguidade se pudessem ver o que era, de fato, a região do mundo à qual chamavam Zona Tórrida:
"Que diriam, se ressuscitassem hoje conosco, e vissem o que vemos? Sem dúvida que arrependidos diriam que a terra do Brasil, toda a América e toda a meia Zona, a que chamavam Tórrida, não só não é terra inútil, seca, requeimada, deserta, inabitável para gente humana, mas pelo contrário, que é uma região temperada, amena, abundante de chuvas, orvalhos, fontes, rios, pastos, verdura, arvoredos e frutos para perfeita habitação de viventes." (⁵)
Apresentou, por fim, em contraste, a opinião dos que, segundo ele, entendiam que a Zona Tórrida era não somente uma região perfeitamente ecúmena, mas ainda um verdadeiro paraíso terrestre:
"Não só os homens de nossos séculos, houve também muitos dos antigos que acertaram no conhecimento desta verdade. Assim o afirmavam Eratóstenes, Políbio, Ptolomeu, Avicena e não poucos dos nossos teólogos, de que faz menção São Tomás [...], que chegam a defender que nesta parte debaixo da linha equinocial criara Deus o paraíso terrestre, por ser esta a parte do mundo mais temperada, deleitosa e amena para a vida humana. Isto clamavam já tanto dantes estes autores, porém não eram cridos." (⁶)
Paraíso terrestre? Bem, aí já há certo exagero...

(1) BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 306.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 236.
(3) Sem jamais tê-la visto e, provavelmente, sem ter certeza de sua existência.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Op. cit., p. 220.
(5) Ibid., pp. 228 e 229.
(6) Ibid., pp. 229 e 230.


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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Natal muito triste para um jumentinho

Conta o padre Simão de Vasconcelos em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, que, nos primeiros e difíceis tempos do Colégio dos jesuítas na Bahia, viveu nele um irmão de nome Domingos, mais conhecido entre os religiosos pelo apelido de Pecorela (¹). Segundo escreveu Simão de Vasconcelos, era esse Domingos Pecorela um homem de pouca instrução, mas muito devoto e extremamente dedicado aos afazeres relacionados à manutenção diária do Colégio:
"Cinco anos serviu este servo fiel à Companhia, e em todos eles se teve sempre por um escravo comprado por dinheiro para o serviço da casa, sem mais querer, nem mais pretender, que o de um servo leal. Entre os mais ofícios da obediência, o principal era ter cuidado em um jumentinho, e ir com ele a todas as partes onde era mandado em busca do sustento da casa, que era pobríssima." (²)
É fato que Simão de Vasconcelos fez sua Crônica mais de um século depois da morte do irmão Domingos, mas usava consultar registros escritos e relatos daqueles que tinham algo a contar. Além disso, não constitui grande dificuldade imaginar quanto era complicado fazer provisões para o sustento dos que viviam no Colégio quando a colonização na Bahia estava apenas começando. Assim, o relato segue explicando que, na falta de comida, Domingos Pecorela era mandado às aldeias de índios amigos, para pedir alguma doação:
"Quando faltava de comer na Casa (que era muitas vezes), não desmaiava Domingos Pecorela: ornava seu jumento, ia-se às aldeias dos índios e entrava com eles com tal graça, falando-lhes pela própria língua, em que era perito, que estes lhe faziam a carga do mais estimado de seus haveres, farinha, caça do mato, batatas, bananas, carás, que é o que possui esta gente quando mais rica, e era naquele tempo o comer de mais estima dos padres." (³)
Pecorela, sempre em companhia do fiel companheiro de quatro patas, ia também buscar lenha e água para o Colégio:
"Bastava significar-lhe o Superior: "Irmão Domingos, ide à lenha para a cozinha", e sem mais demora, a pé descalço [...], aparelhava seu jumentinho e ia ao mato a carregar de lenha, e da mesma maneira à fonte e carregar de água." (⁴)
Ora, o que haveria de incomum nesta história? No Século XVI era perfeitamente normal que animais de carga fossem empregados para o transporte de água (não havia encanamento) e de lenha (principalmente para manter aceso o fogão); por outro lado, não é surpreendente que os padres pedissem ajuda aos indígenas quando lhes faltava o necessário à subsistência. De qualquer modo, dirão os leitores, alguém no Colégio teria que cuidar do jumento...
É que Domingos Pecorela era mesmo muito afeiçoado ao animal que estava sob sua responsabilidade:
"Era tal a humildade simples e simplicidade humilde deste bom irmão, que chegava a ter-se por obrigado a servir ao próprio jumento; assim curava ele, assim se compadecia de seu trabalho, como se fora criatura racional; chegava a descuidar de si por cuidar do asninho." (⁵)
Exagero? O padre Simão de Vasconcelos estava disposto a provar que não:
"Pareceu-lhe [a Domingos Pecorela] algumas vezes que vinha carregado sobre suas forças; e logo compadecido tirou parte da carga das costas do jumento, e pôs às suas, e caminharam ambos carregados; e aos que lhe perguntavam por que tomava aquele trabalho, respondia cheio de compaixão: Porque esta pobre criatura não pôde mais, e que se diria de mim, se viesse ela arrebentando com a carga, e o irmão Domingos folgando?" (⁶)
Pecorela faleceu no Colégio da Bahia em 24 de dezembro de 1554, ou seja, na véspera do Natal. Quanto ao jumento, não se têm dele mais notícias, nem sabemos se, acaso, foi colocado, na mesma noite, em algum presépio vivo. Mas deve ter sentido muito a perda de seu melhor amigo.

(1) Provavelmente faziam um trocadilho com o termo italiano Pecorella, ou seja, ovelha.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 105.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid., pp. 105 e 106.
(6) Ibid., p. 106.


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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Esqueletos de baleia no caminho do padre Anchieta

Relatos dos primeiros tempos coloniais dão conta de que as baleias eram, então, muito numerosas no litoral brasileiro, a tal ponto que a Coroa concedia o monopólio de sua captura àquele que fizesse a proposta mais vantajosa. Ao traçar a biografia do padre José de Anchieta, Simão de Vasconcelos, jesuíta que escreveu no Século XVII, observou que, ao caminhar pelas areias de Itanhaém, seu biografado achava, pelo caminho, restos de baleias que por ali haviam encalhado:
"É a praia desta costa, por onde caminhava, tão áspera e dura, que um carro bem carregado não deixa sinal nela, e comumente embaraçada com armações desfeitas de corpos de baleias, que ali se dão à costa, cujos ossos perturbam, impedem a praia e fazem o caminho mais áspero; contudo esse mesmo caminho era a recreação de José, a pé, comumente descalço, costume seu em todas as mais peregrinações." (*)
Se vivesse no Século XXI, e supondo que caminhasse descalço pelas praias do Brasil, Anchieta não teria, por certo, que topar a cada passo com vestígios de baleias. Elas são, hoje, muito menos numerosas (por que seria?!!), embora vez ou outra, alguma ainda encalhe num ponto qualquer do litoral, dependendo então da boa vontade de ambientalistas dedicados para voltar a nadar, feliz da vida, pelas águas do Atlântico.

Esqueleto de baleia exposto em Ubatuba - SP

(*) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Vida do Venerável Padre José de Anchieta. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1672, p. 169.


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