sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Natal no Verão

A imagem clássica do Natal, retratada em cartões de boas-festas, é a de casas, igrejas e pinheiros cobertos de neve. Bonecos e crianças esquiando também são frequentes. Tudo isso no Brasil, onde o Natal acontece em pleno verão. 
Tendo a colonização começado no Século XVI, não demorou para que navegadores e colonos que vinham ao Brasil percebessem que, "passando a linha", as estações do ano eram invertidas em relação ao Hemisfério Norte. Neve no Brasil, portanto, só em poucas ocasiões a cada ano, nos meses mais frios, ou seja, entre junho e setembro. Fora disso, é uma raridade. Anchieta, missionário jesuíta, escreveu, em maio de 1560, em uma carta destinada ao Geral da Companhia de Jesus: "A divisão das estações do ano (se se considerar bem) é totalmente oposta à maneira por que aí se compreende (...)." (*) E, em outro documento, datado de 1585 e também atribuído a Anchieta (**), pode-se ler: "O inverno começa cá em março e acaba em agosto; o verão começa em setembro e acaba no fim de fevereiro, e por isso o Advento e o Natal são em sumo estio." (***) Vê-se, pois, que, ao menos quanto a ser o Natal no verão, Anchieta estava certíssimo.
Por conta disso, mesmo sob temperaturas elevadas, em torno de 30º C, toda a propaganda voltada para as vendas de Natal é feita como se o Brasil estivesse quase no Polo Norte. Há até shopping centers que anunciam quedas de neve artificial em horários pré-definidos, tudo para atrair clientes e, com tamanha inspiração, ensejar um volume maior de vendas.
Alguns amigos meus chegam a queixar-se de que é uma injustiça que não haja neve no Brasil em dezembro. Até já vi gente dando rédea solta à fantasia e imaginando como seria se, de repente, viesse uma frente fria pesada e tudo ficasse branquinho...
Sim, sim, o clima deste planeta está maluco, mas (ainda) não a esse ponto (****). Portanto, quem quiser um verdadeiro white christmas, vai ter que viajar para bem longe do Brasil.

(*) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 106
(**) Informação da Província do Brasil Para Nosso Padre. Nessa ocasião Anchieta era o Provincial da Companhia de Jesus no Brasil. 
(***) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ  Op. cit. pp. 424 e 425
(****) Talvez alguns leitores ainda se recordem de que, no último dia dos Jogos Olímpicos de 2016, quando era realizada a prova masculina da maratona, a temperatura no Rio de Janeiro era de 22º C; enquanto isso, nevava no Estado de Santa Catarina. De qualquer modo, era inverno - oficialmente - em um e outro lugar. 

6 comentários:

  1. Marta,
    Desejo-lhe um Feliz Natal, pleno de esperança e saúde, muita saúde!

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  2. Esse blog é excelente. Encontrei material profissional além das minhas expectativas! Por ser apenas entusiasta e não historiador, pergunto, existe algum consenso sobre o manuscrito 512? Vale uma postagem sobre ele?

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    1. Olá, mcbecker, obrigada por sua visita ao blog.
      O Manuscrito 512 é considerado autêntico, no sentido de que é, de fato, bastante antigo, ou seja, não foi forjado para parecer antigo. Como se sabe, nos tempos coloniais formou-se uma mitologia bastante variada, relatando o avistamento de cidades em ruínas, em diversos pontos do Brasil, e que, ao menos oficialmente, jamais foram encontradas. É o caso, por exemplo, da chamada Serra dos Martírios (há um post no blog sobre ela), que ficaria em território da tribo dos araés, em algum ponto dos atuais Estados de Goiás ou Tocantins. No caso específico do Manuscrito 512, o texto dele afirma que a expedição que teria localizado uma cidade muito antiga foi ao sertão em busca das "minas de prata do Moribeca", cujo segredo teria morrido com seu descobridor. Então, se as famosas ruínas fossem reais, não poderiam estar muito distantes do litoral, já que a expedição do Moribeca, que realmente existiu, partiu de Salvador, que era, na época, capital do Brasil.
      Pois bem, toda a área na qual ele, com toda probabilidade, andou, é hoje bastante conhecida, e nada semelhante às ruínas de uma cidade antiga, como descrita no manuscrito, jamais se viu.
      É difícil julgar se o autor do Manuscrito, quem quer que fosse ele, teve a intenção de uma fraude, mas há algumas hipóteses a considerar:
      a) Apresentar ao governo português um relatório de supostas descobertas podia resultar na nomeação para algum cargo rendoso, com a ordem de ir em busca dos tais tesouros, ainda que, correndo o tempo, eles nunca fossem encontrados (isso aconteceu mais de uma vez, e a própria expedição do Moribeca teria esse cenário);
      b) Quando se observa as supostas inscrições do Manuscrito 512, tem-se a impressão de que elas lembram um pouco as pinturas rupestres encontradas em diversos lugares do Nordeste e mesmo do Centro-Oeste. Não poderiam ser elas a origem de uma enorme fantasia?
      Já ouvi vários relatos de pessoas que, andando pela selva amazônica, encontraram ruínas, mas estas, ao que tudo indica, seriam pertencentes a pontos avançados da civilização inca - este assunto, porém, precisa ser melhor estudado, não há dúvida.
      Quanto à ideia de um post sobre o Manuscrito 512, acho a ideia muito interessante, e vou colocá-la na lista de assuntos para futuras postagens.
      Um abraço, e volte mais vezes ao blog! :-)))

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  3. Marta, esse histerismo por um Natal gelado é extensível a outras regiões tropicais, nomeadamente aqui em Angola. O Pai Natal do shopping veste-se com o tradicional fato vermelho... temos que nos apiedar do pobre actor!
    Entretanto, na passagem de ano, assumem plenamente as vantagens do Verão.
    Abraço festivo
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Vale o mesmo para o Brasil, em especial neste ano, em que o calor está absurdo - e as previsões meteorológicas diziam que este seria um verão de temperaturas amenas.

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