segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Crianças em um Cenário de Guerra

Nos últimos tempos, o sofrimento de crianças em cenário de guerra tem sido explorado às últimas consequências, para bem e para mal. Contendores usam fotografias chocantes de meninos e meninas estraçalhados durante bombardeios, a fim de chamar a atenção do mundo para objetivos políticos - alguns bastante explícitos; outros, nem tanto. Potencializadas pela rede mundial de computadores, cenas que antigamente levariam semanas para chegar ao conhecimento de apenas uma parte da humanidade conseguem varrer o planeta quase instantaneamente. Se é que geram alguma conscientização, nem por isso essas imagens têm a capacidade de barrar o ódio beligerante e as ambições ilimitadas dos que detêm o mando e o controle dos arsenais.
Sem muita consciência dos reais motivos que ocasionam conflitos, muitos pequenos crescem achando que o mundo deve ser assim mesmo - um inferno, portanto. Privados da frequência regular à escola, submetidos à escassez de alimento e água potável, vítimas indefesas em bombardeios, para cúmulo de tudo são, não raro, recrutados, e, quando deveriam brincar livremente, aprendem as primeiras lições de como manejar uma arma. Infância, de verdade, é algo que não existe em tal cenário.
Fenômeno de nossos dias? Não só. Que diriam os leitores se soubessem que uma situação assim foi a realidade de muitas crianças no Brasil, durante a chamada Guerra de Canudos (*)? Engana-se quem imagina que entre os adeptos de Antônio Conselheiro estavam apenas homens adultos. Havia mulheres, havia idosos. Havia também muitas crianças, e, em meio à luta contra as forças governamentais, meninos eram mandados para o combate. Se caíam prisioneiros, eram alvo imediato de interrogatório, na suposição de que seria mais fácil arrancar das crianças as informações que os adultos teimavam em esconder. 
Ledo engano. Por um trecho de Os Sertões, sabemos que havia guris tão hábeis nas manhas da guerra como se fossem homens feitos. Basta ver o que escreveu Euclides da Cunha, ao narrar o interrogatório de um menino que não teria ainda nove anos completos:
"Respondia entre baforadas fartas de fumo de um cigarro, que sugava com a bonomia satisfeita de velho viciado. E as informações caíam, a fio, quase todas falsas, denunciando astúcias de tratante consumado. Os inquiridores registravam-nas religiosamente. (...). Num dado momento, porém, ao entrar um soldado sobraçando a Comblain, a criança interrompeu a algaravia. Observou, convicto, entre o espanto geral, que a "comblé" não prestava. Era uma arma à toa, "xixilada": fazia um "zoadão danado", mas não tinha força. Tomou-a: manejou-a com perícia de soldado pronto, e confessou, ao cabo, que preferia a manulixe, um clavinote de "talento". Deram-lhe, então, uma Mannlicher. Desarticulou-lhe agilmente os fechos, como se fosse aquilo um brinco infantil predileto.
Perguntaram-lhe se havia atirado com ela, em Canudos.
Teve um sorriso de superioridade adorável:
"E por que não! Pois se havia tribuzana velha!... Havera [sic] de levar pancada, como boi acuado, e ficar quarando à toa, quando a cabrada fechava o samba desautorizando as praças?!""
Por um instante, graças ao registro de Euclides da Cunha, nos é dado ouvir a voz desse pequeno combatente. Quantos outros meninos não terão lutado e morrido em Canudos? Ninguém sabe, ao certo. Multiplique-se o efeito por todas as guerras que já ocorreram neste planeta - fato é que o desrespeito à infância não é monopólio de alguma época ou lugar. Apesar de todos os protestos, a barbárie continua, sem nenhum constrangimento, a fazer vítimas. A insanidade parece ser muito mais forte que a razão. 

(*) 1896 - 1897.

2 comentários:

  1. Os objectivos do milénio estão longe de serem alcançados, em particular em algumas regiões do globo. No dia em que todas as crianças tiverem a oportunidade de viver infância de forma segura e digna, então teremos dado um passo civilizacional de gigantes.
    Será que viveremos para ver esse dia chegar?
    Abraço
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    Respostas
    1. Já deve imaginar o que eu penso, não? É só olhar para o que acontece no mundo... Vai o planeta de mal a pior.

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