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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Mentiras de guerra

Já imaginaram, leitores, se os políticos falassem sempre a verdade? Ou, quem sabe, se os comandantes militares, durante uma guerra, jamais ousassem proferir uma simples mentirinha? Suponham, agora, essa síndrome da verdade nas relações diplomáticas... 
Durante uma batalha na Guerra do Peloponeso (foi Tucídides quem contou), Demóstenes teve a ideia de mandar os aliados messênios para a vanguarda das forças por ele comandadas, não porque fossem julgados mais aptos ou mais valentes que os demais soldados, mas porque seu dialeto, sendo o mesmo dos dórios a quem enfrentavam, tornaria possível enganar as sentinelas inimigas (¹). Mais da Guerra do Peloponeso: para Brasidas, um comandante espartano, as astúcias mais notáveis em uma guerra seriam aquelas que, causando o maior dano possível aos adversários, resultassem em máximo benefício para os aliados (²). 
Uma mentira foi útil aos romanos quando quiseram conquistar a ilha de Creta. Aneu Floro, em Epitome rerum Romanarum, Livro III, afirmou: "A guerra de Creta, se admitirmos a verdade, nós [os romanos] a fizemos  apenas pela cobiça de vencer aquela nobre ilha" (³). Mas era necessário um pretexto! Alegou-se que Creta era suspeita de haver favorecido Mitridates, rei do Ponto, na guerra contra Roma. Não passava de conversa fiada, mas, com base nela, proclamou-se a vingança. No decorrer dos combates, muitos cretenses, percebendo a derrota como inevitável, ingeriram veneno, porque eram devidamente conhecidas as consequências para os que caíam prisioneiros dos romanos.
Consta ter acontecido no Século XVII, durante a resistência à ocupação de Pernambuco por holandeses: o general Matias de Albuquerque, sabendo que, se a soldadesca desconfiasse que a pólvora estava por acabar, desertaria de vez, resolveu adotar um pequeno expediente, que Duarte de Albuquerque Coelho registrou em suas Memórias Diárias, informando que o comandante "somente tinha consigo dezesseis libras de pólvora, ainda que tinha quatro barris de areia a que os soldados faziam guarda, como se fossem de pólvora. Toda sorte de manha era necessária por estar em campo aberto tendo à frente um inimigo poderoso" (⁴). Mais tarde, com a maré da guerra se movendo a favor dos luso-brasileiros, outro comandante adotou o seguinte disfarce, com a intenção de fazer crer aos inimigos que seus comandados eram portugueses treinados para a guerra, e não grupos de indígenas sem prática de combate segundo os preceitos usuais entre europeus: "[...] mandou intrometer entre os soldados brancos muitos índios com chapéus e carapuças, para que parecessem todos portugueses. O que visto pelos holandeses, e a resolução dos nossos, levantaram bandeira de paz e se entregaram com artilharia, mosquetes, escravos e mais fazendas [sic], que havia na fortaleza, que de todo foi arrasada" (⁵).
Vejam, meus leitores, que mentiras e outras trapaças sempre foram admitidas, e até elogiadas, se fosse para vencer uma guerra. Por quê? Ora, porque muitas vezes funcionavam. A ética da verdade, tão valorizada nos tempos de paz, conforme ensinada às crianças e que se esperava dos cidadãos de bem, era abandonada nos campos de batalha. Como contrapartida, o engano empregado para vencer o inimigo, defender ou conquistar território e capturar um rico botim era glorificado como virtude, até sob a alegação de que poupava vidas. Vocês acham que mudou alguma coisa em nosso século?

(1) Cf. TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso, Livro III.
(2) Ibid., Livro V.
(3) FLORO, Aneu. Epitome rerum Romanarum, Livro III. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) COELHO, Duarte de Albuquerque. Memorias Diarias de la Guerra del Brasil. Madrid: Diego Diaz de la Carrera, Impressor del Reyno, 1654. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860.

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terça-feira, 16 de junho de 2020

Quantos tiros um mosqueteiro disparava em um combate no Século XVII

Ao relatar uma escaramuça ocorrida durante a luta pela expulsão dos holandeses que haviam entrado no Nordeste brasileiro no Século XVII, Antônio de Santa Maria Jaboatão, em obra que data originalmente de 1757, afirmou: "dos nossos pereceram sete, e foram feridos vinte e cinco, e Jerônimo Correa com três flechadas (¹), de que sarou com muito perigo; e assim ele como os dois companheiros da primeira canoa, com as mãos tão empoladas da quentura dos mosquetes, que por muitos dias sofreram aquela moléstia; porque cada um naquele combate havia disparado mais de quarenta tiros" (²).
Comparados a outras armas da época, os mosquetes eram pesadões e um tanto desajeitados. Carregar um deles e preparar o tiro demandava alguns minutos. Enquanto isso, o mosqueteiro, provavelmente rezando para não ser atingido pelo inimigo, trabalhava tão rápido quanto sua habilidade e treinamento permitiam. Finalmente, partia o tiro. Quanto ao alcance, qualquer arqueiro experiente faria melhor, mas, como arma de fogo que era, o mosquete produzia um estrago maior. Apesar de todos os inconvenientes, mosquetes - com aperfeiçoamentos, por suposto - continuaram em uso por bastante tempo.
Contrastem, leitores, os cerca de quarenta tiros ao todo disparados por Jerônimo Correa, fazendo uso de um mosquete do Século XVII, com a velocidade e precisão das armas automáticas atualmente disponíveis. Tem-se, desse modo, uma dentre as muitas razões que tornaram as guerras de hoje tão letais.

(1) Creio ser útil recordar que havia sempre indígenas nos combates, de um e outro lado.
(2) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil Primeira Parte. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1858, p. 217.


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terça-feira, 29 de outubro de 2019

No alto da muralha

No alto da muralha, um soldado caminha lentamente e olha entre as ameias. Para. Apoiado no arco, o olhar perdido na distância, perscruta os arredores. Ainda está escuro. O cansaço das noites seguidas sem dormir o faz, primeiro, encostar-se à parede, e ir, aos poucos, escorregando contra o chão. 
Que ruído é esse? Não há tempo a perder. Coloca uma flecha na corda, puxa, sustenta por um instante. A flecha desliza suavemente entre seus dedos e parte em direção à base da muralha, onde um bando de soldados inimigos, sob a proteção de escudos, trabalha para mover uma torre sobre rodas. Outra flecha, e outra. A aljava está quase vazia. Um auxiliar corre entre os arqueiros, levando mais flechas. São as que restam. Lá embaixo, alguns combatentes tombam e se contorcem, mas outros assumem o posto. O barulho ensurdecedor, que vem da direita, não dá lugar a dúvidas. É que inimigos, carregando pesados troncos, tentam forçar a porta principal da cidade. Uma pancada é seguida de outra. A porta resiste. Por quanto tempo? Dentro, alguns defensores aguardam, o coração quase explodindo. As mãos sujas e calejadas dos guerreiros correm pelo rosto para enxugar o suor, implorando aos céus por chuva, por água, por alívio.
Quem sabe não virá auxílio repentino de aliados? Quem sabe uma epidemia não devastará o exército inimigo? Quem sabe notícias vindas de longe não farão com que o cerco seja suspenso?
A gritaria, dentro e fora dos muros, é horrível. Fora, as ordens de comando, o ímpeto do ataque, a ânsia do saque iminente. Dentro, a miséria de quase um ano de cerco. Já não há comida e a água é escassa. A sede rói os miseráveis que, sobre a muralha, ainda insistem em protelar a rendição. Não sabem, sequer, se ainda lhes resta alguém da família. Só ouvem os gritos de terror das mulheres que, macérrimas, se arrastam pelas vielas escuras, quer implorando o auxílio dos deuses, quer maldizendo as ingratas divindades que nada fazem. Crianças choram, não há pão. Estão com as horas contadas, uns poucos minutos, talvez. É a agonia da fome.
Atacantes conseguem, afinal, escalar a muralha, carregando tochas que atiram sobre as casas próximas. Puxando a espada, os poucos defensores começam o combate corpo a corpo. Já não há nenhum controle ou ordem na defesa. Cada um luta como pode. Alguns ainda resistem, mas será por pouco tempo. A cidade está em chamas.
No alto da muralha, o arqueiro arregala os olhos e se levanta. O céu está limpo, o sol começa a subir. O vento frio o traz de volta à realidade. Respira fundo. Mais um dia de resistência. No acampamento inimigo, a uma distância prudente, já há movimento. O combate final se aproxima.


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terça-feira, 21 de maio de 2019

Cães que viajavam

Cães são companheiros dos humanos desde tempos remotos, tanto no nomadismo como na sedentarização. Foram, e às vezes ainda são, ocupados em tarefas árduas, como cuidar de rebanhos, proteger pessoas, colaborar em caçadas, puxar trenós e auxiliar forças policiais. Não é pouco, e, no desempenho de tantas ocupações, cães precisavam frequentemente viajar com seus humanos, o que significava, quase sempre, ir a pé, ou seja, com as próprias patas.
Na Antiguidade, os assírios, que amavam caçadas e eram notáveis artistas, deixaram registrada em relevos a participação de cães na vida diária, convivendo com um povo que levava a paixão pela guerra às últimas consequências. Não é surpresa, portanto, que cães fossem incluídos entre as forças de combate, como se infere por este relevo (¹), em que um soldado, portando lança, tem ao lado um cão em atitude ameaçadora:


Já nas duas imagens seguintes (²), vêm-se cães em perseguição a um jumento selvagem. São cenas de uma caçada:



Mas deixemos de lado os assírios e suas feras caninas. Vamos ao Rio de Janeiro do Século XIX, ainda nos dias do Império, e ali encontraremos cães que viajavam, não a pé, mas em navios. A informação vem do Almanaque Laemmert de 1852, em que se explicava que cães que viajavam em embarcações da Real Companhia de Paquetes de Vapor Entre Southampton, Brasil e Rio da Prata pagavam a oitava parte da passagem cobrada dos respectivos donos. Como é óbvio, os respectivos donos é que pagavam pelos cães. Nada mais justo, já que os humanos queriam ter a companhia, em viagem, de tão destacados amigos.

(1) LAYARD, Austen Henry. Nineveh and Babylon. London: John Murray, 1882, p. XXIII.
(2) Ibid., p. XXVII. As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Crianças em um cenário de guerra

Nos últimos tempos, o sofrimento de crianças em cenário de guerra tem sido explorado às últimas consequências, para bem e para mal. Contendores usam fotografias chocantes de meninos e meninas estraçalhados durante bombardeios, a fim de chamar a atenção do mundo para objetivos políticos - alguns bastante explícitos; outros, nem tanto. Potencializadas pela rede mundial de computadores, cenas que antigamente levariam semanas para chegar ao conhecimento de apenas uma parte da humanidade conseguem varrer o planeta quase instantaneamente. Se é que geram alguma conscientização, nem por isso essas imagens têm a capacidade de barrar o ódio beligerante e as ambições ilimitadas dos que detêm o mando e o controle dos arsenais.
Sem muita consciência dos reais motivos que ocasionam conflitos, muitos pequenos crescem achando que o mundo deve ser assim mesmo - um inferno, portanto. Privados da frequência regular à escola, submetidos à escassez de alimento e água potável, vítimas indefesas em bombardeios, para cúmulo de tudo são, não raro, recrutados, e, quando deveriam brincar livremente, aprendem as primeiras lições de como manejar uma arma. Infância, de verdade, é algo que não existe em tal cenário.
Fenômeno de nossos dias? Não só. Que diriam os leitores se soubessem que uma situação assim foi a realidade de muitas crianças no Brasil, durante a chamada Guerra de Canudos (*)? Engana-se quem imagina que entre os adeptos de Antônio Conselheiro estavam apenas homens adultos. Havia mulheres, havia idosos. Havia também muitas crianças, e, em meio à luta contra as forças governamentais, meninos eram mandados para o combate. Se caíam prisioneiros, eram alvo imediato de interrogatório, na suposição de que seria mais fácil arrancar das crianças as informações que os adultos teimavam em esconder. 
Ledo engano. Por um trecho de Os Sertões, sabemos que havia guris tão hábeis nas manhas da guerra como se fossem homens feitos. Basta ver o que escreveu Euclides da Cunha, ao narrar o interrogatório de um menino que não teria ainda nove anos completos:
"Respondia entre baforadas fartas de fumo de um cigarro, que sugava com a bonomia satisfeita de velho viciado. E as informações caíam, a fio, quase todas falsas, denunciando astúcias de tratante consumado. Os inquiridores registravam-nas religiosamente. [...]. Num dado momento, porém, ao entrar um soldado sobraçando a Comblain, a criança interrompeu a algaravia. Observou, convicto, entre o espanto geral, que a "comblé" não prestava. Era uma arma à toa, "xixilada": fazia um "zoadão danado", mas não tinha força. Tomou-a: manejou-a com perícia de soldado pronto, e confessou, ao cabo, que preferia a manulixe, um clavinote de "talento". Deram-lhe, então, uma Mannlicher. Desarticulou-lhe agilmente os fechos, como se fosse aquilo um brinco infantil predileto.
Perguntaram-lhe se havia atirado com ela, em Canudos.
Teve um sorriso de superioridade adorável:
"E por que não! Pois se havia tribuzana velha!... Havera [sic] de levar pancada, como boi acuado, e ficar quarando à toa, quando a cabrada fechava o samba desautorizando as praças?!""
Por um instante, graças ao registro de Euclides da Cunha, nos é dado ouvir a voz desse pequeno combatente. Quantos outros meninos não terão lutado e morrido em Canudos? Ninguém sabe, ao certo. Multiplique-se o efeito por todas as guerras que já ocorreram neste planeta - fato é que o desrespeito à infância não é monopólio de alguma época ou lugar. Apesar de todos os protestos, a barbárie continua, sem nenhum constrangimento, a fazer vítimas. A insanidade parece ser muito mais forte que a razão. 

(*) 1896 - 1897.


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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Argumentos para um embaixador que deseja preservar a paz

Na Antiguidade havia povos muito briguentos. As guerras aconteciam pelos motivos mais fúteis, inclusive pelo prazer da contenda. Como veem os leitores, as coisas corriam mais ou menos como hoje, apenas com a diferença de que as armas então disponíveis não eram igualmente letais. 
Ainda assim, gente ajuizada compreendia que, na maioria dos casos, era prudente evitar a guerra, que, afinal, teria resultado imprevisível. 
Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre os romanos e foi contemporâneo de parte das Guerras Púnicas (¹), formulou alguns argumentos interessantes como sugestão aos embaixadores que, no exercício de sua funções, pretendessem a manutenção da paz. Escreveu ele:
"A guerra é semelhante à doença, enquanto a paz corresponde à saúde, de tal modo que, na paz, os enfermos se curam, enquanto que, na guerra, os saudáveis é que morrem; vigorando a paz, os velhos são sepultados pelos jovens, mas, na guerra, os jovens são sepultados pelos velhos; finalmente, na guerra, ninguém se acha seguro nem mesmo sob a proteção das muralhas, enquanto que na paz há tranquilidade até às fronteiras." (²)
Estas são boas ideias que deveriam ser consideradas pelos mandatários (e pelos mandões) que vivem sobre a superfície deste planeta já cansado de tantos conflitos inúteis e devastadores, não é mesmo? Principalmente porque, na hora dos grandes riscos, são os comandados que estão na frente da batalha, ao preço da própria vida, e não aqueles que ditam as ordens.

(1) Guerras entre Roma e Cartago, travadas entre 264 e 146 a.C., tendo como principal objetivo a hegemonia no Mediterrâneo ocidental.
(2) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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terça-feira, 25 de março de 2014

Sobre a guerra e a paz

Conta-nos Heródoto que Creso, rei da Lídia (aquele mesmo Creso que foi considerado o sujeito mais rico de seu tempo), depois de haver-se metido em guerra contra os persas, foi por eles derrotado. Conduzido à presença de Ciro, soberano persa, foi interrogado sobre as razões que o haviam levado a envolver-se em guerra tão desastrada quanto desnecessária, ao que o infeliz derrotado teria respondido colocando a culpa no oráculo de Delfos, que lhe havia (como sempre) dado uma dúbia profecia, a qual lhe parecera, então, um dito favorável. Asseverou que, de outro modo, jamais teria iniciado a contenda, e explicou: "Qual é aquele que, tão insensato, trocaria a doce paz por uma guerra sem causa? Na paz, os filhos sepultam os pais, enquanto que na guerra são os pais que sepultam os filhos."
Convenhamos, leitores deste blog, que em nossos dias turbulentos, nos quais a quase cada canto deste planeta há alguém a desafiar ou a intimidar os países vizinhos, seria muito bom que as palavras de Creso fossem devidamente consideradas. As guerras brutais que torturaram a humanidade ao longo do Século XX (guerras cujas consequências nós mesmos ainda podemos sentir) são uma advertência de que o rei dos lídios, no Século VI a.C., tinha toda razão, aprendida, aliás, sob duras penas - teve de presenciar, por exemplo, o saque desenfreado a seu monumental tesouro, que tão arduamente acumulara.


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