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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Antônio Conselheiro, uma celebridade?

Em 22 de julho de 1894, mais de dois anos antes, portanto, do início da Guerra de Canudos, Machado de Assis escreveu em sua coluna A Semana, na Gazeta do Rio de Janeiro:
"Telegrama da Bahia refere que o Conselheiro está em Canudos com dois mil homens perfeitamente armados. Que Conselheiro? O Conselheiro. Não lhe ponhas nome algum, que é sair da poesia e do mistério. É o Conselheiro, um homem dizem que fanático, levando consigo a toda a parte aqueles dois mil legionários. Pelas últimas notícias tinha já mandado um contingente a Alagoinhas. Temem-se no Pombal e outros lugares os seus assaltos."
Parece que o mito se formava, já, muito antes que o conflito armado contra as tropas governamentais tivesse início. Estaria o Conselheiro se tornando uma celebridade? Sim, ao modo do Século XIX, talvez não no sentido popular que a palavra ganhou em nossos dias. Em 14 de fevereiro de 1897, quando as armas contra Canudos já não eram apenas as da palavra, e na capital do Brasil os ânimos se exaltavam em debates quanto a ser ou não o movimento de caráter monarquista, Machado de Assis, também na Gazeta de Notícias, voltou a falar do Conselheiro, a partir de um pequeno incidente que presenciara:
"Conheci ontem o que é celebridade. Estava comprando gazetas a um homem que as vende na calçada da Rua de São José, esquina do Largo da Carioca, quando vi chegar uma mulher simples e dizer ao vendedor com voz descansada:
- Me dá uma folha que traz o retrato desse homem que briga lá fora.
- Quem?
Me esqueceu o nome dele.
Leitor obtuso, se não percebeste que "esse homem que briga lá fora" é nada menos que o nosso Antônio Conselheiro, crê-me que és ainda mais obtuso do que pareces. A mulher provavelmente não sabe ler, ouviu falar da seita dos Canudos, com muito pormenor misterioso, muita auréola, muita lenda, disseram-lhe que algum jornal dera o retrato do Messias do sertão, e foi comprá-lo, ignorando que nas ruas só se vendem as folhas do dia. Não sabe o nome do Messias; é "esse homem que briga lá fora". A celebridade, caro e tapado leitor, é isso mesmo. O nome de Antônio Conselheiro acabará por entrar na memória desta mulher anônima, e não sairá mais. Ela levava uma pequena, naturalmente filha; um dia contará a história à filha, depois à neta, à porta da estalagem, ou no quarto em que residem.
Esta é a celebridade."
Pois bem, celebridade ou não, o Conselheiro não escapou à morte durante a luta travada para esmagar o movimento que suscitara com suas pregações feitas entre o povo castigado pela pobreza e pela seca no Nordeste brasileiro. Aparecera ainda quando o Brasil era Império, e, segundo descrição feita por Euclides da Cunha em Os Sertões, usava "camisolão azul, sem cintura, chapéu de abas largas, derrubadas, e as sandálias. Às costas um surrão de couro em que trazia papel, pena e tinta, a Missão abreviada e as Horas Marianas". Citada também em Os Sertões, a Folhinha Laemmert de 1877 dizia:  
"Apareceu no sertão do norte um indivíduo que se diz chamar Antônio Conselheiro (¹), e que exerce grande influência no espírito das classes populares, servindo-se de seu exterior misterioso e costumes ascéticos, com que impõe à ignorância e à simplicidade. Deixou crescer a barba e cabelos, veste uma túnica de algodão e alimenta-se tenuemente, sendo quase uma múmia. Acompanhado de duas professas, vive a rezar terços e ladainhas e a pregar e a dar conselhos às multidões que reúne, onde lhe permitem os párocos; e, movendo sentimentos religiosos, vai arrebanhando o povo e guiando-o a seu gosto, Revela ser homem inteligente, mas sem cultura." 
Euclides da Cunha provavelmente nunca viu o Conselheiro vivo, mas viu-o depois de morto. A última resistência do arraial de Canudos foi vencida em 5 de outubro de 1897, e, na manhã do dia seguinte, o cadáver do místico foi desenterrado, conforme se lê em Os Sertões:
"Antes, no amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro. 
Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Removida breve camada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol imundo, em que mãos piedosas haviam desparzido algumas flores murchas, e repousando sobre uma esteira velha, de tábua, o corpo do "famigerado e bárbaro" agitador. Estava hediondo. Envolto no velho hábito azul de brim americano, mãos cruzadas ao peito, rosto tumefato e esquálido, olhos fundos cheios de terra (²) - mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida.
[...]
Fotografaram-no depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando a sua identidade: importava que o país se convencesse bem de que estava, afinal, extinto aquele terribilíssimo antagonista."
Segundo Euclides da Cunha, tiveram a ideia, depois, de cortar a cabeça do Conselheiro, para exibi-la como prova da vitória. Mas já estava morto... Muitos prisioneiros não tiveram a mesma sorte. Foram degolados - vivos.

(1) Antônio Vicente Mendes Maciel.
(2) Como poderia ser diferente?


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segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Varíola na Guerra de Canudos

Agosto de 1897. A guerra contra Antônio Conselheiro e seus seguidores, que ficaria conhecida como Guerra de Canudos, começara no ano anterior e, desde então, sucessivas derrotas das forças governamentais faziam crescer a fama dos sertanejos que lutavam pelo líder místico, acreditando que, afinal, o arraial era imbatível. 
Entre as forças do Exército, a situação chegava, às vezes, a ser desesperadora. Além de todas as misérias, decorrentes da falta de suprimentos e de fardamento adequado à luta na caatinga, a tropa tinha de enfrentar, ainda, uma epidemia de varíola, relatada por Euclides da Cunha em Os Sertões:
"Neste comenos dizimava-a a varíola. Destacavam-se das suas fileiras, diariamente, dois ou três enfermos, volvendo para o hospital, em Monte Santo. Outros, estropiados, naquela repentina transição das ruas calçadas da capital federal para aquelas ásperas veredas, distanciavam-se, perdidos à retaguarda, confundindo-se com os feridos, que vinham em direção oposta."
As baixas, portanto, eram provenientes dos ferimentos recebidos em combate, do despreparo da tropa para a luta na caatinga e da varíola, doença infecciosa para a qual se conhecia a vacinação no Brasil desde fins do Século XVIII. 
Como admitir tal coisa? Se todos os soldados houvessem recebido a vacina previamente à viagem ao sertão, a calamidade não teria se manifestado. Sabe-se, porém, que o descuido nessa questão, aliado à ignorância de parte considerável da população quanto à utilidade da vacina, não se esgotou na Guerra de Canudos. Um episódio ainda mais grotesco, a chamada Revolta da Vacina, de novembro de 1904, mostraria, fora de qualquer dúvida, o quanto era ainda preciso fazer no Brasil em se tratando de saúde pública. 


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segunda-feira, 27 de maio de 2024

Vaqueiros nordestinos

Sertanejo com traje de couro (²) 
Segundo relato de Euclides da Cunha em Os Sertões, as tropas governamentais, deslocando-se pelo sertão durante a chamada Guerra de Canudos, às vezes encontravam um vaqueiro nada envolvido com os rebeldes, que, ao lado da estrada, observava os soldados em marcha:
"[...] No volver das inflexões da vereda, topava-se, às vezes, um vaqueiro amigo, um aliado, que se empregara nos serviços de transporte (¹). A cavalo, entrajado de couro, sombrero largo galhardamente revirado à testa trigueira e franca, à cinta o longo facão "jacaré"; à destra a lança arpoada do ferrão - quedava o matuto imóvel, à orla da passagem, desviando-se, deixando livre o curso à cavalgada, numa atitude respeitosa e altiva, de valente disciplinado, muito firme dentro da sua couraça vermelho-parda feito uma armadura de bronze, figurando um campeador robusto, coberto ainda da poeira das batalhas."
Era assim, desde os tempos coloniais, que vaqueiros se vestiam no Nordeste. O traje, que hoje é retratado como "típico" ou "folclórico", servia muito bem às condições naturais que os trabalhadores que cuidavam de gado precisavam enfrentar a cada dia, percorrendo, a cavalo, longas distâncias por rotas empoeiradas e cobertas por vegetação áspera e espinhosa, capaz de rasgar a pele facilmente, se não houvesse proteção adequada. Os trajes de couro, portanto, não eram convenientes apenas porque se cuidava de gado e porque eram duráveis e resistentes. Impunham-se pela necessidade de proteção.

(1) Dentre a população local que não aderira ao movimento místico de Antônio Conselheiro, foram contratados trabalhadores para auxiliar no transporte de suprimentos para as tropas que se deslocavam rumo a Canudos.  
(2). Cf. KOSTER, Henry. Travels in Brazil. London: Longman, Hurst, Rees, Orme, and Brown, 1816. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Sebastianismo

D. Sebastião, jovem rei de Portugal (*)
D. Sebastião, jovem rei português, morreu na batalha de Alcácer-Quibir em 1878. Morreu? O corpo nunca foi encontrado, e justamente por isso, ainda no Século XVI nasceu o sebastianismo, uma espécie de movimento místico, supostamente profético, revestido com tintas da religião e verniz da política, que afirmava que o rei haveria de voltar e restaurar a grandeza de Portugal. Entenda-se: como D. Sebastião não deixou descendente, o trono português passou a seu tio-avô, o cardeal D. Henrique. Querelas palacianas vieram, e Portugal, em 1580, passou ao controle do rei da Espanha. Foi a chamada União Ibérica, que durou até 1640.
Ora, D. Sebastião jamais voltou, mas, séculos afora, houve quem ainda acreditasse nas lendas que surgiram com sua desaparição. E - espantoso!...- em fins do Século XIX, havia, ainda, quem parecia acreditar nisso, não em Portugal, mas no Brasil. Em Os Sertões, Euclides da Cunha transcreveu alguns versos que circulavam entre os sertanejos que seguiam o místico Antônio Conselheiro:
"Dom Sebastião já chegou
E traz muito regimento
Acabando com o civil 
E fazendo o casamento!"
[...]
"Visita nos vem fazer
Nosso rei D. Sebastião
Coitado daquele pobre
Que estiver na lei do cão!"
Euclides da Cunha, em nota de rodapé, explicou que "corrigiu" os versos, mas é fácil perceber quais deveriam ser as palavras originais. Mas de que é que falavam, afinal?
Antônio Conselheiro e sua gente faziam oposição à República há pouco proclamada no Brasil, por entenderem que tirara da religião o lugar que lhe competia, instituindo registro e casamento por autoridade civil. Ao deixar de ser Império, o Brasil deixara, também, de ter religião oficial, com todas as suas implicações, e isso descontentava os sertanejos de Canudos. Quanto a invocar D. Sebastião... Parece que alguma reminiscência ficou, dele, no imaginário popular, e aflorou nas ideias um tanto confusas de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro.
Depois de quase um ano de lutas intensas, o arraial de Canudos foi completamente destruído. Antônio Conselheiro morreu, bem como muitos dos sertanejos. Quanto aos sobreviventes feitos prisioneiros, foram tratados de modo brutal. Assim acabou, em 1897, o sebastianismo brasileiro. 

(*) Cf. BRITO, Frei Bernardo. Elogios dos Reis de Portugal com os Mais Verdadeiros Retratos que se Puderam Achar. Lisboa: Pedro Crasbeeck, 1603.


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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Sucuris

Isto já foi parte de uma sucuri (¹)

Há algumas semanas, a imprensa andou comentando o caso de uma sucuri capturada em uma fazenda no interior de Goiás, cujo proprietário, depois de notar o sumiço de alguns animais, resolveu instaurar vigilância e constatou que a larápia era ninguém menos que um exemplar de quase seis metros de comprimento. Com as precauções indispensáveis, o réptil foi capturado e devolvido à natureza, depois que profissionais especializados constataram seu perfeito estado de saúde. 
Aparições de sucuris já não ocorrem frequentemente, daí o estardalhaço com que são noticiadas. Mas nem sempre foi assim. No Brasil Colonial, as sucuris, por suas dimensões, impunham espanto e medo aos colonizadores. De acordo com frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (²), quem precisava andar por áreas alagadas usava, naquele tempo, a seguinte estratégia, para saber de antemão se havia sucuris por perto:
"Os que andam por semelhantes lugares e lhes é preciso atravessar esses lagos, para saberem se neles habitam estas cobras, ou serpentes, em chegando à margem deles, disparam uma arma de fogo, porque elas ao mesmo tempo que ouvem o estouro, correspondem, dando um grande urro [sic], lançando a cabeça fora da água; e assim se conhece facilmente onde as há." (³)
Fato ou lenda, ninguém sabe ao certo, mas foi Francisco José de Lacerda e Almeida quem contou em 1788, ao escrever um diário de viagem pelo rio Tietê:
"Deixei na margem boreal um ribeirão chamado Sucuriy [sic], por causa de uma cobra deste nome de extraordinária grandeza, que nele foi achada. Os escravos que vinham na comitiva, julgando ser um tronco, quiseram-lhe deitar fogo para se aquentarem a ele por toda noite: com o calor se moveu o suposto tronco, e cheios de admiração todos se tiraram do engano em que estavam. Esta é a tradição, e muito verossímil para os que têm viajado por este novo mundo, onde a cada passo estão encontrando coisas que teriam por fabulosas se não tivessem sido testemunhas oculares." (⁴)
Compreende-se, assim, por que motivo, mesmo bastante tempo depois, Euclides da Cunha, em Os Sertões, comparou o combate dos sertanejos contra forças governamentais, durante a Guerra de Canudos (⁵), à luta entre uma sucuri e um touro:
"A tática invariável do jagunço expunha-se temerosa naquele resistir às recuadas, restribando-se em todos os acidentes da terra protetora. Era a luta da sucuri flexuosa com o touro pujante. Laçada a presa, distendia os anéis; permitia-lhe a exaustão do movimento livre e a fadiga da carreira solta, depois se constringia repuxando-o, maneando-o nas roscas contráteis, para relaxá-las de novo, deixando-o mais uma vez se esgotar no escarvar a marradas, o chão; e novamente o atrair, retrátil, arrastando-o - até ao exaurir completo..."

(1) O esqueleto visto na foto pertence ao acervo do Museu de Ciências Naturais do Zoológico de Brasília. 
(2) Antônio de Santa Maria Jaboatão foi um autor do Século XVIII que escreveu sobre as origens e desenvolvimento das missões e conventos franciscanos no Brasil, entretecendo, em sua obra, relatos sobre o quotidiano colonial, que são interessantes para quem se dedica a estudar esse período.
(3) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil Segunda Parte. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1859, p. 677.
(4) ALMEIDA, Francisco José de Lacerda e. Demarcação dos Domínios da América Portuguesa. São Paulo: Typographia de Costa Silveira, 1841, p. 81.
(5) 1896 - 1897.


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Campos de batalha

"Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre ele se ouviram gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas, o estrondo de máquinas de guerra. Claros sinais de que aí viveram homens; por que é com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra."
Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas 

Frequentemente associados a heroísmo, patriotismo, coragem, os campos de batalha já foram exaltados em obras de arte - principalmente em pinturas - mas também em música, dos mais diversos gêneros, e na literatura. Essas expressões são, quase sempre, resultado da visão dos vencedores. Afinal, uma obra de arte para valorizar a derrota seria pouco provável. 
Os assírios demonstraram uma enorme competência em retratar cenas de guerra em relevos que, graças a escavações arqueológicas, são hoje perfeitamente conhecidos. É o caso do exemplo que se vê abaixo (¹):

Exército assírio perseguindo inimigos

Vencedores, vencidos, prisioneiros, gente decapitada, empalada... A realidade nua e crua, recheada do sadismo dos conquistadores. Mas, um dia, os assírios também foram derrotados. Uma coligação de caldeus, medos e, provavelmente, outros povos mais, arrasou Nínive, a orgulhosa capital assíria, em 612 a.C. - pode-se bem imaginar como foi a vingança.
Outro cenário de guerra notável da Antiguidade foi o de Zama, no norte da África, onde, no ano 202 a.C., romanos e cartagineses se enfrentaram. Os romanos venceram. Políbio de Megalópolis (²) deixou-nos uma descrição do campo de batalha:
"O campo entre os exércitos ficou coberto de sangue, mortos e feridos, trazendo a Cipião um grande problema, uma vez que os feridos que se revolviam no próprio sangue e a confusão de armamento e de cadáveres dispersos tornavam a passagem quase intransponível às tropas que, em formação, aguardavam sua vez de entrar em combate." (³)
Panorama digno de um filme de terror? Na Antiguidade ou nos tempos medievais, um campo de batalha não era, como regra, muito diferente disso. Mas vamos mudar de cenário, no tempo e no espaço. Passemos ao Brasil Colonial.
De acordo com Pero de Magalhães Gândavo (⁴), em seu Tratado da Terra do Brasil, um campo de batalha entre indígenas tinha este aspecto:
"As armas com que pelejam são arcos e flechas [...], e assim parece coisa estranha ver dois, três mil homens (⁵) nus duma parte e doutra com grandes assobios e grita flechando uns aos outros; e enquanto dura esta peleja nunca estão com os corpos quedos, meneando-se de uma parte para outra com muita ligeireza, para que não possam apontar nem fazer tiro em pessoa certa; algumas velhas costumam apanhar-lhes as flechas pelo chão e servi-los enquanto pelejam."

Combate entre indígenas (⁶)

Durante o Império, a guerra mais importante foi, como se sabe, aquela que no Brasil é chamada a "Guerra do Paraguai". Do confronto conhecido como Batalha do Riachuelo há uma descrição feita pelo combatente Antônio Luís von Hoonholtz, Barão de Tefé:
"Que espetáculo desolador!
Por toda a parte o rio estava coalhado de destroços e de gente que aparecia e desaparecia acarreada pela violência da correnteza." (⁷)
Termino, já nos dias da República, com esta descrição, obra de Euclides da Cunha (⁸) em Os Sertões, do local do último confronto em Canudos, uma guerra civil que monopolizou as atenções em 1897:
"Sabia-se de uma coisa única: os jagunços não poderiam resistir por muitas horas. Alguns soldados se haviam abeirado do último reduto e colhido de um lance a situação dos adversários. Era incrível: numa cava quadrangular, de pouco mais de metro de fundo, ao lado da igreja nova, uns vinte lutadores, esfomeados e rotos, medonhos de ver-se, predispunham-se a um suicídio formidável. Chamou-se aquilo o "hospital de sangue" dos jagunços. Era um túmulo. De feito, lá estavam, em maior número, os mortos, alguns de muitos dias já, enfileirados ao longo das quatro bordas da escavação e formando o quadrado assombroso dentro do qual uma dúzia de moribundos, vidas concentradas na última contração dos dedos nos gatilhos das espingardas, combatiam contra um exército."
Não esperem, leitores, que eu defenda aqui um pacifismo ingênuo e unilateral. Guerras, às vezes, são mesmo inevitáveis. Mas não há dúvida de que o mundo passaria melhor sem elas. Enquanto isso não acontece, novas e mais eficientes armas de destruição em massa são desenvolvidas, a indústria bélica triunfa e move parte considerável da economia mundial, e vidas humanas - ora, quem se importa com elas? - vidas humanas fenecem, sob o pressuposto do serviço à pátria, e até em nome da religião. A cada nova guerra, este planeta fica um pouco pior, ambiental e moralmente. Um completo exercício de racionalidade e inteligência às avessas. 

(1) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(3) O trecho citado da História de Políbio foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) c. 1540 - 1580.
(5) É possível que Gândavo tenha exagerado no número, ainda que batalhas com exércitos indígenas tão numerosos não possam ser descartadas, supondo várias aldeias coligadas.
(6)THEVET, André. Les Singularitez de la France Antarctique. Paris: Maurice de La Porte, 1558. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(7) HOONHOLTZ, Antônio Luís von (Barão de Tefé). A Batalha Naval do Riachuelo. Rio de Janeiro: Garnier, 1865, p. 45.
(8) 1866 - 1909.


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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Crianças em um cenário de guerra

Nos últimos tempos, o sofrimento de crianças em cenário de guerra tem sido explorado às últimas consequências, para bem e para mal. Contendores usam fotografias chocantes de meninos e meninas estraçalhados durante bombardeios, a fim de chamar a atenção do mundo para objetivos políticos - alguns bastante explícitos; outros, nem tanto. Potencializadas pela rede mundial de computadores, cenas que antigamente levariam semanas para chegar ao conhecimento de apenas uma parte da humanidade conseguem varrer o planeta quase instantaneamente. Se é que geram alguma conscientização, nem por isso essas imagens têm a capacidade de barrar o ódio beligerante e as ambições ilimitadas dos que detêm o mando e o controle dos arsenais.
Sem muita consciência dos reais motivos que ocasionam conflitos, muitos pequenos crescem achando que o mundo deve ser assim mesmo - um inferno, portanto. Privados da frequência regular à escola, submetidos à escassez de alimento e água potável, vítimas indefesas em bombardeios, para cúmulo de tudo são, não raro, recrutados, e, quando deveriam brincar livremente, aprendem as primeiras lições de como manejar uma arma. Infância, de verdade, é algo que não existe em tal cenário.
Fenômeno de nossos dias? Não só. Que diriam os leitores se soubessem que uma situação assim foi a realidade de muitas crianças no Brasil, durante a chamada Guerra de Canudos (*)? Engana-se quem imagina que entre os adeptos de Antônio Conselheiro estavam apenas homens adultos. Havia mulheres, havia idosos. Havia também muitas crianças, e, em meio à luta contra as forças governamentais, meninos eram mandados para o combate. Se caíam prisioneiros, eram alvo imediato de interrogatório, na suposição de que seria mais fácil arrancar das crianças as informações que os adultos teimavam em esconder. 
Ledo engano. Por um trecho de Os Sertões, sabemos que havia guris tão hábeis nas manhas da guerra como se fossem homens feitos. Basta ver o que escreveu Euclides da Cunha, ao narrar o interrogatório de um menino que não teria ainda nove anos completos:
"Respondia entre baforadas fartas de fumo de um cigarro, que sugava com a bonomia satisfeita de velho viciado. E as informações caíam, a fio, quase todas falsas, denunciando astúcias de tratante consumado. Os inquiridores registravam-nas religiosamente. [...]. Num dado momento, porém, ao entrar um soldado sobraçando a Comblain, a criança interrompeu a algaravia. Observou, convicto, entre o espanto geral, que a "comblé" não prestava. Era uma arma à toa, "xixilada": fazia um "zoadão danado", mas não tinha força. Tomou-a: manejou-a com perícia de soldado pronto, e confessou, ao cabo, que preferia a manulixe, um clavinote de "talento". Deram-lhe, então, uma Mannlicher. Desarticulou-lhe agilmente os fechos, como se fosse aquilo um brinco infantil predileto.
Perguntaram-lhe se havia atirado com ela, em Canudos.
Teve um sorriso de superioridade adorável:
"E por que não! Pois se havia tribuzana velha!... Havera [sic] de levar pancada, como boi acuado, e ficar quarando à toa, quando a cabrada fechava o samba desautorizando as praças?!""
Por um instante, graças ao registro de Euclides da Cunha, nos é dado ouvir a voz desse pequeno combatente. Quantos outros meninos não terão lutado e morrido em Canudos? Ninguém sabe, ao certo. Multiplique-se o efeito por todas as guerras que já ocorreram neste planeta - fato é que o desrespeito à infância não é monopólio de alguma época ou lugar. Apesar de todos os protestos, a barbárie continua, sem nenhum constrangimento, a fazer vítimas. A insanidade parece ser muito mais forte que a razão. 

(*) 1896 - 1897.


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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Por que foi tão difícil derrotar Canudos e o Conselheiro

"De Antônio Conselheiro ignoramos se teve alguma entrevista com o anjo Gabriel, se escreveu algum livro, nem sequer se sabe escrever. Não se lhe conhecem discursos. Diz-se que tem consigo milhares de fanáticos. Também eu o disse aqui, há dois ou três anos, quando eles não passavam de mil ou mil e tantos. Se na última batalha é certo haverem morrido novecentos deles e o resto não se despega de tal apóstolo, é que algum vínculo moral e fortíssimo os prende até a morte. Que vínculo é esse?"
Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 31 de janeiro de 1897

O chamado Movimento de Canudos, na última década do Século XIX, foi, certamente, muito mais complexo do que, à época, se acreditou. Os rebeldes eram pintados como um bando de desordeiros, sem nenhuma organização, acostumados à pilhagem do que achavam nas propriedades vizinhas - motivo pelo qual deviam ser rápida e facilmente derrotados.
Os primeiros enfrentamentos, contra forças policiais, depois contra homens do Exército, logo demonstraram o quanto essa visão simplista estava equivocada.
Os "jagunços" (assim eram chamados os seguidores de Antônio Conselheiro) conheciam muito bem o terreno no qual lutavam. Os militares mandados ao sertão da Bahia, por sua vez, estavam obrigados a lutar em terreno que lhes era completamente desconhecido, com fardamento inadequado e, graças à imprevidência do comando, submetidos à mais absurda falta de suprimentos, inclusive para alimentação.
Cada derrota das forças governamentais era duplamente proveitosa aos homens do Conselheiro. Primeiro, caía-lhes nas unhas todo o armamento que os soldados, em fuga, deixavam para trás. Depois, crescia no imaginário da soldadesca a superstição de que Canudos jamais cairia e, portanto, era inútil lutar. Assim desmoralizadas, as tropas estavam mentalmente incapacitadas para a luta. Um autêntico desastre. Quem quiser conhecer o assunto em detalhes, pode ler Os Sertões (de Euclides da Cunha), em sua terceira e última parte.
Enquanto isso, a imprensa, nas maiores cidades do Sudeste, esperava avidamente por notícias sensacionais do teatro de guerra. Não tardou que houvesse gente insensata o bastante para sugerir que monarquistas de peso apoiavam a revolta. Mais ainda, talvez houvesse interesse do governo argentino em favorecer a gente do Conselheiro para desestabilizar o governo do Brasil... Chegou-se a supor que os jagunços eram abastecidos com armamento embarcado em Buenos Aires!...
Que ninguém duvide: os boatos, às vezes, vão longe demais e podem até ocasionar catástrofes.
Por seu turno, o Ministério da Guerra parecia nunca chegar à consciência exata do que deveria fazer. Uma boa noção do que era a falta de entendimento quanto às condições da guerra no sertão é dada pela famosa Quarta Expedição (comandada pelo General Artur Oscar), que intentou conduzir pela caatinga um canhão que pesava nada menos que 1700 kg, transportado, sob sol escaldante, por vinte juntas de bois. Os bois (infelizes!...) foram depois carneados, já que os soldados estavam, ainda esta vez, sem ter o que comer. O maior lucro desse empreendimento foi fazer crescer, entre os sertanejos, a ideia de que era preciso destruir a "matadeira", nome que deram ao canhão.
As táticas europeias de guerra, que o comando insistia em utilizar, mostraram-se uma estupidez diante de opositores que atuavam isoladamente ou em pequenos grupos, valendo-se do conhecimento excelente que tinham do terreno. Não foi de um dia para outro que os estrategistas da Capital vieram a compreender que, em Canudos, não havia dois exércitos formais, lutando frente a frente. Como os acontecimentos demonstraram, o arraial foi derrotado em combate sangrento, nada convencional, que incluiu cortar, aos jagunços, o acesso a qualquer suprimento de água. E cortar a garganta, também, aos que caíam prisioneiros. Sabia-se que os seguidores do Conselheiro, que não temiam morrer lutando por seu líder, tinham, no entanto, verdadeiro horror à ideia de que seriam degolados, em virtude de algumas superstições que, entre eles, eram correntes.
Antônio Conselheiro, o líder místico, morreu em 22 de agosto de 1897. Esse fato, no entanto, não pôs fim à Guerra. A luta somente chegou a termo na tarde do dia 5 de outubro de 1897. Isso é evidência de que a liderança "militar" e a "religiosa" em Canudos estavam sob distintas mãos.
Sem, nem de longe, pretender esgotar o assunto, resta considerar a atração que Antônio Conselheiro exercia sobre as multidões de flagelados pela seca. Havia em suas pregações místicas vestígios de sebastianismo (sim!) e ideias de oposição à República, mas sua ascendência sobre a gente do sertão não teria a mesma intensidade se não fossem as condições da miséria mais torturante a que estavam submetidos os camponeses, em paralelo à geral falta de instrução entre eles. O sertão era, para as autoridades republicanas, uma realidade distante. O movimento de Canudos acordou os governantes, ao menos momentaneamente, para o drama dos retirantes e da seca.


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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Uniformes militares do passado e da atualidade

A tendência atual nos uniformes militares é de que sejam feitos de modo a tornar quase invisíveis, ou melhor, imperceptíveis, aqueles que têm de usá-los. Aprendeu-se a sábia lição da natureza: seres vivos, muitas vezes frágeis em sua constituição, são capazes de disfarçar-se, pelas cores e/ou formato, para que não caiam facilmente em poder de seus predadores. É o chamado mimetismo. O lepidóptero da foto abaixo ilustra bem a questão.


A humanidade, no entanto, demorou a aceitar essa ideia. Quem é que nunca viu, ao menos em livros, antigos uniformes militares com cores vistosas e até berrantes, como vermelho ou azul intenso? A Inglaterra muito se orgulhou dos homens que, em Waterloo, formaram a chamada "linha vermelha", não por acaso assim denominada: jaquetas vermelhas eram parte do uniforme. As calças eram azuis.
Na época, essas cores tinham alguma vantagem: permitiam que os homens se reagrupassem com maior facilidade para formações de tiro que haviam sido treinadas. Entretanto, fazia de cada soldado um alvo fácil para o inimigo, de modo que, gradualmente, as cores vistosas foram perdendo terreno para algum tipo de uniforme mais discreto, que podia ser cinza algumas vezes, depois cáqui ou verde, conforme o terreno no qual se deveria combater.
Soldado do Segundo
Regimento do
Rio de Janeiro,

1786 (²)
No Brasil, as coisas foram mais ou menos pelo mesmo caminho. Apenas como ilustração, há um trechinho de Varnhagen no qual se descreve o uniforme usado na chamada "Guerra dos Mascates", ocorrida no início do século XVIII. Diz ele:
"Do traje dos nossos fuzileiros de então teremos perfeita ideia, dizendo que era com pouca diferença o dos mosqueteiros: calções e meias com sapato e fivela, sendo as fardas umas sobrecasacas agaloadas de mangas largas, e os chapéus de três bicos, dos quais um ficava para diante." (¹)
Desnecessário é dizer que, daí por diante, os uniformes no Brasil seguiram, aproximadamente, o que era usual em outros  países ocidentais. Entretanto, por vezes, isso se mostrava inadequado ao combate em certos terrenos, como se evidenciou, em fins do século XIX, no conflito de Canudos. Euclides da Cunha, que acompanhou parte da Guerra no próprio local, observou que os soldados "do governo", estavam sempre em desvantagem, e que muito mais adequado era o vestuário de couro dos sertanejos, face às adversidades da caatinga. Menciona, primeiro, em Os Sertões, o problema decorrente do uniforme que então se usava no Exército:
"Soldados vestidos de pano, rompendo aqueles acervos de espinheirais e bromélias, mal arriscavam alguns passos, deixando por ali, esgarçados, os fardamentos em tiras."
Soldado de Cavalaria, 1841 (³)
Passa, depois, a explicar por que, em seu modo de ver, dever-se-ia copiar a indumentária dos vaqueiros sertanejos:
"O hábito dos vaqueiros era um ensinamento. O flanqueador devia meter-se pela caatinga, envolto na armadura de couro do sertanejo - garantido pelas alpercatas fortes, pelos guarda-pés e perneiras, em que roçariam inofensivos os estiletes dos xiquexiques pelos gibões e guarda-peitos, protegendo-lhe o tórax, e pelos chapéus de couro, firmemente apresilhados ao queixo, habilitando-o a arremessar-se, imune, por ali adentro."
E, como que adivinhando as objeções, acrescenta:
"Não seria, isso, excessiva originalidade. Mais extravagantes são os dólmãs europeus de listas vivas e botões fulgentes, entre os gravetos da caatinga decídua."
Desnecessário é dizer que a lição, no Brasil e no mundo, foi devidamente aprendida. Uniformes reluzentes, hoje? Só mesmo em museus e em desfiles militares.
 
(1) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 830.
(2) O original, obra de José Corrêa Rangel, pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) O original, obra de Joaquim Lopes de Barros, pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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