quarta-feira, 17 de abril de 2013

Uniformes Militares do Passado e da Atualidade

A tendência atual nos uniformes militares é de que sejam feitos de modo a tornar quase invisíveis, ou melhor, imperceptíveis, aqueles que têm de usá-los. Aprendeu-se a sábia lição da natureza: seres vivos, muitas vezes frágeis em sua constituição, são capazes de disfarçar-se, pelas cores e/ou formato, para que não caiam facilmente em poder de seus predadores. É o chamado mimetismo. O lepidóptero da foto abaixo ilustra bem a questão.


A humanidade, no entanto, demorou a aceitar essa ideia. Quem é que nunca viu, ao menos em livros, antigos uniformes militares com cores vistosas e até berrantes, como vermelho ou azul intenso? A Inglaterra muito se orgulhou dos homens que, em Waterloo, formaram a chamada "linha vermelha", não por acaso assim denominada: jaquetas vermelhas eram parte do uniforme. As calças eram azuis.
Na época, essas cores tinham alguma vantagem: permitiam que os homens se reagrupassem com maior facilidade para formações de tiro que haviam sido treinadas. Entretanto, fazia de cada soldado um alvo fácil para o inimigo, de modo que, gradualmente, as cores vistosas foram perdendo terreno para algum tipo de uniforme mais discreto, que podia ser cinza algumas vezes, depois cáqui ou verde, conforme o terreno no qual se deveria combater.
Soldado do Segundo
Regimento do Rio de Janeiro,
1786 (**)
No Brasil, as coisas foram mais ou menos pelo mesmo caminho. Apenas como ilustração, há um trechinho de Varnhagen no qual se descreve o uniforme usado na chamada "Guerra dos Mascates", ocorrida no início do século XVIII. Diz ele:
"Do traje dos nossos fuzileiros de então teremos perfeita ideia, dizendo que era com pouca diferença o dos mosqueteiros: calções e meias com sapato e fivela, sendo as fardas umas sobrecasacas agaloadas de mangas largas, e os chapéus de três bicos, dos quais um ficava para diante." (*)
Desnecessário é dizer que, daí por diante, os uniformes no Brasil seguiram, aproximadamente, o que era usual em outros  países ocidentais. Entretanto, por vezes, isso se mostrava inadequado ao combate em certos terrenos, como se evidenciou, em fins do século XIX, no conflito de Canudos. Euclides da Cunha, que acompanhou parte da Guerra no próprio local, observou que os soldados "do governo", estavam sempre em desvantagem, e que muito mais adequado era o vestuário de couro dos sertanejos, face às adversidades da caatinga. Menciona, primeiro, em Os Sertões, o problema decorrente do uniforme que então se usava no Exército:
"Soldados vestidos de pano, rompendo aqueles acervos de espinheirais e bromélias, mal arriscavam alguns passos, deixando por ali, esgarçados, os fardamentos em tiras."
Soldado de Cavalaria, 1841 (***)
Passa, depois, a explicar por que, em seu modo de ver, dever-se-ia copiar a indumentária dos vaqueiros sertanejos:
"O hábito dos vaqueiros era um ensinamento. O flanqueador devia meter-se pela caatinga, envolto na armadura de couro do sertanejo - garantido pelas alpercatas fortes, pelos guarda-pés e perneiras, em que roçariam inofensivos os estiletes dos xiquexiques pelos gibões e guarda-peitos, protegendo-lhe o tórax, e pelos chapéus de couro, firmemente apresilhados ao queixo, habilitando-o a arremessar-se, imune, por ali adentro."
E, como que adivinhando as objeções, acrescenta:
"Não seria, isso, excessiva originalidade. Mais extravagantes são os dólmãs europeus de listas vivas e botões fulgentes, entre os gravetos da caatinga decídua."
Desnecessário é dizer que a lição, no Brasil e no mundo, foi devidamente aprendida. Uniformes reluzentes, hoje? Só mesmo em museus e em desfiles militares.
 

  
(*) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 830
(**) Imagem editada para facilitar a visualização. O original, obra de José Corrêa Rangel, pertence ao acervo da Biblioteca Nacional.
(***) Imagem editada para facilitar a visualização. O original, obra de Joaquim Lopes de Barros, pertence ao acervo da Biblioteca Nacional.

2 comentários:

  1. Otima postagem.
    Voce me fez lembrar de quando montei o texto teatral
    O Judas em Sabado Aleluia,
    precisei estudar a vestimenta da Guarda nacional, foi ai e só ai
    que aprendi a diferença entre Exercito e Guarda Nacional.
    Adorei aqui e volto.
    Ja seguindo
    Bjkas

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    1. Obrigada! Não se esqueça, quando montar outras peças, de deixar um recadinho aqui, para os leitores de História & Outras Histórias. Há muita gente que ama teatro.
      Volte quando quiser, você é muito bem-vinda a este blog. Por favor, sinta-se à vontade para deixar seus palpites e ideias. Serão sempre bem recebidos. Abraço...

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