terça-feira, 18 de julho de 2017

Simão, um Herói Negro no Brasil Escravista

Foi em 9 de outubro de 1853: uma embarcação a vapor, que vinha do Rio Grande do Sul para o Rio de Janeiro com mais de oitenta pessoas a bordo, naufragou em meio a uma tempestade. Trágico, sim, mas poderia ser muito pior, não fora a audácia de um foguista chamado Simão. Excelente nadador, salvou a vida a nada menos que treze pessoas. Sua ação causou comoção nacional. É que num país escravista, como era então o Brasil, o herói do dia, ainda que de condição livre, era negro e africano.
Em sua primeira página, a edição de 18 de novembro de 1853 do jornal Marmota Fluminense trazia um poema que homenageava o cabo-verdiano Simão:

"Com mais de oitenta pessoas
Vinha o vapor brasileiro
- Pernambucana - em viagem
Para o Rio de Janeiro.

Por cima de verdes águas,
Deixara tranquila a barra 
do Rio Grande do Sul.
(...)
Eis que súbita rebenta
Procelosa tempestade
(...)
Soberbo o mar encrespado
Todo o navio alagou,
E das caldeiras o fogo,
Como de um sopro apagou!...
(...)
Salta o leme, e o barco à toa
Já sem rumo, e sem governo
Levado foi ao naufrágio
(...)
SIMÃO, um preto foguista,
Que no navio existia,
E de quem sequer o nome
Muita gente não sabia;

SIMÃO, que era marinheiro,
E de preto tinha a cor,
Natural de Cabo Verde,
Homem de força e valor;

Lança-se ao mar, e consigo, 
Leva uma comprida espia,
Que na praia a custo prende,
Segundo o caso exigia.

Cada qual busca salvar-se,
E salvar o que era seu;
Ninguém pelos mais arrisca
A vida que Deus lhe deu!

SIMÃO que, sendo já livre,
Podia o mesmo fazer,
Porque tinha, como os outros,
Uma vida que perder;

Para o vapor vai da praia
Nadando, gente buscar,
E dele à praia conduz
Náufragos... sempre a nadar!...

Assim, de treze pessoas
SIMÃO a vida salvou:
Quantos perigos não teve!
Quanto isto lhe não custou!
(...)
Se o que salva uma só vida
Tem prêmio, e título de glória,
O que treze vidas salva,
Que nome terá na história?
(...)"

Já na página 3, a mesma edição da Marmota Fluminense trazia a versão em prosa dos acontecimentos:
"O desgraçado acontecimento do naufrágio do Vapor Pernambucana fez aparecer, em 1853, um Herói, um Preto, que cheio de coragem e amor pela humanidade, lançou-se ao mar, não uma, mas muitas vezes, e arriscando em cada uma delas a vida, foi assim salvando a de quantos passageiros nele, e só nele tinham fitos os olhos! Isto é tanto mais louvável quanto, sendo ele Preto, todos aqueles a quem salvava eram Brancos, entrando neste número senhoras casadas, moças donzelas e crianças, a quem ele respeitava e animava cheio de confiança em si! Cansado já da luta, sentindo enfraquecidas as pernas do resfrio do mar, estendeu-as uma vez sobre a praia, e esfregando-as com areia, pôde assim restabelecer a circulação do sangue e conseguir seus desejos, até onde puderam chegar suas forças, e lhe permitiram as circunstâncias!"
Talvez as palavras do jornal soem algo preconceituosas aos leitores de hoje; lembremo-nos, todavia, de que a publicação, assim como o acontecimento a que se refere, vêm de 1853, quando o Brasil era um Império escravista, e mesmo o tráfico de africanos fora há pouco abolido em definitivo (¹). Mas, para fazer justiça à redação do jornal, dever-se-ia reconhecer que, ao mencionar o fato de que Simão era negro, enquanto brancas eram as pessoas que ele salvou, propunha-se à Nação, indiretamente, o debate de um assunto que era verdadeiro tabu no Brasil, e que sobreviveu à Lei Áurea: a questão do preconceito racial.
No dia 7 de julho de 1866 (²), Elizabeth Cary Agassiz anotou em seu diário de viagem, depois haver estado no Museu de Belas-Artes do Rio de Janeiro:
"A única tela interessante da galeria atrai a atenção muito menos pelo mérito do autor do que pelas circunstâncias cuja recordação perpetua. É o retrato de um negro que, durante um naufrágio nas costas do Brasil, salvou, com risco de vida, grande número de passageiros; já havia conduzido à praia vários deles; disseram-lhe que a bordo haviam ficado ainda duas crianças; ele se atirou mais uma vez às ondas e conseguiu trazê-las para a praia (...)." (³)
Recordando que, nas semanas seguintes ao naufrágio, o retrato de Simão, impresso em uma gráfica, foi distribuído e até oferecido como presente no Rio de Janeiro, somos levados à conclusão, meus leitores, de que a façanha do foguista cabo-verdiano forçou o Brasil a refletir sobre a condição dos negros e, por extensão, dos escravos na sociedade. O movimento abolicionista que ia, aos poucos, tomando forma, ganhava uma situação concreta, a partir da qual era possível argumentar, ao menos em termos humanitários. Aspectos políticos e econômicos seriam reforçados após a conclusão da guerra contra o Paraguai.

(1) Lei Eusébio de Queirós, 1850.
(2) Quase treze anos após o naufrágio, portanto.
(3) AGASSIZ, Jean Louis R. e AGASSIZ, Elizabeth Cary Viagem ao Brasil 1865 - 1866
Brasília: Senado Federal, 2000, p. 435

4 comentários:

  1. Que linda história da História, Marta. Feliz por existirem, em cada geração, pessoas como esse Simão, com um altruísmo alheio a condições.
    P.S. Que raio de nome "Marmota Fluminense"

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    1. Também acho incrível a história de Simão. Temos visto gente com a mesma capacidade de ir além das barreiras étnicas e/ou culturais, ajudando vítimas de atentados que, nos últimos tempos, estão tornando este planeta um pouco pior.
      Quanto ao jornal, era comum, na época, dar títulos divertidos às publicações. Não sei o motivo exato, mas desconfio que funcionava como estratégia de marketing rsrsrssss...

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  2. Olhando para a história do Simão, direi que é nos momentos de necessidade que se conhece verdadeiramente a índole das pessoas, seja qual for a sua raça. No caso do Simão, atendendo à época, ele e os seus tinham que mostrar muito mais que os outros.

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    1. Pensei duas vezes antes de usar a palavra "herói" no título deste post, porque ela anda tão vulgarizada, que é aplicada até para quem marca um gol numa partida de futebol. Não tenho nada contra o futebol, até gosto muito dele, mas entendo que Simão é que foi herói, na mais justa acepção do termo.

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