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segunda-feira, 19 de agosto de 2024

A Guarda Nacional no Império do Brasil

Detalhes de uniformes
da Guarda Nacional (¹)
A Guarda Nacional foi criada por lei de 18 de agosto de 1831 - no Período Regencial, portanto. Durou enquanto o Brasil foi Império e até o começo da terceira década do Século XX. Aqui trataremos apenas de sua existência no Império do Brasil.
Era formada pela elite rural e por profissionais urbanos, gente que se supunha leal ao governo e com quem se poderia contar em caso de alguma revolta, uma preocupação que não era descabida, uma vez que o Período Regencial caracterizou-se por rebeliões em vários pontos do Império. No entanto, a Guarda Nacional somente era posta em ação em casos de emergência. A despeito disso, considerava-se uma honra pertencer a ela, e sua oficialidade tinha orgulho em estar presente em eventos públicos. Tomem-se, como exemplo, as celebrações pelo aniversário do imperador D. Pedro II na cidade de São Paulo em 2 de dezembro de 1852, noticiadas no jornal Aurora Paulistana:
"O aniversário do nosso ínclito monarca foi no dia 2 do corrente brilhantemente solenizado com parada da Guarda Nacional, Te Deum e cortejo, a que assistiu um numeroso concurso de cidadãos. À noite teve lugar no palácio do governo um esplêndido baile dado pelo excelentíssimo presidente da Província. [...]" (²)
Quem se alistava e era admitido na Guarda Nacional não podia, simultaneamente, pertencer ao Exército. Curiosamente, essa pode ter sido uma prática de controle sobre militares, por ser a Guarda Nacional, na visão política da época, uma força a favor do Império, na eventualidade de alguma sublevação no Exército (³). 
Joaquim Floriano de Godoy, senador do Império, escreveu, sobre a Guarda Nacional na Província de São Paulo:
"Há mais a Guarda Nacional qualificada em força de 60 mil homens, dividida em comandos superiores por todas as comarcas da Província [de São Paulo].
O serviço, porém, da Guarda Nacional, só é feito em circunstâncias especiais.
[...]
Os comandantes superiores da Guarda Nacional, assim como os oficiais do estado-maior, comandantes de corpos, são de nomeação do governo imperial. Porém do posto de capitão para baixo são nomeados pelo presidente da Província." (⁴) 
Portanto, a nomeação de oficiais da Guarda Nacional era, em tese, uma garantia de que os escolhidos seriam pessoas de lealdade inquestionável à monarquia que governava o Brasil. Nesse cenário, foi uma força de participação importante em vários momentos, especialmente durante a chamada Guerra do Paraguai (1864 - 1870). 

(1) Cf. BARROSO, Gustavo (org.). Uniformes do Exército Brasileiro 1730 - 1922. Rio de Janeiro / Paris: 1922, p. 78. Desenhos de J. Washt Rodrigues. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) AURORA PAULISTANA, Ano II, nº 83, 7 de dezembro de 1852. Transcrito na ortografia atual.
(3) Incidentes ocorridos durante o Primeiro Reinado, envolvendo mercenários estrangeiros, deram motivo a preocupações e fizeram com que líderes políticos acreditassem que a possiblidade de uma revolta dessa natureza não era mera fantasia. 
(4) GODOY, Joaquim Floriano de. A Província de S. Paulo. Rio de Janeiro: Typ. do Diário do Rio de Janeiro, 1875, p. 84.


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sexta-feira, 21 de junho de 2024

Beribéri

Em consequência da péssima alimentação, muitos soldados brasileiros que lutaram na Guerra do Paraguai foram acometidos por beribéri, doença de carência da vitamina B1


Durante os anos 1864 a 1870 ocorreu aquela que, no Brasil, é conhecida como "Guerra do Paraguai", ocasião em que, mais que enfrentar e expulsar os invasores de seu território, coube ao Brasil a tarefa de lutar contra as próprias deficiências.
Os transportes terrestres eram ainda muito precários, assim como as comunicações, principalmente no interior do país. Na prática, uma evidência de que o Brasil era, em grande parte, desconhecido de seus habitantes, e mesmo de seus governantes. Em consequência, o deslocamento de tropas e a entrega de suprimentos a elas destinados, sem a necessária celeridade, tornavam o planejamento da guerra, já bastante criticado, ainda mais difícil. Na marcha pela Província de Mato Grosso, por exemplo, verificou-se quanto eram falhos os mapas disponíveis. Sem alimentação adequada, os militares, indígenas carregadores, tropeiros e mesmo mulheres e crianças que os acompanhavam, viram-se em extremos de fome e doença. Não deve causar surpresa, portanto, que, para escapar ao recrutamento, a população adotasse expedientes curiosos, até cômicos. Poucos, dentre os "voluntários da Pátria", eram, de fato, voluntários. A maioria fora recrutada à força.
Nas memórias de Alfredo de Escragnolle Taunay, que participou da guerra como jovem oficial do Exército brasileiro, encontramos esta descrição das provações enfrentadas pela coluna que, percorrendo o centro-oeste do país, passava fome à espera de suprimentos que nunca os alcançavam:
"A penúria de víveres era tal e a tão desesperado estado se chegara, que a alimentação geral era quase exclusiva de frutos do mato, sobretudo jatobás, cuja abundância tomava visos de providencial. E as autoridades mandavam fazer pelos soldados colheitas enormes de sacos, que depois eram distribuídas como se fossem rações determinadas pela lei!... O que sofreu a mísera coluna, embora acostumada à miséria, pela estada no Coxim, ultrapassa quaisquer limites." (¹)
Como consequência de tal "dieta", a soldadesca foi acometida de uma doença de carência conhecida como beribéri, resultado da falta de vitamina B1 (²). Continua o relato de Taunay:
"Que enfermidade era, afinal, essa? Nada mais nada menos do que o "beribéri", de que ainda não se tinha até então falado em todo o Brasil, e que se tornou tão conhecido, sem perder, contudo, por isso, o caráter de gravidade, que o distingue." (³)
Surpreendente é que se esperasse que, assim doentes, soldados e oficiais estivessem prontos para o combate: 
"[...] Como não apanhar "beribéri" em tais condições? Fora até fisiologicamente absurdo" (⁴). 
De longe, no Rio de Janeiro, capital do Império, aguardavam-se notícias da guerra, e os jornais, avidamente, esperavam por cartas dos combatentes, que destacassem atos de heroísmo espetaculares, muito úteis quando se pretendia uma explosão de sentimentos patrióticos. O dia a dia do conflito exigia, porém, outro tipo de coragem, capaz de perseverar em meio às maiores adversidades, mas não muito interessante se a ideia fosse vender jornais ou despertar a animosidade popular.

(1) TAUNAY, Alfredo de Escragnolle. Dias de Guerra e de Sertão. São Paulo: Melhoramentos, 1927, p. 89. 
(2) Tiamina.
(3) TAUNAY, Alfredo de Escragnolle. Op. cit., p. 90.
(4) Ibid., p. 97. 


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segunda-feira, 10 de junho de 2024

Batalha do Riachuelo

À data de 11 de junho de 1865 corresponde a batalha do Riachuelo, no contexto do conflito que, no Brasil, é chamado Guerra do Paraguai (¹). Essa batalha foi assim descrita pelo Barão de Tefé (²), que comandava a canhoneira Araguary:
"Uma pequena esquadra brasileira de nove navios de madeira - lançada a centenas de léguas da pátria para operar em um rio crivado de escolhos perigosos e dominado pelo inimigo - bateu-se de sol a sol, e derrotou por completo a esquadra inimiga, composta de quatorze unidades.
Ao escurecer, o combate cessou por falta de combatentes.
O Brasil perdera totalmente um navio e trezentos homens, mas o Paraguai ficara sem a sua esquadra e perdera dois mil homens." (³)
Mas essa foi apenas uma batalha. A guerra, propriamente, estava apenas começando. Nela, os soldados enfrentariam as dificuldades naturais do ambiente em que tinham de lutar, as doenças, a falta de suprimentos. Ao Brasil, foi ocasião para tomar conhecimento de si mesmo: muitos lugares por onde as tropas precisaram se deslocar eram quase desconhecidos, e não havia deles mapa algum. Em tais condições, estabelecer uma rota para entrega regular de suprimentos e armas era quase impossível. 
As perdas foram enormes, dos dois lados, mas, certamente, maiores do lado paraguaio, porque os países envolvidos eram desiguais em recursos. Para o Brasil, o fim da guerra trouxe novidades no panorama interno. Militares, até então pouco expressivos na vida política, ganharam espaço e passaram a ser vistos com mais respeito, como veteranos de guerra que eram. Muitos ex-escravos lutaram entre as forças brasileiras no conflito. Seu retorno do cenário de guerra para a vida civil acendeu com mais força o debate sobre o fim da escravidão, um tema que se arrastava há muito tempo e que, já tarde, precisava ser resolvido. Finalmente, os anos da guerra foram marcados por reflexões quanto à capacidade do Império em lidar com os problemas do Brasil. Quem mais, no Continente Americano, era monarquia? Não deveria o Brasil, também, ser uma República, como todos os seus vizinhos? 
As décadas seguintes veriam esses debates em crescimento. A escravidão chegou formalmente ao fim em 13 de maio de 1888; proclamou-se a República em 15 de novembro de 1889. 

(1) 1864 - 1870.
(2) Antônio Luís von Hoonholtz.
(3) HOONHOLTZ, Antônio Luís von. A Batalha Naval do Riachuelo. Rio de Janeiro: Garnier, 1865, p. 147.


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quinta-feira, 26 de maio de 2022

Buriti foi alimento para soldados brasileiros na Guerra do Paraguai

Buritizeiros com cachos de frutos
Uma das grandes dificuldades enfrentadas por tropas brasileiras durante a Guerra do Paraguai foi a falta de suprimentos indispensáveis - alimentos, por exemplo. Não havia mapas acurados para orientar o comando, tampouco havia estradas para uma remessa fácil de víveres. Em um processo penoso, a guerra forçou o Brasil a tomar conhecimento de si mesmo. Na ausência da ração habitual (ou que deveria ser habitual), soldados recorreriam à caça e coleta de frutos. Pães de jatobá, por exemplo, foram frequentes na campanha de Mato Grosso.
O buriti (¹), comum no Centro-Oeste, foi também utilizado. Alfredo de Escragnolle Taunay, um jovem oficial na época da guerra, explicou: "Do buriti extrai-se um suco sacarino, usado, depois da fermentação, como bebida e do qual se pode tirar excelente açúcar, como o fez um oficial das forças. Os frutos dão em compridos cachos; são ovoides, com casca rija, amarelo avermelhada, escura e brilho metálico, todos cobertos por escamas romboides, que encobrem uma polpa pouco saborosa, ainda quando preparada com açúcar." (²)
Os soldados não eram muito exigentes quanto ao sabor daquilo que conseguiam encontrar para comer, ainda que, ante a expectativa de morrer de fome, chegassem, de acordo com Taunay, a causar transtornos para a dieta rotineira das araras: "[...] Em épocas de fome, de muito serviram aos soldados que procuravam não só os cocos [de buriti], em concorrência com as araras, como em razão do miolo que chupavam com grande gosto" (³).
Havia gado pastando à solta na região, mas a insuficiência de cavalos tornava difícil a captura de algum animal para abate. Às vezes, porém, uma pontaria feliz resultava em um churrasco preparado toscamente, do qual, como se pode facilmente deduzir, em pouco tempo nada restava.

(1) Fruto de uma palmeira, o buritizeiro (Mauritia flexuosa).
(2) TAUNAY, Alfredo de Escragnolle. Cenas de ViagemRio de Janeiro: Typographia Americana, 1868, p. 152.
(3) Ibid., pp. 152 e 153.


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terça-feira, 19 de outubro de 2021

A pelota, barquinho improvisado, foi usada na travessia de rios durante a Guerra do Paraguai

Em 1º de maio de 2012, quando este blog tinha pouco mais de dois anos de existência, postei um texto sobre a pelota, barquinho muito simples, até improvisado, que se empregou durante largo tempo no Brasil para a travessia de rios. Ia nele uma pessoa que não queria entrar na água, fosse por não saber nadar ou para não molhar a roupa. Podiam ir também vários objetos e mercadorias. 
Com a pelota não eram usados remos: um bom nadador entrava na água e, com auxílio de uma corda, conduzia a curiosa embarcação de um lado a outro do rio, conforme explicou o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, ele próprio transportado em uma delas: "A pelota, nome dado a estas pirogas, é simplesmente um couro cru ligado nas quatro pontas e que, desse modo, forma um barco que se pode confundir, pela aparência, com as sacolas de papel onde se põem biscoitos. Enche-se a pelota de objetos, ata-se nela uma corda ou tira de couro; um homem, a nado, prende a corda entre os dentes e faz passar assim a piroga. [...]" (¹).
Dito assim, os leitores poderão pensar que pelotas foram usadas até as primeiras décadas do Século XIX, e não além. Nada disso! De acordo com o Visconde de Taunay (²), estiveram em uso por tropas brasileiras, na Província de Mato Grosso, durante a Guerra do Paraguai: 
"Esta corixa (³) dava nado em toda sua extensão, obrigando-nos a fazer pelotas, que deviam transportar nossas cargas. Nada mais expedito: um couro bem seco, levantado nas quatro pontas, que se ligam por cordéis ou tiras, recebe os pesos que são solidamente amarrados, de modo a formarem um sistema imóvel, em cima do qual assenta-se o passageiro, como melhor puder. Depois de lançada à água com todo o cuidado, atira-se um nadador à frente da pelota, levando entre os dentes a cordinha que a guia, ao passo que um segundo ajuda a mantê-la na boa direção, empurrando-a de quando em quando." (⁴)
Não devia ser uma viagem confortável. Era uma solução simples, todavia, para as tropas que haviam sido enviadas, com pouquíssimos recursos, ao combate em uma região para a qual não havia mapas confiáveis, sem estradas, muitas vezes até sem trilhas, por rústicas que fossem, e cujas condições naturais - relevo, hidrografia, vegetação, clima - eram quase desconhecidas.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 327.
(2) Era um jovem oficial quando participou da Guerra do Paraguai.
(3) No vocabulário local, designava um canal que dava acesso a um rio.
(4) TAUNAY, Alfredo de Escragnolle. Cenas de Viagem. Rio de Janeiro: Typographia Americana, 1868, p. 37.


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terça-feira, 4 de maio de 2021

Tiros de canhão para combater uma epidemia de varíola

Foi no ano de 1867. Estava em curso a chamada Guerra do Paraguai (¹). Tropas brasileiras que retornavam de Corumbá para Cuiabá, a capital da Província de Mato Grosso, trouxeram consigo a terrível varíola. No dizer de João Severiano da Fonseca, médico veterano da Guerra do Paraguai, "a varíola foi desconhecida ou pelo menos nunca se propagou na Província [de Mato Grosso] até o ano de1867 [...]; mas, naquele ano, desenvolvendo-se essa enfermidade em Corumbá, de pronto estendeu-se a Cuiabá e aos outros povoados, exceção feita, dizem, de S. Luís de Cáceres, onde se estabelecera um rigoroso cordão sanitário" (²).
De acordo com Joaquim Ferreira Moutinho, português que residiu por dezoito anos em Cuiabá e foi testemunha ocular desses acontecimentos, em 1º de julho foi hospitalizado um soldado que, em seguida, morreu, e "todas as pessoas que se comunicaram com os recém-chegados caíram logo com a mesma moléstia, e o número foi gradualmente crescendo [...]" (³). A doença espalhou-se rapidamente entre os moradores de Cuiabá, que, em sua maioria, não eram vacinados. Por que não, se a vacinação era praticada há muito tempo no Brasil? Pode-se facilmente imaginar o argumento: "Bem, nunca tivemos varíola por aqui; por que deveríamos estar preocupados com vacinação?" 
A consequência dessa "lógica" foi absolutamente desastrosa. "A cidade tomou um aspecto indescritível", conforme expressão de Ferreira Moutinho, e "de todas as casas via-se saírem cadáveres, que eram conduzidos em redes para os campos, e de muitas fecharam-se as portas, porque os seus habitantes haviam perecido, desde o chefe da família até o último escravo!" (⁴). Nas palavras do mesmo autor, "[...] de uma população de doze mil almas, mais da metade sucumbiu, e parte levantou-se disforme" (⁵).
Os poucos vacinados que lá estavam mal podiam prestar algum socorro para conforto dos doentes. Não havia recursos médicos realmente efetivos contra a enfermidade. No entanto, parece que o comandante das armas de Cuiabá teve uma ideia brilhante. Vejam, leitores, o que contou Joaquim Ferreira Moutinho, mas leiam com atenção, porque é notável:
"O comandante das armas, nos dias mais lutuosos, mandou colocar peças de artilharia em diversas ruas da cidade, e dar fogo de manhã e à tarde.
Ignoramos também o fim dessa medida.
Pretenderia afugentar a epidemia com tiros de canhão? Esse pretendido recurso higiênico foi a causa de tornar-se mais grave o estado de muitos enfermos, pois ao primeiro estampido levantavam-se em delírio e procuravam fugir, julgando que eram os paraguaios que se achavam na cidade." (⁶) 
Moutinho não soube explicar para que serviam os tiros de canhão. Também desconheço seu propósito terapêutico. Alguém saberia dizer?

(1) 1864 - 1870.
(2) FONSECA, João Severiano da. Viagem ao Redor do Brasil 1875 - 1878 Volume 1. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro e C., 1880, p. 186.
(3) MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Notícia Sobre a Província de Mato Grosso. São Paulo: Typographia de Henrique Schroeder, 1869, p. 100.
(4) Ibid., p. 102.
(5) Ibid., p. 104.
(6) Ibid., pp. 105 e 106.


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quinta-feira, 30 de maio de 2019

Pães de jatobá na Guerra do Paraguai



A alimentação típica de quase todas as culturas inclui algum tipo de pão. Variam os modos de preparo e, com eles, os ingredientes utilizados, que podem ser trigo, centeio, milho, cevada, aveia - a lista é quase infinita, admitindo fatores como disponibilidade, grau de desenvolvimento tecnológico e a criatividade dos padeiros. Foi assim na Antiguidade, continua a ser assim até hoje.
Contudo, leitores, em minha opinião, um dos mais inusitados ingredientes para panificação foi citado por Alfredo d'Escragnolle Taunay que, na condição de veterano da Guerra do Paraguai (¹), foi buscar nos arquivos da memória este relato, que revela o uso por soldados de nada menos que jatobá para fazer pães, quando a falta de suprimentos ameaçava a sobrevivência da tropa:
"Todo expedicionário de Mato Grosso tem obrigação de olhar com reconhecimento para essa árvore [o jatobá], pois foram seus frutos providencialmente de uma profusão espantosa, que durante muitos dias, exclusivamente sustentaram a coluna brasileira, quando ela, em maio e junho de 1866, achou-se, depois de chuvas extraordinárias, retida e ilhada no rio Negro, bem no meio dos pantanais que medeiam entre Coxim e Miranda.
Quando faltava a parca distribuição da simples ração de carne, metiam-se os soldados pelos cerrados inundados e de lá voltavam com sacos e sacos de vagens de jatobá. Da massa faziam bolos e pãezinhos, que, se não eram saborosos, pelo menos mitigavam a fome e impediam a morte à míngua. O abuso, porém, produziu logo obstruções e várias qualidades de moléstias." (²) 
Ainda hoje não é incomum o uso da polpa de jatobá na culinária regional do Centro-Oeste brasileiro, mas a questão, aqui, é que os soldados usavam a polpa das vagens de jatobá para preparar comida, não porque quisessem, mas porque não tinham outro recurso para sobreviver. Indiretamente, o relato de Taunay remete a um dos aspectos mais dramáticos da guerra que, no Brasil, é chamada "do Paraguai": a situação miserável enfrentada pelas tropas, devido à ineficiência na remessa de suprimentos.

(1) 1864 - 1870.
(2) TAUNAY, Alfredo d'Escragnolle. Goyaz.


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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Campos de batalha

"Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, já se viu regado de sangue: já sobre ele se ouviram gritos de combatentes, ânsias de moribundos, estridor de habitações incendiadas, sibilar de setas, o estrondo de máquinas de guerra. Claros sinais de que aí viveram homens; por que é com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os sítios que escolheram para habitar na terra."
Alexandre Herculano, Lendas e Narrativas 

Frequentemente associados a heroísmo, patriotismo, coragem, os campos de batalha já foram exaltados em obras de arte - principalmente em pinturas - mas também em música, dos mais diversos gêneros, e na literatura. Essas expressões são, quase sempre, resultado da visão dos vencedores. Afinal, uma obra de arte para valorizar a derrota seria pouco provável. 
Os assírios demonstraram uma enorme competência em retratar cenas de guerra em relevos que, graças a escavações arqueológicas, são hoje perfeitamente conhecidos. É o caso do exemplo que se vê abaixo (¹):

Exército assírio perseguindo inimigos

Vencedores, vencidos, prisioneiros, gente decapitada, empalada... A realidade nua e crua, recheada do sadismo dos conquistadores. Mas, um dia, os assírios também foram derrotados. Uma coligação de caldeus, medos e, provavelmente, outros povos mais, arrasou Nínive, a orgulhosa capital assíria, em 612 a.C. - pode-se bem imaginar como foi a vingança.
Outro cenário de guerra notável da Antiguidade foi o de Zama, no norte da África, onde, no ano 202 a.C., romanos e cartagineses se enfrentaram. Os romanos venceram. Políbio de Megalópolis (²) deixou-nos uma descrição do campo de batalha:
"O campo entre os exércitos ficou coberto de sangue, mortos e feridos, trazendo a Cipião um grande problema, uma vez que os feridos que se revolviam no próprio sangue e a confusão de armamento e de cadáveres dispersos tornavam a passagem quase intransponível às tropas que, em formação, aguardavam sua vez de entrar em combate." (³)
Panorama digno de um filme de terror? Na Antiguidade ou nos tempos medievais, um campo de batalha não era, como regra, muito diferente disso. Mas vamos mudar de cenário, no tempo e no espaço. Passemos ao Brasil Colonial.
De acordo com Pero de Magalhães Gândavo (⁴), em seu Tratado da Terra do Brasil, um campo de batalha entre indígenas tinha este aspecto:
"As armas com que pelejam são arcos e flechas [...], e assim parece coisa estranha ver dois, três mil homens (⁵) nus duma parte e doutra com grandes assobios e grita flechando uns aos outros; e enquanto dura esta peleja nunca estão com os corpos quedos, meneando-se de uma parte para outra com muita ligeireza, para que não possam apontar nem fazer tiro em pessoa certa; algumas velhas costumam apanhar-lhes as flechas pelo chão e servi-los enquanto pelejam."

Combate entre indígenas (⁶)

Durante o Império, a guerra mais importante foi, como se sabe, aquela que no Brasil é chamada a "Guerra do Paraguai". Do confronto conhecido como Batalha do Riachuelo há uma descrição feita pelo combatente Antônio Luís von Hoonholtz, Barão de Tefé:
"Que espetáculo desolador!
Por toda a parte o rio estava coalhado de destroços e de gente que aparecia e desaparecia acarreada pela violência da correnteza." (⁷)
Termino, já nos dias da República, com esta descrição, obra de Euclides da Cunha (⁸) em Os Sertões, do local do último confronto em Canudos, uma guerra civil que monopolizou as atenções em 1897:
"Sabia-se de uma coisa única: os jagunços não poderiam resistir por muitas horas. Alguns soldados se haviam abeirado do último reduto e colhido de um lance a situação dos adversários. Era incrível: numa cava quadrangular, de pouco mais de metro de fundo, ao lado da igreja nova, uns vinte lutadores, esfomeados e rotos, medonhos de ver-se, predispunham-se a um suicídio formidável. Chamou-se aquilo o "hospital de sangue" dos jagunços. Era um túmulo. De feito, lá estavam, em maior número, os mortos, alguns de muitos dias já, enfileirados ao longo das quatro bordas da escavação e formando o quadrado assombroso dentro do qual uma dúzia de moribundos, vidas concentradas na última contração dos dedos nos gatilhos das espingardas, combatiam contra um exército."
Não esperem, leitores, que eu defenda aqui um pacifismo ingênuo e unilateral. Guerras, às vezes, são mesmo inevitáveis. Mas não há dúvida de que o mundo passaria melhor sem elas. Enquanto isso não acontece, novas e mais eficientes armas de destruição em massa são desenvolvidas, a indústria bélica triunfa e move parte considerável da economia mundial, e vidas humanas - ora, quem se importa com elas? - vidas humanas fenecem, sob o pressuposto do serviço à pátria, e até em nome da religião. A cada nova guerra, este planeta fica um pouco pior, ambiental e moralmente. Um completo exercício de racionalidade e inteligência às avessas. 

(1) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(3) O trecho citado da História de Políbio foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) c. 1540 - 1580.
(5) É possível que Gândavo tenha exagerado no número, ainda que batalhas com exércitos indígenas tão numerosos não possam ser descartadas, supondo várias aldeias coligadas.
(6)THEVET, André. Les Singularitez de la France Antarctique. Paris: Maurice de La Porte, 1558. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(7) HOONHOLTZ, Antônio Luís von (Barão de Tefé). A Batalha Naval do Riachuelo. Rio de Janeiro: Garnier, 1865, p. 45.
(8) 1866 - 1909.


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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Algumas causas de doenças e morte entre militares brasileiros na Guerra do Paraguai

Recrutamento militar compulsório não é e nunca foi uma coisa simpática. Não seria preciso que fosse compulsório se a maioria das pessoas em idade militar comparecesse voluntariamente. Mas, pela época da Guerra do Paraguai (¹), o recrutamento era motivo de pânico. Na iminência de ir à força para a guerra, havia rapazes que se escondiam no mato, e mesmo aqueles que se submetiam a alguma mutilação que os incapacitasse para o combate. 
Não pensem, leitores, que tudo isso era devido a alguma ideologia pacifista. O recrutamento em si era brutal, em particular quando se tratava de arrastar indígenas para compor as forças armadas. Vejam este relato feito por Elizabeth Cary Agassiz no final de 1865:
"Tivemos esta manhã uma triste prova da brutalidade com que aqui se procede ao recrutamento. Bem nos haviam dito! Três índios, que foram presos em Pedreira, e que desde alguns dias aguardavam ocasião de serem enviados para Manaus, foram trazidos para bordo do nosso navio. Esses infelizes tinham as pernas presas num grosso barrote de madeira, contendo orifícios que mal davam para deixar passar os tornozelos." (²)
O fato de que a mesma Elizabeth Agassiz mencionasse que o comandante do navio tomou providências para melhorar a situação dos três indígenas em nada atenua o modo como haviam sido recrutados. Ora, não era apenas o medo de morrer em um campo de batalha que aterrorizava essa gente. Havia mais.
Os combates se mostravam árduos e, obviamente, havia baixas, mas eram as doenças e a falta de suprimentos para cuidados médicos e alimentação que mais contribuíam para infundir terror entre os recrutas. Será bom se considerarmos o que escreveu um combatente, o Barão de Tefé (³), comandante da canhoneira "Araguary" na Batalha do Riachuelo, ocorrida em 11 de junho de 1865:
"Termina hoje o mês mais glorioso para nossa esquadra em operações: o mês do Riachuelo!
Um mês de fogo, fome e peste!
Com efeito, desde o fim de maio [de 1865] que as febres palustres, a varíola e a colerina dizimam as nossas guarnições, e não serei certamente exagerado se afirmar que temos perdido mais gente de moléstias do que nos cinco combates: 25 de maio, 11, 13, 14 e 18 de junho." (⁴)
Depois, acrescentou:
"[...] Desde o 1º deste mês [de junho] estamos a meia ração. E qual é esta ração? Carne-seca ou bacalhau; feijão, farinha e arroz; café, açúcar mascavo e bolacha...
Alimentação suportável quando em bom estado, porém simplesmente repugnante depois de encerrada durante quatro meses em paióis onde a temperatura é impossível!
[...].
E nestas condições as poucas horas de repouso nos são disputadas pelos ferozes mosquitos que em nuvens compactas nos assaltam apenas adormecemos." (⁵)
Não duvido de que alguns de vocês, leitores, estejam considerando que Dante "pegou leve" ao descrever o Inferno. Veem, agora, por que motivo havia fugas desesperadas quando os recrutadores chegavam a uma localidade? Lembrem-se, porém, de que em 1865 a Guerra estava apenas começando. Iria até 1870.

(1) 1864 - 1870.
(2) AGASSIZ, Jean Louis R. et AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 317.
(3) Antônio Luís von Hoonholtz, primeiro-tenente na ocasião da Batalha do Riachuelo. Mais tarde receberia o título de Barão de Tefé.
(4) HOONHOLTZ, Antônio Luís von (Barão de Tefé). A Batalha Naval do Riachuelo. Rio de Janeiro: Garnier, 1865, p. 136.
(5) Ibid., p. 137.


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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A carruagem de Carlos Antonio López, governante paraguaio

⁴⁴Ildefonso Antonio Bermejo era espanhol de nascimento. Convidado por Francisco Solano López, a quem conheceu na Europa, chegou a Asunción como uma espécie de conselheiro político, especialmente para assuntos externos, no ano de 1855. Foi de mala e cuia, como diriam os antigos, levando consigo a jovem esposa que, diante do que viu logo à chegada, quase perdeu os sentidos. De qualquer modo, Bermejo lá permaneceu por cinco anos, tempo mais que suficiente para fazer muitas observações que resultaram na publicação de um livro intitulado Repúblicas Americanas - Episodios de la Vida Privada, Política y Social en la República del Paraguay.
Carlos Antônio López (⁴)
Em 1855 o Paraguai era governado por Carlos Antonio López, pai de Francisco Solano, este último mais conhecido, é certo, por ter governado o Paraguai durante os anos da guerra contra o Brasil. Não é disso, no entanto, que agora nos ocuparemos.
Ildefonso Bermejo, tendo feito suas formais apresentações ao governante paraguaio - oficialmente, o Paraguai era uma República - teve a oportunidade de ver como é que tão importante personagem se conduzia pelas ruas de Asunción. E conta:
"Achei à porta da residência presidencial uma carruagem, (...) à qual estavam presos seis cavalos, cujos arneses eram cordéis (...). Em cada cavalo dos três da esquerda ia montado um soldado da escolta; o primeiro levava um chicote tremendo, e os outros dois controlavam o bridão na mão esquerda, e com a direita empunhavam uma grande espada, que apoiavam sobre o ombro." (¹)
Não imaginem os leitores que, estando a carruagem à porta, saía o presidente e, sem mais cerimônias, tomava seu lugar. Nada disso. Continua Bermejo:
"Quando subi aos corredores da casa do presidente, este saía, vestido de capitão-general e, assim que chegou à porta, soaram as duas trombetas de sua escolta. (...) Os sons das trombetas da escolta estavam muito próximos e, mesmo quando o presidente me falava, eu não o entendia, impedido pelo ruído desagradável daquela marcha estrambótica que tocavam, até que o presidente, exasperado, voltou-se para os trombeteiros e exclamou: Quietos, demônios! Não veem que estamos conversando?" (²)
As surpresas do dia não tinham, porém, acabado. Diante de todo o exagero do cerimonial, Bermejo faria, ainda, uma hilária constatação, ao notar que, de uma janela, três ministros observavam a cena, loucos para correr às respectivas casas, tão logo o presidente se fosse:
"Não estavam ociosos, pois tinham sobre o peitoril da janela um montão de laranjas, que estavam chupando"!!! (³)

(1) BERMEJO, Ildefonso Antonio. Repúblicas Americanas - Episodios de la Vida Privada, Politica y Social en la República del Paraguay. Madrid: R. Labajos, 1873, p. 39.
(2) Ibid., p. 40.
(3) Ibid., pp. 39 e 40. As traduções desta postagem destinam-se ao uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(4) WASHBURN, Charles A. The History of Paraguay vol. 1. Boston: Lee and Shepard, 1871.


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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"Voluntários da Pátria" - não tão voluntários assim...

Quase toda a gente já ouviu contar histórias relacionadas ao recrutamento forçado dos chamados, curiosamente, "Voluntários da Pátria", ou seja, soldados que deviam servir na guerra "do Paraguai" (assim denominada no Brasil, é óbvio). São casos absurdos de pessoas que se mutilavam para não ir à Guerra, de outros que fugiam para o interior das florestas e até, dramaticamente, para os padrões de "honra masculina" da época, de rapazes que, não querendo fugir à devoção de hábito, compareciam aos ofícios religiosos em austeros trajes femininos... Todos esses artifícios eram justificados pelos horrores do cenário bélico, onde as doenças (cólera, particularmente), eram tão mortais quanto as armas.
Entretanto, no afã de fugir ao alistamento indesejado, valia até mesmo usar a força. Em uma publicação de 1868, a Folhinha de Modinhas Para o Ano Bissexto de 1868, na qual havia uma lista de acontecimentos relevantes dos anos precedentes, podem ser encontradas várias referências nesse sentido. Acompanhe comigo, leitor:

12 de novembro de 1866
"Uma escolta que conduzia à capital da província do Ceará dois recrutas ou guardas nacionais designados, foi atacada por oito mulheres, que lograram ficar em posse dos presos, depois de alguma luta e força física." (p. 165)

25 de novembro de 1866
"Por ocasião de dar-se uma busca na casa de Vicente Nunes, morador no bairro de S. Lourenço (província de S. Paulo), a fim de ser recrutado um filho deste, Nunes, armado de uma espingarda, resistiu à escolta, ferindo o guarda João Pires, sendo neste ato também ferido gravemente com um tiro que lhe disparou o guarda policial Roque Antônio de Moraes." (p. 166)

22 de março de 1867
"Foi assaltada às três horas da madrugada, por um troço de cerca de 200 pessoas, a cadeia de Pau d'Alho (Pernambuco), que continha uns 125 recrutas e guardas nacionais designados, além de alguns criminosos. Conseguindo desarmar a guarda da prisão e arrombando diversas portas, puseram em liberdade todos os presos." (p. 172)

Quase dá para dizer que, nessas circunstâncias, Pau d'Alho teve a sua Bastilha... Vale observar que a feroz resistência ao recrutamento é um forte indício do pavor que a Guerra inspirava, aliás justificadamente, como já assinalei.
Porém, no decurso do confronto (que durou de fins de 1864 até 1870), a necessidade de homens em armas era crescente e, nesse cenário, as estratégias governamentais para aumentar o número de recrutas eram também variadas. Podia-se substituir com escravos algum livre que fosse convocado, e um decreto imperial estipulou a alforria para os escravos que servissem na Guerra. O próprio Imperador D. Pedro II contribuiu para o fundo de manumissão de escravos que, libertos, seriam também encaminhados ao Exército, conforme a mesma Folhinha refere:

21 de fevereiro de 1867
"S. M. o Imperador deu cem contos de réis ao Ministério da Guerra para a manumissão de escravos que vão servir no exército em operações contra o Paraguai." (p. 170)

E, finalmente, não sendo suficientes esses meios, ou seja, o recrutamento forçado e a manumissão de escravos, restava ainda um expediente:

16 de fevereiro de 1867
"Chegaram da Ilha de Fernando à Corte 193 indultados para servirem na Guerra do Paraguai." (p. 170)

Provavelmente a "Ilha de Fernando" é uma referência à celebre colônia penal existente na principal ilha do Arquipélago de Fernando de Noronha (que funcionou desde o século XVIII até meados do XX). Portanto, vê-se que até mesmo prisioneiros foram indultados com a condição de também seguirem para o front. Ora, esse procedimento não era exatamente uma novidade em terras tupiniquins, já que a colonização se fez, em parte, por degredados que deixavam as masmorras lusitanas para viver no Brasil.
Isso tudo, leitor, nos conduz à seguinte constatação:  os "Voluntários da Pátria" não foram assim tão voluntários!


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